quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Primeiro eles mataram meu pai: lembranças de uma filha do Camboja

"First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers", de Angelina Jolie (2017) Drama épico baseado no best seller biográfico escrito pela ativista cambojana Loung Ung. Lançado pelo Netflix, o filme obteve grande sucesso no Festival de Telluride, onde foi exibido em 2017, e foi oficializado como o representante do Camboja para disputar o Oscar de filme estrangeiro. Em 1975, no Camboja, o governo americano saiu do País. O Exército do Khmer vermelho invadiu a capital Phnom Penh, e obrigou a toda a população a entregar seus pertences e a trabalhar como escravos em campos chamados de "The killing fields". No total, o Khmer, sob as ordens do General Pol Pot, dizimou 1/4 da população. Entre as famílias massacradas, está a de Loung Ung. Com 5 anos de idade, o filme acontece todo sob o seu ponto de vista. Pequena, ela procura entender toda aquela violência que acontece em seu entorno. Loung acaba sendo convocada pelo exercito a fazer treinamento de guerra e a empunhar armas, até fugir no ano de 1980. Atualmente, ela está casada e mora em Cleveland, Ohio, e trabalha no mundo inteiro como ativista contra o desarmamento. Em certos aspectos, o filme lembra " A feiticeira da guerra" e "Beasts of no nation", que também apresentam o ponto de vista de uma guerra sangrenta pelo ponto de vista de uma criança. 5o filme dirigido por Angelina Jolie, é impressionante como ela vai ficando cada vez mais sofisticada como cineasta. Ela cercou-se dos melhores profissionais, entre eles, o fotógrafo de Danny Boyle, Anthony Dod Mantle, que trouxe a sua fotografia hiper saturada para dar vida a um espetáculo sangrento e brutal. O filme é longo, tem 2:20 horas, mas deixa o espectador angustiado com tamanha crueldade. Angelina tem esse caráter humanista em seus filmes, de querer apresentar o terror de um povo sofrido `a merce de um governo autoritário. Torço para que ela ganhe muitos prêmios. O elenco é um caso `a parte: todo o núcleo da família de Loung Ung é brilhante. Sem exagera no drama, dão vida a personagens sempre com um fio na navalha encostado. A pequena Sareum Srey Moch é um grande achado e um talento nato: pequena, ela demonstra uma forca no olhar descomunal.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Agonia

"Agonie", de David Clay Diaz (2016) Brutal drama baseado em uma história real: um jovem estudante, sem motivo aparente, assassinou sua namorada `a facadas, desmembrou seu corpo e o espelhou pela cidade de Viena. O roteirista e cineasta David Clay Diaz, paraguaio de nascença mas criado em Viena desde criança, estréía no longa com um filme apavorante, de narrativa fria, bem nos moldes dos filmes de Michael Haneke e do mexicano Michel Franco. Christian (Samuel Schneider) é um jovem estudante de direito, que é pressionado pela sua mãe que exige que ele seja o melhor nos estudos. Abatido emocionalmente e introspectivo, Christian trabalha em um cinema, como atendente, Ele namora a rica Sandra (Alexandra Schmidt), que é apaixonada por ele. Alex (Alexander Srtschin) é o oposto de Christian: extrovertido, violento, odeia sua namorada e tem como melhor amigo um rapaz que tem uma paixão platônica por Alex. Tanto Christian quanto Alex não se conhecem, mas a brincadeira do filme é exatamente essa: eles se esbarrão? Qual dos 2 irá matar sua namorada? O assassinato acontece nos 20 minutos finais. Até lá, vamos ficando tensos, esperando o momento que ocorrerá o assassinato. Quando acontece, é apavorante. Sem demonstrar qualquer humanidade, o assassino esfaqueia, esquarteja e limpa tudo, como um Norman Bates de “Psicose”, que inclusive, deve ter sido usado como referencia para a construção do personagem de Christian. Não é um filme para se recomendar assistir, devido ao seu teor violento e chocante. Somente para os fortes.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

The jigsaw

"The jigsaw", de Basil Al-Safar e Rashad Al-Safar (2014) Escrito e dirigido pelos irmãos Basil Al-Safar e Rashad Al-Safar, esse curta de suspense co-produzido por Portugal e Inglaterra ganhou mais de 30 prêmios internacionais. A história gira em torno de um homem que vai até um mercado de rua e compra em um antiquário, um quebra-cabeças misterioso. O Vendedor diz para ele não comprá-lo, mas o homem insiste. Ao chegar em casa, o homem completa o jogo. Bem dirigido, praticamente sem diálogos e com muita atmosfera assustadora, esse filme surpreende pela simplicidade. Um filme de terror sem efeitos especais, apenas um bom roteiro e clima. E em precisos 9 minutos. Aula de concisão. https://www.youtube.com/watch?v=gs5zQBBOXrA

Mae!

"Mother!", de Darren Aronofsky (2017) Existem várias formas de se assistir a "Mother!". Você pode assistir pelo prisma da alegoria e metáfora religiosa totalmente referente `a Bíblia; pela narrativa de filme de suspense psicológico e angustiante `a la "O bebe de Rosemary" ou como um drama surreal ao gosto de Bunuel e o seu famoso "O anjo exterminador". E' inegável as muitas referencias cinéfilas de Darren Aronofsky nesse filme protagonizado por Jennifer Lawrence: além dos citados, temos Lars Von Triers, Kubrick, e os filmes " O dia do gafanhoto" na sua famosa cena apocalíptica que critica o culto `a fama e `a celebridade ou mesmo "O filho de Saull", com a câmera colada no rosto do protagonista 100% do filme. Na verdade, falo tudo isso porque está sendo difícil falar sobre o filme e não comentar coisas que não configurem "Spoilers". Jennifer Lawrence interpreta uma jovem casada com um homem mais velho (Javier Barden). Eles não tem nome. Moram em uma casa, outrora destruída por um incêndio e reconstruída pelo personagem de Lawrence. Por conta do trauma do incêndio, o roteirista perde a sua escrita e a vontade de escrever. Um dia, inesperadamente, um estranho (Ed Harris) chega em sua casa pedindo moradia. Logo depois, chega sua esposa (Michelle Pefeiffer). E mais não pode ser dito, pois já será spoiler. Particularmente , gostei bastante do filme, mas entendo que ele será bem controverso. Os atores estão excelente, com destaque absoluto para Jennifer Lawrence em verdadeiro tour de force. Eu nem havia reconhecido Domhall Gleeson e amei que Kristen Wiig faz uma participação bem arrepiante. A fotografia de Matthew Libatique é assustadora. Esse é daqueles filmes que eu adoraria exibir para alunos de cinema e fazer um verdadeiro estudo de personagens e roteiro, repleto de símbolos. Aronofsky novamente nos brinda com uma fábula sobre o horror , sobre a claustrofobia, a angustia, o pesadelo.

domingo, 17 de setembro de 2017

Crossbow

"Crossbow", de David Michôd (2007) Premiado curta dirigido e escrito pelo cineasta australiano David Michôd, que dirigiu os premiados longas "Reino animal" e " A caçada". Concorrendo no Festival de Veneza e em Sundance no ano de 2007, o filme, ao mesmo tempo que foi elogiado, provocou polemica, acusado de ser misógino ( a figura da mãe é totalmente sexualizada, ela somente circula de calcinha o tempo todo, os personagens masculinos só enxergam ela como objeto sexual). O filme é todo narrado ( o próprio David Michôd narra) , se passando por um vizinho que diariamente, observa a rotina da família que mora na casa da frente. Moradores do subúrbio, ele observa que o filho do casal acompanha a rotina de sexo e drogas dos pais. Toda hora, grupo de homens drogados frequentam a casa, e mais, a mãe do rapaz somente circula de calcinha, provocando desejo sexual no narrador. Belamente fotografado e com ótimas interpretações ( Joel Edegrton interpreta o pai drogado e sexualizado), a história corre em uma narrativa crua, violenta, tensa. A gente sabe que alguma tragédia estará por vir a qualquer momento. https://vimeo.com/32724080

Columbus

"Columbus", de Kogonada (2017) Produção independente americana dirigida e escruta pelo sul coreano Kogonada, tem no cinema de Yasujiro Ozu a sua maior influência. No entanto, isso não impede que esse premiado drama tenha o ritmo tão arrastado que pode provavelmente provocar tédio em boa parte dos espectadores. Protagonizado por John Cho, o oficial Sulu da franquia "Star Trek", o filme fala sobre relação país e filhos, vistos pelo prisma da arquitetura de uma pacata cidade de Indiana, Columbus. Jin (John Cho) sai de Seul, aonde mora, para Columbus para visitar seu pai, arquiteto renomado, que passou mal dias antes de sua palestra na Universidade local. Ambos não se falavam há anos, e nesse processo de incomunicabilidade, Jin meio que se recusa a visitar o pai no hospital. Ele reecontra Eleanor (Parker Posey, musa de Hal Hartley), assistente e namorada de seu pai, que tenta dissuadi-lo a se reconectar com o pai. Jin conhece a guia turística Casey (Haley Lu Richardson), uma jovem formanda em arquitetura, que cuida de sua mãe viciada em drogas e sonha em trabalhar na arquitetura. Muito pouco acontece durante o filme. Em pequenas, mas pequenas ações, o filme vai seguindo seu rumo, até um desfecho meio óbvio. Confesso que essa homenagem a Ozu me cansou, pois o próprio Ozu, por mais que tivesse um ritmo lento e contemplativo, trazia humanidade aos seus personagens, era impossível não se apaixonar por eles. Aqui, existe uma frieza no comportamento de todos, que me fez ficar quase nada conectado com o destino de cada um deles. Ozu não tinha medo nem vergonha de trabalhar com o melodrama. O que realmente vale a pena aqui, são os belos planos pillow shots", comuns na narrativa dos filmes de Ozu, que são os planos de paisagem morta para intensificar as emoções dos personagens. O filme foi exibido em diversos festivais, incluindo Sundance.

Viagem das loucas

"Snatched", de Jonathan Levine (2017) Difícil de acreditar que o mesmo Diretor dos ótimos "50%", com Seth Rogen e Joseph Gordon Levitt e de "meu namorado é um zumbi", tenha realizado esse "Viagem das loucas". O que ele tinha nesses outros filmes, delicadeza, sensibilidade e poesia, aqui se perdeu totalmente. Talvez tenha sido influencia de Amy Schumer, uma comediante popular pelos seus improvisos e boca suja ( algo Tata Werneck), mas a verdade é que esse filme tem um roteiro muito fraco, repleto de estereótipos sobre a America Latina. Incrível também que o roteiro tenha sido escrito por uma mulher, uma vez que o filme está repleto de piadas machistas, e fazendo dos personagens femininos caricaturas dos homens broncos e maus. O que salva o filme é a presença de Goldie Hawn, uma grande comediante, que mesmo com material tão frágil, consegue tirar água de pedra. Amy Schumer tem um tipo de humor que ou você gosta, ou não gosta, pois fica sempre com a mesma expressão o tempo todo. Confesso que consegui rir de umas 3 a 4 piadas sujas, daquelas bem escatológicas ( a do banheiro, dela limpando a vagina, é muito engraçada). Mas esse tipo de humor parece estar com os dias contados, por conta do politicamente correto. Realizadores com os irmãos Farrelly, de "Eu, eu mesmo e Irene" e "Quem quer ficar com Mary" talvez não tenham mais espaço hoje em dia. Amy interpreta Emily, uma loser que no mesmo dia perde o emprego e é abandonada pelo namorado. Ela resolve viajar para o Equador, e como ninguém quer ir com ela, ela decide levar sua mãe, Linda (Goldie Hawn), com quem ela não se comunicava há tempos. As duas acabam sendo sequestradas por traficantes, pedem ajuda no consulado americano ( claro que não dá certo) e acabam se metendo em mil confusões. Até mesmo, matando traficantes! Muitas piadas não funcionam, e o ritmo é bem arrastado. Mesmo assim, o filme fez um certo sucesso nas bilheterias americanas. Gosto muito da Goldie Hawn, e espero que ela volte em uma comedia que valorize seu humor maravilhoso. A excelente Joan Cusack faz um papel aqui bobo, totalmente desperdiçada.

sábado, 16 de setembro de 2017

Till we meet again

"Till we meet again", de Bank Tangjaitrong (2016) A história dos bastidores dessa produção independente co-produzida pela Tailândia e Estados Unidos é bem mais interessante do que o filme em si. Estudantes na New York Film Academy, o tailandês Bank Tangjaitrong e o sueco John Matton se uniram e produziram esse drama. John Matton escreveu o roteiro e protagonizou a história sobre um jovem casal que sai de Nova York para passar as férias na Tailandia. Eric (John Matton) é roteirista, Joanna (Linnea Larsdotter) é designer gráfica. O filme é dividido em 2 tempos: a vida feliz do casal em Nova York, e a tensão criada por ciúmes na Tailândia. Com belíssima fotografia e locações esplendorosas na Tailândia, o filme peca por um único motivo: a total antipatia da personagem de Joanna. Nossa, é praticamente impossivel sentir qualquer tipo de afeição pela sua personagem. Fiquei o filme inteiro irritado com ela. Fora isso, o filme tem um ritmo bem lento. Poderia ter uns 20 minutos a menos. Vale para quem quer conhecer a Tailândia melhor. Muito diferente do olhar violento de "Only God forgives", de Nicholas Windingn Refn. Mesmo assim, o filme recebeu alguns premios em festivais mundo afora.

2:22- encontro marcado

"2:22", de Paul Currie (2017) Pegando carona no mote de "Feitiço do tempo", quando todas as ações se repetem diariamente na vida de uma pessoa comum, "2:22 - Encontro marcado" foi vendido como um filme de ação e suspense, mas na verdade, é um romance com uma reviravolta de ação no final. Se você for um espectador que não se incomoda nem um pouco com histórias mirabolantes, com protagonistas lindos que fazem sair de suas bocas frases extraídas de romances tipo " Barbara Cartland", ama ver Nova York em planos aéreos cartões postais e ama ainda mais aquela estética publicitária de filmes como " 50 tons de cinza", com trilha sonora pop, e se apaixona fácil, então esse filme é para você. Misturando romance drama e fantasia, o filme narra a história de Dylan (Michiel Huisman, o Daarios de "Game of Thrones"), um controlador de voos que tem medo de voar. Ele repara que todos os dias, as mesmas situações acontecem na vida dele. Ele está na véspera de completar 30 anos, e a constelação está com um planeta prestes a morrer. Um dia, ele quase provoca um acidente aéreo. Durante um evento de ballet aéreo, ele conhece Sarah (Teresa Palmer), uma galerista de arte. Eles se apaixonam. Mas logo Dylan percebe que o romance dos dois está conectado a um crime que aconteceu há exatos 30 anos na Grand Station. Em vários momentos, eu não sabia se eu ria, tal a loucura dos roteiristas. Mas como eu tenho noção de que muitos filmes são literalmente passatempos ( muitas vezes vamos ao cinema somente para se refrescar do calor), o filme cumpriu sua função. Não espere absolutamente nada dele. Quem sabe assim poderá se divertir com uma trama sem pé nem cabeça. Michiel Huisnan trabalhou há pouco tempo em uma fantasia romanceada, "A história de Adeline", infinitamente superior.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Feito na América

"American made", de Doug Liman (2017) Diretor da franquia "A identidade Bourne" e também da ficção cientifica com Tom Cruise "No limite do amanha", o cineasta Doug Liman narra a incrível historia de Barry Seal, um piloto de avião comercial dos anos 70 que é contratado pela Cia para fotografar grupos revolucionários em Países da America Central em pleno voo, e depois, é contratado pelos traficantes (entre eles, Pablo Escobar), para traficar cocaína para os Estados Unidos. Seduzido pelo dinheiro fácil, Barry enriquece, mas as consequências trágicas de sua ação farão efeito em sua família. Impossível não se lembrar de "Prenda-me se for capaz", "Top gun", "Scarface", Narcos". Nesse ambiente onde policiais, traficantes, agentes da Cia e homens comuns perambulam juntos, ninguém é perfeito e está acima da lei. O filme privilegia o drama, portanto, quem espera encontrar porradaria tipo "Missão impossível" ou " Jack Reacher", não irá encontrar. O filme é bem narrado, tem um roteiro incrível, mas as cenas de ação são muito discretas. Tom Cruise está muito carismático e trabalha bem o drama e o humor de seu personagem. Domhnall Gleeson também está ótimo como o Agente da Cia Schaefer, mas quem rouba a cena é Sarah Wright, no papel da brava esposa Lucy. A fotografia é do uruguaio radicado no Brasil Cesar Charlone, de "Cidade de Deus". O filme infelizmente será lembrado pelo acidente fatal que vitimou 2 stunts em cenas de voo, Alan Purwin and Carlos Berl.

Na praia de noite sozinha

"Bamui haebyun-eoseo honja", de Hong Sang-soo (2017) Falar sobre um filme escrito e dirigido pelo cineasta sul coreano Hong Sang Soo,, pode servir para qualquer filme que ele tenha realizado. Os temas são sempre os mesmos: dilemas amorosos, amores impossíveis, traições, ambiente cinematográfico (personagens sempre são atores, cineastas, roteiristas, etc) e muita conversa em restaurantes regadas `a cerveja, sake e cigarros. O estilo de filmar também é sempre igual: planos sequências fixos, ou em pan, ou em zoom. Minimalista, atuação naturalista, trilha sonora de musica clássica. No entanto, o diferencial desse filme em relação aos outros, é que aqui, Sang Soo expia a sua via intima. Assim como Woody Allen em "Maridos e esposas" ( escrito no auge de sua crise conjugal com Mia Farrow), " Na praia de noite sozinha" reproduz o caso de adultério real envolvendo o próprio Diretor, Hong San Soo, e sua atriz protagonista, Kim Min-hee ( atriz de "A criada" e de outros filmes de Sang Soo. Ambos casados com seus respectivos conjugues, resolveram assumir a relação. Foi um escândalo na Coréia do Sul. Kim Min-hee interpreta Young é uma famosa atriz flagrada por paparazzis tendo um caso com o Diretor. Ela então resolve seguir até a Alemanha e visitar uma amiga, para poder dar um tempo na fofoca e nos tablóides. Logo o filme segue para uma Parte 2: em uma cidade do interior da Coréia do Sul, Young hee visita seus pais e acaba reencontrando amigos de sua juventude. Young Hee vai assim, avaliando a sua relação adúltera e a sua vida pessoal e profissional. Os filmes de Hong Sang Soo são para um publico cinéfilo. Autorais, tem ritmo lento, quase nenhuma ação e muito falatório. Confesso que já to cansado dessa sua formula, mas tudo bem, continuarei assistindo aos seus filmes, que incrível por pareça, são sempre premiados em Festivais. Kim Min-hee acabou levando o Premio Urso de Ouro de melhor Atriz em Berlin. Ela está bem, mas muito injusto se compararmos ao trabalho extraordinário da Atriz Trans Daniela Vega em "Uma mulher Fantástica", concorrendo no mesmo Festival.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

47 metros para baixo

"47 meters down", de Johannes Roberts (2017) Co-escrito e dirigido pelo inglês Johannes Roberts ( realizador dos medianos "F" e " O outro lado da porta", " 47 metros para baixo" pegou carona no revival dos filmes de tubarões, após o grande sucesso de " Aguas rasas". Esse aqui também rendeu bastante pelo mundo: com orçamento de pouco mais de 5 milhões de dólares, rendeu mais de 50 milhões de dólares. No Mexico, 2 irmãs, Lisa (Mandy Moore) e Kate (Claire Holt) passa, férias. Lisa está desanimada: seu namorado terminou com ela. Para animá-la, Kate propõe a ela um passeio exótico: mergulhar dentro do oceano, em uma gaiola, com tubarões rondando no entorno. Em principio reticente, Lisa aceita. Ao descerem, a gaiola se rompe e elas ficam presas no fundo do oceano, a 47 metros da superfície sem ar e sem contato, com tubarões ao redor. Filme Ok, com bom suspense, e belas cenas de ação,. Os efeitos são ótimos e as duas atrizes mandam bem ( Mandy Moore era a atriz adolescente do cult romântico " Um amor para recordar). O desfecho irá deixar muita gente irritadissima. Sacanagem mesmo. No elenco de apoio, desperdício de Matthew Modine.

Divórcio

"Divórcio", de Pedro Amorim (2017) E' evidente a grande influencia cinéfila do Cineasta Pedro Amorim. Com um roteiro escrito por Paulo Cursino, sobre as agruras da rotina familiar e o consequente pedido de divórcio de uma das partes, o filme pega emprestado referencias de filmes queridos pelo público, como " Sr e Sra Smith" e " A guerra dos Rose'. Sobra at´uma brincadeira cinéfila no desfecho, com o anel `a la " A origem", de Christopher Nolan ( que também já teve um momento "Senhor dos anéis"). A grande sacada do filme, produzido por Tuba Junior ( que já realizou " O vendedor de sonhos" e a comédia "O concurso") é localizar o filme no interior do Brasil, mais precisamente, no rico município agrícola de Ribeirão Preto, Sao Paulo. E' ali que existem as maiores piadas do filme: o sotaque do interior e os famosos "r", as festas sertanejas, o figurino e maquiagem divertidissimos das peruas da alta sociedade, que mais parecem saídos do seriado "Dallas", e as inevitáveis brincadeiras com o morador da cidade do interior. O Elenco é o grande trunfo do filme. A química entre Murilo Benício e Camila Morgado é perfeita, os dois devem ter se divertido bastante durante as filmagens, senti até falta de um quebra pau fudido entre eles, chegando a um nível de insanidade Master. Luciana Paes, Thelmo Fernandes roubam todas as cenas onde aparecem, provando que são excelentes coadjuvantes para qualquer tipo de filme. Direção de arte luxuosa, figurino e cabelos divertidos, e fotografia fodona de Hélcio Alemão Nagamine. Mas o que mais goste, mesmo? A trilha sonora repleta de referencias pop e cinematográficas, recheado de Sergio Leone, Tarantino e muito mais, a cargo de Fabiano Krieger e Lucas Marcier.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Zabriskie Point

"Zabriskie Point", de Michelangelo Antonioni (1970) Zabriskie Point é uma região árida dentro do Vale da Morte, no Deserto da California. E também o nome de um dos filmes mais controversos de Antonioni, o Papa do existencialismo no Cinema. Alguns filmes clássicos de Antonioni ficaram datados e envelheceram mal. "Zabriskie Point", infelizmente, é um desses filmes. Por ter um discurso favorável `a contracultura e ao Movimento Hippie, o filme ataca obstinadamente o Capitalismo, na forma de casa de luxo, eletrodomésticos e tudo o mais que for considerado consumista no America Way of life. ( inclusive o modo de vida) Co-escrito por Antonioni, Sam Sheppard e Tonino Guerra (roteirista de Fellini, Antonioni e Tarkovsky, entre outros), o filme começa apresentando um grupo de estudantes discutindo o movimento grevista, no ano de 1970. Mark, um dos estudantes, diz que não tem tempo para o tédio e decide ir `a ação: segue para uma loja de armas com um amigo e compram revolveres. Durante um embate entre estudantes grevistas e policiais na Universidade, Mark é acusado de atirar em um policial Ele foge, rouba um aero-modelo e segue pelo deserto, até esbarrar com Daria, uma jovem que estava indo encontrar com seu chefe que irá construir um condomínio de luxo em pleno deserto. Esse encontro fará com que Daria repense a sua forma de viver voltada para o capitalismo. Mesmo datado, o filme tem 3 momentos antológicos: o inicio, durante a discussão entre os estudantes: os diálogos são primoroso e tudo parece tão espontâneo, que tenho a impressão de ter sido filmado em uma discussão real. O 2o momento, é a linda cena de sexo no deserto, uma verdadeira orgia a céu aberto. E o desfecho, com todos os símbolos do capitalismo explodindo no ar. Com uma trilha sonora que inclui musicas do Pink Floyd, o filme de fato marcou época, apesar de ter sido destruído pela critica e desprezado pelo publico. A fotografia é um dos pontos altos, a cargo de Alfio Contini.

domingo, 10 de setembro de 2017

Rakka

"Rakka", de Neill Blomkamp (2017) Mais um curta de ficção cientifica do cineasta sul africano Neill Blomkamp, de "Distrito 9" e "Elysium". Através de sua produtora Oats Studios, Neill Blomkamp tem realizado uma série de curtas de aventura e ação, usando o potencial dos efeitos especiais. Como se esses curtas ( só em 2017 já foram 4 curtas) fossem um cartão de visitas mostrando o potencial do FX. Dessa vez, em um futuro distópico, sobreviventes de uma invasão Alienígena tentam destruir os forasteiros. Nada de novo no front, parece uma versão reduzida de "Distrito 9", só que agora, com Sigourney Weaver comandando o ataque. O filme é todo narrado por uma sobrevivente, e é só tiro, porrada e bomba. Mais um passatempo ligeiro. https://www.youtube.com/watch?time_continue=725&v=VjQ2t_yNHQs

Zygote

"Zygote", de Neill Blomkamp (2017) O Cineasta sul-africano Neill Blomkamp, famoso pelos seus filmes de ficção cientifica "Distrito 9", "Chappie" e "Elysium", dirigiu uma série de curtas em 2017 através de sua produtora. Com muitos efeitos especiais e usando Aliens como tema, Neill Blomkamp homenageia o gênero e convidou atores famosos para liderar cada filme. Em "Zygote", as referencias mais óbvias são "Alien" e "O enigma de outro mundo", de John Carpenter. Em 23 minutos, acompanhamos 2 sobreviventes de uma chacina: um Alien matou 96 dos 98 tripulantes. Durante o filme, acompanhamos a tentativa de fuga de Barklay (Dakota Fanning) e Quinn. Através de imensos corredores da estação baseada no Ártico norte, Neil Blomkamp faz uso dos efeitos para criar tensão na platéia. Para quem é fã de ficção cientifica, o filme não traz novidade alguma. A historia é batida, e tudo se resume a corrida ( pense nos 15 minutos finais de "Alien, o 8o passageiro". Vale como passatempo. O desfecho é bobo. https://www.shortoftheweek.com/2017/07/14/zygote-neill-blomkamp/

Rememory

"Rememory", de Mark Palansky (2017) Pegando emprestado os motes de "Paprika", animação clássica de Satochi Kon, e o episódio de "Black mirror", "The entiry story of you", esse drama de gênero fantástico já foi inclusive comparado a "Brilho eterno de uma mente sem lembrança", de Michel Gondry. Com tantas ótimas referencias, "Rememory" é interessante, com um desfecho surpreendente, mas que poderia ter rendido bem mais. Os efeitos de maquiagem ( com um sangue pavoroso) não são bons, e a trama se perde entre se definir como um filme de suspense, um drama, uma ficção cientifica ou um filme de detetive. Aliás, a trama de detetives é a mais prejudicada, pois uma vez solucionado o caso, todo um grupo de personagens simplesmente desaparece. O filme vai ganhar destaque na memória dos espectadores por 2 motivos: ter sido o penúltimo filme realizado em vida pelo jovem Anton Yelchin (morto em um triste acidente) e por ter Peter Dinklage como protagonista. Peter Dinklage, famoso por interpretar Tyrion Lannister na série "Game of thrones", merecia um papel em um filme mais denso, por conta de seu grande potencial como ator dramático. Peter Dinklage interpreta Sam, um arquiteto que provocou um acidente de carro, matando o seu irmão, um jovem rock star. Consumido pela culpa, ele vai procurar o renomado cientista Gordon Dunn (Martin Donovan, ex-ator fetiche de muitos filmes de Hal Hartley). Gordon criou uma máquina que consegue gravar os sonhos e memórias das pessoas (Olha o roubo do tema de "Paprika"). Mas Gordon aparece morto. Sam resolve roubar a máquina e dessa forma, tentar descobrir quem dos pacientes de Gordon poderia te-lo matado. Um passatempo para se assistir apenas pelas curiosidades citadas acima. O filme foi exibido em Sundance 2017.

sábado, 9 de setembro de 2017

Every breaking wave

"Every breaking wave", de Aoife McArdle (2015) Escrito e dirigido pela Cineasta irlandesa Aoife McArdle, esse poderoso e belíssimo curta utiliza 2 músicas do "U2" para contar uma história de amor que acontece durante os conflitos na Irlanda do Norte dos anos 80. "The troubles" e " Every breaking wave", do disco "Songs of Inocennce", embalam o encontro entre o protestante Sean e a católica Sandra. Os 2 se conhecem, se amam, mas precisam enfrentar os horrores do conflito que se pare seus amigos,s eus pais e a si mesmos. Os companheiros de Sean o pressionam para uma luta armada. Até que uma bomba explode...e Sandra pode estar entre os feridos. Fotografia estilosa, o filme tem poucos diálogos e tem uma estrutura de um grande video-clip. Com um grande orçamento, o filme impressiona pela força de suas imagens. Recentemente, a cineasta Aoife McArdle lançou o seu primeiro longa "Kissing Candice" no Festival de Toronto 2017, com muito sucesso de crítica. https://vimeo.com/119537453

I am Jane Doe

"I am Jane Doe", de Mary Mazzio (2017) Denso documentário escrito e dirigido pela americana Mary Mazzio, tem como tema o tráfico sexual de crianças americanas no Site de classificados mais poderoso dos Estados Unidos, "Backpage.com". Disfarçado de serviços de massagem para adultos, crianças sequestradas e/ou abduzidas por cafetões são vendidas para práticas sexuais. O filme narra o drama de várias mães, que tiveram suas filhas sequestradas, e que as localizaram nas páginas do site. Posteriormente, essas mães processaram o Site, mas acobertados por uma Lei antiga (Seção 230) que protege qualquer site de postagem por terceiros, os processos são arquivados e a Backpage. com acaba sempre saindo como vencedora. O filme acompanha por anos a dura batalha de advogados, pais e Ongs em processo judicial contra a Backpage.com. O filme é narrado pela atriz Jessica Chanstain, e traz números apavorantes sobre o aumento do lucro do site, e também, do sumiço de crianças nos Estados Unidos. O que senti falta no filme foram mais depoimentos dos "traficantes", que são os aliciadores de menores, para entender porque essas crianças abandonam tudo e se deixam seduzir por esses estranhos. O ambiente do lar também é um forte indicio de que as crianças não querem ficar ali, e isso o filme também não pesquisa. Ficou quase que integralmente em cima do processo que corre solto na justiça. Para estudantes de direito e advogados, esse filme é um prato cheio e obrigatório.

Clash

"Eshtebak", de Mohamed Diab (2016) Co-escrito e Dirigido pelo Cineasta egípcio Mohamed Diab, "Clash" venceu inúmeros prêmios e concorreu em Cannes na Mostra "Quinzena dos realizadores" em 2016. A sua estrutura narrativa lembra bastante a do filme israelense "Lebanon", onde tudo acontecia dentro de um tanque pelo ponto de vista dos soldados. Agora, em "Clash", a câmera nunca sai de um camburão da policia. O filme acontece durante os eventos da rebelião em junho de 2013, quando o Pais estava dividido em 2 pólos: o grupo a favor dos militares no Governo, e os que apoiavam a irmandade Islâmica no Poder. Manifestantes dos dois grupos e outros sem uma característica política definida são confinados dentro do tanque por policiais. Sofrendo por igual, as pessoas precisam enfrentar as suas diferenças políticas, sociais, de gênero e religiosas. O filme dá uns pequenos flashes de que é possível acreditar na raça humana, mas logo descamba para o que o homem sabe fazer de melhor: raciocinar usando a violência bruta, agindo como bichos. Com essa mensagem triste, o cineasta Mohamed Diab realiza um filme fantástico, um verdadeiro tour de force de elenco e de técnica, já que tudo acontece dentro de um camburão apertado onde se encontram umas 20 pessoas. Fiquei imaginando o câmera tentando enquadra as pessoa,s os eventos que acontecem do lado de fora, confinado naquele espaço mínimo. O roteiro é primoroso, angustiante e que faz refletir sobre a insanidade que rege o mundo. E que atores fantásticos! Li que o diretor ensaiou durante 6 meses com os atores em um mock up do camburão para poder ver o que dava certo e termos de construção de personagens e de técnica, e que muita coisa foi adaptada depois disso. Uma aula de cinema.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Uma mulher fantástica

"Una mujer fantastica", de Sebastian Lélio (2017) Premiado em Berlim com o Teddy, dedicado a filmes de temática Lgbt, e o Urso de Ouro de Melhor roteiro, o filme confirma a excelência do cineasta chileno Sebastian Lelio como um grande autor que sabe expor a alma feminina. Em 2013 ele realizou outra obra primorosa, "Gloria", sobre uma mulher em crise no alto de seus 50 anos. Em "Uma mulher fantástica", a crise agora é de identidade. Marina Vidal ( a estupenda Daniela Vega, atriz trans) trabalha como garçonete e de noite canta em um cabaré. Ela treina para o canto lírico. Jovem e responsável, ela namora Orlando, um senhor de quase 60 anos. Uma noite, ele passa mal e ao levá-lo ao hospital, Marina fica sabendo que ele está morto. Começa a sua epopeia de luta contra a homofobia de todos em sua volta: a família de Orlando, os médicos, a polícia, os amigos. Sozinha, Marina decide declarar guerra. O diretor Sebatian Lelio dirige tudo com extrema delicadeza, e e' incrível como ele trabalha o universo pop, kitsch e vintage no filme. O uso do clássico " Time", do Alan Parsons Project, é emocionante. Muitas cenas antológicas, mescladas ao realismo fantástico: a cena de Marina caminhando no vendaval, a dança do casal na boite ao som de "Time", o desfecho. Um filme vigoroso, uma aula de direção e de performance. Imperdível!

La drolesse

"La drolesse", de Jacques Doillon (1979) Premiado no Festival de Cannes em 1979 com o "Young Cinema Award", esse filme do prestigiado cineasta francês Jacques Doillon com certeza renderia uma excelente peça de teatro, basicamente centrado na relação entre um rapaz e uma menina de 11 anos, ambos solitários e mentalmente perturbados. Baseado em uma incrível história real, o filme se passa em uma região rural no interior da França. Mado (Madeleine Desdevises, em atuação extraordinária e que faleceu aos 15 anos de leucemia, 3 anos após ter realizado esse filme) tem uma relação problemática com sua mãe. Um dia, voltando da escola, ela é sequestrada no caminho por François ( Claude Hebert, ator da obra-prima do naturalismo "Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão"). Ele igualmente não se dá com seus pais, e tranca Mado no sótão de sua casa. Para sua surpresa, Mado não oferece qualquer resistência e entre ambos surge uma relação repleta de jogos, onde eles interpretam mãe e filho, marido e esposa, patrão e empregado. Até que um dia, Mado diz que quer ter um filho. Com um conteúdo polemico desses, Doillon privilegia o olhar lúdico e ingênuo dessas duas almas desencantadas com a vida. O trabalho dos 2 atores é impressionante. Madaleine lembra bastante a jovem atriz americana Chloë Grace Moretz e tem um olhar muito triste, e assistindo ao filme e sabendo que ela faleceu logo depois, me deixou com o coração bastante apertado, ainda mais na ultima cena, quando ela brinca de estar morta. Claude Hebert tem aquele olhar de louco, de alguém que está prestes a cometer algum ato de violência. E' impressionante. A direção de Doillon investe no cinema documentário, totalmente naturalista. Herdeiro de Bresson, seu elenco não interpreta e boa parte dos personagens é formado por não atores. Um filme que merece ser visto e discutido com os temas da pedofilia, loucura, personagem X real.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

It, a Coisa

"It", de Andy Muschietti (2017) O cineasta argentino Andy Muschietti, responsável pelo excelente curta de terror "Mama", de 2008, e também pela sua adaptação para um longa homônimo ( infelizmente não tão bom), foi extremamente feliz nessa sua versão para o livro de Stephen King. Andy entendeu que o seriado de sucesso "Stranger things" pegou o espectador pelo emocional, e fez o mesmo com o seu filme: encheu de nostalgia e homenagem aos anos 80. E mais: nada disso teria dado certo, se os atores jovens não fossem cativantes. Cada jovem ator é um grande acerto.Escolhidos a dedo, eles representam os estereótipos daquela garotada que estamos acostumados em ver em qualquer filme pré-adolescente americano: loosers, virgens, medrosos, um gordo, outro negro, todos nerds e com problemas familiares. Ou seja, prato cheio para saciar a fome infinita de PennyWise, o palhaço devorador de crianças medrosas. Aliás, que performance incrível de Bill Skarsgård, filho do Astro sueco Stellan Skarsgard, no papel do grande vilão. Fico torcendo para que a sua carreira não se confunda com o de Pennywise, para não ficar marcado. Ele merece muitos filmes maravilhosos em sua filmografia. O seu olhar, o seu sorriso sedutor e assustador que faz com que se aproxime das crianças, é um grande achado. Os efeitos especiais também são maravilhosos. Impossível não se lembrar de Freddy Krueger vendo a performance do palhaço que se transforma no que quer. A jovem Sophia Lillis, no papel de Beverly, faz lembrar o tempo todo de Molly Rongwald ( até motivo de piada de um dos garotos) e na sua cena extraordinária no banheiro, uma homenagem incrível a "O iluminado" e "Carrie", , com cores fortes no jorro de sangue. Em 1988, na fictícia cidade de Derry, crianças desaparecem. Um grupo de amigos, que se entitula "Grupo dos perdedores" ( que a tradução das legendas infelizmente colocou como "Grupo dos otários"), tenta descobrir quem está por trás dos sumiços e descobrem que tiveram pesadelo com a mesma figura maléfica: o palhaço Pennywise, que se alimenta dos medos das crianças. Tá tudo aqui: "Conta comigo", A hora do pesadelo", "Et", "Alien" , "Goonies", tudo exatamente como em "Stranger things. Até mesmo um dos atores, Finn Wolfhard, o Mike de "Stranger things", o personagem mais divertido, com piadas infames e sujas. O grande barato da história de Stephen King, e que Andy Muschietti soube dosar muito bem, foi essa mistura entre drama, terror, comédia, aventura e ação. Ele captou a essência do filme: o verdadeiro medo dos adolescentes é se tornarem adultos, e ficarem iguais a seus pais: violentos, apáticos, sem vida. O desfecho, mostrando o desapego da rapaziada, é emocionante e chorei, me lembrando do final de "Conta comigo". Algumas cenas antológicas: a cena do banheiro, com Beverly em banho de sangue; a da projeção de slides na garagem, e o reencontro dos irmãos no desfecho. Para quem tem medo de filmes de terror, um alento: o filme não é violento, afinal, ele foca no público adolescente. Para nostálgicos, imperdível!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Peixe grande e suas histórias maravilhosas

"Big fish", de Tim Burton (2003) Somente assisti a esse filme na época de seu lançamento, em 2003, e reve-lo 14 anos depois me fez lembrar o quão extraordinário ele é. Emocionante do inicio ao fim, o filme, baseado em uma novela de Daniel Wallace, é um golpe baixo na platéia: é impossível não chorar varias vezes ao longo do filme. Em primeiro lugar, eu nem lembrava que Marion Cotilllard estava no filme, fazendo o papel da esposa de Will (Bil Cudrup), filho de Bill (Albert Finney e Ewan Macgregor, ambos sublimes). "Big fish" foi o 1o filme de Marion em língua americana. O filme narra o conflito de Will, jovem jornalista, que há anos não fala com seu pai. Ao saber que ele está gravemente doente, ele resolve visitá-lo. Sua mãe, Sandra (Jessica Lange e Alison Lohman, tocantes) o recebe. No leio de seu pai, ele ouve pela milésima vez as historias mirabolantes que seu pai lhe contou a vida toda, e é exatamente isso o que irrita Will: ele jamais soube da realidade dessas historias, e pede para que seu pai as conte como de fato aconteceram. A essa altura do campeonato, todo mundo já assistiu a esse filme, mas para quem não via há tanto tempo como eu, vale rever. Existem muitos detalhes que eu não lembrava mais: A cidade de Spectre, a presença de Steve Buscemi, até mesmo a pesença de Danny de Vito no elenco. Fotografia mágica de Philipe Rousselot, e trilha sonora do parceiro de sempre Danny Elfman, caprichando nas notas melancólicas. Helena Bonham Carter, na época a Sra Burton, também está sensacional. Um absurdo pesquisar e ver que esse filme não ganhou nenhum prêmio de Fotografia, roteiro , nem ao mesmo de interpretação para Albert Finney, antológico.

Deserto

"Deserto", de Guilherme Weber (2017) Adaptação do conto ‘Santa Maria do Circo’ do mexicano David Toscana, essa estréia na direção cinematográfica do Ator e Diretor teatral Guilherme Weber veio sem concessões para o espectador, que testemunhara cenas com entrega visceral do seu elenco vibrante. Boa parte oriunda do teatro e do cinema autoral, os 8 personagens representam arquétipos que ao longo do filme, irão se degladiar em embate moral, fisico e psicológico. Lima Duarte, Cida Moreira, Everaldo Pontes, Márcio Rosario, Fernando Teixeira, Magali Biff, Claudinho Castro e Pietra Pan possuem cada um, um grande momento individual, que os faz brilhar em cena. Guilherme Weber foi generoso e distribuiu as cenas de igual intensidade para todo o elenco. Em um lugar perdido no tempo, uma trupe de circo mambembe, decadente e esfomeada, resolve parar em uma cidadezinha. Chegando lá, eles estranham que não exista uma única pessoa no lugar. O grupo, com exceção de Dom Aleixo (Lima Duarte), decide ficar no lugar e deixar de perambular de cidade em cidade para mostrar a sua Arte. Dom Aleixo os questiona, dizendo que são Artistas e precisam mostrar o seu trabalho para as pessoas, mas os outros contestam, alegando estarem cansados de passar fome e agora querem uma casa e comida. O grupo decide também distribuir "personagens", e assim, cada um vai representar uma figura que consideram importantes para uma sociedade coexistir. O filme, obviamente, é uma grande metáfora e alegoria sobre a Arte e o Poder. Fico imaginando Glauber Rocha enlouquecendo com esse roteiro. Mas nas mãos de Weber, o filme tomou um rumo mais cru, violento, angustiante e teatral. Ao deixarem de viver da Arte, o grupo se desfaz e começa a se desintegrar. Essa é a grande critica que o filme faz, um povo não vive sem a Cultura. A outra critica, igualmente poderosa, é demonstrar como que cada indivíduo analisa e enxerga o outro como ela quer: na escolha dos papeis (puta, militar, caçador, negro, médico, cozinheiro, padre), existe uma hierarquia que faz com que um se sobreponha ao outro. Quase como em "Saló", de Pasolini, onde os Poderes fazem do sue povo gato e sapato. E' um filme polemico que apresenta no discurso dos personagens, toda a raiva embutida na sociedade dita democrática: preconceito racial, abuso sexual, machismo, critica `a religião. "Deserto", dirigido com poesia e muita Arte por Weber, tende a encontrar um público muito especifico. E' um filme autoral, e renderá boas discussões, para o bem ou para o mal. A destacar: a brilhante fotografia de Rui Poças, português responsável pelos belos "Tabu" e "O ornitólogo", 2 grandes cults portugueses.

O impostor

"The imposter", de Bart Layton (2012) Excelente documentário inglês, vencedor de vários prêmios internacionais e exibido com sucesso em Sundance em 2012. O Documentarista Bart Layton reconstitui com dramatização e com as pessoas reais, a incrível história de um farsante, que se fez passar por Nicholas Barclay, um adolescente de 16 anos americano que desapareceu de seu bairro em 1994. Frédéric Bourdin, francês na época com 25 anos, se fez passar por Nicholas, 3 anos após seu desaparecimento. Alegou ter sido sequestrado por militares americanos e levado até a Espanha, sendo mantido como escravo sexual. Dessa formam Frédéric Bourdin encontrou uma forma perfeita de poder ir morar nos Estados Unidos e conseguir o amor de uma família, algo que nunca teve na vida. Mas o mais impressionante está por vir, numa tremenda reviravolta na história. Bart Layton recria toda essa história como se dirigisse um filme de suspense. De fato, a gente fica louco para que o filme avence logo,e tentar entender essa história tão bizarra e complexa, fruto da mente de pessoas emocionalmente abaladas. No cinema, me lembrou bastante a obra-prima de Kiarostami, "Close up", sobre um farsante que se faz passar pelo cineasta Makmalbaph, e também o filme de Clint Eastwood com Angelina Jolie, "A troca". O filme é uma aula de cinema, com construção perfeita de edição aliado a uma trilha sonora tensa, que vai levando o espectador ao delírio.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Fugindo do amanhã

"Escape from tomorrow", de Randy Moore (2013) Esse é o famoso filme de guerrilha realizado pelo roteirista e cineasta Randy Moore nas dependências da Disneyworld sem o consentimento do parque temático. Randy Moore filmou tudo `as escondias, usando câmeras domésticas iguais aos dos visitantes da Disney, para não chamara a tenção da segurança. Os atores e equipe liam o roteiro nos Iphones. O que não pode ser filmado no Parque, foi rodado em Croma e aplicado posteriormente (alias, fiaram horríveis essas aplicações em croma, o que na verdade só intensifica o caráter Trash da obra.) O filme foi exibido em Sundance em 2013, de forma extremamente sigilosa, e acabou sendo anunciado como o maior filme de Guerrilha realizado. A própria Disney decidiu não se pronunciar em relação ao filme, e nem processá-lo. "Fugindo do amanhã", foi vendido como um filme de terror. Mas está muito longe disso. Zero sustos, zero tensão. E mais: tivesse sido lançado com um curta, teria sido muito mais bem sucedido do que como um longa de 90 minutos. Não existe história que sustente o filme por tanto tempo. O roteiro é bastante confuso e bizarro: Um pai é despedido pelo seu patrão no dia que ele leva esposa e dois filhos para a Disney. Ele resolve não contar nada para a sua esposa. Chegando no parque, ele começa a ter visões aterradoras das atrações, como se todos fossem malévolos. A direção é tosca, os atores amadores. Talvez a proposta tenha sido essa mesma, ser traz, mas até para ser um traço divertido faltou criatividade. O que realmente tenho que tirar o chapéu, é a forma como o filme foi realizado. O Diretor foi ousado em invadir um dos espaços no mundo mais bem policiados e realizar o seu filme ali, sem pagar direitos nem nada. E mais: incluir temas adultos como prostituição ( as princesas da Disney são na verdade, prostitutas que se oferecem para milionários asiáticos), cientistas malucos ( no subsolo do Epcot Center, existe um laboratório de experimentações) e pior, pedofilia ( meninas são sequestradas e oferecidas como garotas de programa. Com tanta loucura, a Disney acertou em não levantar polemica com o filme e dessa forma, não o promove-lo. Vale como curiosidade e também, para quem nunca visitou a Disney, pois a câmera acompanha praticamente todos os ambiente do Parque.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Tomcat

"Kater", de Händl Klaus (2016) Escrito e dirigido pelo Cineasta austríaco Händl Klaus, "Tomcat" é terminantemente proibido para quem tem pavor de ver cenas de maus tratos com animais. O filme ganhou o Premio Teddy no Festival de Berlin 2016, dedicado a filmes com temática Lgbts. Com fortes cenas de erotismo, nudez explicita e violência, o filme foi apontado por muitos críticos como uma referencia ao cinema de Michael Handke, o mais famoso dos cineastas da Austria. E não é por menos: Händl Klaus foi trabalhou em alguns filmes de Kaneke. O filme acompanha a rotina do casal gay Stefan e Andreas. Apaixonados ao extremo, eles demonstram o seu amor no trabalho (Stefan é músico, Andreas é produtor da Orquestra) e em casa, em cenas explicitas de sexo. Com eles mora o gato vira-lata Moises. Moises é a paixão do casal. Um dia, no entanto, num acesso inexplicável de violência, Stefan provoca um terrível crime. A relação do casal vai se deteriorando, até chegar em um novel insuportável de convivência. Eu achei que fosse gostar mais do filme. Ele é longo ( 2 horas intermináveis), talvez pelo ritmo extremamente lento de essa impressão do filme não acabar nunca. E pelo que li em algumas matérias, até achei que fosse mais violento. Não chega a ser um filme de Haneke, que faz o espectador sentir um nível absurdo de angústia. (Outro austríaco famoso, Ulrich Seidl, também se utiliza de temas que deixam o espectador sem fôlego, tamanho é o desconforto.) O filme vale ser visto pelo trabalho dos 2 atores principais: Philipp Hochmair e Lukas Turtur, que se entregam 100% aos seus personagens, em cenas viscerais de sexo e violência.

Atração

"Prityazhenie", de Fedor Bondarchuk (2017) Ótima ficção cientifica russa, com impressionantes uso de efeitos especiais. fazendo uma mistura de "Et, o extraterrestre", " A chegada" e " O homem das estrelas". O filme mescla os gêneros de ficção cientifica, ação, romance e drama. Uma nave espacial é atingida por chuva de meteoros e cai na Terra. A forca aérea russa a abate, e a nave cai. Seu integrante, um alienígena com forma humana, Hijken, é resgatado por uma jovem estudante, Yulia. Ela tenta ajuda-lo a voltar para a nave, mas o pai dela, um general russo, quer destruir a nave e o alienígena. Para piorar, o namorado de Yulia, Artyom, sente ciúmes do alienígena e também quer matá-lo. Dito assim, a historia parece uma bobagem. De certa forma até é, mas no fundo, ele quer passar uma bela mensagem sobre humanismo e um pensamento sobre o fim da violência no mundo. As cenas de ação são muito bem dirigidas, o casal principal é muito carismático ( alien e Yulia), com direito a algumas piadas sobre a adaptação na vida terrestre. Ótima fotografia e trilha sonora, Vale assistir o filme, mesmo que entendendo que esse filme russo pega carona na linguagem do cinema de Hollywood.

domingo, 3 de setembro de 2017

A rainha Diaba

"A Rainha Diaba", de Antonio Carlos de Fontoura (1974) Roteirizado por Plinio Marcos e Antonio Carlos de Fontoura, esse clássico do Cinema brasileiro, é, pelas palavras do próprio realizador, um Policial Pop. Pensando que o filme foi rodado em 1973 e lançado no ano seguinte ( Concorreu em Cannes na "Quinzena dos realizadores"), para quem assiste o filme nos dias de hoje, fica praticamente impossível não acreditar que Pedro Almodovar e Tarantino não o tenham assistido em algum Festival ou em dvd e trouxeram muito de sua narrativa, visual e universo cinematográfico para os seus filmes. Não é exagero: esse filme continua muito atual, moderno e com certeza, a ousadia temática e visual na época deve ter sido um verdadeiro escândalo. Inclusive "Cidade de Deus" deve muito a esse filme, tanto pela caracterização de alguns personagens quanto pela linguagem crua e realista da marginalidade da Cidade do Rio de Janeiro. Traficantes, prostitutas, travestis e gigolôs são os personagens desse filme inquietante. Diaba ( que muitos dizem ter se inspirado na figura mítica da Madame Satã, já visto posteriormente no filme homônimo de Karin Ainouz), interpretado magistralmente por um Milton Gonçalves absolutamente diabólico, domina as bocas de fumo de varias áreas da cidade. Quando um de seus "meninos" corre o risco de ser preso, ela pede para um de seus capangas para "criar" um marginal para que seja preso no lugar do seu protegido. Assim surge Bereco (Stepan Nercessian, na flor da juventude, perfeito para o personagem), um cafetão adotado pela cantora de boate Isa (Odete Lara, poderosa e visceral). Todos os caminhos se cruzam para o domínio de pontos de venda, onde não se pode confiar em ninguém. Com fotografia magistral de José Medeiros, em cópia restaurada por Walter Carvalho, e direção de arte e figurino visionários de Angelo de Auqino, é um filme que certamente suscitaria muita discussão, muito por conta dos sub-plots polêmicos: o grupo das travestis, a mulher de malandro, o traficante homossexual. Importante avaliar e pensar o quanto o Cinema dos anos 70 e 80 eram livres e viscerais. O elenco em peso, tanto os protagonistas quanto os coadjuvantes reunindo a fina flor (Wilson Grey, Nelson Xavier, Yara Cortes, Lutero Luiz, Zezé Motta) merecem aplausos, pela entrega fabulosa aos seus personagens. Duas cenas antológicas: a do salão de beleza, com Isa e os travestis, e a cena final de Bereco com Diaba. Trilha sonora suingada, repleta de funk e clássicos da época. A abertura, com créditos iniciais escritos e pintados `a mao ao som de "India", de Paulo Sergio, é fantástica. Um filme obrigatório!

Saberá o que fazer

"Sabrás o que hacer", de Katina Medina Mora (2015) Que lindo e ao mesmo tempo drama mexicano, todo realizado por mulheres na Direção e no roteiro. A cineasta Katina Medina Mora resolveu realizar esse filme para homenagear um amigo dela epiléptico. O filme é dividido em 3 capítulos, os 2 primeiros por pontos de vista diferentes, e o 3o une as historias. Nicola é um fotógrafo que sofre de epilepsia. Um dia, após sofrer uma convulsão, ele conhece Isabel, que veio visitar a sua mãe depressiva e suicida. Os 2 escondem os seus segredos, e se apaixonam. Mas quando a verdade vem `a tona, eles lutam para entender os dramas de cada um e respeitar as suas escolhas. Belamente dirigido, com muita sensibilidade, o filme tem uma linda performance do casal principal, os mexicanos Pablo Derqui e Ilse Salas. E' um filme muito melancólico, sofrido e que no seu final, faz uma linda redenção para que as pessoas possam abrir as suas vidas para novas possibilidades. Recomendado.

sábado, 2 de setembro de 2017

Tempestade de areia

"Sufat Chol", de Elite Zexer (2016) Escrito e dirigido pela Cineasta israelense Elite Zexer, "Tempestade de areia" ganhou mais de 15 prêmios internacionais, entre eles, o Grande Premio do Juri em Sundance 2016. O tema do filme já foi visto em muitos filmes: a mulher reprimida dentro de uma sociedade machista, arcaica e patriarcal, na Cultura do Oriente médio. Recentemente tivemos o excelente "A garota ocidental", muito semelhante. Laya é uma jovem que mora com suas 3 irmãs menores, sua mãe Jailia e seu pai Suliman em uma comunidade de beduínos que habitam o deserto no sul de Israel. Nessa cultura, é permitido ao marido casar com outras esposas. O filme começa com Suliman casando com uma segunda esposa, e abandonando Jalila e as filhas na sua casa antiga. Para piorar, Layla se apaixona por um colega de faculdade, mas seus pais proíbem esse namoro, pois as mulheres devem se casar com homens da mesma casta. Muito bem dirigido por Elite Zexer, que comanda um time de excelentes atores, o filme revela para o espectador um mundo onde a repressão comanda as vidas das pessoas. As mulheres não podem ter vontades próprias, elas agem de acordo com o que os outros querem. O interessante é apresentar a mãe Jalila não só como vitima, mas também como algoz dessa mesma educação, repetindo todas as atitudes castradoras das outras gerações. O desfecho me deixou bastante desapontado, irritado até, mas entendo que os filmes iranianos ou israelenses não fazem a mínima concessão para agradar o espectador. Bela direção de arte, mostrando um vilarejo perdido no meio de um deserto.

Amor eterno

"Eternité", de Tran Anh Hung (2016) Nenhum filme que tenha 4 dos maiores astros franceses da atualidade (Audrey Tautou, Berenice Bejo, Melanie Laurent e Jeremie Renier), que tenha sido dirigido pelo Cineasta vietnamita mais famoso do mundo ( realizador de "O cheio da papaya verde") e fotografado pelo celebrado fotografo chinês Lee Ping Bin, de "Amor `a flor da pele', de Wong Kar Wai, pode passar incólume. Adaptado da novela de Alice Ferney, o filme é um álbum de família aberto ao espectador. O filme engloba 3 gerações de uma família de aristocratas na Franca, começando no Séc XVIII. O roteiro do filme é bastante singelo, e muito do filme é narrado em voz off. Senti muita influencia do Cinema de Terrence Malick, com exceção da câmera virtuosa do fotografo Emmanuel Lubezky. Uma narração que enaltece a beleza da vida, da natureza, dos fantasmas do passado, da morte sempre presente. O filme basicamente é isso: As pessoas nascem, crescem, morrem. A única personagem que vai do início ao fim é o de Valentine (Audrey Tautou), que vai de uma jovem de 17 anos até uma idosa (e com aquela pesada maquiagem de envelhecimento, que eu tenho pavor!!). O próprio poster do filme já pega referencia no Pôster de "Arvore da vida", de Malick. Tran Anh Hung filma com muita sensibilidade e delicadeza essa história de mulheres, e é inegável a força da Mulher para a trajetória dessa família. Os atores quase não tem fala, pois mais de 80% do filme é narrado em Off por uma voz off feminina. Parece até um filme mudo, ao som de Bach e Debussy. Curiosidade: o titulo nacional, "Amor eterno", é muito semelhante a "Eterno Amor", de Jean Pierre Jeunet, também com Audrey Tautou.

Predadores do Amor

"Hounds of love", de Ben Young (2016) Premiadíssimo Filme de terror australiano, Venceu Premio de Melhor atriz e para Ashleigh Cummings no Festival de Veneza 2016, e Melhor Diretor e atriz para Emma Booth em Munique, além de outros premios em outros festivais internacionais. O se filme se passa em uma cidade do interior da Australia nos anos 80. Um casal de serial killers sequestram, torturam, estupram e matam garotas. A última vítima, Vicky(Ashleigh Cummings, excelente), é filha de pais separados e estea passando uns dias com sua mãe, a quem ela culpa pelo fracasso do casamento dos pais. Ao sair para uma festa escondida, contra a vontade de sua mãe, Vicky aceita uma carona do casal Evelyn (Emma Booth) e John ( Stephen Curry), em performances aterrorizantes. A mãe de Vicky, Maggie, passa a procurar pela filha, pois não acredita na versão da policia de que ela fugiu para c idade grande. O que mais assusta nesse filme, é uma lição dada por Theo Angelopoulos na sua obra-prima "Paisagem na neblina": Menos é mais. Quanto menos violência explicita mostrar mais aterradora ela será. O que acontece fora de tela, acaba sendo mais angustiante. Ben Young filma com silêncios, tempos lentos, câmera lenta, tudo com muita sobriedade e elegância. Seus atores são fabulosos, e esse é o maior sucesso do seu filme. Cru, brutal, visceral. Um filme chocante, que não deve ser recomendado para pessoas que sofrem com cenas de torturas. No final, o filme acaba sendo um libelo feminista, sobre a independência das mulheres nos anos 80, sobre a vontade de serem livres e donas de si. Fiquei totalmente sem fôlego, angustiado, tenso, foda, muito foda! O Cinema Australiano está matando a pau com os filmes de terror: "Snowtown", "Mr Babadook", " O acampamento".

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Emoji, O Filme

"Emoji, the Movie", de Tony Leondis (2017) Um filme de animação que toca "Wake me up before You go" e " Take on me" do Aha em versão remix não pode ser de todo ruim. E se usar os clássicos "Tron" e "Blade Runner" em sua concepção visual também não. As críticas do mundo inteiro destruíram o filme, e o pior é que nem achei tão ruim assim. É assistivel, tem uma história bobinha, mas não sei se tem apelo para crianças. O vocabulário é todo em cima de nomes de aplicativos, anti vírus, firewall e afins e pode ser que eu esteja enganado. Pode ser que toda essa geração cibernética já entenda tudo o que é dito e mencionado no filme e talvez por isso eu ache esse filme um destruidor do universo lúdico dos contos de fada. Aqui não tem espaço pra fantasia. Tudo é seco, céu, objetivo e imediato como tem que ser as mensagens enviadas por aplicativos de troca de texto. A emoção vem a conta gotas. Os personagens são simpáticos, mas bem longe dos que nos apaixonamos em filmes clássicos. São funcionais, mas não emocionantes. Talvez fosse melhor usar esse filme em aulas de computação para crianças. Seria mais didático. O que valeu mesmo a pena? As cenas de dança ao som de hits dos anos 80! Amei!

O acampamento

"Killing grounds", de Damien Power (2016) Antes mesmo da estrutura narrativa em vários tempos não cronológicos de "Dunkirk", de Christopher Nolan, o cineasta e roteirista Daniel Power havia usado esse recurso nesse seu premiado filme de terror," O acampamento". Fácil fácil, ele engana o espectador. O filme foi exibido em Sundance, Toronto e vários outros Festivais, e fez um enorme burburinho, muito por conta de sua violência extrema, que lembra clássicos do gênero como " A quadrilha de sádicos", de Wes Craven. A história é simples: 2 casais distintos resolvem acampar em um lugar isolado em uma floresta. Uma família com dois filhos e um casal solteiro, na véspera do ano novo. O que eles não poderiam imaginar, era a presença de dois tipos psicopatas que moram na região. Esse tema de inocentes nas mãos de assassinos, já vimos aos montes no cinema. O que difere aqui, é o extremo realismo das cenas, e a construção narrativa que engana o espectador. Os atores são ótimos e morri de pena de boa parte dos personagens. É um filme proibido ao extremo para quem gosta de acampar em lugares isolados. Com certeza ficarão psicóticos. O diretor e roteirista Damien Power disse que escreveu essa história diante da possibilidade de ver uma cabana abandonada em um camping, sobre o que teria acontecido aos donos. Ele apenas abusou do sadismo e da angústia para explicitar o seu pensamento. Rigorosamente proibido para pessoas sensíveis e que não conseguem assistir a cenas de tortura física e psicológica. Aqui tem que ter coragem para assistir, ainda mais envolvendo um bebê. Fiquei mega tenso do meio pro final do filme.

Os garotos nas árvores

"Boys in the trees", de Nicholas Verso (2016) Escrito e dirigido por Nicholas Verso, um ex-Dj australiano que resolver se aventurar por trás das câmeras. "Os garotos nas arvores" lembra bastante de outro filme australiano, de 1 ano antes: "O sonho de Greta". Ambos os filmes lidam com o tema do adolescente que teme virar adulto, e por isso, criam um mundo de fantasia aonde se refugam. Em uma cidade no interior da Austrália, na noite do Halloween de 1997, Corey sai com seus amigos, Os Wolf, para se divertirem e tocar o terror na cidade. Será a última noite de Corey na cidade, pois ele seguirá para Nova York para estudar fotografia. Ele no entanto, resolve procurar Jonah, seu ex melhor amigo, que se encontra isolado, sem amigo, e é motivo de Bullying de todos na escola. Nessa noite, Corey e Jonah colocam todos os seus sonhos, frustrações e sentimentos para fora, como uma grande despedida. O filme discute temas próprios para a geração adolescente, que são o desapego, o bullying e a depressão. Lembra muito a série “13 reasons why”, pois todas as questões levantadas no seriado estão ali. O jovem elenco é muito bom, e as cenas de fantasia são bem realizadas, dentro do orçamento apertado. O filme tem uma atmosfera de filme de terror, mas é uma grande metáfora sobre o medo de enfrentar a vida, principalmente nessa idade e na situação pelo qual passa o protagonista, que ´´o de abandonar toda a sua infância e amigos para partir para uma nova empreitada. O filme ainda aposta na questão da homossexualidade. Provavelmente Jonah foi apaixonado por Corey, e isso explica também o afastamento entre eles. Um lindo filme, premiado em vários Festivais e inclusive concorrendo no Festival de Veneza. Belas fotografia e rilha sonora, evocando mistério e fantasia. Amei a homenagem feita a “Et”, através da caracterização de Jonah, vestido como Henry Thomas no filme de Spielberg, de jaqueta vermelha, olhos pretos e rosto branco.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Você eu amo

"Ya lyublyu tebya ", de Olga Stolpovskaja e Dmitriy Troitskiy (2004) Drama romanceado russo, realizado em 2004 e que trata de um tema polemico até mesmo para os padrões da cinematografia russa: a descoberta do homossexualismo, e mais, a formação de um triângulo amoroso. Conservadores e rígidos na educação de uma família patriarcal e machista, o filme provocou polemica. Para quem está acostumado com filmes de temática Lgbts, esse aqui é bastante singelo, nem mesmo tem cenas de nudez ou sexo. Mas a provocação do trema já foi o suficiente para tornea-lo de certa forma um representante da filmografia gay em seu Pais, sendo considerado até o filme gay mais erótico do ano na Russia (imaginenm!!!) Tim ´´um bem sucedido publicitário. Ele conhece por um acaso Vera, uma bela ancora de um telejornal. Os dois se apaixonam, e possuem uma forma inusitada e bizarra de expressarem amor um ao outro, através de comida e jogos eróticos. Um dia, por acidente, Tim atropela sem querer Uloomji, um jovem mongol que veio para Moscou tentar a sorte. Como Uloomji não tem aonde ficar, Tim o traz para casa. O inevitável acontece: os 2 se apaixonam. Vera ao descobrir o caso se deprime, mas depois tenta entender o amor dos 2, e acaba interagindo como em um menagem. O filme, simbolicamente, pode ser visto como uma metáfora do capitalismo seduzindo a população pobre: Tim e Vera representam o supra sumo do capitalismo, e Uloomji, representa o povo, que se sente atraído por esse mundo rico e poderoso, chique, requintado. Mas o contrario acaba acontecendo: Tim percebe que poder não é tudo, e sim , o amor, e vai se desfazendo das coisas materiais em sua vida. O filme em si é repleto de problemas; de edição, de ritmo, de roteiro ( cheio de sub-plots, incluindo os pais de Uloomji que querem fazer ele desistir de ser gay). A direção também peca em efeitos bobos e toscos, mas no final, o trabalho dos 3 atores é o que prevalece, alem da ousadia der abordar um tema tão difícil de lidar na Russia como esse.

Atômica

"Atomic blonde", de David Leitch (2017) O que mais me chamou a atenção nesse filme de ação e aventura protagonizado por Charlize Theron, foi a participação de Barbara Sukowa no filme. Pouca gente deve lembrar, e ela aqui ainda faz uma pequena participação, muito aquém de seu gigantesco potencial. Mas como o dinheiro é quem manda, ela interpreta uma médica da perícia em Berlim. Para quem não sabe, Barbara Sukowa foi uma das grandes musas de Fassbinder, estrela de "Lola" e "Berlin Alexanderplatz", alem de ter trabalhado com Lars Von Triers em "Europa", depois fez também o premiado "Hannah Arendt". "Atômica" se passa logo antes da derrubada do muro de Berlim, novembro de 1989. Charlize interpreta Lorraine, uma agente do MI6 inglês, que vai até Berlim descobrir quem matou um agente do grupo, e aonde está uma poderia lista com nomes de espiões. O mundo estava sob o efeito da Guerra fria, e não se pode confiar em ninguém. Para ajuda-la, estão os agentes David Percival (James McAvoy) e a francesa Delphine (Sophia Boutella), de "KIngsman"). Com um super elenco, que inclui ainda John Goodman, Eddie Marsan e Toby Jones, "Atômica" é um filme totalmente estilizado, bem ao gosto de Nicholas Windfren Refn, de "Drive", repleto de cores fortes e acidas e com uma maravilhosa trilha sonora repleto de hits dos anos 80. Não tem também como não mencionar o brilhante plano-sequencia de mais de 10 minutos, com Charlize distribuindo porrada para tudo quanto é lado. "Atômica" ´´a resposta para os filmes de brucutus doa anos 80 e 90, e depois de "Mulher Maravilha" e as princesas modernas da Disney, parece que elas vieram pro ataque mesmo. O Cineasta David Leitch foi stunt por quase toda a sua carreira, e seu próximo projeto será a Direção de "Deadpool 2".

Dupla explosiva

"Hiyman's bodyguard", de Patrick Hugues (2017) O filme resgata o mote da franquia " Máquina mortífera" com Mel Gibson e Danny Glover às turras o tempo todo. A diferença aqui é o perfil profissional dos personagens: Michael (Ryan Reynolds, sensacional no melhor estilo "Deadpool") é um agente de segurança de alto nível. Kinkaid ( Samuel L Jackson" é um assassino profissional com uma questão: ele não mata inocentes. Kinkaid precisa aparecer no tribunal para o julgamento do político Vladislav (Gary Oldman) e provar que ele dizimou um vilarejo inteiro na Bielorussia. Perseguido por assassinos, só resta a ele confiar a sua segurança nas mãos de Michael, um antigo desafeto. O filme tem metade localizado em Armsterda, que sai totalmente destruída. Repleto de humor e de muita ação, é um filme vigoroso, divertido e cheio de personagens carismáticos em suas loucuras. Além dessa dupla, Salma Haeyk brilha como a namorada de Kinkaid, presa em uma cela. As tiradas Dela são de rolar de rir. O flashback que mostra como Kinkaid e Salma se conheceram em um bar pé sujo lembra " Catadores da arca perdida", quando Harrison Ford conhece Karen Allen em um bar super violento. Samuel L Jackson repete aquele tipo de sempre que o eternizou e seu famoso bordão " Mother Fucker!". Já tá meio gasto, mas tudo bem, ele já virou lenda. A trilha sonora é toda de hits dos anos 70 e 80, só lamento não ter tocado " O Will always love You", da Whitney Houston, que é executado no trailer do filme. Passatempo da melhor qualidade.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Memórias de ontem

"Omohide poro poro", de Isao Takahata (1991) Que obra-prima produzido pelos Studios Ghibli! Isao Takahata é o mesmo diretor de outras obras-primas, "O túmulo dos vagalumes" e " O conto da Princesa Kaguya", mas aqui ele pega emprestado o mote de "Morangos silvestres", de Bergman, e traça o relato de uma mulher adulta que se vê `as voltas com memórias e reminiscências de sua infância, quando tinha 10 anos de idade. O filme se passa em 2 épocas: Taeko aos 10 anos na década de 60, e no final dos anos 80, já com 27 anos de idade. Taeko trabalha em uma grande empresa no Centro de Tokyo, mas desde criança ela era apaixonada pelo campo. Enquanto se prepara para viajar de trem e passar suas ferias como voluntária de uma fazenda que pertence a uma família humilde, Taeko se lembra de sua infância: sua relação com o seu pai rígido, a sua mãe carinhosa e suas irmãs ciumentas Tem também sua avó, sempre repleta de sabedoria. Na escola, Taeko se lembra de sua primeira menstruação!!!!!, e de seus primeiros amores. O filme, longo, tem 2 horas, mas tem aquela narrativa lenta e suave que nos conduz a um mundo tão romântico e ingênuo, que fica impossível não ficar seduzido pela protagonista. A trilha sonora ( que inclui uma versão japonesa de "The Rose", cantada por Bette Midler no filme homônimo) emoldura esse filme com bastante poesia e melancolia. Fico imaginando uma versão desse filme com atores, que maravilha que não deve ser. Isao Takahata realizou um filme com extrema delicadeza, com um olhar feminino tão poderoso, fazendo com que o espectador sinta as angústias da personagem que vive desde criança em um a sociedade patriarcal e regida pelos homens. Os créditos finais são dos mais emocionantes que ja vi no cinema, a gente fica torcendo enquanto os créditos sobem! Idéia genial! Chorei!

Você não está sozinho

"Du er ikke alene", de Ernst Johansen e Lasse Nielsen (1978) Drama obscuro realizado na Dinamarca em 1978, é considerado um cult por retratar de forma ousada o tema do amor entre 2 meninos pré-adolescentes. Bo, de 14 anos, e Kim, de 11 anos, estudam em um colégio interno para meninos, e aos poucos vão descobrindo que entre eles, surge uma atração que nem eles conseguem explicar o que é. Guiados pelos mais puros e ingénuo sentimento, eles se deixam flertar, tocar e se amar. Mas essa é uma das histórias apresentadas em "Você não esta sozinho". Assim como em "If..", obra-prima de Lindsay Anderson que discute a tirania das escolas, o filme apresenta professores polarizados entre liberais e os que são carrascos. Da mesma forma, entre os alunos, existem os que lutam por um ideal de um mundo melhor e mais cooperativo, e os que são individualistas. Em uma das cenas, um grupo de rapazes maltrata Bo, por considerá-lo um comunista. A ousadia maior do filme, além de colocar crianças discutindo política, é mostrar os meninos nus tomando banho e em cenas de insinuação sexual, como masturbaçao. Fosse lançado hoje em dia, certamente esse filme teria sido taxado de incitar a pedofilia. Mas naqueles "inocentes" anos 70, essa discussão nem era questionada. O filme é comparado a alguns críticos ao cinema de Truffaut, que era um Mestre reconhecido pelo seu trabalho com crianças não -atores. De fato, todas as crianças aqui no filme esbanjam espontaneidade, como se não soubesse que estavam sendo filmadas. Um filme curioso, que vale ser assistido por Cinéfilos de mente aberta.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Como nossos pais

"Como nossos pais", de Laís Bodanzky (2017) Durante boa parte do filme, me veio em mente um clássico drama familiar americano de 1983: "Laços de ternura", com Shirley Maclaine, Debra Winger, Jack Nicholson e Jeff Daniels. "Como nossos pais" tem uma paralelo bem próximo: relações familiares que vão de Esposa X Marido e Mãe X Filha, até uma reviravolta surpreendente na historia. O filme venceu 5 Oscar. "Como nossos pais" ganhou 6 Kikitos em Gramado 2017 e pode vir a ser um dos selecionados pela Comissão Brasileira para competir a uma vaga no Oscar. Tudo isso indica a alta qualidade do filme, principalmente no quesito Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena e Jorge Mautner estão fabulosos em seus personagens cheios de erros e poucos acertos. As participações especiais também colaboram bastante, como os excelentes atores Gilda Nomacce e Felipe Rocha. A fotografia do espanhol Pedro J. Márquez traz lindas tintas melancólicas, e especialmente na cena da praia no anoitecer é muito poética. O roteiro, de Lais e de Luis Bolognese, é o retrato de todas as famílias do mundo inteiro: traições, rusgas mal resolvidas, conflitos pais e filhos, amantes e como não poderia deixar de existir, o terapeuta que discute a relação de casal. O vigor e disponibilidade do elenco, principalmente Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra conferem ao filme várias cenas antológicas: mas a que mais me marcou, foi o passeio da mãe e filha comprando sapatos pra mãe. A mãe chega e pede a opinião da filha sobre qual sapato comprar: vermelho ou marrom. A filha escolhe um, a mãe outro, e ai começam uma discussão interminável. Essa cena para mim resume o filme: cada um é e deve ser dono de si e de suas opiniões. Sejam elas acertadas ou não. Um belo filme que merece ser visto.

Tokyo Godfathers

"Tokyo Goddofazazu", de Satoshi Kon (2003) Para quem conhece os clássicos do animador Satoshi Kon, "Perfect blue" e "Paprika", vai estranhar bastante esse "Tokyo Godfathers". Diferente do tom sombrio e assustador dos outros filmes, "Tokyo Godfathers" é uma fábula de Natal, que tem como temas o humanismo e a redenção. Três sem teto de Tokyo encontram na noite de Natal, um bebe jogado no lixo. Eles decidem ir atrás dos pais da criança e nessa cruzada eles repensam as suas vidas e o porque de estarem naquela condição de mendigos. Gin se tornou bêbado por conta de uma tragédia familiar. Myiuki abandonou sua casa, depois de ter esfaqueado sue pai, um policial. E Hana é uma drag queen, que ficou deprimida após seu marido ter morrido em um acidente. As histórias de todos os protagonistas e os coadjuvantes que surgem no filme giram em torno do conflito familiar, e como a presença do bebe e do espirito de Natal irá alterar o rumo de tudo e da vida de todos. Com uma bela reconstituição de Tokyo, o filme seduz pelo carisma dos 3 personagens principais. A bebe irrita um pouco pelo excesso de choro, e curiosamente, o filme faz lembrar bastante do primeiro filme de "A era do gelo", que tem a mesma trajetória dos heróis. Vale assistir≤ além de ser uma bela história ( prejudicada um pouco pelo excesso de coincidências na trama) , faz um retrato cruel a condição dos sem tem teto no Japão.