domingo, 26 de fevereiro de 2017

O desprezo

“Le Mepris”, de Jean Luc Godard (1963) Critico de cinema da Revista Cahiers du Cinema, Godard usou o cinema como forma de romper com a linguagem do cinema clássico narrativo feito por Hollywood. No inicio de “O desprezo”, temos duas situações totalmente iconoclastas para o cinema de entretenimento: a primeira, os créditos não aparecem em letreiros, e sim, inteiramente narrados por uma voz.(Orson Welles viria a fazer o mesmo no final de “ O processo”). A segunda, vemos uma filmagem acontecendo, com uma atriz sendo filmada, uma câmera e uma equipe. De repente, a atriz sai de quadro, e a câmera corrige para o espectador, como se dissesse: “agora é você que nos interessa.” Depois, surge o texto: ”O cinema substitui o nosso mundo por um outro mundo em mais harmonia com os nossos desejos. Esse filme fala sobre esse mundo.”. O convite está feito. “O desprezo” é um filme sobre o Amor. O amor de um cineasta, Godard, pela sua nova musa, Brigitte Bardot (Godard teve Ana Karina como sua grande estrela, inclusive eram casados. Recém-separados, Godard faz uma provocação: em uma cena, Brigitte usa uma peruca preta corte Chanel igual ao de Ana Karina e entra em cena, como sendo a própria). Amor de Paul, personagem de Michel Picolli, por Camille, personagem de Brigitte. Amor do produtor Jeremy americano (Jack Palance) por Camille. O Amor do filme pelo cinema autoral. O Amor da câmera por Brigitte. O amor do Fotógrafo Raoul Cottard pelas locações deslumbrantes em Roma e Capri. O amor do compositor Georges Delerue pelo filme, compondo uma das trilhas mais lindas que você já ouviu. Tanto amor só poderia resultar em uma das obras-primas mais veneradas do cinema mundial. Até hoje, ele é comentado, muito por conta da sua discussão acerca do que é o Cinema e o seu propósito. ( Arte X Comercial). De uma forma bastante simplista, a história narra o convite feito a Paul, escritor de teatro, por Jeremy, para que ele reescreva o roteiro do filme “A odisséia”, de Homero, que estea sendo filmado pelo cineasta Fritz Lang, o próprio. Jeremy ficou puto com o material que Lang filmou, achando-o autoral demais, e quer que Paul torne tudo mais comercial. A partir do momento que Paul aceita o trabalho, a sua relação com sua esposa, Camille, vai se deteriorando. Cabe a ela, uma ex-datilógrafa, levantar a questão do porque Paul deve se envolver com um projeto que não é a cara dele. Jeremy acaba seduzindo Camille por duas razoes: uma, pela sua extrema sensualidade, e outra, para tirá-la do caminho de Paul e fazer com que ele aceite o trabalho. O cinema apresentado por Godard, em sua metalinguagem, é glamuroso, porem, cruel. Fritz Lang sofre nas mãos do produtor interpretado genialmente por Jack Palance. Ele representa tudo o que há de pior nesse universo: arrogante, galanteador, surtado. Em um determinado momento, ele diz a sua famosa frase:” Toda vez que ouço falar em cultura, saco o meu talão de cheques”. Outros momentos brilhantes de diálogos: Numa discussão entre Camille e Paul, ele comenta que acha feio ela proferir palavras vulgares, que não combinam com ela. Provocativa, ela começa a desfilar vários palavrões, e depois solta: “ E ai, continua achando que eu não combino com os palavrões?” Um personagem coadjuvante, mas hilário e que mostra esse universo louco que é o Cinema, é o de uma tradutora, aspirante a atriz: ela está sempre do lado traduzindo o inglês pro francês pro italiano e pro alemão. Os diálogos acabam sendo divertidos, idem as situações. Outro momento genial de diálogo, apesar de machista, proferido por Paul: durante uma filmagem, Paul assiste as atrizes tirando as roupas e ficando nuas. Ele comenta: “O cinema é maravilhoso: vemos mulheres e seus vestidos. Daí elas fazem cinema, vemos suas bundas.” Agora, o que realmente me impressionou, são os enquadramentos e as marcações de cenas feitos por Godard e por Raoul Cottard: sublimes, aproveitando ao máximo as locações. A cena ambientada nas escadarias e no terraço de uma casa suntuosa em Capri, com o mar ao fundo, é deslumbrante, inclusive virou cartaz de uma edição do festival de Cannes. Li que o produtor real do filme pediu para que Brigitte fosse escalada pro filme, e que Godard a mostrasse nua em vários momentos. Só de sacanagem, Godard enfiou filtros coloridos em sua nudez, tornand as cenas artísticas.

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