sábado, 30 de setembro de 2017

O fantasma da Sicília

“Sicilian ghost story”, de Fábio Grasaddonia e Antônio Piazza (2017) Em 1993, a máfia siciliana assassinou com requintes de crueldade o filho de um ex-mafioso, agora informante da polícia. Giuseppe Matteo, 13 anos, após passar quase 2 anos em cativeiro, foi enforcado e teve seu corpo dissolvido em ácido e jogado no rio. "O fantasma da Sicília" narra essa cruel história real de forma realista e lúdica. Para amenizar a tragédia, o filme aposta no romance: Giuseppe, antes de ser sequestrado, tinha uma pretendente `a namorada, Luna, que lhe enviou uma carta de amor. Durante o cativeiro, Giuseppe fantasia seu namoro que na verdade nunca aconteceu. Mesma coisa Luna, que se deprime, se rebela e tenta o suicídio, assim que o desaparecimento de Giuseppe é confirmado e absolutamente ninguém dá bola. Muito foi dito da semelhança desse filme com os artifícios da ilusão em filmes como "O labirinto do fauno" ou "O espirito da colmeia". Através dos sonhos, os protagonistas se "libertam" de seu mundo cruel, e invadem um universo fantasioso, onde tudo é possível. A fotografia do filme, de Luca Bigazzi ( fotógrafo dos filmes de Paolo Sorrentino) é um escândalo de lindo, realçando tons de filme de terror. A direção dos 2 diretores é primorosa, apesar do ritmo extremamente lento e da duração aparentar ser bem maior do que é. O casal protagonista está ótimo e comove o espectador em cenas emocionantes. O filme abriu a Semana da Crítica no Festival de Cannes 2017.

As duas Irenes

“As duas Irenes”, de Fábio Meira (2017) Em 1991, o cineasta Polones Kristoph Kieslowsky exibiu a sua obra prima “ A dupla vida de Veronique”, um filme que fala sobre duplos que não se conhecem e bens e esbarram em momento algum do filme. Fábio Meira pega emprestado o mote do filme de Kieslowsky e também o nome de sua protagonista, Irene Jacob. A diferença é que aqui, as duas Irenes se encontram e tentam conviver com as diferenças. Ambientado no interior de Minas nos anos 60, “As duas Irenes” apresenta duas talentosas atrizes: Priscila Bittencourt e Isabela Torres. A primeira mora com suas duas irmãs e seus pais. O pai, Tonico (Marco Ricca), vive viajando. Irene descobre que ele tem vida dupla: outra esposa, e outra filha, de mesma idade e também chamada Irene. A primeira é rica, tímida e assexuada. A segunda, pobre mas sensual e atirada. Elas se encontram e tentam buscar o melhor da outra, até um desfecho onde as duas se igualam. Escorado com um elenco forte ( Susana Ribeiro, Teuda Bara, Inês Peixoto), o filme tem excelente fotografia e enquadramentos estilizamos, alguns referentes , de novo, a Kieslowsky ( o reflexo no ponteiro do relógio). O filme segue em ritmo lento e no final das contas, seu tema é a passagem da adolescência para a afaste adulta. Vale ser visto pelo belo trabalho do elenco e por referências ao Cinema, deixando claro o berço Cinefilo de seu Cineasta. O filme foi exibido na Mostra Geração do Festival de Berlin 2017.

Los Angeles por ela mesma

"Los Angeles plays itself", de Thom Andersen (2004) Extraordinário documentário sobre Los Angeles, narrado pelo Diretor Thom Andersen, em um tom monocórdico, enfatizando o cinza e a feiura arquitetônica da cidade mais Fotografada no mundo segundo o filme. Não é um documentário padrão: ele parecia uma poesia ou balada triste de um poeta sobre a sua musa, maltratada pelos filmes e por diretores que teimam em mostrar o pior da cidade. Obrigatório para Cinéfilos e para quem quer visitar Los Angeles, o filme apresenta cenas de centenas de filmes, a maioria obscuros, rodados desde o inicio do Séc 20, quando a cidade tinha outro nome, Ederdele. O filme narra a criação da cidade, o uso pejorativo do nome para a contração "L.A.". Amei saber que muitos filmes filmaram lá se passando por outros países: China, Suíça, Londres, simplesmente porque, com exceção da placa "Hollywood", a cidade não tem uma arquitetura característica, podendo se passar por qualquer lugar. Boa parte dos filmes citados, eu nunca havia ouvido falar. O texto também fala sobre a invasão dos imigrantes, o racismo contra chicanos e negros, e a visão apocalíptica da cidade através de filmes como "Blade Runner" e "Chinatown". Para ver e rever, o filme é um verdadeiro épico de quase 3 horas de duração.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Kingsman- O circulo dourado

"Kingsman- The golden circle", de Matthew Vaughn (2017) Diretor do "Kingsman" original, e também do 1o "Kick Ass", Matthew Vaughn fez dessa sequencia uma divertida e irreverente aventura, repleta de efeitos especiais e muita bizarrice, assemelhando-se aos desenhos animados de "Tom e Jerry" e " Papaléguas". Sao exemplos de desenhos violentos, e "Kingsman- O circulo dourado" tem muitas mortes grotescas, tão insanas que a gente acaba se divertindo. ou você acha que uma pessoa que é moída num grande moedor, e consequentemente, vira hambúrguer para ser devorado é para ser levado `a sério? E a pessoa responsável pelas mortes hiper violentas é a mega traficante Poppy, interpretada por uma sensacional Julianne Moore, se divertindo com uma persona mais malvada que o pior dos chefes da Yakuza. E para elevar `a enésima potência o grau de sandices divertidas, você já imaginou no Elton John, dando golpes mortais e lutando contra bandidos? Pois é, e as cenas com o famoso cantor inglês são antológicas. Acredite. O que chama atenção a essa filme é a verdadeira constelação de estrelas: além de Colin Firth e dos citados acima, tem Channing Tatum, Jeff Bridges, Emily Watson, Halle Berry e Pablo Pascal ( o Oberyn Martell de "Game of thrones'). O roteiro narra mais uma aventura dos Kigsman, uma espécie de James Bond ingleses. Dessa vez, Eggsy (Taron Egerton), maravilhoso) precisa lutar contra Poppy, uma traficante refugiada no Camboja, que implanta um veneno nas drogas que comercializa, tornando seus consumidores portadores de uma doença mortal. O filme dá uma cutucada severa no Governo americano de Donald Trump, e a sua política de erradicação de tudo o que ele considera lixo, entre eles, os drogados. As cenas de ação são divertidas, criativas, e como falei, parece tudo um grande desenho animado. Diversão garantida e passatempo de primeira linha.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

24 semanas

"24 wochen", de Anne Zohra Berrached (2016) Co-escrito e dirigido pela Cineasta alema Anne Zohra Berrached, "24 semanas" ganhou um Premio especial no Festival de Berlin 2016, onde ele competia oficialmente. O filme é um drama que discute um tema polemico: o aborto a partir do 6o mês de gravidez. Na Europa, é permitido abortar até o 6o mês de gravidez, uma vez que o feto ainda não tem consciência nem sente dor. Em alguns casos, de malformacao ou tipo especifico de doença, é possível abortar em prazos maiores do que o 6o mês. Astrid (Julia Jentsch, excepcional), é uma famosa comediante de sucesso, casada com o publicitário Markus. Eles vivem felizes, um típico casal bem sucedido. Eles tem uma filha pequena, e Astrid está grávida. No entanto, em um exame de utrassom, o casal descobre que o filho é portador da síndrome de down. Astrid reage mal, mas com o tempo, ela e o marido aceitam a idéia de assumir o filho, mesmo que familiares sejam contra. No entanto, para infelicidade de ambos, o bebe também possui uma doença coronária que fará com que ele precise ser operado do coração assim que nascer, não havendo garantias de que a operação seja bem sucedida. O casal precisa decidir mais uma vez se abortam ou não a criança. A grande sacada do roteiro é fazer da protagonista uma comediante de sucesso. Assim, o filme apresenta esse contraste entre momentos de extrema felicidade no palco, entretendo seu público, e a sua tragédia pessoal, assim que segue para as coxias. O filme não quer julgar os atos de sua protagonista. A história impõe situações que tornam a sua decisão uma verdadeira tragédia emocional. A performance de Julia Jentsch é brilhante, pois ela abrange muitas mascaras: alegria, tristeza, depressão, frustração, desespero, desamparo. Não é um filme fácil de se assistir: além do ritmo lento, a sua história com certeza trará reflexões sobre o tema do aborto.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O culto ao Chucky

"Culto of Chucky", de Don Mancini. O roteirista e Diretor Don Mancini foi quem escreveu o primeiro Chucky em 1988, que se chamava de "O brinquedo assassino" e foi dirigido por Tom Holland. Vários filmes depois, a franquia parece não ter fim. Agora com "O culto ao Chucky", Mancini esculhamba de vez o personagem. Não basta ter um Chucky, agora serão 4!!! E fora isso, ainda tem a Noiva de Chucky, ambos com as vozes de Brad Dourif e de Jennifer Tilly. Andy ( Alex Vincent, que interpreta o personagem desde o 1o filme, quando tinha 5 anos, e agora está com 34 anos!!) quer tentar salvar Nica (Fiona Dourif), presa em uma clinica psiquiátrica injustamente, acusada de ter matado toda a sua família no filme anterior. O que Andy não imagina, é que o Diretor da clinica resolve encomendar vários bonecos de Chucky como terapia para os seus pacientes. O filme infelizmente não faz juz ao personagem Chucky. O roteiro é fraco, apostando apenas em sucessão de mortes e personagens tolos. Mesmo as cenas de morte nem são divertidas, como eram as do primeiro filme. A franquia já se auto-parodia. Um exemplo: A personagem de Jennifer Tilly se apresenta para Nica como sua tia Valentine, e Nica diz: "Você se parece com a Jennifer Tilly". Um ou outro momento diverte pela tosquice, mas no geral, o filme é de verdade, mais do mesmo. Para quem assistir, existe uma cena pós-créditos.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Você e os seus

"Dangsinjasingwa dangsinui geot", de Hong Sang Soo (2016) O Cineasta sul coreano Hong Sang Soo possui uma incrível filmografia prolífica. Nos últimos anos, ele chegou a dirigir mais de 2 filmes por ano, a grande maioria, recebendo importantes prêmios em Festivais mundo afora. Com "Você e os seus", Hong Sang Soo levou o prêmio de Melhor direção em San Sebastian no ano de 2016. Todo cinéfilo já conhece a narrativa de Sang Soo, que continua a mesma em todos os seus filmes: zooms para descrever uma ação com mais detalhe, planos sequências, cenas ambientadas em restaurantes e bares e muita conversa regada `a bebidas alcoólicas. Ah sim, o mais importante: os seus filmes sempre falam sobre relacionamentos em crise. Sang Soo é considerado por muita gente como o Woody Allen da Asia. Em "Você e os seus", ele busca uma quebra na narrativa do roteiro, assim como já fez em " Certo agora, errado antes": dessa vez, tanto os os personagens, quanto o espectador, ficam em duvida sobre quem de fato é Mingjoon. Ela, uma jovem que namora Yongsoo, é constantemente vista bebendo em bares e flertando outros homens. Yongsoo dá um ultimato para ela, mas ela rompe o acordo. Irritado, Yongsoo acaba com o namoro, mas logo depois desiste e vai atrás dela. Somos apresentados a Mingjoon como sendo uma jovem que tem uma irmã gêmea, por isso todos a confundem, visto que as duas tem personalidades distintas. Mas será que essa informação procede? Será que ela não usa desse subterfúgio para se dar bem e poder namorar quem ela quiser, ser livre? O filme acaba e continuamos com a mesma questão? Quem afinal, é Mingjoon? A única certeza é de que a atriz Lee You-young está incrível no papel, construindo personalidades dispares. Ingênua, sedutora, extrovertida, introvertida. Tudo se resume a essa atriz sensacional, minimalista. Por ela, o filme vale muito ser visto. Song Soo disse que sua inspiração para o filme foi a obra prima de Bunuel, "Esse obscuro objeto do desejo", com 2 atrizes interpretando a mesma personagem. Aqui, a mesma personagem interpreta as "duas personagens".

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Você desapareceu

"Du forsvinder", de Peter Schønau Fog (2017) Complexo drama dinamarquês, baseado no best seller de Christian Jungersen. O filme foi indicado pela Dinamarca para representar o Pais na disputa de uma vaga para o Oscar de filme estrangeiro em 2018. O filme, estrelado por um trio de super atores dinamarqueses ( Trine Dyrholm, de "Festa em família" e "A comunidade", ambos de Thomas Vitemberg; Nikolaj Lie Kaas, de "Os idiotas", de Lars Von Triers, e Michael Nyqvist, de "O homem que não amava as mulheres", falecido em 2017), narra um drama em narrativa não linear, surpreendendo o espectador ao longo de sua narrativa. Mia ( Trine Dyrholm), narra o seu drama: professora, casada com Frederik (Nikolaj) , Diretor da escola aonde trabalha, e mae d eum adolescente, descobre que seu marido tem um enorme tumor benigno no cérebro. Esse tumor faz com que Frederik haja de formas estranhas, e tenha mudanças de comportamento. Um dia, a policia o prende, e todos descobrem que Frederik roubou 2 milhões da escola. Mia e o advogado contratado Bernard (Michael), querem provar que Frederik estava fora de sua sanidade mental quando praticou tal ato. Vale lembrar que o filme é todo narrado pelo ponto de vista de Mia: até onde poderemos confiar nessa narração? Muito bem interpretado com garra pelo trio de atores, o filme é um drama de tribunal, que tem também como tema os caminhos que o nosso pensamento e desejos podem tomar por conta de desvios de personalidade provocados por doenças. Li que o livro faz um questionamento cientifico baseado em neurociência. Para entendedores do tema, vale muito a pena assistir ao filme e levantar debates a cerca dos caminhos dos personagens. O filme é longo e tem ritmo bastante lento, mas o trabalho do elenco compensa assistir.

domingo, 24 de setembro de 2017

Dawn of the deaf

"Dawn of the deaf", de Rob Savage (2016) Excelente curta de terror, que homenageia o Mestre dos filmes de Zumbi George Romero. Pegando emprestado o título de um de seus filmes mais famosos, "Dawn of the dead', Rob Savage realiza um drama realista que termina em apocalipse zumbi. Acompanhamos a história de 4 surdos em Londres e a sua luta para provar que são seres humanos normais na sociedade. Uma delas inclusive sofre abuso sexual do pai. De repente, um barulho se faz soar, e todos que escuta se transformam em zumbis. Inventivo, bem interpretado, repleto de atmosfera e com uma direção concisa e criativa, "Dawn of the deaf", foi super premiado em vários Festivais, além de ter sido selecionado para o prestigiando Sundance. Vale muito assistir. https://vimeo.com/221591368

sábado, 23 de setembro de 2017

Lady Gaga: Five foot two

"Lady Gaga: Five foot two", de Chris Moukarbel (2017) O Documentário sobre vida e obra de Lady Gaga foi exibido com muito sucesso no Festival de Toronto 2017, e imediatamente exibido na Netflix, por ser um produto original do Canal de streaming. Não esperem um documentário comum sobre entrevistas e cenas de shows. Aqui, Gaga se expõe por inteiro, refletindo os seus passos na carreira e na vida pessoal. As inseguranças que sente, o envelhecimento, o acerto de contas com Madonna, a homenagem que ela faz `a sua tia Joanne que faleceu aos 19 anos de idade e que batiza o seu último cd, elogiado pela crítica. O filme também fala sobre a sua doença, que a deixa com o corpo repleto de dores ( e responsável pelo seu cancelamento do show que faria no Rock in Rio 2017), a sua obra de caridade "Haus of Gaga", que cuida de mulheres com câncer. Mas o momento mais sensacional é quando ela vai até uma Loja do Wal Mart para conferir se o cd "Joanne" está exposto `a venda, e os funcionários nem sequer sabem quem ´´Lady Gaga. Maravilhoso! Um belo documentário, obviamente um deleite para fãs, e para quem não é, vale como um registro da rotina de uma mega pop star que quer ser tratada e reconhecida como ser humano e mulher.

Três é demais

"Rushmore", de Wes Anderson(1998) 2o longa dirigido por Wes Anderson, em 1998 ( seu 1o filme se chama "Pura adrenalina", de 1996), é uma deliciosa dramédia ambientada nos anos 90 em Rushmore. Com um extraordinário trabalho do trio de atores principais ( Jason Schwartzman, na época com 18 anos e interpretando um garoto de 15; Bill Murray e Olivia Willians), o filme tem como tema o Amor e a responsabilidade que a vida e a idade impõem para o ser humano. Jason interpreta Max Fischer, um estudante criativo e inteligente que ingressou no prestigiado colégio Rushmore por conta de uma bolsa que ele ganhou ao escrever uma peça de teatro. No entanto, ele é um péssimo aluno. Ele coordena todas as atividades extra-curriculares que envolvem Arte e criação, inclusive escreve e dirige peças estudantis. Ele fica amigo de Herman (Murray), milionário, pai de 2 alunos que praticam bullying em Max o tempo todo. Herman enxerga em Max o jovem que ele sempre quiz ser: irresponsável, impulsivo, verdadeiro. Um dia, por um acaso, Max conhece a professora Rosemary (Willians), mas velha do que ele. Ela é viúva, e ele tenta de tudo para fazer ela entender que ele está apaixonado por ela. Mas ela acaba se apaixonando por Herman. O grande barato e a maior das delicias desse filme é ver o quanto Herman e Max são idênticos em postura, apesar da idade. Herman é uma projeção de Max, quando ele estiver mais velho e tiver perdido a sua ingenuidade e amor pela vida. Com uma trilha sonora matadora, a fotografia do eterno parceiro Robert D. Yeoman, Anderson já demonstrava total maturidade e os códigos que futuramente fariam os seus filmes serem cultuados pelos fãs: o rigor com a simetria, as panorâmicas, os tilts, e principalmente, aquele humor patético, extraindo o desastre que é o ser humano nos relacionamentos. Pasmo como nunca havia assistido a esse filme antes.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Pendular

"Pendular", de Julia Murat (2017) Coincidentemente, 3 filmes que estão no circuito possuem elementos em comum: além de "Pendular", "Mãe!", de Daren Aranofsky e "Como nossos pais" de Lais Bodansky falam sobre relacionamentos em crise, maternidade e Arte como símbolo e metáfora da própria vida irregular. Maria Ribeiro é design, Karen Ferro é dançarina e Jeniffer Lawrence é arquiteta e pintora de ambientes. Elas têm personalidade forte, mas questionam os atos de seus maridos que possuem desejos que não combinam com os seus. Desconfiança, ciúmes, ruptura. Como lidar com o outro? No caso dos filmes de Julia e Aranofsky as semelhanças são mais nítidas; o homem impõe um limite geográfico: daqui você não passa. Javier Barden tem uma sala privativa onde a mulher não entra. Rodrigo Bolzam divide o espaço onde trabalha e mora com a mulher com uma fita marcando território no chão. Ele é escultor e artista plástico. Ela é dançarina. Eles alugam um galpão localizado em um lugar ermo, que os amigos que visitam dizem ser perigoso. Mas a questão que o filme propõe é: o medo vem da geografia do bairro ou pelo isolamento do casal? Entre desejos e sonhos que são revelados e às vezes destruídos, o filme fala sobre Amor que sobrevive ao caos. Caos criativo, caos da intimidade. Em uma cena muito simbólica, é a mulher quem "penetra" o homem. Aliás, as cenas de sexo são bem viscerais, quase explícitas, em vela entrega do casal de atores. O elenco de apoio tem belas participações, e a trilha sonora e a fotografia corroboram no sentido artístico e autoral da proposta do filme. O filme ganhou o prêmio Fipresci da crítica em Berlin.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A ghost story

"A ghost story", de David Lowery (2017) Repetindo o mesmo casal (Rooney Mara e Casey Afleck) de seu filme de 2013, "Amor fora da lei", o roteirista e diretor David Lowery se mostra um realizador eclético. Em 2016, ele dirigiu para a Disney o infantil "Meu amigo, o dragão", e agora ele lança "A Ghost story", uma história de amor fantástica, que parece uma mistura de "Ghost", "Asas do desejo" e "Te amarei para sempre". Lendo uma entrevista com o diretor, o que mais gostei de saber foi que a caracterização do fantasma, ele se baseou na obra-prima de Hayao Myiazaky, "A viagem de Chihiro". Ele sempre ficou fascinado na imagem do fantasma, como se ele usasse um lençol com 2 olhos vazados. O filme começa com Casey Afleck (C) e Rooney Mara (M) se mudando para uma casa no campo. Ele é compositor. Eventualmente, eles escutam barulhos pela casa. Um dia, C morre em um acidente de carro em frente `a casa. Ele acorda em um morgue, e descobre que virou um fantasma, porém, coberto por um lençol. A partir daí, ele acompanha a rotina de luto de sua amada, até o dia que ela escreve um bilhete, esconde na parede e vai embora da casa. O filme faz então viagens no tempo, mostrando futuros moradores da casa, e também volta ao passado, mais precisamente no Séc 19, no terreno onde no futuro será construída a casa. Com uma belíssima fotografia, o filme foi exibido em Sundance e ganhou prêmios no Festival de Deauville, incluindo melhor filme. No entanto, é um filme que divide opiniões: tem quem goste, tem quem odeie. De fato, enquanto eu assistia, eu não me apaixonei pelo filme. Só fui passar a gostar depois que o filme acabou e fiquei refletindo sobre ele, o porque dele ter sido feito. Casey Affleck, que havia ganho um Oscar, se arrisca em um papel onde ele passa 70% do filme coberto pelo lençol. Rooney Mara não compromete. Não é um filme de atuações, e sim, de atmosfera, de brincar com a fantasia, com o metafísico, quase filme de divagações filosóficas de Terrence Malick. No final das contas, é uma versão existencialista e filosófica de "Ghost". Vale assistir e tirar suas conclusões.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Primeiro eles mataram meu pai: lembranças de uma filha do Camboja

"First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers", de Angelina Jolie (2017) Drama épico baseado no best seller biográfico escrito pela ativista cambojana Loung Ung. Lançado pelo Netflix, o filme obteve grande sucesso no Festival de Telluride, onde foi exibido em 2017, e foi oficializado como o representante do Camboja para disputar o Oscar de filme estrangeiro. Em 1975, no Camboja, o governo americano saiu do País. O Exército do Khmer vermelho invadiu a capital Phnom Penh, e obrigou a toda a população a entregar seus pertences e a trabalhar como escravos em campos chamados de "The killing fields". No total, o Khmer, sob as ordens do General Pol Pot, dizimou 1/4 da população. Entre as famílias massacradas, está a de Loung Ung. Com 5 anos de idade, o filme acontece todo sob o seu ponto de vista. Pequena, ela procura entender toda aquela violência que acontece em seu entorno. Loung acaba sendo convocada pelo exercito a fazer treinamento de guerra e a empunhar armas, até fugir no ano de 1980. Atualmente, ela está casada e mora em Cleveland, Ohio, e trabalha no mundo inteiro como ativista contra o desarmamento. Em certos aspectos, o filme lembra " A feiticeira da guerra" e "Beasts of no nation", que também apresentam o ponto de vista de uma guerra sangrenta pelo ponto de vista de uma criança. 5o filme dirigido por Angelina Jolie, é impressionante como ela vai ficando cada vez mais sofisticada como cineasta. Ela cercou-se dos melhores profissionais, entre eles, o fotógrafo de Danny Boyle, Anthony Dod Mantle, que trouxe a sua fotografia hiper saturada para dar vida a um espetáculo sangrento e brutal. O filme é longo, tem 2:20 horas, mas deixa o espectador angustiado com tamanha crueldade. Angelina tem esse caráter humanista em seus filmes, de querer apresentar o terror de um povo sofrido `a merce de um governo autoritário. Torço para que ela ganhe muitos prêmios. O elenco é um caso `a parte: todo o núcleo da família de Loung Ung é brilhante. Sem exagera no drama, dão vida a personagens sempre com um fio na navalha encostado. A pequena Sareum Srey Moch é um grande achado e um talento nato: pequena, ela demonstra uma forca no olhar descomunal.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Agonia

"Agonie", de David Clay Diaz (2016) Brutal drama baseado em uma história real: um jovem estudante, sem motivo aparente, assassinou sua namorada `a facadas, desmembrou seu corpo e o espelhou pela cidade de Viena. O roteirista e cineasta David Clay Diaz, paraguaio de nascença mas criado em Viena desde criança, estréía no longa com um filme apavorante, de narrativa fria, bem nos moldes dos filmes de Michael Haneke e do mexicano Michel Franco. Christian (Samuel Schneider) é um jovem estudante de direito, que é pressionado pela sua mãe que exige que ele seja o melhor nos estudos. Abatido emocionalmente e introspectivo, Christian trabalha em um cinema, como atendente, Ele namora a rica Sandra (Alexandra Schmidt), que é apaixonada por ele. Alex (Alexander Srtschin) é o oposto de Christian: extrovertido, violento, odeia sua namorada e tem como melhor amigo um rapaz que tem uma paixão platônica por Alex. Tanto Christian quanto Alex não se conhecem, mas a brincadeira do filme é exatamente essa: eles se esbarrão? Qual dos 2 irá matar sua namorada? O assassinato acontece nos 20 minutos finais. Até lá, vamos ficando tensos, esperando o momento que ocorrerá o assassinato. Quando acontece, é apavorante. Sem demonstrar qualquer humanidade, o assassino esfaqueia, esquarteja e limpa tudo, como um Norman Bates de “Psicose”, que inclusive, deve ter sido usado como referencia para a construção do personagem de Christian. Não é um filme para se recomendar assistir, devido ao seu teor violento e chocante. Somente para os fortes.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

The jigsaw

"The jigsaw", de Basil Al-Safar e Rashad Al-Safar (2014) Escrito e dirigido pelos irmãos Basil Al-Safar e Rashad Al-Safar, esse curta de suspense co-produzido por Portugal e Inglaterra ganhou mais de 30 prêmios internacionais. A história gira em torno de um homem que vai até um mercado de rua e compra em um antiquário, um quebra-cabeças misterioso. O Vendedor diz para ele não comprá-lo, mas o homem insiste. Ao chegar em casa, o homem completa o jogo. Bem dirigido, praticamente sem diálogos e com muita atmosfera assustadora, esse filme surpreende pela simplicidade. Um filme de terror sem efeitos especais, apenas um bom roteiro e clima. E em precisos 9 minutos. Aula de concisão. https://www.youtube.com/watch?v=gs5zQBBOXrA

Mae!

"Mother!", de Darren Aronofsky (2017) Existem várias formas de se assistir a "Mother!". Você pode assistir pelo prisma da alegoria e metáfora religiosa totalmente referente `a Bíblia; pela narrativa de filme de suspense psicológico e angustiante `a la "O bebe de Rosemary" ou como um drama surreal ao gosto de Bunuel e o seu famoso "O anjo exterminador". E' inegável as muitas referencias cinéfilas de Darren Aronofsky nesse filme protagonizado por Jennifer Lawrence: além dos citados, temos Lars Von Triers, Kubrick, e os filmes " O dia do gafanhoto" na sua famosa cena apocalíptica que critica o culto `a fama e `a celebridade ou mesmo "O filho de Saull", com a câmera colada no rosto do protagonista 100% do filme. Na verdade, falo tudo isso porque está sendo difícil falar sobre o filme e não comentar coisas que não configurem "Spoilers". Jennifer Lawrence interpreta uma jovem casada com um homem mais velho (Javier Barden). Eles não tem nome. Moram em uma casa, outrora destruída por um incêndio e reconstruída pelo personagem de Lawrence. Por conta do trauma do incêndio, o roteirista perde a sua escrita e a vontade de escrever. Um dia, inesperadamente, um estranho (Ed Harris) chega em sua casa pedindo moradia. Logo depois, chega sua esposa (Michelle Pefeiffer). E mais não pode ser dito, pois já será spoiler. Particularmente , gostei bastante do filme, mas entendo que ele será bem controverso. Os atores estão excelente, com destaque absoluto para Jennifer Lawrence em verdadeiro tour de force. Eu nem havia reconhecido Domhall Gleeson e amei que Kristen Wiig faz uma participação bem arrepiante. A fotografia de Matthew Libatique é assustadora. Esse é daqueles filmes que eu adoraria exibir para alunos de cinema e fazer um verdadeiro estudo de personagens e roteiro, repleto de símbolos. Aronofsky novamente nos brinda com uma fábula sobre o horror , sobre a claustrofobia, a angustia, o pesadelo.

domingo, 17 de setembro de 2017

Crossbow

"Crossbow", de David Michôd (2007) Premiado curta dirigido e escrito pelo cineasta australiano David Michôd, que dirigiu os premiados longas "Reino animal" e " A caçada". Concorrendo no Festival de Veneza e em Sundance no ano de 2007, o filme, ao mesmo tempo que foi elogiado, provocou polemica, acusado de ser misógino ( a figura da mãe é totalmente sexualizada, ela somente circula de calcinha o tempo todo, os personagens masculinos só enxergam ela como objeto sexual). O filme é todo narrado ( o próprio David Michôd narra) , se passando por um vizinho que diariamente, observa a rotina da família que mora na casa da frente. Moradores do subúrbio, ele observa que o filho do casal acompanha a rotina de sexo e drogas dos pais. Toda hora, grupo de homens drogados frequentam a casa, e mais, a mãe do rapaz somente circula de calcinha, provocando desejo sexual no narrador. Belamente fotografado e com ótimas interpretações ( Joel Edegrton interpreta o pai drogado e sexualizado), a história corre em uma narrativa crua, violenta, tensa. A gente sabe que alguma tragédia estará por vir a qualquer momento. https://vimeo.com/32724080

Columbus

"Columbus", de Kogonada (2017) Produção independente americana dirigida e escruta pelo sul coreano Kogonada, tem no cinema de Yasujiro Ozu a sua maior influência. No entanto, isso não impede que esse premiado drama tenha o ritmo tão arrastado que pode provavelmente provocar tédio em boa parte dos espectadores. Protagonizado por John Cho, o oficial Sulu da franquia "Star Trek", o filme fala sobre relação país e filhos, vistos pelo prisma da arquitetura de uma pacata cidade de Indiana, Columbus. Jin (John Cho) sai de Seul, aonde mora, para Columbus para visitar seu pai, arquiteto renomado, que passou mal dias antes de sua palestra na Universidade local. Ambos não se falavam há anos, e nesse processo de incomunicabilidade, Jin meio que se recusa a visitar o pai no hospital. Ele reecontra Eleanor (Parker Posey, musa de Hal Hartley), assistente e namorada de seu pai, que tenta dissuadi-lo a se reconectar com o pai. Jin conhece a guia turística Casey (Haley Lu Richardson), uma jovem formanda em arquitetura, que cuida de sua mãe viciada em drogas e sonha em trabalhar na arquitetura. Muito pouco acontece durante o filme. Em pequenas, mas pequenas ações, o filme vai seguindo seu rumo, até um desfecho meio óbvio. Confesso que essa homenagem a Ozu me cansou, pois o próprio Ozu, por mais que tivesse um ritmo lento e contemplativo, trazia humanidade aos seus personagens, era impossível não se apaixonar por eles. Aqui, existe uma frieza no comportamento de todos, que me fez ficar quase nada conectado com o destino de cada um deles. Ozu não tinha medo nem vergonha de trabalhar com o melodrama. O que realmente vale a pena aqui, são os belos planos pillow shots", comuns na narrativa dos filmes de Ozu, que são os planos de paisagem morta para intensificar as emoções dos personagens. O filme foi exibido em diversos festivais, incluindo Sundance.

Viagem das loucas

"Snatched", de Jonathan Levine (2017) Difícil de acreditar que o mesmo Diretor dos ótimos "50%", com Seth Rogen e Joseph Gordon Levitt e de "meu namorado é um zumbi", tenha realizado esse "Viagem das loucas". O que ele tinha nesses outros filmes, delicadeza, sensibilidade e poesia, aqui se perdeu totalmente. Talvez tenha sido influencia de Amy Schumer, uma comediante popular pelos seus improvisos e boca suja ( algo Tata Werneck), mas a verdade é que esse filme tem um roteiro muito fraco, repleto de estereótipos sobre a America Latina. Incrível também que o roteiro tenha sido escrito por uma mulher, uma vez que o filme está repleto de piadas machistas, e fazendo dos personagens femininos caricaturas dos homens broncos e maus. O que salva o filme é a presença de Goldie Hawn, uma grande comediante, que mesmo com material tão frágil, consegue tirar água de pedra. Amy Schumer tem um tipo de humor que ou você gosta, ou não gosta, pois fica sempre com a mesma expressão o tempo todo. Confesso que consegui rir de umas 3 a 4 piadas sujas, daquelas bem escatológicas ( a do banheiro, dela limpando a vagina, é muito engraçada). Mas esse tipo de humor parece estar com os dias contados, por conta do politicamente correto. Realizadores com os irmãos Farrelly, de "Eu, eu mesmo e Irene" e "Quem quer ficar com Mary" talvez não tenham mais espaço hoje em dia. Amy interpreta Emily, uma loser que no mesmo dia perde o emprego e é abandonada pelo namorado. Ela resolve viajar para o Equador, e como ninguém quer ir com ela, ela decide levar sua mãe, Linda (Goldie Hawn), com quem ela não se comunicava há tempos. As duas acabam sendo sequestradas por traficantes, pedem ajuda no consulado americano ( claro que não dá certo) e acabam se metendo em mil confusões. Até mesmo, matando traficantes! Muitas piadas não funcionam, e o ritmo é bem arrastado. Mesmo assim, o filme fez um certo sucesso nas bilheterias americanas. Gosto muito da Goldie Hawn, e espero que ela volte em uma comedia que valorize seu humor maravilhoso. A excelente Joan Cusack faz um papel aqui bobo, totalmente desperdiçada.

sábado, 16 de setembro de 2017

Till we meet again

"Till we meet again", de Bank Tangjaitrong (2016) A história dos bastidores dessa produção independente co-produzida pela Tailândia e Estados Unidos é bem mais interessante do que o filme em si. Estudantes na New York Film Academy, o tailandês Bank Tangjaitrong e o sueco John Matton se uniram e produziram esse drama. John Matton escreveu o roteiro e protagonizou a história sobre um jovem casal que sai de Nova York para passar as férias na Tailandia. Eric (John Matton) é roteirista, Joanna (Linnea Larsdotter) é designer gráfica. O filme é dividido em 2 tempos: a vida feliz do casal em Nova York, e a tensão criada por ciúmes na Tailândia. Com belíssima fotografia e locações esplendorosas na Tailândia, o filme peca por um único motivo: a total antipatia da personagem de Joanna. Nossa, é praticamente impossivel sentir qualquer tipo de afeição pela sua personagem. Fiquei o filme inteiro irritado com ela. Fora isso, o filme tem um ritmo bem lento. Poderia ter uns 20 minutos a menos. Vale para quem quer conhecer a Tailândia melhor. Muito diferente do olhar violento de "Only God forgives", de Nicholas Windingn Refn. Mesmo assim, o filme recebeu alguns premios em festivais mundo afora.

2:22- encontro marcado

"2:22", de Paul Currie (2017) Pegando carona no mote de "Feitiço do tempo", quando todas as ações se repetem diariamente na vida de uma pessoa comum, "2:22 - Encontro marcado" foi vendido como um filme de ação e suspense, mas na verdade, é um romance com uma reviravolta de ação no final. Se você for um espectador que não se incomoda nem um pouco com histórias mirabolantes, com protagonistas lindos que fazem sair de suas bocas frases extraídas de romances tipo " Barbara Cartland", ama ver Nova York em planos aéreos cartões postais e ama ainda mais aquela estética publicitária de filmes como " 50 tons de cinza", com trilha sonora pop, e se apaixona fácil, então esse filme é para você. Misturando romance drama e fantasia, o filme narra a história de Dylan (Michiel Huisman, o Daarios de "Game of Thrones"), um controlador de voos que tem medo de voar. Ele repara que todos os dias, as mesmas situações acontecem na vida dele. Ele está na véspera de completar 30 anos, e a constelação está com um planeta prestes a morrer. Um dia, ele quase provoca um acidente aéreo. Durante um evento de ballet aéreo, ele conhece Sarah (Teresa Palmer), uma galerista de arte. Eles se apaixonam. Mas logo Dylan percebe que o romance dos dois está conectado a um crime que aconteceu há exatos 30 anos na Grand Station. Em vários momentos, eu não sabia se eu ria, tal a loucura dos roteiristas. Mas como eu tenho noção de que muitos filmes são literalmente passatempos ( muitas vezes vamos ao cinema somente para se refrescar do calor), o filme cumpriu sua função. Não espere absolutamente nada dele. Quem sabe assim poderá se divertir com uma trama sem pé nem cabeça. Michiel Huisnan trabalhou há pouco tempo em uma fantasia romanceada, "A história de Adeline", infinitamente superior.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Feito na América

"American made", de Doug Liman (2017) Diretor da franquia "A identidade Bourne" e também da ficção cientifica com Tom Cruise "No limite do amanha", o cineasta Doug Liman narra a incrível historia de Barry Seal, um piloto de avião comercial dos anos 70 que é contratado pela Cia para fotografar grupos revolucionários em Países da America Central em pleno voo, e depois, é contratado pelos traficantes (entre eles, Pablo Escobar), para traficar cocaína para os Estados Unidos. Seduzido pelo dinheiro fácil, Barry enriquece, mas as consequências trágicas de sua ação farão efeito em sua família. Impossível não se lembrar de "Prenda-me se for capaz", "Top gun", "Scarface", Narcos". Nesse ambiente onde policiais, traficantes, agentes da Cia e homens comuns perambulam juntos, ninguém é perfeito e está acima da lei. O filme privilegia o drama, portanto, quem espera encontrar porradaria tipo "Missão impossível" ou " Jack Reacher", não irá encontrar. O filme é bem narrado, tem um roteiro incrível, mas as cenas de ação são muito discretas. Tom Cruise está muito carismático e trabalha bem o drama e o humor de seu personagem. Domhnall Gleeson também está ótimo como o Agente da Cia Schaefer, mas quem rouba a cena é Sarah Wright, no papel da brava esposa Lucy. A fotografia é do uruguaio radicado no Brasil Cesar Charlone, de "Cidade de Deus". O filme infelizmente será lembrado pelo acidente fatal que vitimou 2 stunts em cenas de voo, Alan Purwin and Carlos Berl.

Na praia de noite sozinha

"Bamui haebyun-eoseo honja", de Hong Sang-soo (2017) Falar sobre um filme escrito e dirigido pelo cineasta sul coreano Hong Sang Soo,, pode servir para qualquer filme que ele tenha realizado. Os temas são sempre os mesmos: dilemas amorosos, amores impossíveis, traições, ambiente cinematográfico (personagens sempre são atores, cineastas, roteiristas, etc) e muita conversa em restaurantes regadas `a cerveja, sake e cigarros. O estilo de filmar também é sempre igual: planos sequências fixos, ou em pan, ou em zoom. Minimalista, atuação naturalista, trilha sonora de musica clássica. No entanto, o diferencial desse filme em relação aos outros, é que aqui, Sang Soo expia a sua via intima. Assim como Woody Allen em "Maridos e esposas" ( escrito no auge de sua crise conjugal com Mia Farrow), " Na praia de noite sozinha" reproduz o caso de adultério real envolvendo o próprio Diretor, Hong San Soo, e sua atriz protagonista, Kim Min-hee ( atriz de "A criada" e de outros filmes de Sang Soo. Ambos casados com seus respectivos conjugues, resolveram assumir a relação. Foi um escândalo na Coréia do Sul. Kim Min-hee interpreta Young é uma famosa atriz flagrada por paparazzis tendo um caso com o Diretor. Ela então resolve seguir até a Alemanha e visitar uma amiga, para poder dar um tempo na fofoca e nos tablóides. Logo o filme segue para uma Parte 2: em uma cidade do interior da Coréia do Sul, Young hee visita seus pais e acaba reencontrando amigos de sua juventude. Young Hee vai assim, avaliando a sua relação adúltera e a sua vida pessoal e profissional. Os filmes de Hong Sang Soo são para um publico cinéfilo. Autorais, tem ritmo lento, quase nenhuma ação e muito falatório. Confesso que já to cansado dessa sua formula, mas tudo bem, continuarei assistindo aos seus filmes, que incrível por pareça, são sempre premiados em Festivais. Kim Min-hee acabou levando o Premio Urso de Ouro de melhor Atriz em Berlin. Ela está bem, mas muito injusto se compararmos ao trabalho extraordinário da Atriz Trans Daniela Vega em "Uma mulher Fantástica", concorrendo no mesmo Festival.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

47 metros para baixo

"47 meters down", de Johannes Roberts (2017) Co-escrito e dirigido pelo inglês Johannes Roberts ( realizador dos medianos "F" e " O outro lado da porta", " 47 metros para baixo" pegou carona no revival dos filmes de tubarões, após o grande sucesso de " Aguas rasas". Esse aqui também rendeu bastante pelo mundo: com orçamento de pouco mais de 5 milhões de dólares, rendeu mais de 50 milhões de dólares. No Mexico, 2 irmãs, Lisa (Mandy Moore) e Kate (Claire Holt) passa, férias. Lisa está desanimada: seu namorado terminou com ela. Para animá-la, Kate propõe a ela um passeio exótico: mergulhar dentro do oceano, em uma gaiola, com tubarões rondando no entorno. Em principio reticente, Lisa aceita. Ao descerem, a gaiola se rompe e elas ficam presas no fundo do oceano, a 47 metros da superfície sem ar e sem contato, com tubarões ao redor. Filme Ok, com bom suspense, e belas cenas de ação,. Os efeitos são ótimos e as duas atrizes mandam bem ( Mandy Moore era a atriz adolescente do cult romântico " Um amor para recordar). O desfecho irá deixar muita gente irritadissima. Sacanagem mesmo. No elenco de apoio, desperdício de Matthew Modine.

Divórcio

"Divórcio", de Pedro Amorim (2017) E' evidente a grande influencia cinéfila do Cineasta Pedro Amorim. Com um roteiro escrito por Paulo Cursino, sobre as agruras da rotina familiar e o consequente pedido de divórcio de uma das partes, o filme pega emprestado referencias de filmes queridos pelo público, como " Sr e Sra Smith" e " A guerra dos Rose'. Sobra at´uma brincadeira cinéfila no desfecho, com o anel `a la " A origem", de Christopher Nolan ( que também já teve um momento "Senhor dos anéis"). A grande sacada do filme, produzido por Tuba Junior ( que já realizou " O vendedor de sonhos" e a comédia "O concurso") é localizar o filme no interior do Brasil, mais precisamente, no rico município agrícola de Ribeirão Preto, Sao Paulo. E' ali que existem as maiores piadas do filme: o sotaque do interior e os famosos "r", as festas sertanejas, o figurino e maquiagem divertidissimos das peruas da alta sociedade, que mais parecem saídos do seriado "Dallas", e as inevitáveis brincadeiras com o morador da cidade do interior. O Elenco é o grande trunfo do filme. A química entre Murilo Benício e Camila Morgado é perfeita, os dois devem ter se divertido bastante durante as filmagens, senti até falta de um quebra pau fudido entre eles, chegando a um nível de insanidade Master. Luciana Paes, Thelmo Fernandes roubam todas as cenas onde aparecem, provando que são excelentes coadjuvantes para qualquer tipo de filme. Direção de arte luxuosa, figurino e cabelos divertidos, e fotografia fodona de Hélcio Alemão Nagamine. Mas o que mais goste, mesmo? A trilha sonora repleta de referencias pop e cinematográficas, recheado de Sergio Leone, Tarantino e muito mais, a cargo de Fabiano Krieger e Lucas Marcier.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Zabriskie Point

"Zabriskie Point", de Michelangelo Antonioni (1970) Zabriskie Point é uma região árida dentro do Vale da Morte, no Deserto da California. E também o nome de um dos filmes mais controversos de Antonioni, o Papa do existencialismo no Cinema. Alguns filmes clássicos de Antonioni ficaram datados e envelheceram mal. "Zabriskie Point", infelizmente, é um desses filmes. Por ter um discurso favorável `a contracultura e ao Movimento Hippie, o filme ataca obstinadamente o Capitalismo, na forma de casa de luxo, eletrodomésticos e tudo o mais que for considerado consumista no America Way of life. ( inclusive o modo de vida) Co-escrito por Antonioni, Sam Sheppard e Tonino Guerra (roteirista de Fellini, Antonioni e Tarkovsky, entre outros), o filme começa apresentando um grupo de estudantes discutindo o movimento grevista, no ano de 1970. Mark, um dos estudantes, diz que não tem tempo para o tédio e decide ir `a ação: segue para uma loja de armas com um amigo e compram revolveres. Durante um embate entre estudantes grevistas e policiais na Universidade, Mark é acusado de atirar em um policial Ele foge, rouba um aero-modelo e segue pelo deserto, até esbarrar com Daria, uma jovem que estava indo encontrar com seu chefe que irá construir um condomínio de luxo em pleno deserto. Esse encontro fará com que Daria repense a sua forma de viver voltada para o capitalismo. Mesmo datado, o filme tem 3 momentos antológicos: o inicio, durante a discussão entre os estudantes: os diálogos são primoroso e tudo parece tão espontâneo, que tenho a impressão de ter sido filmado em uma discussão real. O 2o momento, é a linda cena de sexo no deserto, uma verdadeira orgia a céu aberto. E o desfecho, com todos os símbolos do capitalismo explodindo no ar. Com uma trilha sonora que inclui musicas do Pink Floyd, o filme de fato marcou época, apesar de ter sido destruído pela critica e desprezado pelo publico. A fotografia é um dos pontos altos, a cargo de Alfio Contini.

domingo, 10 de setembro de 2017

Rakka

"Rakka", de Neill Blomkamp (2017) Mais um curta de ficção cientifica do cineasta sul africano Neill Blomkamp, de "Distrito 9" e "Elysium". Através de sua produtora Oats Studios, Neill Blomkamp tem realizado uma série de curtas de aventura e ação, usando o potencial dos efeitos especiais. Como se esses curtas ( só em 2017 já foram 4 curtas) fossem um cartão de visitas mostrando o potencial do FX. Dessa vez, em um futuro distópico, sobreviventes de uma invasão Alienígena tentam destruir os forasteiros. Nada de novo no front, parece uma versão reduzida de "Distrito 9", só que agora, com Sigourney Weaver comandando o ataque. O filme é todo narrado por uma sobrevivente, e é só tiro, porrada e bomba. Mais um passatempo ligeiro. https://www.youtube.com/watch?time_continue=725&v=VjQ2t_yNHQs

Zygote

"Zygote", de Neill Blomkamp (2017) O Cineasta sul-africano Neill Blomkamp, famoso pelos seus filmes de ficção cientifica "Distrito 9", "Chappie" e "Elysium", dirigiu uma série de curtas em 2017 através de sua produtora. Com muitos efeitos especiais e usando Aliens como tema, Neill Blomkamp homenageia o gênero e convidou atores famosos para liderar cada filme. Em "Zygote", as referencias mais óbvias são "Alien" e "O enigma de outro mundo", de John Carpenter. Em 23 minutos, acompanhamos 2 sobreviventes de uma chacina: um Alien matou 96 dos 98 tripulantes. Durante o filme, acompanhamos a tentativa de fuga de Barklay (Dakota Fanning) e Quinn. Através de imensos corredores da estação baseada no Ártico norte, Neil Blomkamp faz uso dos efeitos para criar tensão na platéia. Para quem é fã de ficção cientifica, o filme não traz novidade alguma. A historia é batida, e tudo se resume a corrida ( pense nos 15 minutos finais de "Alien, o 8o passageiro". Vale como passatempo. O desfecho é bobo. https://www.shortoftheweek.com/2017/07/14/zygote-neill-blomkamp/

Rememory

"Rememory", de Mark Palansky (2017) Pegando emprestado os motes de "Paprika", animação clássica de Satochi Kon, e o episódio de "Black mirror", "The entiry story of you", esse drama de gênero fantástico já foi inclusive comparado a "Brilho eterno de uma mente sem lembrança", de Michel Gondry. Com tantas ótimas referencias, "Rememory" é interessante, com um desfecho surpreendente, mas que poderia ter rendido bem mais. Os efeitos de maquiagem ( com um sangue pavoroso) não são bons, e a trama se perde entre se definir como um filme de suspense, um drama, uma ficção cientifica ou um filme de detetive. Aliás, a trama de detetives é a mais prejudicada, pois uma vez solucionado o caso, todo um grupo de personagens simplesmente desaparece. O filme vai ganhar destaque na memória dos espectadores por 2 motivos: ter sido o penúltimo filme realizado em vida pelo jovem Anton Yelchin (morto em um triste acidente) e por ter Peter Dinklage como protagonista. Peter Dinklage, famoso por interpretar Tyrion Lannister na série "Game of thrones", merecia um papel em um filme mais denso, por conta de seu grande potencial como ator dramático. Peter Dinklage interpreta Sam, um arquiteto que provocou um acidente de carro, matando o seu irmão, um jovem rock star. Consumido pela culpa, ele vai procurar o renomado cientista Gordon Dunn (Martin Donovan, ex-ator fetiche de muitos filmes de Hal Hartley). Gordon criou uma máquina que consegue gravar os sonhos e memórias das pessoas (Olha o roubo do tema de "Paprika"). Mas Gordon aparece morto. Sam resolve roubar a máquina e dessa forma, tentar descobrir quem dos pacientes de Gordon poderia te-lo matado. Um passatempo para se assistir apenas pelas curiosidades citadas acima. O filme foi exibido em Sundance 2017.

sábado, 9 de setembro de 2017

Every breaking wave

"Every breaking wave", de Aoife McArdle (2015) Escrito e dirigido pela Cineasta irlandesa Aoife McArdle, esse poderoso e belíssimo curta utiliza 2 músicas do "U2" para contar uma história de amor que acontece durante os conflitos na Irlanda do Norte dos anos 80. "The troubles" e " Every breaking wave", do disco "Songs of Inocennce", embalam o encontro entre o protestante Sean e a católica Sandra. Os 2 se conhecem, se amam, mas precisam enfrentar os horrores do conflito que se pare seus amigos,s eus pais e a si mesmos. Os companheiros de Sean o pressionam para uma luta armada. Até que uma bomba explode...e Sandra pode estar entre os feridos. Fotografia estilosa, o filme tem poucos diálogos e tem uma estrutura de um grande video-clip. Com um grande orçamento, o filme impressiona pela força de suas imagens. Recentemente, a cineasta Aoife McArdle lançou o seu primeiro longa "Kissing Candice" no Festival de Toronto 2017, com muito sucesso de crítica. https://vimeo.com/119537453

I am Jane Doe

"I am Jane Doe", de Mary Mazzio (2017) Denso documentário escrito e dirigido pela americana Mary Mazzio, tem como tema o tráfico sexual de crianças americanas no Site de classificados mais poderoso dos Estados Unidos, "Backpage.com". Disfarçado de serviços de massagem para adultos, crianças sequestradas e/ou abduzidas por cafetões são vendidas para práticas sexuais. O filme narra o drama de várias mães, que tiveram suas filhas sequestradas, e que as localizaram nas páginas do site. Posteriormente, essas mães processaram o Site, mas acobertados por uma Lei antiga (Seção 230) que protege qualquer site de postagem por terceiros, os processos são arquivados e a Backpage. com acaba sempre saindo como vencedora. O filme acompanha por anos a dura batalha de advogados, pais e Ongs em processo judicial contra a Backpage.com. O filme é narrado pela atriz Jessica Chanstain, e traz números apavorantes sobre o aumento do lucro do site, e também, do sumiço de crianças nos Estados Unidos. O que senti falta no filme foram mais depoimentos dos "traficantes", que são os aliciadores de menores, para entender porque essas crianças abandonam tudo e se deixam seduzir por esses estranhos. O ambiente do lar também é um forte indicio de que as crianças não querem ficar ali, e isso o filme também não pesquisa. Ficou quase que integralmente em cima do processo que corre solto na justiça. Para estudantes de direito e advogados, esse filme é um prato cheio e obrigatório.

Clash

"Eshtebak", de Mohamed Diab (2016) Co-escrito e Dirigido pelo Cineasta egípcio Mohamed Diab, "Clash" venceu inúmeros prêmios e concorreu em Cannes na Mostra "Quinzena dos realizadores" em 2016. A sua estrutura narrativa lembra bastante a do filme israelense "Lebanon", onde tudo acontecia dentro de um tanque pelo ponto de vista dos soldados. Agora, em "Clash", a câmera nunca sai de um camburão da policia. O filme acontece durante os eventos da rebelião em junho de 2013, quando o Pais estava dividido em 2 pólos: o grupo a favor dos militares no Governo, e os que apoiavam a irmandade Islâmica no Poder. Manifestantes dos dois grupos e outros sem uma característica política definida são confinados dentro do tanque por policiais. Sofrendo por igual, as pessoas precisam enfrentar as suas diferenças políticas, sociais, de gênero e religiosas. O filme dá uns pequenos flashes de que é possível acreditar na raça humana, mas logo descamba para o que o homem sabe fazer de melhor: raciocinar usando a violência bruta, agindo como bichos. Com essa mensagem triste, o cineasta Mohamed Diab realiza um filme fantástico, um verdadeiro tour de force de elenco e de técnica, já que tudo acontece dentro de um camburão apertado onde se encontram umas 20 pessoas. Fiquei imaginando o câmera tentando enquadra as pessoa,s os eventos que acontecem do lado de fora, confinado naquele espaço mínimo. O roteiro é primoroso, angustiante e que faz refletir sobre a insanidade que rege o mundo. E que atores fantásticos! Li que o diretor ensaiou durante 6 meses com os atores em um mock up do camburão para poder ver o que dava certo e termos de construção de personagens e de técnica, e que muita coisa foi adaptada depois disso. Uma aula de cinema.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Uma mulher fantástica

"Una mujer fantastica", de Sebastian Lélio (2017) Premiado em Berlim com o Teddy, dedicado a filmes de temática Lgbt, e o Urso de Ouro de Melhor roteiro, o filme confirma a excelência do cineasta chileno Sebastian Lelio como um grande autor que sabe expor a alma feminina. Em 2013 ele realizou outra obra primorosa, "Gloria", sobre uma mulher em crise no alto de seus 50 anos. Em "Uma mulher fantástica", a crise agora é de identidade. Marina Vidal ( a estupenda Daniela Vega, atriz trans) trabalha como garçonete e de noite canta em um cabaré. Ela treina para o canto lírico. Jovem e responsável, ela namora Orlando, um senhor de quase 60 anos. Uma noite, ele passa mal e ao levá-lo ao hospital, Marina fica sabendo que ele está morto. Começa a sua epopeia de luta contra a homofobia de todos em sua volta: a família de Orlando, os médicos, a polícia, os amigos. Sozinha, Marina decide declarar guerra. O diretor Sebatian Lelio dirige tudo com extrema delicadeza, e e' incrível como ele trabalha o universo pop, kitsch e vintage no filme. O uso do clássico " Time", do Alan Parsons Project, é emocionante. Muitas cenas antológicas, mescladas ao realismo fantástico: a cena de Marina caminhando no vendaval, a dança do casal na boite ao som de "Time", o desfecho. Um filme vigoroso, uma aula de direção e de performance. Imperdível!

La drolesse

"La drolesse", de Jacques Doillon (1979) Premiado no Festival de Cannes em 1979 com o "Young Cinema Award", esse filme do prestigiado cineasta francês Jacques Doillon com certeza renderia uma excelente peça de teatro, basicamente centrado na relação entre um rapaz e uma menina de 11 anos, ambos solitários e mentalmente perturbados. Baseado em uma incrível história real, o filme se passa em uma região rural no interior da França. Mado (Madeleine Desdevises, em atuação extraordinária e que faleceu aos 15 anos de leucemia, 3 anos após ter realizado esse filme) tem uma relação problemática com sua mãe. Um dia, voltando da escola, ela é sequestrada no caminho por François ( Claude Hebert, ator da obra-prima do naturalismo "Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão"). Ele igualmente não se dá com seus pais, e tranca Mado no sótão de sua casa. Para sua surpresa, Mado não oferece qualquer resistência e entre ambos surge uma relação repleta de jogos, onde eles interpretam mãe e filho, marido e esposa, patrão e empregado. Até que um dia, Mado diz que quer ter um filho. Com um conteúdo polemico desses, Doillon privilegia o olhar lúdico e ingênuo dessas duas almas desencantadas com a vida. O trabalho dos 2 atores é impressionante. Madaleine lembra bastante a jovem atriz americana Chloë Grace Moretz e tem um olhar muito triste, e assistindo ao filme e sabendo que ela faleceu logo depois, me deixou com o coração bastante apertado, ainda mais na ultima cena, quando ela brinca de estar morta. Claude Hebert tem aquele olhar de louco, de alguém que está prestes a cometer algum ato de violência. E' impressionante. A direção de Doillon investe no cinema documentário, totalmente naturalista. Herdeiro de Bresson, seu elenco não interpreta e boa parte dos personagens é formado por não atores. Um filme que merece ser visto e discutido com os temas da pedofilia, loucura, personagem X real.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

It, a Coisa

"It", de Andy Muschietti (2017) O cineasta argentino Andy Muschietti, responsável pelo excelente curta de terror "Mama", de 2008, e também pela sua adaptação para um longa homônimo ( infelizmente não tão bom), foi extremamente feliz nessa sua versão para o livro de Stephen King. Andy entendeu que o seriado de sucesso "Stranger things" pegou o espectador pelo emocional, e fez o mesmo com o seu filme: encheu de nostalgia e homenagem aos anos 80. E mais: nada disso teria dado certo, se os atores jovens não fossem cativantes. Cada jovem ator é um grande acerto.Escolhidos a dedo, eles representam os estereótipos daquela garotada que estamos acostumados em ver em qualquer filme pré-adolescente americano: loosers, virgens, medrosos, um gordo, outro negro, todos nerds e com problemas familiares. Ou seja, prato cheio para saciar a fome infinita de PennyWise, o palhaço devorador de crianças medrosas. Aliás, que performance incrível de Bill Skarsgård, filho do Astro sueco Stellan Skarsgard, no papel do grande vilão. Fico torcendo para que a sua carreira não se confunda com o de Pennywise, para não ficar marcado. Ele merece muitos filmes maravilhosos em sua filmografia. O seu olhar, o seu sorriso sedutor e assustador que faz com que se aproxime das crianças, é um grande achado. Os efeitos especiais também são maravilhosos. Impossível não se lembrar de Freddy Krueger vendo a performance do palhaço que se transforma no que quer. A jovem Sophia Lillis, no papel de Beverly, faz lembrar o tempo todo de Molly Rongwald ( até motivo de piada de um dos garotos) e na sua cena extraordinária no banheiro, uma homenagem incrível a "O iluminado" e "Carrie", , com cores fortes no jorro de sangue. Em 1988, na fictícia cidade de Derry, crianças desaparecem. Um grupo de amigos, que se entitula "Grupo dos perdedores" ( que a tradução das legendas infelizmente colocou como "Grupo dos otários"), tenta descobrir quem está por trás dos sumiços e descobrem que tiveram pesadelo com a mesma figura maléfica: o palhaço Pennywise, que se alimenta dos medos das crianças. Tá tudo aqui: "Conta comigo", A hora do pesadelo", "Et", "Alien" , "Goonies", tudo exatamente como em "Stranger things. Até mesmo um dos atores, Finn Wolfhard, o Mike de "Stranger things", o personagem mais divertido, com piadas infames e sujas. O grande barato da história de Stephen King, e que Andy Muschietti soube dosar muito bem, foi essa mistura entre drama, terror, comédia, aventura e ação. Ele captou a essência do filme: o verdadeiro medo dos adolescentes é se tornarem adultos, e ficarem iguais a seus pais: violentos, apáticos, sem vida. O desfecho, mostrando o desapego da rapaziada, é emocionante e chorei, me lembrando do final de "Conta comigo". Algumas cenas antológicas: a cena do banheiro, com Beverly em banho de sangue; a da projeção de slides na garagem, e o reencontro dos irmãos no desfecho. Para quem tem medo de filmes de terror, um alento: o filme não é violento, afinal, ele foca no público adolescente. Para nostálgicos, imperdível!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Peixe grande e suas histórias maravilhosas

"Big fish", de Tim Burton (2003) Somente assisti a esse filme na época de seu lançamento, em 2003, e reve-lo 14 anos depois me fez lembrar o quão extraordinário ele é. Emocionante do inicio ao fim, o filme, baseado em uma novela de Daniel Wallace, é um golpe baixo na platéia: é impossível não chorar varias vezes ao longo do filme. Em primeiro lugar, eu nem lembrava que Marion Cotilllard estava no filme, fazendo o papel da esposa de Will (Bil Cudrup), filho de Bill (Albert Finney e Ewan Macgregor, ambos sublimes). "Big fish" foi o 1o filme de Marion em língua americana. O filme narra o conflito de Will, jovem jornalista, que há anos não fala com seu pai. Ao saber que ele está gravemente doente, ele resolve visitá-lo. Sua mãe, Sandra (Jessica Lange e Alison Lohman, tocantes) o recebe. No leio de seu pai, ele ouve pela milésima vez as historias mirabolantes que seu pai lhe contou a vida toda, e é exatamente isso o que irrita Will: ele jamais soube da realidade dessas historias, e pede para que seu pai as conte como de fato aconteceram. A essa altura do campeonato, todo mundo já assistiu a esse filme, mas para quem não via há tanto tempo como eu, vale rever. Existem muitos detalhes que eu não lembrava mais: A cidade de Spectre, a presença de Steve Buscemi, até mesmo a pesença de Danny de Vito no elenco. Fotografia mágica de Philipe Rousselot, e trilha sonora do parceiro de sempre Danny Elfman, caprichando nas notas melancólicas. Helena Bonham Carter, na época a Sra Burton, também está sensacional. Um absurdo pesquisar e ver que esse filme não ganhou nenhum prêmio de Fotografia, roteiro , nem ao mesmo de interpretação para Albert Finney, antológico.

Deserto

"Deserto", de Guilherme Weber (2017) Adaptação do conto ‘Santa Maria do Circo’ do mexicano David Toscana, essa estréia na direção cinematográfica do Ator e Diretor teatral Guilherme Weber veio sem concessões para o espectador, que testemunhara cenas com entrega visceral do seu elenco vibrante. Boa parte oriunda do teatro e do cinema autoral, os 8 personagens representam arquétipos que ao longo do filme, irão se degladiar em embate moral, fisico e psicológico. Lima Duarte, Cida Moreira, Everaldo Pontes, Márcio Rosario, Fernando Teixeira, Magali Biff, Claudinho Castro e Pietra Pan possuem cada um, um grande momento individual, que os faz brilhar em cena. Guilherme Weber foi generoso e distribuiu as cenas de igual intensidade para todo o elenco. Em um lugar perdido no tempo, uma trupe de circo mambembe, decadente e esfomeada, resolve parar em uma cidadezinha. Chegando lá, eles estranham que não exista uma única pessoa no lugar. O grupo, com exceção de Dom Aleixo (Lima Duarte), decide ficar no lugar e deixar de perambular de cidade em cidade para mostrar a sua Arte. Dom Aleixo os questiona, dizendo que são Artistas e precisam mostrar o seu trabalho para as pessoas, mas os outros contestam, alegando estarem cansados de passar fome e agora querem uma casa e comida. O grupo decide também distribuir "personagens", e assim, cada um vai representar uma figura que consideram importantes para uma sociedade coexistir. O filme, obviamente, é uma grande metáfora e alegoria sobre a Arte e o Poder. Fico imaginando Glauber Rocha enlouquecendo com esse roteiro. Mas nas mãos de Weber, o filme tomou um rumo mais cru, violento, angustiante e teatral. Ao deixarem de viver da Arte, o grupo se desfaz e começa a se desintegrar. Essa é a grande critica que o filme faz, um povo não vive sem a Cultura. A outra critica, igualmente poderosa, é demonstrar como que cada indivíduo analisa e enxerga o outro como ela quer: na escolha dos papeis (puta, militar, caçador, negro, médico, cozinheiro, padre), existe uma hierarquia que faz com que um se sobreponha ao outro. Quase como em "Saló", de Pasolini, onde os Poderes fazem do sue povo gato e sapato. E' um filme polemico que apresenta no discurso dos personagens, toda a raiva embutida na sociedade dita democrática: preconceito racial, abuso sexual, machismo, critica `a religião. "Deserto", dirigido com poesia e muita Arte por Weber, tende a encontrar um público muito especifico. E' um filme autoral, e renderá boas discussões, para o bem ou para o mal. A destacar: a brilhante fotografia de Rui Poças, português responsável pelos belos "Tabu" e "O ornitólogo", 2 grandes cults portugueses.

O impostor

"The imposter", de Bart Layton (2012) Excelente documentário inglês, vencedor de vários prêmios internacionais e exibido com sucesso em Sundance em 2012. O Documentarista Bart Layton reconstitui com dramatização e com as pessoas reais, a incrível história de um farsante, que se fez passar por Nicholas Barclay, um adolescente de 16 anos americano que desapareceu de seu bairro em 1994. Frédéric Bourdin, francês na época com 25 anos, se fez passar por Nicholas, 3 anos após seu desaparecimento. Alegou ter sido sequestrado por militares americanos e levado até a Espanha, sendo mantido como escravo sexual. Dessa formam Frédéric Bourdin encontrou uma forma perfeita de poder ir morar nos Estados Unidos e conseguir o amor de uma família, algo que nunca teve na vida. Mas o mais impressionante está por vir, numa tremenda reviravolta na história. Bart Layton recria toda essa história como se dirigisse um filme de suspense. De fato, a gente fica louco para que o filme avence logo,e tentar entender essa história tão bizarra e complexa, fruto da mente de pessoas emocionalmente abaladas. No cinema, me lembrou bastante a obra-prima de Kiarostami, "Close up", sobre um farsante que se faz passar pelo cineasta Makmalbaph, e também o filme de Clint Eastwood com Angelina Jolie, "A troca". O filme é uma aula de cinema, com construção perfeita de edição aliado a uma trilha sonora tensa, que vai levando o espectador ao delírio.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Fugindo do amanhã

"Escape from tomorrow", de Randy Moore (2013) Esse é o famoso filme de guerrilha realizado pelo roteirista e cineasta Randy Moore nas dependências da Disneyworld sem o consentimento do parque temático. Randy Moore filmou tudo `as escondias, usando câmeras domésticas iguais aos dos visitantes da Disney, para não chamara a tenção da segurança. Os atores e equipe liam o roteiro nos Iphones. O que não pode ser filmado no Parque, foi rodado em Croma e aplicado posteriormente (alias, fiaram horríveis essas aplicações em croma, o que na verdade só intensifica o caráter Trash da obra.) O filme foi exibido em Sundance em 2013, de forma extremamente sigilosa, e acabou sendo anunciado como o maior filme de Guerrilha realizado. A própria Disney decidiu não se pronunciar em relação ao filme, e nem processá-lo. "Fugindo do amanhã", foi vendido como um filme de terror. Mas está muito longe disso. Zero sustos, zero tensão. E mais: tivesse sido lançado com um curta, teria sido muito mais bem sucedido do que como um longa de 90 minutos. Não existe história que sustente o filme por tanto tempo. O roteiro é bastante confuso e bizarro: Um pai é despedido pelo seu patrão no dia que ele leva esposa e dois filhos para a Disney. Ele resolve não contar nada para a sua esposa. Chegando no parque, ele começa a ter visões aterradoras das atrações, como se todos fossem malévolos. A direção é tosca, os atores amadores. Talvez a proposta tenha sido essa mesma, ser traz, mas até para ser um traço divertido faltou criatividade. O que realmente tenho que tirar o chapéu, é a forma como o filme foi realizado. O Diretor foi ousado em invadir um dos espaços no mundo mais bem policiados e realizar o seu filme ali, sem pagar direitos nem nada. E mais: incluir temas adultos como prostituição ( as princesas da Disney são na verdade, prostitutas que se oferecem para milionários asiáticos), cientistas malucos ( no subsolo do Epcot Center, existe um laboratório de experimentações) e pior, pedofilia ( meninas são sequestradas e oferecidas como garotas de programa. Com tanta loucura, a Disney acertou em não levantar polemica com o filme e dessa forma, não o promove-lo. Vale como curiosidade e também, para quem nunca visitou a Disney, pois a câmera acompanha praticamente todos os ambiente do Parque.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Tomcat

"Kater", de Händl Klaus (2016) Escrito e dirigido pelo Cineasta austríaco Händl Klaus, "Tomcat" é terminantemente proibido para quem tem pavor de ver cenas de maus tratos com animais. O filme ganhou o Premio Teddy no Festival de Berlin 2016, dedicado a filmes com temática Lgbts. Com fortes cenas de erotismo, nudez explicita e violência, o filme foi apontado por muitos críticos como uma referencia ao cinema de Michael Handke, o mais famoso dos cineastas da Austria. E não é por menos: Händl Klaus foi trabalhou em alguns filmes de Kaneke. O filme acompanha a rotina do casal gay Stefan e Andreas. Apaixonados ao extremo, eles demonstram o seu amor no trabalho (Stefan é músico, Andreas é produtor da Orquestra) e em casa, em cenas explicitas de sexo. Com eles mora o gato vira-lata Moises. Moises é a paixão do casal. Um dia, no entanto, num acesso inexplicável de violência, Stefan provoca um terrível crime. A relação do casal vai se deteriorando, até chegar em um novel insuportável de convivência. Eu achei que fosse gostar mais do filme. Ele é longo ( 2 horas intermináveis), talvez pelo ritmo extremamente lento de essa impressão do filme não acabar nunca. E pelo que li em algumas matérias, até achei que fosse mais violento. Não chega a ser um filme de Haneke, que faz o espectador sentir um nível absurdo de angústia. (Outro austríaco famoso, Ulrich Seidl, também se utiliza de temas que deixam o espectador sem fôlego, tamanho é o desconforto.) O filme vale ser visto pelo trabalho dos 2 atores principais: Philipp Hochmair e Lukas Turtur, que se entregam 100% aos seus personagens, em cenas viscerais de sexo e violência.

Atração

"Prityazhenie", de Fedor Bondarchuk (2017) Ótima ficção cientifica russa, com impressionantes uso de efeitos especiais. fazendo uma mistura de "Et, o extraterrestre", " A chegada" e " O homem das estrelas". O filme mescla os gêneros de ficção cientifica, ação, romance e drama. Uma nave espacial é atingida por chuva de meteoros e cai na Terra. A forca aérea russa a abate, e a nave cai. Seu integrante, um alienígena com forma humana, Hijken, é resgatado por uma jovem estudante, Yulia. Ela tenta ajuda-lo a voltar para a nave, mas o pai dela, um general russo, quer destruir a nave e o alienígena. Para piorar, o namorado de Yulia, Artyom, sente ciúmes do alienígena e também quer matá-lo. Dito assim, a historia parece uma bobagem. De certa forma até é, mas no fundo, ele quer passar uma bela mensagem sobre humanismo e um pensamento sobre o fim da violência no mundo. As cenas de ação são muito bem dirigidas, o casal principal é muito carismático ( alien e Yulia), com direito a algumas piadas sobre a adaptação na vida terrestre. Ótima fotografia e trilha sonora, Vale assistir o filme, mesmo que entendendo que esse filme russo pega carona na linguagem do cinema de Hollywood.

domingo, 3 de setembro de 2017

A rainha Diaba

"A Rainha Diaba", de Antonio Carlos de Fontoura (1974) Roteirizado por Plinio Marcos e Antonio Carlos de Fontoura, esse clássico do Cinema brasileiro, é, pelas palavras do próprio realizador, um Policial Pop. Pensando que o filme foi rodado em 1973 e lançado no ano seguinte ( Concorreu em Cannes na "Quinzena dos realizadores"), para quem assiste o filme nos dias de hoje, fica praticamente impossível não acreditar que Pedro Almodovar e Tarantino não o tenham assistido em algum Festival ou em dvd e trouxeram muito de sua narrativa, visual e universo cinematográfico para os seus filmes. Não é exagero: esse filme continua muito atual, moderno e com certeza, a ousadia temática e visual na época deve ter sido um verdadeiro escândalo. Inclusive "Cidade de Deus" deve muito a esse filme, tanto pela caracterização de alguns personagens quanto pela linguagem crua e realista da marginalidade da Cidade do Rio de Janeiro. Traficantes, prostitutas, travestis e gigolôs são os personagens desse filme inquietante. Diaba ( que muitos dizem ter se inspirado na figura mítica da Madame Satã, já visto posteriormente no filme homônimo de Karin Ainouz), interpretado magistralmente por um Milton Gonçalves absolutamente diabólico, domina as bocas de fumo de varias áreas da cidade. Quando um de seus "meninos" corre o risco de ser preso, ela pede para um de seus capangas para "criar" um marginal para que seja preso no lugar do seu protegido. Assim surge Bereco (Stepan Nercessian, na flor da juventude, perfeito para o personagem), um cafetão adotado pela cantora de boate Isa (Odete Lara, poderosa e visceral). Todos os caminhos se cruzam para o domínio de pontos de venda, onde não se pode confiar em ninguém. Com fotografia magistral de José Medeiros, em cópia restaurada por Walter Carvalho, e direção de arte e figurino visionários de Angelo de Auqino, é um filme que certamente suscitaria muita discussão, muito por conta dos sub-plots polêmicos: o grupo das travestis, a mulher de malandro, o traficante homossexual. Importante avaliar e pensar o quanto o Cinema dos anos 70 e 80 eram livres e viscerais. O elenco em peso, tanto os protagonistas quanto os coadjuvantes reunindo a fina flor (Wilson Grey, Nelson Xavier, Yara Cortes, Lutero Luiz, Zezé Motta) merecem aplausos, pela entrega fabulosa aos seus personagens. Duas cenas antológicas: a do salão de beleza, com Isa e os travestis, e a cena final de Bereco com Diaba. Trilha sonora suingada, repleta de funk e clássicos da época. A abertura, com créditos iniciais escritos e pintados `a mao ao som de "India", de Paulo Sergio, é fantástica. Um filme obrigatório!

Saberá o que fazer

"Sabrás o que hacer", de Katina Medina Mora (2015) Que lindo e ao mesmo tempo drama mexicano, todo realizado por mulheres na Direção e no roteiro. A cineasta Katina Medina Mora resolveu realizar esse filme para homenagear um amigo dela epiléptico. O filme é dividido em 3 capítulos, os 2 primeiros por pontos de vista diferentes, e o 3o une as historias. Nicola é um fotógrafo que sofre de epilepsia. Um dia, após sofrer uma convulsão, ele conhece Isabel, que veio visitar a sua mãe depressiva e suicida. Os 2 escondem os seus segredos, e se apaixonam. Mas quando a verdade vem `a tona, eles lutam para entender os dramas de cada um e respeitar as suas escolhas. Belamente dirigido, com muita sensibilidade, o filme tem uma linda performance do casal principal, os mexicanos Pablo Derqui e Ilse Salas. E' um filme muito melancólico, sofrido e que no seu final, faz uma linda redenção para que as pessoas possam abrir as suas vidas para novas possibilidades. Recomendado.

sábado, 2 de setembro de 2017

Tempestade de areia

"Sufat Chol", de Elite Zexer (2016) Escrito e dirigido pela Cineasta israelense Elite Zexer, "Tempestade de areia" ganhou mais de 15 prêmios internacionais, entre eles, o Grande Premio do Juri em Sundance 2016. O tema do filme já foi visto em muitos filmes: a mulher reprimida dentro de uma sociedade machista, arcaica e patriarcal, na Cultura do Oriente médio. Recentemente tivemos o excelente "A garota ocidental", muito semelhante. Laya é uma jovem que mora com suas 3 irmãs menores, sua mãe Jailia e seu pai Suliman em uma comunidade de beduínos que habitam o deserto no sul de Israel. Nessa cultura, é permitido ao marido casar com outras esposas. O filme começa com Suliman casando com uma segunda esposa, e abandonando Jalila e as filhas na sua casa antiga. Para piorar, Layla se apaixona por um colega de faculdade, mas seus pais proíbem esse namoro, pois as mulheres devem se casar com homens da mesma casta. Muito bem dirigido por Elite Zexer, que comanda um time de excelentes atores, o filme revela para o espectador um mundo onde a repressão comanda as vidas das pessoas. As mulheres não podem ter vontades próprias, elas agem de acordo com o que os outros querem. O interessante é apresentar a mãe Jalila não só como vitima, mas também como algoz dessa mesma educação, repetindo todas as atitudes castradoras das outras gerações. O desfecho me deixou bastante desapontado, irritado até, mas entendo que os filmes iranianos ou israelenses não fazem a mínima concessão para agradar o espectador. Bela direção de arte, mostrando um vilarejo perdido no meio de um deserto.