sábado, 25 de fevereiro de 2017

Belíssima

"Belíssima", de Luchino Visconti (1951) Obra-prima do neo-realismo italiano, foi o 3o filme dirigido por Luchino Visconti, que logo depois mudaria radicalmente a sua estética e faria filmes glamurosos retratando a burguesia decadente. Ate hoje, Visconti é referencia para o bom gosto na Direção de arte e figurinos, devido ao seu extremo apuro visual. Mas não é o caso de "Belíssima". Filmado em locações reais depois da 2a guerra ( essa era a cartilha do movimento Noe-realista), o filme apresenta a face mais cruel do mundo do entretenimento, no caso, o Cinema. Madalena é uma dona de casa que trabalha como enfermeira para ganhar um sustento. Ela, seu marido e sua filha pequena, Mara, vivem em um cortiço. O sonho deles é de se mudarem para uma casa própria. Eles moram próximo do famoso Estúdio Cinecittá, ao lado da casa deles tem o telão de cinema onde eles assistem filmes de graça. Madalena sonha com o mundo do glamour do cinema e deseja que sua filha seja atriz. Até que surge um concurso para escolher a protagonista mirim de um filme. Madalena faz de tudo para que sua filha seja a escolhida, mesmo que a menina seja contra a idéia. Com um roteiro primoroso de Cesare Zavattini ( que também escreveu "Ladroes de bicicleta", "Milagre em Milão"), "Belissíma" encanta e nos deixa muito triste pelo lado mais cruel do ser humano: a ganancia e a hpocrisia. Rodado boa parte nos Estudios da Cinecittá, o filme faz um raio-x do mundo do cinema. Atrizes que são obrigadas a mudar de fisionomia, diretores e produtores que riem dos atores durante o seu teste, aproveitadores, e principalmente, as mães das crianças mirins. Elas são as piores e retratadas fielmente aqui no filme ( incrivel que o filme, de 1951, já tivesse esse olhar sobre os pais que querem se dar bem através de seus filhos, algo muito comum hoje em dia.) O filme é repleto de cenas antológicas: a primeira aula de atuação de Maria, sua aula de balé, a cena da montadora explicando para Madalena porque abandonou o cinema, a cena de Madalena discutindo com o Diretor. O filme deve muito ao talento irrepreensível da Diva Anna Magnani, que com seu jeitão histrionico e viril, sustentou um tipo de personalidade que perdura até hoje. Basta ver Dona Herminia de Paulo Gustavo, é exatamente igual. A curiosidade do filme fica quando Madalena diz em determinado momento, que Burt Lancaster é um ator interessante. Ela viria a contracenar com ele 3 anos depois, no filme " A rosa tatuada", no qual ganharia seu Oscar de melhor atriz.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Contracorrente

"Contracorrente", de Max Gaggino (2013) Rodado com recursos próprios de 20 mil reais, "Contracorrente" foi dirigido pelo cineasta italiano radicado no Brasil ( mais precisamente, na Bahia) Max Gaggino, em 2013. Max ganhou um Kikito em 2015 pelo curta "Haram", que ele filmou com 5 mil reais. Adepto do cinema independente e barato, feito com amor, Gaggino realiza nesse seu longa algo que seria próximo de um filme que poderia ser intitulado "How to be a Baiano?", uma sátira ao "How to be a Carioca", espécie de manual de como se adaptar aos costumes de Salvador. Marco é um jovem italiano que mora em Genova, na Italia. De classe media baixa, ele mora com sua família e trabalha como lavador de louças em um restaurante, Cansado de tanta reclamação em sua casa e de sua namorada, Marco resolve abandonar tudo e vir pro Brasil, mais precisamente, Salvador ( ele ouviu de um casal de turistas de Salvador que ali é o lugar da felicidade). Chegando em Salvador, ele é enganado por um taxista, assaltado por pivetes negros e enrolado por tudo quanto é gente, até conhecer um jovem negro malandro, Neca (Leandro Rocha), que lhe ajuda, arrumando um lugar para ele ficar (pagando, claro). Marco começa a dar aulas de italiano e se apaixona por uma de suas alunas, Mariana (Laíse leal). O filme é bem simplório: realizado por voluntários que participaram das filmagens em Salvador e Genova, a parte técnica ( fotografia principalmente) deixa a desejar. Os enquadramentos também muitas vezes não ajudam ( excesso de contra-plonge na cena de Marco com o atendente de uma lanchonete acabam tornando monótona a relação dele com o dono da barraca). A trilha sonora parece ter saído de um filme nacional dos anos 80 que se passa na praia de Ipanema. O roteiro, co-escrito por Gaggino, é simples, repleto de clichês sobre o dia a dia de um turista estrangeiro que vai morar em algum litoral paradisíaco brasileiro. O que torna o filme simpático, é o carisma ingênuo do ator protagonista, Francesco Morotti, e a presença de atores baianos cheios de alegria, como é o caso de Leandro, Laise e a atriz que interpreta a mãe de Neca. Cheguei a rir varias vezes pelo total descompromisso do filme, com diálogos repletos de brasilidade e de situações ingénuas ( as piadas de que baiano é tudo preguiçoso, por ex, quando Marcos pede algo para um atendente de lanchonete e ele responde que não tem nada). Por fim, valeu a iniciativa do Cineasta de bancar com dinheiro próprio um filme que vale mais pela experiência de exercitar a linguagem do cinema, e as suas varias possibilidades inclusive de distribuição.

A lei da noite

"Live by night", de Ben Afleck (2016) Enquanto eu assistia ao filme, 3 informações vinham na minha mente: 1) Ninguém tirava de mim que aquela voz off do Ben Afleck narrando o filme, não era a voz do Batman 2) Foi anunciado prejuízo de 240 milhões de reais com o filme. Pudera, direção de arte exagerada, figuração pra caralho, calhambeques a rodo nas cenas de rua... 3) Sienna Miller botou a boca no trombone que teve que ficar 9 horas fazendo cenas de sexo e que chorou logo após as filmagens..mas..cade as cenas de sexo? O que aparece no filme é um clip dela e Ben Affeck vestidos, simulando sexo com roupa em 3 cenários diferentes..nem sessão da tarde exibe mais cenas de sexo assim Bom, o filme, baseado em livro de Dennis Lehane, narra a historia de Joe (Afleck), ex-soldado americano que lutou na primeira guerra na Irlanda. Seu pai é um Policial em Boston. Ao voltar para lá, o Pais está tomado pela crise económica dos anos 20, e a bebida está proibida de ser comercializada. Vários grupos mafiosos surgem pelo Pais. Joe namora a amante de um gangster, Emma (Sienna Miller) e acaba gostando de fazer parte do crime. Quando ele planeja uma fuga com Emma, ele sofre uma emboscada do gangster e quase morre. Emma é dada como morta. Joe vai preso, acusado de matar 3 policias durante uma fuga. Anos depois, solto, ele acaba indo trabalhar para o grupo mafioso de um italiano, com a intenção de se vingar do gângster que quase o matou e matou a mulher que amava. Bom, a sinopse que eu narrei não é nem a terça parte do que acontece no filme. E esse é um dos principais problemas do roteiro: personagens demais, sub-plots demais ( Ku Klux Klan, jovem atriz que acaba se viciando e depois se torna pastora ( Elle Fanning), um sherife vingativo (Chris Cooper), uma cubana negra irmã de mafioso que se apaixona por Joe (Zoe Saldana) e muito mais. Fosse um seriado, poderia até ser mais interessante. Mas como filme, ele se torna arrastado, burocrático, sem alma e longo, bastante longo. Difícil simpatizar pelo filme, que nem é ruim, apenas não empolga. Talvez Ben Affleck tenha que começar a diminuir o ritmo de envolvimento em um seu próximo projeto: aquilo ele roteirizou, co-produziu, dirigiu e atuou.

Mamma Roma

Mamma Roma", de Pier Paolo Pasolini (1962) Filmado em 1962, com uma Italia ainda em reconstrução pós-Guerra, "Mamma Roma" é uma obra-prima que usa o nome da protagonista como metáfora para as agruras de um Pais em crise e com perspectivas de um futuro melhor. Também é uma critica feroz ao capitalismo que surgia impassível na Italia ( Pasolini era de esquerda e comunista). Anna Magnani faz aqui o seu debut com Pasolini, após ter ganho um Oscar por "A Rosa tatuada", em 1955. A sua personagem tem muito de Giuletta Masina, de "Noites de Cabiria", de Fellini. São prostitutas de bom coração, e que sonham com um futuro melhor. Assim, Mamma Roma economiza dinheiro para poder comprar um pequeno apartamento decente, uma barraca de feira e poder dar um futuro melhor ao seu filho Ettore (Ettore Garofolo, que Pasolini conheceu em um restaurante trabalhando como garçon). No entanto, Ettore contradiz todos os sonhos de sua mãe: nao quer estudar, nem trabalhar, e só pensa em vadiar e roubar na rua com os seus colegas. Mamma Roma faz de tudo para tentar reverter a tragédia eminente que paira sobre seu filho, inclusive sendo chantageada pelo seu antigo cafetão, que exige que ela retorne para as ruas para sustentá-lo. Anna Magnani é daquelas atrizes eternas que sempre que revemos uma interpretação em algum filme, lembramos de muitas outras atrizes que fizeram homenagem ao seu tipo histriónico, pulsante e forte. Extraordinária no papel principal, alternando momentos de alegria, lúdico e melancolia, Mamma Roma de Anna Magnani está no rol dos grandes personagens da história do cinema. Pasolini colocou não-atores para contracenarem com ela, uma prática comum em quase todos os seus filmes. Pasolini dizia que não gostava de escalar atores burgueses para interpretar gente do povo, e ai escalava não atores advindos da classe operaria e proletariado. O jovem Ettore Garofolo está impressionante no seu personagem: a câmera é apaixonada por ele, e em suas cenas, o seu carisma e fotogenia impressionam. O filme possui várias cenas antológicas, entre elas a de Mamma Roma ensinando o seu filho a dançar, o seu passeio de moto com o filho e a cena final do menino " crucificado". Fotografia do grande Mestre Tonino Delli Colli, dos filmes de Sergio Leoni e de "A vida é bela", de Robert Begnini. O filme tem 2 Planos-sequencias filmados d enoite, e fico imaginando como na epoca, com aquela camera pesada, era possível fazer um travelling out de mais de 5 minutos sem corte, acompanhando os personagens andando pela rua.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Um gato de rua chamado Bob

"A street cat named Bob", de Roger Spottiswoode (2016) Filme baseado na série de livros best-sellers do gato Bob e seu dono e amigo James Bowen. Interessante ver a mudança de trajetória do cineasta Roger Spottiswoode, que nos anos 80 e 90 dirigiu blockbusters de ação com James Bond, Schwarzenegger, Mel Gibson, entre outros. O filme se baseia na história de James Bowen: expulso de sua casa pelo pai, James vai morar nas ruas de Londres. Para poder sobreviver, ele canta com o seu violão nas ruas. No entanto, o dinheiro que ele ganha, ele gasta com Heroina. James faz um tratamento acompanhado por uma psicóloga, Val. Sabendo das dificuldades de James, Val consegue um apoio de um apartamento na periferia para quem está no programa de abstinência química. Ao se mudar para o apartamento, James encontra um gato ruivo que invade o local. Logo, ambos se afeiçoam. A vizinha Betty se torna sua amiga, e ela dá o nome pro gato de Bob. James leva Bob para as suas cantorias na rua, e acaba fazendo sucesso com os passantes, até que um dia uma redatora de uma editora de livros lhe faz um convite para escrever um livro. O mais curioso no filme, é que o gato usado para a filmagem é o próprio Bob. Grande e bonito, é impossível para quem gosta de animais não ficar apaixonado pelo bichano. Tranquilo, exuberante, dono de si, ele tem um carisma gigantesco que conquista a todos. Outro ponto forte do filme é o excelente trabalho de todo o elenco, desde a performance de Luke Treadaway, no papel de James, dando vida a um papel extremamente dificil que é o de um viciado em heroína e ao mesmo tempo de bom coração. Tem também Ruta Gedmintas no ótimo papel de Betty, e Joanne Froggatt no papel da psicologa Val. O elenco de apoio também consta com aqueles ótimos atores ingleses que estamos acostumados em ver nos filmes. O filme é vendido como comédia dramática, mas ele é bem puxado para o drama. Como o tema do vicio de drogas é bastante forte no filme, inclusive com cenas de uso, o filme provavelmente deve ter ganho um certificado de censura alto, o que inviabilizou que ele fosse visto por crianças, o que é uma pena. Não é um filme colorido, apesar do animal, e sim, ele faz uso de cores escuras para dar um tom sombrio e dark na pesada historia de James. Que bom que no final tudo dá certo na vida dele, mas até lá fica uma aflição enorme.

A excêntrica família de Antonia

"Antonia", de Marleen Gorris (1995) Filme holandês vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1995, é uma linda e comovente fábula sobre uma família apresentada por 5 gerações, todas capitaneadas pela força de Antonia, uma mulher forte e determinada, que não se deixa abater por nenhum homem e nenhuma circunstancia trágica. O filme começa com Antonia idosa dizendo que vai morrer. Logo voltamos na história para contar quem é Antonia. Após o fim da 2a guerra, Antonia retorna para a fazenda de sua mas, junto de sua filha, Danielle. Sua mãe está doente e senil, e acaba morrendo. Cuidando sozinha da família junto de sua filha, aos poucos vão surgindo pessoas que irão se incorporando ao seu dia a dia. Moradores excêntricos, que habitam a pequena cidade: um padre tarado, uma mulher que uiva nas noites de lua cheia procurando pelo seu amor, um casal de doentes mentais que se apaixonam, um filosofo depressivo que pensa em suicídio. Danielle ainda tem o dom de enxergar as coisas de uma forma lúdica, imaginando mortos que ressuscitam, estatuas que se mexem, etc A cineasta Marleen Gorris também escreveu o roteiro, e pelo tom do filme, deve ser auto-biográfico. O filme é todo narrado pela bisneta de Antonia. Mesclando muito bem o surrealismo com a forte dramaticidade da história, o filme lembra o tom de realismo fantástico de filmes como " Como agua para chocolate" e " A casa dos espirito". Ótima fotografia, trilha sonora envolvente e mágica, e um trabalho excelente de todo o elenco. Fora isso, a maquiagem discreta, que vai marcando aos poucos a passagem de tempo dos atores, sem ficar aquelas próteses horrorosas. E' um filme com forte tom feminista, que de certa forma mostra os homens ou meio infantis, ou vilanescos, ou meio bobões. As mulheres são em sua maioria fortes e perseverantes, dando a volta por cima.. O filme discute como tema principal a aceitação da morte, que ou vem de forma trágica, ou natural, ou corriqueira.

A grande muralha

"The great wall", de Zhang Yimou (2016) Fantasia de ação ambientada em uma época incerta. Quando eu li a respeito do filme, anos atrás, achei que seria um drama sobre a construção da Grande Muralha e a invasão dos Mongóis. Ai surgiu o trailer e vi que tinham uns monstros, e além deles, Matt Damon. Achei estranho. Depois te ter assistido ao filme, continuo achando tudo muito estranho. Não que eu não tenha gostado do filme. Valeu a sessão da tarde. Mas misturar um fato histórico ( Grande muralha) com monstros, me pareceu algo bem doido. Tinha horas que eu achava que estava vendo "Game of Thrones" Vs " "Guerra mundial Z". Explico: O visual dos guerreiros, as armas e a presença de Oberyn Martell, digo Pablo Pascal no elenco. Fora isso, o exagero visual dos milhares de monstros me lembravam os zumbis do filme de Brad Pitt, que vinham em hordas. Adoro o Cineasta Zhang Yimou, que em seus filmes de ação é mega chegado em exageros, mas aqui ele exacerbou em tudo. O filme visualmente é um escândalo: os balões, as cenas de batalha, a direção de arte, tudo. Mas o roteiro é fraco. Tudo muito obvio, a presença sem assunto de Willen Dafoe, totalmente deslocado em papel de vilão. Matt Damon está super no automático, e a grita geral dos politicamente correto e que precisou chegar um homem branco pra dar conta da situação, pois um exercito de milhares de soldados chineses não deu conta. Bom, se levarmos em conta que o filme é de mercado, e que Damon é a grande estrela do filme....nada me surpreende.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Quase 18

"The edge of seventeen", de Kelly Fremon Craig(2016) Longa de estréia da cineasta americana independente Kelly Fremon Craig, que também escreveu o roteiro, é o que os críticos chamam de "Coming of age", um gênero sobre o desabrochar emocional de um adolescente. Vencedor de prêmios em Festivais independentes nos Estados Unidos, o filme, erroneamente vendido como comedia, é um drama acri-doce sobre uma adolescente, Nadine (Hailee Steinfeld, indicada ao Oscar em 2010 por "Bravura indomita"), que sofre bullying na escola desde criança, e que também tem péssima relação com seu irmão mais velho e a sua mãe, por achar que ela somente o protege. A sua única ponte para a vida segura são seu pai e Krista, uma amiga da escola. Seu pai morre quando ela faz 13 anos. Aos 17, ela continua em crise, que só se agrava quando ela descobre que krista está namorando o seu irmão mais velho, Darian (Blake Jenner, de "Glee" e "Jovens, loucos e mais rebeldes"). Com excelente atuação de todo o elenco, "Quase 18" tem um roteiro que, apesar de conter elementos já conhecidos em outros filmes sobre aborrecentes, funciona muito bem com os personagens construídos por Kelly Fremon Craig. Hailee Steinfeld interpreta um personagem bastante difícil: insuportável ao extremo, chata e arrogante, ela precisa conquistar o espectador para não correr o risco de perder o seu carisma. Mas isso ela consegue logo de cara, pois o drama de seu personagem com certeza já fez parte de todo mundo, com maior ou menor grau. Quem nunca pensou em fugir de casa? A diretora Kelly Fremon Craig surpreendente ao entregar um filme redondo, sendo esse seu filme de estréia. A trilha sonora é repleta de hits dos anos 80 (Spandau Ballet) e de pop independente. O final é super bacaninha, lembrando até aquele clima gostoso de "Clube dos cinco". Destaque também para a participação de Woody Harrelson no papel de um professor meio desajustado de Nadine. Ele sempre funciona super bem nesses tipos amalucados.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Más notícias para o Sr Mars

"Des nouvelles de la planète Mars", de Dominik Moll (2016) O cineasta alemão radicado na Franca Dominik Moll, é mais conhecido por seus filmes de suspense, entre eles, " O monge", "Harry o amigo que veio para ficar" e "Lemming". Agora com "Más notícias para o Sr Mars", Domink Moll experimenta um gênero novo: a comedia de humor negro. Exibido em Berlin em 2016, o filme acompanha o dia a dia de Philippe Mars ( o excelente ator belga François Damien, de "A família Bellier" e " O novíssimo testamento"), que interpreta um homem divorciado e pai de 2 filhos adolescentes que moram com ele. Mars é o tipo de bom coração, incapaz de dizer não para alguém. De repente, a vida de Mars vira um caos: seu filho decide ser vegano e se mete com terroristas que querem explodir uma granja; sua filha é uma psicótica workhaholick; o seu patrão e seu colega de trabalho surtam; sua irmã viaja para outro pais e lhe deixa um cachorro irritante para ele tomar conta; isso sem contar com as outras inúmeras situações que vão acontecendo em sua vida, que fazem com que Mars esteja a um passo de explodir. O filme tem alguns bons momentos, mas no geral ele não chega a ser tão divertido como parecia ser. O ritmo é arrastado, e o excesso de personagens mau humorados e losers acaba tirando muito da forca do filme, correndo o risco de ficar sem carisma. O maior atrativo acaba sendo o elenco, em especial, além de François Damien, o talento de Vincent Macaigne, no papel de Jerome, um personagem difícil e irritante. Vincent esteve recente no filme dirigido por Louis Garrel, "Dois amigos", em um papel bem divertido. O filme apela para uns momentos de fantasia, quando Mars se vê seu pais dando conselhos para ele ( eles ja morreram). Esse elemento fantástico parece totalmente deslocado da narrativa do filme.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Muitos homens num só

"Muitos homens num só", de Mini Kerti (2014) Filme de estréia da diretora de comerciais Mini Kerti, faturou no Festival Cine Pe de 2014 10 prêmios, entre eles, Melhor filme, Ator, Atriz e Direção, além do Premio do Juri Popular. Lançado no circuito, no entanto, o filme não seduziu o publico, ficando com uma bilheteria fraca para o seu potencial. Misturando drama, policial e melodrama romântico, o filme é baseado no livro de Joao do Rio, intitulado "Memórias de um rato de Hotel". No inicio do Sex XX, no Rio de Janeiro, Arthur Antunes Maciel era um ladrão inteligente e sedutor que roubava os pertences de hospedes de hotéis. Filho de família rica do Sul, ele foi expulso de casa e encontrou no latrocínio a forma para poder se sustentar. Com várias identidades, Arthur (Vladimir Brichta) acaba se apaixonado por Eva (Alice Braga), casada com Jorge (Pedro Bricio), um politico mau caráter e machista. Paralelo, o detetive policial Felix Pacheco (Caio Blat) está no encalço de Arthur, mas não faz idéia de como ele é. Com excelente técnica ( fotografia, direção de arte, maquiagem, figurino) o filme segue em ritmo de novela, cheia de reviravoltas recambolescas que fazem o anti-herói Arthur fugir de um lado pro outro. O charme do filme está no carisma do casal principal, e na galhardice do personagem de Pedro Bricio, um pilantra da pior espécie. O ritmo do filme, no entanto, segue lento. Fazer filmes de época hoje em dia no Brasil é algo bem arriscado, o publico parece que só vai assistir se for novela. O elenco de apoio é ótimo: Roberto Birindelli, Cesar Troncoso, Alejandro Claveaux, Silvio Guindane, entre outros. Confesso que durante todo o filme, só me lembrava de "Ladrão de casaca", do Hitchcock.

Eu não sou seu negro

"I'm not your negro", de Raoul Peck (2016) Dirigido pelo documentarista haitiano radicado nos Estados Unidos Raoul Peck, baseado no livro não acabado do escritor e pensador americano James Baldwin, que veio a falecer em 1987. Em 1979, Baldwin ofereceu ao seu agente um livro chamado "Remember this house", mas que acabou tendo apenas 30 páginas manuscritas. Ousada, a obra tinha a intenção de narrar a História do povo americano através da vida de 3 lideres dos direitos civis negros dos anos 60:Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. Ironia do destino, James Baldwin, que era amigo dos 3, vivenciou o assassinato de todos eles, que morreram jovens com menos de 40 anos de idade. Narrado com uma assombrosa voz de Samuel L Jackson, que parece elevar as palavras e colocar o espectador num lugar chamado"sublime", o filme mistura imagens de arquivo, fotos históricas e entrevistas com James Baldwin durante programas de tv dos anos 60. Assistir ao filme e ouvir o que é dito pelo texto escrito por Baldwin equivale a punhaladas no coração. Mais de 40 anos se passaram, e a condição da população negra nos Estados Unidos continua exatamente igual. Baldwin também escreveu resenhas sobre os filmes americanos e como os grandes clássicos representavam as minorias ( negros, Indios) sempre como vilões e deixados de lado, destroçados pela supremacia branca. Fotos e imagens de época mostrando a fúria do americano branco que não aceitava a miscigenação das raças dentro das escolas, e campanhas publicitarias grotescamente preconceituosas, fazem parte do cardápio que o filme oferece. Com certeza, um dos melhores documentários que já vi, mas com um porém que eu assumo que não gostei: Baldwin desdenha ferozmente de Doris Day no filme. Eu sou fã dela, desde os filmes de Hitchcock ou das comédias românticas com Rock Hudson, e ela não merecia estar no meio desse tiroteio todo. Curioso notar em determinado momento do filme, quando se abrem os arquivos do FBI, que a agencia americana investigava os passos de Baldwin e o consideraram uma pessoa perigosa para a nacao. Porque? Além da capacidade que ele tinha de liderar o movimento negro, ele também suspeito de ser homossexual. Ou seja, preconceito duplo do governo americano.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Cut Snake

"Cut snake", de Tony Ayres (2014) Ousado thriler policial australiano, que mostra os 2 bandidos protagonistas apaixonados entre si. Sparra (Alex Russel, de "Poder sem limites") é um ex-presidiário que está prestes a se casar com Paula. Ele esconde dela o seu passado criminoso. Um dia porém, Pommie, seu colega de cela, volta para cobrar de Sparra 2 promessas feitas na prisão: a de continuarem no mundo do crime, e a de viverem juntos. Incrível como esse filme lançado em 2014 e que rodou mundo em vários Festivais (inclusive o Tiff do Canada) nunca deu as caras por aqui. Com ótima direção e um roteiro cheio de reviravoltas, no final das contas o filme é um romance sobre um amor bandido Lgbts. Sullivan Stapleton, que atuou em "Reino animal", lembra bastante Jason Statham misturado com Gerard Butler. Muita boa as performances dele e de Alex, que fizeram uma dupla intensa em todas as cenas. A cena de amor entre os dois foi muito bem filmada, com bom gosto e poderia fácil ter caído no grotesco. Na trilha sonora, uma coletânea de hits funk soul dos anos 70 ( o filme se passa em 1974), e a direção de arte, figurino e maquiagem são ótimos. Um belo filme para conferir.

Persona

"Persona", de Ingmar Bergman (1966) Um dos filmes mais enigmáticos da história do cinema, "Persona" ganhou um sub-titulo infeliz aqui no Brasil, provavelmente por motivos mercadológicos:"Quando duas mulheres pecam". Quem assistir ao filme, vai ver que esse titulo não tem nada a ver com o contexto da narrativa. Bergman escreveu o roteiro de "persona" quando estava internado em um hospital, convalescendo de uma forte pneumonia. Essa crise criativa por não poder estar dirigindo acabou sendo transposta para o personagem de Liv Ulmann, Elisabeth Vogler. Ela, uma atriz com carreira brilhante, que subitamente fica muda durante uma apresentação da tragédia grega "Electra", interpretando a personagem-titulo. Internada em uma clinica psiquiátrica, a médica chefe entende que essa mudez seria uma forma de contestação de Elisabeth perante a sua profissão, cansada de interpretar varias "Personas" e em busca de conhecer quem ela realmente é. A medica encaminha a sua enfermeira, Alma (Bibi Andersson) para acompanhar Elisabeth por um período de descanso em sua casa de praia. No entanto, a aproximação dessas duas mulheres, uma falante ( a enfermeira) e a outra muda( a atriz) acaba provocando distúrbios de personalidades. Uma dos elementos mais brilhantes na historia metafórica de Bergman, é a inversão dos papéis. A atriz, muda, se torna a analisanda, e a enfermeira, que revela para a atriz os seus segredos mais sombrios, se torna a paciente. Eu adoraria entender de psicanálise para poder me aprofundar em tantos signos que o filme nos apresenta, mas acredito que cada espectador possa fazer a sua própria interpretação, sem ter que ser um especialista ou estudioso da área medica. O filme começa com um pequeno curta experimental, repleto de imagens que falam da gênese da criação do cinema, desde o funcionamento de uma câmera, até imagens de filme mudo, passando por imagens eróticas ( um close em um penis ereto!!), corpos de idosos mortos em uma mortuária e para finalizar, um garoto ( o filho de Elisabeth) que ressuscita e toca a imagem de sua mãe projetada na parede. Aí sim, o filme começa. Outra subversão estilística acontece no meio do filme, quando o filme simplesmente "queima", e recomeça a história, dessa vez com as personagens já transformadas. E no final, quando vemos uma imagem de Bergman dirigindo e do seu fotógrafo Sven Nykvst empunhando a câmera, seria o caso de achar que a vida é toda uma farsa, segundo uma teoria de Bergman? Seríamos todos personagens, empunhando máscaras (personas) ao nosso bel prazer? Um filme que até hoje arrebata pela sua inventividade, modernidade e perfeccionismo técnico. A fotografia escandalosa de Sven Nykvst, e a interpretação feroz e absurda dessas duas atrizes brilhantes ( Liv Ullman começou aqui sua parceria com Bergman, inclusive tendo um caso com ele durante as filmagens. Bibi Andersson era sua mulher até então. O monólogo que Alma faz, relatando a sua aventura sexual para Elisabeth, é impressionante O espectador consegue visualizar a cena só pela sua narração. E a brilhante direção e montagem já no final, com um monólogo de Alma falando sobre o aborto do filho de Elisabeth, filmado duas vezes: uma apenas em Alma, outra apenas em Elisabeth. Essa foi a segunda vez que Bergman filmou na Ilha de Faro ( a primeira foi em seu filme anterior, "Através dos espelhos". A partir dai, ele veio sempre a filmar, inclusive morando na Ilha. Obrigatório para estudantes de Cinema e para Atores.

A mulher do lado

"La femme d'à côté", de Francois Truffaut (1981) Rever um filme de Truffaut deveria ser uma obrigação para Cinéfilos e estudantes de cinema. Entender a sua filmografia, as histórias que ele conta, o seu trabalho de direção de atores e sua mais que alardeada paixão pelo Cinema. "A mulher do lado", assim como em quase todos os filmes românticos de Truffaut, é uma historia de amor trágica. Truffaut raramente permite que os apaixonados tenham um final feliz. Assim como o personagem de Gerard Depardieu fala aqui no filme, "Toda historia de amor tem inicio, meio e fim". Com essa premissa, contamos a história de Mathilde (Fanny Ardant, mulher de Truffaut na época) e Bernard (Gerard Depardieu). Eles foram amantes a 8 anos atrás, mas o temperamento violento e ciumento de ambos os afastou. Agora, o destino os aproxima de novo. Cada um deles casado e com filho. Mathilde se muda com seu marido e filho para uma casa e ela descobre que quem mora ali é Bernard. Logo, eles marcam encontro amorosos, que vão se tornando cada vez mais doentios e destrutivos para ambos. O filme começa com a narração de uma das personagens, Odile, uma senhora dona de um clube de tênis e ela também sofrendo por amor. As cenas são marcadas com extrema elegância por Truffaut, que teve ajuda importantíssima na fotografia de William Lubtchansky e na trilha sonora de George Delerue. Com isso, o filme ganha um status dos grandes melodramas Hollywoodianos dos anos 50, principalmente os filmes de Douglas Sirk e os suspenses românticos de Hitchcock, de quem Truffaut é fã confesso. O roteiro, primoroso, deveria ser comprado por um casal de atores e montar urgente essa adaptação cinematográfica. E' ouro. Agora, sem querer ser cruel mas já sendo: há exatos 36 anos atrás, Gerard Depardieu era um galã absoluto da França. Como o tempo, ou ele mesmo, lhe fizeram mal danado.

Room 8

"Room 8", de James W Griffith (2013) Curta vencedor do Premio de melhor filme no Bafta 2013, é uma divertida fantasia que faz lembrar bastante da série " Alem da imaginação" e até mesmo " Black Mirror". A grande vantagem é que ele só tem 6 minutos de duração. Na Russia, um prisioneiro britânico é trancado dentro da cela numero 8, onde já existe um outro preso britânico dentro. Ao entrar, o novo preso encontra uma caixa vermelha. Ele pergunta para o colega o que é a caixa. O homem pede para que ele não abra. Mas a curiosidade... Bem dirigido, com ótimos efeitos de computação gráfica e o desejo de que essa caixa existisse de verdade para resolver muitos problemas no mundo. https://vimeo.com/64878402

Fragmentado

"Split", de M. Night Shyamalan (2017) O Cineasta M. Night Shyamalan teve seus momentos de glória, inferno e o retorno para a glória, exatamente nessa ordem. Graças ao sucesso de seu filme anterior, "A visita", e agora com esse "Fragmentado", Shayamalan deu as coordenadas de como fazer filmes baratos renderem muito. "Fragmentado" custou 9 milhões de dólares, e já rendeu atee agora mais de 123 milhões de dólares. O Sucesso? A eterna fórmula do "Twist", aquela virada que pega a todos os espectadores de surpresa no final, e que todo mundo adora. A bem da verdade, a maior virada aqui acontece depois dos créditos finais, mas nenhuma pessoa na face da Terra será capaz de comentar o que acontece, correndo o maior risco do mundo de provocar um mega spoiler. Uma pena, pois suscitaria uma discussão bem grande entre os fãs do cineasta indiano. Muito pouco pode se falar sobre o filme. Somos apresentados a 3 garotas, que logo no inicio são raptadas por um sequestrador, que as prende em uma espécie de cativeiro subterrâneo. Logo, apavoradas, elas descobrem que e' esse homem: Kevin (James McAvoy, genial) é um homem que sofre de múltiplas personalidades. Dentro de sua mente, existem 23 diferentes tipos de pessoas, mudando de gênero e idade. O que as apavora, é que uma 24a personalidade está para surgir. Direção segura de Shayamalan, que na parte final deixa o espectador com o coração na boca, nos preparando durante toda a trajetória para o que virá. As meninas não são tão boas atrizes, mas como o filme esta todo em McAvoy, a gente releva. Fotografia merecedora de nota especial, a cargo de Mike Gioulakis, que realizou o excelente " A corrente do mal". Iluminando o subterrâneo com sombras e luzes amarelas, Mike Gioulakis cria tensão nas suas cores, praticamente criando uma luz para cada personalidade de Kevin.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Vida, animada

"Life, animated", de Roger Ross Williams (2016) Assistir a esse documentário indicado ao Oscar da categoria é de cortar o coração. Curiosamente, ele me lembrou bastante de outro documentário premiado, também indicado ao Oscar ( só que em 2016) , e igualmente laureado em Sundance:"A família Lobo". Em ambos os filmes, as historias giram em torno de jovens autistas que cresceram vendo filmes e se projetando nas cenas e nos personagens para criarem o seu próprio Universo. Owen Suskind é um rapaz de 23 anos. Aos 3 anos, ele foi diagnosticado como autista. Isso foi em 1993. Seu pai, Ron, é um jornalista do Wall Street Journal. Sua mãe Cornelia, dona de casa. O casal tinha um filho 3 mais velho, Walter. Todos eles tentaram trazer Owen de volta para o mundo, mas foi impossível. Cada vez mais, Owen se afastava deles e se fechava em sue próprio mundo. Até que um dia, os pais perceberam que Owen poderia se comunicar através dos diálogos e dos personagens da Disney. A partir dai, toda a terapia de Owen veio através dos desenhos da Disney. O desafio agora, já crescido, é fazer com que Owen adquira independência ( uma grande preocupação dos pais é deles morrerem e Owen ficar dependente). Pior ainda, é a situação de Walter: em um comovente depoimento, ele sabe que um dia, terea que cuidar sozinho dos pais idosos e de Owen, e quando seus pais partirem, será somente ele para cuidar do irmão. O cineasta Roger Ross Williams produziu o filme. Ele é um dos raros cineastas negros no gênero documentário, e provavelmente um dos poucos a serem indicados ao Oscar sem usar como tema a questão racial. Para quem odeia o Universo da Disney, provavelmente abominará esse filme, achando um absurdo imperialista e defendendo a lavagem cerebral que os filmes fazem nas crianças. Outros, como eu, que cresceram vendo essas animações, e alem de tudo, que somos cinéfilos, verão um grande valor no filme. Não só a emoção óbvia do tema, como na elevação e na superação que os personagens dessa bela história promovem ao espectador. O filme é repleto de cenas das animações da Disney, o que fará a alegria de todos os fãs. Sugiro aos atores assistirem ao filme e observarem o trabalho de corpo e voz dos personagens autistas, é um laboratório extraordinário. O filme ganhou em Sundance o Premio de Melhor direção em documentário.

Minha vida de abobrinha

"Ma vie de Courgette", de Claude Barras (2016) Co-produção Suiço/Francesa, "Minha vida de Abobrinha" tem elementos visuais de um desenho de animação para crianças, no caso stop motion. Mas o seu conteúdo é mais apropriado para os adultos. O Motivo? O filme fala sobre crianças abandonadas pelos pais pelos motivos mais violentos possíveis: suicido, assassinato, abandono, latrocínio, etc. Abobrinha é um menino de 9 anos que mora com a sua mãe alcoólatra. Um dia, sem querer, Abobrinha provoca um acidente que causa a morte dela. Orfão, Abobrinha é levado por um Policial de bom coração ate um orfanato, onde ele fará contato com outras crianças que sofreram histórias de tragédia familiar. dessas crianças, Simon recebe Abobrinha com receio, e para isso, provoca Bullying no recém-chegado. Abobrinha tenta entender tudo o que está se passando em sua vida, até que um dia, chega Camiile, uma nova menina. Comovente, impiedoso, trágico e muito, muito cinza, esse desenho fará os adultos refletirem bastante sobre a sua relação com as crianças, principalmente se forem filhos. O filme é repleto de cenas antológicas, mas a que mais amo é a cena das crianças dançando musica eletrônica, é lindo e ao mesmo tempo, libertador. As vozes originais são encantadoras. Um filme que mostra o contraste da animação "bonitinha' poreem extremamente depressivo por dentro. Imperdível. Foi indicado ao Oscar de filme de animação, além de ter ganho outros prêmios e ter competido em Cannes na Mostra Quinzena dos realizadores. O titulo induz ao sueco " Minha vida de cachorro", que acredito, tenha sido uma inspiração, pois como esse aqui, mostra o mundo pelo ponto de vista de uma criança.

A passageira

"Magallanes", de Salvador del Solar (2015) Impressionante primeiro filme dirigido e escrito pelo Ator peruano Salvador del Solar. Vencedor de vários prêmios internacionais, é um doloroso e furioso drama sobre vitimas e algozes da ditadura militar no Peru. Magallanes ( o fenomenal Damián Alcázar) é um taxista que para aumentar sua renda, cuida de um ex-coronel da época da ditadura, agora doente com Alzheimer. Um dia, Magallanes reconhece uma jovem passageira que ele pega em um bairro pobre de Lima. Ela é Celina, com um passado tenebroso que une Magallanes, o Coronel e a Ditadura. Com atuações fenomenais tanto de Damián Alcázar quanto de Magaly Solier ( atriz de " A teta assustada"), e um filme que discute culpa, mentira e principalmente, memória. Através da metáfora do Coronel que sofre de Alzheimer, o filme quer discutir se é melhor esconder ou crimes do passado ou colocá-los a tona. Direção impecável, trilha sonora e fotografia soberbos. Um filme excepcional, que mistura drama e thriller de suspense. Nota: trabalho digno de nota de todo o elenco de apoio e da figuração, principalmente na cena que acontece na U-Life. Brilhantes talentos.

Em busca do vale encantado

"The land before time", de Don Bluth (1988) Quem viu esse filme na época em que foi lançado, em 1988, com certeza lembra de ter chorado muito no inicio e no final do desenho. Produzido por Steven Spielberg e George Lucas, tem todos os elementos que caracterizam o universo desses 2 panteões do cinema lúdico: redenção, separação de entes queridos, valentia, amizade e superação. Não tem como negar que " A era do gelo" chupou muito desse filme.Don Bluth, que havia acabado de lançar o excelente e emocionante "Fievel, um conto americano", dirigiu esse verdadeiro clássico da animação, diferente dos filmes da Disney por mostrar o tema da morte algo muito presente na vida do personagem. Em 2015, a Disney lançou "O bom dinossauro", que lembra em tudo esse filme ( parece mesmo uma refilmagem, ao invés da mãe, morre o pai), mas erraram enormemente na dose: ficou violento e assustador. LIttlefoot é um pequeno brontossauro que é amado por sua mãe e seus avós. Sua mãe sempre lhe disse que eles estão a caminho do vale encantado, um lugar aonde todos os dinossauros serão felizes e onde há comida para todos os herbívoros. Um dia, um tiranossauro faminto ataca Littlefoot, mas sua mãe o salva. Ela fica ferida e durante um terremoto, acaba morrendo. Afastado de seus avós, e em luto pela morte da mãe, Littlefoot tenta encontrar o Vale encantado. Para isso, contará com a ajuda de quatro amigos que encontra no caminho. A nota triste do elenco que dublou o filme original é que a atriz mirim que dublou Ducky, Judith Barsi, foi assassinada pelo seu pai aos 10 anos de idade. O filme ainda hoje, mesmo sem os apelos da tecnologia, funciona, pois os elementos dramatúrgicos que ele trabalha e o ritmo dinâmico da historia seduzirão com certeza a criançada. A cena onde Littlefoot reclama com um dinossauro mais velho sobre a maldade de sua mãe em abandonar ele ( na verdade, ela morreu, mas ele não entende isso) é brilhante em direção e em diálogos. A trilha sonora, épica, ficou a cargo de James Horner, de "Titanic". Obrigatório e imperdível.Obrigatório e imperdível. Link original em inglês. https://drive.google.com/file/d/0B9oczmZWUjntS3B2NUxJeERTZHc/view

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Frantz

"Frantz", de François Ozon (2016) Eu sempre fui um grande admirador da filmografia de Ozon, um dos cineastas mais audaciosos e ecléticos da cinematografia francesa. Ele tanto pode dirigir um drama, quanto comedia, musical, sátira, fantasia. Sempre com elegância e glamour. Em "Frantz", Ozon dá voz ao melodrama. Refilmagem do clássico de Ernst Lubitsch de 1931, "Não matarás", o filme é ambientado no final da primeira guerra mundial. Na Alemanha, uma jovem viúva, Anna, leva diariamente flores ao túmulo do seu marido, Frantz, morto em combate. Um dia, ela encontra outras flores no túmulo de Frantz, e descobre que quem está deixando é um jovem frances, Adrien. Os sogros de Frantz ao descobrirem a existencia de Adrien o expulsam, ao contrário de Anna, que tenta entender o porque dele deixar flores no túmulo. Logo ela descobre que ele e Frantz eram grandes amigos em Paris, mas que na eclosao da guerra, se tornaram inimigos. Diferente da versao de Ernst Lubitsch, Ozon apimenta esse triangulo amoroso deixando no ar uma suposta relacao homossexual entre Frantz e Adrien. Por vezes, me lembrei de "Jules e Jim", de Truffaut, que tambem fala de um triangulo entre um frances, um alemao e uma francesa. Esse é o grande tema do filme, que também fala sobre culpa. Uma culpa tao violenta e avassaladora, que leva personagens a tentarem suicido. O filme eclode em melodrama, daqueles bem novelescos, mas sob a batuta de Ozon, tudo fica elegante. Ele é um grande esteta e eximio diretor de atores, aqui trabalhando com um elenco frances e alemao. Pierre Niney, que interpreta Adrien, tem aquela estranheza de Adrien Brody: nem feio nem bonito. Paula Beer também é uma ótima revelacao da Alemanha. Sao 2 jovens e talentosos atores que espero ver mais vezes em producoes europeias.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A cura

"Cure for wellness", de Gore Verbinski (2017) Fantasia de terror dirigido e co- escrito por Gore Verbinski, famoso por dirigir "Piratas do Caribe", " O chamado" e a animação"Rango". Misture no mesmo filme "A ilha do medo", " O iluminado", " Frankenstein" e mais alguns filmes que não posso citar para não date spoiler e você terá " A cura", um filme tecnicamente magistral. A fotografia escandalosa, a direção de arte, a trilha sonora, a edição de som e principalmente a Locacao da mansão contribuem para dar a atmosfera e clima apropriado que Verbinski quiz dar ao seu filme. Ele tem um olhar vintage sobre os filmes de cientistas. O roteiro brinca com a alucinação e paranoia, fazendo com que o protagonista se assemelhe bastante ao de Leonardo de Caprio no filme de Scorsese. Lockhart ( o ótimo Dane Dehaan) é um jovem ambicioso que trabalha para uma grande empresa em Nova York. Para encobrir um falcatrua que ele fez, seus chefes o mandam até a Suíça para ir atras de um dos chefes, que se internou em uma famosa clinica para recuperação e bem estar. Chegando lá, Lockheart se depara com uma realidade que parece muito diferente do que aparenta ser. Com 142 minutos, seria fácil dizer que o filme tem um exagero em sua duração. Sim, tem, mas entendo a lógica de Verbinski de fazer um filme psicológico e que trouxesse aos poucos os elementos da trama para o espectador, assim como fez Kubrick em "O iluminado". A história instiga e a gente fica cheio de teorias acorda do que está de ato acontecendo. A direção só erra ao trabalhar os funcionários do local sempre com uma cara amarrada, não havia necessidade dessa caricatura. O elenco é todo de desconhecidos, o que foi um grande acerto. De fato é um filme visualmente estonteante, como há muito tempo eu não tinha visto. Vale assistir, não é perfeito, mas é um raro filme de gênero cheio de estilo e que custou uma fortuna. Verbinski foi corajoso.

John Wick- Um novo dia para matar

"John Wick- Chapter 2", de Chad Stahelski (2017) O ex-dublê Chad Stahelski tá dando de dez a zero em muito cineasta conceituado dos Estados Unidos. Nessa continuação de " De volta pro jogo", ele retoma o personagem de John Wick, um exímio assassino profissional brilhantemente personificado por Keanu Reeves, e faz um porradão que todo filme inspirado em vídeo games queria ser. Ação ininterrupta, tiros intermináveis, assassinos que surgem e morrem que nem baratas e que levam tiro na cabeça para certificar que estão mortos. O roteiro é o que menos interessa aqui, em um resgate dos ótimos filmes de ação dos anos 80 onde o que interessava pro espectador era pancadaria e tiroteio. Com a co- produção chinesa, muitos personagens de apoio são chineses e até a estética e a fotografia repleta de neons lembram os filmes de Hong Kong. Muitas cenas antológicas, a destacar a que se passa nas salas de espelho. O filme tem o melhor gancho para uma continuação que eu já vi em uma franquia, deixando o espectador afoito para já querer ver a terceira parte

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Monsters

"Monsters", de Steve Desmond (2015) Excelente curta metragem de suspense, vencedor de vários prêmios em festivais internacionais. Jenn é uma menina prestes a completar 10 anos de idade. No entanto, ela mora em um bunker, junto de seus pais e seu irmão mais velho. Eles dizem a ela que o mundo de fora é povoado de monstros, e por isso ela não pode sair. Um dia, no entanto, ela consegue pegar a chave e sai do bunker. Com ótima direção, ritmo frenético e um roteiro com 2 viradas incríveis na história ( e isso em menos de 13 minutos de filme), "Monsters" é melhor do que muito longa-metragem de gênero metido a besta e que não consegue chegar ao talento desse filme. O tema pode parecer bastante com "Rua Cloverfield", mas a semelhança para por ai. Forte atuação da menina Caitlin Carmichael. A trilha sonora e a fotografia ajudam a dar um clima tenso pra historia. Muito bom mesmo, tomara que o cineasta emende logo em um longa, merece.

Pulse

"Kairo", de Kiyoshi Kurosawa (2001) Diretor de filme de gênero, Kiyoshi Kurosawa aposta todas as suas fichas em filmes de suspense. Foi assim no recente "Creepy", e em "Pulse", seu mais famoso filme, lançado em 2001 e refilmado nos Estados Unidos em 2006. O filme narra a história sobre estranhos acontecimentos que estão acontecendo com moradores de Tokio. Acompanhamos duas histórias paralelas: Kawashima, um jovem que trabalha em uma empresa de computação, acessa a internet. Uma página surge do nada e pergunta se ele quer ver Fantasmas. Na outra história, Michi é uma jovem que trabalha em uma floricultura. Um de seus colegas de trabalho se suicida, mas deixa para trás um disquete. Quando as pessoas acessam o disquete, enxergam figuras estranhas na tela do computador. A partir dai, pessoas vai se suicidando, e o mundo vai entrando em um enorme caos. Os sobreviventes precisam descobrir o que está acontecendo. "Pulse" tem grande referencia de "O chamado". Mas o desenvolvimento é diferente. Aqui, o grande tema trabalhado metaforicamente por Kiyoshi Kurosawa, que também escreveu o roteiro, é falar sobre a solidão na grande cidade e a falta de solidariedade. Por conta disso, as pessoas vão ficando depressivas e se matam. Quem torna as pessoas depressivas são os espíritos que habitam o mundo virtual. A teoria do filme é que são bilhões de espíritos mortos, e já não há mais espaço para eles ficarem. Dai, precisam invadir um outro universo, no caso, o nosso, e a porta de entrada seria o acesso a internet. O filme é bastante inventivo e tem uma atmosfera muito interessante, de apocalipse. Os atores são ótimos ( os atores japoneses parecem que nasceram para fazer filme de terror) e a direção de Kiyoshi Kurosawa investe bastante no silencio e no tempo cinematográfico. O problema de Kiyoshi Kurosawa e que em todos os seus filmee, é que ele estica demais a narrativa Em "Pulse", são 2 horas de filme. Seria possível contar essa mesma historia com meia hora a menos, mas Kurosawa quiz contar varias sub-historias, deixando mais claro o quanto as pessoas estão solitárias e tristes. De qualquer forma, um belo filme, triste e melancólico, que faz pensar. Um feito para um filme de gênero.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O animal sonhado

ˆO animal sonhado", de Breno Baptista, Samuel Brasileiro, Rodrigo Fernandes, Ticiana Augusto Lima, Victor Costa Lopes, Luciana Vieira (2015) Em 2015, um ano antes de "Aquarius", de Kleber Rezende, esse coletivo do Ceará já havia mostrado cenas de orgia entre jovens de classe média com conteudo quase explicito. Dividido em 6 episódios, cada um dirigido por um jovem Cineasta local, o filme tem como tema a tensão sexual e a libido, através de histórias sobre jovens em busca de sexo. Como todo filme episódico, o rendimento é irregular, mas pelo menos 3 merecem bastante a atenção: o primeiro, o segundo e o último. Ep 1) Dois amigos estudantes são atletas do time de futebol. Entre eles rola um clima de sexualidade platónica latente, até que o desejo acaba falando mais alto Ep 2) 2 amigos estão numa boite a fim de pegar garotas. Um só pensa em transar, o outro, mais tímido, quer algo mais sério Ep 3) Uma jovem gordinha tem desejos eróticos com um marombeiro na academia onde ela malha. Ep 4) Um pai edita o video de baile de debutantes de sua filha, e descobrimos que ele nutre um desejo incestuoso por ela Ep 5) 3 casas de amigos passam final de semana em casa de campo. A simples presença de corpos jovens e sensuais faz com que todos tenham desejos de armar uma grande orgia Ep 6) Uma mulher imagina que está sendo perseguida por um homem másculo que anda pelado pelas ruas. Até que ela se vê no meio de uma grande orgia O grande barato desse filme é que ele ´´ curto, menos de 80 minutos, e trata da sexualidade sem frescura, sem pudor. São cineastas jovens mostrando a sua visão sobre o tema, sobre a sua geração, sobre as possibilidades de extravasar os medos e as neuras urbanas através do sexo. Os atores são bem interessantes, todos desconhecidos e por isso mesmo atraentes para o espectador. Galera despudorada, aberta a possibilidades de interpretação. A melhor cena do filme e a da boite do segundo episódio, muito boa , bem dirigida e bem interpretada. Muito bom saber que existam tantos talentos na frente a atrás das câmeras no Ceará. O filme foi exibido no Festival de Tiradentes 2015.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

No fim do túnel

"Al final del tunel", de Rodrigo Grande (2016) Thriller argentino, repleto de suspense e reviravoltas como em um bom filme de Hitchcock, de onde o cineasta e roteirista Rodrigo Grande tirou inspiração, inclusive na trilha sonora repleta de referencias a Bernard Hermann, compositor habitueé dos filmes do Mestre do suspense. O astro argentino Leonardo Sbaraglia protagoniza essa história no papel de Joaquin, um experiente engenheiro que ficou paraplégico após um acidente de carro que vitimou sua esposa e filha. Morando sozinho em uma casa de três andares (porão, térreo e terraço), Joaquin vive de consertar computadores. Sofrendo ação de despejo, ele resolve alugar o quarto de cima. Logo surge Berta e Betty, mãe e filha de 6 anos, novas inquilinas. Porém, para surpresa e Joaquin, ele descobre um plano de um grupo de bandidos de cavar um túnel embaixo de sua casa para roubar o banco que fica do lado de sua casa. "No fim do túnel" é repleto de viradas na história, daqueles que o espectador adora, porque dá uma nova guinada na trama. Além de Hitchcock, o filme tem referencias de outros cineastas, entre eles, de Tarantino com "Cães de aluguel", e os irmãos Coen com "Matadores de velhinhas". A fotografia é do mestre Felix Monte, de "A história oficial". O que prejudica o filme em determinado ponto é que ele é longo, 2 horas de duração, e lá pelo meio da uma barriga desnecessária. Com 20 minutos a menos, o filme teria tido um resultado muito melhor e mais dinâmico. O desfecho ficou meio forçado na resolução, mas como o filme brinca com as convenções do cinema de suspense, a gente acaba aceitando. Uma das principais lições que Rodrigo Grande teve de Hitchcock, é de plantar informações logo nas primeiras cenas, que para o espectador esperto e atento, sabe que será usado em algum momento no final. Boa atuação de Sbaraglia, um ator versátil que trabalha bem tanto em filmes comerciais quanto autorais.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Certas mulheres

"Certain women", de Kelly Reichardt (2016) Drama escrito e dirigido pela cineasta independente americana Kelly Reichardt, adaptado de histórias escritas por Maile Meloy. O filme narra 3 histórias independentes. Em comum, a mesma cidade, Livingston, em Montana, e serem protagonizados por mulheres. Diferente de outros filmes episódicos, que entrelaçam as histórias, aqui Kelly conta cada uma de seus contos separadamente. A primeira, com Laura Dern, que interpreta uma advogada que defende a causa trabalhista de um ex-funcionário de uma fábrica que processa a empresa mas não consegue receber indenização. Esse episódio discute o machismo, pois o cliente faz pouco caso das decisões profissionais que a advogada faz. O segundo episódio, com MIchelle Willians, é sobre um casal com filha adolescente que quer construir uma casa. Interessada em adquirir pedras de decoração que pertencem a um idoso, a mulher sofre machismo quando o idoso não escuta o que ela fala e somente dá atenção a conversa do marido. O terceiro episódio tem um foco diferente. Ao invés de discutir o quanto os homens são cruéis com as mulheres, a história gira em torno da paixão platónica que uma tratadora de cavalos sente por uma professora de direito, interpretada por Kirsten Stewart. De ritmo extremamente lento, o filme poderia ter rendido um excelente curta, a saber, o terceiro episódio, de longe, o mais interessante e melhor construído em termos de personagens. O episódio de Michelle Willians é o mais aborrecido de todos, e por isso, sua atuação acabou sendo prejudicada. Cada episódio acaba abruptamente, para que no final, seja narrado uma espécie de desfecho de cada uma das histórias. No final, fiquei com a impressão de ter visto um filme bem burocrático. Não é ruim, porque o episódio da professora salvou a pátria. Palmas absolutas para a interpretação minimalista e soberba da atriz Lily Gladstone, no papel dificílimo da tratadora de cavalos. Ela ganhou vários prêmios como melhor atriz coadjuvante, merecidamente. Pelo fato do filme ser muito independente, acabou não tendo foco no Oscar 2017.

Os Saltimbancos trapalhões rumo à Hollywood

"Os Saltimbancos trapalhões rumo à Hollywood", de João Daniel Tickomiroff (2017) O que me chamou a atenção nesse filme novo de Renato Aragão é a alta qualidade técnica: fotografia, figurino e direção de arte. Confesso que eu morria de medo de assistir a esse filme, pois o original dos "Saltimbancos Trapalhões" foi um dos meus filmes chave da minha infância. Graças a Deus a Estrutura desse aqui é bastante diferente, mesmo porque seria impossível resgatar o espírito do filme dos anos 80 simplesmente porque não temos mais Mussum e Zacarias, fundamentais para o sucesso do filme. Didi e Dedé em cena sempre são motivos para diversão. Mas o tempo passou e eles precisam agora dividir o tempo em cena com outros comediantes e artistas atuais: Marcus Veras, Maria Clara Gueiros, Leticia Colin, Alinne Moraes, Marcos Frita, Emílio Dantas, Nelson Freitas, Rafael Vitti, Lilian Aragão... e sim claro, Roberto Guilherme, companheiro fiel do grupo. Todos em total espírito dos Trapalhões. Os números musicais ficaram sob a responsabilidade da dupla Claudio Botelho e Charles Mueller, que montaram o mesmo projeto para o teatro. Eu gosto mais do frescor e da espontaneidade dos números musicais do filme original, que condiz mais com o espírito mambembe dos Saltimbancos. Aqui ficou tudo milimetricamente estudado e marcado, o que não é uma crítica. Mas como e' inevitável fazer a comparação... A história todo mundo já conhece. A registrar o belo trecho final, homenageando o quarteto, com inserção de Mussum e Zacarias, é claro, prestar uma declaração de amor a todo o talento e dedicação ao seu público de Renato Aragão. As palmas dentro e fora do filme são reais.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Outono

"Sonbahar", de Özcan Alper (2008) Excelente longa de estreia do Cineasta turco Özcan Alper, e um tristíssimo drama sobre perda, morte, sonhos frustrados e aprisionamento emocional. O filme venceu mais de 16 prêmios internacionais, merecidamente, inclusive ganhando Premio de melhor trilha sonora, que de fato é maravilhosa e envolvente. Yusuf era um jovem estudante que foi preso pelo governo em 1997 por participação em movimento estudantil. 10 anos depois, ele é solto por problemas de saúde e retorna para a casa dos pais, nas montanhas. Seu pai morreu durante a sua permanência na prisão, sua irmã se casou e foi morar na cidade grande e somente restou sua mãe, idosa e doente. Nas montanhas, somente ficam os idosos, os jovens vão para Istambul trabalhar. A única pessoa que ficou nas montanhas da geração de Yusuf é um colega da época da faculdade, Mikail, que trabalha como marceneiro para seu pai. Um dia, Mikail chama Yusuf para ir até a cidade beber em um bar. Lá, Yusuf conhece Eka, uma prostituta de Georgia e que trabalha ilegalmente na região. Os 2 se conectam pela solidão e tentam manter encontros casuais. Belamente narrado em 3 histórias paralelas, todas envolvendo Yusuf: sua relação com sua mãe, seu amigo e a prostituta, "Outono" é daqueles filmes que encantam pela forma como a narrativa é apresentada para o espectador:lentamente, com poucas falas, muita poesia e lirismo nas imagens. O excelente trabalho de todos os atores, misturando profissionais e amadores, resulta em uma brilhante recriação da vida em um local onde absolutamente nada importa, apenas esperando o dia de sua morte ( durante o filme, vemos 2 cortejos acontecendo). "Outono" nos faz pensar sobre o que realmente importa na vida. No caso, para Yusuf, mudar o mundo era uma opção de futuro, que resultou frustrado e ele próprio se vê perdido na vida. Um filem triste, muito triste. Um retrato cruel sobre uma geração que não se encontrou no mundo.

Choele

"Choele", de Juan Sasiaín (2013) Choele é um município a 11 horas de Buenos Aires. É ali que Coco, um menino de 11 anos, vai passar as férias com o seu pai, divorciado de sua mãe com quem Coco mora. Coco é um menino esperto e alegre, e apaixonado pelo seu pai. Mas quando conhece Kimey, a namorada de seu pai, seus sentimentos se transformam: apaixonado por ela, ele vê em seu pai um rival. Lindo e raro filme argentino totalmente familiar, repleto de sentimentalismo e que a gente assiste com enorme prazer. Todo pelo ponto de vista do menino, remete a pequenos clássicos juvenis, como "O verão de 42" ou o nacional " Houve uma vez dois verões", de Jorge Furtado. Dirigido com muita delicadeza, e respeitando o universo dos adolescentes com muito carinho, o cineasta e roteirista Juan Sasiain foi feliz ao escalar 3 atores que tem uma química fantástica: Leonardo Sbaraglia, o grande galã argentino, e extremamente carismático; Guadalupe do Campo, vivendo com muita leveza e sedução a jovem namorada, primeiro amor de Coco; e o menino Lautaro Murray, em seu primeiro papel no cinema, exalando frescor e espontaneidade, sem interpretação forcada. Assisti ao filme com muita simpatia, e recomendo para quem quer ver um delicado drama sobre o "coming of age" que mesmo tratando de lugar comum, vale pelo amor dedicado ao projeto de todos os envolvidos. Trilha sonora linda, e fotografia que valoriza a locação.

Batman Lego: O flme

"The Lego Batman movie", de Chris Mackay (2017) Totalmente insano e esquizofrênico. E por isso, é muito bom. "Leo Batman: O filme" vai alem de qualquer sandice, e diverte justamente por se comprometer apenas em divertir os espectadores e aos apaixonados por Cinema. O filme junta todos os vilões da Warner Bros, não só os do universo da Dc Comics, mas também de filmes clássicos, como a Bruxa Má de Magico de Oz, Valdemort, Godzilla, Sauron ( de Senhor dos anéis", Dracula, King Kong, Gremlins, Sr Smith de "The Matrix", enfim, uma infinidade de personagens que fará a delicia de qualquer cinéfilo em tentar adivinhar quem são os personagens. Acho que é a maior concentração de personagens em um único filme que já vi. O filme parte da premissa de que Batman/Bruce Wayne é solitário e valoriza esse sentimento, uma vez que não consegue expressar com palavras ou gestos a gratidão para com os outros. O filme lida com 2 temas: Charada e os vilões querem dominar Gothan City. Paralelo, Dick Grayson (o futuro Robin), sonha em ser adotado por Bruce Wayne, e ai o filme discute a questão da família, de forma bastante comovente ( Alfred também faz parte desse núcleo emocionante). Aproveitando que estamos em tempos de patrulhamento, o filme também lida com o machismo de Batman, que não aceita ajuda de Barbara Gordon. As tiradas são sensacionais, principalmente quando falam da corda no piloto automático. Sim, com certeza o filme fará a delicia de fãs nostálgicos, pois sacaneia com todos os outros filmes de Batman, além do seriado cult dos anos 60. Outra maravilha é a trilha sonora, que vai de Michael Jackson a Rick Astley. O roteiro é genial, o ritmo absolutamente frenético e os diálogos, impiedosos. A dublagem original é outro elemento magico no filme: Michael Cera (Robin, hilario), Will Arnett (Antológico como Batman), Ralph Fiennes como Alfred e Rosario Dawson como Barbara Gordon estão fenomenais. De preferencia `a versão original.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Eu sou Michael

"I am Michael", de Justin kelly (2015) Pode alguém se considerar um Ex-gay? Pois Michael Glatze diz que sim, e mais, ele diz que "Homossexualidade é morte". Baseado na história real do ex-ativista gay Michael Glatze que se converteu ao cristianismo e hoje em dia ataca o homossexualismo, "Eu sou Michael" é um filme bastante controverso. James Franco interpreta Michael Glatze, que no inicio dos anos 2000, casado com Bennet (Zachary Quinto), criou a Revista "Young gay America". Um ativista combatente da causa gay e defensor das minorias, Michael começou a sentir síndrome do pânico e medo de morrer ( seus pais morreram jovens). Durante o tratamento, Michael começou a ter visões, e passou a frequentar a Igreja e ler a Bíblia. Logo, foi se afastando da sua vida ativa na homossexualidade (pelo filme, ele e Bennet eram bastante promiscuo, mantendo relações a 3 e Michael caçava jovens gays em boates). Para espanto de todos, Michael começou a combater a sua vida anterior e a abraçar a religião, até se casar com cristã Rebekah (Emma Roberts). Gay assumido, o cineasta Justin keller realizou 1 ano depois com o mesmo James Franco o longa "King Cobra", sobre um ator porno envolvido com assassinato. Pelo visto, Justin adora retratar cinebiografias polemicas ambientadas no underground do Universo gay. Mas os seus 2 filmes tem um problema de ritmo, e são bastante burocráticos e caretas em relação ao retrato que faz de seus personagens. James Franco em seus últimos trabalhos tem procurado abraçar personagens viscerais, mas falta a ele ainda uma dose extra de visceralidade que a sua persona Hollywoodiana não permite ainda. Zachary Quinto está ok, e no mais, o filme vai caminhando de forma entediante até o seu desfecho ambíguo. Dependendo de como o espectador for avaliar esse filme, pode ser até que ache que é um filme doutrinário de como deixar de ser um gay. O filme evita mostrar um conflito interno de Michael em sua vida " hetero", muito provavelmente porque o verdadeiro acompanhou as filmagens ( vi varias fotos do Set com Michael abraçando James Franco). Uma pena que o filme ficou no meio do caminho.

A cidade onde envelheço

"A cidade onde envelheço", de Marilia Rocha (2016) No filme "Brooklyn", que Barra a imigração de irlandeses para os Estados Unidos, a protagonista conclui que o coração está no lugar aonde decidimos morar. Assim também é o tema de "A cidade onde envelheço", da mineira Marilia Rocha, vencedor de 4 prêmios em Brasília 2016: filme, direcao, atriz ( dividido entre as duas atrizes portuguesas" e ator coadjuvante ( o divertido Wederson Neguinho). Francisca mora há anos em Belo Horizonte e trabalha como garçonete. Vinda de Lisboa, ela mora sozinha e tem um caso, a quem ela insiste em negar como namorado. Teresa é sua amiga de adolescência e resolve morar também no Brasil. Ela vai dividir o apartamento com Francisca. Teresa é o oposto de Francisca: baladeira, agitada, cheia de sonhos. Francisca carrega em si uma melancolia, misto da perda da juventude com saudades do lar. Entre as duas amigas, a rotina vai entre a amizade e o distanciamento. Marilia Rocha apostou em um filme cem por cento minimalista: o roteiro não tem nenhum grande momento conflituoso. Os atores todos "atuam" como na vida real, sem interpretação. O espectador parece assistir a um documentário sobre a vida simples de pessoas simples, sem grandes ambições. Para quem está acostumado com filmes assim, "A cidade onde envelhece" é um poema sobre a vida solitária de almas sonhadoras. Para quem busca uma história repleta de reviravoltas, vai se assustar. Dois elementos extraordinários no filme: a trilha sonora, mesclando sonoridade portuguesa e brasileira dia anos 70, e a linda fotografia de Ivo Lopes Araujo, de "Tatuagem".

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Grimm

"Grimm", de Alex Van Warmerdam (2003) Livre adaptação moderna para o conto de fadas dos Irmãos Grimm "João e Maria". Alex Van Warmerdam dirigiu e escreveu esse roteiro. Assim como seu conterrâneo Holandês Jos Sterlling, de " O ilusionista" e "O holandês voador", Warmerdam se utliza do humor negro, da fantasia e do lúdico para contar a história. Obviamente, o filme é para adultos: os irmãos são incestuosos, matam, fazem sexo com outras pessoas, tudo para poder sobreviver nesse mundo cruel. Jacob e Marie são abandonados pelo seu pai na floresta. Sozinhos, resolvem ir até a Espanha para ir morar com o tio. No caminho, são sequestrados por um casal de fazendeiros que quer que Jacob transe ininterruptamente com a esposa. Chegando lá, descobrem que o tio morreu. A primeira parte do filme é sensacional, apostando numa narrativa surrealista onde sexo e morte caminham juntas. Depois, quando chegam na Espanha, o filme vira outra coisa: mais realista, apesar de ainda manter o ambiente de estilização e de violência. Mas o grotesco e a pantomina desapareceram. De qualquer forma, há que se louvar o trabalho dos atores principais: Halina Reijn e Jacib Derwig dão tudo de si para encontrar o tom exato desse universo tão atípico que Warmerdam que nos apresentar. Vale a curiosidade.

Cinquenta tons mais escuros

"Fifty shades darker", de James Foley (2017) O cineasta americano James Foley tem em seu currículo 2 grandes filmes independentes: "Caminhos violentos" e " O sucesso a qualquer preço". Fora isso, dirigiu clipes da Madonna e o seu filme cult" Quem é essa garota?", além de episódios de " Twin Peaks" e "Hannibal". Com esse currículo, era de se esperar que Foley trouxesse sangue novo ao segundo filme da trilogia do personagem Christian Gray. Mas não há Cristao que salve um roteiro meia boca. O mais divertido é ler críticas brasileiras e ver escrito pelo crítico que a finada sessão Cine Prive da Bandeirantes era mais sensual e excitante do que o filme da saga do bilionário. A bem da verdade, existem umas duas cenas aqui até apimentadas na ideia, mas infelizmente na execução ficaram totalmente frias como um freezer. É a tal pornografia chique de butique, onde muito se alardeia mas nada se apresenta. Ou alguém acha que o espectador que vai ver esse filme não tá a fim de ver uma sacanagem? Fico imaginando também o que as feministas não diriam desse filme, mas provavelmente elas nem o verão. Uma fábula erótica sobre uma jovem ingênua seduzida pelas ordens de seu amado e que aos poucos vai aprendendo as delícias de apanhar não parece ser o filme Ideal para as mulheres. Mas na sessão que eu fui, totalmente dominada pelo público feminino, elas defendiam aos gritos cada pedido de Christian Gray. São suas fãs incontestáveis. Nessa segunda parte, Christian consegue conquistar de novo o amor de Anastácia e entre um ou outro conflito sobre a questão do Poder e do machismo através de personagens paralelos, ele lhe propõe casamento. O que interessa a esse filme é a sua alta qualidade técnica, quase um grande comercial publicitário. Não faltam merchandisings escancarados, trilha sonora repleta de Adele, fotografia estilizado e muita gente bonita. Luxo e glamour combinam com sedução, e inclusive o filme tem uma sequência inteira que lembra " De olhos bem fechados", de Kubrick, que é o baile de máscaras. A dupla principal do filme, Dakota Johnson e Jamie Dornan ficam protegidos pela lente e câmera, revelando muito pouco daquilo que o público gostaria de ver. Kim Basinger faz uma bela participação, comprovando estar plena em sua beleza aos 62 anos de idade, tal qual a brasileira Bruna Lombardi.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Vermelho

"Rojo", de Carlos Alejandro Molina (2013) Premiado curta venezuelano, dirigido pelo então estudante Carlos Molina. Impressionante a sua capacidade de criar tensão em uma historia totalmente sem diálogos, apenas através de olhares e na expectativa. Um adolescente passa a noite no chat fazendo pegação com outros homens. Em um desses bate papos anônimos, o desconhecido lhe chama para um encontro real. Tentado, o rapaz marca o encontro em um lugar publico, e para se reconhecerem ( não enviaram fotos), ambos tem que usar uma camisa vermelha. Mas o jovem nao poderia jamais imaginar o que irá lhe acontecer. Com ótima direção, e um belo trabalho de atuação do jovem Noel Duarte, o filme conduz com precisão o suspense continuo, e o espectador fica doido para descobrir quem é esse misterioso anónimo. ( o que não faltam são pessoas vestidas de vermelho na rua)O filme flerta com o thriller, e comprova que imagens valem mais do que palavras. O filme participou de dezenas de Festivais internacionais, tendo ganho vários prêmios em Festivais latinos.

Pastoral americana

"American pastoral", de Ewan Macgregor (2016) Adaptação cinematográfica do best seller homônimo de Philip Roth. Em 2016, outro livro de Roth foi adaptado para o cinema:"Indignação", de James Schamus. Em ambos os filmes, vemos famílias judias dos anos 60 `as voltas com preconceito e com a questão da culpa, se atormentando por conta de sonhos frustrados que não se concretizaram. Pais e filhos em eterno embate: cultural, social, religioso. O filme começa em 1995, no reencontro de 45 anos de graduação da turma onde Swede Levov (Ewan Macgregor) se formou. Seu colega, Roth, também escritor, vai ao encontro e reencontra Jerry Levov, irmão de Swede, que faleceu a alguns dias. Roth passa então a narrar a historia de Swede: famoso esportista da faculdade, se casou com a "Rainha da beleza" Dawn (Jennifer Connely), católica praticante. O pai de Swede é contra o matrimonio, mas diante do temperamento forte de Dwan, ele cede. Os dois se casam, e tem uma filha, Merry. Merry adquire um estranho sentimento de afeição por sue pai, que vê ali indícios de sexualidade. Quando cresce Merry se torna uma ativista política, lutando contra o governo que envia americanos para a Guerra do Vietnã. Merry passa a rejeitar a vida burguesa que leva. Swede repreende Merry. Dias depois, uma agencia dos correios explode, e um homem morre. Merry é acusada de ter colocado a bomba ali. Ela desaparece, e Swede e Dawn passam anos a procura dela. Estréia na direção do ator Ewan Macgregor, que se cercou de um ótimo time de profissionais para dar conta do ambicioso projeto. trilha sonora de Alexandre Desplat, fotografia de Martin Ruhe. No entanto, o filme não decola. Durante quase duas horas, o filme segue morno, e mesmo com uma história com teor tão intenso, o filme não emociona. Muito da razão do fracasso do filme, que fez um circuito restrito em festivais e em circuito mundo afora, foi do próprio Ewan Macgregor, que se escalou para o difícil papel de Swede Levov, que pelo perfil, deveria ser um ator que provocasse e trouxesse dentro de si toda uma revolução interna de emoções. Ewan não conseguiu. Uma pena, pois o filme tinha um bom potencial. Jennifer Connely e Dakota Fanning, no papel de esposa e filha, dão conta do recado, mesmo que não tragam nada de excepcional. A direção de arte e' muito boa, e até me surpreendi em cenas de Nova York de época repleta de carros e passantes. Um filme que fala sobre intolerância, mas que surge sem força para fazer o espectador vibrar com os movimentos de libertação e de inquietação. Uma coisa que me irritei bastante: as atrizes Jennifer Connely e Dakota Fanning foram mantidas na passagem de tempo de mais de 30 anos: ultimamente, isso tem sido recorrente em vários filmes. Não sei qual o problema em trocar o elenco famoso por atores idosos. Acho pavoroso o trabalho de envelhecimento, que acaba destruindo a performance do ator.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Próximo piso

"Next floor", de Dennis Villeneuve (2008) Vencedor de dezenas de prêmios em Festivais internacionais, entre eles em Cannes, esse curta do famoso Cineasta canadense Dennis Villeneuve ( A chegada, Incêndios), realizado em 2008, antes de sua consagração internacional com os seus longas, ja mostrava o brilhantismo e o rigor estético que o tornariam cultuado mundo afora. Com um tipo de humor negro que veio de herança de Peter Greenaway e de Luis Bunuel, Villeneuve nos apresenta uma fábula grotesca sobre a obsessão. No caso, pela comida. Um grupo de 11 glutões se reúnem em torno de uma mesa, e são servidos sem parar por um time de maitres e garçons, que trazem comida sem parar. O destino dos comensais? Só vendo para acreditar. Impossível não pensar que Villeneuve não tenha se inspirado em "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante", de Peter Greenaway. A diferença é que aqui, ele apresenta uma qualidade impressionante de efeitos especiais, ainda mais em se tratando de um curta. Primoroso em todos os níveis: roteiro ( sem diálogos), direção, direção de atores, caracterização, direção de arte, fotografia e maquiagem, esse curta é uma aula de cinema de apenas 11 minutos. Conta a sua história, sem excessos narrativos, no tempo certo. Uma obra-prima.

A espera

"L'attesa", de Piero Messina (2015) Filme de estréia do assistente de direção de Paolo Sorrentino em "A grande beleza", " A espera" é um veiculo para o talento da atriz Juliette Binoche. Ela interpreta Anna, mãe de luto recente pela morte de seu filho. Ela recebe a inesperada visita da namorada do filho, a francesa Jeanne, em sua casa na Sicilia. Anna resolve não contar para Jeanne da morte de seu filho e trava com ela uma relação de amor e ódio, e porque não, de ciúme. Rodado com muita elegância e com uma excelente fotografia de Francesco Di Giacomo, " A espera" é um filme que exige muita disposição e paciência do espectador. Com planos longos e um tempo cinematográfico que valoriza o olhar, o filme arrebata mais pelo visual do que pelo enredo em si. A história seria desmascarada logo de cara se estivéssemos em um filme realista. Como esconder a morte de alguém assim tão recente, ainda mais na presença de convidados? Mas o diretor e co-roteirista Piero Messina parece não se preocupar muito com verossimilhança e trabalha seu filme com lindas imagens estilizadas, muita câmera lenta e bastante referencia cinematográfica. A cena onde Jeanne dança com 2 rapazes que ela conheceu no lago lembra bastante " Amor em cinco tempos", de François Ozon. Juliette Binoche está ótima como Anna e encontra na atriz Lou de Laâge uma bela parceria para as cenas de embate moral. A atmosfera do filme lembra filmes de suspense e de mistério, reforçadas ela luz e pela locação, uma suntuosa mansão de séculos atrás.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

As escolhidas

"Las elegidas", de David Pablos (2015) Vencedor de vários Prêmios internacionais e concorrendo na Mostra Um certo olhar em Cannes 2015, "As escolhidas" é um filme mexicano daqueles de te deixar dias sem dormir, tal a porrada que ele retrata do mundo da prostituição infantil. Não é um filme fácil de se assistir, e também é difícil de recomendar para as pessoas devido ao seu alto teor de tragédia humana. O filme lembra bastante o filme argentino "O clã", guardadas as devidas proporções. No filme de Pablo Trapero, uma família inteira, dominada pelo temperamento violento e dominador do pai, sequestra e assassina as suas vitimas, depois de receber o dinheiro do resgate. Aqui em "As escolhidas", uma família inteira vive de sequestrar meninas menores de idade e forçá-las a trabalhar em um bordel clandestino. O filho mais novo, Ulisses, é quem faz o papel do sedutor. Ele namora as meninas e depois de um tempo, as entrega ao seu pai e irmão mais velho. Sofia (a excelente Nancy Talamantes) é a namorada da vez. Quando ela descobre a armação e tenta fugir, é agarrada pelo pai de Ulisses e apanha muito. Forcada a se prostituir, ela nega. Ela apanha mais e mais até ceder. Ulisses, por sua vez, se apaixonou por Sofia e faz um trato com seu pai: se ele trouxer uma outra menina, o pai liberta Sofia. Assim, Ulisses dá inicio ao plano de seduzir Marta. Com uma excelente direção de atores, o cineasta e roteirista David Pablos contról o filme quase que em uma narrativa de filme de terror. É difícil assistir a algumas das cenas. No entanto, na cena crucial do sexo de Sofia com os clientes, David cria uma edição antológica, que fica até mais cruel do que se mostrasse as cenas de sexo: apenas focando no rosto de Sofia e nos rostos de seus parceiros, ouvimos o som do sexo violento. É uma cena muito violenta de se assistir, em sua construção.

Zootopia- Essa cidade é o bicho

"Zootopia", de Byron Howard e Rich Moore. Animação da Disney vencedora de vários prêmios em Festivais de animação, inclusive indicada ao Oscar da categoria, é uma deliciosa aventura sobre um mundo utópico onde animais convivem em harmonia. Nessa grande Metrópole chamada Zootopia, animais predadores e presas vivem pacificamente, contrariando o instinto animal que perdurou por milénios. Judy é uma coelhinha que veio da cidade Toca do coelho com a determinação de ser uma policial. Seus pais desaprovam, pois acham que o destino dela é trabalhar na fazenda deles e que policial é função para homens. Mas Judy é determinada. Ao chegar na cidade ela sofre bullying no trabalho, um ambiente predominantemente masculino. Mas aos poucos ela vai conseguindo almejar o seu espaço, principalmente quando ela resolve investigar o porque de vários predadores voltarem a se tornar animais violentos. Para isso, ela conta com a ajuda da raposa Nick, um tipo trapaceiro e malandro. Com um excelente time de dubladores americanos, liderados por um Jason Bateman alucinado de bom no papel de Nick, " Zootopia" me surpreendeu positivamente em todos os aspectos. O roteiro é excelente, ao falar sobre preconceitos, feminismo e bullying. A direção é dinâmica e os personagens , muito carismáticos. Várias cenas antológicas, onde destaco duas: a homenagem a " O poderoso chefão", na figura de um ratinho gangster, e a hilária cena na repartição pública, com bichos preguiça representando os funcionários burocratas. Muito bom. Shakira interpreta Gazelle, uma pop star amada pela população. Altamente recomendável, talvez mais para adultos do que para as crianças.