quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Cavaleiro de copas

"Knight of cups", de Terrence Malick (2015) Exibido em Berlin, "Cavaleiro de copas" parece fazer parte de uma trilogia composta por " A árvore da vida" e " Amor pleno". Digo isso porque desde sua Palma de Ouro em Cannes, ele vem se repetindo na forma e conteúdo. Lentes grandes angulares, câmera na mão, conteúdo existencialista e metafísico, espiritualismo, belíssimas locações registradas no quadro mais aberto que puder, música clássica, personagens em constante movimento e sem rumo, quase inexistência de diálogos, a busca pelo sentido da vida, narração em off do protagonista masculino. Aqui existe um dado a mais: o vazio do Universo cinematográfico, os excessos e as festas intermináveis com gente bonita e muito glamour e luxúria. Malick faz a sua homenagem a " A grande beleza", de Sorrentino, que por sua vez ja homenageava Fellini de " La dolce Vita". Troquemos Roma por Los Angeles e Marcello Mastroiani por Christian Bale no papel de um roteirista rico e famoso, mas em crise existencial. Assim como " 8 1/2" também de Fellini, o personagem de Bale desfila por mulheres que passaram pela sua vida: Natalie Portman, Cate Blanchett, Teresa Wright, Imoge Poots e Freida Pinto. O filme é um desfilar de imagens belíssimas registradas pelo Mago Emmanuel Lubezki, que fotografa paisagens como ninguém. Los Angeles e Las Vegas pelas suas lentes parecem um sonho. Mas é um filme vazio, muito vazio. O que ficou no final das contas? Uma vontade terrivel de conhecer Los Angeles e ter dinheiro para frequentar tantos lugares sensacionais. Claro, acompanhado por Christian Bale para bater altos papos, porque aqui ele só filosofou. Malick , curiosamente, tomou gosto para filmar pois até a pouco tempo ele levava anos para fazer um filme e agora quase todo ano ele tá filmando um. O título se refere a uma das cartas do fator: valete de copas é o apaixonado, romântico. O filme é dividido por títulos dos arcanos do Tarot como Morte, Lua, enforcado, etc. Nota: 6

O diário de uma garota normal

"The diary of a teenage girl", de Marielle Heller (2015) Produção independente, exibida em Sundance 2015, e baseada na Graphic Novel de Phoebe Gloeckner. A atriz e cineasta Marielle Heller comprou os direitos da obra e atuou como atriz no teatro, mas não ficou satisfeita enquanto não filmasse a obra. O filme narrar em tom de humor e drama a história de Minnie ( a atriz inglesa Bel Powley, na época com 23 anos), uma adolescente de 15 anos que um belo dia, descobre que está sexualmente pronta para fazer sexo. O seu alvo é o namorado de sua mãe Charlotte ( Kristen Wiig). O namorado, Monroe ( Alexander Skarsgård, de "True Blood) também está a fim de transar com a menina. Além dessa relação, Minnie experimenta drogas, sexo com os colegas da escola e todos os tipos de loucura que São Francisco dos anos 70 permitir. Eu amo filmes independentes americanos quando têm aquele look cinematográfico que usa e abusa dos "flares" na fotografia. Além disso, a trilha sonora é super cool. Nao conheço a graphic novel, mas não fiquei tão empolgado assim com a história, achei lugar comum. Mas o que me incomodou mesmo foi a atriz Bel Powley. Ela é ótima, mas como personagem, ela me parece muito mais velha do que Minnie necessitaria aparentar. Me lembrei de imediato aquele filme de suspense, "A Órfã", quando uma adulta precisa aparentar bem menos idade do que ela tem. E a franjinha não ajudou em nada. De qualquer forma, é um filme gostoso de ver, mas que perde força lá pelo terço final, quando um tom mais moralista permeia o filme. As animações são bacanas e contribuem para tornar o filme mais charmoso. Nota: 7

Joy: o Nome do Sucesso

"Joy", de David O. Russell (2015) Diretor de "Trapaça" e "O lado bom da vida", há quem veja em David O. Russell um Cineasta superestimado. Boa parte de seus filmes concorrem aos prêmios principais do Oscar, e com "Joy" não deverá ser diferente. Goste-se ou não do seu estilo narrativo, 2 coisas não podem falar mal dele: a sua Direção de Atores, e a qualidade técnica dos filmes. É incrível a sua capacidade de trazer um equilíbrio com os atores de seus filmes. Ele somente trabalha com estrelas. Aqui em "Joy", temos Jennifer Lawrence, sua musa, Bradley Cooper, o seu muso, Robert de Niro, Diane Ladd, Isabella Rosselini e Virginia Madsen, irreconhecível para quem a assistiu no terror dos anos 90 "The candyman". "Joy"faz parte daquele tipo de filme que americano adora: são os filmes do "faça sucesso por sua própria conta e nos conte a sua história", que já rendeu os ótimos "À procura da felicidade" e "Na roda da fortuna", dos irmãos Coen, sobre o inventor do bambolê. "Joy", ambientado nos anos 90, conta a história de Joy, uma mulher de família desestruturada, que luta para sobreviver. Um dia, ela desenha o que viria a ser o famoso esfregão que vendeu milhares de peças nos Estados Unidos e a fez ficar milionária. Mas até que isso acontecesse, ela teve que lutar contra a sua própria família que cobrava dívidas por empréstimo, direitos de patente e a falta de visibilidade. Em alguns momentos, o filme até parece aqueles filmes italianos dos anos 70, ao mostrar uma família totalmente bizarra. Existem até mesmo cenas oniricas que podiam remeter a um sonho Felliniano. Jennifer Lawrence parece ser jovem no papel de Joy, mas como é a maior estrela de Hollywood hoje em dia, as pessoas ignoram o fato. De Niro brinca com o seu personagem, Isabella Rosselini se diverte e Bradley Cooper cumpre o seu papel em uma participação especial. Mas quem rouba o filme são duas atrizes fantásticas: Virginia Madsen e Diane Ladd, que conferem humor e dramaticidade aos seus papéis. O roteiro em si é previsível, mas um filme baseado em uma história real de alguém de muito sucesso não poderia ser diferente. Ótima trilha sonora e fotografia. Nota: 7

Amigas para sempre

"Beaches", de Garry Marshal (1988) Essa comédia dramática é um clássico absoluto da sessão da tarde e filme preferido de 9 entre 10 quarentões que curtem chorar no cinema. Dirigido pelo mesmo Cineasta de "Uma linda mulher", "Amigas para sempre'é um veículo perfeito para o talento de Bette Midler: excelente cantora, comediante e atriz dramática, ela tem a grande chance de mostrar toda a sua verve nesse emocionante filme que não tem o mínimo pudor e vergonha de arrancar la grimas do espectador e provocar vários golpes baixos. A história é simples: 2 meninas se conhecem numa praia em Atlantic City: a maluquete CeCe ( que vem a se tornar Bette Midler), uma menina que sonha em ser estrela da Broadway, e Hillary ( futuramente Barbara Hershey), uma menina rica porém de pais ausentes. As duas mantém amizade através de cartas, até qe, crescidas, Hillary vem morar com Cece, cansada da vida entediante que leva. Juntas, elas dividem amor, ódio e intriga entre elas, mas sempre amparadas pela amizade que uma nutre pela outra. O filme é previsível, mas os diálogos e o talento das duas atrizes, em especial Bette Midler, e idem as meninas que as interpretam, fazem o espectador grudar os olhos na tela. O filme é cheio de momentos divertidíssimos, todos protagonizados por Midler, uma primorosa comediante que tem um timing perfeito. Para os atores qe buscam referência de comédia, assistir a performance de Midler é uma Master Class. A música tema, "Wing beneath my wings" se tornou clássica. Nota: 9

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A terra e a sombra

"La tierra y la sombra", de César Augusto Acevedo (2015) Premiado com a "Camera D'or" no Festival de Cannes 2015, concedido a diretores de filmes estreantes, o colombiano me lembrou bastante o filme bósnio "Um episódio na vida de um catador de lixo", que venceu em Berlin o Prêmio do Juri e de melhor ator. Ambos os filmes buscam o olhar documental sobe a vida real de personagens vividos por pessoas comuns e não atores. No caso de "A terra e a sombra", acompanhamos o drama de uma família de cortadores de cena que precisa lidar com a eminente morte do filho, doente por conta das constantes queimadas da plantação da cana e que prejudicaram os seus pulmões. O patriarca volta ao local 12 anos depois de ter abandonado tudo. Descobrimos depois que a sua fuga foi porquê ele não suportava ver a região, que outrora era de laranjais, ser transformada em plantação de cana. O filme discute a questão da memória e o que vai sendo apagado. Além disso, o filme reserva um espaço para discussão social, através da história dos cortadores de cana que estão sem receber pagamento e resolvem fazer greve. Tendo em sua boa parte não atores, o cineasta convocou a preparadora brasileira Fatima Toledo, que é especialista em não-atores, para trabalhar o emocional deles. É um filme bonito, rigorosamente formal em termos de enquadramento. A narrativa é lenta, fria, e para os não cinéfilos é uma experiência cansativa. Para quem busca um filme que reserva espaço para um olhar documental para o terceiro mundo, desprovido de conforto, é uma boa pedida. Um filme triste e de perspectiva cruel. Nota: 7

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Para o outro lado

"Kishibe no tabi", de Kiyoshi Kurosawa (2015) Vencedor do Prêmio de Melhor Direção na Mostra "Um certo olhar" do Festival de Cannes 2015, "Para o outro lado" é um drama que pode ser visto pelo olhar do espiritualismo. Uma mulher, Mizuki, porfessora de piano, passa seus dias infeliz e sem gosto para a vida. Seu marido, Yusuke, desapareceu a 3 anos, dado como morto ao sumir no mar. Um dia, ao preparar uma comida, seu marido surge do nada. Ele age como se nada tivesse acontecido, e passa a querer conviver normalmente com Mizuki. Ela entende que ele está morto e que está convivendo com o espírito do marido, mas ela toma proveito da situação para poder colocar em dia as questões que ficaram conflitadas em sua vida. Yusuke leva Mizuki para conhecer outras pessoas que estão na mesma situação que a dele, e que tenham a chance de reconstruir as suas vidas desoladas após a perda do ente querido. Drama intimista, longo ( 127 minutos) e com ritmo extremamente lento. o filme de Kiyoshi Kurosawa se baseia numa boa premissa de que podemos repensar as nossas vidas e dar chance para que ela tome um rumo novo e se coloque no eixo. Através da metáfora dos mortos que voltam à vida para ajudar os que amam, o filme emociona sem sentimentalismo, se uilizando de bela fotografia e efeitos bem discretos. É um filme difícil de acompanhar pela sua frieza e monotonia. Mas os atores são ótimos e pela beleza plástica vale acompanhar. Curioso que o cineasta Kiyoshi Kurosawa tenha começado a sua carreira fazendo filmes de terror e agora resolveu investir em dramas com contexto sobrenatural, e somente aí ele passou a ser reconhecido pela crítica. Nota: 7

domingo, 27 de dezembro de 2015

Umberto D

"Umberto D", de Vittorio de Sica (1952) Um dos grandes clássicos do Cinema neo-realista italiano, "Umberto D", de 1952, concorreu ao Oscar de melhor roteiro. O filme narra a história de Umberto Domenico (Carlo Battisti), funcionário público aposentado que está com dívidas porquê sua aposentadoria não consegue saldar as suas contas. Ameaçado de despejo, Umberto tem como único alento o seu cachorro inseparável, Flicke, e a empregada da pensão aonde mora, Maria, que está grávida e com medo que sua patroa a mande embora. O filme trabalha os temas da figura do homem comum marginalizado pela sociedade. Umberto é um homem muito orgulhoso, e por conta disso, não consegue se fazer ouvir perante a sua tragédia. é um lindo filme que trabalha com metáforas sobre um mundo em constante desagravo, conduzido por um individualismo que apaga o humanismo que ainda resta no coração de algumas pessoas boas, que sucumbem perante a necessidade de sobreviver. Cenas antológicas e comoventes, que fazem o espectador apertar o coração. No filme, de Sica trabalha com vários não-atores, entre eles o protagonista Carlo Battisti, que é um funcionário público de verdade,. Nota: 9

Creed- Nascido para lutar

"Creed", de Ryan Coogler (2015) Quem iria imaginar que um filme da saga "Rocky" iria fazer os marmanjos todos chorarem? E não somente uma vez, mas várias vezes ao longo do filme a narrativa provoca aquela sensação de dor no coração. Muito desse sentimentalismo está mesclado à sensação de nostalgia e da inevitável realidade de que o tempo avança para todos, até mesmo para Stallone. Rocky envelheceu, e junto dele, o seu público. Por isso é impossível não se emocionar. Nesse mesmo ano, na saga de "O exterminador de futuro", o roteiro também trabalhava com a questão do envelhecimento do personagem de Schwarzenegger, e consequentemente, do seu ator. Um dos grandes acertos da produção de "Creed"foi ter convocado a dupla do excelente drama independente "Fruitvalley Station": O cineasta Ryan Coogler e o ator Michael B Jordan. Jordan tem aquela vitalidade e o frescor do outrora jovem Denzel Washington quando estava começando a carreira. Muito talentoso, não tenho dúvidas da grandiosidade que será sua carreira. O Cineasta Ryan Coogler também imprime a um roteiro, que ele mesmo escreveu, com muita garra e destreza. O filme possui adrenalina e sentimentalismo dosados para todos os públicos. Não esperem nenhuma ousadia na história: a gente sabe tudo, tudinho o que vai acontecer, do inicio ao fim. Talvez, a exceção seja o personagem de Rocky Balboa e o seu destino. Mas quanto ao tema da redenção, está lá intacto: esse foi o grande fator do sucesso de toda a saga de Rocky: transmitir ao espectador o lema da motivação, e que somente com muita garra e sacrifício, alguém poderá alcançar o seu objetivo. Não há espectador que não se identifique com essa mensagem. O elenco todo está excelente, e Stallone prova que a idade só lhe faz bem: os seus olhares, o tempo de cena, é tudo muito bonito de se ver. Seu personagem é carisma puto. O que me incomodou foi a longa duração do filme, 131 minutos. Levem seus lenços e assistam com o coração na mão. Nota: 8

sábado, 26 de dezembro de 2015

Quatro luas

"Cuatro lunas", de Sergio Tovar Velarde (2014) Dirigido e escrito pelo cineasta mexicano Sergio Tovar Velarde, esse drama premiado é composto de 4 histórias, cada uma representando uma fase da lua. Cada fase é protagonizada por um personagem gay de determinada idade, e todas as histórias giram em torno da aceitação sexual. Na 1a história, um menino de 11 anos enrustido sente atração pelo seu primo, mas descobre que ele é homofóbico e acaba sofrendo bullying. Na 2a história, 2 amigos heteros na faixa dos 20 anos se reencontram e se descobrem apaixonados em um momento de fraqueza emocional. Na 3a história, um casal gay na faixa dos 35 anos tem uma crise conjugal quando uma das partes acusa o outro de ser afeminado e acaba se afastando dele. Na 4a e última história, um professor enrustido de 60 anos se aposenta. Ele pega o dinheiro que iria dar para o presente de natal de seus netos e resolve pagar um garoto de programa na sauna gay que ele frequenta. Como todo filme mexicano, aqui o melodrama dá as caras. Se não fosse o bom trabalho de todos os atores, o filme não teria metade da sua qualidade artística. eles conferem dignidade a personagens sofredores, que vez ou outra se pegam chorando. Alternando momentos de drama com algum toque de humor, o filme emociona em várias cenas. Cada episódio reserva um momento clímax emotivo. Vez ou outra a narrativa dá uma resvalada para o puro novelão mexicano, mas esse tom "over" até diverte. Por contar tantas histórias, o filme acaba ficando longo. Poderia ter dado uma enxugada em cada episódio, mesmo porquê não são histórias tão extraordinárias assim e falam sobre momentos de crise dos personagens. No geral, é um filme que merece ser conferido, tanto pelo esmero da produção, quanto pela ousadia da direção, que não economizou em cenas de nudez frontal e de cenas de sexo. Nota: 7

Getting Go, The Go Doc project

"Getting Go, The Go Doc Project", de Cory Krueckeberg (2013) Produção independente financiado pelo Crowdfunding "Kickstarter", é um falso documentário sobre um jovem blogueiro e a sua obsessão por um stripper. Doc é um blogueiro virgem no alto de seus 20 anos. ele possui várias redes sociais e todas as noites ele tecla no chat com os seus seguidores, inclusive se masturbando para eles. Doc tem uma grande obsessão sexual: o Stripper Go, por quem ele nutre intenso encantamento sexual. Doc resolve escrever um email para Go, e para a sua surpresa, ele responde o seu pedido: fazer um documentário sobre ele, seguindo-o para vários lugares e entrevistando ele. Claro, o documentário é um pretexto para Doc se aproximar de Go. Go se mostra extremamente sedutor e simpático e entre os 2 acaba rolando um namoro. Divertido e encantador "mockumentary", que tem no carisma da dupla de atores o grande chamariz para se assistir ao filme. Tanner Cohen, como o documentarista, e Matthew Camp, um go boy de verdade mas que tem uma espontaneidade incrível para quem não é ator. Juntos, acompanhamos um depoimento que, se não é nada inovador sobre o tema, expõe o drama de alguém que quer ser apenas uma pessoa feliz, seja na vida pessoal, seja na profissão que escolheu para si. Uma produção baratíssima, que une imagens de Iphone com a de uma câmera Hd simples, e 2 únicos atores. O resto é roteiro e uma boa idéia e concepção. Para quem reclama que não tem dinheiro para nada, o filme é um bom exemplo de fazer barato e com o mínimo de dignidade. O filme poderia ser mais curto, pois chega uma hora que ele fica repetitivo. Pelo menos a trilha sonora bota o clima lá em cima toda a vez que parece que vai ficar chato. O filme venceu vários prêmios de melhor filme LGBT em Festivais mundo afora. Nota: 7

As sufragistas

"Suffragette", de Sarah Gavron (2015) Escrito pela roteirista Abi Morgan, responsável por escrever "A dama de ferro" e "Shame", "As sufragistas" é um drama histórico qye retrata o movimento femnino que tomou conta da Inglaterra no início do Séc XX. No caso do filme, as mulheres já brigavam informalmente pelo direito ao voto, mas foi em 1912 que o movimento tomou corpo na Inglaterra. Um grupo de mulheres feministas, chamadas de "Sufragistas", comandavam ataques terroristas a lugares públicos em Londres, para chamar a atenção da opinião pública diante do papel da mulher na sociedade: sem direito a voto, sem direito à guarda do filho, sem igualdade de direitos no trabalho e trabalhando mais e ganhando menos que os homens. O filme alterna personagens ficcionais e reais para contar a história de mulheres que começaram a fazer parte do grupo e que sofreram represália da polícia e do governo, que esnobavam e depreciavam essas mulheres. os maridos, envergonhados, as reprimiam em casa e no trabalho os patrões também as condenavam. Entre as personagens fictícias, estão Maud Watts ( Carey Mullighan), esposa e mãe de uma criança que trabalha intensamente em uma lavanderia. Sentindo-se descriminada, ela é convocada por uma colega de trabalho, Violet, e por uma famacêutica, Edith (Helena Bonham Carter), cujo marido apoia o movimento sufragista, a acompanhar o grupo nas ruas. O ponto alto é quando elas ouvem o discurso de Emmeline Pankhurst ( Meryl Streep), que aparece em público escondida para não ser presa pela polícia. Com excelente direção de arte e trilha do Mestre Alexandre Desplat, o filme tem uma fotografia muito escura que pode incomodar, e uma câmera na mão em excesso. O elenco é o grande chamariz desse filme, todas ótimas, mas a decepção pode ser Meryl Streep, que aparece apenas em uma única cena. Mas precisaria uma atriz de seu porte para dar dimensão da importância da personagem. É um filme burocrático, de ritmo lento, bem naquele estilo de filme que narra um fato histórico. Interessante que o filme surja em um momento onde o movimento feminista cresce bastante nas redes sociais. Mas vários grupos fizeram queixas ao filme por não incluir mulheres negras no movimento. Difícil agradar a todo mundo quando se faz um trabalho artístico. Os créditos finais são bem interessantes, mostrando a data que cada País aderiu ao direito do voto feminino na sua legislação. Nota: 7

Mountains may depart

"Mountains may depart", de Jia Zhang Ke (2015) Faltou muito pouco para esse 8o filme de Jia Zhang Ke ser uma obra-prima. Exibido em Cannes 2015, o filme recebeu grandes elogios, mas teve gente que ficou incomodado com o caráter ambicioso da obra, que apresenta em 3 épocas distintas um olhar sobre o antigo e o novo, a tradição e a perda da identidade. A globalização sempre foi um tema caro aos filmes de Zhang Ke, que até mesmo no excelente documentário de Walter Salles sobre a sua pessoa, faz questão de falar sobre a importância da preservação da memória. O filme começa com uma cena deliciosa e ao mesmo tempo melancólica onde a professora de dança Tao ( Zhao Tao, atriz e esposa de Zhang Ke) ensina uma coreografia exuberante ao som de "Go west", dos Pet Shop Boys. A letra da música já dá o tom da história que iremos acompanhar em mais de 2 horas: a solução está no exterior, na perda da identidade da cultura chinesa e a importação de valores capitalistas do mundo ocidental. O filme se passsa em 1999, 2014 e 2025. O que une as 3 histórias, além dos personagens, 'são 2 músicas: "Go west" e uma música romântica cantonesa. A história começa com um triângulo amoroso, ambientado em Fenyang, cidade-natal de Zhang Ke. Tao é objeto de desejo de 2 amigos: Zhang um novo rico e que se torna dono da mina aonde trabalha Liangzi, um homem sem grandes ambições. Tao acaba se casando com Zhang, e desgostoso, Lianzi vai embora. Já em 2014, rica e divorciada, Tao volta a morar em Fenyang, enquanto o sue filho, apelidado de "Dolar" pelo seu pai, vai morar com ele em Shanghai e estuda numa escola internacional. Em 205, a história acompanha a história de Dolar, que agora mora na Australia, fala inglês e desconhece a sua cultura e a sua mãe. O filme é um grande melodrama, mas daqueles que comovem pela sua habilidade em trabalhar os personagens de uma forma extremamente humana. Trabalhando com o seu fotógrafo de sempre, Yu Lik Wai, Zhang Ke explora as locações em planos gerais, como se engolisse os personagens. Visualmente e tecnicamente, o filme é um grande barato: cada época tem uma cor e um formato de tela distinto. Em 1999, o formato é 1:33 e usa cores fortes. Em 2014, a tela fica 1:85 e as cores já se tornam mais cinzas, melancólicas. Em 2025, nesse futuro projetado, e embientado na Austrália, a tela fica 2:35 e as cores estouradas. Fiquei muito impressionado pela forma de Zhang Ke filmar: planos longos, quase sem cortes, somente com uso de pans e travellings. Atores muito bem marcados em cena e um olhar extremamente preciso sobre o que realmente é importante ser mostrado para o espectador. Uma pena que a terceira parte não seja tão primorosa quanto as duas primeiras, muito por conta de Zhao Tao quase não aparecer e ser protagonizado pelo jovem ator que interpreta Dollar. E por falar em atores, o trio principal, que conduz as 2 primeiras partes, meu Deus!!!! Arrepiado com as performances e com a inteligência com a qual interpretam e vivem os seus personagens. A cena final é de uma beleza impressionante. Dá vontade de cair em prantos. Nota: 9

Angústia

"Anguish", de Sonny Mallhi (2015) Estréia do produtor de filmes de terror Sonny Mallhi na direção, ele também escreveu o roteiro, baseado em fatos reais. Uma jovem, Tess, e sua mãe, se mudam para uma pequena cidade. Desde criança Tess é diagnosticada como portadora de doença mental, e por conta disso é obrigada a ficar tomando remédios. Com a chegada na cidade, Tess passa a se comportar estranhamente, até que uma mulher, cuja filha morreu em acidente de trânsito, diz que a filha dela está querendo possuir o corpo de Tess. Elas descobrem então que Tess tem o poder se "receber" espíritos e que esse dom nasceu com ela. Produção independente com aquele narrativa de filme "indie" cool, mas que pretende ser também um filme de suspense e aí está o seu grande erro. Tivesse ficado apenas no drama psicológico, o filme seria bem mais interessante. Porém, ao querer incluir elementos de possessão e exorcismo, o filme perde a chance de ter um olhar diferenciado sobre outras centenas de filmes que tratam do mesmo assunto. Os produtores ficam alardeando que "Angústia" é o grande filme de terror moderno que segue a linha do já clássico "A corrente do mal". Nossa, uma pena lamentar que está muito, mas muito longe de qualquer comparação. Filme sem ritmo e narrativa sem amarras ao querer unir esses dois gêneros. O ponto alto é a boa atuação do trio feminino, e a fotografia. Nota: 5

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Macbeth: Ambição e poder

"Macbeth", de Justin Kurzel (2015) O cineasta australiano é o Diretor da adaptação cinematográfica de "Assassin's creed", também com Michael Fassbender, o Macbeth de sua versão para a tragédia de Shakespeare. Exibido na competição do Festival de Cannes 2015, o filme foi recebido com muita frieza pelos críticos. Na sessão que assisti no cinema, a platéia também recebeu com muito pouca empolgação esse verdadeiro show de estilização visual, que muito me lembrou "Melancolia", de Lars Von Triers, por conta da câmera lenta em super slow. Eu particularmente gostei bastante desse misto de teatro e coreografia da violência, repleta de imagens contruidas como se fossem pinturas em movimento tal a formalização dos enquadramentos e das marcações das pessoas na tela. Achei tudo muito bonito, e talvez tenha sido isso que afastou emocionalmente todo mundo do filme. Um show de fotografia, comandada por Adam Arkapaw, fotógrafo do seriado 'True detective" e do filme "reino animal". O elenco é um brilho eterno: Michael Fassbender e Marion Cotillard exploram com primor os seus personagens complexos, repletos de conflitos, ambição e vilania. O elenco secundário é formado pelo top do time inglês: Paddy Considine e David Thewlis são alguns dos que dão vigor ao filme. O filme é lento, subverte a história original de Shakesperare, o que irá provocar o terror dos puristas e principalmente, se utliiza do vocabulário original, ou seja, linguagem rebuscada de um inglês arcaico. Que ninguém espere a linguagem moderna de "Game of thrones". Aqui tudo é muito literário. "Macbeth" é um filme hermético, com uma embalagem de filme de ação e aventura. Para quem se permitir deixar levar pelo visual e pela narativa proposta do Diretor, bem provável que irá curtir. Nota: 8

Terror na ópera

"Opera", de Dario Argento (1987) Rodado em 87, esse suspense giallio de Argento tem como referência alguns filmes de Hitchcock, entre eles, "Os pássaros", de onde ele busca os ataques dos corvos durante uma apresentação da ópera "Macbeth", considerada de mau agouro para quem a monta. E indo em busca dessa tradição que Argento constrói uma das tramas mais bizarras e estapafúrdias que ele já escreveu. Praticamente quase o filme todo é uma maluquice só, e confesso, eu ri muito pela tosquice das cenas, que infelizmente ficaram datadas. As cenas de assassinato são até bem arquitetadas e estilizadas como manda a cartilha de Argento ( a do olho mágico é sensacional), mas nenhuma delas provoca tensão. O elenco é ruim, a direção de Argento é irregular e pasmem, o desfecho é inacreditável. Só vendo para acreditar. Eu caí na gargalhada. Mesmo assim, o filme diverte pelas intenções erradas, e vale como uma boa diversão para se assistir com a galera que curte um trash. Argento é Mestre, mas mesmo eles cometem gafes. Nota: 7

O regresso

"The revenant", de Alejandro Gonzalez Inarritu (2015) Por toda a sua existência, " O regresso" será lembrado pela cena do ataque do urso ao personagem de Leonardo diCaprio, Hugh Glass. Essa cena por si só já seria suficiente para dar o Oscar de direção a Inarritu e de atuação a diCaprio. Mas não: existem muitas outras cenas aonde o queixo do espectador cai, e cai, e cai e você fica pensando:" Meu Deus, a que nível do suportável esse diretor e esse ator chegaram para atingiram tal perfeição nas cenas?" Tudo no filme e' superlativo: além das já citadas direção e atuação de DiCaprio ( que fala uma meia dúzia de palavras no filme todo, atuando apenas com expressões faciais e o seu corpo) , a fotografia e câmera espetaculares do eterno colaborador Emmanuel Lubezki, que conferiu ao filme uma narrativa muito mais próxima aos filmes de Terrence Malick , inclusive porque o filme trabalha também com o tema da espiritualidade. A trilha sonora de Ryuichi Sakamoto, as locações impressionantes e um elenco primoroso apoiado por Tom Hardy como o vilão Fitzgerald e pelo brilhante ator inglês Domnhall Gleeson, de " Ex machina", no papel do Capitão. O filme se baseia na história real do aventureiro Hugh Glass no Sec XIX, que foi abandonado a própria sorte pelos seus companheiros , liderado por Fitzgerald, quando eles foram atacados por índios e no caso de Glass, atacado por um enorme urso. Glass, após enorme peregrinação entre a vida e a morte, lança o seu destino cruzado com a sede de vingança. Inarritu e Lubeski formam uma das duplas mais incríveis do atual cinema ( so comparando com Lubeski e outro mexicano, Alfonso Cuaron) e imprime além de um extremo vigor técnico e artístico, aquele olhar sobre a importância de se fazer um Cinema de sensações e que imprima um esforço de colaboração tanto de quem está na frente das câmeras, quanto atrás. Obra prima. Nota: 10

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Quatro moscas sobre veludo cinza

"Q"4 mosche di velluto grigio", de Dario Argento (1971) Terceiro filme que fecha a trilogia dos bichos do Mestre do terror Dario Argento. Realizado em 1971, mesmo ano de "O gato de nove caudas", o filme tem trilha sonora de Ennio Morricone, conectado com a música psicodélica da época. Um músico de uma banda de rock está sendo perseguido por um homem e o acaba matando acidentalmente. Um serial killer testemunha o crime e passa a chantagear o músico. Todos em sua volta acabam sendo assassinados, e o músico precisa descobrir urgente a identidade do assassino antes que mate mais gente. O mais fraco da trilogia, com uma trama fraca e ritmo lento, ainda assim o filme reserva algumas boas cenas estilizadas ao gosto de Argento, como na cena de um assassinato onde a vítima cai de uma escada, ou a cena final, de uma batida de carro. Uma cena de crime em um parque é bizarra, pois começa de dia e do nada a cena escurece. O elenco também é fraco e exagerado nas performances. O mais divertido da trama é quando um policial diz ser possível fotografar a retina da vítima, afirmando que a imagem do assassino estará congelado ali, sendo possível a sua identificação. Muito bom! hahaaAliás o disfarce do assassino, uma máscara de um boneco infantil, pode ter sido referência para a série "Jogos mortais" e o Jigsaw, tal a semelhança. Nota: 6

A verdade sobre Marlon Brando

"Listen to me Marlon", de Stevan Riley (2015) Documentário obrigatório a todos os Atores da face da terra, que precisam aprender porquê Marlon Brando foi considerado o maior Ator da história do cinema. O filme concorreu no Festival de Sundance 2015, mas perdeu para "Os irmãos Lobo". A vida de Marlon Brando é narrada pelo próprio: o diretor Stevan Riley decupou mais de 300 horas de áudio gravadas pelo prórpio. Marlon Brando fazia auto-hipnoses e dissertava sobre vários assuntos recorrentes em sua vida: carreira, filhos, vida, morte, proteção das causas sociais e raciais, família, etc. O filme começa com uma imagem em 3D de Marlon Brando, dizendo que hoje em dia por conta da computação gráfica chegará um dia aonde os atores não serão mais necessários. Pois é essa imagem em 3D de Brando que "narra" o filme, trazendo trechos de sua extensa filmografia e de entrevistas e fotos que vão desde a sua infância até o fim da vida. Brando nasceu em 1924 e faleceu em 2004. Sua vida sempre foi bastante tumultuada e desde a infância sofria em casa, com a mãe alcóolica e o pai violento. Mais tarde, adotado pela atriz e professora de um método de interpretação Stella Adler, ele aprendeu que aa vivência e a memória emotiva são peças fundamentais para o seu desenvolvimento como Ator. Esse método, apropriado de Stanislawsky, foi a base de toda a arte de atuação de Brando, contrariando as performances realizadas em Hollywood até então, que segundo as palavras de Brando, eram óbvias e pouco convincentes. O que importava agora, é a verdade das emoções, que devem ser vivenciadas pelo momento. Tudo o que você quiser saber sobre Marlon Brando está no filme, contado por ele mesmo: sua briga com Coppola em " Apocalipse now", o mesmo Coppola que o defendeu no papel de "O poderoso chefão", pois os produtores não o queriam. Brando fala do sucesso e também dos fracassos em sua carreira, e a briga que teve com o diretor de "O grande motim", que ele considerou uma das piores experiências que já teve. Imagens raríssimas e outras famosas como a da india que fez um discurso em seu lugar ao ganhar o Oscar por "O poderoso chefão", quando ele recusou receber o prêmio por conta da imagem que Hollywood fazia da comunidade indigena. No fim da vida, Brando ainda teve que lidar com a tragédia da morte de seus filhos. O filme é muito emocionante, e narrado pelo próprio Brando torna tudo muito especial e comovente. Um grande filme. Nota: 10

O gato de nove caudas

"Il gatto a nove code", de Dario Argento (1971) Segundo longa do Mestre do Giallio Dario Argento, que estreou no Cinema com a obra-prima "O pássaro das plumas de Cristal" de 1970 e agora, 1 ano depois lança a segunda parte de sua trilogia dos bichos, "O gato de nove caudas". O título se refere a um ditado popular, e aqui no filme faz referência a um caso insvestigativo com 9 peças, todas envolvendo estranhos assassinatos tendo um laboratório de ciências como ponto em comum. Um jornalista investiga os tais crimes, e a ele se junta um jornalista cego e a sua sobrinha, uma menina de 10 anos. Por estarem tentando descobrir o assassino, eles acabam sendo perseguidos pelo criminoso. Nesse filme, Argento ainda estava buscando o seu estilo narrativo famoso pela extrema violência estilizada. As cenas de assassinato, principalmente a do trem, é genial. Aqui, Argento abusa dos planos em ponto de vista do assassino, inclusive dando sempre closes de seu olho todas as vezes que ele surge. Vários sãos os possíveis assassinos, mas o que mais chama a atenção é a bizarrice da trama e das soluções usadas em várias cenas, principalmente no final. Mas mesmo Hitchcock, referência máxima de Argento, não ligava muito para verossimilhanças, o que mais interessa é entreter o público. E isso Argento faz com muita destreza. A trilha sonora de Ennio Morricone é sensacional. Nota: 7

Já estou com saudades

"Miss you alreay", de Catherine Hardwicke (2015) Qualquer espectador na faixa dos 40 anos se lembrará do clássico drama " Amigas para sempre", com Bette Midler e Barbara Hershey interpretando duas melhores amigas que viviam entre amores e turras desde crianças até a fase adulta, quando uma delas descobre estar com câncer terminal e elas precisam rever as diferenças. Assim é " Já estou com saudades", dirigido por Catherine Hardwicke, que realizou " Aos trezes" e " Crepúsculo", o primeiro filme da saga dos vampiros que a alçou aos time dos blockbusters. Voltando o seu olhar para um cinema intimista e independente, Hardwicke teve o maior acerto ao trazer o seu filme para Londres, podendo assim escalar os melhores atores para o elenco secundário. Nos papéis principais, as carismáticas e adoráveis Drew Barrymore e Toni Collette, atrizes que apaixonam qualquer espectador de filmes românticos. Domínic Cooper, Paddy Considine e uma divertida Jaqueline Bisset no papel da mãe de Collette conferem brilho e dignidade a um roteiro que é óbvio do início ao fim. Longo e com algumas tramas desnecessárias ( como a do barman), o filme emociona pelo talento do elenco e pela inteligência e sutileza da cineasta Hardwicke em dar vida a uma história super mega batida com um olhar apaixonado de quem está realizando um Primeiro filme. Litros de lágrimas rolarão em um roteiro milimetricamente querendo arrancar emoção do espectador, mas e dai? Uma cena que se tornará antologica: as duas dançando ao som de " Loosing my religion ", do Rem. Nota: 8

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Outro olhar

"Outro olhar", de Cristiano Requião (2013) Assistir ao filme nacional "Outro olhar", de 2013, após ter assistido o argentino "O clã", de Pablo Trapero, inspira comparações. "O clã", se inspira na história real da família Pucci, que nos anos 80 sequestrava e matava suas vítimas. "Outro olhar" pode não se inspirar especificamente em uma história real, mas com certaza se baseia na realidade da violência carioca. Um grupo de sequestradores mantém um jovem médico em cativeiro. Entre eles, uma jovem negra, Suellen, grávida. Suellen tinha sonhos na vida, mas moradora em comunidade, se viu desestimulada e acabou sendo seduzida para entrar no grupo e ter a chance de mudar sua vida para melhor, em termos financeiros. Mas o que a própria Suellen não esperava, é que fosse se afeiçoar pelo prisioneiro. Selecionado para o Festival Festin de Língua portuguesa 2013, o filme não se apropria do orçamento milionário do filme argentino. Cristiano Requião, batalhador do Cinema independente autoral, escreveu, produziu, dirigiu e editou o seu projeto. O acúmulo de funções pode ter prejudicado no rendimento final do longa, principalmente no que tange na escolha da trilha sonora que insiste em narrar cada cena, mas Requião pelo menos traduz em linguagem cinematográfica a crueza da violência urbana em uma grande metrópole. A história é porradaria no estômago, sem concessões. Um outro elemento curioso e estranho é a música-tema cantada pelo Mc Martinho, que narra literalmente cada passo seguido no filme. Para quem quiser conhecer o Cinema de guerrilha carioca, eis o filme.

Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme

"The Peanuts movie", de Steve Martino (2015) Longa de animação com os personagens criados por Charles Schulz, falecido em 2000. Charlie Brown e sua turma estão às voltas com confusões relacionadas à escola, ao amor e ao sucesso pessoal de cada um. Schulz brilhantemente cria um micro cosmo de personalidades através de personagens extremamente carismáticos. Charlie Brown e seu cachorro e melhor amigo Snoopy são inseparáveis. Charlie Brown tem um sério problema de auto-estima e sempre se acha azarado e trazendo má sorte em tudo o que faz. Por outro lado, Snoopy e seu amigo Woodstock criam histórias lúdicas para poder aflorar o sue lado heróico. A grande diversão do filme é criar duas histórias paralelas: o amor de Charlie Brown por uma aluna de cabelos vermelhos, e o amor de Snoopy por uma piloto de avião. Para contar essa história, os roteiristas Brian e Craig Schulz, filho e neto de Charles Schulz, respeitam o legado criativo e são extremamente fiéis em tudo: nos traços, nas personalidades e até nas vozes de Snoopy e de Woodtsock, reprocessados de um desenho antigo deles. O filme tem cenas divertidíssimas, a maioria envolvendo a timidez de Charlie Brown. Gargalhei demais, e ao mesmo tempo, me emocionei com esse olhar nostálgico que o filme tem. Fico na d;uvida se para o público infantil de hoje o filme tem apelo, pois ele me parece mais direcionado ao adulto nostálgico do que para crianças, apesar dos traços dos personagens serem tão infantis e de fácil comunicação com a criançada. É um filme que posso resumir em um único adjetivo: fofo. Para o Brasil, o filme tem um sabor epsecial: é fotografado pelo brasileiro Renato Falcão, que também fotografou 'A era do gelo" e "Rio". Nota: 9

A garota dinamarquesa

"The Danish girl", de Tom Hooper (2015) Adaptação do livro de David Ebershoff, que narra a história real da primeira Transsexual operada notificada na história. Lili Elber acabou morrendo de complicações decorrentes da cirurgia, ainda inovadora para os anos 20, mas foi categórica que queria ser uma mulher por completo, ficando obcecada por essa questão. Lili Elber na verdade era o alter ego feminino de Einar Wegener (Eddie Redmayne), um pintor de paisagens casado com a pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander), que por sua vez pintava figuras humanas. Quando uma de suas modelos falta ao serviço, Gerda solicita ao seu marido para que vista uma figurino feminino para servir de modelo. A partir daí, deflagra em Einar um processo psicológico que j;a hibernava dentro dele desde criança: a necessidade de dar vida a sua porção feminina. No início Gerda se diverte e ajuda seu marido a se travestir e criar a persona de Lili, mas quando entende que a necessidade de ser uma mulher é real, Gerda teme perder o marido. Ao mesmo tempo, "Lili" vai aflorando o seu lado feminino e sente-se atraída por homens, mas para tal, precisa se livrar de sua genitália, o grande empecilho para a sua total realização. Tom Hooper j;a provou ser um grande cineasta com "O discurso do Rei"e "Os miseráveis", mas aqui ele pesa na mão do drama e o filme tende a um grande novelão. Dois grandes atores, Matthias Schoenaerts e Ben Wishaw, estão sem vibração e parecem estar no piloto automático. Alicia Vikander é ótima atriz ( ela parece muito com a brasileira Nanda Costa)mas a personagem carece de um carisma maior. Cabe a Eddie Redmayne colocar o filme no patamar merecido de um bom filme, mas eu mesmo confesso ter esperado um pouco mais de sua performance. ele passa quase toda a sua porção feminina distribuindo sorrisos e olhares, e o grande conflito da personagem me pareceu vazio. O filme acabou ficando belo na forma e conteúdo, com lindas locações em Copenhague e Paris, bela fotografia, maquiagem, figurino e direção de arte. Mas a alma, essa realmente ficou devendo. O filme concorreu em Veneza 2015. Nota: 6

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A grande aposta

"The big short", de Adam Mckay (2015) Adam Mackay é um cineasta que tem em seu currículo divertidas comédias, como "O âncora", "Quase irmãos"e "os outros caras". O que une esses filmes é a presença de Will Ferrel como protagonista. Adaptando o livro de Michael Lewis de mesmo nome, "The big short", Mckay substitui seu alter-ego Willian Ferrel por um time de primeira grandeza dos maiores astros de Hollywood. "A grande aposta" é um filme de machos, mas que ao invés de um ringue de boxe, temos uma luta pela sobrevivência financeira. Christian Bale, Ryan Gosling, Steve Carrel e Brad Pitt puxam o coro junto de um time de atores desconhecidos mas igualmente brilhantes. As personagens femininas , pequenas, são defendidas com unhas e dentes pelas excelentes Melissa Leo e Marisa Tomei. Adam Mckay fez um feito que somente grandes diretores conseguem: transformar um tema tão árido para leigos, no caso o sistema financeiro e a grande crise dos bancos e do crédito imobiliário ocorrido em 2008 nos Estados Unidos, em filme para um grande público. Mas atenção: um público que se permita entender, entre uma golada de Coca-Cola e mordidas na pipoca, a abrir sua mente para um vocabulário de "economês" que dificilmente seria entendido fora do âmbito cinematográfico. Se eu tivesse que ler alguma matéria sobre o assunto, eu abandonaria no primeiro parágrafo ou dormiria sonelemente no sofá. Para facilitar esse entendimento, Mckay foi pródigo e inteligente de convidar celebridades como a cantora pop Selena Gomez para "explicar" ao público os termos técnicos. Claro que tudo é uma grande brincadeira, afinal ninguém duvida que a Selena não tenha a minima idéia do que esteja falando. Mas esse é o grande barato do filme: fazer o espectador acreditar que todo o elenco é craque no assunto e que falem com muita propriedade um assunto relegado a economistas e banqueiros. O filme brinca toda a hora com a metalinguagem, com a quebra da quarta parede de personagens falarem direto ao espectador ( Mckay parece querer brincar com "O lobo de wall Street', de Scorsese, que usa desse recurso). Dinâmico, o filme transcorre durante o período de 2004 a 2010: fazendo um apanhado cultural que percorre essa período ( músicas, tecnologia, etc) acompanhamos a história de vários personagens que trabalham com investimento financeiro e que, já desde 2004, previam um grande colapso financeiro no futuro, provocado pelo boom imobiliário e pela facilidade com que as pessoas faziam empréstimos para comprar imóveis. Tecnicamente impecável, o filme pode não agradar a uma parcela do público, mas com certeza a sua ousadia narrativa merece crédito. Falar das performances do elenco é chover no molhado: que Atores, caramba!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Borboletas da vida

"Borboletas da vida", de Vagner de Almeida (2004) Documentário vencedor do prêmio de melhor filme no New York Brazilian Film Festival de 2005, pode ser considerado um pré "Favela gay", premiado documentário de Rodrigo Felha realizado em 2014. Apesar da distância de 10 anos entre os 2 projetos, é aterrorizante testemunhar que absolutamente nada mudou: os depoimentos são os mesmos. Preconceito, violência social e familiar, desemprego, depressão e a eterna sensação de não pertencer a esse mundo. Ambos os filmes falam sobre ser homossexual dentro de comunidades pobres do Rio de Janeiro. Mas não o homossexual glamuroso e bombado em festas raves, mas o afeminado, o "bichinha", o que se assume e que tem uma persona feminina muito forte fazendo com que vários deles se trsnsformem em drag queens e travestis. Nenhum dos depoentes ainda pensou em fazer a operação para mudança de sexo. Em "Borboletas da vida", produzido pela Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), acompanhamos vários depoimentos de gays afeminados no bairro de Austin, em Nova Iguaçu. São pobres, maioria sem grande instrução, porém todos com um discurso muito apropriado e firme sobre o que desejam na vida, baseado em casos de bullying e violência sofridos na infância. Mesmo com tanta tragédia, os gays conseguem se divertir e dar depoimentos hilariantes, o que vai na máxima de que rir é o melhor remédio para curar a tristeza. Todos se consideram "bichas boys": de dia agem como homenzinhos, e de noite, levam bolas e se travestem de mulheres em casas de show, no caso, uma casa de show em Austin dedicado ao público Lgbt. Tem uma frase que um dos entrevistados diz que é genial: "Sou bicha boy : de manhã sou homem e de noite tiro a mulher de dentro da bolsa." O que o filme tem de exemplar é a sua simplicidade: tanto na técnica quanto nos depoentes. são pessoas muito simples, falam errado, mas possuem um poder incrível de emocionar com os seus desabafos. Fiquei com vontade de escrever várias histórias ali. Muito lindo mesmo. De ruim, somente o componente visual das borboletas, que achei brega. Mas talvez tenha sido até mesmo proposital, fazendo parte desse elemento lúdico que o filme traz, como se tudo fosse um grande conto de fadas de terror na era moderna. Muito bom.

Aferim

"Aferim", de Radu Jude (2015) Aferim em romeno quer dizer "Bem-feito". Com uma palavra de significados dúbios, o cineasta romeno Radu Jude traça um painel sobre a ignorância e a violência da sociedade do seu País porém retratados no Séc XIX, em 1835. Mas o mais insano nesse paralelo é descobrir que, mais de 2 séculos depois, quase nada mudou. Os governantes continuam impondo o Poder, a burocracia impera, a sociedade tem que cumprir e não pensar, as mulheres não possuem voz e a casta mais baixa da população é tratado quase como escravo. Como diz uma frase significativa do filme, "Vivemos como podemos, não como queremos." Filmado em belíssimo preto e branco, o filme venceu com louvor o Prêmio de Direção em Berlin 2015. A direção impressiona pelo uso de praticamente planos gerais para o filme todo, cenas inteiras quase que com apenas um plano. Um trabalho visual imponente, lembrando até mesmo a grandiloquência dos faroestes de John Ford. "Aferim" é como um western, porém, com uma narrativa voltada quase qua a uma parábola, protagonizada por 2 homens que mais lembram os anti-heróis Dom Quixote e Sancho Pança, aqui representados na figura do Oficial da Justiça Constandin, já quase idoso, e seu jovem filho Ionita. Obviamente querendo discutir a questão do pensamento da tradição com o do jovem questionador, o filme brilha em seus diálogos, muitos deles citações literárias, provocando quase sempre risadas pelo alto teor pejorativo e preconceituoso. É um filme que não tem medo de ser politicamente incorreto. É misógino, machista, violento, desbocado, racista. Os ciganos são tratados como animais, as mulheres, como putas. A igreja abomina a todos e esse pensamento se reproduz entre os políticos e senhores de feudos. O oficial e seu filho passam o metade do filme em busca de um escrevo cigano foragido das terras de um Senhor feudal, acusado de roubar seu ouro e trepar com a esposa do patrão. Uma vez localizado, ele agora precisa ser devolvido. O brihantismo do filme é justamente discutir nessas duas partes a possibilidade de uma mudança, uma metáfora sobre a situação da Romênia de hoje em dia. Sob a manta de uma comédia rasgada e até mesmo de galhofa, o filme possui um dos finais mais cruéis que vi recentemente. Palmas para a Direção de Arte ( reproduziram uma roda gigante de madeira!!) para os figurinos e para o elenco extraordinário. O menino escravo é um grande achado! Pena que o filme não ficou entre os finalistas para o Oscar de filme estrangeiro, uma vez que ele foi o filme indicado pela Romênia. Nota: 9

domingo, 20 de dezembro de 2015

Carol

"Carol", de Todd Haynes (2015) Pense na melhor novela que você já assistiu na vida: aquela com uma trama cheia de paixões proibidas, intrigas, traições. Ambientado em locações maravilhosas, fotografia esplendorosa, trilha sonora emocionante. E claro, interpretado por 2 das atrizes mais extraordinárias que existem na face da terra. Pense naquela Direção sofisticada, inteligente, respeitosa, que sabe dosar como ninguém o melodrama sem ficar meloso. Poderíamos estar falando de Douglas Sirk, o Rei do melodrama americano dos anos 50, de quem Todd Haynes é grande admirador. Poderíamos estar falando de "Longe do paraíso", um filme de Todd Haynes com Juliane Moore que pode ser visto como uma parte de uma trilogia sobre o amor proibido ambientado em uma época regida a convenções sociais e muito escândalo moral ( Longe do paraíso, Mildred Pierce e Carol). "Carol" é daqueles filmes onde o espectador torce muito pelos personagens, como toda boa novela. é filme de primeiríssima qualidade, premiado mundo afora, e entre os prêmios, Melhor Atriz em Cannes para Rooney Mara ( não entendo como esse prêmio não foi dividido com Cate Blanchett, esplêndida). Pode-se comparar esse filme com "Brokeback mountain": uma versão feminina sobre uma jovem que descobre o amor por alguém do mesmo sexo e entra em um conflito interno terrível até que resolve assumir o romance. Mas a sociedade é cruel e irá punir essa relação. O filme é baseado em romance de Patricia Highsmith, uma das autoras preferidas de Alfred Hitchcock. de quem ele adaptou "Pacto sinistro". Carol ( Cate Blanchett) é uma mulher prestes a se divorciar. Ela tem uma filha pequena e o marido quer a custódia dela. Durante uma compra em uma loja de departamentos, ela conhece Theresa ( Rooney Mara), uma vendedora apaixonada por fotografia. Rola uma quimica no olhar. Carol esquece suas luvas e Theresa envia por correio. PAra agradecer, Carol a convida para vir para sua casa. A partir daí, cresce a amizade entre as duas mulheres, que vão culminar em um amor poderoso, mas proibido. Todd Haynes sabe filmar com tanta elegância que fico estupefato com as marcações de cena, com os enquadramentos, e o uso da fotografia para emanar sentimentos. Curioso seria comparar também esse filme com "Azul é a cor mais quente"; enquanto ali o tesão e a paixão evolui de forma quente e explosiva, aqui tudo é muito interiorizado, minimalista. Dois filmes brilhantes, dois olhares distintos sobre o mesmo tema. Um clássico. Nota: 10

sábado, 19 de dezembro de 2015

Star Wars- O Despertar da força

"Star Wars- The force awakens", de J.J. Abrams (2015) O roteirista Lawrence Kasdan é responsável pelo roteiro daquele que é considerado o melhor epis;odio da saga: "O império contra-ataca". Aqui, em "O despertar da forca", ele volta a escrever, atestando a sua excelência como autor. A história, a essa altura do campeonato, todo mundo já sabe: 30 anos depois de "O retorno de Jedi", a primeira Ordem quer dominar a galáxia. Um novo vilão surgiu, e Luke Skywalker está desaparecido. Rey, uma jovem órfã, tem o seu destino cruzado com a resistência e vai aos poucos descobrindo que ela nasceu com o dom da Força. Qualquer fã de Star Wars percebeu que o filme é praticamente uma repetição do primeiro filme. Mas não tem problema. O filme é emoção pura, e não deveria passar pelo crivo de nenhum crítico. Ele está acima do bem e do mal. É filme para fã. Todos piram a cada personagem antigo que volta à tona. Nem posso falar mais correndo o risco de contar spoiler. Mas preparem o coração para cenas incríveis e de muita adrenalina. A nostalgia existe e está dentro de cada espectador, independente de sua idade. Incrível a habilidade do cineasta J J Abrams de renovar tanto a franquia "Star Trek"e agora de "Star Wars", e ainda por cima trazendo o seu fotógrafo Daniel Mindel, que também trabalhou nas duas franquias rivais. Aos primeiros acordes da trilha de John Willians, a galera pira. E muito. É religião. Nota"10

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Entourage- Fama e amizade

"Entourage", de Doug Ellin (2015) Dirigido pelo criador e roteirista do seriado 'Entourage", que foi ao ar na Hbo de 2004 a 2011 em 8 temporadas, foi uma série que tratava do mundo do cinema e das celebridades em Los Angeles. Livremente inspirado na história do ator Mark Walhberg e as suas desventuras de ator iniciante a astro de Hollywood, o seriado conta a história de Vince, jovem nova yorkino que ascende como ator e segue para Hollywood com seus 4 amigos e juntos formam a "entourage". Muito sexo, mulheres, poder e claro, cinema. Confesso que nunca assisti a um episódio sequer e nem sabia da existência do filme. Dizem até que no último episódio tudo se resolve e que ese longa é totalmente desnecessário, feito exclusivamente para fãs. Bom, resolvi assistir. O que me chamou a atenção de cara é a qualidade da produção: multidão de figuração, gente bonita, locações poderosas, fotografia, trilha sonora, tudo muito frenético. Cenas curtas, piadas politicamente incorretas. Os atores são bons, falam muita merda e fazem muita merda também. Como roteiro, nada e novo. A gente já viu filmes sobre grupos de amigos que só fazem merda. Aqui é tudo mais classudo e existe essa preocupação de mostrar o Movie business de forma profissional, sem sacanear ninguém. Vale como passatempo por ser ágil e dar uma idéia de como as coisas funcionam nesse mundo louco de Los Angeles. As, o filme reserva participação de várias celebridades de verdade, para dar credibilidade. Nota: 7

Theeb

" Theeb", de Naji Abu Mowar (2014) Indicado na final do Oscar de filme estrangeiro 2016, " Theeb" e' o " Thimbuktu" desse ano. A academia sempre coloca entre as finais um filme que fala sobre holocausto e um representante do oriente médio que fale sobre diferenças raciais e religiosas." Theeb" e' assim. Procura ser uma parábola edificante sobre um menino beduíno, Theeb, que quer dizer lobo, e um ladrão que assalta peregrinos no deserto. Theeb e seu irmão mais velho acompanham um correspondente inglês durante a primeira guerra pelo deserto de Hejaz, na Jordânia, para cumprir uma missão. No caminho eles são assaltados por padrão e agora Theeb precisa aprender a conviver com um dos padrões que sobreviveram. Belo elenco, encabeçado pelo excelente menino Jacie Eid Al Hwiethat, espontâneo e sabendo lidar com desenvoltura momentos de alegria, encantamento e terror. O filme levou vários prêmios mundo afora, entre eles o Horizonte no Festival de Veneza para melhor Diretor. E' um filme rodado no deserto inóspito, belamente enquadrado e fotografado. O filme e' bastante visual e de poucos diálogos. Lembra a estrutura de um grande faroeste de John Ford: tem ação, aventura e drama. Apesar de tantas qualidades, fiquei entediado lá pela metade do filme. Não sei se achei longo ou se o ritmo muito arrastado, mas não me envolvo tanto emocionalmente. Mas vale assistir, ainda mais por tantos prêmios vencidos e por tratar sobre a mensagem da união dos opostos, tão em voga principalmente no cinema do oriente. Nota: 7

Toque de mestre

"Grand Piano", de Eugênio Mira (2013) Co-Producao Espanhola, esse suspense dirigido pelo espanhol Eugênio Mira busca influências no cinema de Hitchcock, Brian de Palma e de Dário Argento. Mas para cada uma dessas influências faltou mais pulso. O suspense ficou light e as mortes que acontecem nem dá tempo para simpatizar pelas vítimas. A trama , como em Um bom filme de Hitchcock, e' bem inverossímil, mas aqui o roteiro exagera a níveis estratosféricos. Elijah Wood interpreta um pianista que pausou sua carreira de sucesso por conta de uma fobia que desenvolveu aos palcos. Cinco anos depois, casado com a atriz mais famosa do cinema, ele volta a um concerto. A expectativa é grande, ainda mais que ele tocará peças de um compositor recém falecido e cuja fortuna desapareceu. Um assassino, através de Mensagens escritas na partitura do pianista, o obriga a seguir instruções durante o concerto, caso contrário matará sua esposa. O filme tem ótimos movimentos de câmera maneirista e um Elijah Wood divertido que arregala os olhos o filme todo. Mas é só isso. Não tem suspense, pois a tensão e' flat demais. Vale como passatempo descompromissado de final de dia cansativo. Ah e o desfecho coroa com chave de ouro a insanidade do roteiro. Vale pela ousadia de quem o escreveu. Nota: 7

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Brooklyn

"Brooklyn", de John Crowley (2015) Baseado em um livro escrito por Colm Tóibín, foi adaptado para o cinema por Nick Hornby , renomado roteirista que escreveu "Alta fidelidade", "Educação", "Apenas um garoto"e "Livre". O filme em si lembra bastante as produções de James Ivory, cineasta inglês que imperou no cinema romântico dos anos 80 e 90: é dele "Uma janela para o amor", "Vestígios do dia" e "Maurice", entre outros. São filmes que primam pelo visual estonteante, locações, o melhor do elenco inglês, histórias de amor conflitantes e muito glamour e sofisticação. Em "Brooklyn" não é diferente. O elenco encabeçado pela americana Saoirse Ronan, que é filha de irlandeses, é muito talentoso e impecável. Ela interpreta Ellis, uma jovem irlandesa que mora com sua mãe e sua irmã mais velha, Rose. Ellis trabalha em uma pequena venda e é maltratada pela dona. Rose instiga Ellis a viajar para os Estados Unidos para tentar uma vida mais decente, e ela acaba indo sozinha, sendo recebida por um Pare irlandês amigo da família. Tímida e assustada, Ellis sofre de cara, mas quando conhece John (Emory Cohen), um descendente de italianos, ela se apaixona e se solta, e logo vai se adaptando ao modo de viver americano. Mas uma tragédia faz com que ela volte para a Irlanda, e seu coração se vê dividido entre os 2 países. O tema do filme é extremamente atual: imigrantes que vão morar em outro Pais e que sofrem de saudades do lar, ficando divididos entre a Pátria que nasceu ou a Pátria que os acolheu. O que me fascinou bastante é ver a transformação de Saoirse Ronan me uma linda mulher. Ela que fez tantos filmes como criança e adolescente, agora aflorou e está deslumbrante. O fotógrafo Yves Bélanger, dos cults "Clube de compras Dallas", "Laurence Anyways" e "Livre", transforma cada fotograma do filme em pinturas. O filme é belíssimo, tecnicamente impecável em todos os setores. Trilha emocionante, direção de arte, figurino, maquiagem. No fundo no fundo, o roteiro é um grande novelão, mas dos bons, daqueles de ficar torcendo pelos personagens. Um grande trunfo visual, que diferente do recente "Era uma vez em Nova York", com Marion Cotillard, aposta no coracão. Prepara-se para as lágrimas. Nota: 8

O quarto de Jack

"Room", de Lenny Abrahamson (2015) Filme que irá destruir corações de todos os espectadores que se permitirem abrir para essa história barra-pesada, e que tem como mensagem central a volta por cima baseado no amor e nos valores familiares. Dirigido pelo irlandês Lenny Abrahamson, que realizou os ótimos "O que Richard fez" e "Frank", o filme saiu do Festival de Toronto com o prêmio de melhor filme escolhido pelo público. É impossível não se comover com a história. Nem dá para contar muito, senão corremos o risco de dar spoiler, mas o filme é baseado no livro de Emma Donoghue, que por sua vez, se inspirou na historia real que aconteceu na Austria: um homem trancou a própria filha no porão e teve 7 filhos com ela. Usando essa premissa, a escritora escreveu um livro todo narrado pelo menino JAck, de apenas 5 anos, que cresceu no quarto e nunca teve contato com o mundo externo. Semelhante a "A vida é bela", de Roberto Begnini, sua mãe, chamada de Ma pelo filho, narra histórias dizendo que tudo no mundo exterior é um faz de conta que não existe. Porém, a medida que Jack vai crescendo e ficando mais esperto, ele acaba sendo uma ameaça para o carrasco. Roteiro formidável, denso, que vai fundo no coração e que faz pensar sobre as relações , sejam elas familiares ou de amizade. O que realmente importa para vivermos? A direção de Lenny Abrahamson é impecável, segura. Ele provoca ternura e muita tensão em momentos que a gente quase não quer ver de tão palpitantes. A fotografia de Danny Cohen é um deslumbre, colorindo com tintas melancólicas o filme, e a trilha sonora de Stephen Rennicks é bem naquele estilo que eleva a alma de todo mundo. Mas o filme não seria não sem o talento de 3 atores: Brie Larson (Ma), Jacob Tremblay ( Jack) e Joan Allen, no papel da avó. Que felicidade poder assistir a atuações tão fortes, inteligentes, comoventes. Joan Allen é uma atriz subestimada, que há muito já merecia receber um Oscar. Brie Larson com certeza se tornará uma grande estrela disputada pelos produtores e esse menino Jacob Tremblay, vou torcer para não ter o mesmo fim de Joel Osment e Macaulay Culkin. Espontâneo, o grande dom do menino e do Diretor é não fazer dele aquela criança prodígio que quer ser um adulto. Ele é uma criança e age como tal. Arrebatador. Não é um filme fácil de ser digerido, e muito menos recomendado para qualquer um. Machuca, provoca. Ma sé um show de talentos. Nota: 10

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A acusada

"Lucia de B.", de Paula van der Oest (2014) Drama baseado em história real acontecido na Holanda em 2001: uma enfermeira é acusada de matar 7 pacientes, entre bebês e idosos. No tribunal, a acusação consegue levantar uma tese de que o comportamento psicológico da enfermeira, independente de não haver nenhuma prova concreta que a incrimine, seja o suficiente para levá-la à prisão e condenada à prisão perpétua. No entanto, uma jovem promotora, arrependida de ter feito parte da acusação, começa a perceber que a história da enfermeira pode ser totalmente diferente do que todos imaginavam, e passa a querer defendê-la, revertendo a situação que durou 6 anos. Bom drama, narrativamente calcado em estilo de filme americano de tribunal e suspense, tem como o seu maior mérito o trabalho excepcional da atriz Ariane Schluter, no papel principal. O seu difícil personagem, que provoca dúvidas até no espectador, comove pela entrega da atriz. A direção é correta, sem sobressaltos, e todo o elenco de apoio está bem, dando credibilidade aos personagens. Convencional, mas que segura a atenção do espectador, ainda mais eu que não sabia nada da história e do seu desfecho. Nota: 7

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O alerta vermelho da loucura

"Hatchet for the honeymoon, de Mário Bava (1970) Representante genuíno do gênero " giallio", que usa elementos do cinema de suspense mais o erotismo acrescentado de violência Gore e estilizado, esse filme do mestre Mario Bava é uma grande diversão. John é um jovem sedutor, dono de uma Maison voltada para vestidos de casamento para a alta costura. Logo no início do filme ele já se anuncia como um serial killer que mata as noivas na véspera do casamento delas. Ele usa um facão Machado de cozinha para mutilar suas vítimas. Um trauma de infância o fez se tornar nesse assassino que consegue sempre se safar da investigação policial. A trama é sem pé nem cabeça, misturando elementos do espiritismo. As performances são canastronas mas deliciosamente divertidas. O melhor de tudo é a dublagem. Mesmo assim, Bava confere uma bela direção, pautada em atmosfera onírica e em planos bem inventivos, alguns bastante criativos. A trilha sonora é um grande achado, com o melhor do pop dos anos 60, cheio daqueles teclados geniais. Nota: 7

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Na onda do iê iê iê

"Na onda do iê iê iê", de Aurélio Teixeira (1966) Histórica comédia musical realizada em 1966, cuja importância se deve ao fato de ser o 1o filme oficial dos "Trapalhões": Renato Aragão e Dedé Santana, juntos em um filme, depois do sucesso de um programa de rádio com a dupla. Outro grande valor do filme se deve ao acervo cultural, registrando números musicais de ídolos da época, como Wiilson Simonal, Clara Nunes, The Fevers, Renato e seus Blue caps, Rosemary e entre outros, o galã do filme, o cantor Silvio César. O filme tem um roteiro bem singelo e comum aos filmes do Renato Aragão, vulgo Didi: ele ajuda um mocinho a fazer sucesso e ganhar o coração da mocinha. Simples assim. Por isso, se atenham ao material histórico, aos números musicais, que são hilários e verdadeiros acervos de figurino e maquiagem da época para qualquer estudioso. Único filme do Renato Aragão em preto e branco. Curiosidade: o cineasta Braz Chediak aqui faz o trabalho de assistente de direção.

Olhos da justiça

"Secret in their eyes", de Bill Ray. Junte 2 atrizes vencedoras do Oscar, Julia Roberts e Nicole Kidman. Acrescente um nomeado ao Oscar de melhor Ator, Chiwetel Ejiofor. Adicione na produção executiva o Cineasta vencedor do Oscar de filme estrangeiro, Juan José Campanella. Aliás esse filme é uma refilmagem do Vencedor desse Oscar de filme estrangeiro, "O segredo de seus olhos". No meio de tanta estatueta, qual o resultado? Um morno drama de suspense com pitada de romance que fica aquém do original. De quem é a culpa? Não se sabe. Talvez exista mesmo aquilo que a gente chame de química no Cinema, aquela faísca que faz o espectador acreditar em tudo o que está rolando na tela grande. O filme, adaptado para Los Angeles, se passa em 2 épocas: A atual, e 13 anos atrás. No flashback, acompanhamos a históra de uma dupla de investigadores de elite da polícia, e a descoberta de um corpo que vem a ser a filha de uma das investigadoras. Nicole Kidman interpreta uma aspirante a Promotora, que tem uma paixão platônica pelo personagem de Chiwetel. O assassino é preso, mas imediatamente, solto. Todos traumatizados, passam-se os 13 anos. E agora, o criminoso foi localizado. O que fazer? O que o filme original tinha de extraordinário, era ser ambientado em uma período de ditadura militar que tinha tudo a ver com a vingança. Mas agora, adaptado à luz do pós 11 de setembro, fica tudo meio confuso, meio querendo cutucar, mas com medo de ser mais efusivo e explícito. Alguns temas afloram mais aqui no filme americano, principalmente no que tange ao machismo. Mas é pouco. Deveriam pensar duas vezes antes de fazerem refilmagem de filme onde o que mais provocou celeuma foi o seu desfecho. Uma vez sabendo do que acontece no final, perde-se totalmente a graça. Vide o recente "Oldboy", de Spike Lee. Julia Roberts se esforça em fazer um trabalho mais visceral, ficando praticamente sem maquiagem na tela, deixando-se ficar feia. Uma bela tentativa, sem dúvida. Pena que o filme não cresça em momento algum. Nota: 5

domingo, 13 de dezembro de 2015

As mil e uma noites Volume 3 - O encantado

"As mil e uma noites Volume 3- O encantado", de Miguel Gomes (2015) Terceira e última parte da trilogia ambiciosa do cineasta Miguel Gomes ( o filme foi exibido em Cannes na sua versão original com mais de 6 horas, comercialmente foi dividido em 3 partes) , infelizmente é a mais fraca e mais decepcionante. Diferente das outras partes anteriores, aqui não temos mais a narração de Xerazade, e sim, a narração é feita através de cartelas. O filme aliás mostrando a história da própria Xerazade e o seu infortúnio com o Rei. Ela sai do quarto e se aventura pelas ras de Bagdá, e acaba se envolvendo com um aventureito sedutor e com um ladrão. Temos 2 histórias apresentadas aqui, fora a de Xerazade: uma sobre criadores de tentilhões, pássaros cantores usados em competição, e a outra, uma narração de uma chinesa sobre a situação em Portugal nos dias de hoje. A história dos criadores de pássaros é extremamente cansativa e sem interesse. Por algum paralelo que Miguel Gomes tenha feito sobre a paciência dos criadores para cuidar dos pássaros, não consegui me abstrair de um documentário etnográfico. Longo e tedioso. A narração da chinesa também não tem nada demais: narração em cima de imagens de policiais e ativistas lutando. Miguel deveria ter terminado o sue filme na parte 2, essa sim brilhante. Essa terceira parte me parece um desfecho poético sobre a crise na Europa, mais especificamente em Portugal. Mas senti falta de ficção, de histórias bem contadas, mesclando lúdico, humor e bizarrice, como ele fez nos outros filmes. O que salva o filme é a linda trilha sonora e a fotografia, exuberante. Nota: 5

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Joelma, 23 o andar

"Joelma, 23o andar", de Clery Cunha (1980) Primeiro filme de temática espírita produzida no Brasil, é uma adaptação do livro "Somos seis", psicografada por Chico Xavier. No livro, acompanhamos o relato de 6 pessoas que morreram ainda jovens, sendo 2 delas por conta do incêndio no Edifício Joelma. O incêndio, de proporções catastróficas, aconteceu na capital de São Paulo em 1974, e 189 pessoas faleceram. O mais curioso desse filme é que ele mescla 2 gêneros populares: o filme catástrofe, na melhor tradição de "O inferno na torre", e o filme de tema espírita. O filme adapta a história de Volqimar, uma professora que trabalha no prédio no 23o andar, em uma empresa de processamento de dados. O irmão dela trabalha no mesmo prédio, e eles moram com a mãe. Quando Lucimar ( nome da personagem no filme, interpretado pro Beth Goulart, aos 16 anos de idade), morre por asfixia no incêndio, o seu espírito aparece para a sua mãe, para confortá-la. A mãe se assusta, e junto dos filhos e de amigos, vai até Uneraba visitar Chico Xavier, que psicografa uma carta escrita pela filha Lucimar. Na época do lançamento, "Joelma" foi um grande sucesso. O roteiro é doutrinário, e existe uma personagem no filme que ensina ipsis literis o que significa ser "espírita". O próprio Chico Xavier aparece no filme. O grande valor do filme é justamente a sua parte documental: o registro assustador e chocante das imagens reais do incêndio e a morte das vítimas, em cenas violentas dos desesperados se jogando do alto do prédio; e as imagens sobre a peregrinação dos fieis em visita a Chico Xavier. No entanto, o filme carece de um cuidado maior no trabalho com o elenco e com a parte técnica. Boa parte dos atores é fraca, e a dublagem é algo que destrói quase que por completo as boas intenções do filme. É uma verdadeira tragédia. A lente zoom também foi um recurso bastante usado no filme, mas visto hoje em dia, fica risível, provocando uma sensação de filme datado. Vale assistir como curiosidade e como registro da cidade de São Paulo em 1979, ano das filmagens.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A bela e a fera

"La belle et la bête", de Christophe Gans (2014) Adaptação do clássico da literatura "A bela e a fera", escrita por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, e que já rendeu 2 versões antológicas: A de Jean Cocteau, e a da animação da Disney. Em ambos os filmes, o lúdico e o fabulesco andam de mãos dadas, No filme de Cocteau, aliás, ele colocou o ingrediente do surrealismo através de elementos que criam vida. Agora nessa versão de 2014, o cineasta francês mas que já filmou bastante em Hollywood, Christophe Gans, escala Vincent Cassel e Lea Seydoux para darem vida ao famoso casal romântico. A história todos já sabem: um mercador rico e pai de 6 filhos perde sua fortuna quando um carregamento valioso naufraga no mar. Ele é forçado a morar no campo. Uma noite, ao voltar para casa, o pai se perde e vai parar em um castelo abandonado. E;e come, se protege e acaba roubado objetos de valor. Entre os objetos roubados, está uma rosa, solicitado por Bela, sua filha. Uma fera falante surge e o ameaça, dizendo que a rosa lhe custará a vida, contanto que ele doe sua vida. Bela, ao saber disso, se sacrifica e vai no lugar do pai. O que ela não imaginava é que a fera se apaixonasse por ela. O que difere essa obra das outras é o uso extremamente exagerado e sem sutilezas dos efeitos especiais. Os mais gritantes são as pequenas criaturas de olhos grandes e as estátuas gigantes. Fora isso, essa versão dá destaque aos 6 irmãos gananciosos de Bela, e isso torna o filme mais frágil. Enfraquece o casal principal, que aqui nem tem o romantismo destacado. A gente não acredita nesse amor, uma vez que a relação deles é sem vida e sem romantismo.Outro item que também não curti foi a escalação de Vincent Cassel. Por mais ótimo ator que ele seja, não consigo vê-lo no papel do príncipe encantado. O filme de uma forma geral é morno, indeciso para qual público ele se destina: ora infantil, ora pesado para os pequenos. Nota: 6

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Dois amigos

"Deux amis", de Louis Garrel (2015) Delicioso drama romântico com tintas de humor francês, refinadíssimo, estréia na Direção de longas do Ator galã Louis Garrel, que também protagoniza e escreve o roteiro. Se fosse um filme americano, chamaríamos o gênero de "Bromance", o tipo de história onde 2 grandes amigos dividem todas as suas esperanças, conflitos, e até mesmo, amores, e não t6em medo de chorar um no ombro do outro. Garrel acertou em cheio na escalação do elenco central: Além dele, que tem grande carisma e faz como poucos o perfil do cara bonito mas antipático e egoísta, temos a excelente atriz iraniana Golshifteh Farahani, de "Procurando Elly", e Vincent Macaigne, de "Eden". Mona é uma jovem presidiária em liberdade condicional que sai todo dia para trabalhar em um quiosque de sanduiches na estação Gare du nord. Vincent é um figurante totalmente apaixonado por ela, de forma platônica. No caminho de mabos,s urge Abel (Garrel), um frentista que tem sonho de ser roteirista. Claro que Mona se apaixona por Abel. Mas Mona precisa voltar para o presídio, porém é impedida pelos amigos, que desconhecem a real situação da jovem. Descompromissado, divertido, emocionante, melancólico, o filme trabalha com todas essas cores. Os diálogos são ótimos, muitas situações hilárias ( como a do set de filmagem onde Vincent cobra de um ator durante a cena para ser profissional). No final das contas, é um filme com aquela cara de filme francês, cheio de charme e lirismo. Mas com aquele toque especial de primeiro filme, juvenil, respirando amor e sonho. O filme foi exibido na Semana da Crítica em Cannes. Nota: 8

domingo, 6 de dezembro de 2015

Delicatessen

"Delicatessen", de Jean Pierre Jeunet e Marc Caros (1991) De tempos em tempos, surge um filme de um Cineasta estreante que enche os olhos dos Cinéfilos e dos críticos. Um olhar difrenciado, uma estética única, um vigor que só encontramos nos grandes artistas. Foi assim, recentemente, com Wong Kar Wai, Wes Anderson, Peter Greenaway, Jim Jarmusch e para falar dos franceses, com Jean Pierre Jeunet. São raros os Cineastas e publicitários que não sofreram influência da estética desse realizador das cores fortes, dos tipos bizarros, das lentes grandes angulares e do preciosismo formal e estético. Grande apreciador das comédias baseadas em gags visuais e de comediantes que usam o corpo para contar uma piada, Jean Pierre Jeunet se apropria de filmes como "O jovem Frankenstein", "Meu tio" e outros para narrar essa fábula futurista e distópica sobre um mundo em decomposição. Nesse futuro, falta comida. A moeda agora é escambo com bens alimentícios, mas a carne não existe mais, e para isso, os humanos se tornam canibais. A sociedade é dividida entre Carnívoros e vegetarianos. Entre os carnívoros, está o açougueiro, que comenda um prédio com inquilinos mais bizarros do que ele. Um homem vem para pedir emprego, e ele será sua próxima presa. Mas a filha do açougueiro se apaixona j ele, e aí, tentam reverter o jogo. O filme é quase todo composto por sketches dos moradores cada um com uma história muito louca para ser contada. Varando entre gags visuais, sonoras ou faladas, Jeunet e Marc Caros constroem uma narrativa quase que de desenho animado. Ou seja, muita loucura correria, surrealismo e momentos lúdicos. Prepare-se para ver uma fotografia deslumbrante de Darius Kondji, uma trilha animal de Carlos D'Alessio e um Desenho de produção de Marc Caros impressionante. Um filme clássico, que revolucionou o cinema dos anos 90.

Todas as noite às Nove

"Our mother's house", de Jack Clayton (1967) Obra-prima adaptada do livro de Julian Glaog, é protagonizado por 7 crianças. O cineasta Jack Clayton é mais famoso pelos seus filmes "Os inocentes" e "O grande Gatsby". Nesse conto de fadas macabro, ele narra o drama de 7 crianças que precisam lidar com a morte de sua mãe, uma religiosa fanática. Eles a enterram no jardim da casa e escondem de todo mundo o fato de que ela morreu, com medo de serem enviados para o orfanato. As crianças decidem que toda a noite, às 21 horas, elas irão se encontrar espiritualmente com a mãe, que dirá a elas o que fazer, inclusive castigando as que se comportam mal. Porém um dia, um homem misterioso chega ( Dirk Bogarde) e se anuncia como o pai delas. Impressionante o trabalho de todo o elenco infantil, que alternam momentos de alegria e de desespero. Elas se comportam como crianças de verdade, sem aquelas atuações irritantes de crianças que querem ser adultas. Esse é o grande segredo desse filme com diálogos primorosos e uma ambientação sinistra, belamente fotografado por Larry Pizer, que trabalha com sombras de forma quase expressionista. Outro grande trunfo do filme é a sua direção de arte, e a trilha sonora do mago George Delerue. A música trabalho com tons infantis e de grande suspense. Um filme obscuro, pouco conhecido, que merecia ser redescoberto e quem sabe, refilmado. E também trazer de volta o grande talento de Dirk Bogarde, excelente ator inglês de "Morte em Veneza", de Visconti. Nota: 9

Domésticas, o Filme

"Domésticas, o filme", de Fernando Meirelles e Nando Olival. O filme é de 2001, mas assistir a ele tantos anos depois de sua realização, traz um pensamento muito curioso. Impossível não assistir e não pensar que ele é um embrião de filmes importantes e premiados como "Cidade de Deus", do próprio Fernando Meirelles, e "Que horas ela volta?", de Anna Muylaerte. Primeiro filme da produtora )2 e estréia na direção de Meirelles, 'Domésticas" é uma comédia dramática, mas com um forte conteúdo social por trás do humor. Na verdade, esse humor vem camuflado por um retrato triste e melancólico da vida de várias empregadas domésticas, que moram na periferia, lutam pelo seu dia a dia, tendo em sua rotina traços de violência, que hora vem através de um assalto no ônibus, ou através de picaretas que roubam as coisas de uma casa e colocam a culpa na empregada. O filme é todo pelo ponto de vista das empregadas, a gente em momento algum vê a patroa. Aliás, além das empregadas vemos também os subalternos: o porteiro, o faxineiro, etc. Cinematograficamente, o filme investe em visuais distintos: ora filme de arte, ora popular, ora documental. Nessa salada de conceitos estéticos, o que salta aos olhos é o excelente trabalho de todas as atrizes do filme. Alternando momentos de comédia mais pura com o drama, o filem comove com performances brilhantes. O que pode incomodar algusn espectadores é esse retrato de que toda empregada precisa falar errado e ter um vocabulário chulo e vazio. E mais, serem burras e analfabetas. Mas aí é o olhar do filme de certa forma encantador e ingênuo sobre elas. E se o espectador aceitar esse ponto de vista, vai se deliciar e se comover.