sábado, 1 de janeiro de 2011

A mulher sem piano


" La mujer sin piano", de Javier Rebollo (2010)

Drama espanhol, participou do Festival de Berlin em 2010.
Narra a história de Rosa, uma depiladora, que mora com seu marido, um taxista bronco. Rosa já beira os 50 anos, e até entao, viveu para servir ao seu marido e ao seu trabalho. Sua vida é completamente vazia, não se comunica com seu marido, com quem apenas troca olhares. Ela é pontual em tudo, sua vida se tornou mecânica. Estamos em 2003, um período histórico : o primeiro-ministro português se encontra com políticos estrangeiros, exigindo que Saddan Hussein entregue armas nucleares. Diante desse mundo aonde Rosa não se encaixa, definitivamente, ela resolve tomar uma atitude na vida. Rosa de olha no espelho, e o que vê é um futuro infeliz: sem amor, sozinha, velha. Após seu marido se deitar, Rosa bota uma peruca, pega sua bolsa e sai de casa. O filme então acompanha a peregrinação de Rosa pelas ruas noturnas de Madri. Ela pega um ônibus, sem destino. Dorme no ônibus.
Não esperem tipos ou situações Almodovarianas aqui. O universo de Rebollo é de total desilusão. O seu humor deriva do estranhamento, do patético da vida cotidiana, sem sentido.
Rosa perambula por hotéis, bares, até chegar na estação rodoviária. Rosa não sabe o que fazer da vida, apenas não quer retornar para casa. Ela costantemente liga para o celular de seu marido, que sempre cai na caixa postal. Ele nem ao menos percebe o sumiço dela, o que a deixa magoada.
Na estação, Rosa conhece Rodek, um jovem polonês, metade da idade de Rosa, que ela descobre ser um foragido da Polônia. Ele está devendo ao fisco, e apenas aguarda o momento de poder voltar ao País e ser preso. Rosa e Rodek mantém uma forte afeição um pelo outro, e juntos, passarão por várias situações dramáticas e divertidas, porém sempre tristes em suas vidas, não conseguem consumir nenhum atitude mais radical para a vida deles. Rodek é obssessivo, e adora consertar aparelhos quebrados. Rosa decide então viajar para a Polônia com Rodek. Mas o destino fala mais forte, e Rosa encontra-se num dilema.
A direção de Rebollo é bem interessante. A sua narrativa é bem lenta, alternando longos planos fixos com longos travellings descritivos. É um filme que flui devagar, com um olhar distanciado. Os atores estão excelentes, em especial Carmen Machhi, no papel de Rosa. Ela trabalha com muita inteligencia o dificil papel da frustrada Rosa, mas jamais deixando cair na caricatura da mulher infeliz. A fotografia é escura, favorecendo a vida noturna triste de Madrid menos efervescente. A trilha sonora é boa, o roteiro sempre surpreendente. Curioso aqui é a linguagem que Rebollo usa para a figuração. Geralmente, em qualquer filme, quando acaba a cena com a figuração, eles somem de cena. Aqui, Rebollo faz diferente. Quando acaba a cena do figurante, Rebollo estende a cena com a participação dele, deixando o protagonista de lado. É um recurso muito interessante, que reforça o vazio da vida das pessoas,que é o tema principal do filme.
A cena final é emblemática. Eu indiquei esse filme para vários amigos cinéfilos, mas a maioria não gostou. O que prova que essa deliciosa iguaria espanhola não atende a todos os espectadores.
O filme me lembrou bastante de " Shirley Valentine", por conta do tema da mulher insatisfeita com a vida e decide tomar um outro rumo, e de " Rumba", por conta da quase ausência de diálogos.

Nota: 8

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