sábado, 25 de fevereiro de 2017

O pântano

"La ciénaga", de Lucrecia Martel (2001) Lançado em 2001, quando fez um grande alarde em vários Festivais importantes no mundo ( onde levou prêmios especiais em Berlin, Sundance, etc), “ O pântano”, revisto agora, não me provocou o mesmo impacto. Motivo: Foram tantos os cineastas que fizeram uso de seu estilo narrativo, que fiquei apático que nem os personagens do filme ( incluindo Selton Mello com o seu “Feliz Natal” fez uso do mesmo tipo de direção de arte ( a piscina cheia de folhas secas, a fotografia granulada e suja, a inquietação dos personagens). Mesmo assim, é inegável a importância de Martel para o cinema latino, mais especificamente a Argentina. Ela foi uma das responsáveis por botar a filmografia de volta para os grandes Festivais. Lucrecia trabalha bastante com a edição de som. Desde o inicio do filme, vemos personagens arrastando cadeiras metálicas na beira da piscina; ouvimos pedras de gelo batendo nos copos de vidro; telefones que tocam insistentemente. Os personagens são totalmente retraídos, letárgicos. Essa sensação de claustrofobia e tédio total é passado para o espectador, que também fica angustiado. Cenas que induzem a grandes tragédias ( a pescaria com facões no rio, os meninos com as armas vendo um boi se atolar no lamaçal) acabam dando em nada. Pois é isso que o filme quer falar no final das contas: tudo continua igual. A história narra a relação entre duas famílias em volta de uma mesma casa de campo decadente na Região de Salta ( lugar aonde nasceu Martel e aonde ela filmou quase todos os seus longas). Com predominância feminina, as duas famílias são numerosas: cada uma com 4 filhos. A família de Mecha (Graciela Borges) é mais abastada, mas nem por isso eles são os típicos burgueses. Relaxados, sujos, incestuosos, alcoólatras, inertes. Já a família de Tali (Mercedes Moran) já vem de uma linhagem de classe media. Elas são primas. Durante um acidente domestico onde Mecha se acidenta, as duas se reconectam. O filme vai sendo conduzido por vários sub-plots: a relação entre uma das filhas de Mecha, apaixonada pela empregada; uma irmã apaixonada pelo irmão, um menininho que tem obsessão pela morte; fosse no Brasil, todo mundo diria que tem um pouco de Nelson Rodrigues nisso tudo. O que interessa de verdade, é a forma como tudo isso é mostrado. A estilização do filme acaba falando mais alto. Fotografia escura, granulada. Direção de arte que apresenta os ambientes totalmente desoladores e decadentes. As pessoas sem maquiagem, enfim, um mundo muito feio e sujo. Aos atores, coube entrar nesse universo e se adaptar ao estilo estranho e sem vida dos personagens. Com certeza, Lucrecia trabalha com metáforas sobre a sociedade e a crise econômica pelo qual passava a Argentina na época. O contraste social entre as duas famílias ( a rica mal sai da cama; a pobre precisa atravessar a fronteira com a Bolivia para comprar material escolar mais barato). As crianças empunhando armas, como uma critica a violência que a Ditadura impôs a sua população. E um filme rico em simbolismos, e por isso vale sempre rever.

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