sábado, 26 de fevereiro de 2011

Bruna Surfistinha


de Marcus Baldini (2011)

Drama baseado no livro " Doce veneno do escorpião", escrito por Raquel Pacheco, mais conhecida pela alcunha de Bruna Surfistinha.
O livro vendeu mais de 250 mil exemplares, e foi traduzido para mais de 15 países.
O filme acompanha a trajetória de Raquel, jovem adotada por uma família classe média, mas que se cansa de sua vida sem objetividades, e acaba fugindo de casa, indo trabalhar num puteiro administrado por uma cafetina (Drica Moraes). Lá, ela conhece outras putas ( Fabiula Nascimento, Cristina Lago...), com quem ela travará amizades e inimizades. Disputando a clientela da casa, ela logo é mal vista pelas outras meninas, que não gostam nada do sucesso dela. Raquel muda seu nome para Bruna. Ela no início não leva muito jeito, mas logo vai se soltando e agradando uma enorme clientela, com destaque para Huldson (Cassio Gabus Mendes), que encontra em Bruna um amor que ela evita.
Bruna acaba sendo expulsa da casa, acusada de consumir cocaína, e monta o seu próprio negócio, se anunciando em um blog chamado " Bruna Surfistinha", de enorme sucesso. Mas logo ela se deixa envolver com drogas e falsas amizades, e vai da glória ao inferno.
A grande força desse filme reside na interpretação dos atores. Debora Secco defende com garra o difícil papel de Bruna, alternando momentos de inocência, ingenuidade e permissividade. Difícil encontrar uma atriz com a projeção que ela tem na mídia, se expôr de forma tão radical como o que ela faz no filme, mesmo que nenhuma cena seja explícita. O porém é que acho que ela já esteja velha para o personagem. Faltou frescor. Na primeira parte do filme, quando a personagem está na fase adolescente, Debora aparenta mais idade. Ela destôa dos outros jovens na escola. Drica Moraes e Fabiula Nascimento estão ótimas, fazendo parte da porção cômica da história. Destaques também paa Cassio Gabus Mendes e Juliano Cazarré. Aliás, o roteiro administra bem os gêneros drama e comédia. Algumas beiram até mesmo o pastelão (vide a cena do salão de beleza).
A fotografia de Marcelo Corpanni é bonita, e a trilha sonora contém pérolas pops nacionais e internacionais.
O que acho que faltou ao filme foi mais ousadia, em se tratando da personagem que é. Ficou um filme correto, porém sem a deliciosa malícia . Ficou uma narrativa fria. Li críticas o comparando a " Cristiane F" , mas ele não chega tão próximo a decadência física e moral da protagonista alemã.
Mas é um filme que vale a pena ser visto.

Nota: 7

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Incêndios


" Incendies", de Denis Villeneuve (2010)

Drama canadense, indicado ao Oscar de Filme estrangeiro em 2011.
O filme começa com um casal de irmãos gêmeos, que vai até o escritório de um advogado, responsável pelo testamento da falecida mãe deles. No testamento, eles recebem duas cartas, endereçadas ao pai e ao irmão. Para surpresa de ambos, que até então achavam que tanto o pai e o irmão estavam mortos. Somente a entrega dessas cartas, os irmãos poderão ler uma última carta, endereçada a ambos.
Assim começa a saga de Jeanne e Simon. Simon se revolta com a atitude da mãe, por ela esconder a existência do pai e do irmão. Jeanne entende melhor as razões de sua mãe, e parte até o Oriente médio, para descobrir as origens de sua mãe e o paradeiro de seus parentes.
O filme passa a ser narrado em duas épocas distintas: Acompanha a trajetória de Nawal, a mãe deles, durante conflitos que assolam a região que ela mora, e a viagem de descoberta de Jeanne. A verdadeira faceta de Nawal vai sendo revelada aos poucos, e os filhos descobrem que ela foi uma batalhadora, que se envolveu com ataques terroristas. e que ela guarda um terrível segredo.
O roteiro do filme é extraordinário: com uma trama mirabolante, beirando o folhetim, o filme surpreeende com as inúmeras reviravoltas. Tudo é muito bem amarrado, apesar de um tanto forçado. Mas nada que me incomodasse. É uma produção corajosa, forte, de cenas de grande impacto. A ambientação do filme é espetacular, tudo é muito realista. A interpretação dos atores é tocante, com destaque para o trabalho da atriz Lubna Azabal, no papel de Nawal.
A trilha sonora é perfeita, interagindo sons locais com música ocidental. Fotografia, edição, tudo está a serviço da narrativa.
Uma cena que particularmente me deixou arrebatado é a do ataque do ônibus. É de fazer estremecer qualquer coração mais resistente.
Um filme altamente recomendável, que me deixou muito envolvido.

OBS: COPIO ABAIXO, UM EMAI DO MEU AMIGO TIDE. É UMA RESPOSTA A COMENTÁRIOS DE AMIGOS NOSSOS EM COMUM, QUE DISSERAM ACHAR QUE O ROTEIRO ERA MUITO NOVELESCO E AS INTERAÇÕES ENTRE OS PERSONAGENS, MUITO FORÇADAS.

Pra mim, o que diferencia a tragédia grega da novela das seis e das manchetes do jornal Meia Hora não é a história em si, mas exatamente a abordagem.

No filme Incêndios, a mãe enfrenta estoicamente sua sina (e sua maldição) diante da desolação das paisagens a das almas. Segundo Aristóteles, é da natureza da tragédia mostrar os homens maiores do que são, isto é, suportando um destino cruel e maior que eles. E ninguém foge a seu destino em uma tragédia grega, pois as Erínias irão atrás de você e te encontrarão em qualquer Canadá em que você se esconda.

As tragédias gregas costumam ser mesmo cheias de coincidências inverossímeis. Tudo o que vocês falaram do filme se parecer com trama de novela das seis também se aplica, sem tirar nem pôr, a Edipo, Antígona, Electra e outros infelizes helênicos. As mesmíssimas tramas podem ser tratadas como tragédia, melodrama ou notícia sensacionalista, conforme o gosto do freguês. Eu fiquei imaginando como seriam as manchetes de um jornal sensacionalista se as tragédias gregas acontecessem (e elas se repetem a todo momento) em nosso cotidiano violento:

Medéia: Mãe mata os próprios filhos pra se vingar de ex-marido que ia casar com outra. Incêndio misterioso mata noiva e futuro sogro. Fotos na página 15


Édipo Rei: Magnata fura os próprios olhos após descobrir que casou com a mãe. Vídeo com filhos[irmãos] desconsolados ao encontrar corpo enforcado da mãe[avó] vaza na internet. Veja na página 25 infográfico com graus de parentesco projetados até a quinta geração.


Prometeu acorrentado: Falso profeta sobrevive após ter fígado parcialmente devorado por urubus. Polícia fala em possível vingança de chefão do tráfico. “Ele vê o futuro”, dizem membros da comunidade. Prefeito (candidato a reeleição) visita vítima no hospital.


Tide


Nota: 9


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dentes Caninos


" Kynodontas/Dogtooth" , de Giorgos Lantimos (2009)

Filme grego, ganhador do Prêmio em Cannes 2010 da mostra " Un certain regard", cedido a novos cineastas.
Perturbador, ousado, bizarro, polêmico. Adjetivos são o que não faltam para descrever esse drama familiar.
Um casal de alta classe mora em uma mansão, com os seus 3 filhos adultos ( duas moças e um rapaz). Os pais isolam os seus filhos do mundo externo. Eles não podem ver tv, não existe computador, internet, livros, nada. Tudo o que eles sabem, é através do que os seus pais contam. Todos os dias, eles escutam um gravador com vocabulários novos, gravados por seus pais, dando novos significados a palavras (por ex, Zumbi significa pequena flor amarela). O único que sai é o pai, que trabalha em uma fábrica ali perto. Ele costuma trazer Cristina, a segurança da empresa, para a casa para poder satisfazer os impulsos sexuais do filho. Ela é a única estranha que invade a casa. Os filhos agem como retardados, como crianças, e vivem fazendo brincadeiras violentas que envolvem sexo agressões verbais e físicas.
O filme me remeteu a vários outros: " Os idiotas", de Lars Von Triers, " A Vila", de Shayamalan, " O Pãntano", de Lucrecia Martel, " Funny Games", de Michael Haneke. Frio, sêco, pungente e cruel. O filme reserva cenas muito fortes, e a entrega dos atores as propostas feitas pelo diretor é impressionante.
O filme é lento, porém, sempre interessante. A fotografia e o trabalho de câmera são ótimos.
Confesso que gostei bastante do filme, ousado para os padrões americanos. Por isso me espanta a indicação feita pela Academia em indicá-lo como um dos 5 concorrentes ao prêmio de filme estrangeiro, uma vez que o filme possue cenas de sexo explícito, incesto, violência.

Nota: 8

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Trabalho Interno


" Inside Job", de Charles Ferguson (2010)

Documentário indicado ao Oscar 2011, é uma análise profunda sobre a crise econômica de 2008, que assolou o mundo e causou prejuízo financeiro da ordem de mais de 20 trilhões de dólares, além de milhões de novos desempregados. Essa crise é a mais devastadora desde o crack da bolsa de 29.
O autor, Charles Ferguson, procura tecer a sua teoria sobre o porquê da origem d acrise. Para isso, ele remete a situação econômica dos EUA desde os anos 8o, ainda no Governo Reagan. Traça todo um paralelo entre política e finanças, segundo o autor, caminhando lado a lado. Corrupção, ambição, tudo caminha a passos largos. O filme exibe dezenas de entrevistas com economistas, políticos, professores de economia, presidentes de corporações, etc, que dão depoimentos as vezes constrangedores, as vezes elucidativos. De uma forma geral, o filme é muito complexo para o espectador leigo. Todos os depoimentos são muito técnicos, e a linguagem é economês, Fiquei completamente perdido o filme todo, porquê ele não dá respiro: é um bombardeio de informações, que não dá trégua. E logo eu, que não entendo nada de economia. Saudades dos filmes de Michael Moore, esses sim Cinema, feitos para um público amplo, didáticos e divertidos. Aqui, parece que estamos assistindo a uma tese de algum aluno de economia. Chato, muito chato. O filme é longo, repetitivo, e totalmente desprovido de cinema.

Nota: 4

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

20 Cigarros


" 20 Sigarettes", de Aureliano Amadei (2010)

Drama italiano, autobiográfico, sobre as experiência do cineasta Aureliano Amadei durante a Guerra do Iraque em 2003.
Amadei é contratado para ser assistente de direção em um filme a ser rodado no Iraque. Ele larga a sua vida em Roma
(namorada, pais) , o conforto e alegria dos amigos, em uma empreitada que ele entende como pacífica. As informações que ele recebeu antes de viajar é que a Guerra estava sobre controle, daí a pouca preocupação dele em fazer tal arriscada viagem. Ao chegar lá, de imediato Amadei percebe que o que contaram a ele não procede. Eles são recebidos a balas antes de chegar ao acampamento italiano. Amadei passa a noite no acampamento. De espírito alegre e livre, Amadei é a alegria de todos. No dia seguinte, ele sai com Rolla, o cineasta, até uma região militar, acompanhado de escolta. Ao chegar lá, eles sofrem um atentado de um carro-bomba. Amadei é o único sobrevivente. A partir daí, o filme mostra o seu suplício na base militar. Seu caso é grave, podendo perder o pé. Finalmente, Amadei é transferido para Roma, sendo recebido com honras, por políticos e por jornalistas. Porém, a alegria de Amadei se foi, e ele se torna uma pessoa traumatizada e frustrada pelos horrores da guerra.
O filme recebeu um prêmio especial no Festival de Veneza 2010, o Contracampo italiano. por seus méritos humanitários.
Tecnicamente bom ( fotografia, edição), o filme peca ao misturar gêneros: comédia, drama de guerra, melodrama piegas. Nenhum desses itens funciona a contento. Como temática, é válido, apesar do tema já ser batido: a guerra trazendo o fantasma na mente de quem esteve lá. Inclusive, na cena do atentado, fiquei muito incomodado: a cena inteira é vista pelo ponto de vista da câmera de Amadei. Mas como assim, quase morto, ferido, Amadei ainda consegue enquadrar tudo o que está vendo? Achei muita forçação de barra. Algumas outras cenas beiram a pieguice, como a do menino iraquiano morto sendo jogada junto ao seu corpo, na carroceria do caminhão.
Mas o que mais me incomodou foi o longo processo de recuperação hospitalar de Amadei, que dura toda a terça parte final. É muito sadismo do cineasta focar em close o tempo todo as feridas no corpo de Amadei, desnecessariamente. Me pareceu que o cineasta quiz que o espectador testemunhasse todos os horrores que ele sofreu na pele, ao estar lá, em loco.
Um ponto positivo é a interpretação de Vinicio Marchioni, dando vida ao alter ego do cineasta.

Nota: 6

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Grey Gardens


" Grey Gardens", de Michael Sucsy (2009)

Filme produzido pela HBO, baseado no documentário " Grey Gardens", de 1975, dirigido por Albert e David Maiysles.
O filme narra a história real de Big Edie (Jessica Lange) e Little Edie ( Drew Barrymore), mãe e filha. Socialites, faziam parte da high society de Nova Yorque dos anos 30. A família acabou se mudando para a casa de campo de Long Island, apelidada de Grey Gardens. Edith (Big Edie) é tia de Jackeline Kennedy.
Edith, antes de se casar, tinha o sonho de se tornar cantora, mas teve o seu sonho enterrado após se casar, tendo que se dedicar ao papel de mãe de 3 filhos. A filha, Edie, temendo ter o mesmo destino de sua mãe, evita namoros e casamentos, pois seu sonho é se tornar atriz e dançarina. Ela se muda com seu pai e irmãos até Nova Yorque, após o pai pedir a separação de Edith. Apesar da distância, a mãe controla a vida de Edie, alertando-a contra falsos pretendentes e aproveitadores. Após uma experiência frustrada com um político casado, Edie resolve voltar a morar com sua mãe. A partir daí, o filme mostra a decadência física e moral de mãe e filha, até a extrema pobreza, morando na mansão abandonada e cheia de animais e fezes. Alertados pelos vizinhos, a inspeção sanitária vai bater na casa. Elas acabam saindo nos noticiários como as parentes de Jaqueline Kennedy esquecidas pela parente famosa. Acabam recebendo o convite de 2 irmãos documentaristas, que querem fazer um filme sobre a vida das duas.
Emocionante e belo filme, com uma história incrível. O roteiro é excelente, detalhando a vida excêntrica e melancólica de duas mulheres que tiveram as vidas destruídas por um ideal de vida que não se concretizou. A produção, direção de arte e figurino são requintados. A trilha sonora de Rachel Portman é maravilhosa. Mas o mais impactante nesse filme é a atuação de Jessica Lange e Drew Barrymore. Caraca, fiquei pasmo com a qualidade, e entrega que as duas atrizes fizeram aos seus personagens tão complexos, e sem cair na caricatura. Muito foda mesmo! Me emocionei demais! A maquiagem delas já idosas deixa eu pouco a desejar, mas nada que estrague o brilho dessas duas grandes atrizes. Não a toa, o filme levou quase todos os prêmios de interpretação em 2009: Globo de Ouro, Emmy, etc. Merecidíssimos.
Imperdível para quem ama um bom filme, com ótimas performances e roteiro primoroso.

Nota: 9


Doce Vingança


" I spit on your grave", de Steven Monroe (2010)

Refilmagem de um filme homônimo de 1978, originalmente chamado no Brasil de " A vingança de Jennifer", foi banido em vários países.
A história, breve, narra o drama de Jennifer Hills. Escritora, ela aluga uma cabana isolada numa cidadezinha, afastada da cidade. Sua intenção é escrever um roteiro com tranquilidade, Porém, ela logo é atacada por um bando de 4 homens. O Xerife local se une no estupro coletivo. Largada praticamente à morte, ela consegue fugir de seus algozes. Os homens resolvem apagar qualquer evidência da presença dela na região. Porém, o tempo passa, e logo Jennifer reaparece, dessa vez, sedenta de vingança.
Provavelmente, essa refilmagem foi inspirada nos gores de " Jogos mortais" e " O albergue". As cenas de morte são sádicas e brutais. Alguns chegam a ser hilários, tal a perversidade da ação.
O filme é polêmico, porque faz com que o espectador torça para que todos os homens morram, e da pior forma possível. E isso não é difícil, uma vez que os personagens são desenhados de forma caricata: são todos maus, muito maus. A exceção é a de um rapaz doente mental, que acaba cedendo aos encantos do estupro, aliciado pelos outros amigos. Esse fica traumatizado pelos seus atos. Mas Jennifer não quer nem saber de crises existenciais.
O filme todo se desenvolve nesse fiapo de história: uma história de vingança. Nada mais do que isso. O curioso é o título alternativo do original de 1978 : " Day of the woman" , como se fosse uma comemoração pelos direitos da mulher. Ficou bizarro.
O filme tem um ritmo lento na primeira parte, e só ganha força a partir do estupro, quando ganha mais dinâmica. Porém, faltou mais clima de suspense, e tudo fica extremamente previsível. O elenco se esforça como pode, mas o desenho dos personagens é unilateral. Os maus, e a mocinha. Sarah Butler, no papel de Jennifer, não decepciona. É um papel difícil, e incômodo. Ela lembra fisicamente a atriz Kistern Stewart.

Nota: 6

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Ritual


"The rite", de Mikael Hafstrom (2011)

Suspense baseado em história real.
Um padre americano (Colin O´donoghue) novato, descrente de Deus, resolve ir até Roma para estudar exorcismo. Chegando lá, ele encontra duas pessoas que mudarão sua forma de enxergar a religião e os casos de exorcismo: Uma jornalista italiana, Angeline Vargas ( Alice Braga) e o Padre jesuíta Lucas ( Anthony Hopkins).
A direção de Mikael é extremamente burocrática. O filme é chato em toda a sua primeira parte, chegando a aborrecer pela total ausência de ritmo. Depois, quando entra em cena o caso de exorcismo de uma grávida, o filme começa a pregar sustos fáceis na platéia, dos mais banais possíveis: uma pessoa aproxima o rosto de uma janela, daí pula um gato e lhe prega um susto; sons estridentes a todo o momento dando acordes altos; e por aí vai.
A trilha sonora é a mais óbvia possível, e a interpretação dos atores está toda no automático: Anthony Hopkins incorpora Hannibal Lecter em alguns momentos, em outros sôa patético. Alice Braga sempre com aquela cara emburrada. O estreante Colin O´Donoghe tenta dar credibilidade ao personagem do Padre Michael, mas o roteiro não ajuda nem um pouco. Tudo é previsível, apesar do crédito inicial dizer que se baseia em fatos reais. Para mim tudo pareceu muito familiar, porquê o filme lembra o tempo todo " O exorcista". O dilema entre o padre descrente e o padre fervoroso, a ação do demônio sobre as pessoas, as situações. Até mesmo os sons guturais e insinuações de sexo que o demônio invoca. Rutger Hauer, totalmente irreconhecível, faz uma ponta interpretando o pai de Michael, um médico legista.
Uma pura perda de tempo. Melhor ficar com o original, ou com " O último exorcismo", um filme que brinca com os documentários fakes e que se sai muito melhor, e mais assustador.

Nota: 2

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

E então veio Lola


" And then came Lola" , de Ellen Sedler e Megan Siler (2009)

Comédia romântica, inspirado no filme alemão " Corra Loa Corra", de Tom Twyker.
Lola é uma fotógrafa talentosa, porém desorganizada e vive atrasada. Numa tarde, sua namorada liga para ela, pedindo que ela lhe faça um favor: buscar as fotos em uma loja de impressões e trazer para a reunião urgente que ela tem com uma empresária. Lola se apressa, mas vários acontecimentos de percurso a fazem se atrazar, e correr contra o tempo, antes que sua namorada perca o negócio.
A grande diferença entre essa refilmagem e o original alemão é que no filme de Tom Twyker, o espectador sentia a urgencia através da montagem, da trilha sonora e do plot: uma vida que poderia ser salva caso Lola chegue a tempo. Aqui em " Então chega Lola", o fato da namorada perder um negócio não é nada que justifique uma tensão.
As diretoras mostram um universo homossexual nesse filme ambientado em São Francisco. Todos os que andam na rua, frequentam os ambientes, são gays. Não se vê um único ser hetero na história, nem mesmo na figuração. Esse mundo cor de rosa é desenvolvido com uma fotografia colorida, figurino hype e trilha sonora pop rock.
Assim como em " Corra Lola corra", aqui se misturam as linguagens de animação e fotografia. Aliás, copia descaradamente a cena da escadaria do prédio de Lola. E para ilustrar as situações, dando um caráter mais dinâmico e moderno, fotos dão explicações e cenas, sempre com duplos sentidos.
O filme é amador, assim como as interpretações, todas muito posadas e fakes. O mundo lésbico parece ser tão poderoso, que todas se mostram impostadas e altivas.

Um passatempo apenas para quem tem curiosidade de ver uma versão gay e pop do filme de Twyker. A vantagem é que o filme é curto, 73 minutos.

Nota: 5

O Solteirão


" Greenberg", de Noah Baumbach (2010)

"Greenberg", de Noah Baumbach (2010) Comédia dramática do mesmo cineasta de " A lula e a baleia" ( filme que eu adoro). Noah é um cineasta independente americano, que tem como mote principal as relações amorosas, quase sempre frustantes e mal resolvidas.
O filme narra a história de Roger Greenberg. Ele mora em Nova Yorque, mas vai passar umas semanas na casa de seu irmão bem-sucedido, que mora em Los Angeles. Seu irmão vai com a família para o Vietnã, e deixa sua enorme casa e cachorro aos cuidados de Roger (Ben Stiller). Ben acabou de sair de uma clínica psiquiátrica. Ele tem problemas de bipolaridade, e é maníaco depressivo, afastando todas as amizades e relacionamentos. Ele se reencontra com sua ex (Jennifer Jason Leigh) e com um amigo de longa data, o músico Ivan (Rhys Ifans). Descobre porém, que seu irmão tem uma assistente pessoal, Florence ( Greta Gerwig), que cuida da casa e do cachorro. Ele fica encantado com a moça, mas ela também tem problemas de relacionamentos. Frustada após o término de um affair de longa data, Florence busca sexo casual, temendo se envolver com alguém. Juntos, os dois mantém uma relação baseada em angústia e tensão. De um lado, Roger, que não consegue se envolver com ninguém sem pelo menos machucar moralmente a pessoa. Do outro, Florence, que se bloqueou para qualquer possibilidade de namoro.
Após assistir ao filme, fiquei na dúvida se gostei ou não. Arrastado, tedioso, assim como os seus personagens. O roteiro lembra muito os filmes de Woody Allen, porém os diálogos são menos inspirados. A diferença do personagem de Ben Stiller com qualquer personagem de Woody Allen, é que aqui, você não consegue sentir nenhuma simpatia por ele. Ele é chato, maçante, irritante. Não existe um mínimo de simpatia, e é o tipo do cara que você quer longe de sua vida. Ben Stiller conseguiu dar vida a um tipo muito complexo e difícil.
Mas a grande revelação para mim, é a atriz Greta Gerwig. Eu não conhecia o seu trabalho, e fiquei encantado com sua beleza e talento. Ela é um misto de Chloe Sevigny e Kate Winslet. Seu personagem é de difícil composição também: a jovem workaholick, dedicada ao trabalho, mas um desastre nas relações amorosas. Chega a dar pena. É um trunfo de melancolia ambulante.
A trilha sonora é ótima, dando o clima necessário para as tintas depressivas da história.
Tarantino indicou esse filme como um dos 10 melhores de 2010. Acho que não merecia constar nem entre os 50. Não é um filme memorável, apenas um veículo para o talento de Stiller, que aqui demonstra ser bom também em tipos mais sérios.
Curiosidade: a atriz Jennifer Jason Leigh produziu, atuou e é uma das co-autoras do roteiro.

Nota: 6


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O gerente


de Paulo Cesar Saraceni (2011)

Drama dirigido por um dos maiores cineastas brasileiros , autor de " A casa assassinada", " O desafio", " Porto das caixas" e outros. Saraceni é um enfant terriblé do cinema novo, e teve sua fase mais produtiva nos anos 70 e 80.
Em " O gerente", adaptação livre de um conto de Carlos Drummond de Andrade, Saraceni faz talvez o seu filme mais ousado em termos estilísticos e de linguagem. Aliando falta de orçamento com uso da criatividade, Saraceni faz um filme de época ambientado nos dias de hoje. Em meio a personagens vestidos como nos anos 50, misturam-se prédios modernos, automóveis último tipo, figuração espôntanea vestida de qualquer jeito, pessoas olhando para a câmera. O que parece desleixo ( e em alguns momentos realmente parece ) acaba se tornando um conceito que se justifica dentro dessa sua proposta de ensaio poético. Não interessa a coerência de época. E o espectador acaba se acostumando.
O filme narra a história de Samuel, um gerente de uma confeitaria, obcecado por mulheres. Sedutor e galanteador, Samuel tem um hábito muito estranho e bizarro: ao beijar as mãos das mulheres, acaba devorando um pedaço do dedo. Um ato inconsciente de canibalismo.
Essa estrutura louca do filme tem seus bons e maus momentos. Entre os maus, uma cena constrangedora de merchandising escancarado da Petrobrás. 3 Personagens discutem os benefícios da extração do petróleo no País, e concluem que um dia, a empresa irá investir no cinema nacional. Ficou divertido. Outra cena muito louca é a de Ana Maria Nascimento e Silva encarnando uma pomba-gira. Ficou gratuito, porquê isso não se encaixa no filme.
O filme junta pontas e pedaços de filmes, e cenas musicais. Lá pro final, surge do nada um clip de João Gilberto. Em outro momento, cenas de um filme mudo que a gente nem sabe o que significa dentro do contexto.
Resolvi aceitar o filme como uma proposta livre de reflexão e arte, e dessa forma, consegui enxergar um filme curioso e ousado, livre, solto de amarras e do que chamamos de lingaugem cinematográfica.
Não farei avaliação de notas ao filme, porque ele não foi feito para ser criticado. Amem ou odeiem, esse é o filme do Saraceni. Um artista apaixonado pelo cinema nacional.
O elenco é um comentário a parte: Todas as interpretações tem um quê de bufão, de histrionismo. Aliando drama e comédia, o eclético elenco vai de Ney Latorraca a Adriana Bombom, e toda uma galera típica dos anos 70: Roberto Bomfim, Maria Pompeu, Priscila Camargo, Paulo Cesar Pereio. Aliás, a cena com Pereio é antológica, como só Pereio sabe fazer.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Santuário 3D


"Sanctum", de Alister Grierson (2011)

Filme de ação baseado em fatos reais, produzido por James Cameron.
James Cameron fez desse filme uma espécie de laboratório, para testar a tecnologia de câmeras de filmagem 3d, que ele pretende usar na continuação de "Avatar".
O filme narra a história de um grupo de exploradores de cavernas, que fazem uma expedição na maior caverna acessível que existe, localizada no Pacífico Sul. A exploração é chefiada por Frank, sujeito arrogante, que não tem a simpatia de boa parte da equipe, principalmente de seu filho, Josh, de 17 anos. Uma tempestade tropical surge de repente, e o grupo fica preso na caverna, correndo o risco de morrerem afogados. O grupo resolve então percorrer a caverna, cheia de túneis e rios, com pouco oxigênio e suprimentos a disposição. A questão é sair da caverna, mas a medida que o grupo avança, parece ser uma tarefa impossível, e sobreviver é questão de tempo.
O filme alega ser baseado em fatos reais, mas pelo que vemos, parece pouco plausível a veracidade dos personagens. São tipos muito estereotipados. A verdade é que se baseia na história real de Andrew Wight, que chefiou uma expedição que também foi pega de surpresa numa caverna.
O roteiro pouco explora a dimensão dos personagens, dando lugar a tipos rasos, e a diálogos pouco inspirados.
Parece que a intenção do filme é apenas de criar um espetáculo para experimentar novas tecnologias. Dessa forma, fica mais clara a opção de trabalhar com atores pouco conhecidos, e também, com pouca experiência. A tensão do grupo exigiria atores mais bem preparados, que soubessem demonstrar o pânico e desespero de quem está prestes a morrer a qualquer momento. Não convencem.
A fotografia do filme é escura, afinal se passa quase todo nos subterrâneo e dentro da água. Mas usar os óculos 3D acabou prejudicando a visualização. Tiveram várias cenas que eu não consegui identificar o que estava ocorrendo.
Interessante como recentemente tivemos filmes que exploravam o tema do confinamento e da claustofobia: " Enterrado vivo", " 127 horas". Filmes que querem provar que a vontade de sobreviver suplanta qualquer dificuldade.
Essencialmente, " Santuário" é um filme de aventura e ação. Mas a trama da descoberta de pai e filho, que outrora se odiavam, e com as dificuldades, vão se descobrindo, já é bem batida. Até mesmo o recente " Tron, o legado", usou desse clichê, porém com resultados melhores.
Se valeu a pena assistir ao filme? Como passatempo, sim. Mas aviso que o 3D não me pareceu nada espetacular. Aliás, quase nem vi 3 D no filme.

Nota: 6



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Curling


" Curling", de Denis Coté (2010)

Drama Canadense, vencedor do prêmio de melhor Direção (Denis Coté) e ator (Emmanuel Bilodeau) no Festival de Locarno 2010.
" Curling" narra a história de Jean François, pai solteiro que mora com sua filha de 12 anos numa região rural de Quebec. Jean trabalha em uma loja de Boliches, como zelador. O dono do lugar é um cinquentão que namora uma jovem exótica, e ele a coloca para trabalhar ali também. A filha de Jean, Julyvonne ( Philomene Bilodeau, filha de Emmanuel) não estuda nem tem amigos. O pai a protege da civilização,e a impede de fazer qualquer coisa sem a sua autorização. Ela vive trancada em casa, e por não ter convívio social, não sabe se proteger. Paralelo, tem a história de um garoto que desapareceu num lugar próximo.
O filme tem na fotografia o seu ponto forte. Com belíssimas imagens da região gélida ( o prólogo é de uma beleza inquestionável: pai e filha caminhando por uma estrada branca, em meio a uma tempestade de neve), a fotografia reforça o clima de melancolia e depressão que o filme sugere.
O ritmo é extremamente lento, chegando a cansar o espectador. A narrativa não segue bem uma lógica: algumas cenas soltas sem explicação alguma, ocorrem ao longo do filme. Por ex, a cena onde Julyvonne encontra vários corpos em meio a um barranco, não leva a nada. Ao final, surge um tigre, assim do nada. A relação de Jean com seu patrão e namorada é pouco explorada, e por fim, não sabemos o motivo do aprisionamento da filha.
Um filme curioso, mas sem nenhum atrativo que o torne memorável. O diretor Denis Coté poderia ter explorado mais o lado do realismo fantástico, já que ele sugere um " quê" de fantasia ao filme, mas não o desenvolve.

Nota: 6




quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

I Saw The Devil


Akmareul Boatda (2010)

Policial de suspense sul coreano, dirigido por Ji-Woon Kim.
O filme narra a história de Kim, um agente de polícia que tem a esposa assassinada por um serial killer. Ele jura vingança, e que fará o assassino sofrer muito mais do que sofreu sua esposa. Ele conta com a ajuda de seu sogro, um detetive aposentado. O assassino (Min Sik Choi, protagonista de "Oldboy") tem como alvo mulheres jovens. Kim consegue descobrir o paradeiro do assassino, mas ao invés de matá-lo, injeta em seu corpo um gps. Dessa forma, ele consegue ir atrás do assassino, lhe dar várias surras, e soltá-lo de novo. Até que o assassino consegue retirar o gpss, e a caçada recomeça.
Ótimo thriller, com roteiro que remete a vários filmes de serial killer, entre eles, " Silêncio dos Inocentes", " Seven" e o recente e excelente sul coreano " O caçador".
A interpretação dos atores é magistral, com destaque para Min Sik Choi, no papel do assassino. Curioso que ele foi o anti-herói em " Oldboy", e aqui, ele faz uma inversão de personalidade, mostrando saber interpretar várias facetas distintas. Impossível não sentir ódio pelo seu personagem: frio, calculista, arrogante, obsceno.
O roteiro faz um paralelo entre a vingança de Kim e sua obsessão em caçar o assassino, e com o próprio assassino, obcecado em novas vítimas. Matar para ele é algo impulsivo, e incontrolável. A violência é de ambas as partes. O filme dosa altas cenas de tensão, com ação e drama. A violência , como não poderia deixar de ser nas produções sul-coreanas, é gráfica e abusa do gore. Existe um certo sadismo nos filmes orientais em querer mostrar doses cavalares de violência, e principalmente contra a mulher. Incomoda esse misoginismo, a forma como a mulher é retratada no filme. Sempre submissa, sem voz. É um filme essencialmente masculino.
Muitas passagens do filme me deixaram profundamente irritado, justamente por esse pouco valor ao ser humano. Mas a história é essa, e é muito bem contada, apesar de alguns momentos de inverossimilhança, apenas para deixar a história fluir ( por ex, as cenas quando o assassino invade uma clinica e uma farmácia). A direção é ótima, criando altos climas de suspense. O filme é longo, tem 141 minutos, e poderia perfeitamente ter uns 20 minutos a menos.
A produção concorreu no festival de Sundance em 2011.

Nota: 7

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Namorados para sempre


" Blue Valentine", de Derek Cianfrance (2010)

Drama independente dirigido e escrito por Derek Cianfrance, narra a relação de um casal, Dean (Ryan Gosling) e Cindy ( Michelle Willians), por um período de 5 anos.
Ryan é um jovem humilde, que trabalha como funcionário de uma transportadora de mudanças. Em dos seus trabalhos, conhece Walter, um velhinho que se muda para um asilo. Um dia, ao visitá-lo, Dean conhece por um acaso Cindy. Fica de cara apaixonado por ela, mas ela não corresponde. Dean então tenta de todas as formas conquistar a atenção dela. Após muita resistçencia, Cindy cede aos apelos do rapaz. Até que um dia ela engravida, e ele não aceita. Cindy resolve abortar, mas na hora H desiste. Os dois reatam a relação, e ficam mais apaixonados. 5 depois, os dois estão casados, e a filha deles, Frankie, tem 5 anos. Ela trabalha como enfermeira, e seu patrão se sente atraído por ela. Mas a relação do casal está desgastada, e Dean tenta uma derradeira forma de reacender a paixão.
Profundo e doloroso retrato sobre o amor em processo de destruição, com interpretação magistral de Ryan Gosling e Michelle Willians. A forma de filmar me lembrou bastante os filmes de John Cassavettes, e o trabalho do elenco reforça essa impressão. Eu ficava enxergando Gena Rowlands no personagem de Michelle Willians. Econômica na atuação, mesmo nos momentos mas dramáticos e perturbadores, Willians demonstra ser uma das melhores atrizes americanas da atualidade. A câmera em registro quase documental e a atuação naturalista só aumentam a força desse filme.
O roteiro e a edição brincam com o tempo. O filme vai e volta 5 anos e depois, reforçando os momentos felizes e de derrocadas do casal.
O ritmo do filme é lento, contemplativo. A trilha sonora corresponde a melancolia do filme, e ao final, fica-se a sensação de que a vida é triste, e que devemos aproveitar os momentos felizes que ela nos proporciona.

Nota: 9