segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Amor, palavra prostituta

"Amor, palavra prostituta", de Carlos Reichenbach (1982) Considerado pelos críticos o seu melhor trabalho, o filme foi escrito por Carlão (apelido de Carlos Reichenbach) e Inácio Araújo, que na época também foi assistente de direção ( Inácio hoje em dia é colunista da Folha de São Paulo). Lançado em 1982, "Amor, palavra prostituta" foi mutilado pela censura, pelo seu forte teor erótico e por ter como temas principais a questão do aborto ( um verdadeiro tabu na época), e uma referência às mortes na ditadura. Fernando é um professor desempregado. Sem chances de conseguir emprego, ele é sustentado pela mulher, Rita, que trabalha como operária de uma fábrica de tecidos. O casal passa o final de semana com o amigo Luiz Carlos e sua namorada Lilita. Durante o passeio, eles descobrem um cadáver. Voltando para casa, Luis Carlos descobre que Lilita está grávida e a obriga a fazer um aborto. Rita, por sua vez, está sendo assediada por seu patrão. Bastante controverso, o filme é repleto de cenas de sexo e de nudez, e por conta disso, foi lançado na época como sendo um filme pornográfico, o que é uma pena. Por conta desse marketing errôneo, o roteiro do filme, inteligente e bem construído, ficou em segundo plano. O filme se divide em segmentos, cada um acompanhando um personagem. Essa estrutura era inédita no Brasil ( hoje em dia é um recurso comum dividir o filme em capítulos, vide os filmes de Lars Von Triers). É um filme melancólico, desesperançoso, que já mostrava um Brasil com um futuro distante, quase impossível na busca da felicidade. As reflexões acerca dos 4 personagens, na qual o espectador é convidado a entender a psicologia de cada um deles, o aproxima do existencialismo. Carlão era um cineasta cinéfilo, que venerava todo tipo de cinema: de A a Z. Assim, ele homenageia grandes clássicos durante o filme, como por ex, "Psicose", que está passando na tv. Provavelmente Antonioni também foi uma grande referência, principalmente na cena final, de Lilita e Fernando na cama. O filme tem sim defeitos: os atores são irregulares, tecnicamente é frágil ( fotografia principalmente). Mas esse era o charme de Carlão: seus filmes tinham essa estética "suja", marginal. Para quem não conhece sua obra, vale também assistir a "Os anjos do arrabalde" , "Falsa loira" e "Dois córregos".

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