terça-feira, 20 de novembro de 2018

Sonho Florianópolis

"Sueño Florianópolis", de Ana Katz (2018) Co-produção Argentina/Brasil, "Sonho Florianópolis" se passa nos anos 90, e é um filme com olhar feminino sobre a chegada da meia idade e o tédio decorrente de anos de casamento. Como se reinventar? Ainda dá tempo? O filme não oferece muitas respostas, mas oferece alguns momentos de felicidade e prazer durante as férias da família de Pedro e Lucrecia (Mercedes Morán (genial) e seus 2 filhos adolescentes, Julian e Flor. O casal está em cris no casamento, escolhe o aniversário de Lucrecia para poder passar umas semanas em Florianópolis e entender se é melhor se manterem unidos ou se separar definitivamente. Ambos são psicanalistas e convivem há 22 anos. Ao chegarem, conhecem o ex-casal Marco (Marco Ricca, impagável) e Larissa (Andrea Beltrão). Marco aluga uma casa para a família argentina. Em pouco tempo, os casas se misturam, diante da crise de ambos os casamentos. Durante todo o filme, fiquei me lembrando de "Shirley Valentine", filme clássico sobre a virada na vida de uma mulher de meia idade classe média. Lucrecia quer se reinventar, mas não sabe como. O filme acompanha com simplicidade, a rotina dessa família, em momentos de fino humor , drama e melancolia. A direção sutil de Ana Katz, que permite que os atores improvisem, e os tempos dos planos, deixam claro que o tédio da vida continua, mesmo que nas férias. O filme possui muitas cenas divertidas e diálogos deliciosos.

Todas as canções de amor

“Todas as canções de amor”, de Joana Mariani (2018) Cinema e música sempre andaram de mãos juntas, desde a época do cinema mudo. É mais do que óbvio que uma boa música traZ elementos diegéticos que traduzem os sentimentos dos personagens. Foi assim em filmes como “Ouça essa canção”, de Cacá Diegues, “ 9 canções”, de Michael Winterbottom e “ Alta fidelidade, de Stephen Frears. “Todas as canções de amor” são 2 filmes em um: tem o Musical amparado por uma seleção de músicas que falam de amor, que vai de Blitz, Cartola, Gilberto Gil, Marina Lima, Kaoma, Zeze de Camargo e Luciano. Essa é a melhor parte. Quando o filme parte para a história de dois casais, um nos anos 90 e outro nos dias de hoje, conectados ao mesmo apartamento, fiquei pensando: que gente chata! “White people’s problema “, diria um amigo meu. Gente bonita, rica, mal amada e irritante. Mas para me conectar a essa história, precisei me apegar ao clássico de Coppola, “Do fundo do coração”, e aí entender a proposta dessa galera. É um romance que fala sobre desilusão, falta de comunicação, liberdade, aceitação, e é claro, entender o significado da palavra Amor. Chico ( Bruno Gaglisso) e Ana ( Marina Ruy Barbosa) vivem nos dias de hoje e são recém casados que se mudam para um apartamento luxuoso em São Paulo. Lá, Ana, que quer ser escritora, encontra um aparelho antigo de som e uma fita cassete com o título de “ Todas as canções de amor”, editada por Clarisse ( Luiza Mariani), que viveu ali nos anos 90 com Ruy ( Júlio Andrade) e estão no fim de um casamento. O filme tem linda Fotografia de Gustavo Hadba, direção delicada de Joana Mariani e criativa montagem de Leticia Giffone que mescla os dois tempos. Mas faltou para ser perfeito, um roteiro que tornasse os personagens mais carismáticos. Juro que tive vontade de entrar na tela e dar na cara dos quatro protagonistas.

A distração de Ivan

"A distração de Ivan", de Cavi Borges e Gustavo Melo (2009) Premiado curta-metragem da Produtora Cavideo, vencedor de inúmeros prêmios, entre eles Melhor Curta no Festival de Amazonas e Festival Cine PE em 2009, além de ter concorrido no Festival de Cannes em 2010, é inspirado na infância de um dos Diretores, Gustavo Melo, que nasceu e cresceu em Brás de Pina, Bairro do subúrbio carioca, onde foi rodado o filme. A Brás de Pina retratada pelo filme tem um ar nostálgico, de doce infância, e o filme poderia ter sido perfeitamente um filme de época, pois não existem elementos tecnológicos. Ivan ( o ótimo ator mirim Rodrigo da Costa) não vê tv, não usa celular nem computador. ele brinca com seus brinquedos afogando-os na caixa d água de sua casa. Tem os amiguinhos da rua, com quem joga bola. No filme, é retratado um dia na vida de Ivan. Um grupo de amigos adultos joga bola em frente da casa de Ivan e toda hora a bola cai no quintal de sua casa, para angústia de sua avó ( Myriam Pérsia, excelente resgate de uma bela atriz, que na época lecionava no Grupo Nós do Morro). Ela fura a bola e por conta disso, Luciano Vidigal, um dos integrantes do grupo, se vinga do pequeno Ivan. O que Ivan irá fazer? O filme tem o grande dom de trazer um olhar infantil naturalista, sem cacoetes e estereótipos da infância, no mesmo tom de "O menino Maluquinho". São filmes nostálgicos, com aquela melancolia impregnada em cada fotograma, aquela paixão por um momento de nossas vidas, que vistas com o olhar de adultos, provocam saudades. Mas o que o filme quer dizer é que para uma criança, muitas vezes, o desabafo vem na forma de um grito mudo. Um desfecho emocionante. Bela direção da dupla e uma linda trilha sonora que evoca a cena final de "Central do Brasil": enquanto no filme de Walter o menino corre, aqui ele anda de bicicleta. Destaque também para a fotografia de Paulo Castiglioni. https://www.youtube.com/watch?v=1cac_VJ7_3o

Corpo estrangeiro

"Strano telo", de Dusan Zoric (2018) Curta Sérvio que concorreu na Mostra Oficial do Festival de Veneza 2018, certamente é um dos filmes mais ousados e polêmicos a que assisti recentemente, e que deve provocar a ira das feministas. O filme apresenta cenas de sexo explícito e violência, e os dois atores principais, Marko Grabez e Miodrag Dragicevic se entregam por inteiro aos seus personagens viscerais. Em 1994, "Marko" é um menino de 4 anos de idade. "Miodrag" é uma adolescente e ela narra em depoimento ter sido estuprada por 2 soldados sérvios durante a Guerra da Bósnia. Corta para os dias de hoje. "Marko", já adulto, resolve ir até uma balada para encontrar uma garota e transar com ela, sem compromissos, uma forma de provar a sua masculinidade para os seus colegas de natação. Ele acaba conhecendo "Miodrag", uma mulher mais velha. Ela o leva para a sua casa, e transam. No entanto, "Miodrag" pede para que "Marko" a espanque. de início, ele se assusta, mas acaba descobrindo em sia uma agressividade que ele mesmo desconhecia. A cena de sexo explícito, em um plano-sequência, é de uma naturalidade que me deixou perplexo. O filme parte de uma polêmica premissa de que a mulher que possui trauma de violência sexual, acabou contraindo esse vício para a sua vida pessoal. A vítima do estupro sai em busca de homens na noite para que eles a espanquem, como se reproduzissem o estupro. E pior: parte do princípio de que dentro de cada homem, por mais pacato que seja, existe um estuprador adormecido. Sendo bom ou sendo ruim, é inegável a coragem do realizador Dusan Zoric. Vale lembrar que a Sérvia é o mesmo País que produziu um dos filmes mais chocantes da história do Cinema, "Um filme Sérvio".

O assassino de Clovehitch

"The Clovehitch Killer", de Duncan Skiles (2018) Exibido no Festival de Los Angeles, esse suspense é livremente baseado em uma história real. Na cidade e Clovehitch, há 10 anos atrás, ocorreram 10 assassinatos de mulheres, todos com o mesmo requinte de crueldade: amarradas em uma sessão de Bondage e sadomasoquismo, sufocadas até à morte. 10 anos depois, uma família respeitada e tradicional da cidade, liderada por Don (Dylan McDermott), casado e pai de dois filhos, entre eles, o adolescente Tyler (Charlie Plummer). Tyler é escoteiro, e a família, religiosa. Tyler encontra no carro de seu pai uma foto de uma mulher amarrada e passa a suspeitar que sue pai é o serial killer. Mas a sua veneração por seu pai é tão grande, que mesmo com indícios, ele não quer acreditar. Ótimo roteiro, construído em ritmo lento pelo Diretor Duncan Skiles, que prefere narrar o seu filme pelo ponto de vista de Tyler. Não é um filme sobre os assassinatos do serial killer, e sim, sobre alguém próximo a um possível assassino. Ótima direção e atores em excelente performance. Dylan McDermott tem uma sequência dentro de seu quarto absolutamente brilhante, um personagem bastante controverso. Vale assistir como construção de personagem. O filme tem aquele charme de produção independente, dando uma atmosfera de suspense muito interessante.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Jonathan

"Jonathan", de Bill Oliver (2018) Co-escrito e dirigido por Bill Oliver, "Jonathan" é seu longa de estréia. Pretensioso, seria melhor dizer que Bill Oliver quiz fazer o seu "Gêmeos-mórbida semelhança", de David Cronemberg, mas falhou feio. Faltou ousadia, faltou um Ator mais visceral, não que Ansel Elgort seja mal ator. Ele é bom, mas depende muito do tipo de personagem que lhe dão para interpretar. Ainda falta estofo para ele dar vida a um personagem de dupla personalidade. Ansel Elgort interpreta Jonathan e Jon. Um caso raro de estudo médico, ambos os irmãos gêmeos habitam o mesmo corpo. essa pesquisa está sendo coordenada pela Médica Mina (Patricia Clarkson), que cuida dos irmãos desde a infância deles, quando a mãe os abandonou. Jonathan vive no corpo de 7 da manhã às 19 horas, enquanto Jon vive de 21 às 7 da manhã. Jonathan é certinho, nerd, e vive de dia. Jon é mais porra louca, vive de noite. No pacto que os irmãos promovem, eles precisam gravar todos os dias, um vídeo-depoimento, relatando o que o outro fez na ronda dele. Uma regra em comum: eles não podem namorar. Mas Jonathan passa a desconfiar que Jon não está lhe contando tudo, e contrata um detetive particular para seguir Jon., Recentemente, na Netflix, teve o filme "O que aconteceu com Segunda-feira", com Noomi Rapace interpretando 7 irmãs que precisam relatar o seu dia para que as outras irmãs possam saber. O tema é bastante semelhante. A diferença, é que os irmãos aqui nunca contracenam juntos. "Jonathan" acaba sendo um filme bastante chato, lento, e pior, confuso. O desfecho era para ser emocionante, mas acaba ficando sem sal e entenda quem quiser.

domingo, 18 de novembro de 2018

Estranha presença

"The little stranger", de Lenny Abrahamson (2018) Adaptação do romance gótico de suspense, "Estranha presença", de Sarah Waters, o filme doi dirigido por Lenny Abrahamson, realizador de "O quarto de Jack", filme que lançou Brie Larson e Jack Tembley ao estrelato. O filme se passa em 2 épocas: 1919 e 1948. A protagonista do filme é a imponente mansão aristocrática Hundreds Hall, que viveu seu apogeu antes da 2a guerra, mas que, ao fim da mesma guerra, já se encontra em decadência, e a sua família, Ayres, em péssima situação financeira, Faraday em 1919 era o filho de uma das empregadas da Mansão, e passou boa parte do seu tempo invejando a vida de luxo e glamour dos filhos dos Ayres. Crecsido, ele agora é médico ( Domhnall Gleeson). Ele recebe um chamado para cuidar de um paciente na mansão que ele não visitava há 30 anos. Ele reencontra a Sra Ayres (Charlotte Rampling), sua filha Caroline (Ruth Wilson) e o outro filho, Roderick, desfigurado em guerra, Ele percebe que fatos estranhos acontecem na casa, e logo percebe que algo sobrenatural pode estar ali, habitando: será o fantasma da pequena Suki, a filha da Sra Ayres que morreu quando criança? Não dá para falar muito sobre o filme, pois pode virar spoiler. Mas pode-se dizer que um dos temas do filme é a desigualdade social. O filme faz questão de marcar a diferença entre a classe dos trabalhadores e a dos aristocráticos. O filme é longo, quase 2 horas, e tem um ritmo bem arrastado. é vendido como um filme de terror, mas está muito longe disso. Não assusta, não é um filme de terror. Os atores estão ok, mas nada que todos já não tenham feito melhor. Uma pena, pois a premissa é interessante e poderia ter rendido um ótimo suspense, tipo "Os outros". Ficam uma excelente qualidade técnica, suplantando os defeitos do filme: fotografia, direção de arte, tudo perfeito.

sábado, 17 de novembro de 2018

Sete minutos

"Sete minutos", de Cavi Borges, Julio Pecly e Paulo Silva (2007) Premiado com o Troféu Redentor de melhor curta do Festival do Rio em 2007, "Sete minutos" é um exercício de filme de ação em plano-sequência de 7 minutos. Todo filmado na Comunidade do Coroado no Rio de Janeiro, o filme apresenta os últimos 7 minutos de vida de um traficante, que sai pelas ruas da comunidade com arma em punho, em busca do traficante rival. A linguagem do filme é toda de videoclip em primeira pessoa: nunca vemos o rosto do protagonista, apenas sua arma e a sua voz off , furiosa. A direção a seis mãos funciona que é uma maravilha, e é impossível não se deixar envolver pelo filme, que é conciso, enxuto, criativo e bastante intenso. Parabéns ao elenco, principalmente a Luciano Vidigal e Jonathan Azevedo. https://www.youtube.com/watch?v=nXTOlCTVmAM

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Kriz Bronze

"Kriz Bronze", de Larry Machado (2018) Na Rua Bf 22 - s/n Qd.29 Lt. 07, Bairro Floresta, Goiânia, está localizada a empresa de estética "Kriz bronzeamento", cuja dona, Kelly Cristina. ganha fama fazendo o famoso bronzeamento de fita isolante, imortalizado no clip da Anitta, "Vai Malandra". O filme, divertido e irreverente em grau máximo, apresenta um dia na vida de Kelly: muito carismática, ela começa o dia preparando uma festa só de mulheres que irá acontecer de noite no seu espaço. Ela recebe as mulheres de dia, manda tirarem suas roupas, vai colocando as fitinhas nelas e as expõem ao sol, como carne defumada. A cena é bizarra. Logo depois, elas saem satisfeitas, e a noite chega: elas retornam produzidas e bronzeadas, curtindo a festa só de mulheres e com direito ao show de streap tease de um "Bombeiro"de 5a categoria. A ordem do dia é se divertir. O cineasta Larry Machado conduz com muita propriedade esse seu material antológico, digno de um Filme B, e que tem na Host Kelly Cristina a sua grande força. Não satisfeita, ela possui uma confecção de linha de lingerie chamada "Hot Mulher".

Majur

"Majur", de Rafael Irineu (2018) Curta escrito, dirigido, editado e fotografado por Rafael Irineu, foi produzido no Mato Grosso e tem uma equipe totalmente de inclusão: Mulheres, indígenas, LGBTQ+ de todos os gêneros. O filme competiu no Festival de Gramado 2018, e conta a história do Índio apelidado de Majur, mas de nome de batismo Gilmar. Majur é homossexual, e é o chefe de comunicação de sua tribo Poboré, e é responsável pela ligação entre aldeia e cidade. Conectado com todas as redes sociais, Majur, de 24 anos, luta pelos direitos dos indígenas de sua comunidade. Na primeira parte do curta, somos apresentados à rotina de Majur em sua aldeia. Logo depois, conhecemos Majur Lgbtq+, que quer se maquiar, quer frequentar baladas gays, dançar, se soltar. Bem dirigido, com um personagem bastante carismático, o filme conquista pela sua simplicidade e pelo teor de denúncia contra os maus tratos sofridos pela comunidade indígena. É também um belo relato sobre indíos gays, e que, mesmo seguindo a tradição milenar de suas tribos, conseguem se conectar à modernidade, à música eletrônica e aos prazeres do mundo hedonista.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Como um irmão

"Comme un frére", de Bernard Alapetite e Cyril Legann (2005) Drama LGBTQ+ francês, repleto de erotismo e sensualidade. Sebastien é um jovem que sai de sua cidade no interior da França para descobrir a vida gay. Ele conhece Bruno em uma balada, e começam a namorar. Mas Sebastien não consegue esquecer seu grande amor: seu melhor amigo Romain, hetero, que ele deixou na sua cidade. Ambos viviam um "Bromance", onde Sebastien se envolveu mais do que devia. Com apenas 55 minutos de duração, "Como um irmão" tem o tempo certo para narrar a sua história, que acontece em 2 tempos: presente, em Paris, e passado, na cidade praiana de La Baule. A fotografia adquire tons distintos para as duas fases: a atual mais brilhante, cheia de cores, e a do flashback, em tons mais pastéis. O jovem elenco se joga nos papéis e se entregam com bastante paixão e visceralidade nas cenas de sexo, intensas. O roteiro recorre a clichês, mas nada que estrague o filme.

22 de Julho

"22 July", de Paul Greengrass (2018) O Cinema muitas vezes traz coincidências temáticas em curto espaço de tempo na programação, e um dos projetos acaba sendo prejudicado. Em 22 de julho de 2011, em Oslo, Noruega, aconteceram 2 atentados terroristas que matou mais de 80 pessoas: o primeiro atentado aconteceu na cidade de Oslo, em um prédio do Governo, onde morreram 8 pessoas por conta da explosão de uma van estacionada na frente do prédio. Duas horas depois, na Ilha de Utaya, aonde estava acontecendo uma Festa de jovens filiados do Partido dos trabalhadores, outros 77 adolescentes foram assassinados à tiros. O que escandalizou a todos, é que os 2 atentados foram orquestrados e executados por uma única pessoa: Anders Behring Breivik, assumidamente anti-marxista, racista e que odiava a política migratória do Governo. Pois essa história acabou produzindo 2 filmes, no mesmo ano: o norueguês "22 de Julho- Utoya", de Erik Poppe; e "22 de julho", de Paul Greengrass, famoso pela franquia "Jason Bourne" e também por recriar fatos históricos de eventos trágicos, como "Capitão Philiphs", "Domingo sangrento", "Vôo United 93". Comparando os 2 filmes, prefiro mil vezes o de Erik Poppe: é mais Cinema e bastante ousado, por conta do plano sequência retratando os assassinatos na Ilha, em um clima intenso de tensão e desespero, fazendo com que o espectador se sinta no meio do tiroteio. Aonde o filme de Greengrass, que concorreu em Veneza, sai perdendo: - Sua extensa duração ( 150 minutos) - Ser todo falado em inglês!! Mesmo o filme sendo todo rodado em Oslo e com atores locais!!!!! - E pior, a enorme xaropada que vira o filme após o atentado. Todo o atentado dura meia hora. Depois, o filme se divide em 3 frentes: - A recuperação de uma das vítimas, um adolescente - A crise consciência do advogado de defesa de Anders Behring Breivik, - A crise do Governo, quando o Primeiro Ministro foi acusado de negligência no caso do atentado na Ilha de Utoya, após revelação de que o ato poderia ter sido evitado É muito difícil assistir o filme até o final. É cansativo, arrastado, e tudo muito chato. E ainda ter que ouvir o assassino no final dizendo: "Eu faria tudo de novo, se pudesse. Nós somos muitos".

terça-feira, 13 de novembro de 2018

José

"José", de Li Cheng (2018) Curiosa mistural cultural, "José"é dirigido e escrito pelo Cineasta chinês Li Cheng, que em suas andanças pelo mundo, resolveu se estabelecer na Guatemala, um dos países mais pobres do terceiro mundo, e ali, realizar esse drama LGBTQ+ , que acabou vencendo o Queer Lion no Festival de Veneza 2018. O que deve ter despertado a atenção do Juri é o olhar triste e amargo sobre a realidade nua e crua da população Guatemalteca: Um País de forte tradição católica, hoje dominada pelos evangélicos, com alta taxa de desemprego, analfabetismo e crise econômica. Li Chen desenvolve um olhar sem perspectiva de futuro para a sua juventude. José, de 19 anos, filho de uma mãe evangélica e que trabalha clandestinamente como camelô, não estuda e trabalha em um sub- emprego em um restaurante popular. Devoto à sua mãe, José passa partes em pegação, transando com todos os estranhos que puder encontrar através de aplicativos. Em um de seus encontros, ele conhece Luís, que se apaixona por José e quer que ele venha morar com ele em sua cidade e juntos, construírem uma vida em comum José fica dividido entre o amor de sua mãe e o amor a Luís. Lento, sem ritmo, "José" apresenta todos os clichês possíveis e imagináveis sobre o Terceiro mundo. Sociedade machista, aonde o homem abandona sua mulher quando ela engravida; desemprego, homofobia, religiosidade radical; etc. No meio disso tudo, acompanhamos sem muito interesse a vida sem sal e desregrada de José, um personagem totalmente desprovido de carisma. Uma cena merece atenção, mais pela plasticidade do que pela dramaturgia: quando a amiga anuncia que o namorado foi embora, ao fundo, no céu, passa um avião. Ficou bonito. As cenas de sexo são feias, mal filmadas, e a fotografia em muitos momentos ficou escura demais.

Guerra fria

"Zimna wojna", de Pawel Pawlikowski (2018) Premiado no Festival de Cannes 2018 com a Palma de Ouro de Melhor Direção , "Guerra fria" resgata aquelas histórias de amor que fizeram muito sucesso nos anos 60, ambientadas na Segunda guerra e que acabavam de forma trágica: "Dr Jivago", "Os girassóis da Rússia", "Quando voam as cegonhas", "A balada de um soldado", entre outros clássicos. Pawel Pawlikowski, que também escreveu o roteiro, resolveu contar livremente a história de seus pais, que na vida real, durante 40 anos, se separaram diversas vezes, se reuniram, se amaram, se odiaram e acabaram suas vidas cada um de um lado de Berlin dividida pelo muro. No filme, o casal é Zula e Wiktor ( os nomes reais dos pais de Pawel). em 1949, Wiktor, um Maestro, resolve ir até as montanhas, em busca de sonoridade e cantores regionais. ele acaba conhecendo a camponesa Zula, por quem se apaixona perdidamente. Durante 15 anos, acompanhamos os vai e vens do casal, que se separa várias vezes, e isso durante o surgimento do regime comunista na Polônia, a fuga de Wiktor para Paris e Iuguslávia, e suas frequentas idas para os shows de Zula. "Guerra fria" é uma obra prima. Mistura drama, romance, musical, tudo de forma harmônica e sublime. A fotografia esplendorosa e triste de Lukasz Zal, indicado ao Oscar por "Ida", outra parceria do fotógrafo com o diretor, é uma obra de arte. Com formato de tela quadrada de 4X3, o filme apresenta um casal carismático e apaixonante, interpretado com brio, garra e paixão pelo casal de atores Joanna Kulig e Tomasz Kot, por quem a gente torce o tempo todo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

3 Faces

"Se rokh", de Jafar Panahi (2018) Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2018 de melhor roteiro, "3 Faces" é um libelo à favor da Arte e do Artista. Mas por ser um filme de Jafar Panahi, famoso no mundo todo por ter sido punido pelo Governo iraniano de continuar filmando e em exílio domicilar, o filme também fala sobre a linha dura do Governo, a ausência de Liberdade, seja do Artista ou da Mulher na sociedade iraniana. Fora isso, o filme discute o contraste entre o Irã moderno (Teerã, das artes, do cinema, da modernidade) com o Irã das vilas, de cultura milenar, quase na idade da pedra, com suas tradições arcaicas, mas unidos pelo Amor ao Artista, no caso a atriz famosa (Panahi cutuca a seu favor quando diz que o povo conhece os atores, mas não sabem quem são os Cineastas). Logo no seu prólogo, o filme discute ao limite entre o real e a ficção, assim como Panahi já tinha feito em "Taxi Teerã": o que estamos vendo é real ou uma representaçãp"? Uma jovem, Marziyeh, em imagem de vídeo gravado em um celular, dá um depoimento direcionado à famosa atriz iraniana Behnaz Jafari: ela diz que sua família é contra ela ir até Teerã estudar Cinema, e a forçaram a se casar. Descontente e sem apoio, ela resolve se suicidar. CORTA PARA: Behnaz Jafari aflita, vendo esse vídeo com o cineasta Jafar Panahi ( ambos interpretam a si mesmos). O vídeo é real ou fake? Os 2 decidem seguir até a vila onde a menina mora para descobrir a verdade. O que eles encontram, são moradores que regem suas vidas em cima de crendices, o que rende risadas de Jafari e Panahi. Logo, os 2 vão se habituando a esse estranho universo arcaico, mas que também, possuem celulares e televisores. Através da personagem de Marziyeh, que é proibida de estudar e trabalhar com Cinema, Panahi fala de si mesmo, de sua proibição de exercer aquilo que mais ama. O cinema é tema durante o tempo todo no filme. Vários personagens comentam sobre o poder ilusório que a sétima arte traz neles. O filme tem várias cenas antológicas, mas a que mais me diverti, foi a da idosa que dorme em sua lápide, que ela chama de sua última morada. Genial.

No Risco do Circo, no Risco da Vida

"No Risco do Circo, no Risco da Vida", de Katia Lund e Lili Fialho (2018) Documentário que mostra a rotina do projeto Crescer e Viver, que construiu uma lona de circo em 2004 na Praça Onze, em um local onde antes era um estacionamento de dia e de noite, zona de prostituição. Com o surgimento da Escola de Circo, a região foi beneficiada: o comércio e principalmente os moradores, que ganharam dinamismo e alegria com a vizinhança de alunos de circo e seus professores. O filme acompanha o dia a dia de alguns desses alunos, todos de classe média baixa e moradores de cortiços das redondezas. Histórias de superação, como o ex-flanelinha de mais de 100 kilos que hoje é trapezista; uma jovem cuja mãe é contra e;a estudar Circo, mas mesmo assim ela frequenta a escola; uma jovem de 16 anos grávida que consegue o apoio de todos, e fora todos os entrevistados cujas histórias se assemelham na luta pela pobreza, dignidade, falta de oportunidade, ainda temos o Juiz Siro Darlan, que dá total apoio ao projeto. Um filme bonito, de apenas 50 minutos, e que tem um desfecho lúdico, condizente com os sonhos de cada um retratados na tela.

Um dia

“Egy nap”, de Zsofia Szilagyi (2018) Absorvendo todas as lições da filmografia de John Cassavettes ( atuação naturalista, tempo real, enfado da vida cotidiana, observação da natureza humana), a Cineasta húngara realiza o maior filme de super heroína que nenhum personagem da Marvel ousou encarnar: a da mulher casada, trabalhadora, mãe de três filhos pequenos, que prepara café da manhã, jantar, leva os filhos pra escola, balé, esgrima, vai pra os eventos escolares das crianças, dirige carro, enfrenta trânsito, briga com motorista, sofre com problemas de encanamento, tem péssima relação com sua sogra, cuida do filho doente, discute cronograma de aula com a sua chefe, e para concluir, precisa arrumar tempo para administrar o caso extraconjugal de seu marido, que a está traindo. Anna ( Zsofia Zsamosi, excelente mas varias emoções) carrega o filme nas costas, nesse filme de olhar totalmente feminista, onde os personagens masculinos, mesmo os coadjuvantes ou figurantes, agem em postura totalmente machista ( até mesmo o filho pequeno). O filme ganhou o Prêmio Fioresci da Crítica em Cannes na Mostra “Semana da Crítica”. Não é um filme fácil de se assistir. De forma simplista, parece que o recado dado é: casamento e filhos destroem qualquer relação. Mas é mais do que isso. É a luta de uma mulher que fez suas escolhas de vida, e precisa administrar de forma estratégica todas as tarefas que lhe são esperadas realizar e cumprir. E a vida segue assim, nessa rotina exasperante, um grito de socorro em silêncio.

Selvagem

“Sauvage”, de Camille Vidal Naquet (2018) Escrito e dirigido pela cineasta francesa Camille Vidal Naquet, “Selvagem” é seu filme de estreia e em Cannes ganhou um Prêmio especial na Mostra “Semana da Crítica”. O filme apresenta o fundo do poço na vida do garoto de programa Leo ( Felix Maritaud, de “ 120 bpm”). Ele se prostitui na periferia de Paris, se droga, dorme na rua, não tem família nem amigos. A única pessoa que ele se preocupa e sente carinho é o garoto de programa ativo e marrento Eric, um ex lutador que se prostitui porque não soube administrar a sua vida. Eric o tempo todo diz para Leo que a única solução para a vida deles é descolar um velho com grana. Nessa relação de amor e ódio com Eric, Leo acaba roubando, é estuprado, arranja clientes violentos. Em todas as possibilidades de redenção, Leo acaba sucumbindo às ruas. O filme tem uma boa direção de Camille, que busca no seu elenco uma boa dose de realismo nas cenas de sexo. Mas o roteiro é problemático: todo explicadinho, o espectador já sabe de antemão tudo o que acontecerá, nesse festival de previsibilidade. O filme sôa bastante anacrônico: difícil de acreditar que nos dias de hoje, com aplicativos e sites de agenciamento, uma pessoa pegue dois vários desprograma com pinta de marginais e traga para a sua casa. Tem que ter muita baixa auto estima e acreditar que o mundo é bom. Felix Maritadaud carrega o filme nas costas: ele se entrega totalmente ao filme, em cenas viscerais que exigem dele total imersão.

O Anjo

"El angel", de Luis Ortega (2018) Nos anos 70, em Buenos Aires, Carlos Robledo Puch, o Carlito, foi um adolescente de classe média baixa que sem que seus pais soubessem, cometeu 11 assassinatos, dezenas de roubos e sequestros. Carlito tinha como parceiro de crime o colega da escola, Ramón, por quem ele sentia paixão platônica. Ao ser preso, Carlito foi apelidado de "O Anjo", por conta de seus cachos loiros e pele muito branca. Lorenzo Ferro e Chino Darin dão vida a Carlito e Ramón, respectivamente. Ambos os atores estão excelentes, e no elenco de apoio, ainda tem o apoio luxuoso de Cecilia Roth e Mercedes Moran. O filme foi produzido pela El Deseo de Almodovar, que também produziram outra película de sucesso argentino, "Relatos selvagens". "O anjo" arrebentou na bilheteria, participou de vários Festivais, entre eles, o Festival de Cannes, e foi indicado pela Argentina a uma vaga ao Oscar 2019. Toda a ficha técnica do filme é formidável: fotografia, trilha sonora, repleta de rock dos anos 70, edição, figurino, direção de arte. A direção de Luis Ortega aposta na mescla de drama e policial, e em alguns momentos, lembra uma versão LGBTSQ+ de "Bonnie e Clyde". Um filme imperdível, que assume um lugar de honra nos grandes filme argentinos dos últimos anos.

domingo, 11 de novembro de 2018

White boy Rick

“White boy rick”, de Yann Demange (2018) Diretor do extraordinário “71-Esquecido em Belfast”, o cineasta francês Yann Demange dirigiu a cinebiografia de Ricardo Warsche Jr, condenado à prisão perpétua no Michigan em 1987 por tráfico de drogas. Seu pai , Richard Warsche (Matthew Maccaughney) , um vendedor de armas de segunda mão, alega que seu filho se tornou traficante por conta de seu trabalho com o Fabi: Richard havia sido contratado pela polícia para ser um infiltrado em seu bairro é assim desbaratar as gangues. Porém, foi justamente esse serviço que o aproximou do tráfico e dos clientes. Um drama muito bem dirigido, com excelente reconstituição de época e ótima fotografia. Mas o grande potencial do filme está em seu poderoso elenco: da turma de veteranos, além de Maccaughney, temos Jenifer Jason Leigh, Bruce Dern e Piper Laurie. Do elenco jovem, destaque absoluto para Richie Merrit, no complexo papel de Richard, e para Bel Powler, no papel de Dawn, sua irmã drogada. É dela as cenas mais dramáticas e aflitivas do filme.

Se a rua Beale falasse

”If Beale street could talk", de Barry Jenkins (@018) Adaptação cinematográfica do livro de James Baldwin, escrito em 1974. Ativista negro , James Baldwin foi uma das figuras centrais do excelente documentário “ Eu não sou o sou negro”, e faleceu em 1987. Barry Jenkins ganhou o Oscar de melhor filme em 2017 por “Moonlight/ sob a luz do luar”, e aqui ele e seu Fotógrafo James Laxton realizam um filme muito bonito de se ver, com luzes quentes contratando com momentos de extrema melancolia. Figurino, trilha sonora e uma montagem que embaralha épocas distintas, favorecendo o tom de romantismo e drama pungente acerca de um jovem casal separado por uma acusação injusta: Tish (Kiki Lane), de 19 anos, e Fonny (Stephan James), 22 anos, se conhecem desde crianças e adultos, resolveram namorar. Mas Fonny, após uma desavença com um policial branco e racista , é acusado de ter estuprado uma mulher branca. Ele vai preso e Tish ao visitá-la, comunica que está grávida. O filme passa a apresentar as memórias de Tish, ao mesmo tempo que ela e sua família procuram uma forma de libertar Fonny da prisão. Particularmente, gosto mais de “Moonlight”. Talvez eu tenha ficado com muita expectativa para “Se minha rua Beale falasse”. Gosto de como o nome da rua entra na história: James Baldwin diz que essa rua, localizado em New Orleans, foi onde nasceu Louis Arnstrong, o jazz e seu pai. E que a Rua Beale é uma metáfora sobre a luta do negro para conseguir ir contra a injustiça, o racismo e o desejo de ser feliz. Excelente direção de Barry Jenkins, que cria momentos de poesia e muita beleza. Mas o ritmo, principalmente na terça parte final, ficou arrastado e me cansou um pouco. Mas o filme reserva pelo menos algumas cenas antológicas: a do convite à família de Fonny para anunciar a gravidez de Tish, a cena aflitiva de Tish trabalhando na loja de departamento e os brancos querendo cheirar sua pele negra e a cena da mãe de Tish, Regina ( a excelente Sharon Rivers), que vai para Porto Rico atrás da mulher que acusou Fonny de estupro.

sábado, 10 de novembro de 2018

O fim da pegação

"The end of cruising", de Antony Hickling (2013) Charles Lum, Xavier Stentz, Todd Verow. Documentário repleto de cenas fetichistas, apresenta um curioso tema: com o advento dos aplicativos como Grindr e Tinder, a popular "pegação", termo gay que significa flertes sexuais em lugares lúgubres e decadentes, como matagal, praia deserta, estacionamentos, banheiros públicos, etc, se tornou um hábito cada vez mais escasso. Muito por conta da violência urbana, os gays têm preferido conhecer seu parceiro sexual nos aplicativos, onde existe o mínimo de informação sobre a outra pessoa. O documentário apresenta 22 episódios, e os 4 diretores se revezam em suas funções: ora um fotografa, ou edita, ou escreve, produz ou dirige. Em cada episódio, acompanhamos o depoimento de uma pessoa, relatando a sua experiência sexual em algum ponto de pegação. Os relatos são bastante pervertidos, e em alguns episódios, apenas vemos o lugar com bastante detalhamento, e e outros, o filme apresenta cenas de sexo explícito, masturbação ou exibicionismo em nudez total. De uma forma geral o filme é bastante entediante e repetitivo, mas para quem curte ouvir sacanagem e muita putaria, é um prato cheio.

A culpa

"Den skyldige", de Gustav Möller (2018) Suspense dinamarquês, vencedor de mais de 14 prêmios Internacionais, incluindo o Prêmio do público em Sundance 2018. Ambientado em apenas uma locação, no caso, a sala da polícia que faz atendimento de chamadas de emergência, o filme é um espetáculo de edição e construção de tensão, muito construído com bastante competência pelo Diretor e roteirista Gustav Möller. Asger é um policial que trabalha na ronda noturna de uma delegacia de atendimento de emergência. Entre um e outro pedido de ajuda, ele acaba recebendo uma chamada desesperada de uma mulher, Iben. Ela diz estar sendo sequestrada pelo marido. A ligação cai. Asger tenta desesperadamente localizar o paradeiro da mulher, antes que alguma tragédia aconteça com ela. Aos poucos, Asger vai descobrindo elementos que o farão se desesperar cada vez mais. Era de esperar que o filme tivesse um Plot twist, e ele vem já quase no final, provocando uma grande surpresa no espectador. O filme é uma aula de direção, de economia de orçamento e de roteiro, provando que um filme pode ser muito bom e prender a atenção do espectador com apenas uma locação.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Simonal

"Simonal", de Leonardo Domingues (2018) Cinebiografia de Wilson Simonal, cantor popular que faleceu no ano 2000, o filme aposta em pirotecnias de câmera, claramente inspiradas em "Boogie nights" e "Birdman" e seus famosos planos-sequências. Passados esses momentos de exibicionismo técnico, o que o espectador encontra é um drama musical que aposta as suas fichas no romance conturbado de Simonal (Fabricio Boliveira) com Teresa (Isis Valverde) - SImonal , segundo o filme, era famoso por conquistar loiras. O filme vai dos anos 60 até 1975, ano em que SImonal fez um Show para tentar recuperar a sua carreira artística, abalada por um crime: SImonal descobriu que o seu contador (Bruce Gonlewsky) estava roubado dinheiro, e por isso, pediu para que um conhecido seu, um agente do Dops (Caco Ciocler) desse um susto no contador. O contador levou uma surra e acabou publicando na mídia que SImonal teria usado agentes do Dops para sequestrá-lo e dado porrada. Essa história destruiu a carreira de SImonal, que até então, era o artista negro mais bem sucedido do Brasil. O filme, que tem na produção os filhos do cantor, Max de Castro e SImoninha, toma partido de que SImonal foi vítima de notícias caluniosas e por ser negro, não teve chance de se recuperar. Em um momento emblemático, Simonal conversa com Elis Regina e pergunta a ela como que ela, passando pela mesma situação que a sua, foi perdoada, e ele não. O filme tem um elenco que defende com garra os seus personagens ( Fabricio Boliveira está bem, uma pena ter sido dublado, e Isis Valverde tem carisma, mas fiquei atordoado com a peruca que ela usava). "SImonal" faz parte de uma linhagem de filmes caros, com excelente qualidade técnica , muita figuração, figurinos, etc ( vide "Chacrinha", "Pixinguinha", "Chatô"). Para quem é fã do cantor, o filme apresenta um arsenal de canções clássicas. Em Gramado, onde concorreu em 2018, o filme ganhou 3 prêmios técnicos: Fotografia, direção de arte e som.

Vox Lux

"Vox Lux", de Brady Corbet (2018) Concorrendo no Festival de Veneza em 2018, "Vox Lux" é uma espécie de "Nasce uma estrela" em versão pesadelo: violento, sombrio, gótico. Um filme que tem como tema o Mal existente no ser humano, por mais que ele não transpareça, em algum momento, vem à tona. Afinal, qual o preço pago pela Fama? Brady Corbet é Ator, e talvez seu papel mais famoso tenha sido na refilmagem de "Funny games", cult de Michael Haneke. Sua estréia no Cinema se deu com o inquietante filme "A infância de um líder", ousada fantasia que faz uma analogia da origem do mal, através de uma criança que poderia ser uma versão mirim de Hitler. Para quem assistiu a esse filme, irá encontrar muita semelhança com "Vox Luz", tanto no cuidado com o visual, quanto na fotografia, enquadramentos e uma narrativa autoral. O filme começa em 1999, na virada do milênio. Em uma sala de aula, acontece uma grande tragédia. Celeste (Raffey Cassidy), aos 14 anos, sobrevivente, compõe uma música junto de sua irmã, Ellie, para as vítimas e logo ela se torna uma grande Estrela, quando canta ao vivo para a imprensa. Os anos se passam, e aos 31 anos, já na pele de Nathalie Portman, Celeste se tornou uma grande Diva Pop, e como tal, cheia de estrelismos e ataques ao seu staff. O filme acompanha a sua rotina com fãs, seu agente (Jude Law), sua filha e sua irmã, às vésperas de um grande show. Nathalie Portman está exuberante e impressiona com a sua performance matadora. Toda a sequência final, no show, é de cair o queixo. A direção de Brady Corbet é bastante criativa, começando pelos créditos iniciais. Abusando de uma linguagem bastante estilizada, Corbet mescla drama, thrilller, musical e grandes performances de um elenco intenso. As músicas foram compostas pela cantora Sia, e a coreografia, pelo marido de Nathalie Portman.

Assunto de família

"Manbiki kazoku", de Hirokazu Koreeda (2018) "Era uma vez, uma família muito feliz...". "Assunto de família" poderia ter começado com essa cartela anunciando os personagens dessa carismática família que vive da prática de roubos. Ou também, poderia ter sido anunciada como a continuação da obra-prima de Koreeda, "Ninguém pode saber", que rendeu ao ator mirim Yûya Yagira a Palma de Ouro de Melhor Ator em 2004. O seu personagem Akira, poderia perfeitamente dar continuidade ao personagem Shota, que protagoniza "Assunto de família". É através do olhar do menino, que acompanhamos cada um dos integrantes da inusitada família: Seu pai trabalha em uma construção civil, sua mãe em uma lavanderia, sua irmã mais velha é uma escort girl que se apresenta em webcams, a avó vive em casa reclamando de tudo e de repente, seu pai traz para casa uma nova integrante: uma menina pequena de 5 anos de idade, maltratada pelos pais. Aos poucos, o pai vai ensinando à pequena a prática do roubo. o que vai provocando ciúmes de Shota. Koreeda é um grande Mestra que tem em sua filmografia, grandes filmes retratando a rotina de famílias desestruturadas. "Assunto de família" tem momentos que lembram Truffaut, Ettore Scola, pelo carinho com que trata as figuras marginalizadas. É muito complexo, para o espectador, tomar qualquer juízo de valor sobre a história e atos desses personagens. Contar algo aqui configuraria spoiler, uma vez que no ato final, todas as máscaras vão sendo derrubadas e esclarecidas. O filme é repleto de cenas comoventes e antológicas: a sequência da praia, culminando com um momento belíssimo da avó; a cena da fuga do supermercado; a cena do menino no ônibus, no final; a trepada do casal dentro de casa. Koreeda é um excelente Diretor de atores, e contrói suas cenas em planos longos e sem muita cobertura. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes de Melhor filme, em 2018, merecidamente. Que atores extraordinários!

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O mau exemplo de Cameron Post

"The miseducation of Cameron Post", de Desiree Akhavan (2018) Adaptado do livro autobiográfico de Emily M. Danforth pela própria cineasta, o filme narra a história de Cameron Post, ocorrida em 1993. Cameron ( a ótima Chloë Grace Moretz) é órfã de pais, e mora com sua tia cristã. Cameron frequenta as atividades religiosas que sua tia lhe impõe. Na noite de formatura, Cameron vai com sua amiga Coley no banco de trás de um carro elas acabam se beijando, Ao serem flagradas pelo namorado de Cameron, elas se desconcertam e entram em crise. A Tia de Cameron a interna à força em um Retiro de conversão homossexual, lugar aonde os adolescentes cristão homossexuais permanecem em esquema de internato sob forte regime dos irmãos Lydia e o reverendo Rick, "convertido" do homossexualismo pela sua irmã. Vencedor de vários prêmios, incluindo Grande prêmio do Juri no Festival de Sundance 2018, "O mau exemplo de Cameron Post" tem uma narrativa bem lenta e arrastada. Mas o que segura a atenção no filme é o excelente trabalho dos jovens atores. O filme lembra bastante a estrutura de "Um estranho no ninho": somos apresentados a internos carismáticos, culminando em tragédia, e também a vilões, como Lydia. Boa direção, bela trilha sonora e fotografia.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sequestro relâmpago

(Comentários em breve)

Tecido, sigilo

Tecido, sigilo
"Tecido sigilo", de Lucilio Jota (2018) Produção do Curso de Cinema da Puc Rio, e realizado pelos estudantes, "Tecido sigilo" é um Curta totalmente engajado com o tema da descoberta da identidade racial, mais especificamente, do negro. O filme é dividido em capítulos, mesclando documentário, ficção e musical, todos idealizados por Lucílio Jota. Na equipe técnica, os alunos se revezaram nas funções, e confesso, fiquei bastante admirado com a qualidade técnica do projeto. 2 Filmes que estão no Circuito me vieram à mente enquanto assistia ao curta: "A última abolição", de Alice Gomes, e "Infiltrados no Klan", de Spike Lee. Do documentário da Alice, a aproximação veio pela polêmica da "farsa da Abolição da escravatura": o racismo e a "escravidão" permanecem nos dias atuais, através de preconceito, do bullying, da segregação social e econômica. Do Filme de Spike Lee, vem a questão da aceitação da raça, da pele negra, da descoberta da cultura. Todos esses tópicos são amplamente discutidos no curta, através de depoimentos intensos com estilistas, historiadores, atores (Lazaro Ramos, Helio de La Penã), onde todos abrem seus corações e relatam casos de preconceito. O prólogo, chamado de "A mala", é um clip musical onde é apresentado um homem negro que vai de casa até o trabalho com uma mala e antes de entrar no prédio, troca a sua roupa e veste uma roupa social, perdendo a sua identidade e se tornando mais uma pessoa no prédio comercial. O conceito do "Match cut", utilizado no filme, se encaixa muito bem na dinâmica da história. O título do curta vem da idéia de que homens brancos e negros são aceitos socialmente em função das roupas que vestem. O branco pode tudo e é aceito em todos os ambientes. Já o negro, se por exemplo estiver usando chinelas havaianas e algumas roupa rasgada, mesmo que seja customizada, é visto com um olhar preconceituoso, associado a marginais. Nesse clip "A mala", a mala literalmente é utilizada pelo homem negro para ele poder ser aceito socialmente nas ruas, transporte urbano, como se fosse um carimbo que dissesse "Pessoal, sou trabalhador". "Tecido, sigilo" é um trabalho importante que deve ser exibido nas Escolas e promover debates entre alunos e professores.

Faca no coração

"Un couteau dans le coeur", de Yann Gonzalez (2018) Uma homenagem às filmografias de François Ozon, Dario Argento e Pedro Almodovar, "Faca no coração" é uma ousada fantasia LGBTQ+ de serial killer que concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2018. O início do filme é uma referência explícita ao prólogo de "Parceiros da noite": um rapaz se deixa seduzir pelo flerte de um estranho de máscara de couro. Os 2 vão até o quarto de um motel. Na hora da transa, o estranho retira um vibrador, que na verdade, esconde um punhal em seu interior e mata o rapaz. Descobrimos depois que a vítima é um ator pornô da produtora de filme eróticos gays de Anne (Vanessa Paradis). O ano é 1979, quando os filmes pornôs ainda eram filmados em película e exibidos em salas de cinema, um pouco antes do advento do VHS que acabou com esse tipo de exibição. Anne está em crise pessoal por conta de sua relação com sua montadora, Lois, de quem se separou há pouco tempo mas não consegue esconder a sua tristeza. Paralelo, outros atores pornôs vão sendo assassinados, e Anne precisa tentar descobrir o paradeiro do assassino. O Cineasta e roteirista Yann Gonzalez realizou em 2013 o cult erótico "Os encontros à meia noite". Já nesse filme, a linguagem de Yann Gonzalez já era bastante presente: uma referência visual aos anos 80, com cores fortes, neons, trilha sonora de sintetizadores do ótimo grupo M83, fotografia estilizada e muita afetação. Em "Faca no coração", tudo é bastante exagerado: as interpretações, o visual, conferindo um charme Kampf ao filme. Não é um filme perfeito, mas vale ser visto pelo sua ousadia e pela homenagem ao mundo basfond gay da época. Vanessa Paradis, que nos anos 80 explodiu como cantora com a música regravada por Angelica "Vou de táxi", tem uma aura de Diva de Filmes B, e está excelente no papel.

Operação Overlord

"Overlord", de Julius Avery (2018) O cineasta Julius Avery tem uma filmografia ainda pequena, mas em seu currículo já consta a nova adaptação do futurista "Flash Gordon". Em 2009, o Cinema de terror norueguês lançou o cult "Zumbis na neve", que apresentava um argumento muito curioso: estudantes noruegueses de férias nas montanhas geladas, encontram soldados nazistas enterrados e que ressuscitam como zumbis. O sucesso foi tão grande, que anos depois, lançaram uma continuação. Depois desse filme, surgiram vários outros que traziam a comunhão de Segunda guerra mundial e zumbis. "Operação Overlord" pode não ser nada original, mas diverte bastante para quem busca um passatempo com suspense, humor negro, violência gore e personagens carismáticos, envolvidos em uma heróica tentativa de desmantelas o exército nazista. O filme começa mostrando um pelotão de soldados americanos dentro de um avião de Guerra, seguindo para uma missão praticamente suicida: destruir uma torre nazista para que os aliados possam invadir a Normandia na véspera do ataque do Dia D. O avião no entanto, sofre um ataque dos alemães e é destruído. Os sobreviventes precisam seguir a pé até a torre. No caminho, Boyce e Ford, uns dos 5 sobreviventes, encontram uma jovem francesa na floresta, que estava catando comida para seu irmão pequeno. Ela os leva até seu vilarejo. Em breve, os soldados vão descobrir que os alemães sequestram os moradores para fazer experimentos científicos. A primeira parte do filme segue em to realista , como se fosse um filme de guerra tradicional. Mas a partir da 2a parte, o filme segue o caminho da fantasia, trazendo zumbis que são treinados pelos nazistas para serem soldados do Terceiro Reich, O filme vai agradar aos fãs do cinema de gênero, e possui um elenco de rostos desconhecidos do grande público. Na verdade, o filme, em sua gênese, foi confundido como se fosse um novo filme da franquia "Cloverfield", por conta de seu produtor, J J Abrams. A atriz francesa Mathilde Ollivier, no papel de Chole, é um grande achado: ela me lembrou Sigourney Weaver em "Aliens, o resgate", defendendo a sua cria.

Não me toque

"Touch Me No", de Adina Pintilie (2018) Escrito e dirigido pela Cineasta romena Adina Pintilie, "Não me toque" foi o grande Vencedor do Festival de Berlin 2018, ganhando o Urso de ouro de melhor filme. A premiação foi coberta de polêmicas, por conta das muitas vaias e críticas negativas que o filme recebeu, Adina Pintilie praticamente desenvolveu um Filme terapêutico, uma sessão de terapia cinematográfica, exposta para toda uma platéia. Através de 3 personagens, o espectador presencia a intimidade exposta em toda usas suas nuance,s nua a crua. O filme lembra bastante o cinema austríaco de Ulrich Seidl, que chocou meio mundo com a sua trilogia do amor, e tantos outros filmes onde expõe o ser humano na pior de suas facetas: sordidez, fetiches, sexo doentio, relações apáticas e muito sofrimento movido à violência e desespero. Logo de início, acompanhamos Laura, uma das analisandas, recebendo um garoto de programa. Laura tem um sério problema: ela não consegue ser tocada. O rapaz toma banho, se masturba, tudo sob o olhar curioso de Laura, que também recebe um transexual, frequenta sessões de sadomasoquismo e tenta de alguma forma encontrar uma saída para a sua questão anti-social. Tomas tem uma doença que fez com que seu corpo não tenha nenhum pelo. Ele faz sessão de terapia com Cristian, um homem que possui uma distrofia muscular na espinha e por isso, tem o corpo totalmente deformado. Tomas faz exercícios de em dupla com Cristian, mas não consegue esconder a sua aversão ao corpo do colega. Po sua vez, Cristian frequenta uma orgia, e faz sexo com sua namorada em frente das câmera.s Durante mais de 2 horas, a câmera de Adina faz o papel do terapeuta: é um filme frio, com um enorme distanciamento emotivo. A própria cineasta Adina participa, conversando com Laura e dando uma de analista. Difícil rotular o filme: é um documentário? é uma ficção? Achei o filme curioso, mas talvez o prêmio de melhor filme em Berlin tenha sido dado mais pela sua ousadia e vontade de chocar, do que pelas suas qualidades em si. Após uma hora de projeção, tudo sôa repetitivo. Como sessão de terapia, é um saco. Talvez melhor seja assistir a um filme de Bergman.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Amor até as cinzas

"Jiang hu er nv/Ash is purest white", de Jia Zhang-Ke (2018) O Cineasta chinês mais premiado da atualidade, Jia Zheng-Ke, autor das obras-primas "Em busca da vida", "Um toque de pecado", "As montanhas se separam", e tema do documentário de Walter Salles, fã confesso. concorreu em Cannes 2018. Como sempre, Zheng-Ke trabalha com sua atriz fetiche e esposa, Zhao Tao, e escalou também o excelente ator Fan Liao, premiado em Berlin Melhor ator pelo policial "Carvão negro, gelo fino". O filme fala sobre temas comuns à filmografia de Zheng-Ke: a transformação da China contemporânea, tanto geograficamente, quanto culturalmente. Solidão, amores trágicos, a contradição de valores e costumes milenares com contemporâneos. A China é grande, e Zheng-Ke sempre mostra isso em seus filmes, seja nas paisagens grandiosas, quanto na sensação que o personagem está solitário, mesmo que caminhando ao lado de centenas de pessoas. Qiao namora o mafioso Bin. Em determinada noite, ela o defende de ser morto por gangue rival, e acaba sendo presa por porte de arma. Interrogada de quem é a arma ( que pertence a Bin), ela mente e diz que é dela, para poder defender o amado. Cinco anos presa Quiao é solta e quer ir em busca de Bin, que sumiu e que não foi visitá-la na prisão. Com a fotografia do francês Eric Gautier, de "Na natureza selvagem" e "Diários da motocicleta", o filme emociona, e tem uma cena de luta fantástica. A história de amor e lealdade de Quiao a Bin ganha contornos trágicos, e a parte final, mesmo inferior ao início do filme, é belamente triste. Um dos elementos que mais amo no cinema de Zheng-Ke é o uso da trilha sonora, repleta de clássicos dos anos 70 e 80. Em "As montanhas se separam", "Go west", do Pet Shop Boys toca várias vezes. Aqui, "Ymca", do Village People", traz uma cena maravilhosa que acontece na boite.

Vida selvagem

"Wildlife", de Paul Dano (2018) Adaptação do livro escrito por Richard Ford, "Vida selvagem" foi co-escrito e dirigido por Paul Dano, que aqui estréia na direção de longa. Paul Dano é um dos atores mais interessantes e talentosos a surgir no cinema independente americano, em filmes como "Sangue negro" e "A pequena Miss Sunshine". A sua direção é absurdamente competente e inteligente, favorecendo planos estáticos para narrar a triste história de uma família em vias de rompimento na América de 1960. O filme é todo pelo ponto de vista de Joe (Ed Oxenbould, magnético), um rapaz de 14 anos, filho de Jerry (Jake Gyllenhaal) e Jeanette (Carey Mullighan). Joe é um bom rapaz: ele é honesto, não mente, e tem seu pai como um herói. Mas Jake perde o emprego, e desestrutura o orçamento da casa. Sua esposa Jeanette decide procurar trabalho, uma vez que Jake ganhou uma postura apática e não procura trabalho. Jake tem sue orgulho ferido quando Jeanette arruma um trabalho como treinadora em uma piscina. Jake decide se alistar para combater incêndio na floresta, e sai de casa, deixando esposa e filho à própria sorte. Com um trabalho fenomenal de performance do trio principal, o filme também tem uma fotografia extraordinária, de Diego Garcia, que fotografou "Boi neon" e "Cemitério do esplendor". Paul Dano tem total domínio sobre sua história e seus atores. É um filme magistral, doloroso, inquietante, e que me remeteu ao clássico de Ang Lee, "Tempestade de gelo". A cena final, da foto, é algo avassaladoramente bela. O filme concorreu em Cannes 2018, na Mostra Camera de Ouro, e participou de vários Festivais.

A professora do jardim de infância

“The kindengarten teacher”, de Sara Colangelo (2018) Refilmagem de um drama homônimo israelense, essa produção independente americana foi exibida em Toronto 2018 e traz uma performance arrebatadora de Maggie Gyllenhaal, no papel da professora do jardim de infância Lisa. De vida apática, com um casamento sem sal e com dois filhos adolescentes que não lhe dão a mínima, Lisa frequenta um curso de poesia, administrado por Simon (Gael Garcia Bernal). As suas poesias sofrem críticas do professor. Um dia, ela percebe que seu aluno de 5 anos, Jimmy, está declamando uma poesia escrita por ele. Lisa anota e na sua sala de aula, ela diz que a poesia é sua. Tanto Simon quanto os outros alunos se impressionam com a qualidade do poema. Lisa começa então a estimular Jimmy a escrever poesias e as assume como suas, tornando a relação doentia e obsessiva. Com excelente atuação de Maggie e o pequeno ator que interpreta Jimmy, é um drama lento, mas que possui um roteiro aflitivo, aonde o espectador fica aguardando alguma tragédia iminente. Bela reflexão sobre relação professores e alunos, adultos e crianças.

Bohemian Rapshody- A história de Freddie Mercury

"Bohemian Rapshody", de Bryan Singer (2018) Os bastidores de "Bohemian Rapsodhy" ganharam a mídia antes mesmo do filme ficar pronto. O Ator Sacha Baron foi substituído por Rami Malek; rumores de desavenças entre o Cineasta Bryan SInger e o ator Rami Malek culminou na demissão de Singer; e quando o trailer oficial saiu, muita gente reclamou que o filme e a homossexualidade de Freddie. Agora, com o filme finalmente lançado, dá para afirmar: que filmaço! Emocionante, e responsável por lágrimas e aplausos da platéia no final. O filme segue a trajetória de Freddy Mercury desde o ano de 1970, quando ele trabalhava no aeroporto despachando malas do avião, até seu encontro com a banda com quem formaria o Queen, sua relação com sua família paquistanesa, a descoberta da homossexualidade, a difícil relação com Big Bosses do show business; as crises com o seu grupo, a carreira solo e finalmente, em 1985, no famoso concerto que reuniu o grupo no Live Aid. A produção e a parte técnica é toda impecável. Não dá para saber exatamente o que Bryan Singer dirigiu, e o que sue fotógrafo deu continuidade. Mas o filme está todo coeso, com bela direção e caracterização do elenco, e Rami Malek dando um show. Impossível não bater os pés durante o filme todo, cantarolando as músicas chaves do grupo, e culminando com "we are the Champions". A música título é usada como metáfora da luta e da perseverança de Freddie e de seu grupo para vencer na vida através de batalhas árduas e a certeza de estarem dando o melhor de si.

domingo, 4 de novembro de 2018

A casa que Jack construiu

"The house that Jack built", de Lars Von Trier (2018) Uma cena de "A casa que Jack construiu" define a diferença cultural entre a França e o Brasil: Jack (Matt Dillon, arrebatador) empunha um rifle e mata duas crianças, acertando tiros em suas cabeças estourando seus miolos. Em Cannes onde o filme estreou em primeira mão, a platéia praticamente abandonou a sala do cinema nesse momento, em protesto contra a violência gratuita. Na sessão do cinema Odeon, abarrotado de espectadores, absolutamente nenhuma pessoa abandonou a sala. Não sei se a violência no País anestesiou as pessoas em relação à violência, mas todos assistiram ao filme do início ao fim, em atordoantes e angustiantes 155 minutos de cenas de torturas, facadas, espancamento, mutilação de seios, etc. Trier, que sempre foi acusado de misoginia em suas obra, aqui não é diferente: suas vítimas são em quase toda a totalidade, mulheres. O curioso é que na platéia, metade do público eram mulheres, e muitas amaram o filme. Definitivamente, Trier não tem a mínima preocupação em querer agradar seu público, que se mantém fiel, mesmo não gostando de muitos de seus filmes. E porquê as pessoas querem ver seus filmes: para presenciar cenas de sexo explícito e violência extrema? Quem é mais aterrorizante? Jack ou o público, que ri dos assassinatos? A estrutura narrativa é a mesma de "Ninfomaníaca": o protagonista relata para um ouvinte ( O poeta Eneida (Bruno Ganz), os seus assassinatos, divididos em 5 incidentes e um epílogo metafórico, A platéía presencia pelo menos 10 assassinatos bárbaros, elevados a um nivel de tortura psicológica insana. Mas metade do filme, são pensamentos filosóficos e intelectuais acerca das obras de arte. São cenas longas, até mesmo monótonas. Lembra muito o Cinema do inglês Peter Greenaway. Jack busca a sua grande Arte perfeita, ao mesmo tempo, que tenta construir sua casa, sem sucesso. A cena final, com a resolução da casa construída, é assustadora e Dantesca. Muita gente odiou o filme, outros o alçaram à condição de obra-prima. Espécie de pout pourri de sua filmografia ( inclusive , o filme tem um clip exibindo cenas de seus outros filmes), "A casa que Jack construiu" pode ser absurdamente longo, monótono, sádico, mas algo é inegável: Trier sabe como poucos, o Poder que tem em suas mãos, de manipular seu público e manter constantemente interesse em sua obra. O elenco, eclético, se entrega aos personagens polêmicos do filme, dando destaque a Uma Thurman, irreconhecível no papel da primeira vítima de Jack.

O sexo não compra o amor

"Boy culture", de Q. Allan Brocka (2006) Adaptação do livro de Matthew Rettenmund , "Boy culture', e que poderia perfeitamente ser montada como peça de teatro de temática LGBTQ+. Ambientado em Washington, o filme fala sobre gays em busca de amor. X (Derek Magyar) é um garoto de programa de alto n;ivel, e que possui uma cartela pequena de clientes exigentes e que pagam caro pelos seus serviços. Um desses clientes é Gregory, um idoso que contrata X não para fazer sexo, mas que ele lhe conte as aventuras sexuais de X . X divide seu apartamento com 2 roommates: Andrew, um jovem negro hetero, por quem X é apaixonado, e Joey, um gay afeminado que acabou de completar 18 anos e viciado em sexo. Apostando no aspecto romântico e melancólico da juventude sem perspectiva amorosa e profissional, o filme apresenta a cidade grande como um lugar que torna as pessoas solitárias e carentes. Mesmo tendo a sexualidade como tema, o Diretor Q. Alln Brocka não aposta em cenas de sexo, que são poucos e totalmente inofensivas. O roteiro poderia tornar os personagens mais carismáticos. O protagonista, apesar de bonito, não tem alma, e é um pé no saco.

Cine Hollyudi 2 - A chibata sideral

“Cine Hollyudi 2”, de Halder Gomes (2018) Continuação do sucesso "Cine Hollyudi", de 2012, e que explodiu na bilheteria do Ceará, justamente por ser um filme que fala a língua local. Com expressões divertidíssimas, Halder resgatou as comédias populares com um sabor bem regional, se utilizando de atores e comediantes que se identificaram com o tipo de humor caricato ( o padre, a mocinha, o vilão, o prefeito, o herói, o gay, etc) porém, com carisma e paixão que acabou passando por cima da questão do preconceito. Agora, em 2018, chega a continuação, começando pelo fechamento do cinema que a família de Francisgleydisson (Edmilson Filho) tanto lutou para inaugurar no filme original. A história se passa em 1980, 2 anos antes do lançamento de "Et", de Steven Spielberg. O roteiro sugere que a idéia do roteiro de "Et" veio por conta do que aconteceu na cidade onde moram Francisgleydisson, sua esposa Maria das Graças (Miriam Freeland) e seu filho, Francis (Ariclenes Barroso). Francisgleydissin não quer tentar vida nova na cidade grande, e portanto, decide escrever um roteiro e produzir um filme que mistura alienígenas e cangaceiros. O povo da cidade contribui com dinheiro, inclusive a amante do prefeito, Justina (Samantha Schmütz), que quer que seu sobrinho protagonize a história. Novamente apostando no dialeto local, o filme diverte e aposta na mesma fonte do filme anterior: a paixão pelo cinema, fazendo com que seus protagonistas se sacrifiquem para que a sétima arte não morra. O filme ainda cutuca os detratores da Cultura e da ARte, através da personagem de Samantha. Os efeitos, toscos e totalmente B, são um prato cheio para os espectadores nerds que bebem na fonte do "quanto pior melhor". O elenco, gigante e talentoso, é o ponto alto da produção, tendo espaço também para Gorete Milagres, Chico Diaz, Milhem Cortaz e muitos outros.

sábado, 3 de novembro de 2018

Caos

"Capernaum", de Nadine Labaki (2018) O título original, "Capernaum", tem um sentido bíblico: situado no norte do Mar da Galiléia, foi uma das residências de Jesus Cristo. Em português, "Cafarnaum", tem o significado de lugar de desordem e do caos. No filme da premiada Cineasta libanesa Nadine Labaki, vencedor do Grande prêmio do Juri e do Prêmio ecumênico no Festival de Cannes 2018, Cafarnaum estaria localizado como Beirute, a capital do Líbano. Ali, mora Zain ( um ator mirim extraordinário, lembrando Jean Pierre Leaud em "Os incompreendidos", de Truffaut, por conta de seu grande carisma e espontaneidade.). Logo na primeira cena, somos apresentados a esse menino de 12 anos. que está preso e algemado. Descobrimos que ele apunhalou um homem e que abriu um processo contra os seus pais, por terem dado vida à ele. O filme volta ao tempo, e acompanhamos o dia a dia de Zain: sua relação com seus pais tiranos, que exploram o trabalho infantil dele e de seus irmãos; a sua grande paixão por sua irmã, que acaba sendo vendida a um comerciante e o faz fugir de casa; e a amizade com a refugiada síria Rahil e seu bebê Yonas. Impossível não se lembrar de "Pixote" ao longo do filme. O mundo cão ao qual somos apresentados, cenas muito cruas, violentas, dramáticas e aterrorizantes. Não existe sopro de esperança ao longo da projeção. Nadine dirige tudo com muita firmeza, sensibilidade e claro, fazendo uma forte denúncia social de seu País. O elenco infantil, todo de não atores, é algo de impressionante. A cena final, de cortar o coração. Preparem-se para chorar.

O peso de um passado

"Destroyer", de Karin Kusama (2018) Americana de origem asiática, a Cineasta Karin Kusama é uma adepta do cinema de gênero. Ela dirigiu o filme de ação futurista com Charlize Theron "Æon Flux", depois o terror "O convite" e agora, o thriller "O peso de um passado", que concorreu no Festival de Londres e em Toronto. Para a platéia, o filme será lembrado como o filme que desconstruiu a atriz Nicole Kidman: aqui, ela está com a pele seca, olhos fundos e com olheiras, aparência literalmente destruída, como o título sugere. Por conta de uma ação policial que não saiu como deveria, a detetive Erin Bell se torna uma mulher depressiva, se afastando da família e de amigos. Apenas a rotina na polícia se mantém, mas de forma apática. Um dia, Erin é chamada para um registro policial, onde um morto aparece. A partir daí, o filme se desconstrói, e mais não dá para falar, para não estragar o desfecho arrebatador e o plot twist de fazer gritar no cinema. Muita gente reclamou da maquiagem de Nicole: falaram da maquiagem mal feita, da peruca fake. Mas é inegável a entrega da atriz para o personagem. Nicole, curiosamente, protagoniza a segunda cena de masturbação em um filme: em "O Segredo do cervo sagrado", ela também masturba um homem em troca de informações. Trilha sonora angustiante e algumas cenas antológicas, como a do assalto ao banco.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

As viúvas

"Widows", de Steve McQueen (2018) Co-escrito pelo cineasta inglês Steve McQueen, adaptado do livro de Lynda La Plante, "As viúvas" é um explosivo drama de ação, repleto de reviravoltas de fazer gritar na sala do cinema. Em determinado momento do filme, é praticamente impossível não haver um comentário geral dos espectadores, ainda com o filme em projeção. Aquele plot twist de fazer Shayamalan bater palmas! Drama que apresenta personagens que precisam se vender à corrupção e ao crime para poder sobreviver na sociedade atual, seja branco, negro, latino, todos querem seu lugar no mundo com um mínimo de dignidade para criar seus filhos. No prólogo, o filme apresenta uma quadrilha que pratica um assalto: Liam Neeson, personagem casado com a professora Veronica (Viola Davis), é o chefe do bando. O assalto dá errado e todos morrem. Um político corrupto procura Veronica e cobra dela os 2 milhões do assalto que queimaram no fogo do acidente de carro. Veronica tem pouco tempo para tentar arrumar essa grana, e conta com a ajuda das outras 3 viúvas para ajudarem ela a praticar um rime e assim, pagar as dívidas de seus maridos. Tenso, muito bem dirigido, com ótimas cenas de ação, diálogos ferinos e com a ficha técnica de alto nível: fotografia, edição, edição de som, tudo foda. Mas é o elenco, em seu esplendor, que arrebata. É um cast triunfal para qualquer Cineasta: além de Villa Davis e Liam Neeson, tem participações de Jackie Weaver, Colin Farrel, Robert Duvall e Daniel Kaluuya, o protagonista de "Corra!". Claro, as outras atrizes também arrebentam, sem exceção. Para quem curte filme com protagonistas que botam pra quebrar e são duras na queda, "As viúvas" é um filme mega imperdivel.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Um homem sentado no corredor

"Um homem sentado no corredor", de Felipe André Silva (2017) Segundo longa dirigido pelo pernambucano Felipe André Silva, financiado através de um coletivo e realizado em condições de baixíssimo orçamento. Felipe, que também escreveu o roteiro, se auto-intitula um Cineasta buscando o seu lugar na inclusão: Gay, negro, jovem, e com uma linguagem própria na narrativa cinematográfica. Felipe quer falar de sua geração: na faixa dos 20 a 30 anos, os personagens buscam a sua sexualidade, o seu espaço profissional. O filme começa com um grupo teatral ensaiando através de exercícios físicos e de improviso. A partir daí, o filme acompanha 3 histórias: a relação entre 2 rapazes que descobrem a sua homossexualidade; um outro casal gay, mais maduro, e a rotina que envolve exercícios de improviso e a vida fora dos palcos; e uma atriz que tenta descobrir o seu lugar no mundo. são todos classe média, todos em conflito com a vida, todos de certa forma, querendo gritar para o mundo. O filme tem um registro naturalista nas interpretações, e é fácil identificar o improviso. Talvez o excesso dessa naturalidade tenha ofuscado o roteiro. As situações são muito soltas, sem um conflito, apenas acompanhamos os pequenos acontecimentos em qualquer tipo de clímax dos personagens. A melhor história é a dos rapazes, filmado em longos planos, e entre um flerte e outro totalmente constrangidos, se entregam aos prazeres do sexo. O filme foi exibido em alguns festivais, entre eles a Mostra do Filem livre.