domingo, 14 de julho de 2019

Um crime de ódio americano

"An american hate crime", de Ian Liberatore (2018) Longa metragem de estréia de Ian Liberatore, que escreveu, produziu e dirigiu esse drama LGBTQ+ com um orçamento de apenas U$ 13 mil dólares e 7 dias de filmagem. Se baseando em fatos reais, o filme é um brutal relato de homofobia ocorrido em Filadélfia. O filme também faz uma séria crítica aos aplicativos de pegação gays, onde as pessoas anonimamente marcam encontros em lugares ermos e como em vários casos citados nos créditos finais, acabam sendo assassinados por grupos homofóbicos. Ian se formou em cinema no Art Institute of Philadelphia e convidou estudantes para fazerem parte da equipe técnica. O roteiro se apropria da estrutura usada por Gus Van Sant em "Elefante"; uma mesma história vista por 2 pontos de vista diferentes: a do agressor e a da vítima. Dividido em 3 capítulos, na Parte 1 somos apresentados a Jake, um rapaz que mora com o seu pai e que tem problemas de socialização, botando culpa na comunidade LGBTQ+ por todos os seus problemas. Ele é seduzido por um grupo de colegas homofóbicos a marcarem encontros com gays em aplicativos e depois darem surra nas vítimas.Na Parte 2, somos apresentados a Noah, um garoto de 13 anos, que tem problemas em aceitar a sua homossexualidade. ele acaba se cadastrando no aplicativo e marca encontro com uma pessoa, sem imaginar que o perfil é do grupo homofóbico. Na parte , vemos a conclusão desse crime e também, um plot twist. O título do filme pega emprestado da premiada série de Ryan Murphy "American crime story", Por ter sido produzido por tão pouco dinheiro, o filme acaba sofrendo problemas em quesitos técnicos. O elenco também varia bastante, com bons atores mesclados a amadores. Do elenco, quem mais impressiona é Dylan Hartman, no complexo papel de Noah. Mas as intenções do filme são realmente boas, e mesmo que a Parte 3 do filme enfraqueça todo o projeto, vale a pena assistir e refletir sobre o caminho que as relações homoafetivas estão tomando através dos aplicativos, que "desumanizam" o afeto.

A testemunha invisível

"Il testimone invisibile", de Stefano Mordini (2018) Refilmagem italiana do excelente suspense "Um Contratempo", de Oriol Paulo, conhecido como o Shayamalan espanhol. Praticamente filmado plano a plano como no original, essa refilmagem é tecnicamente bem feita e defendida por ótimos atores, entre eles, o Star italiano Riccardo Scamarcio. Para quem não assistiu ao filme espanhol, vale assistir a essa versão. Para quem assistiu, parece claro defender de que o original é melhor. Mas como o italiano é filmado praticamente igual, considero as duas versões muito boas. Adriano (Scamarcio) é um empresário de grande sucesso. Casado e com uma filha, ele tem uma amante, Laura, igualmente casada. Laura e Adriano se encontram esporadicamente em lugares afastados. Ao voltarem de carro do último encontro, em uma estrada deserta, eles provocam sem querer um acidente de carro. O motorista do outro carro está aparentemente morto, e temendo que isso repercuta em sua carreira, Adriano afunda o carro no lago. Os pais do rapaz acusam Adriano de terem escondido o corpo, e sem provas, o caso está encerrado. Adriano contrata uma poderosa advogada, Virgina (Maria Paiato) para defendê-lo, e para isso, ela precisa saber de todos os detalhes do ocorrido. Como o inteligente e instigante roteiro propõe, é preciso estar atento aos detalhes. E isso vale também para o espectador. Assistir ao filme pela 2a vez é sempre uma boa, para prestar atenção nos "detalhes"e na atuação do elenco. É um filme com mitos plot twists, e para quem curte viradas surpreendentes na história, é obrigatório.

sábado, 13 de julho de 2019

Cezanne e Eu

"Cezanne et moi", de Daniele Thompson (2016) A Cineasta Daniele Thompson tem em seu currículo várias comédias dramáticas, em especial, o cult "Um lugar na platéia", de 2006. Em "Cezanne e Eu", Danielle investiga a relação de amizade conturbada entre o pintor Paul Cezanne e o escritor Emile Zola. Cezanne foi um dos precursores do pós-impressionismo e do cubismo francês, enquanto Emile Zola inaugurou a narrativa naturalista, falando de operários e classe trabalhadora. O filme acompanha a amizade dos 2, desde a infância, no ano de 1860, até a ruptura da amizade entre ambos, já no final do mesmo século. Zola, descendente de italianos, era de família pobre. Ja Cezanne era de família aristocrata. Se tornaram grandes amigos, juntos de Manet e outros artistas quando crianças. Já adultos, Cezanne rompeu com seu pai e família, buscando uma vida mais pobre e longe da burguesia. Já Zola buscou o contrário: foi ficando rico, com seus livros, e vivendo uma vida de burguês. Cezanne se tornou um homem temperamental, misógino, enquanto que Zola pensava em constituir família. O ápice da briga entre ambos foi quando Zola lançou o livro "A obra prima", onde mudando nomes, trouxe à tona a vida de Cezanne, o que irritou o amigo. Vai se frustrar para quem, como eu, foi ver o filme querendo ver obras de Cezanne. O filme evita mostra uao máximo, dando foco na relação entre os dois. O ritmo é muito lento, a verborragia é extensa e o filme é bem longo, parece interminável. Vale pelo belo trabalho dos dois atores: Guillaume Caunet, no papel de Zola, e Guillaume Gallienne, da excelente comédia premiada "Eu, minha mãe e meus irmãos".

Não procures mais além

"Não procures mais além", de André Marques (2019) Os vampiros negros no Cinema quase sempre foram apresentados em filmes Blackexploitation como no clássico B "Blacula", ou em produções com protagonistas pops, como Eddie Murphy em "Um Vampiro no Brookyn" ou Grace Jones em "Vamp- A noite dos vampiros'. O Premiado Cineasta português André Marques, diretor dos aclamados "Luminita" e "Yulia", traz em seu mais novo filme "Não procures mais além" um casal de vampiros negros, refugiados do Haiti e que agora se encontram em solo português. André também escreveu o roteiro, produziu e realizou a trilha sonora, em um trabalho de total domínio de técnica e linguagem cinematográfica. O grande trunfo de seu filme é o trabalho de som: os personagens, vampiros, se comunicam através de telepatia. Ouvimos as suas falas em Off, em uma narração belíssima dos atores portugueses Lucília Raimundo e Mauro Lopes. Lucília é Elie, e Mauro é Loic. Vagando por uma floresta, Elie desenterra Loic, que está desmemoriado. Ele não sabe quem ele é, mas as memórias vem aos poucos. Elie e Loic se conheceram no Haiti há 2 séculos atrás. Em torno de todo esse mistério que envolve o roteiro, que vai se revelando aos poucos, até um surpreendente desfecho, o filme fala de colonialismo, misticismo, vodu e principalmente, o Amor entre vampiros, metáfora clássica do vampirismo, já vista em cults como "Amor eterno", de Jim Jarmusch, "Fome de viver", de Tony Scoitt e "Entrevista com um vampiro", de Neil Jordan. André é um cineasta cinéfilo, e essa paixão pelo Cinema está impregnada em cada fotograma desse seu belo filme. Vislumbrei inclusive nas performances dos atores, uma referência ao trabalho de atuação nos filmes de Robert Bresson, que chamava seus atores de "Modelos" e que deveriam apresentar os diálogos de forma naturalista, sem "atuar". "Não procures mais além" é um filme instigante, repleto de alegorias e metáforas sobre a inversão dos papéis dos dominadores e dominados. Mas antes de tudo, uma ode ao Amor. Amor ao Cinema, Amor ao próximo.

Turno da noite

"Nochnaya smena", de Marius Balchunas (2018) Acho que essa é a primeira comédia russa que eu assisto, 100% passatempo feito para se divertir. Normalmente as produções russas que se denominavam comédia eram mais voltadas para o drama com alguns poucos toques de humor, o que não é o caso de "Turno da noite". O filme é quase que uma refilmagem de "Tudo ou nada"ou "Magic Mike", filmes mais famosos do grande público por mostrarem personagens que perdem o emprego e que encontram no streap tease uma solução momentânea para o desemprego. O filme começa com um prólogo mostrando a grande fase áurea dos estaleiros e da construção civil na União Soviética/ Corta para os dias de hoje. Crise econômica e aumento da taxa de desemprego. Mas e Seryoga são dois amigos que trabalham em uma empresa de construção civil. Descobrem que a empresa está afundada em dívidas e acabam sendo demitidos, sem receber salário de meses. Max é casado com Kristina e tem uma filha pequena. Ele tenta procurar outros empregos, sem sucesso. Kristina vai tentar arrumar emprego pro marido através de um ex-namorado dela, que a corteja. Max acaba indo parar em um clube de streap tease masculino para soldar um pole dance, mas o seu tipo fisico atrai as atenções dos donos do clube, que o contratam para shows. Max aceita, mas não fala nada para sua família. Divertido e apresentando uma Russia mais pop, o filme tem personagens bastante carismáticos. O Humor, surpreendentemente, é bem escrachado e apela para muitas piadas visuais, obviamente que a maioria envolvendo segundas intenções e erotismo. O ator Vladimir Yaglych, que interpreta Max, é muito bom, uma espécie de Channing Tatum mais troglodita.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Head count

"Head count", de Elle Callahan (2018) Filme de estréia da cineasta Elle Callahan, especialista em efeitos especiais e edição, "Head count" é um filme de terror psicológico independente, realizado com pouca grana mas bastante competência técnica. Uma mistura de "O caminho do mal", "Evil dead" e "A coisa", três grandes clássicos do cinema de gênero, "Head Count" tem como protagonista Evan, um jovem que acaba de se formar na escola fundamental e vai entrar na faculdade. De férias, ele vai até Joshua Tree, deserto da Califórnia, para se encontrar com seu irmãos mais velho, Peyton, que resolveu virar uma espécie de Eremita do deserto. Durante uma caminhada no deserto, eles conhecem um grupo de 9 adolescentes, entre eles, a fotógrafa Zoey, por quem Evan se interessa. O grupo convida Evan para passar uns dias na casa deles. Durante uma noite de bebedeiras em torno da fogueira, o grupo decide contar histórias de terror. Even pesquisa na internet e lê sobre o HINJA, uma entidade que se tiver o nome pronunciado 5 vezes, criará vida e toma a forma de seres humanos. Com uma narrativa lenta, baseada em travellings lentos que constróem uma bela atmosfera de suspense, a cineasta e roteirista Elle Callahan vai revelando uma consistente história de paranóia, defendida por um bom elenco. O problema aqui é que o grupo de jovens é enorme, são 10, e fica difícil até mesmo memorizar os rostos deles. Ma sé uma produção eficiente, dando uma lição de que sim, é possível fazer um bom suspense sem apelar para efeitos especiais. O roteiro é batido, o que torna o filme algo acima da média é a decupagem e a fotografia, transformando tudo numa grande metáfora de uma América que cada vez mais, isola a nova geração de um futuro promissor.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

A Zona

"The Zone", de Joe Swanberg (2011) Joe Swanberg é o Papa do Movimento "Mumblecore": cinema feito sem dinheiro, convocado amigos para equipe e elenco. Por ano, Joe costuma dirigir de 5 a 7 filmes. Amado e odiado, Joe prefere manter uma frequência de realização de filmes para exercer a prática e poder convidar amigos atores que não encontram chance em filmes de mercado. No entanto, boa parte dos filmes de Joe lidam com sexualidade explícita. Os atores atuam de forma naturalista, ficam nus, discutem assuntos corriqueiros do dia a dia, nada muito revelador. pode -se dizer que os filmes de Andy Warhol ou até mesmo de John Cassavettes já tinham esse pensamento de liberdade estética e de mercado. "A zona"é um filme dividido em 2 partes: na primeira, um jovem casal e uma amiga dividem um apartamento no Brooklyn. Um homem misterioso surge para cada um deles e os seduz, uma referência explícita à "Teorema", de Pasolini. Abruptamente, esses mesmos atores estão sentados em frente a um computador, junto do Diretor do filme, Joe Swanberg. Todos discutem as cenas que foram vistas na primeira parte. Os atores, de uma forma geral, fazem críticas ao diretor pela forma como ele expõe os corpos, a relação sexual entre os personagens. O casal é casado na vida real, e a outra jovem é casada com o diretor Joe Swanberg. No filme, Joe obriga o casal a fazer sexo com a esposa de Joe. Eles relutam, mas pelo filme, cedem. Daí na segunda parte, eles discutem ese limite tênue entre realidade e ficção. "A zona" é um dos filmes menos interessantes de Joe, mas mesmo assim, traz um tema muito interessante que merece discussão nesses tempos de politicamente correto e de militância: até aonde vai o papel do Diretor e dos atores, para chegarem a um consenso em relação à cena que irão filmar?

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Neville D’almeida- Cronista da beleza e do caos

“Neville D’almeida- Cronista da beleza e do caos”, de Mario Abbade (2018) O crítico de cinema de O Globo Mario Abbade estréia na direção com um documentário que já começa fazendo referência a um dos filmes chaves da história do Cinema: “Apocalipse Now”, de Coppola. Com a câmera adentrando o que parece ser um rio ladeado por floresta, como se estivéssemos entrando no Camboja, e tocando ‘Cavalgada das Valquírias”, de Wagner, Mario nos convida para entrar na casa de Neville D’almeida, morador da Ilha da Gigóia, Rio de Janeiro. Neville é um dos Cineastas mais controversos e polêmicos da filmografia brasileira, e segundo o próprio, o mais censurado da história. O filme é composto de imagens de arquivo e entrevistas com Cineastas, atores, produtores, roteiristas, montadores, distribuidores, críticos e todo um rol de pessoas que têm muito o que falar desse “Enfant terrible” tupiniquim. Uma das imagens de arquivo mais contundentes, e que assustadoramente nos remete ao Brasil de hoje, apresenta parte da equipe e elenco de “Rio Babilônia’ discutindo com políticos e censores na época da ditadura em Brasília. O Governo exige cortes no filme, e Neville se recusa. A Atriz Denise Dumont diz uma frase categórica: “Você consegue imaginar uma pintura sem uma parte, uma sinfonia sem uma estrofe?” O filme avança cronologicamente a filmografia de Neville, indo dos seus primeiros filmes experimentais, até o que ele chama ser seu primeiro filme comercial, falando do seu desejo de querer falar para um público maior. Foi assim que veio Nelson Rodrigues na vida de Neville, e “A Dama do lotação”, até hoje, a quinta maior bilheteria da história do cinema brasileiro. Ouvir as pessoas falarem de “A dama do lotação”, de “Os 7 gatinhos”, de “Rio Babilônia”, é imperdível e uma aula de história. As imagens de arquivo somadas aos depoimentos de artistas remanescentes, como Lima Duarte, Denise Dumont ( que jura que não houve sexo real na cena da piscina de “Rio Babilônia”), Sura Berditchvsky que se negou a aparecer nua, de Regina Casé defendendo o seu nu total, mesmo sendo uma feminista e o que ela defende como “me vejo como uma índia e meu nu é maravilhoso”. Revisitar cenas de filmes de Neviile nos dias de hoje, periga suscitar discussões acerca de feminismo, machismo, assédio sexual, mulher objeto e outros termos. Mas Neville deixa claro que ele é um artista livre, e que como tal, precisa filmar o que lhe vier em mente. Ele não decupa, ensaia junto com os atores imbuído de vontade de filmar, de compartilhar, mesmo que para muitos, isso sôe como um Cineasta arrogante e difícil de lidar. Assistir ao filme é uma delícia, garantia de boas gargalhadas pelo absurdo das situações e impropérios ditos, e ao mesmo tempo, ouvir histórias maravilhosas de bastidores, como a da realização da Festa de “Rio Babilônia”. Pornográfico ou não, que venham mais filmes de Neville. O Filme teve um ótimo circuito em festivais, incluindo o prestigiado ‘Rotterdan”.

Nova coelhinha

"Bunny new girl", de Natalie van den Dungen (2015) Premiado curta australiano, produzido, escrito e dirigido pela Cineasta Natalie van den Dungen O filme trata com extrema delicadeza a questão do diferente no universo infantil. Anabelle é uma menina de 6 anos, e hoje é seu primeiro dia de aula. Tímida e escondendo um segredo, ela chega na sala de aula vestindo uma máscara de Coelhinha. O professor e a turma toda estranham. Um dos meninos pestinhas pratica bullying em Anebelle, mas ela ganha ajuda de uma outra menina. Sororidade em meninas é o grande ponto do filme, que traz um belíssimo registro espontâneo de crianças pequenas e melhor, agindo como crianças de sua idade. Tem que se tirar o chapéu para a cineasta, que conseguiu filmar a criançada de forma muito natural. O ator que faz o professor também é muito bom.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Primos

"Primos”, de Mauro Carvalho e Thiago Cazado (2019) Drama romântico LGBTQ+ adolescente, “Primos” é uma produção 100% independente brasileira, realizada com incentivos próprios. MACA é uma produtora que pertence aos sócios Mauro Carvalho e Thiago Cazado. Mauro é fotógrafo, e Thiago escreve os roteiros, dirige e atua. Eles transitam entre o Teatro e o Cinema, tendo realizado peças e curtas de sucesso. “Primos” é o segundo longa da dupla, após o sucesso de “Sobre nós”. Todos os projetos da produtora transitam sobre o universo LGBTQ+ entre os adolescentes, discutindo temas como homofobia, saída do armário, primeiro amor e conflitos típicos de gente jovem. A história é bem simples: Lucas vive com sua tia religiosa, Lurdes, em uma casa no interior. Lurdes costuma trazer beatas para oração em sua casa, e Lucas, que dá aulas de piano, faz o fundo musical das orações. Uma jovem, Julia, sente atração por Lucas, que vai se desvencilhando como pode. Um dia, Lurdes anuncia a vinda do seu outro sobrinho, Mario ( o diretor Thiago Cazado), que foi preso e por isso, sua família o renegou. Ao chegar na casa, os primos acabam sentindo uma forte atração, mas Lucas teme que a tia Lurdes e as betas descubram que ele é gay. Como roteiro, o filme é bastante singelo. Mas ele é bem produzido para um filme independente, com dois ótimos protagonistas, Thiago Cazado e Paulo Souza, carismáticos. A tia Lurdes também tem uma bela interpretação. Quanto às beatas e Julia, a escolha pela caricatura enfraqueceu as personagens, principalmente em seu desfecho, onde fica patente a fragilidade das atuações dessas participações. Mas o filme é bem intencionado, e trazer o conflito da saída do armário, aliado à religião, é um barril de pólvora que de certa forma, o filme apresenta bem para um público jovem. O que mais surpreende no filme, além do seu humor ingênuo e as piadas repletas de segundas intenções, é a ousadia em relação às cenas de nudez total dos dois atores, que se expõe sem qualquer constrangimento e totalmente à vontade. Um belo filme do cinema independente, que merece ser visto.

45 dias sem você

"45 dias em você", de Rafael Gomes (2018) Que filme delicioso! “45 dias sem você”, cujo título faz uma brincadeira com o cult romântico “500 dias com ela”, é uma comédia dramática e romântica LGBTQ+, filmada em 5 Países, e totalmente financiada com investimento próprio pelo roteirista e diretor Rafael Gomes e mais alguns amigos produtores. Rafael é um dos Diretores do curta cult “Tapa na pantera”, e aqui estréia no longa-metragem. Como todo filme independente, Rafael viajou com uma equipe e elenco reduzido para poder filmar em Londres, Paris, Lisboa, Buenos Aires e São Paulo. Para otimizar o orçamento, ele aproveitou que boa parte dos atores estavam nos países e ainda escalou elenco local. Aliás, o elenco é um dos grandes trunfos do filme: que galera talentosa, carismática, repletos de energia boa! Rafael de Bona, como o protagonista, Julia Correa, Fabio Lucindo, Mayara Constantino, tanto eles como os atores estrangeiros emprestam seus nomes aos personagens, uma forma de tornar o filme mais vivo e espontâneo. A fotografia de Dhyana Mai e a trilha sonora de Janecy Nascimento são outros grandes elementos técnicos que ajudam a cativar o espectador e entrar nesse mundo que fala de uma geração em busca de um sentido para a sua vida. O filme se aproxima de “Terra estrangeira”, quando quer falar de jovens brasileiros buscando uma luz fora do Brasil, já que aqui só vislumbraram trevas. Inclusive, em uma cena em Lisboa, toca a mesma musica de Gal Gosta do filme de Walter Salles, “Vapor barato”. Rafael está triste, Acabou um relacionamento de 4 anos com seu ex-namorado, e por amor, aguardou o retorno dele por 45 dias. Frustrado, resolve fazer uma mala e viajar por 45 dias e revisitar 3 grandes amigos: Julia em Londres, Fabio em Lisboa e Mayara em Buenos Aires. Entre desilusões de cada um desses personagens, pequenos flashes de amor, alegria e ilusão. Curiosamente, todos os amigos de Rafael são atores e buscam um Plano B. Ícaro Silva faz uma participação como um amante de Rafael, em Lisboa. A trilha sonora, repleta de canções rock indies, é uma outra delícia.

domingo, 7 de julho de 2019

Mar aberto

"Niemand in de stad", de Michiel van Erp (2018) Adaptação do best seller homônimo escrito por Philip Huff, "Mar aberto" é um belo drama holandês que tem como tema o amadurecimento de 3 rapazes, amigos de longa data. O filme tem todos aqueles clichês de filmes americanos sobre "coming of age": festinhas, boites, strippers, namoradas, traições, bebedeiras, falta de comunicação com adultos, medo de amadurecer..só que aqui, tudo é tratado com realismo, sem humor. Philip, Matt e Jacob são 3 melhores amigos e estão terminando o ensino fundamental para enfrentar a Universidade. Eles moram e estudam em Amsterdam, e enfrentam todos os tipos de situação que passa um adolescente. Mas um deles acaba se suicidando, e essa morte provoca uma reviravolta na vida dos outros amigos. Com ótima performance dos atores, o filme é bem dirigido e com diálogos que, mesmo que não tenham nada de novo, são apresentados de forma espontânea e sem soar forçados. O filme possui nudez frontal o tempo todo, além de cenas de sexo bastante ousadas, afinal, é um filme holandês. Para quem quiser matar saudades de Armsterdam, o filme mostra lindas locações da cidade, belamente fotografas e embaladas por uma trilha sonora muito bonita.

sábado, 6 de julho de 2019

O último negro em São Francisco

"The last black man in San Francisco", de Joe Talbot (2019) Vencedor dos Prêmios de melhor Direção e de colaboração criativa em Sundance 2019, "O último negro em São Francisco" é uma impressionante estréia na Direção de Joe Talbot, que co-escreveu o roteiro com seu amigo de infância, Jimmie Fails, que também protagoniza o filme, baseando a história em sua própria vivência. O filme fala sobre identidade da Cultura negra e de gentrificação em São Francisco. Até os anos 40, bairros do centro da cidade tinham como moradores japoneses e negros. Com a 2a guerra mundial, o Governo expulsou ambos para a periferia, assumindo as casas e entregando-as para famílias brancas. Nos dias de hoje vive Jimmie (Jimmie Fails) em uma dessas periferias. Sua mãe o abandonou, seu pai também. Jimmie trabalha como curador de idosos, e mora em um quarto na casa de seu melhor amigo, Montgomery (Jonathan Majors, excelente), que trabalha como pescador, mas sonha em ser dramaturgo. O pai de Montgomery, Allen (Danny Glover, emocionante) está cego, e ambos passam as noites vendo Tv e o filho narrando os filmes para o pai. Todos os dias, Jimmie passa em frente a uma mansão vitoriana, e diz a todos que seu avô foi quem a construiu nos anos 40, mas que a perdeu para o Governo. Jimmie quer retomar a casa, mas um casal de brancos de classe média alta mora ali. Um dia, Jimmie descobre que o casal se mudou e que a casa está sob intervenção por problemas de herança. É a deixa para Jimmie se apossar da casa de forma clandestina, trazendo consigo Montgomery. "O último negro em São Francisco" é um melancólico registro sobre a perda da identidade de várias culturas que acabaram desaparecendo na história da cidade. Um lamento vigoroso e surpreendente, com um roteiro denso e performances arrebatadoras de todo o elenco. A fotografia de Adam Newport-Berra é tão bela, realçando cores e trazendo uma atmosfera quase que de sonho para o sonho. Uma sequência antológica: um senhor negro cantando na rua "San Francisco- Be sure to wear some flowers in your head"de forma tão visceral, que é impossivel nao soltar lágrimas. Obrigatório.

Ao pó voltará

"To Dust", de Shawn Snyder (2018) Vencedor do Prêmio do público no festival de Tribeca 2018, 'Ao pó voltará" é uma instigante comédia dramática que tem como tema a obsessão pela Morte, algo semelhante ao cult de Peter Greenaway, 'Zoo - um Z e Dois zeros". O filme foi criticado pela comunidade judaica, por apresentar o questionamento de um judeu chassídico sobre o que vem depois da Morte. Shmuel (Géza Röhrig, protagonista de "O Filho de Saul", excelente) é um judeu que acaba de perder sua esposa, morta pelo câncer, De luto e sem saber como lidar com o vazio, ele não ouve os conselhos de sua mãe, que diz para ele seguir em frente, e de seus 2 filhos, que acham que o espírito de se apossou do pai. Obcecado em saber o que acontece com o corpo humano após a morte e como se decompõe, Schmuel procura ajuda de um rabino, que o ignora. Ele acaba procurando ajuda de um professor de biologia ateu, Albert (Matthew Broderick, ótimo), que não sabe precisar quanto tempo um corpo leva para virar pó. Ambos partem em busca de cadáveres para saber a resposta. Divertido e estranho ao mesmo tempo, o filme merecia um prêmio de roteiro, dado a curiosa natureza do tema, que além de discutir morbidamente a decomposição do corpo, com fortes cenas de putrefação, discute também Religião e a existência de Deus e de até mesmo, uma alma. Performances maravilhosas dos protagonistas.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Eu dormi debaixo da água

"J'ai rêvé sous l'eau", de Hormoz (2008) Escrito e dirigido pelo Cineasta Hormoz "Eu dormi debaixo da água" é quase que uma refilmagem de "Eu, Cristiane F", mas sem ser protagonistas menores de idade. Antoine é guitarrista de uma banda de garagem, cujo vocalista, Alex, é sua paixão platônica. Um dia, Alex morre de overdose e Antoine se desespera, entrando no mundo da prostituição. Antoine passa a transar com homens não pelo dinheiro, mas pelo medo de ficar sozinho. Até que ele conhece Christine, uma viciada em heroína que ele deseja tomar conta. Pervertido e com cenas de sexo explícito, "Eu dormi debaixo da água" tem muitas cenas fortes, mas escondidas debaixo de uma luz bem escura. Uma das cenas, é um gan bang no qual o protagonista Antoine participa: um grupo de 4 homens se revezando para transarem com Antoine. E esse é o problema do filme: fotografia escura demais, mal dá para se ver muita coisa. O roteiro também não oferece muita coisa, e mostra de forma bastante superficial os personagens, que agem apenas por impulsos e sem muita psicologia envolvida. Os atores estão ok, mas nada de muito extraordinário. Pelo menos atuam em cenas viscerais de sexo, o que mostra uma entrega artística por parte deles.

Visão da morte

"Deadsight", de Jesse Thomas Cook (2018) Produção canadense de terror, que pega carona em todos os filmes de zumbis e ainda traz referência a "Blrd box", filme com Sandra Bullock do Netflix. Filme independente, feito com pouca grana, começa como metade dos filmes de zumbis: um homem acorda do nada, e de repente percebe que as pessoas desapareceram. Pior: ele não consegue enxergar nada, e está com uma faixa cobrindo os olhos. Ele consegue fugir até uma casa abandonada, e ar ser atacado por zumbis, é salvo por uma policial grávida. Juntos, precisam aceitar seus limites para continuar a sobreviver. Se você quiser criar um filme onde os personagens estão fudidos, faça que nem esse aqui: só existem 2 sobreviventes no mundo, mas um está cego e a outra, grávida. Sem grana, o filme aposta em uma meia dúzia de zumbis que quebram o galho, mas que não provocam aquela sensação de que tudo está fudido. A policial consegue caminhar sozinha na estrada, o cego consegue atacar os zumbis...cego!!!!! Com tanta loucura, melhor ignorar o roteiro e atentar ao trabalho dos 2 atores principais, que conseguem dar alguma veracidade e performance dignas ao filme. O desfecho é uma bobagem.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Homem Aranha- Longe de casa

"Spider man- Away from home", de Jon Watts (2019) Diretor do primeiro longa solo de Homem Aranha com Tom Holland no papel principal, realizado em 2017, "Homem Aranha- de volta para casa", Jon Watts também realizou em 2015 o filme de terror independente "O Palhaço". "Longe de casa" aposta mais em uma aventura de ação Teen. A primeira parte do filme é quase que uma comédia de grupo de adolescentes que partem com os professores para uma excursão na Europa: Veneza, Praga, Londres. A ação acontece mesmo na metade do filme, quando surgem Mysterio com força total, protagonizado por Jake Gyllenhaal, e os seres elementares. Aliás, Mysterio achei bastante semelhante ao Dr Estranho, inclusive com as alucinações e o mundo de ilusionismo que ele envolve os seus inimigos. Aliás, a cena do homem Aranha "fisgado" no mundo do ilusionismo de Mysterio é a melhor cena do filme, fora a cena do crédito final quando o cinema inteiro cai duro e bate palmas. Não é o melhor dos filmes do Aranha, quebra um galho e o que tem de melhor, é o elenco de jovens atores que fazem os amigos de Peter Parker, além de Marisa Tomei, que está ótima como Tia May. Jake Gyllenhaal não mete medo como Mysterio, mas como é bom Ator, a gente abstrai. O que me abismou foi tentar entender a fortuna gasta para fechar cartões postais em Veneza, Praga e Londres para as filmagens.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Michel Legrand - Sem meia medida

"Michel Legrand: Sans demi-mesure", de Gregory Monro (2018) Documentário obrigatório para Cinéfilos sobre um dos maiores compositores do Cinema falecido em 2019. Michel Legrand, francês, começou sua carreira como cantor e compositor, trazendo fortes elementos de jazz em sua trilha. Trabalhou com Cineastas icônicos como Agnes Varda ( Cleo de 5 às 7), Godard (Bande a parte), mas foi sua parceria com Jacques Demy que o levou à fama mundial, com obras-primas como "Os guarda chuvas do amor", "Duas garotas românticas"e "Pele de asno". Em sua fase americana, ganhou 3 Oscar por "Crow, o magnífico", "Yentl" e "Houve uma vez um verão". Com depoimentos de Cineastas famosos como Bertrand Tavernier e o fã confesso Damien Chazelle, de "La la Land", que inclusive fala com francês fluente.

Away with me

"Away with me", de Oliver Mason (2015) Premiado curta LGBTQ+ inglês, escrito e dirigido por Oliver Mason. Um filme sensual e hipnotizante, protagonizado por 2 belos atores e com paisagens estonteantes em Nice, França. O filme fala sobre insegurança emocional durante um relacionamento e o ciúme, que destrói tudo. Paolo tem 40 anos, é um homem bem sucedido. Ele conhece Alex, 18 anos, em um aplicativo. Eles transam e rola uma grande química entre eles. Apaixonado, Paolo convida Alex para passar um final de semana romântico em Nice, França. Mas Paolo começa a achar que outros homens estão seduzindo Alex, e que Alex está dando mole. Bem dirigido, com belas imagens e cenas de sexo e interação entre os atores muito bem conduzidas. Tudo filmado com muito bom gosto e tesão. O roteiro é simples, mas dá conta de expôr os anseios de um protagonista ciumento. Fotografia exuberante de Magda Kowalczyk.

Ainda é a sua cama

"It's still your bed", de Tyler Reeves (2019) Para a comunidade LGBTQ+ que reclama que os filmes voltados para eles estão muito depressivos ou violentos, "Ainda é a sua cama"é o filme ideal para se assistir com amigos, namorado e se possível, de mãos dadas ou abraçadinho. O filme é um conto de fadas do mundo ideal para os gays: saída do armário e todos os amigos apoiam; elenco lindo e maravilhoso, saído de uma capa de revista Teen; descoberta do primeiro amor, onde tudo são flores e paixão; fotografia e locações deslumbrantes; trilha sonora sentimental; e claro, um happy end daqueles de suspirar. O jovem estudante David vem passar as férias de verão da faculdade na fazenda de seu pai. Ao chegar lá, tem uma surpresa: seu pai hospedou no seu quarto, o empregado que veio fazer os serviços durante o verão. Detalhe: o empregado é jovem, lindo e a melhor pessoa do mundo, Brent. Claro que os dois, dividindo o mesmo quarto, não irão reclamar. e óbvio que vai rolar o amor mais lindo do mundo. Mas mesmo com tanto romantismo exacerbado, o filme surpreende com uma cena extremamente pervertida: David acorda de madrugada, e vê Brent se masturbando na cama. Brent se limpa com um lenço de papel e joga no chão, indo dormir em seguida. David pega o lenço "usado", cheira, bota o dedo no esperma e o lambe, com a sensação de estar provando o liquor mais delicioso do mundo. Apaixonados do mundo gay, que se puder, assistam ao filme. O mundo é lindo e maravilhoso.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Anna - o perigo tem nome

"Anna", de Luc Besson (2019) O Cineasta e produtor francês Luc Besson já fez história: é dele alguns dos filmes mais cults do Cinema dos anos 80 , 90 e 2000: "Subway", "Imensidão azul", "O quinto elemento". Besson também ficou famoso por realizar filmes onde as protagonistas são assassinas profissionais: "O profissional" ( filme que lançou Nathalie Portman), "Nikita", "Lucy" e agora, "Anna". São várias as mulheres de Besson, e todas parecem ter saído da mesma linhagem: duronas, frias, poderosas, lindas, atraentes e muito, muito violentas e duras na queda. Besson lançou Natalie Portman, Milla Jojovich e agora lança a modelo russa Sasha Luss, no papel principal. A história, todo mundo ja viu mil vezes: ambientada nos anos 80, em um mundo dividido pela Cortina de ferro, uma mulher, Anna, luta para sobreviver. ela acaba sendo admitida no serviço militar russo, a Kgb, e treinada para ser uma super agente russa. O que ninguém esperava, é que ela também fosse recrutada pela Cia, e a partir daí, trabalhando como agente dupla, e pior, se apaixonando por um agente russo, Alex (Luke Evans), e por um americano, Lenny (Cillian Murphy). Para completar esse time de super astros, Helen Mirren interpreta Olga, uma super espiã russa, chefona da Kgb. Mas o que o filme tem de melhor, é a sua estrutura narrativa: a mesma cena chave é vista de novo, agora sob outro ângulo e outro ponto de vista. Isso acontece toda hora, provocando plot twists e deixando o espectador curioso. Esse recurso acaba provocando certa confusão, portanto é bom o espectador ficar bem atento a detalhes para não se perder. As cenas de ação são mito bem orquestradas, e uma cena muito foda é a de um restaurante em Moscou; Anna, sem armamentos, mata dezenas de seguranças usando pratos de porcelana. O que eu não gostei, e prejudicou o senso de realismo do filme, é que todos os agentes russos falam em inglês no filme, e mais, são atores ingleses escalados. Daí, quando o agente russo Alex pergunta se Anna fala inglês, e eles falam em inglês, ficou algo muito sem noção. Teria sido melhor o elenco russo falar na língua nativa, ainda mais que o filme quer marcar esse mundo dividido em dois pólos. Sacha Luss tem carisma, e torço para que ela consiga ganhar o seu espaço esse mundo do entretenimento. Apesar dela ser protagonista, ainda escrevem roteiros aonde a mulher precisa usar do seu charme e sensualidade para conseguir seus intentos. E isso talvez prejudique o filme, assim como o semelhante"Red Sparrow", com Jennifer Lawrence.

Espírito jovem

"Teen Spirit", de Max Minghella (2018) Uma espécie de refilmagem de "Flashdance", com todos aqueles clichês que a gente ama em filmes desse gênero da luta e perseverança para se conseguir um lugar ao sol. O tema foi atualizado para os dias de reallity shows musicais, tipo "American idol", 'The Voice", e aqui, chamado de "Teen Spirit". Protagonizado por uma luminosa e talentosa Ellen Fanning, que aqui interpreta Violet, uma inglesa moradora da Ilha de Wight, na Inglaterra. Morando apenas com sua mãe polonesa ( o pai foi embora depois de descobrir a traição da esposa), ambas cuidam de animais do pequeno sítio que possuem, passando dificuldade financeira. Violet trabalha em um bar e sonha em ser cantora. Ao descobrir que o Reallity "Teen Spirit" está fazendo audições na Ilha, ela se candidata, contando com a ajuda do ex-cantor de ópera croata, o alcóolatra e decadente Vlad (Zlatko Buric, excelente) para treiná-la Primeiro filme dirigido pelo Ator Max Minghella, que vem a ser filho do Cineasta Anthony Minghella. Max também escreveu o roteiro, que não oferece nada de novo em termos dramatúrgicos. O grande potencial de Max é na Direção: conduzindo com muita destreza e sensibilidade os atores e a fotografia, que ilumina de forma melancólica a vida das pessoas sonhadoras. Visualmente, o filme tem uma pegada bem autoral, de filme independente. A trilha sonora é composta de hits recentes, e Elle canta de verdade, surpreendendo no vocal. Um filme gostoso de se assistir, ideal para se ver num final de dia para um passatempo fora dos padrões dos filmes herméticos. A fotografia, deslumbrante, é da fotógrafa Autumn Durald.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O beijo do Deus Coelho

"Kiss of the Rabbit God", de Andrew Thomas Huang (2019) Cineasta americano de descendência chinesa, Andrew Thomas Huang é famoso no mundo inteiro por dirigir Video Artes da cantora islandesa Bjork. Ele também realizou curtas experimentais premiados, e agora, estréia na ficção com esse aclamado Curta LGBTQ+, que teve premiere no Festival de Tribeca 2019. O filme mistura mitologia chinesa com a dura realidade de um jovem empregado de um restaurante chinês de Los Angeles, escravizado pelos seus patrões. O rapaz, homossexual enrustido, se apaixona pela personificação do Deus Coelho. No Século XVIII, um soldado foi condenado à morte por confessar amor a um outro homem. O seu espírito foi perdoado, pois ele morreu por Amor. A esse espírito, chamou-se de Deus Coelho. O Deus Coelho se faz passar por um rapaz punk e mostra os prazeres do amor gay para o empregado. Misturando elementos de fotografia estilizados, fotografado pela fotógrafa japonesa Rina Yang, que trabalhou como camera em "Bohemian Rapsodhy", o cineasta e video artista Andrew Thomas Huang faz uma metáfora sobre a descoberta da sexualizada. É um filme cheio de simbologia, e não é de fácil assimilação. É um filme belo, mas talvez, pretensioso.

Nesse lugar cinzento

"In this gray place", de R.D. Womack II (2018) Produção independente americana escrita e dirigida por R.D. Womack II, venceu mais de 20 Prêmios em Festivais indies. Esse grande feito ocorre porquê 90% do filme acontece em uma única locação, um banheiro de um Posto de gasolina de estrada. Aaron está fugindo da polícia e se refugia nesse banheiro. Durante o filme todo, ele tenta dialogar com um policial do lado de fora da porta, que nunca vemos, só ouvimos, e com sua namorada., Laura, pelo telefone. em flashbacks, sabemos que Aaron participou de um assalto a uma pequena joalheria junto de seu cunhado, e o assalto foi frustrado. Como em muitos filmes que acontecem em uma única locação, tudo depende da decupagem, da mão do Diretor e do editor para darem ritmo, ao fotógrafo, de imprimir a claustrofobia necessária à produção, e principalmente, ao talento do Ator principal, além de contar com diálogos inspirados. Muitos desses itens ficam no meio do caminho: a fotografia não consegue ajudar a dar realismo ao cenário do banheiro, claramente realizado em estúdio ( li que foi construído em uma garagem de uma casa do Diretor); o roteiro não oferece muitas reviravoltas; o protagonista, Aleksander Ristic, faz o que pode dentro de um roteiro sem muitas curvas; e o Diretor também se vira nos 30 para conseguir tensão em um cenário tão pouco inspirado. O que dá um tom interessante ao filme, é a inspiração em Terrence Malick: o diretor criou cenas lúdicas, poéticas, como se o protagonista estivesse delirando. em cima dessas imagens, ouvimos o off narrado pela namorada, Laura, em tom diáfano, como nos filmes de Malick. Não casa muito com a proposta do filme, mas fica bonito pelo menos.

A espera

"StandBy: l'attesa", de Giorgio Volpe (2018) Premiado curta LGBTQ+ italiano, dirigido com muita sensibilidade pe;o roteirista e Cineasta Giorgio Volpe. Anita é uma jovem que aguarda seu exame médico em um hospital. Enquanto aguarda ela observa os outros pacientes ali presentes, criando história para cada um deles, Até que seus olhares focam em 2 rapazes que não se conhecem: Filippo e Simone. Percebendo que os dois têm interesse um no outro, Anita acaba os aproximando. Filippo e Simone marcam encontro e se apaixonam. Mas a verdade é que um deles descobriu ser portador do HIV, e tenta ver a melhor forma de contar ao parceiro. Com um tem tão delicado, Giorgio Volpe realiza da forma mais simples possível, focando a sua atenção no trabalho dos atores. O filme exagera no melodrama, apostando em uma trilha sonora que intensifica o tom melancólico. Mas para quem busca um filme sensível, é uma linda pedida.

domingo, 30 de junho de 2019

O Rei Leão

"The Lion King", de Roger Allers e Rob Minkoff (1995) Clássico da Disney que completa 25 anos agora em 2019, e que mereceu uma refilmagem em versão live action dirigido por John Favreau. Rever o filme é sempre um grande prazer, um filme que resgata o melhor da Disney em uma década que trouxe várias obras-primas, após um período de vacas magras e produções pouco memoráveis nos anos 70 e início dos 80. Misturando drama, romance, ação, suspense, comédia e musical, com canções orquestradas por Hans Zimmer e músicas compostas por Elton John e Tim Rice (a trilha e a canção"Can you feel the love tonight" receberam o Oscar). "O Rei Leão" embalou várias gerações, e o sucesso foi tão gigantesco, que gerou um Bilionário Musical da Broadway. A história do Leão Simba ( no original, voz de Matthew Broderick) que precisa resgatar o trono confiscado pelo seu tio Scar ( voz antológica de Jeremy Irons), assassino do pai de Simba, o Rei Mufasa (James Earl Jones em voz inesquecível e que também dubla na versão atual) já é conhecida por todos. Não há quem não se divirta com Pumbaa e Timão cantando "Hakuna Matata" e Simba e Nala cantando "Can you feel the love tonight". Toda a execução do cenário do Safari, que na época foi revolucionária, consumindo 3 anos de trabalhos, é um dos pontos altos do filme.

A garota das tranças

"Mitsuami no kamisama", de Yoshimi Itazu (2015) Filme de animação japonês, adaptação do mangá escrito pela japonesa Machiko Kyou . O Animador Yoshimi Itazu já havia colaborado com Satochi Kon, criador de "Paprika" e "Perfect blue". "A garota das tranças" é um melancólico e desesperançoso conto que traça uma metáfora sobre o Tsunami que devastou a costa japonesa em 2011. A protagonista da história vive isolada em uma casa, à beira do litoral. Existe um muro que divide sua casa do outro lado do mundo. Um carteiro entrega cartas para ela, mas ela não consegue perceber que ele está apaixonado por ela. Cientistas em roupas radioativas fazem checagem nos dois diariamente. Percebemos então que com o acidente, uma usina nuclear explodiu e contaminou a população, matando muita gente. Um filme complexo, com roteiro que deixa muita coisa em aberto. Os seres humanos não falam, mas os objetos sim: escova de dentes, travesseiro, prendedores de roupa, guarda-chuva, balão vermelho: todos têm fala e procuram narrar o acontecido. Todo desenhado em tons pastéis, não é um filme para crianças. O filme ganhou dezenas de prêmios em Festivais de cinema.

O corvo branco

"The White crow", de Ralph Fiennes (2018) Cinebiografia do bailarino russo Rudolph Nureyev, dirigido pelo Ator Ralph Fiennes. O filme foca no ano de 1961, quando Nureyev viajou para Paris com a companhia Kiev e acabou pedindo asilo político à França, o que foi prontamente aceito, após um incidente politico que aconteceu no Aeroporto, quando Nureyev antes de embarcar para Moscou, teve ajuda de uma amiga francesa, Clara Saint ( Adèle Exarchopoulos, de "Azul é a cor mais quente"). Nureyev é interpretado pelo ator e bailarino ucraniano Oleg Ivenko, em excelente composição. O próprio Ralph Fiennes interpreta um professor de dança russo, Pushkin. O filme tem excelente ficha técnica: fotografia, direção de arte, maquiagem ( Ralph Fiennes está irreconhecível) , mas a direção de Fiennes tem mão pesada e torna o filme bastante burocrático. O filme vale pelo ótimo trabalho de Oleg Ivenko e por escalar atores russos de verdade para papéis importantes da trama.

sábado, 29 de junho de 2019

A rebelião

"Captive state", de Rupert Wyatt (2019) Diretor da primeira parte da nova franquia de "O Planeta dos macacos", o cineasta Rupert Wyatt co-escreveu o roteiro de "A rebelião". Uma tarefe bastante ingrata: o roteiro é bastante confuso, com uma profusão de personagens que entram e saem e no final, ficam ainda dúvidas acerca de muitas sub-tramas. No ano de 2019, alienígenas invadem Chicago. Quase 10 anos depois, o mundo todo foi dominado pelos aliens. Humanos e alienígenas convivem juntos de acordo com as leis dos invasores. Os que forem contra as leis, sofrem consequências. Um grupo rebelde procura destruir os invasores, mas não encontram sucesso. O Policial Mullighan (John Goodman), que trabalha para os alienígenas, procura descobrir o paradeiro dos rebeldes, comandados pelos irmãos Gabriel e Rafe, cujos pais foram mortos pelos alienígenas em 2019. Com um elenco de apoio formado por Vera Farmiga e Ashton Sanders, de "Moonlight", "A rebelião" nunca empolga ou sequer decola. Sem ritmo, com algumas poucas cenas de ação e prejudicado principalmente porquê os alienígenas sempre aparecem no escuro, dificultando a sua visão, evidenciando o baixo custo da produção, de 25 milhões de dólares, pouco para uma ficção científica.

Anabelle 3- De Volta para casa

"Anabelle - Comes home", de Gary Dauberman (2019) Gary Dauberman é um roteirista de sucesso em Hollywood, tendo escrito toda a franquia "Anabelle", "A freira" e foi co-roteirista nas 2 partes de "It". ele agora estréia na direção com a terceira parte da franquia da boneca possuída, e surpresa das surpresas, realizou a melhor parte. Com uma decupagem que privilegia a criatividade nos planos, nos enquadramentos e movimento de câmera ( em especial, um recurso usado de espelhar na tela de uma tv tudo o que acontece com uma personagem) , Gary traz frescor à uma história que já dá sinais de cansaço. Espertamente, sabendo que somente a boneca não traria suporte suficiente para segurar o filme todo, Gary introduz outras entidades malignas, todas orquestradas pela Boneca: o cão do inferno, o barqueiro com olhos de moeda, a noiva assassina, entre outros. O filme mostra no prólogo como a boneca foi parar na casa do casal Lorraine e Ed Warren ( Vera Farmiga e Patrick Wilson). 1 ano depois, durante um final de semana onde o casal precisa se ausentar, sua filha pequena, Judy (Mckenna Grace, excelente) é cuidada pela babá, a jovem Mary (Madison Iseman). Daniela ( Katie Sarife) , melhor amiga de Mary, se convida para a casa e resolve visitar a ala secreta do lugar, onde todos os objetos secretos e malignos se encontram, incluindo a boneca. Daniela acaba libertando a Boneca de sua redoma, e fatos estranhos passam a ocorre na casa. Buscando referências em filmes clássicos de terror dos anos 80, como "Poltergeist", "Anabelle 3" tem como diferencial um belo roteiro onde existe conflito de personagens, majoritariamente femininos. Ótimos efeitos, excelente atmosfera de terror, que mesmo que faça uso de jump scares, faz de forma inteligente.

O Rei da Montanha

"The mountain King", de Duncan Tucker (2000) Curta LGBTQ+ premiado, um clássico do ano 2000. Escrito e dirigido por Duncan Tucker, que em 2005 viria a lançar o cult "Transamerica". Em uma praia deserta, um jovem e tímido turista senta na areia para ler um livro. Um rapaz se aproxima dele, e o convida para ir em sua casa de praia. Tentado, o turista segue, seduzido pelo jeito liberal do outro rapaz. Ao chegar na casa, o rapaz confidencia ao turista de que é um garoto de programa. Curioso, o turista pergunta o porquê dele ter entrado nessa vida. O michê conta, e o turista acaba se deixando levar pelo flerte, transando e cheirando cocaína, se revelando para um universo totalmente diferente do seu. Com ótimas performances de John Sloan e Paul Dawson ( que trabalhou em 'Shortbus", "O Rei da montanha" é um instigante drama sobre descobertas e sobre sedução que pode levar ao perigo. Um Alerta sobre conhecer pessoas anônimas e se deixar seduzir sem conhecer o mínimo dessa outra pessoa. Bem dirigido, repleto de erotismo, é um filme que merece ser visto.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Turma da Mônica- Laços

“Turma da Monica -Laços”, de Daniel Rezende (2019) Adaptação da Graphic Novel de Lu e Vítor Caffagi , que faz uma releitura do universo dos personagens de Mauricio de Souza, é dirigido por Daniel Rezende, realizador de “Bongo”, o filme sobre o palhaços Bozo. É interessante perceber a diferença que um cineasta Cinéfilo faz com um roteiro singelo sobre a busca do sumiço do cachorro Floquinho, cujo dono, Cebolinha, junta seus amigos para irem em busca do fiel mascote. Daniel Rezende busca referências em clássicos juvenis que fizeram parte da vida de todo marmanjo: “Conta comigo”, “ Os Goonies”, “ It, a obra prima do medo” ( observem a capa de chuva amarela de Cascão), “Et” e até mesmo das séries “Dark” e “Stranger things”. Para os adultos, é possível até ver um toque atmosférico de “ O silêncio dos inocentes”. É difícil imaginar uma obra que conte a vida das crianças ou adolescentes hoje em dia sem a presença de bicicletas e cidade pequena do interior. O que mais me chamou a atenção nessa pérola nostálgica foi a excelente qualidade técnica que envolve a fotografia de Azul Serra, da direção de arte e dos figurinos, trabalhando em conjunto para dar vida aos personagens icônicos de Mauricio de Souza: uma tarefa bastante difícil, visto que durante décadas nos acostumamos a ver Monica, Cebolinha, Cascão e Magali nos quadrinhos. (Continua)

Divino Amor

“Divino Amor”, de Gabriel Mascaro (2018) Mais do que “ Black Mirror”, uma associação que muita gente tem feita ao filme do mesmo realizador dos ótimos “Boi neon” e “Ventos de agosto”, “Divino Amor” me remeteu o tempo todo à fantasia distópico e sem esperanças de “ A lagosta”, do grego Yorgos Lanthimos. Na fábula protagonizado por Colin Farrel, ninguém poderia ser solteiro. Todo ser humano deve formar um casal e se amar de verdade, e como punição aos que não cumprirem essa meta, se transformam em animais. No filme de Mascaro, acompanhamos um Brasil ambientado em Recife do ano 2027. O país agora é uma Republica evangélica. Assim como em “Matrix”, rolam raves sexualizada onde a população canta músicas louvando ao senhor, e na intimidade, transam entre si, como forma de pregar amor ao próximo. Joana (Dira Paes, fabulosa) é funcionária exemplar de um cartório. Religiosa fervorosa, ela tenta impedir que casais se divorciem, e para isso, os convence a frequentarem o “Divino Amor”, um culto terapia para casais onde todos transam como em uma orgia. Joana frequenta também um Pastor Drive Thru, interpretado por Emilio de Mello, para receber conselhos. Casada com Danilo ( Júlio Machado, excelente), que trabalha como preparador de coroas de flores em velórios, o casal tenta engravidar, sem sucesso. Danilo se descobre infértil, e pior, Joana se descobre grávida. Ela alega ser obra do Messias que está por vir. O roteiro é uma grande alegoria que faz crítica ao núcleo familiar e à Igreja, além da burocracia do Estado. O elenco está de forma geral excelente, e é incrível testemunhar o despudor de atores como Júlio Machado e Dira Paes, totalmente nus e à vontade em cenas de sexo vibrantes. A fotografia é do uruguaio Diego Garcia, um habitué dos filmes do tailandês Apitchchapong. Direção de arte, trilha sonora do Dj Dolores, é um conjunto de tantas qualidades nesse filme metafórico e brutalmente triste e visionário que a gente sai do cinema tentando entender em que mundo vivemos e que futuro reservamos às próximas gerações. O filme concorreu em Sundance e Berlin, além de ter sido exibido em mais de 20 Festivais.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

A espiã vermelha

"Red Joan", de Trevor Nunn (2018) Baseado na história real da Espiã inglesa Melita Norwood (1912-2005), que trabalhou para os russos durante os anos 40 e 50, enviando informações ultra-secretas sobre a fabricação da bomba atômica. Melita foi descoberta pelo governo inglês em 1992. Judi Dench e Sophie Cookson interpretam Joan Stanley, alter ego de Melita. A época fi atualizada para o ano 2000, quando ela foi presa pelo governo inglês. O filme passa então a mostrar em flashbacks o envolvimento de Joan com os comunistas , através de uma colega de faculdade, que a apresenta a Leo, um alemão erradicado a Inglaterra, por quem Joan se apaixona. Ele a apresenta a filmes, reuniões e ideais comunistas, e Joan acaba se tornando simpatizante. Ela também se apaixona por William Mitchell, um inglês que trabalha para o Ministério da mineração, fornecendo mineral para confecção de bombas. Estudante de Física, Joan acaba se aproveitando dessa sua aproximação com Willian para roubar segredos para Leo. Mais do que um filme de espiões, "A espiã vermelha" é um filme de amor, daqueles exacerbados pelos quais a protagonista entrega a alma pelo amor de sua vida. Mas as atrizes defendem bem a sua personagem, com clara evidência de fortalecimento do feminismo em uma época comandada por homens. O filme é muito didático, correto, mas não chega a arrebatar em momento algum. Parece aquelas produções televisivas da BBC. Vale e com certeza, por Judi Dench, que mesmo aparecendo pouco, sempre traz dignidade para as suas performances.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Atriz milenar

"Sennen joyû", de Satoshi Kon (2001) A animação japonesa sempre foi associada mundialmente ao famoso Studio Ghibli e seus grandes clássicos: "Meu amigo Totoro", "A viagem de Chihiro", "A princesa Mononoke", todos de Hayao Myasaki, alem de outros filmes de cineastas menos conhecidos. Mas existe um Estúdio pouco conhecido do grande público, a Madhouse, que tinha entre seus animadores um dos maiores animadores de todos os tempos, Satochi Kon: 3 dos seus filmes certamente figuram entre as grandes obras-primas do gênero: "Perfect Blue", "Paprika" e "Atriz milenar". Satochi Kon faleceu precocemente, aos 46 anos de idade, e seus filmes tornaram-se cults. "Atriz milenar" é antes de tudo, Ode ao Cinema e ao Amor. Genya, um documentarista, e seu cameraman Eiko, agendam uma entrevista com a grande atriz japonesa, a veterana Chyoko, de 70 anos, mas há mais de 30 anos reclusa e sem filmar. Chyoko mora isolada nas montanhas, solitária. Durante a entrevista, ela diz como entrou no cinema como atriz aos 17 anos de idade, e filmou até os anos 60, protagonizando épicos do Japão feudal, heroína da segunda guerra, filme de monstros e até ficção científica. Mas o que ninguém sabia, e ela confidencia, é que ela entrou no cinema por amor: aos 17 anos, ela conheceu um misterioso pintor, que estava fugindo da polícia. Ele lhe entrega uma chave e diz que ela abre "a coisa mais importante da vida." No dia seguinte ele desaparece, e Chyoko torna-se obcecada em descobrir o paradeiro dele para lhe devolver a chave. Ao descobrir que ele foi para a Manchúria para participar em uma brigada anti-governista, Chyoko decide ser Atriz quando lhe dizem que o filme será filmado na Manchúria, tendo assim, uma chance de localizar o homem. O que torna o filme algo especial e primoroso, e a forma como Satochi narra toda essa história de flashbacks: Genya e seu cameraman participam ativamente das cenas narradas em flashbacks, como testemunhas da narração de Chyoko. A parte final, mesclando a fuga de CHyoko com cenas de suas personagens nos variados filmes, é um primor de roteiro e de edição. Roteiro, direção, trilha sonora e principalmente, o trabalho técnico na fotografia, "envelhecendo"as fotografias antigas, é tudo um desbunde e um olhar apaixonado de Satochi pelo universo que ele tanto prima, que é o da animação. O filme tem uma narrativa complexa, e o final pode deixar muita gente desapontada. Mas todo esse esforço lhe valeu vários prêmios em Festivais Internacionais, merecidamente.

Deslembro

“Deslembro”, de Flávia Castro (2018) Diretora do belo documentário “ Diário de uma busca”, onde a Cineasta falava do pai ativista político assassinado na época da ditadura brasileira, Flávia Castro agora estreia na ficção com o belo e intimista “ Deslembro”. Novamente resgatando a vida do seu pai, Flávia faz um relato livremente autobiográfico, sobre uma adolescente, Joana ( Jeanne Boudier), nascida no Brasil mas exilada em Paris nos anos 70. Com a Lei da anistia de 1979, sua mãe resolve retornar ao Brasil, junto dos dois meio irmãos pequenos de Joana e do padrasto, um Chileno envolvido com o combate da ditadura no Chile. Joana protesta, não quer vir para o Brasil, País que segundo suas amigas francesas dizem, tem onça e cobra andando nas ruas. Mas para Joana, o Brasil é o País onde se mata e tortura, e onde seu pai foi dado como desaparecido político. Obrigada a vir, Joana se isola, mas acaba descobrindo o primeiro amor, a maconha e principalmente, a música brasileira, que junto da convivência com sua avó ( Eliane Giardini), a fazem se reconectar com o Brasil. O filme, um belo projeto feminino, conduzido por mulheres na equipe e protagonizado por elas, tem uma delicadeza e sensibilidade que traduzem em imagens o coming of age de uma adolescente. Sem rumo, sem Cultura, sem o amor do pai que desapareceu, Joana se vê sem lenço e sem documento, e precisa aprender a recomeçar uma nova história. O filme também é um passeio nostálgico e poderoso em torno da música e a importância dela como resgate da memória: Lou Reed, The Doors, Caetano Veloso e muitos outros artistas embalam cenas belamente orquestradas pelo conjunto da equipe e Elenco em primeiríssima forma. O filme foi selecionado para a Mostra Horizonte em Veneza 2018 e ganhou 3 prêmios no Festival do Rio no mesmo ano: atriz coadjuvante para Giardini, Melhor filme do público e Fipresci.

Cardigan Rosa

"Roosa kampsun", de Moonika Siimets (2016) Escrito e dirigido pela Cineasta Moonika Siimets, "Cardigan Rosa" é uma ótima comédia dramática LGBTQ+ da Estônia. Henrik é um jovem ator que ganha a vida fazendo stand ups em teatros pequenos. Aparentemente divertido e boa praça, Henrik na verdade é solitário e sem dinheiro, vivendo de empréstimos de amigos. Henrik tem um melhor amigo, Ken, que é liberal e compra um cardigan rosa. Henrk diz que o cardigan é para gays, e Ken o chama de homofóbico. Ao dizer que está sofrendo de mal jeito no ombro, Ken indica para Henrik praticar Yoga. No primeiro dia de aula, Henrik faz amizade com Sander, assumidamente gay. Ao descobrir que ele é gay, Henrik o evita. Henrik é chamado para fazer uma audição para um programa, e descobre que o apresentador é gay. Henrik procura lidar com sua homofobia e tentar escondê-la para poder agradar na audição. Com um excelente roteiro, que alterna comédia e drama, "Cardigan Rosa" apresenta, através do personagem de Henrik, uma sociedade que procura "aceitar' a cultura e comportamento gay só para agradar ou satisfazer outras pessoas, sem que isso queira dizer que eles aceitem de coração. Com essa crítica, o filme faz refletir bastante, e tem um desfecho coerente que "pune"o seu protagonista por estar "fakeando' uma persona que não é ele. Ótimas performances de todo o elenco, e uma bela direção de Moonika Siimets.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Feriado

"Feriado", de Diego Araujo (2014) Raro drama LGBTQ+ do Equador, baseado nas memórias do Cineasta Diego Araujo, que também escreveu o roteiro. O Filme acontece no fatídico ano de 1999. Em 8 de março de 1999, foi declarado feriado bancário de 24 horas no Equador, que acabou durando 5 dias. Todas as operações financeiras foram suspensas. Quando acabaram as férias, o Governo anunciou o congelamento das contas. Muitos bancos faliram, e a população se desesperou. O protagonista do filme é Juan Pablo ( excelente performance de Juan Arregui), um adolescente que passa as férias nos Andes, na mansão de seus tios. Ali, ele tenta se divertir com seus primos, sem sucesso. A família é elitizada, mas Juan não se encaixa nesse universo. Uma noite, Juan é perseguido e acaba sendo salvo por Juano, um motoqueiro de descendência indígena, e fã de Heavy Metal. Juan Pablo acaba ficando amigo de Juano, mas acaba sentindo algo mais do que amizade. Misturando uma história de coming of age com saída de armário, e acrescentando conotação sócio -política à história, o filme apresenta um contexto histórico de um período conturbado do Equador. Um roteiro bem dirigido pelo cineasta Diego Araujo e bem interpretado pelos 2 atores principais. que encantam com personagens carismáticos. A fotografia noturna é bastante escura, o que prejudica bastante a visão. A cena da cachoeira é bastante homoerótica.

Filhas do sol

"Les filles du soleil", de Eva Husson (2018) Drama que concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2018, é baseado em uma história real: um batalhão feminino de mulheres do Curdistão, um levante contra o Iraque após terem invadido uma comunidade Curda e assassinado todos os homens do vilarejo. As mulheres foram sequestradas, estupradas e vendidas como escravas sexuais, muitas deles assassinadas. As que conseguiram fugir, formaram um batalhão e lutaram contra os soldados iraquianos. Essa história aconteceu em 2014, e o filme ficcionaliza algumas das histórias dessas mulheres. Sob o ponto de vista da fotógrafa de guerra francesa Mathilde (Emmanuelle Bercot), esse combate foi comandado pela Comandante Bahar ( a excelente atriz iraniana Golshifteh Farahani, de "Paterson", "À procura de Ely", "Dois amigos"). em flashbacks, o filme vai mostrando o porquê de uma brilhante advogada, casada e com filho pequeno, acaba pegando em uma arma. Dirigido e escrito por mulheres, "Filhas do sol" é um drama de guerra tenso, repleto de suspense, e que faz lembrar "Sicario", filme de Dennis Villeneuve em termos de construção de personagens e de narrativa, em formatos flashbacks que aos poucos, vão trazendo ao espectadores informações reveladoras que emocionam e tornam tudo mais trágico. Muita gente reclamou do tom melodramático do filme, mas é gente chata que não consegue enxergar humanidade em dramas pessoais. Atuações arrebatadoras do elenco, mais focado na performance dessas duas mulheres espetaculares. A cena das mulheres atravessando a fronteira dos países é arrebatadora.

Meu amigo Rachid

"Mon copain Rachid", de Philippe Barassat (1998) "Meu amigo Rachid" é um clássico curta francês LGBTQ+ de 1998, e que hoje dificilmente seria realizado. O protagonista, Eric, tem 9 anos e é francês. Na aula de natação, ele fica obcecado com o tamanho do pênis de sue amigo árabe Rachid, de 14 anos. A todo momento, ele pede para Rachid mostrar o pênis e mais, ele quer tocar também. Rachid diz que somente gays podem ver de graça e que como Eric não é gay, precisa pagar para ver e pegar. Eric começa então a pedir dinheiro para sua mãe, mentindo para ela. Quando a mãe não oferece mais, Eric se desespera. Ousado, com nudez frontal de crianças, close no pênis, uma cena lúdica de ambos "voando" em um pênis voador, uma alusão à viagem do tapete mágico de Alladim e mais: uma cena de ambos na cama, em momento de alta voltagem erótica. Os dois meninos são ótimos, e fico imaginando os pais dos atores lendo o roteiro e concordando em participarem da história.

domingo, 23 de junho de 2019

Mektoub, meu Amor: Canto um

"Mektoub, my love: Canto uno", de Abdellatif Kechiche (2017) Adaptação do livro "La Blessure, La Vraie", de François Bégaudeau, e adaptado pelo próprio cineasta Abdellatif Kechiche, "Mektoub my love" é uma ambiciosa produção cinematográfica composta por 3 partes, cada uma com mais de 3 horas de duração. "Canto um" foi lançado e 2017 e concorreu em Veneza, de onde saiu com vários prêmios.A segunda parte, 'Intermezzo", foi exibida em Cannes 2019 e foi atacada pela crítica, acusada de pornográfica e misógina por conter uma cena de sexo oral real envolvendo a atriz Ophélie Bau, protagonista da parte 1. Abdellatif Kechiche venceu em Cannes 2013 a Palma de Ouro de melhor filme por "Azul é a cor mais quente", um filme sensação por mostrar em mais de 3 horas, cenas de sexo explícito entre duas atrizes interpretando casal de lésbicas. O filme provocou polêmico posteriormente, pois as atrizes acusaram o Diretor de obrigá-las a fazer cenas de sexo contra o desejo delas. Em "Canto um", temos como protagonista Amin, um jovem de origem tunisiana que retorna para Sete, vilarejo pesqueiro ao sul da França, após 1 ano de estudo de Medicina na Faculdade em Paris. Ele vai passar as férias de verão de 1994 na cidade natal, e acaba reencontrando sua família, parentes e amigos, entre eles, Ophelia, por quem Amin sempre nutriu paixão platônica. Ophelie namora Clement que está fora do País em trabalho militar. Ela tem como amante Toni, primo de Amin, rapaz sedutor e que transa com todas as garotas da região. Amin está desiludido com a medicina e quer ser fotógrafo e roteirista de cinema. No caminho, ele conhece garotas em férias e circula pela praia, boite e bares com seus amigos e as meninas. Filme 100% hedonista, com a juventude linda e bronzeada percorrendo as 3 horas de filme transando, exibindo corpos, bebendo, dançando,falando futilidades, traindo, flertando e no caso de Ophelia, cuidando das ovelhas da fazenda do pai. É um filme totalmente em registro documental naturalista, como se ligassem a camera do celular e deixassem as pessoas falando por horas qualquer tipo de assunto. O que chama a atenção é a total espontaneidade do elenco, algo que Abdellatif Kechiche faz muito bem, extraindo o que há de melhor do seu elenco. Mas fora toda essa beleza visual do filme, intensificada por uma fotografia ensolarada e exuberante registrando as locações de forma paradisíaca, o filme entedia bastante com um discurso sobre o nada. Como é chata essa garotada!

Casal improvável

"Long shot", de Jonathan Levine. Dirigido por Jonathan Levine, realizador dos excelentes "Meu namorado é um zumbi"e "50%", esse último um drama explorando o talento dramático de Seth Rogen, "Casal improvável"é uma excelente comédia romântica que explora a maravilhosa química entre o verdadeiramente improvável casal Charlize Theron e Seth Rogen. Revisitando as comédias malucas do casal Kathleen Hepburn e Spencer Tracy, que nas telas viviam um casal que se amava e se odiava, e a escatologia maravilhosa de filmes cults dos anos 90, como "Quem vai ficar com Mary", o filme diverte e faz refletir sobre o mundo político que se abate em todos os países. "Quem escolhemos para governar os desejos do povo? Será que realmente governam para o povo?" Diante dessas questões, surgem Fred (Rigen), um jornalista desbocado que defende as suas teses sem abaixar a cabeça para ninguém, e Charlotte (Theron), secretária do Governo e que está para lançar a sua campanha para Presidente dos Estados Unidos. O caminho de ambos se cruza quando Fred é demitido de sua editora, e Charlotte anda procurando um redator para os seus discursos. O caminho de ambos se cruza durante uma festa e Fred se recorda que Charlotte foi a sua babá quando ele tinha 13 anos de idade. Ela o contrata e ambos se dão bem, mas contra o casal, o próprio Presidente e seu amigo, um empresário corrupto, que desejam vender terras para desmatamento. O filme é longo para uma comédia, 125 minutos, mas são tantas as cenas divertidas e verdadeiramente engraçadas que a gente até releva a extensão do roteiro. Os personagens coadjuvantes, como a secretária e o hindu que trabalham para Charlotte, e o melhor amigo de Fred, roubam as cenas onde aparecem. O filme discute machismo, racismo, diversidade, feminismo e vários outros tópicos atuais que é quase impossível alguém não se identificar com o que é dito ali. Mas o brilho do filme é mesmo de Chariize e Seth Rogen, grandes comediantes, em cenas antológicas, como a dancinha ao som de "It must have been love", de Roxette.

sábado, 22 de junho de 2019

Circuito

"Circuit", de Dirk Shafer (2001) O Cineasta Dirk Shafer co-escreu o roteiro de "Circuito", e acabou criando um ambicioso épico sobre o universo LGBTQ+ em Los Angeles do inicio dos anos 2000, antes mesmo do 11 de setembro. Sexo, drogas e música eletrônica são o cardápio de uma fábula hedonista sobre a busca do prazer, associado ao culto do corpo, da juventude, das pistas de dança e muito sexo sem compromisso. Dirk se baseou na história de um amigo para escrever o roteiro: seu amigo se suicidou aos 30 anos de idade, não suportando a dôr de envelhecer e perder o frescor da juventude. John é um policial de Illinois. Ele é transferido para Los Angeles e se hospeda na casa de um amigo, que namora um rapaz, Gill. Logo John é apresentado ao mundo gay da cidade, voltada para as festas de música eletrônica, frequentada por gays musculosos, mais preocupados em tomar hormônios e cultuar o corpo e a juventude. John conhece Hector, um garoto de programa que não aceita envelhecer. Hector apresenta as drogas sintéticas para John, que acaba se rendendo ao culto hedonista do corpo e do prazer desenfreado. Não dá para entender com um filme com um roteiro tão frágil, consiga ter 130 minutos de duração, é interminável. Sem ritmo, com personagens demais entrando e saindo do filme, Dirk Shafer quiz traçar um painel pretensioso do mundo gay de Los Angeles, mas acabou se afastando de seus protagonistas e enfraquecendo a trama. Tecnicamente o filme tem problemas: a fotografia é escura demais nas cenas noturnas, e a edição deixa sobras em muitas cenas, deixando o ritmo frouxo. Mas a parte mais crítica do filme é em relação ao elenco: provavelmente escalados pela beleza física e do corpo, os protagonistas não seguram a onda dos seus personagens. São atuações amadoras e em alguns casos, constrangedores. Se a intenção do espectador é dar uma de voyeur, pode ser que goste bastante. Mas se for buscar um filme com qualidades de interpretação, vai ficar devendo. O mais triste é ver que Nancy Allen, que estrelou vários clássicos de Brian de Palma, além da franquia "Robocop", está mal aproveitada e com uma triste performance.

Perdido no Paraíso

"Hot Boy Noi Loan", de Vu Ngoc Dang. Considerado o primeiro drama gay do Vietnã, por ter protagonistas LGBTQ+, "Perdido no Paraíso" é um melodrama dividido em 2 histórias ambientadas na Metrópole Saigon. Ambas as histórias têm como tema central a prostituição. Na primeira história, Khoi (o cantor pop Ho Vinh Khoa) é um rapaz que chega em Saigon para tentar a vida, depois de ter sido expulso de sua casa no interior quando os pais descobriram que ele é gay. Ele conhece Dong, um rapaz que lhe oferece dividir um apartamento. Quando chega no apartamento, Dong lhe apresenta Lam, dizendo ser seu primo. Khoi vai tomar banho, e acaba sendo roubado pela dupla. Desesperado, sem dinheiro, Khoi faz bicos em qualquer tipo de serviço pesado, até que se machuca. Lam é abandonado por Dhing, que foge com o dinheiro. Ao encontrar Khoi na rua, Lam o traz para seu quarto e cuida dele. Ambos acabam se apaixonando, e Lam revela a Khoi que faz programas para sobreviver. Na outra história, Hahn, uma prostituta quarentona, é protegida nas ruas por um deficiente metal que cria um pato. Quando a cafetina ameaça Hhan, o rapaz deficiente, Cuoi, tenta defênde-la. Exagerando no melodrama, principalmente pelo uso excessivo de música, "Perdido no Paraíso" vai fazer a alegria de quem gosta de uma trama novelesca e cheia de vilões. É um filme com bastante sensualidade, e uma fotografia realista que acentua a vida mundo cão dos personagens. Os atores estão todos bem, e para uma filmografia que até então a pouco deixou de ser conservadora, o filme é bem usado com cenas de nudez. "Perdido no Paraíso" fez muito sucesso em seu País e foi exibido em dezenas de Festivais mundo afora.

Burn your maps

"Burn your maps", de Jordan Roberts (2016) Adaptado pelo próprio Cineasta Jordan Roberts de um conto escrito por Robyn Joy Leff, "Burn your maps" é um emocionante drama sobre a jornada de uma família que perdeu o seu rumo após a morte da filha pequena. Alise (Vera Farmiga)é professora de inglês para imigrantes. ela é casada com Connor e possuem 2 filhos, a adolescente Becca e o pequeno Wes (Jacob Tremblay, de "O quarto de Jack"). Cada um dos integrantes da família enfrenta o luto pela morte da bebê de uma forma diferenciada. Wes acredita ser a reencarnação de um pastor de ovelhas da Mongolia e passa a agir como tal. O pai se preocupa, a mãe estimula a fantasia do filho. Juntos de Ismail, um aluno hindu de Alise, Alise e Wes viajam até a Mongolia e lá, buscam respostas para o drama de suas almas. Com ótimas performances de Vera Farmiga e de Jacob Tremblay, "Burn your maps" enfrentou o pouco caso da distribuição nos Estados Unidos. exibido no Festival de Toronto em 2016, só agora conseguiu uma distribuição pequena. O filme traz uma bela reflexão sobre a religiosidade budista, fazendo os pais acreditarem que a pequena bebê não morreu, mas encontrou um outro estagio. Um personagem mongol diz ao pai: "Você não perdeu sua filha. Você a encontrou." Para quem gosta de filmes road movies, que geralmente são metáforas sobre jornadas da alma, vai gostar bastante desse filme. As locações da Mongólia foram filmadas no Canadá.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

O Amor dos leões

"Lions Love (... and Lies)", de Agnes Varda (1969) Drama experimental dirigido por Agnes Varda na sua fase "Californiana", quando ela foi morar em Los Angeles em 1958 com Jacques Demy, seu marido. O filme tem toda a narrativa que se esperava de um filme de Agnes Varda: artes plásticas, fotografia e muita discussão acerca da Arte, Cinema, Política e relacionamento poliamor, em voga na época por conta do movimento Hippie. Muito sexo, drogas e rock'n roll sob o ponto de vista da liberação sexual e do comportamento, e o mais interessante, sob o olhar feminino e revolucionário de Agnes Varda. Varda convidou os atores Gerome Ragni e JAmes Rado, que haviam participado do filme "Hair", de Milos Formam, para fazerem parte do filme. A eles se juntaram a Artista e performer Viva, famosa por sua contribuição artística na The Factory de Andy Warhol, e a cineasta independente de Nova York Shirley Clarke, convidada por Varda para dar vida a uma cineasta que filma o relacionamento dos 3 hippies que convivem em uma mansão. O filme parece, aos olhos de hoje, um reality show sobre comportamento. Através da rotina filmada de Viva, Jim e Jerry, em momentos de performance, sexo e divagações acerca de política ( a candidatura e assassinato de John Kennedy), Televisão e Star System das celebridades de Hollywood, Shirley interage com eles. Em determinado momento, Shirley discute com Agnes Carda, or se recusar a fazer uma cena onde ela se suicida. Agnes assume a cena e ela mesmo interpreta. O filme é bastante ousado em termos de nudez e comportamento, e na cena final, vemos crianças pequenas fumando e bebendo álcool. Agnes Varda sempre foi uma Artista militante, que provocava em seus filmes discussões sobre todas as áreas artísticas e políticas.