sábado, 22 de janeiro de 2011

Biutiful


" Biutiful", de Alejandro Gonzalez Inãrritu (2010)

Drama do mexicano Inãrritu, aqui em sua primeira experiência sem trabalho conjunto com seu antigo parceiro e roteirista Guillermo Arriaga, que alçou vôo solo. O filme participou do Festival de Cannes 2010, levando o prêmio merecido de melhor ator para Javier Barden, dividido com Elio Germano, em outro drama familiar, o italiano " La Nostra Vita".
" Biutiful" narra a massacrante história de Uxbal, um homem que luta para sobreviver em uma Barcelona nada turística ( esqueçam a Barcelona solar de " Vicky Cristina Barcelona"). O que vemos aqui é feiura de todos os lados. As pessoas, as cores, o mundo, as situações. Uxbal tem uma ex-esposa bipolar, que não consegue controlar seus acessos de mau-humor e de sexo, e que tem um caso com o cunhado. Os dois filhos pequenos de Uxbal passam o dia sob os cuidados de uma chinesa imigrante, enquanto ele trabalha como atravessador dos camelôs senegaleses, e de chineses que exploram o trabalho escravo de compatriotas da mesma raça. Esse dinheiro sujo chega suado, mas é o que mantém a subsistencia da família que vive em condições sub-humanas.
Para piorar a sua situação, Uxbal descobre ter um câncer de próstata terminal, e não terá mais do que 2 meses de vida. Ele evita de comentar sobre a doença com todo mundo. Uxbal tem poderes mediúnicos de falar com os mortos, e sua relação com seu pai é muito sofrida, uma vez que o pai morreu jovem e ele não consegue tirá-lo de suas lembranças. Ao final da projeção, descobrimos que Inãrritu fez o filme em homenagem a figura de seu pai, daí a importância do personagem na trama.
Apesar de não trabalhar com as tramas paralelas, Inãrritu continua com sua visão pessimista do mundo. Não se pode confiar em ninguém, as pessoas são todas sofredoras e egoístas. Existe um único protagonista na história, no caso, Uxbal (Javier Barden), mas algumas pequenas sub-tramas se desenvolvem ao longo da narrativa ( A relação dos chineses gays, a sua ex-esposa que mantém relações com seu irmão, a mulher senegalesa que sonha em voltar ao seu país, etc).
A fotografia, em tons escuros, ajuda a recriar esse mundo feio, desumano. A trilha sonora é de seu parceiro fiel Gustavo Santaolala. O roteiro é bom, pendendo para o melodrama e as vezes exagerando em alguns momentos ( a história do casal gay parece completamente deslocada da trama central, e mesmo o lance da mediunidade não me soou realista). O grande trunfo do filme é o trabalho do elenco, em especial Barden, a atriz que faz sua esposa e as duas crianças, todos impecáveis e bárbaros em suas interpretações.
O filme é muito longo, 147 minutos, e ao final da projeção, me pareceu ter pelo menos 20 minutos excedentes. A trama demora a acontecer, o prólogo é muito extenso , tudo para apresentar o personagem em suas facetas ( a mediunidade, a relação com sua filha, a relação com seu pai falecido). Apesar de tudo, o filme é forte, e possui algumas boas cenas antológicas, como a da boite.
O ser humano dos filmes de Inãrritu definitivamente não prestam, e os poucos remanescentes da bondade, não resistem. Para quem deseja um filme para passatempo, evite completamente.
Obs: tem uma cena de atropelamento no filme que impresssiona pelo realismo. Maravilhoso!
Nota: 8

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Burlesque


" Burlesque", de Steve Antin (2010)

Drama musical dirigido por Steve Antin, e protagonizado por Cher e Christina Aguilera, dois ícones da canção popular americana. O filme é o veículo perfeito para o talento dessas duas atrizes/cantoras.
" Burlesque" conta a história de Ali (Aguilera), uma jovem em busca de sucesso, que sai de sua cidadezinha, Iowa, em direção a Los Angeles. Chegando lá, ela pena para conseguir uma profissão, e acaba trabalhando como garçonete de uma casa noturna chamada " Burlesque", cuja dona, Tess (Cher), está toda endividada. A casa apresenta show de dançarinas, e Ali sonha em poder se apresentar lá também. Ela fica amiga de Jack, o barman do local, e vai morar na casa dele. Teimosa, Ali tenta provar a Tess que pode dançar e mais, cantar nos shows, contra a vontade de Tess, uma vez que todos os shows são em playback. Até que ela consegue. Mas ganha a inimizade de Nikki, outrora estrela da casa, que não canta e perde espaço para Ali.
O filme é um misto de " Moulin Rouge", "Chicago", " Showgirls", " Cabaret" e " Showbar". A eterna história de Cinderela, da moça honesta e ingênua que tenta seu lugar ao sol.
O roteiro é clichê do início ao fim, não traz nenhuma novidade, tudo extremamente previsível. Um filme feito para quem é fã das duas estrelas, e para quem curte musicais, e está em busca de entretenimento. Tecnicamente o filme é bom, com boa fotografia e bons números musicais.
Aguilera, em seu primeiro papel no cinema, não faz feio, e surpreende. Cher já é macaca velha, e sabe o que faz. O elenco de apoio é chique, com presenças de Stanley Tucci, repetindo pela milésima vez o papel do amigo e conselheiro gay e Peter Galagher.
Um filme delicioso de se ver, mas totalmente descartável.
Nota: 7

Biblioteca Pascal


" Bibliothèque Pascal", de Szabolcs Hadju (2010)

Co-produção húngara/Romena/Francesa e Inglesa, esse filme é resultado de um projeto globalizado.
Concorrendo no Festival de Berlin 2010, o filme saiu de lá sem prêmios, mas ganhou a fama entre cinéfilos como filme cult do festival.
A história gira em torno de Mona, uma jovem mãe solteira. O prólogo do filme mostra Mona em uma sala da Assistência Social, dando o seu depoimento para um funcionário. Ela deseja reaver a guarda de sua filha de volta, e para isso, precisa contar ao homem a sua história pessoal. A partir daí, o filme mergulha em um mundo de fantasia e surrealismo, algo que remete aos filmes de Kusturika. Mona engravidou de um homem acusado de assassinato, e que possui o dom de dividir seus sonhos com outras pessoas. Porém, ele é morto pela polícia, e Mona resolve seguir seu caminho. Ela reencontra o seu pai, que ela não via a anos. Ele a convida a ir com ele até a Alemanha resolver assuntos pendentes. Ela decide ir, e deixa sua filha com a sua tia vidente. Chegando na Alemanha, Mona descobre que seu pai estava enrolado com perigosos traficantes. Ele acaba morto e ela é vendida como escrava. Acaba sendo arrematada por um homem, que mora na Inglaterra. Ele é dono de uma boite chamada " Biblioteca Pascal" na verdade um bordel, onde artistas, poderosos e políticos se encontram em busca de prazeres fetichistas. Cada sala do bordel tem um tema: Sala de Joana D´arc, Sala de Desdêmona, sala de Pinoquio, e por aí vai. Paralelo, a sua filha é mostrada em ferias públicas para ganhar dinheiro: a tia vidente a apresenta como uma atração, pois ela tem o poder de dividir os sonhos com os visitantes, tornando-os reais.
" Biblioteca Pascal" é um curiosíssimo filme, que mistura vários gêneros: drama, fantasia, comédia. Tem muito dos filmes de Kusturika, Terry Gillian, ao mostrar cenas surrealistas com alto teor de fantasia. Os efeitos são muito interessantes, e a fotografia também, muito colorida. A direção de arte mistura elementos de várias épocas, tornando o filme meio anacrônico.
Não é um filme perfeito, mas contém elementos que mantém o interesse do espectador, apesar de seu ritmo um pouco lento. A parte fantasiosa da história poderia ter sido melhor explorada.
O elenco, capitaneado por uma excelente Orsolya Torok-Illyes, é muito bom,
O filme me lembrou bastante o italiano " A desconhecida", de Giuseppe Tornatore, com temática semelhante, porém sem a parte fábula da história.
O desfecho do filme é lindo, em plano-sequência, mostrando o universo do faz de conta de Mona. Aliás, o filme é repleto de travellings laterais, que descortinam cenários e situações. O Diretor explora bastante essa linguagem, o que acho bem interessante. Algo como Greenaway costumava fazer.

Nota: 8




quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Amor e outras drogas


" Love and other drugs", de Edward Zwick (2010)

Comédia dramática dirigida pelo mesmo cineasta de " Tempo de Glória" e " Lendas da paixão", é um filme ousado para os padrões americanos de grande circuito.
Os personagens principais são tipos amorais, em busca de sexo fácil, e o filme tem cenas de nudez protagonizadas por dois astros de Hollywood, no caso Anne Hathaway e Jake Gyllenhaal, ambos bem à vontade em seus papéis.
O filme é baseado no livro Hard Sell: The Evolution of a Viagra Salesman, de Jamie Reidy. Narra a história de Jammie (Gyllenhaal) , um vendedor de uma loja de eletrônicos, que tem como tática de vendas seduzir as suas clientes. Ele é mulherengo, e transa com todas as mulheres que passam por sua frente, tendo elas a seus pés. Até que é demitido do emprego, após seu patrão o encontrar transando com sua namorada.
Seus pais o criticam por sua postura irresponsável, e por ter largado o curso de medicina. Seu irmão resolve indicá-lo como vendedor de uma empresa farmacêutica, a Pfizer, e Jammie consegue aos poucos conquistar uma clientela. Acaba fazendo amizade com um médico, Dr Stan, que o indica para um Congresso. Jammie acaba conhecendo uma das pacientes do Dr Stan, Maggie ( Hatheway), uma artista plástica portadora de mal do Parkinson, ainda em estágio inicial. Maggie não se prende a nenhum homem, quer ser livre. Os dois acabam transando no primeiro encontro. Entre idas e vindas, e pequenos conflitos, os dois acabam se apaixonando. Um dia, Jammie não consegue a ereção, e Maggie lhe indica tomar o Viagra, remédio que acabou de ser lançado pelo fabricante da empresa que Jammie trabalha. . A partir daí, o filme faz apologia do remédio, e o verdadeiro boom que se deu por conta dele. Mas durante um Congresso em Chicago, Maggie assiste uma palestra de Parkinson. Jammie também vai, e ouve do marido de uma mulher portadora da doença de que é melhor ele abandonar a mulher que ama, pois ela ainda está em estágio avançado, e que a tendência é piorar. Jammie fica então abalado, e a relação entra em crise.
" Amor e outras drogas" é um filme que mistura gêneros: percorre da comédia até o drama, e depois romance . Essa mistura não funciona em vários momentos, dando uma ruptura muito grande no desenrolar da história. Inclusive porquê o humor no filme varia da comédia pastelão, juvenil, até um humor mais comedido. (por ex, o personagem do irmão de Jammie é um nerd com problemas de relacionamentos com mulheres. Todas as gags dele são estilo " Porky´s" ).
O filme é longo, arrastado lá pela metade, mas de uma forma geral, é um belo perfil de tipos melancólicos, que moram em grandes metrópoles e se descobrem sem amor próprio. Os dois atores principais defendem com garra os difíceis personagens, e Hatheway tem momentos emocionantes. O filme tem ainda participação muito especial de Jill Clayburg, falecida recentemente, no papel da mãe de Gyllenhaal. Fiquei muito comovido com a curta presença dela em cena, pena que em personagem tão sem destaque.
O filme se passa em 96, e a direção de arte acerta em detalhes. A trilha sonora tem pérolas pops da época. As cenas de sexo são ousadas, e é um relento ver que Hollywood produz filmes para adultos, mesmo que com não totalmente satisfatório.

Nota: 7

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Deixe-me entrar


" Let me in", de Matt Reeves (2010)

Refilmagem americana do cult sueco " Deixa ela entrar", de Thomas Alfredson, vencedor de vários prêmios internacionais.
Graças a Deus, Matt Reeves ( " Cloverfield" ) , o diretor, manteve o mesmo clima autoral do filme original. Não sucumbiu aos encantos dos grandes estúdios, e criou um filme lento, inteligente, tão bom quanto o filme sueco.
Para quem não conhece a história: Owen (Kodi Smit-Macphee / Ator do também excelente " A estrada") é um garoto que mora com sua mãe, em um condomínio isolado, onde os moradores não fazem contato entre si. Triste, sem amigos, Owen sofre ataques de um grupo de garotos de sua turma, que insistem em maltratá-lo. Um dia, novos moradores se mudam no condomínio. Abby ( Chloe Moretz/Atriz do excelente " Kick Ass") e seu " pai" (Richard Jenkins, ator de " Queime depois de ler" e " Comer, rezar, amar") são figuras estranhas, que só surgem durante a noite. Owen fica curioso em relação a essa menina de 12 anos, e passa a escutar os diálogos entre pai e filha através da parede (eles moram do lado). O que ninguém sabe, é que Abby é uma vampira, e seu pai sai á caça de vítimas para saciar sua sede de sangue. Owen e Abby travam uma amizade, ao mesmo tempo que o menino parece ficar assustado com a presença dela.
Essa refilmagem procura ser o mais fiel possível, com pequenas variações: agora temos uma figura de um detetive, e aqui, investem mais em efeitos especiais, porém ser ser muito apelativo. O grande mérito dessa produção é manter o charme do original, a mesma narrativa lenta, e sem se preocupar em agradar ao grande público. Talvez por isso o filme não tenha feito sucesso. O que é uma pena, pois raramente vi refilmagens tão boas.
Os atores estão todos excelentes, com destaque total para a dupla de crianças, realmente incríveis em suas performances.
A fotografia é deslumbrante, recriando o clima de inverno com neve, dessa vez ambientado no Novo México. A trilha sonora também é cativante, criando um clima tenso. Uma cena que me impressionou pela direção e efeitos, é a de um acidente de carro, todo registrado do lado de dentro do veículo, que sai capotando ladeira abaixo.

Nota: 9

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Cúmplices do Silêncio


" Complici del silenzio", de Stefano Incerti (2010)

O filme narra o drama de Maurizio Gallo, jornalista italiano que vai com um amigo fotógrafo para Buenos Aires cobrir a Copa do mundo em 78.
Essa viagem também é o reencontro com seus familiares que ele não conhece, que sairam da Itália para tentar vida nova na Argentina. Chegando na casa, ele conhece tios, primos. Todos o recebem muito bem.
Porém, a Argentina vive um período turbulento na política, quando a ditadura assume o Governo. Tudo é muito discreto, e as pessoas agem como se nada acontecesse. Maurizio traz consigo uma soma em dinheiro, que ele deve entregar a Ana, ex-mulher de um argentino que foi morar na Itália. Em seu encontro com Ana, ele se apaixona perdidamente, sem saber que ela é na verdade, uma guerrilheira filiada a um grupo contra a ditadura militar.
Os dois se envolvem, e Ana tenta dissuadir a idéia de um relacionamento, mas Maurizio não ouve. Até que eles são sequestrados pelos militares e levados para uma base, onde são torturados barbaramente. Maurizio, jornalista conhecido na Itália, tenta provar que não é militante, mas sua paixão por Ana o faz aderir a causa.
O País está todo envolvido com a Copa do Mundo, e a população por um momento, se esquece que vive um governo de terror.
Essa produção italiana filmada na Argentina é um ótimo exemplo de drama político, que junta também ingredientes de um bom melodrama.
A direção é segura, a interpretação dos atores é ótima, apesar dos personagens serem contruídos em cima de estereótipos.
O roteiro cria um forte clima de tensão, e lembra bastante os filmes de Costa Gravas dos anos 80. Alguns pequenos deslizes no roteiro: a resolução, um pouco improvável. O que mais me incomodou foi a reviravolta de um personagem que se mostrou mal o tempo todo, e de repente, resolve ajudar um outro personagem.
A fotografia, a trilha sonora são competentes.
Um filme que merece ser visto, pelo seu forte teor de denúncia contra regimes ditatoriais. O filme me fez lembrar do nacional " Pra frente Brasil", que também usa o mote da Ditadura em período de Copa do Mundo.

Nota: 8

F


" F ", de Johannes Roberts (2010)

Suspense inglês, narra a história de Robert, um professor que leciona em um colégio. Atacado por um aluno, ele é convidado pela direção a se ausentar por 11 meses, uma vez que o aluno que o atacou tem pais influentes. Durante esse período, Robert tem a sua vida destruída: se entrega ao alcoolismo, se separa de sua esposa, e sua filha adolescente, que estuda na turma que ele dá aula, o evita.
Passa-se o tempo e Robert retorna ao colégio. Porém, tudo mudou: os funcionários, a direção, ninguém lhe dá credibilidade,e ainda exigem a sua demissão. Durante a aula, Robert castiga sua filha e ela deve passar a noite na escola. Mas essa noite reserva uma grande surpresa: um grupo de adolescentes encapuzados, sem motivação alguma, resolve invadir e matar todas as pessoas presentes. Robert luta pela sua vida e a de sua filha.
O filme não reserva nenhuma novidade, e o que ele tem de interessante é a direção, e sua duração, que é enxuta: 74 minutos. O filme tem uma ótima dinãmica, e a tensão vai num crescendo, apesar de clichês do gênero abundarem na tela. Os personagens são maniqueístas, interpretando arquétipos : a diretora durona, o pai alcóolatra, os policias burros, o segurança mau-caráter. As cenas de violência não são exageradas como em " Jogos mortais", mesmo porquê a opção do diretor ( ou do orçamento) é não mostrar o ato da violência na hora, mas sim depois.
O elenco é irregular, mas a atuação do protagonista David Schofield merece destaque. Não é fácil interpretar uma alcóolatra sem cair em estereótipo, e ele faz com perfeição.
O que realmente não curti é a caracterização dos delinquentes. Eles são encapuzados, e seus rostos nunca são vistos. Mesmo em ambientes iuminados, toda a face é escura, o que tira o tom realista do filme. O roteiro não se interessa em explicar o porquê do ataque. O " f" do título se refere a nota mais baixa dada a um aluno. O desfecho do filme é muito interessante, fechando bem a história, apesar de muia gente ter odiado ( li algumas críticas que não gostaram do final em aberto).

Nota: 7

domingo, 16 de janeiro de 2011

Norberto apenas tarde


" Norberto apenas tarde/Norbert´s deadline", de Daniel Hendler (2010)

Filme dirigido pelo ator argentino Daniel Hendler, aqui em sua primeira experiência como Diretor, após atuar em quase todos os filmes do Cineasta Daniel Burman (Abraço partido, A lei da família, etc)
O drama, narrado em tons de tragicomédia, conta a história de Norberto, um cidadão pacato, que é demitido da Empresa Aérea no qual trabalhava.
Sem coragem de avisar à esposa e amigos sobre a sua demissão, ele esconde esse fato e aceita trabalhar em uma imobioária de imóveis, como corretor. Porém, a sua introversão o impede de executar a tarefa, e passa um bom tempo sem vender um único apartamento. Norberto vai contando aos poucos para a esposa o desejo de querer trabalhar em uma imobiliária, contra a vontade dela. Ele começa a ficar desesperado, pois está devendo aos amigos, para quem ele pede dinheiro emprestado, e a sua relação com todos fica completamente desgastada. Seu chefe o sugere a procurar um curso de auto-afirmação, e na sua busca, Norberto descobre um grupo de teatro alternativo, que vai montar a peça " A gaivota", de Tchekov. Ele começa a frequentar esse grupo, e se anima com o vigor e jovialidade dos outros alunos, dispostos a se dedicar ao mundo das artes . Norberto vai então levando com carinho e emoção esse universo mágico do teatro, enquanto o seu mundo pessoal vai se desmoronando.
Belo drama, dirigido com competência por Hendler, que tem como maior mérito a construção de um personagem extremamente carismático. Norberto é o tipo do cara que todo mundo adoraria ter como amigo. Boa praça, gentil, tranquilo. A atuação de Fernando Amaral é sensacional e a caracterização do personagem também, sempre vestido com o seu indefectível casaquinho cor de gelo, meio anos 80.
O ritmo se perde lá pro meio da projeção, quando se torna um tanto repetitivo. Mas nada que tire a simpatia do filme, que merece ser visto por se tratar de uma pequena parábola sobre uma pessoa que jamais perde a sua humanidade e que descobre já nos seus quase 40 anos um novo foco de interesse em sua vida, provando que nunca é tarde para começar algo.
Particularmente, sou apaixonado pelo cinema latino, principalmente o Argentino. E Daniel Hendler prova que não é apenas um excelente ator, e começa a trilhar um belo caminho como cineasta.
Nota: 8

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Mágico


" L`illusionniste", de Sylvain Chomet (2010)

Animação francesa, do mesmo realizador de " As bicicletas de Belleville" (2003), um clássico.
Baseado em um roteiro de Jaques Tati, jamais filmado, o filme narra a história de Tatischeff, um ilusionista, que vive na Paris de 1959. O mágico se exibe em um teatro de variedades, e vai perdendo seu espaço para um grupo de rock. Desiludido, ele resolve viajar para Londres. Também sem muito sucesso, acaba conhecendo um bêbado, dono de um pub na Escócia. Tatischeff viaja até lá, e se exibe para um bando de bêbados. Na taverna, ele conhece uma garota, que trabalha lá como faxineira. Ela se encanta tanto com o homem, que resolve largar o emprego e fugir com ele, escondida. Ao se ver sem alternativas, o mágico resolve adotá-la. Vão para Edimburgo. Tatischeff continua em sua peregrinação tortuosa em busca de trabalho, e aceita um emprego numa oficina mecãnica, para poder juntar mais dinheiro e pagar aos caprichos da jovem, que se encanta com os prazeres do consumismo.
" O mágico" é um filme melancólico, e em cada fotograma, homenageia Jacques Tati. A figura de Tatischeffe é toda calcada na figura longelínea e alta do grande cineasta e ator. Inclusive, em uma cena do filme, Tatischeff se refugia em uma sala de cinema, onde está sendo exibido o filme " Meu tio".
Sylvain Chomet traça uma narrativa lenta, dificil de ser acompanhada por crianças, mas que encantará os cinéfilos apaixonados pela obra de Tati. Fiquei imaginando como seria esse filme com ele.
A trama gira em torno de desilusão, perda da inocência, o avanço da tecnologia suplantando artistas populares, que perdem seu espaço para a televisão e ourtos passatempos. ( tema recorrente nos filmes de Tati). O filme homenageia também os artistas mambembes. Em uma cena tristíssima, vemos o desfecho do ventríloquo, do palhaço ( que se torna suicida) e de 3 irmãos acrobatas. Artistas que cresceram sob as palmas do público,e que não conseguiram se adaptar aos novos tempos.
A trilha sonora é uma maravilha, realçando ainda mais a melancolia da animação. O filme é de uma delicadeza de cortar a alma.

Nota: 8


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Rubber


" Rubber", de Quentin Depieux (2010)

Filme alçado a categoria de cult, após ter sido exibido com sucesso no Festival de Cannes em 2010.
Produção francesa, mas falada em inglês, e rodada no deserto da Califórnia, " Rubber" tem uma sinopse muito interessante.
Um pneu desperta com vida, subitamente~, no deserto. Aos poucos, aprende a andar sozinho pela estrada, e de repente, começa a matar todo ser vivo que encontra pela frente: insetos, pássaros, ser humanos.
Robert, o pneu, chega até uma cidadezinha, e avista uma jovem, por quem se apaixona.
Com um plot desses, esse filme tinha tudo para ser um filme excepcional, uma pérola para cinéfilos nerds.
Mas..me enganei!
O prólogo do filme é bem interessante: um sherife chega até um ponto do Deserto, sai do carro e começa a falar para a Cãmera. Seus diálogos na verdade, são perguntas ao espectador. Por ex, " porque o E.T. tem cor marrom? Não existe um motivo" e por aí vai, todas as perguntas vem com um complemento" Não tem motivo". Uma espécie de preparação para o espectador mais " mala" que irá perguntar porque o pneu toma vida.
Quando a lente abre, vemos que na verdade, o sherife estava falando para um grupo de turistas, sentados em cadeiras e munidos de binóculos. Os turistas são testemunhas do " filme" que eles e nós, especatdores reais, estaremos prestes a assistir. Eles assistem a todas as evoluções do Pneu, comentando sobre as mortes, as vezes comemorando.
Essa sátira nonsense ganha forças com os personagens completamente absurdos e estereotipados que vão surgindo ao longo da narrativa.
Mas..o que eu não gostei?
Eu tinha a impressão do filme ser trash. Mas não é. Faltou charme de filme tosco, faltou paródia. Os efeitos são excelentes, as mortes idem. Sim, os diálogos são horriveis, as cenas também. Mas não provocam risos, apenas indiferença.
O pior dos pecados, porém, reside na desenvoltura do pneu. pela sinopse, a gente lê que ele sai atropelando geral. Mas não é isso o que acontece. Robert, o pneu, tem poderes telecinéticos. Ou seja, ele se concentra mentalmente sobre o seu alvo, que acaba explodindo. Tipo " Scanners".
Eu teria achado mil vezes mais divertido se o pneu saisse pela estrada atropelando e transformando o povo em massa de pastel, ou saissem voando.
Tecnicamente o filme é bem feito: ótima fotografia, som, edição. Talvez aí residam seus defeitos. O roteiro poderia ter sido mais insano.
Achei um filme aborrecido, sem carisma . Vale apenas pela curiosidade.


Nota: 4

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Desenrola


de Rosane Svartman (2010)

Comédia romântica que aborda o universo adolescente no Rio de Janeiro.
Priscila (Olivia Torres) tem 16 anos, e seus pais são divorciados. Seu pai (Marcelo Novaes)se casou de novo e mora com uma nova esposa (Leticia Spiller), uma mulher prafrentex.
Sua mãe (Claudia Ohana), mais conservadora, viaja por 20 dias e Priscila precisa passar esse tempo sozinha em casa. Pois nesse período, muita coisa acontece em sua vida, que modificará para sempre sua vida.
Priscila é uma jovem " careta", mas que deseja encontrar o garoto ideal para tirar a sua virgindade, uma questão que pesa sobre sua cabeça. Seu garoto ideal é Rafa (Kayke Brito), garanhão da escola e mulherengo. Priscila anda sempre com seu melhor amigo Caco, e é objeto de paixão platônica por parte de Boca (Lucas Salles). Amaral (Vitor Thiré) é o melhor amigo de Boca, e juntos, a dupla arma a maior confusão.
Toda essa galera passa um fim de semana em Buzios, o que acarretará mudanças profundas na vida da garotada.
" Desenrola" é um belo filme de descobertas, e remete bastante aos filmes deliciosos de John Hughes dos anos 80. Alías, o filme presta uma homenagem a essa década, com Direção de arte e figurino meio retrôs, e trilha sonora que contém , entre outros, " Don´t you forget about me", do Simple Minds, ícone da época.
O elenco é recheado de belos talentos juvenis, todos com frescor da juventude, espontâneos e sem aquela forçação de barra televisiva. Ponto para a direção de Rosane Svastman, uma cronista de personagens cariocas, a quem ela trata com extremo carinho em seus filmes.
O filme é um antídoto aos filmes urbanos e violentos que tem surgido nas telas. Nada contra esses filmes, pelo contrário, mas sempre digo que deva haver uma diversificação de produtos para o público nacional.
Um filme gostoso de se ver, um belo passatempo, e que tem um público alvo não apenas os adolescentes, mas todos os que já foram adolescentes.
O porem fica em relação aos efeitos gráficos, que deveriam ter sido melhor explorados, e ser uma linguagem para o filme, como por ex, na cena do banheiro, com Boca lendo a agenda de Priscila.

Nota: 8

domingo, 9 de janeiro de 2011

A viagem do Balão Vermelho


" Le voyage du ballon rouge" , de Hou Hsiao Hsien (2007)

Filme patrocinado pelo Museu D`orsay, em Paris, pelos seus 20 anos de existência, " A viagem do balão vermelho" tem como referência o média-metragem " O balão vermelho", de Albert Lamorisse, um clássico do cinema infantil francês.
O filme narra o drama de Simon (Simon Iteanu) , menino de 7 anos, que vive com sua mãe Suzanne (Juliette Binoche), que trabalha como dubladora de teatro de marionetes. Ela é divorciada, e vive estressada, entre os afazeres domésticos, profissionais e ainda, tendo que lidar com o seu inquilino, que não paga o aluguel a meses. Suzanne resolve contratar Song ( Fang Song), uma babá chinesa que é cineasta, e está em Paris para rodar um curta sobre balões vermelhos.
Simon cria um mundo imaginário, onde um balão vermelho o acompanha pelas ruas de Paris, se tornando o seu único amigo. Simon vive isolado do mundo, tendo como companheiro domiciliar apenas o seu playstation, uma vez que a sua mãe raramente está em casa. A entrada em cena de Song vai transformando aos poucos o modo de Simon enxergar o mundo. Ele usa a filmadora dela, e vai questionando tudo o que vê ao seu redor.
O filme, como não poderia deixar de ser, linda com a fantasia , não só de Simon, mas dos outros personagens. Song quer ser cineasta e acredita em um mundo perfeito. Suzanne deseja a harmonia para a sua vida.
Hou Hsiao Hsien tem como um dos temas no seu filme, mostrar o contraste entre o mundo ocidental e o oriental. Enquanto os franceses são barulhentos, estressados, os orientais ( Song e um mestre de marionetes) são sábios, tranquilos, e enxergam virtudes na vida.
A delicadeza da narrativa é outro ponto forte na obra. Hou Hsiao Hsien faz parte da geração de cineastas Taiwaneses que fundaram a " Nova onda", filmes com forte teor realista.
Aqui, ele conta a sua história de forma extremamente lenta, as vezes tediosa. Seus planos são longos, a maioria em plano sequência. A camera de Hsien registra momentos de absoluto cotidiano. Momentos soltos, fragmentados.
A fotografia é linda, e a trilha sonora, tendo como base o piano, é sofisticada.
O roteiro brinca com o universo do cinema, através do personagem de Song, e também através de videos amadores que pertenciam ao pai de Suzenne.
Um filme de cinéfilos, que jamais entrou em circuito comercial , sendo exibido apenas em mostras e festivais.
O elenco está ótimo, e interessante notar que Hsiao Hsien usa o nome verdadeiro dos atores para chamar os seus personagens. O filme é quase que um registro documental da vida de tipos em Paris.

Nota: 7

Não me abandone jamais


" Never let me go " , de Mark Romanek (2010)

Drama de realismo fantástico baseado no livro de Kazuo Ishiguro, mesmo autor de " Vestígios do dia", transposto para as telas por James Ivory.
A história gira em torno da amizade de três amigos, em épocas distintas.
Em 1978, ainda crianças, na faixa dos 10 anos de idade, os 3 amigos se encontram em um internato, chamado Hailshan. Nesse lugar, as crianças ficam confinadas em um universo onde permanecem 14 horas dedicadas aos estudos e a arte. sem muito contato com os adultos, as crianças fazem parte de um mundo idealizado. Elas não podem sair da fronteira da escola, pois histórias foram contadas sobre fugitivos que foram encontrados mortos. Um dia uma professora nova chega ao local, e começa a estranhar tudo o que ela encontra. Até que ela descobre a terrível realidade: as crianças são clones, gerados para doar seus órgaos quando atingirem a fase adulta.
Essa revelação é feita para as crianças, e os 3 amigos mudam seu ponto de vista sobre tudo o que está ao seu redor, passando a questionar a razão da existência deles.
O tempo passa, e estamos em 84. Já pós adolescentes, os amigos são transferidos para uma colônia habitada pelos clones. Lá eles tomam conhecimento de que casais apaixonados tem sua vida útil estendida. Isso provoca nas duas amigas, Ruth e Kathy (Keira Knightley e Carey Mulligan) atritos, tendo Tommy (Andrew Garfield, o Eduardo de " A rede social" ) como motivo dos conflitos.
Já adultos, em 96, os três aguardam tensos a perspectiva sem futuro da doação dos órgãos, o que provocará a morte iminente deles.
Essa fábula sobre a vida e a morte, é belamente conduzida por Romanek, diretor de " Retratos de uma obsessão", com Robin Willians. Tem uma excelente fotografia, belíssima trilha sonora e uma narrativa lenta, que conduz o espectador ao universo idílico e assustador desses personagens.
A questão do poder sobre a vida e a morte de seres humanos me lembra bastante os andróides de " Blade Runner" , que passam por crises existenciais muito próximas aos desses clones. O filme discute o poder de alguns de decidirem quando uma pessoa deve deixar de viver,uma fábula mórbida sobre o poder fascista de governantes que controlam a vida de outros seres vivos, ditos " sem almas".
Andrew Garfield, Keira Knightley e Carey Mulligan estão ótimos, em performances contidas e envolventes. A veterna Charlotte Rampling faz uma participação como a diretora de Hailshan. O triste destino de seus personagens provoca uma tristeza e melancolia, captadas com muita sensibilidade por Romanek.
Na verdade, eu só aceitei esse filme após entendê-lo como uma fábula. Caso contrário, muitas questões poderiam ser elaboradas para dar veracidade a história.

Nota: 8

Bravura Indômita


" True Grit", de Joel e Ethan Cohen (2010)

Remake do filme homônimo de 1969, dirigido por Henry Hathaway e protagonizado por John Wayne, que ganhou o Oscar de atuação pelo papel do oficial beberrão " Rooster" Cogburn.
Os irmãos Cohen resolveram trazer o Velho Oeste de volta ao cinema americano, após esse gênero ter permanecido ausente por algum tempo no circuito.
Jeff Bridges incorpora o personagem do oficial meio bronco e polêmico, por ter a fama de matar os seus prisioneiros. O filme conta a história de Mattie Ross, uma menina de 14 anos que resolve se vingar do assassinato de seu pai, morto a sangue-frio por Tom Chaney (Josh Brolin). Ela resolve contratar os serviços de " Rooster", que a princípio não aceita, mas com a insistência da menina teimosa, acaba cedendo. Ela quer que " Rooster" mate o bandido. Paralelo, um pistoleiro texano, Labouef (Matt Damon), também procura o paradeiro do bandido, mas com a intenção de capturá-lo vivo, por um crime cometido na região do Texas. "Rooster" não permite que a menina o acompanhe, mas ela acaba arrumando um jeito de ir junto, pois pretende testemunhar a execução do serviço.
No caminho, o trio segue por um acampamento indígena, e conflitos surgem entre os três, até o iminente encontro com Tom Chaney e sua gangue.
É inegável a homenagem que os irmãos Cohen pregam ao cinema de John Ford, principalmente "Rastros de ódio". Planos gerais, mostrando toda a geografia da região. Cenas noturnas em volta da fogueira. A menina valente ( papel de Natalie Wood em " Rastros de ódio). A longa peregrinação pelo deserto.
A fotografia do mestre Roger Deakins (responsável tb por " Onde os fraocs não tem vez") é algo de espetacular: Cenas de neve, em torno da fogueira, sombreadas pelo contra-luz, são várias as luzes inesquecíveis que Deakins trabalha ao longo da narrativa.
A trilha sonora, evocando os épicos de Ennio Morricone, maravilhosa. A direção precisa, apesar de ser um filme de ritmo muito lento e as vezes cansativo.
O elenco brilha, sem exceção: Hailee Steinfeld, de 14 anos, em sua estréia cinematográfica, mostra que é uma das grandes apostas do cinema. Ela está bárbara com sua personagem difícil , a da menina teimosa e persistente. Jeff Bridges representa o papel do oficial beberrão, uma tarefa fácil, após o seu papel que lhe valeu o Oscar, do cantor Bêbado em " Coração louco". Gostei bastante, apesar de as vezes achar que ele está overacting.
Matt Damon interpreta um pistoleiro introvertido, e está quase irreconhecivel em sua caracterização. O time se completa com Josh Brolin, que só aparece lá pelo terço final, cumprindo com louvor o seu vilão.
É bom ninguém assistir ao filme com muita expectativa, pois podem se frustrar na esperança de assistir a mais uma obra-prima dos irmãos Cohen. É um filme correto, nostálgico, de muita competência técnica e boas interpretações. Ah, e não tem tanta violência gráfica como nos filmes anteriores dos cineastas. É um filme mais família, e não por acaso, o filme foi produzido por Steven Spielberg, que deve ter pedido pros manos segurarem a onda..hehee

Nota: 8

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Além da Vida


" Hereafter", de Clint Eastwood (2010)

Drama dividido em 3 histórias paralelas, que tem como tema em comum a vida depois da morte.
Na 1a história, Marie Lelay (Cecile de France, de " Alta tensão" e " Um lugar na platéia") é uma jornalista de férias na Tailândia. Ela está com seu namorado, o diretor de um programa de sucesso que ela trabalha como apresentadora. Famosa, ela descansa num hotel. Ao acordar, ela resolve passear na cidade. Porém, um Tsunami violento toma conta do local, e Marie se acidenta, sendo inclusive dada por instantes como morta. Nesse momento de quase morta, Marie mergulha em um mundo paralelo, e acredita ter visões de espíritos. Ao acordar do acidente, o mundo de marie não é mais o mesmo. Ao retornar para Paris, ela percebe que a percepção das coisas ao seu redor mudaram, e ela resolve escrever um livro sobre a sua experiência, indo contra as opiniões de seu editor e de seu namorado, que a consideram mentalmente insana. Aliás, a cena do Tsunami, logo no início do filme, é um dos pontos altos do filme. Extremamente bem filmada e realizada, cria um impacto muito forte, que permanece na mente do espectador por um bom tempo.
A 2a história é a dos irmãos gêmeos Marcus e Jason, em Londres. De personalidades distintas (Marcus é introvertido, e Jason é o inverso), moram com a mãe, viciada em heroína. Ela está para perder a guarda das crianças para a assitência social, quando um acidente mata um dos meninos. Marcus se encontra sem rumo, pois a vida toda ele viveu sobe o comando de Jason.
A 3a história é a de George (Matt Damon, em seu 2o trabalho com Eastwood, após " Invictus") dá vida a um vidente que abandona o seu dom, por considerar uma maldição para a sua vida. Por conta disso, ele se afasta das pessoas, e é uma pessoa solitária. Seu irmao tenta fazê-lo retornar a atividade de ler o futuro das pessoas, para ganhar dinheiro, mas George não concorda.
Interessante Clint Eastwood realizar um filme com a morte como tema, e ter uma mensagem otimista sobre uma vida após a morte. Até dá para entender melhor, uma vez que Steven Spileberg é o produtor exceutivo. Acredito que a idade (Eastwood completou 80 anos) foi fundamental para ele trabalhar com esse tema, porém é discutível a forma como é tratada no filme. A trama é forçada, da forma que os 3 personagens vão se interagir no desfecho ( algo chupado dos filmes de Inarritu). É longo, perde o ritmo muitas vezes ao longo da narrativa (ficamos com a impressão de ter várias " barrigas"). O desfecho é óbvio, e se torna melodramático. Apesar disso, reserva uma emocionante cena com o menino, com ótima atuação, na cena que o vidente lê as mensagens de seu irmão.
Trabalhar com o tema da vida após a morte sempre é algo que causa polêmica. E não é diferente aqui em " Além da vida". O que torna o filme memorável é a atuação dos atores, a excelência dos efeitos especiais e a delicadeza com que Eastwood trata do assunto, mesmo que a gente não dê muita credibilidade.
Vale ressaltar também a quantidade de merchandising inserido no filme: Google, Virgin, Blackberry, Youtube e várais redes de hotéis.

Nota: 8

127 Horas


" 127 hours", de Danny Boyle (2010)

Filme baseado no livro " Between a rock and a hard place", de Aron Ralston.
Ralston é um montanhista americano, e em 2003, ele foi fazer atividades nas montanhas de Utah. Após longa caminhada, envolvendo inclusive uma amizade fugaz com 2 montanhistas, Ralston se acidentou, caindo em uma fenda do canyon. Ao cair, uma pedra enorme se prende ao seu braço direito, o que o impede de se movimentar. Ralston , em princípio não acreditando em seu infortúnio, vai caindo na real e mantém a calma, apesar de momentos de desespero. De sangue frio, Ralston vai alternando momento de humor e de alucinações, devidamente registradas em uma filmadora que ele trazia consigo. Sua reserva de água e comida se esgota, e Ralston, em momentos de desespero, se apega a lembranças familiares, amizades e namorada, com quem rompeu recentemente. Ralston não tinha o hábito de avisar as pessoas próximas o seu paradeiro.
Em ato de completa valentia e desejo de viver, Ralston pega o seu canivete e corta o seu braço, conseguindo assim se livrar da pedra. Passou no Canyon 127 horas, daí o título do filme.
Impossível falar do filme e não comentar a atuação magistral de James Franco, que se entregou de corpo e alma ao personagem. É comovente a sua interpretação, alternando humores e desespero. A cena da amputação é de uma aflição enorme, (inclusive quando da exibição do filme no Festival em Toronto de 2010, muitos espectadores desmaiaram). Lembra muito cenas de qualquer filme de " Jogos mortais", mas sendo em contexto realista, é ainda mais chocante.
A direção de Danny Boyle não priva o espectador de ver a famosa cena, causando repulsa e nervosismo em quem assistir.
A edição é dinâmica, excelente. A fotografia e o trabalho de camera também beiram a perfeição. Existem planos que provavelmente foram misturados a computação gráfica (por ex, quando a camera sai do grito de Ralston, vai subindo pelo canyon até ganhar a magnitude da região, em plano aéreo.
A trilha sonora é fantástica, dando o tom certo para a narrativa.
Boyle trabalhou praticamente com a mesma equipe de seu vitorioso " Quem quer ser um milionário".
Na fotografia, Anthony Dod Mantle. No roteiro, a colaboração de Simon Beaufoy.
Na trilha sonora, o oscarizado A. R. Rahman.
Um filme poderoso, forte, tocante, que mostra a vontade de viver de um ser humano, que não se deixou levar pelo destino trágico.

Nota: 9

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O Vencedor


" The fighter", de David O`Russel (2010)

Drama dirigido por David O´Russel, mesmo diretor de " 3 Coroas" e " Huckabees", baseado na história real de " Irish" Mickey Ward (Mark Walhberg),e a sua relação com sua família e principalmente seu meio-irmão, Dicky Ecklund (Christian Bale).
Mickey ganhou o título mundial de peso leve e se aposentou em 2003.
O filme se passa na década de 80, e mostra a relação entre Mickey , sua mãe (Melissa Leo) e seu meio-irmão. De família pobre, Mickey é divorciado e pai de uma filha adolescente. Ele procura ganhar a vida como lutador, inspirado em seu irmão mais velho, que foi um lutador famoso e venceu uma luta importante. Porém, a fama trouxe também o mundo do crime e drogas para Dicky, que acaba se tornando viciado em crack.
Dicky é o treinador de Mickey, e entre um treino e outro, se afunda nas drogas e nas más companhias. A mãe dos dois gerencia a carreira de Mickey, mas a sua postura arrogante e egoísta é um obstáculo para o sucesso do filho. Mickey conhece uma garçonete em um bar, Charlene (Amy Adams), e a relação dois dois provoca atritos entre a mãe e o irmão de Mickey, uma vez que ela o faz enxergar o quanto os dois estragam a sua vida e a sua profissão.
Mickey se vê dividido, e entra em crise, ao mesmo tempo que procura agradar a todos.
" O Vencedor", mais do que um filme de boxe, é um filme sobre a amizade entre esses dois irmãos, e a luta de ambos para sobreviver em um mundo cruel e competitivo, que leva uma pessoa do sucesso á bancarrota num piscar de olhos.
O ponto forte desse filme é sem dúvida alguma a atuação brilhante do elenco, a começar pro Christian Bale, que mais uma vez, emagreceu para compôr o seu personagem. Aliás, ele foi a terceira escolha para o papel, atrás de Brad Pitt e Matt Damon, que não puderam por problemas de agenda. Mas vendo o filme, fica impossível pensar em outro ator que não Christian Bale, assustador no seu papel. Me surpreendeu a sua entrega ao personagem, é algo monstruoso. Até chorei na cena final, de tão cativante que é o seu Dicky. Fica impossível fazer qualquer crítica a personalidade do seu personagem. É uma figura extremamente humana, sujeita a falhas.
Melissa Leo e Amy Adams, estão também formidáveis, e aqui Amy Adams explora um universo até então desconhecido de seu público, em um personagem realista e crú.
Mark Walhberg, produtor do filme, levou anos para poder levantar esse projeto, e deve estar muito orgulhoso. A sua performance também é elogiável, apesar de ofuscado pelo brilho dos coadjuvantes. O elenco de apoio também está ótimo, com destaque para a caracterização das 6 irmãs de Mickey e Dicky.
Curioso é ver o nome do cineasta Darren Aronofsky como Produtor executivo do filme.
O Título do filme, " O Vencedor", tem mais a ver com a vitória de seus protagonistas na batalha da vida, do que na luta, propriamente dita.
Excelente trabalho de cãmera, fotografia e trilha sonora.
Um filme obrigatório para quem gosta de filme de personagens. Emocionante é a palavra que descreve esse filme. Eu particularmente não gosto de boxe, mas incrível como esse esporte trouxe tantas obras-primas para o cinema: Touro indomável, A menina de ouro...e filme bons como O campeão e Rocky, um lutador.

Nota: 9

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Route Irish


" Route Irish", de ken Loach (2010)

Exibido no Festival de Cannes 2010, " Route Irish" despertou opiniões bem distintas entre os críticos. Uns alegaram que Loach se vendeu ao cinema comercial, outos que Loach repete sempre o mesa tema de forte teor político.
O filme narra o drama de Fergus (Mark Womack), ex-integrante das Forças especiais que foi deportado do Iraque, e que mora em Londres. Ele fazia parte de uma grande Indústria belicista que fornece armas para a Guerra do Iraque. Seu melhor amigo, Frank, morre em uma emboscada na Route Irish, estrada de 12 km de extensão, que liga a Zona Verde ao Aeroporto de Bagdá, considerada a estrada mais perigosa do mundo. Fergus se sente culpado pela morte de Frank, uma vez que foi ele quem o forçou a se inscrever como combatente na Guerra, para ganhar dinheiro. A viúva e a família de Frank viram as costas para Fergus, o responsabilizando pela morte dele. Porém, Fergus resolve investigar a morte do amigo, e aos poucos, vai descobrindo que a emboscada na verdade pode ter sido planejada pelos poderosos da indústria. Fergus recebe uma encomenda de Frank, enviada antes dele morrer, contendo um celular. Nesse celular existe um vídeo com uma gravação de um massacre provocado por soldados ingleses contra civis iraquianos. Frank ameaçou delatar seus colegas de pelotão, e Fergus acredita que esse tenha sido o motivo do assassinato do amigo. Fergus conta com a ajuda da viúva e resolve atacar os poderosos da Indústria. Existe uma sub-trama que envolve Fergus e a viúva, e descobrimos que havia entre os dois uma relação mal resolvida.
O filme tem um roteiro excelente, intricado. Dessa vez, Loach prega um filme de ação, diferente de seus outros filmes, mais intimistas, com forte dose de suspense. O desfecho é sensacional, e o filme reserva uma cena de tortura realmente chocante, filmado de forma bem realista. Para conseguir informações, Fergus se utiliza de um tratamento de tortura usada por soldados, que consiste em amarrar a vítima numa maca, colocar um pano em seu rosto e jogar água constantemente por sobre o nariz, o que impede a vítima de respirar.
A fotografia , em tons escuros , traz um clima melancólico ao filme, constrastando com as cores quentes do Iraque. A trilha sonora é envolvente.
O elenco, encabeçado por Mark Womack, traz atuações muito fortes, provando a excelência da direção de atores de Loach.
Loach é conhecido por deixar os atores improvisarem seus diálogos, ele sugere umas frases e os próprios atores as controem. Esse despojamento é a receita da naturalidade das atuações.

Nota: 9

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os bebês


" Bébés/Babies" , de Thomas Balmès (2010)

Sofisticado e delicioso documentário dirigido pelo francês Thomas Balmès, que durante 1 ano, acompanhou o nascimento e o desenvolvimento dessas crianças no seu habitat.
São 4 países, 4 culturas completamente distintas. Temos os gêmeos da Namíbia, o menino da Mongólia, a menina japonesa (Tokyo) e a menina americana (São Francisco).
O filme mostra como a cultura e o meio ambiente podem desenvolver personalidades diferentes nas crianças e na sua forma de ver o mundo.
Na Namíbia, numa tribo africana, a mãe cria seus gêmeos de forma mais solta. Eles ficam livres para descobrir a vida, mexem na terra, não tem contato algum com a tecnologia. Se socializam com outras crianças, e criam sua independência mais cedo.
Na Mongólia, o bebê disputa seu espaço numa casa no campo com seu irmão mais velho, que morre de ciúmes da atenção dada ao novo morador. O irmão mais velho prega muitas peças para sacanear o bebê, que acaba sendo se dando bem nas situações. Tem uma cena antológica, do bebê numa bacia tomando banho, e chega uma cabra , que bebe água da bacia.
Em São Francisco, os pais da bebê a envolvem com todo o carinho possível, não se desgrudando dela em nenhum momento. A mãe lê livros, a menina é rodeada de cultura.
Em Tokyo, a bebê também é observada o tempo todo pelis pais. Curioso notar que na sociedade japonesa, os pais fazem curso para poder ampliar os seus horizontes no que diz respeito a lidar com outro ser humano, como se o dia a dia estressante da cidade fizessem os moradores se tornarem tipos autômatos. A tecnologia também se faz presente, através de brinquedos e computador.
O filme é fragmentado, e não segue uma linha narrativa. Como observadores, e curiosos, ficamos encantados com esse filme mágico. Muito interessante notar que, independente da cultura, as reações, os gestos dos bebês são idênticos. O filme parece querer dizer " como seria maravilhoso se todos os seres humanos pudessem ser como esses bebês, sem ódio, sem violência, sem preconceitos, sem diferenças sociais".
É curioso notar como os animais são fundamentais para as crianças. Em todas as histórias, os bichanos estão presentes, se misturando ao cotidiano delas.
O filme é belisssimo, com fotografia deslumbrante, trilha sonora sublime, e acompanhamos com muito prazer e alegria as situações do cotidiano. Me lembrou bastante "MARCHA DOS PINGUINS", pelo sensibilidade que é realizado esse documentário.
São 79 minutos de puro deleite e graciosidade. Fico imaginando o tempo e a paciência que os câmeras tiveram para poder captar cenas tão maravilhosas e únicas.
Atenção: esse filme não é recomendado para quem não gosta de fofuras e bebês.

Nota: 9

domingo, 2 de janeiro de 2011

Cela 211


" Celda 211", de Daniel Monzón (2009)

Drama baseado em livro homônimo, é uma co-produção França/Espanha, e venceu 8 prêmios Goya em 2009, entre eles o de melhor filme, competindo com " Abraços partidos " de Almodovar e "Agora" de Almenabar.
A história gira em torno de Juan (Alberto Ammann), um jovem carcereiro, que resolve visitar a prisão aonde ele irá trabalhar no dia seguinte. Juan deixa sua amada esposa grávida de 6 meses em casa, e mesmo contra a vontade dela, ele visita a prisão apenas para conhecer suas instalações.
Para o seu azar, ele se machuca durante a visita. Fica inconsciente. Seus colegas carcereiros o deixam na cela 211, e nesse momento, explode um motim, na área mais barra-pesada da prisão, comandada por prisioneiros de alta periculosidade. Os carcereiros o abandonam a própria sorte, e ao acordar, Juan percebe que está em maus lençóis. Esperto, percebe que para sobreviver ali dentro, tem que se passar por um preso. Se livra de todas as evidências que possam provar que ele é um funcionário. O líder do motim, Malamadre (Luis Tosar) em princípio desconfiado, faz de Juan seu companheiro de motim, o que provoca ciúmes em Apache (Carlos Bardem, irmão de Juan Bardém). Cria-se um forte laço de amizade entre Juan e Malamadre. Os diretores do presídio percebem que Juan se faz passar por preso, e tentam a todo custo livrar ele e outros reféns, sem que os presos percebam. Paralelo, temos a história de Elena, esposa de Juan, que vai até a prisão para saber notícias do marido.
Contar mais detalhes da trama seria entregar as reviravoltas de roteiro. O que esse drama carcerário propõe, é mostrar traços de lealdade e amizade entre personagens tão distintos como Juan e Malamadre, que se sensibiliza com o drama da esposa grávida do novo companheiro.
O filme quer também fazer uma denúncia contra o sistema carcerário e a corrupção na esfera do Governo. Diferente de " Um sonho de liberdade", " Cela 211" quer fazer um registro da crueldade que existe nos dois pólos da prisão: os que estão dentro, e os que estão fora. A traição pode vir de qualquer lado.
Um excelente trabalho de cãmera, edição dinâmica e som rítmico. Poderia ser uma produção de Hollywood, o que aliás acontecerá, já que os direitos de refilmagem já foram adquiridos. Resta saber se os americanos irão preservar o triste desfecho da história.
Um ponto alto do filme é a performance dos 2 atores principais, envolventes em sua estranha e humana amizade, trabalhando a difícil construção dos personagens, que varia conforma a dança.
O filme , apesar de dramático, é ação pura: já começa na adrenalina desde o seu começo.
Está na lista dos 10 mais de 2010 do crítico Roger Ebert

Nota: 8

O Pai das minhas filhas



" Le pére de mes enfants/Father of my children", de Mia Hansen Love (2010)

Drama baseado em história real, teve como inspiração a vida do produtor de cinema francês Humbert Balsan. Balsan produziu mais de 70 filmes, entre eles, filme de Claire Denis, James Ivory, Elia Suleiman ( o ótimo "Internevnção divina") e por último, co-produziu " Mandarlay", de Lars Von Triers. Balsan acreditava em filmes de arte, e lançava cineastas, tinha verdadeira paixão pelo cinema de autor. Porém, se afundou em dívidas, e acabou se matando em seu escritório, por enforcamento, em 2005.
" O pai de minhas filhas" prega essa homenagem a Balsan. Aqui, o personagem é vivido por Gregoire Canvel, produtor bem -sucedido, produziu mais de 5o filmes. Ele lança cineastas, acredita em fazer filmes por pura paixão pelo cinema, apesar dele mesmo não ter tempo de ver filmes. O filme começa com Gregoire dividido entre várias produções, entre elas um filme coreano, e um filme de um diretor sueco, no qual ele aposta todas as suas fichas, Stig Janson ( um alter-ego de Lars Von Triers). Esse filme , " Saturno" está saindo do orçamento, endividando cada vez mais Canvel. Mas crente no sucesso do filme, ele bota lenha na fogueira, pegando mais empréstimos em bancos . Stig é um diretor genioso, e arruma muitas confusões nas filmagens. Canvel é workaholic, e vive dividido entre o trabalho, que ele dedica 24 horas por dia ( não larga o celular: o prólogo do filme já mostra Canvel em sua vida cotidiana) e a vida pessoal. Canvel é pai de 3 filhas, e possui uma esposa amorosa, mas que reclama da falta de atenção da parte dele.
Todo fim de semana, a família passa féria snuma casa do campo, a 2 horas de Paris.
Porém, a situação financeira da produtora de canvel, a Moon filmes, vai se afundando cada vez mais, até parecer não ter mais saida. Canvel é otimista, e vai empurrando os problemas com a barriga. Quando a situação sai do controle, ele se suicida.
Aí estamos na metade do filme. A partir daí, dá-se inicio a peregrinação da esposa dele, Sylvia, em manter a produtora e os ideais do marido em dia. Sylvia se esforça, cumprindo o papel de produtora, sem jamais ter sido. Ao mesmo tempo, a filha adolescente, Clemente, reclama que sua mãe está indo pro mesmo lado que seu falecido pai.
" O pai de minhas filhas" é um drama poderoso, e me comoveu bastante. Claro, ter o universo dos bastidores do cinema para mim foi delicioso, me vi em várias situações semelhantes. Para o espectador mais leigo dessa vida infernal, parece que tudo é meio que uma jogatina. E é isso mesmo. As vezes se acerta, as vezes não. É um desespero total.
O elenco é o ponto forte desse filme: Louis-Do de Lencquesaing, no papel de Gregoire, é um ator excepcional. A sua composição da fragilidade do personagem, aliado a fachada de homem feliz e vitorioso, me comoveu bastante. E eu nunca havia ouvido falar desse ator. Chiara Caselli , que faz Sylvia, também mostra seu talento. E esse é o grande lance do filme, seu elenco é composto de nomes pouco conhecidos so cinema francês, o que me conferiu credibilidade.
A fotografia é linda, a trilha sonora também. Os créditos iniciais são maravilhosos, dando a idéia de que veremos um filme alegre. No desfecho, emblemático, a canção que sera, sera" é tocada, deixando em aberto a vida dessa família que caminha sem rumo na vida.
O filme tem um ritmo lento, que pode asssustar espectadores mais impacientes. E a inteligência do roteiro, que evita melodrama, focando no aspecto quase documental da vida da família após a morte do patriarca.
O crítico Roger Ebert o colocou na lista dos 10 filmes estrangeiros mais importantes de 2010.

Nota: 9

A vida acima de tudo


" Life above all", de Oliver Schmitz (2010)

Considerado pelo crítico Roger Ebert entre os 10 melhores filmes estrangeiros de 2010, " A vida acima de tudo" é uma emocionante viagem épica através da história da pequena Chanda.
Baseado em um livro, " Chandas secret"`, o filme narra a história de um vilarejo na África do Sul, devastado pela epidemia da AIDS. Os moradores vivem em um clima de tensão, e qualquer suspeita da doença em algum morador, cria uma verdadeira caça as bruxas.
O filme começa com a morte de uma bebê recém nascida, irmã de Chanda, nossa heroína. Chanda é ótima filha, excelente aluna na escola. O pai bêbado, acusa a esposa de matar a filha com leite envenenado. Os vizinhos suspeitam de aids, mas todos ficam em suspense. Até que um dia, a mãe de Chanda também cai doente. A vizinha Sra Tafa, sempre prestativa, sugere a Lillian, mãe de Chanda, a se exilar, abandonando sua família, e procurar ajuda em sua cidade Natal. Porém, a própria mãe de Lillian a rejeita, acusando-a de promíscua. Chanda desconfia desse exílio da mãe, e vai em busca dela, passando por uma peregrinação tortuosa. A sua melhor amiga, Esther, também uma menina, está contaminada, e Chanda se afasta dela, por preconceito. Esther se prostitui para poder sobreviver.
O filme é um belíssimo libelo contra o preconceito,e afirma que, mesmo hoje em dia, a AIDS é vista como morte certa em regiões da àfrica, por conta de falta de informação ou até mesmo por visão maligna da doença.
A sra Tafa tenta de tudo: feitiçaria, rezas. Somente no fim, Chanda a convence de levar sua mãe para um médico.
Poucas vezes me emocionei tanto em um filme. O elenco, poderoso, tem nas interpretações de Khomotso Manyaka como Chanda, e Keaobaka Makanyane, como Esther, duas das atuações mais vibrantes e comoventes que já vi recentemente. O elenco adulto também está ótimo.
A fotografia é outro trunfo do filme: estilosa, variando entre o quente e o frio, com composiçãoes de enquadramento absolutamente belas. A trilha sonora é divina, evocando melodias da região.
O filme tem muitas cenas antológicas: a dança de Chanda com moradores da região em uma festa; o surgimento de seu pai moribundo após estar totalmente destruído pela bebida; a cena de Esther se prostituindo na rodoviária. e a comovente cena do reencontro de Chanda com sua mãe abandonadda.
Uma obra-prima que deve ser visto por todos, emocionando todos os corações duros de preconceito.

Nota: 10

Prata esquecida


"Forgotten silver", de Peter Jackson e Costa Bostes (1995)

Esse falso documentário é uma pequena jóia do cinema, que eu confesso, jamais havia ouvido falar. Recentemente é que tomei conhecimento, através de um bate-papo entre amigos cinéfilos. Um buraco negro na minha vida de cinéfilo.
" Prata esquecida" é um Mockmentary, ou seja, um falso documentário todo projetado para dar a impressão ao espectador de que estamos vendo algo real.
O filme é apresentado pelo próprio Peter Jackson, que afirma ter descoberto latas esquecidas de filmes 35 mm num velho depósito na casa de uma senhora, chamada Hannah Mackenzie. Ela foi casada com Colin Mackenzie, que Jackson, assustado, descobre ser o autor dos filmes esquecidos.
Jackson manda então restaurar os filmes,e aos poucos, somos apresentados a vida de Colin Mackenzie, um grande revolucionário do cinema Neo-Zelandês, que morreu na obscuridade.
Colin era filho de agricultor, mas sempre teve interesse por mecãnica. Até que ele inventa uma cãmera capaz de registrar imagens em movimento.
Colin foi pioneiro em muitas tecnologias do cienma, mas por infortúnio, ou ele ia preso, ou ele devia uma fortuna, o que impossibilitava dele ficar famoso. Criou o registro sonoro direto em 1908 ( o filme tinha atores chineses, e quando exibido para o público, foi um fracasso, pois ninguém entendia nada da lingua. Colin não tinha ainda idéia de legendas); criou o negativo colorido em 1911, através de plantas exóticas colhidas em uma ilha. Mas foi preso, pois nesse material colorido filmado, havia imagem de uma india desnuda. Ele foi preso por atentado ao pudor.
Colin foi responsavel também por fazer um registro documental de um primeiro vôo de protótipo de avião, antes mesmo dos irmãos Wright, mas esse material nunca foi exibido. E por aí vai: inventou a pegadinha; inventou o travelling, concebeu o close-up; foi pioneiro na elaboração do primeiro longa-metragem neo-zelandês, uma versão de " Salomé". Só que o filme teve muitos percalços, sendo filmado por anos a fio, parando sempre por motivos financeiros. Peter Jackson , através de uma expedição, descobre o paradeiro das latas do filme , e ainda descobre a cidade cenográfica erguida para as filmagens.
O filme é muito divertido, e o mais hilário, é levado a sério. Inclusive, vários diretores, atores e produtores do main stream são entrevistados, para dar veracidade a história, entre eles o ator Sam Neil e o produtor Harvey Fienstein, da Miramax.
Jackson filmou todas as cenas creditadas a Mackenzie, e pelo visto, esse filme de 52 minutos deu muito, mas muito trabalho. Não foi apenas uma brincadeira de galera de cinema, e sim, um filme sério que no final das contas, homenageia o cinema neo-zelândes.
Imperdível para amantes do cinema.

Nota: 8

A mulher sem piano


" La mujer sin piano", de Javier Rebollo (2010)

Drama espanhol, participou do Festival de Berlin em 2010.
Narra a história de Rosa, uma depiladora, que mora com seu marido, um taxista bronco. Rosa já beira os 50 anos, e até entao, viveu para servir ao seu marido e ao seu trabalho. Sua vida é completamente vazia, não se comunica com seu marido, com quem apenas troca olhares. Ela é pontual em tudo, sua vida se tornou mecânica. Estamos em 2003, um período histórico : o primeiro-ministro português se encontra com políticos estrangeiros, exigindo que Saddan Hussein entregue armas nucleares. Diante desse mundo aonde Rosa não se encaixa, definitivamente, ela resolve tomar uma atitude na vida. Rosa de olha no espelho, e o que vê é um futuro infeliz: sem amor, sozinha, velha. Após seu marido se deitar, Rosa bota uma peruca, pega sua bolsa e sai de casa. O filme então acompanha a peregrinação de Rosa pelas ruas noturnas de Madri. Ela pega um ônibus, sem destino. Dorme no ônibus.
Não esperem tipos ou situações Almodovarianas aqui. O universo de Rebollo é de total desilusão. O seu humor deriva do estranhamento, do patético da vida cotidiana, sem sentido.
Rosa perambula por hotéis, bares, até chegar na estação rodoviária. Rosa não sabe o que fazer da vida, apenas não quer retornar para casa. Ela costantemente liga para o celular de seu marido, que sempre cai na caixa postal. Ele nem ao menos percebe o sumiço dela, o que a deixa magoada.
Na estação, Rosa conhece Rodek, um jovem polonês, metade da idade de Rosa, que ela descobre ser um foragido da Polônia. Ele está devendo ao fisco, e apenas aguarda o momento de poder voltar ao País e ser preso. Rosa e Rodek mantém uma forte afeição um pelo outro, e juntos, passarão por várias situações dramáticas e divertidas, porém sempre tristes em suas vidas, não conseguem consumir nenhum atitude mais radical para a vida deles. Rodek é obssessivo, e adora consertar aparelhos quebrados. Rosa decide então viajar para a Polônia com Rodek. Mas o destino fala mais forte, e Rosa encontra-se num dilema.
A direção de Rebollo é bem interessante. A sua narrativa é bem lenta, alternando longos planos fixos com longos travellings descritivos. É um filme que flui devagar, com um olhar distanciado. Os atores estão excelentes, em especial Carmen Machhi, no papel de Rosa. Ela trabalha com muita inteligencia o dificil papel da frustrada Rosa, mas jamais deixando cair na caricatura da mulher infeliz. A fotografia é escura, favorecendo a vida noturna triste de Madrid menos efervescente. A trilha sonora é boa, o roteiro sempre surpreendente. Curioso aqui é a linguagem que Rebollo usa para a figuração. Geralmente, em qualquer filme, quando acaba a cena com a figuração, eles somem de cena. Aqui, Rebollo faz diferente. Quando acaba a cena do figurante, Rebollo estende a cena com a participação dele, deixando o protagonista de lado. É um recurso muito interessante, que reforça o vazio da vida das pessoas,que é o tema principal do filme.
A cena final é emblemática. Eu indiquei esse filme para vários amigos cinéfilos, mas a maioria não gostou. O que prova que essa deliciosa iguaria espanhola não atende a todos os espectadores.
O filme me lembrou bastante de " Shirley Valentine", por conta do tema da mulher insatisfeita com a vida e decide tomar um outro rumo, e de " Rumba", por conta da quase ausência de diálogos.

Nota: 8

sábado, 1 de janeiro de 2011

Kaboom


" Kaboom" , de Gregg Araki (2010)

É muito difícil comentar sobre um filme como " Kaboom".
Exibido no Festival de Cannes na competição oficial em 2010, o filme ganhou muitos detratores. Gregg Araki é um cineasta que acho interessante, e considero o seu " Mistérios da carne" uma pequena obra-prima dos anos 2000. Seus temas invariavelmente giram em torno de sexo adolescente, perversões, alienígenas, conflitos familiares, vida mundana.
Aqui em " Kaboom", não é diferente. A história, até onde deu para entender, é sobre Smith, um jovem de 18 anos que sai de casa e vai morar na faculdade. Ele divide o quarto com um jovem surfista, com quem ele nutre um incrível tesão, e responsável por muitos sonhos eróticos. Smith é bi, e mantém relações com homens e mulheres. Sua melhor amiga, Stella, está tendo um caso com uma outra aluna, envolvida com bruxarias e seitas malignas. Smith tem tido pesadelos recorrentes, que remetem a um mundo futurista, e ele não sabe o que pode significar.
Em seu caminho, surgem tipos estranhos e bizarros: um homem que prevê o fim do mundo, uma aluna que Smith acredita ter sido assassinada por um grupo fanático, e pior, acredita que alienígenas estão por invadir a terra.
O filme pode ser dividido em 2 partes: a primeira, lógica, mostra uma comédia adolescente sobre descobertas sexuais. A segunda parte, totalmente sem pé nem cabeça, é uma junção de filme de terror, ficção científica e comédia involuntária. As resoluções que vão surgindo na narrativa é de pirar qualquer cinéfilo bem intencionado. Parece que deram o roteiro para alguma criança viciada em games escrever, ou deram ácidos dos mais violentos para os roteiristas. É uma piração total, que envolve fim do mundo, grupo anti-alienígenas, e uma seita que quer destruir o mundo. E isso inclui até o pai do protagonista da história.
No meio do filme, comecei a não gostar de nada. Acho que faltou eu ficar doido, como os personagens e os roteiristas, talvez eu entrasse na onda. Mas sóbrio, fica praticamente impossível de acompanhar. Uma das experiências mais bizarras que já tive em cinema, só encontrando paralelo recentemente com " Glória de um cineasta", de Takeshi Kitano, outra bizarrice.
Ponto positivo para o elenco, que aceitou embarcar nessa maluquice toda, acreditando em seus personagens e em seus desdobramentos.

Nota: 5

O louco amor de Yves Saint Laurent


" Yves Saint Laurent et Pierre Bergé : L´amour fou", de Pierre Thoretton (2010)

Documentário que abrange os 4o anos de relacionamento entre o famoso estilista francês Yves Saint Laurent e seu companheiro Pierre Bergé.
Bergé narra o filme do início ao fim, fazendo aqui uma espécie de sessão de terapia para exorcizar o difícil relacionamento que manteve com YSL.
O documentário é minucioso em detalhes do relacionamento: fala da ascenção de YSL, que aos 21 anos, assumiu a direção da casa de Cristian Dior, após sua morte. Bergé, amigo de Dior, conheceu YSL no velório de Dior. Depois, se conheceram melhor e construíram aí a sua parceria, que envolvia amor e negócios. YSL foi convocado para a luta armada na Guerra de Argélia, e acabou sendo demitido da Dior. Abriu então em sociedade com bergé a casa que seria famosa por mais de 4 décadas, e que instituiu novos padrões do vestuário feminino no mundo: A Yves Saint Laurent Couture House, que fez sucesso desde a sua primeira coleção, em 62. A partir daí, os 2 só conheceram sucesso e fama, se tornando amigos de celebridades mundiais: Andy Warhol, Rolling Stones, Catherine Deneuve, Miterrand, etc. YSL foi responsável também pela popularização do Pret A porter, figurino mais barato e " usável" pelas mulheres, pois até então a Alta costura era inacessível e até mesmo difícil de ser usado no dia a dia.
Porém, fama e suceso não trouxe felicidade para YSL, e sua relação com Bergé ficou bastante desgastada já no inicio dos anos 70. Compraram várias casas pela Europa e em Marrakesch , no Marrocos: refúgios onde YSL poderia tentar buscar o isolamento que ele tanto pregou, apesar de fazer parte do jet set europeu. Amigo de intelectuais, YSL conheceu as drogas e o alcool nos anos 80, o que afastou de vez Bergé de sua vida amorosa. Mas Bergé continuou como seu parceiro nos negócios e a voz da consciencia.
Em 2002, YSL anunciou a sua retirada do mundo da moda, em um evento que trouxe Catherine Deneuve entre as anfitriãs. Em 2008, morreria de câncer.
Bergé expõe por inteiro a vida pessoal de YSL, que sempre foi discreto: sua relação com drogas, sua depressão, mau humor, paixão pelas artes. Talvez YSL não gostasse de ter sua vida aberta para o grande público. Pior ainda, foi a decisão de Bergé de leiloar todo o acervo de obras de arte colecionadas por YSL durante toda sua vida: A Chrsistie`s foi responsável pelo leilão, considerado o mais lucrativo da história: 370 milhões de euros arrecadados.
Hoje em dia, Bergé dedica a sua vida na luta contra a AIDS, sendo presidente de uma ONG que luta contra a doença, e é responsável tamém pelo acervo do estilista.
O documentário tem um tom de tristeza, evidente na narração melancólica de Bergé. percebemos a paixão que ele nutria pelo estilista, que infelizmente, preferiu o isolamento e a depressão como condutoras de sua vida pessoal. Apesar disso, o filme é longo, se arrastando em várias cenas narrativas, que mostram acervos, as casas. O acervo de imagens de documentários da época e as fotografias são o grande trunfo do filme.

Nota: 7

A Empregada


" Hanyo/The housemaid", de Sang Soo Im (2010)

Drama da Coréia do Sul, participou da competição oficial em Cannes 2010.

" A empregada" é um drama erótico, de forte conotação social. É refilmagem de um longa homônimo de 1960.
Uma fábula sobre ricos e pobres, e a extrema diferença social e cultural que desaba sobre eles.
Eun Yi é uma jovem que aceita o emprego de babá/empregada na casa de uma milionária família. Ela faz uma entrevista com uma governanta que trabalha na casa deles e é admitida. Chegando lá, ela observa de imediato o enorme abismo que existe entre o Universo dela e o daquela família. Lindos, milionários, bem vestidos, cultos. Tudo isso envolve Eun Yi em um imaginário de admiração pelos habitantes daquela mansão. A família se consiste no Patrão, a patroa e a filha pequena deles. O patrão é um homem bonito e charmoso, que seduz Eun Yi. Os ricos são apresentados como donos do mundo, que não medem esforços para conseguir o que querem. Uma noite, o patrão vai até a cama de Eun Yi e transam. Passa-se o tempo, ela se descobre grávida. Quando a patroa descobre, se junta á sua mãe e exigem que Eun Yi faça o aborto. Ela reluta, e deseja manter a criança a qualquer custo. Temendo que a empregada exija dinheiro, a patroa e a mãe arquitetam um plano maquiavélico.
Esse exemplar de drama erótico coreano causou aversão quando de sua exibição em Cannes. Muitos críticos o desprezaram, o considerando um melodrama de baixo nível.
O roteiro é interessante porquê surpreende, ele vai percorrendo vários gêneros, e em um momento, o espectador acha que vai assistir um suspense Hicthcockiano. Os atores são bons, com destaque para a atriz que interpreta Eun Yi e a senhora que interpreta a Governanta, quase uma inspiração de " Rebecca", de Hithcock ( a governanta de intenções pouco claras).
O que faz o filme perder seu rumo é a sua parte final, justamente a resolução da vingança de Eun Yi. Ficou bizarro, e não condiz com o filme que estávamos assistindo até então. De qualquer forma, é um filme que vale ser visto, seja pelo seu tratamento técnico, impecável ( fotografia, direção de arte, figurino, som) quanto pela cinematografia coreana, sempre ousada e inventiva.
Um filme classudo, elegante, e que me deixou grudado na tela o tempo todo. Pena que o desfecho bote o filme a perder. Aliás, a obscura cena final está aberta a interpretações.

Nota: 7

Incontrolável


" Unstoppable" de Tony Scott (2010)

Drama de ação dirigido por Tony Scott, aqui repetindo dobradinha com Denzel Washington, com quem já trabalhou em " Sequestro do trem 1,2,3" e " Chamas da vigança", ambos também filmes de ação.
Assim como em " Sequestro do trem 1,2,3", " Incontrolável" tem o trem como fio condutor da narrativa.
Aqui, no caso, uma história real acontecida na Pensilvania em 2001, sobre um trem carregado de material tóxico que por imprudência de funcionários, saiu desgovernado.
Tony Scott dramatiza essa história, juntando um engenheiro veterano (Denzel Washington) e um jovem condutor, em seu primeiro dia de trabalho (Chris Pine) como colegas de trabalho. Eles conduzem em trem carregado de vagões. Porém, em seu caminho, surge um comboio de vagões desgovernados, que segue em direção a uma cidade, carregado de material explosivo. O comboio está sem cundutor, e segue em alta velocidade. A dupla resolve então interceptar esse comboio, arriscando as próprias vidas. Para dar mais emoção e humanidade a história, e não ficar restrita a ação, Scott espertamente colocou seus personagens em conflitos familiares. Will (Cris Pine) está em crise com sua esposa, que não quer mais vê-lo. Frank (Denzel) é viúvo, e tem duas filhas adolescentes. É aniversário da caçula, e por Frank ter esquecido da data, ela não o perdoa. A dupla também enfrenta o seu conflito: A diretoria da empresa forçou a aposentadoria de Frank, que acha que Will está tomando seu espaço. Assim, ao longo da narrativa, todos se sensibilizam com o heroísmo da dupla e resolvem voltar atrás em seus dramas, culminando no inevitável final de redenção.
Fechando o trio principal do filme, Rosario Dawson interpreta Connie, a chefe da estação ferroviária que ajuda os dois na empreitada suicida. Os três estão ótimos e cumprem com eficiência os seus personagens.
O filme é bem dirigido, como não poderia deixar de ser: muitos planos recheados de ação, edição dinâmica, trilha sonora pulsante, fotografia e cãmera vibrantes. O filme não perde tempo, e logo no início já dá a entender a sua função: é um filme de entretenimento. Já começa na ação, sem deixar o espectador parar para pensar muito, já que essa não é a sua intenção. Lá pelo meio o filme perde um pouco de ritmo, fica repetitivo ( afinal, filmes com um plot apenas não tem mais o que falar, né? Vide " Velocidade máxima", seu parente mais próximo).
Ao final da projeção, fica apenas a impressão de ter passado 2 horas em completo estado de suspensão. E assim, o filme cumpre exemplarmente seu papel de passatempo.

Nota: 7

A Árvore


" The tree/L´arble", de Julie Bertucelli (2010)

Filme de encerramento do Festival de Cannes 2010, " A árvore" é um drama baseado em um livro, " Our father who art in the tree".
Um filme dirigido por uma mulher, Julie Bertucelli, que tem como foco principal atingir um público feminino que se identifique com a força e a luta de uma mulher viúva em criar seus 4 filhos. Julie dirigiu também o ótimo " desde que Otar partiu", belo drama familiar.
A família O´neill vive no interior da Austrália, em uma casa pré-fabricada. Do lado da casa, existe uma enorme figueira.
O marido, voltando para casa, acaba tendo um infarto e morre. A viúva entre em profundo estado de depressão, deixando seus 4 filhos à mercê da sorte. Até que um dia, Dawn (Charlotte Gansbourg) resolve tomar coragem e vai procura de trabalho. Conhece George, dono de uma loja aonde Dawn vai trabalhar, para sustentar a família. Os dois acabam se envolvendo, a contra-gosto de filha pequena de 8 anos, Simone, que acredita que seu pai reencarnou na figueira ao lado de sua casa. Ela todos os dias conversa com a árvore e dorme nela às vezes. A árvore passa a se tornar uma ameaça, pois invade a casa, e George avisa que devem derrubá-la, antes que ela destrua a casa. Simone se interpõe à decisão, e faz de tudo para evitar o abate.
" A árvore" é um filme que pega o espectador pela emoção. Seus personagens são sensíveis, e agem por impulso. O filme tem um clima suave, narrativa que flui lentamente. A fotografia e trilha sonora são excelentes. A interpretação de Charlotte Gansburg é ótima, percorrendo várias emoções diferentes, mas sem apelar para histrionismo ou emoção barata. Não chega à força de sua personagem em " Anticristo", pelo qual ganhou prêmio em Cannes, mas é pungente.
As 4 crianças são bem defendidas pelo elenco mirim, principalmente Morgana Davies, que interpreta o difícil papel de Simone, uma menina birrenta e teimosa, que não gosta do envolvimento de sua mãe com George, e deseja que ela preserve a memória do seu pai.
Um bom filme, narrado em tom de fábula, e que agradará os espectadores que buscam um drama de superação da dor e a busca por nova vida.

Nota: 7

Nosso fantástico século XXI


"Neowa naui 21 segi/Our fantastic XXI century", de Ryu Hyung-ki (2010)

Drama da Coréia do Sul, sobre uma jovem, Soo Yung, que trabalha em um supermercado e mora com seu namorado camelô em um pequeno apartamento no subúrbio. O sonho de Soo Yung é se tornar estilista, e para isso, ela quer fazer uma lipoaspiração. Mas ela não tem recursos para a cirurgia. Resolve então entrar no sistema operacional do supermercado, promovendo promoções, e em cima dessa armação, ela ganha dinheiro. Aos poucos, ela começa a juntar dinheiro, e guarda tudo em casa. Um dia, seu namorado desaparece, e o dinheiro sumiu. Para piorar a situação, a gerente do mercado descobre a farsa de Soo Yung, e para não denunciá-la, a chantageia. Desesperada, ela recorre a um agiota. Que também passa a abusar dela.
Dito assim, o filme parece um dramalhão mexicano. Mas está longe disso, a heroína da história é uma sofredora, mas tenta sempre buscar alternativas para se levantar. O roteiro vai levando o espectador a uma narrativa envolvente, trazendo surpresas ao longo da história. É um filme seco.
É bem baixo astral, triste, e com um registro quase documental, distanciado, o que torna a experiência de assistir ao filme mais sufocante.
Um filme de ritmo muito lento, fotografia escura. A música é praticamente ausente. Os atores são bons, Bo Eun Choi no papel de Soo Yung está ótima. Mas é um filme para cinéfilos, de dificil digestão para o público de uma forma geral. Participou do Festival de Berlin em 2010.

Nota: 7