quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Deserto

"Deserto", de Guilherme Weber (2017) Adaptação do conto ‘Santa Maria do Circo’ do mexicano David Toscana, essa estréia na direção cinematográfica do Ator e Diretor teatral Guilherme Weber veio sem concessões para o espectador, que testemunhara cenas com entrega visceral do seu elenco vibrante. Boa parte oriunda do teatro e do cinema autoral, os 8 personagens representam arquétipos que ao longo do filme, irão se degladiar em embate moral, fisico e psicológico. Lima Duarte, Cida Moreira, Everaldo Pontes, Márcio Rosario, Fernando Teixeira, Magali Biff, Claudinho Castro e Pietra Pan possuem cada um, um grande momento individual, que os faz brilhar em cena. Guilherme Weber foi generoso e distribuiu as cenas de igual intensidade para todo o elenco. Em um lugar perdido no tempo, uma trupe de circo mambembe, decadente e esfomeada, resolve parar em uma cidadezinha. Chegando lá, eles estranham que não exista uma única pessoa no lugar. O grupo, com exceção de Dom Aleixo (Lima Duarte), decide ficar no lugar e deixar de perambular de cidade em cidade para mostrar a sua Arte. Dom Aleixo os questiona, dizendo que são Artistas e precisam mostrar o seu trabalho para as pessoas, mas os outros contestam, alegando estarem cansados de passar fome e agora querem uma casa e comida. O grupo decide também distribuir "personagens", e assim, cada um vai representar uma figura que consideram importantes para uma sociedade coexistir. O filme, obviamente, é uma grande metáfora e alegoria sobre a Arte e o Poder. Fico imaginando Glauber Rocha enlouquecendo com esse roteiro. Mas nas mãos de Weber, o filme tomou um rumo mais cru, violento, angustiante e teatral. Ao deixarem de viver da Arte, o grupo se desfaz e começa a se desintegrar. Essa é a grande critica que o filme faz, um povo não vive sem a Cultura. A outra critica, igualmente poderosa, é demonstrar como que cada indivíduo analisa e enxerga o outro como ela quer: na escolha dos papeis (puta, militar, caçador, negro, médico, cozinheiro, padre), existe uma hierarquia que faz com que um se sobreponha ao outro. Quase como em "Saló", de Pasolini, onde os Poderes fazem do sue povo gato e sapato. E' um filme polemico que apresenta no discurso dos personagens, toda a raiva embutida na sociedade dita democrática: preconceito racial, abuso sexual, machismo, critica `a religião. "Deserto", dirigido com poesia e muita Arte por Weber, tende a encontrar um público muito especifico. E' um filme autoral, e renderá boas discussões, para o bem ou para o mal. A destacar: a brilhante fotografia de Rui Poças, português responsável pelos belos "Tabu" e "O ornitólogo", 2 grandes cults portugueses.

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