sexta-feira, 18 de outubro de 2024
Lá fora
"Outside", de Carlos Ledesma (2024)
Terror filipino, "Lá fora" se passa em um mundo pós apocalíptico nas Filipinas, devastado por hordas de zumbis. O filme não explica porquê as pessoas se tornaram mortos vivos. Logo no início, uma família está em uma van, fugindo para o interior. Francis (o pai), Íris (a mãe), Josh (o filho adolescente) e Lucas (o filho criança) se encaminham para a fazenda dos pais de Francis, que ele não vê há anos. Ao chegar lá, ele encontra o pai morto na cama, com um tiro na cabeça. A sua mãe se tornou uma zumbi e ele a mata. Francis decide que a família deve ficar ali por um tempo. Com o tempo, Francis vai ensinando Josh a se tornar um homem valente, mas Josh é frágil e isso irrita seu pai. Íris implora ao marido que eles sigam até um acampamento no norte, aonde os sobreviventes provavelmente se encaminharam. Mas Francis não quer ir, pois teme que se for, perderá o controle sobre a sua família. Um dia, Diego, irmão de Francis, aparece na fazenda. Francis sempre suspeitou de que Diego e íris foram amantes e que Josh seria filho do seu irmão. Francis vai se tornando um homem violento, e a família entende que não são somente os zumbis que eles devem temer.
Não entendo a decisão dos produtores de fazer um filme de zumbi de 142 minutos de duração! O filme se arrasta em cenas repetitivas e não tem dramaturgia para ess etempo todo. Poderia ter certamente 40 minutos a menos. Aonde o filme acerta, é na construção do arama. Quem espera um filme de ataques intermitentes de zumbis, vai se frustrar. O foco é a vilanização da figura paterna, que vai enlouquecendo aos poucos, assim como em "O iluminado", certamente uam inspiração. Os efeitos de maquiagem dos zumbis são bons, e o elenco, principalmente Sid Lucero, como Francis, estão ótimos.
Making Montgomery Clift
"Making Montgomery Clift", de Robert Anderson Clift e Hillary Demmon (2018)
Ótimo documentário sobre o ator Montgomery Clift, morto aos 45 anos de idade em 1966, de insuficiência cardíaca. O filme foi co-dirigido por Robert Anderson Clift, sobrinho do ator nascido em 1973, mas que nunca chegou a conhecê-lo. O filme procura desmistificar a história de que Clift era angustiado por conta de sua homossexualidade e vivia reprimido. O pai do diretor Robert, Brooks Clift, dedicou parte de sua vida colecionando memorabilia de seu famoso irmão. Boa parte do filme apresenta a briga que ele teve com a biógrafa Patricia Bosworth, que em sua biografia sobre Montgomery Clift, ajudou a disseminar informações que botavam Clift em um lugar de ator atormentado e depressivo, e que após o acidente de carro que quase lhe custou a vida, não conseguiu mais trabalhar. Os depoimentos de familiares e de amigos, além do amante de Clift, o ator Jack Larson, a desmentem. Clift fez mais de 10 filmes depois do acidente e segundo Larson, Clift se tornou melhor ator e conseguiu papéis melhores, de ond eo próprio Clift destaca que seus dois melhores filmes seriam "O ju;gamento de Nuremberg" e "Os deuses vencidos".
Outro ponto importante no filme, é a briga entre o cineasta John Houston e Montgomery Clift. Houston teria processado Clift porqu6e ele teria problemas de memorizar as falas no filme "Freud, além da alma", e isso teria prejudicado o resultado final do filme. Hounton perdeu o processo, mas o irmão de Clift, Brooks, diz que Clift ficou 4 anos sem conseguir outro trabalho, e que sem poder trabalhar, ele teria acentuado o consumo de álcool e drogas, e asism, acelerado sua depressão e a morte.
O filme fala da carreira de Clift, desde aos 13 anos, em 1933, quando fez seu primeiro papel no teatro, e comenta as inúmeras recusas de Clint em querer fazer parte de filmes famosos, como "Crepúsculo dos deuses", 'Vidas amargas" e 'Sindicato dos ladrões". Clift foi indicadoa. 4 Oscars: "O julgamento de Nuremberg", 'A um passo da eternidade", "Um lugar ao sol" e "Perdido na tormenta".
A garota da vez
"Woman of the hour", de Anna Kendrick (2024)
Curioso como "A garota da vez" e "Maníaco do parque" tomaram decisões semelhantes no roteiro para retratar um caso real de um serial killer que matou barbaramente várias mulheres. Os dois filmes decidiram não darem protagonismo ao assassino, e sim, à uma protagonista feminina. Através dela, o espectador testemunha a misoginia e masculinidade tóxicas reinantes nos anos 70, no caso de "A garota da vez", e anos 90, em "Maníaco do parque". Por mais que as mulheres fossem buscar ajuda em delegacias e mídia, dominada por homens, não conseguiam serem ouvidas. E mais curioso ainda: ambos os assassinos usavam a fachada de serem fotógrafos de moda e levavam as vítimas que eles seduziam com promessa d ecarreira e dinheiro para um lugar ermo, para matá-las e estuprá-las.
"A garota da vez" é a estréia na direção da atriz Anna Kendrick. O filme se baseia em um fato bizarro ocorrido em 1978: Cheryl Bradshaw (Kendrick), aspirante à atriz, batalha por um lugar ao sol em testes de elenco, mas tudo o que houve são produtores e diretores que a assedizm com propostas indecorosas. Cheryl acaba aceitando a proposta de sua agente: participar de um programa de tv, "The dating game", para tentar alavancar a sua carreira e popularidade. Sö que entre os 3 convidados e possíveis namorados, está o serial killer Rodney Alcala (Daniel Zovatto).
O filme tem uma linha narrativa que vai e volta ao tempo, desde 1971 até 1979, ano em que Rodney foi preso. Diversas vítimas têm sua história apresentada e o encontro fatal com Rodney, em uam estruutra que lembra a série "Versace", que traz a narrativa pela ótica das vítimas.
Kendrick faz uma boa estréia, com bons atores em cena e uma tensa narrativa, que evita cenas sanguinolentas e aposta na denúncia contra o feminicídio.
Hora do massacre
"Wake up", de François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell (2023)
"Hora do massacre" é um thriller slasher co-produzido por França e Canadá, que remete a dois filmes cults: o francês "Nocturam", de Bertrand Bonello, sobre jovens ativistas que se escondem em um shopping center de noite, e são caçados por seguranças; e "Em pânico", um slasher obscuro dos anos 80, sobre jovens que invadem uma loja de móveis e passam a noite lá, e acabam sendo mortos um. aum por um serial killer.
Um grupo de 6 jovens ativistas decidem passar a noite em uma loja onde os móveis são produzidos com madeira da Amazônia. Dispostos a sabotar a loja, sujando tudo de sangue, eles começam a danificar tuddo. Mas um dos seguranças, Kevin (Turlough Convery), que tem uma índole de psicopata, decide acabar com a festa dos ativistas e se prepara como se fosse para uma guerra, matando um a um.
O vilão do filme é quase que uma versão maníaca de Rambo, de Stalone, se preparando literalmente como se fosse para um combate com vietcongs na floresta. Chega a ser engraácada e não sei se a intenção era fazer uma paródia. Fico com pena dos ativistas, os filmes franceses resolveram debochar deles, vide o filme dos tubarões "Sob as águas do Sena", onde literalmente toodos se fodem.
quinta-feira, 17 de outubro de 2024
A place called silence
"Mo sha", de Sam Quah (2024)
Ótimo thriller chinês, que flerta com o gênero terror, policial e drama. Essa mistura de narrativas torna "A place called silence" um filme tenso, onde o espectador fica preso do início ao fim, tentando descobrir todas as peças do quebra-cabeça. São tantos os plot twists, que fica impossível entender aonde o filme irá se encaminhar, e mais, qual a verdadeira índole de cada personagem. Todos são suspeitos, sem exceção.
Curiosamente, um fato raro, o filme foi refilmado pelo mesmo diretor apenas 2 anos depois de ter lançado o original. Em 2022, o cineasta e diretor Sam Quah lançou o filme, mas por conta da acusação de assédio contra um dos atores principais, o filme foi retirado de circulação. Sam Quah decidiu relançar com outro elenco e em 2024, o filme se tornou uma das maiores bilheterias na China.
Tong (Wang Shengdi) é uma adolescente muda, filha da faxineira da escola onde estuda, Li Han (Janine Chun-Ning Chang). Tong sofre bullying violento de um grupo de meninas da escola. Dias depois, as agressoras são encontradas assassinadas. Tong e sua mãe são consideradas suspeitas, até que Tong desaparece. O filho do policial chefe, que mora na frente do prédio de Tong, grava um vídeo onde ela é agredida por um homem coberto com capa de chupa e mascarado, e depois, ela desaparece. Sua mãe, Li Han, se desespera e procura encontrar o paradeiro da filha, suspeitando do zelador da escola onde trabalha, Lin (Wang Chuanjun). A polícia surge para tentar descobrir o culpado pelos crimes, enquanto Li Han tenta procurar paralelamente o paradeiro de sua filha.
O filme é tão bom, que eu quero muito tentar decsobrir a primeira versão. As reviravoltas são mirabolantes, são vários personagens que vão surgindo na trama e os diversos flashbacks vão adicionando novas camadas ao filme. Os atores são todos ótimos. São histórias de violência, de vingança e de amor exacerbado. Um grande filme de ação e suspense, que tem momentos que lembrar um slasher.
Deadstream
"Deadstream", de Joseph Winter e Vanessa Winter (2022)
Concorrendo no SXSW e vencedor do prêmio do público em Sitges, "Deadstream" é uma comédia de terror co-produzida por Estados Unidos e Reino Unido, escrita e dirigida pela dupla Vanessa Winter e Joseph Winter. Rodado em uma casa em Utah, Estados Unidos, o filme traz referências claras à "A bruxa de Blair" e "Evil dead". Do 1o, ele traz o formato de found footage, e do 20, a casa abandonada e os cânticos demoníacos, trazendo seres assustadores. O filme foi rodado com baixo orçamento e os efeitos e make de caracterização foram todos práticos.
O influencer Shawn Ruddy (Joseph Winter, excelente) é uma espécie de Jack ass: ele posta vídeos em situações de perigo e constrangedoras. Quando ele é cancelado por conta de uma pegadinha com um morador de rua, ele fica 6 meses forado ar, mas decide retornar e conquistar seus seguidores. Ele propõe passar uma noite em uma mansão conhecida como mal assombrada, que pertenceu à uma romancista em 1880, Mildred. De família rica, ela acabou de suicidando, após uma desilusão amorosa e também pelo fracasso de seus romances. Shawna chega de carro e deixa tudo live no stream, com comentários dos seguidores. Ele decide jogar fora a chave de ignição do carro e a chave da casa, para tornar tudo mais aterrorizante. Mas quando fatos estranhos acontecem, Shawn tenta ir embora, mas é impedido por algo inexplicável. Do nada, surge uma seguidora sua, Chrissy, que se diz muito sua fã, e que decide ajudá-lo a gravar tudo.
Joseph Winter carrega o filme inteiro nas costas, como se toda a narrativa fosse live. Os comentários dos seguidores na tela também são divertidos, vale prestar atenção. O charme do filme é justamente trazer um look vintage anos 80, com efeitos e trilha de sintetizadores que emulam a época. Os seres monstruosos são bem feitos e a câmera do filme também é bastante ágil e criativa.
Richelieu
"Richelieu", de Pier-Philippe Chevigny (2023)
Produção canadense, vencedora de mais de 15 prêmios internacionais e concorrendo no Festival de Tribeca, o filme é escrito e dirigido por Pier-Philippe Chevigny. "Richelieu" tem todo um parentesco com o cinema de Ken Loach: um cinema político e social, com a câmera apontada para os desfavorecidos da sociedade e a sua luta por condições melhores de vida e trabalho.
Na cidade de Richelieu, Canadá, próximo à Quebec, Ariane (Ariane Catellanos) é contratada para servir de tradutora para trabalhadores imigrantes de uma fábrica de alimentos. A maioria deles é da Guatemala, e somente falam em castelhano. De início, Ariane, que é obrigada a agir friamente com os trabalhadores e não se envolver em assuntos sindicais. Mas quando os donos passama cobrar mais produtividade e pagamentos de taxas sindicais onde os empregados sequer podem se associar, Ariane passa a defendê-los perante os patrões.
Com uma narrativa naturalista, o filme traz excelentes performances em uma trama que vai ficando densa e angustiante, trazendo referências também ao cinema dos irmãos Dardenne, que apostam em uma filmografia onde as histórias transitam sobre a humanidade de personagens marginalizados.
A casa do cemitério
"Quella villa accanto al cimitero", de Lucio Fulcci (1981)
"Não sabemos se as crianças são monstros, ou se monstros são as crianças", Henry James. Pegando essa frase do livro de Henry James, "A volta do parafuso", Lucio Fulci, mestre do cinema italiano de terror, finaliza seu filme, "A casa do cemitério". O filme fecha uma trilogia chamada "portais do inferno", iniciada com "Pavor na cidade dos zumbis" e "Terror nas trevas". Depois de "A casa do cemitério", Fulci faria uma de suas grandes obras primas, o slasher 'O estripador de Nova York". Lucio Fulci foi considerado um dos criadores do slasher. com filmes que surgiram desde os anos 60 e envolvendo assassinatos brutais.
Um historiador, Dr Norman (Paolo Malco) se muda com sua esposa, Lucy (Catriona Maccoll) e seu filho pequeno Bob (Giovanni Frezza) para uma mansão em Boston. Ele está substituindo o antigo pesquisador, que matou sua amante e se matou em seguida. O dono original da mansão, Dr Freudstein, fez pesquisas científicas e agora Norman dá continuidade. No entanto, fatos estranhos começam a ocorrer na casa. Bob tem visões de uma menina que o alerta para ir embora da casa. Pessoas que entram na casa passam a ser mortas e Norman e Lucy não tomam conhecimento.
O desfecho do filme é tão bizarro e sme lógica, que se torna um grande barato assistir. Não existe uma epxlicação plausível. Fulci era famoso por caiar tramas mirabolantes onde para o espectador, era melhor não pensar muito pois senão, nada faz sentido. Bob, o menino, é cópia escarrada do menino de "O iluminado", grande referência para o filme. Fico com pena dele que teve que testemunhar muitos crimes e corpos decapitados e mutilados. As cenas de morte são uma diversão à parte, Fulci sabia como poucos criar uma suspensão no ar para provar um efeito de tensão nas mortes.
quarta-feira, 16 de outubro de 2024
I don't 'love you anymore
"I don't love you anymore", de Zdenek Jiráský (2024)
Em hipótese alguma, esse filme deve ser assistido por adolescentes depressivos, pois é um gatilho enorme para acionar ideações suicidas.
O filme é um drama co-produzido por República Tcheca, Eslováquia e Romênia. Participou do Festival de Cinema de Varsóvia, onde ganhou o Prêmio Especial do Júri. Em Uztecky Kraj, noroeste da República Tcheca, mora o adolescente Marek (Daniel Zeman), 13 anos. Ele passa o dia todo gravando vídeos aleatórios com o seu celular. Em casa, ele mora com a sua mãe. Na escola, ele conhece a rebelde Tereza (Maisha Romera Kollmann). Marek está revoltado com a sua mãe, que quer trazer o namorado para morar com eles. Tereza briga com seus pais. Juntos, Marek e Tereza decidem fugir, pegando um trem para a Romênia. Marek grava um vídeo simulando o sequestro de Tereza e o envia para os pais dela. Os dois jovens roubam dinheiro e tentam sobreviver na cidade, mas por serem menores, não conseguem se hospedar em nenhum hotel. Ambos acabam na periferia da cidade, uma área pobre e decadente.
O filme fala sobre uma geração perdida, sem ambições e sem futuro, com dificuldade de se comunicar com os adultos. Marek e Tereza são infelizes e nem se esforçam para tentar reverter a situação deles. Depressivos, procuram encontrar um desfecho para as suas vidas.
Com ótima performance dos dois jovens atores, fiquei impressionado como o diretor e o roteiro não fazem a mínima questão de trazer um otimismo na vida desses jovens. O filme abraça a incompatilidade com a vida e vai com ela sem dó nem piedade. A cena final é bem assustadora, e não encontra luz no fim do túnel para o grave problema de suicídio entre os jovens.
In the room where he waits
"In the room where he waits", de Timothy Despina Marshall (2024)
Escrito e dirigido pelo asutraliano Timothy Despina Marshall, "In the room where he waits" foi rodado durante o período do lockdown, em um hotel em Brisbane. O filme se apropria do terror psicológico para falar de traumas do passado familiar do protagonista Tobin, e também do momento presente. Tobin (Daniel Monks) se mudou para Nova York para viver sua carreira de ator. Ensaiando para uma versão de "À margem da vida", de Tennesse Willians oara a Broadway, o espetáculo teve de ser suspenso por conta do lockdown da covid. Mas os ensaios continuam via Zoom. Quando o pai de Tobin se suicida, Tobin precisa retornar à sua casa, na conservadora Brisbane, Austrália. Ao chegar lá, ele precisa ficar 2 semanas de quarentena em um quarto de hotel. Essa permanência sozinho no quarto faz com que Tobin comece a enxergar fatos estranhos no quarto. Coisas mudam de lugar, portas se abrem. Tobin liga para a recepção e diz que alguém está em seu quarto. Um funcionário vai até o quarto, mas não encontra nenhum indício da presença de outra pessoa. Tobin passa a acreditar que o fantasma de seu pai surge para atormentá-lo.
O personagem de Tobin é PCD, e o filme fala sobre aceitação do corpo e suicídio. O pai de Tobin se tornou alcóolatra e entrou em decadência física e mental. Tobin começa a se espelhar na figura paterna, que sempre esteve ausente em sua vida. O terror é utilizado para trazer essa metáfora da disfuncionalidade parental. Com baixo orçamento, o filme boa qualiadde técnic,a principalmente na fotografia que traz tons soturnos e atmosfera de elementos de terror. O filme todo está em cima de Daniel Monks, que sustenta com segurança o personagem.
No lugar da outra
"El lugar de la otra", de Maite Alberdi (2024)
Indicado pelo Chile à uma vaga ao Oscar de filme internacional 2025, o filme concorreu no Festival de San Sebastian 2024. "No lugar da outra" é um drama chileno inspirado em fatos reais ocorrido nos anos 50. Em 1955, a escritora Maria Carolina Geel assassinou seu amante, Roberto Pumarino Valenzuela, no hotel mais chique de Santiago. Após tê-lo matado, ela bebeu seu sangue. Não se soube os motivos do crime. Após grande apelo popular de grupos de mulheres, o presidente acabou liberando a autora, após mais de 500 dias presa.
A história é toda observada pelo ponto de vista de Mercedes (Elisa Zulueta), secretária do juiz responsável pelo caso de grande comoção pública. Mercedes é uma trabalhadora e dona de casa que está rodeada por homens tóxicos, tanto no trabalho, onde ela sofre constantes mansplanning, quanto em casa. Seu marido, Efrain, é um fotógrafo que faz da casa o estúdio, e constantemente reclama de tudo. Os dois filhos já pós adolescentes vivem brigando e de nada ajudam Mercedes nos afazeres do lar. Quando Marcedes tem a missão de ir até o luxuoso apartamento da escritora María Carolina Geel(Francisca Lewin), ela se encanta com a vida de alta sociedade da escritora e de sua liberdade. Mercedes decide passar horas do dia ali, como uma camaleoa, vestindo as roupas, usando o perfume, deitando em sua cama e lendo seus livros. Essa conviv6encia no ambiente de uma mulher tão livre e dona de si, vai transformando Mercedes aos poucos.
Um lindo e sensível filme de cunho feminista, mostrando a sororidade e o impulso de independência feminina em uma época onde cabia às mulheres apenas o direito de ficarem caladas e servirem aos homens. Excelente reconstituição de época, e ótimos atores, conferindo ao drama momentos de fino humor, com uma trilha sonora envolvente.
Abracadaver
"Abracadaver", Pancho Rodriguez (2024)
"Abradacaver" é um filme mexicano que mistura drama, ação e um humor meio estranho. O tempo todo fiquei me lembrando do filme "Truque de mestre", com Jesse Eisemberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson. O filme apresenta um trio de irmãos mágicos chamados de Merlin, Houdini e Medea (que nomes criativos haha) que são filhos da maior ladra do país, já falecida, e do maior ilusionista do México. Juntos, os irmãos decidem aplicar um grande golpe: roubar uma múmia avaliada em milhões de dólares para poder acertar as contas com a sua família.
O filme prometia ser uma diversão escapista: cenas de ação, humor, personagens dúbios. Mas a realização não soube explorar todas as suas potencialidades. O filme é muito arrastado, falta carisma aos personagens. Os atores são medianos, e a parte técnica também não chama muito a atenção. Queria muito ter gostado do filme, pois o título dele me chamou a atenção.
terça-feira, 15 de outubro de 2024
The seed of the sacred fig
"Danaye anjir-e moabad", de Mohammad Rasoulof (2024)
Toda a vez que vejo um filme iraniano, fico chocado com a qualidade das atuações: como são espetaculares esses atores!! Vencedor do Grande prêmio do Juri e do Fipresci no Festival de Cannes 2024, "The seed of the sacred fig" se tornou conhecido mundialmente pela história de seu diretor. Mohammad Rasoulof foi condenado há 5 anos de prisão pelo Estado islâmico por conta de seus filmes, que fazem críticas ao regime iraniano. Mas ele conseguiu fugir e andou a pé até chegar à Europa e se manter exilado, sem que ninguém soubesse aonde ele estava. Mas quando "The seed of the sacred fig" foi selacionado para a Palma de Ouro em Cannes, Mohammad Rasoulof inesperadamente surgiu no grande evento. É impossível não fazer um paralelo da história sobre perseguição política do filme, à vida real de Mohammad Rasoulof. O burburinho foi tanto, que o filme acabou sendo um dos grandes favoritos ao Oscar de filme internacional 2025, mas pela Alemanha. O filme foi todo rodado às escondidas em Teerã, financiado pela Alemanha. Isso explica os ambientes claustofóbicos e apertados do filme, o que acabou trazendo um conceito à narrativa, um aprisionamento físico e espiritual da família de Iman (Missagh Zareh), um postulante à juiz em Teerã. Ele mora com sua esposa dedicada, Najmeh (Soheila Golestani) e as duas filhas, Rezvan (Mahsa Rostami) e a adolescente Sana (Setareh Maleki). Iman é incumbido de assinar uma declaração de pena de morte, sem saber os motivos. Em conflito, ele recebe de seu colega de trabalho uma arma para se proteger dos eventuais ataques da população que protesta na rua pela prisão de uma jovem estudante, temendo que a pena de morte provoque um grande tumulto e revanchismo. Iman mostra à arma para sua esposa e a esconde. Enquanto isso, as filhas, que ficam ciente de todas as manifestações populares no país por conta das redes sociais, escondem em sua casa uma amiga, Sadaf (Niousha Akhshi), agredida pela polícia aparentemente sem motivos. Quando a mãe descobre, pede que Sadaf saia de casa, temendo represálias à família. Iman descobre que sua arma sumiu, e culpa sua esposa e filhas pelo sumiço, provocando um clima de medo e insegurança.
O filme transita inesperadamente do drama para o suspense e no final, um trhiller que chegou até a me lembrar de "O iluminado", com o labirinto sendo substituído por uma construção milenar repleta de esconderijos.
O roteiro traz um elemento que conecta o filme aos filmes contemporâneos: o quanto a internet e as redes sociais ajudam a geração de estudantes a entender o que se passa em seu país, onde o governo esconde as informações da população. Um filme poderoso, repleto de camadas e sub-textos.
Sunflower
"Sunflower", de Gabriel Carrubba (2023)
Produção australiana, 'Sunflower" é um drama indie LGBTQIAP+ todo rodado em Melbourne. O filme traz Leo (Liam Mollica), um estudante do ensino médio de 17 anos. Ele sabe que é gay, mas esconde de todo mundo, com medo que seus pais conservadores e seus colegas de escola homofobicos descubram. Leo tem um crush em seu melhor amigo, Boof (Luke J. Morgan). Leo começa a namorar Melissa para criar uma fachada. Mas os conflitos de Leo passam a crescer, e ele passa as noites em salas de bate papo gay. Quando chega a uma situação insuportável, Leo tenta se matar. Mas quando conhece o amigo de seu irmão, Cam (Jacob Pontil-Scala), as coisas passam a mudar.
"Sunflower" traz uma história já bastante vista no cinema queer. Diferente de "I love Simon", que traz um tom mais açucarado, 'Sunflower" é mais dramático e realista. Os atores são bons, e o tempo todo Leo se imagina em um imenso campo florido de girassóis, seu refúgio de sua realidade.
segunda-feira, 14 de outubro de 2024
O vazio
"Il vuotto", de Giovanni Carpanzano (2023)
Drama romântico LGBTQIAP+ italiano, "O vazio" é todo belo na embalagem: dois protagonistas que parecem modelos; lindas locações rodadas na Calábria, sul da Itália; direção de arte, tudo requintado. O roteiro trabalha o melodrama, e fala sobre o preconceito e homofobia na sociedade conservadora da região. Dois homens que se conhecem, se amam, mas não podem viver o seu amor.
Marco (Kevin di Sole) estuda teatro e quer ser ator. Seus pais são fazendeiros, mas não entendem a escolha profissional do filho. Giorgio (Gianluca Galati) é filho de um poderoso advogado, que quer que ele siga a carreira e se case com a filha de um homem poderoso. Quando Giorogio e Marco se conhecem, Marco o leva até seus ensaios de teatro, que acabam fascinando Giorgio. Mais do que isso: eles se apaixonam. Em segredo, vivem um romance tórrido. Mas Giorgio é forçado por seus pais ao casamento com Anna. Marco pressiona Giorgio para tomar uma decisão.
O filme poderia ser um bom drama sobre as difíceis paixões entre jovens ainda no armário. Mas a decisão artística do diretor, que para trazer elementos do teatro ao filme, traduz os sentimentos da dupla em performances bizarras: nús, cobertos por um voal transparente. A cena do sexo, a briga, a tristeza, todas essas cenas eles estão em um cenário branco com esse voal. Conceitualmente, não combinou com o restante do filme, e ficou estranhíssimo.
Todo tempo que temos
"We live in time", de John Crowley (2024)
Andrew Garfield é o tipo de ator que todo mundo quer ter por perto, seja como amigo, parente, namorado, marido. O seu jeito desengonçado, garotão, é a sua marca registrada. O seu enorme carisma é um dos motivos do sucesso desse melodrama que ele divide com Florence Pugh, uma atriz que é uma força da natureza. A química é perfeita em cena. O espectador torce, sorri, chora, se apaixona por cada segundo. E sim, se prepare para chorar muitos litros nesse romance triste, mas que deixa um sorriso na boca no seu final.
Co-produção França e Estados Unidos, "Todo tempo que temos", é todo rodado em Londres, tanto na área rural quanto na metrópole. John Crowley dirigiu "Brooklyn", drama com Saorsie Rosnan que a colocou como indicada ao Oscar em 2015. Tobias (Andrew Garfield) é um jovem recém divorciado que numa noite, ao atravessar a rua, é atropelado por Almut (Florence Pugh). Tobias acorda no hospital todo enfaixado e assim ele e Almut se apaixonam à primeira vista. Almut sonha em ser chef de cozinha e por isso participa de um concurso de culinária. Tobias deseja constituir uma família. Almut fica em conflito sobre se segue seu coração ou seu desejo profissional. Até que a descoberta de um câncer muda toda a sua vida.
O filme é editado em narrativa não cronológica, e esse vai e vem no tempo ajuda a desmistificar os clichês do gênero: logo de início, já sabemos que ela está doente. O filme alterna momentos de drama, comédia e romance em boa dosagem. A cena do nascimento da filha do casal no banheiro de uma loja de conveniência é genial, com todo o elenco e dois atores coadjuvantes da loja perfeitos. É um filme elegante, bem filmado, com linda fotografia, trilha sonora e direção de arte. Não há como não se apaixonar pela dupla e sentir todo o peso de seus dramas e conflitos.
Island
"Island", de Ryan Sullivan (2008)
Controverso documentário LGBTQIAP+, "Island" é repleto de cenas de sexo explícito. Ryan Sullivan, 24 anos, é um jovem documentarista que decidiu comprar uma filmadora e gravar na sua cidade, Nebraska, situações do cotidiano: furacões, as ruas, as pessoas. Quando seu irmão mais velho, John, é expulso de casa por ser gay, Ryan tenta entender melhor o seu irmão, que até então, vivia no armário e todo mundo desconhecia a sua orientação sexual. Ao vasculhar as coisas deixadas pelo irmão, Ryan decsobre um dvd pornô da produtora "Treasure island media". Ryan decide ir de ônibus até San Francisco e conhecer o dono da produtora, Paul Morris, e dizer que quer trabalhar com ele, para assim, entender o que seu irmão viu naquele filme que ele comprou. Mas para sua surpresa, ele decsobre que um dos modelos da produtora é o seu irmão, John, conhecido como o mais submisso e permissivo de todos oas modelos. Sem que seu irmão saiba, ele grava o irmão fazendo sexo.
O filme traz entrevistas com os modelos da produtora, que é conhecida por somente produzir coteúdo "bareback", ou seja, sme uso de camisinha, desde 1998. Paulo Morris alega que a camisinha tirou o sentido do sexo pornô, que é a crueza, a liberdade. Muitos homens se inscrevem para trabalhar na produtora,m se submetendo a todo tipo de fetiche. Ma so foco é John, o irmão de Ryan: emd epoimento, ele diz que quer bater ser recorde de parceiros em uma orgia, e ainda diz que é soropositivo, e que não se incomoda de fazer sexo com pessoas contaminadas. O filme é cru, trazendo um universo underground, sobre pessoas que querem fazer sexo sem proteção. Ryan é o narrador e através dele, vemos um sub-gênero do pornô, realista, com pessoas comuns, fora do padrão, e cujo dono da produtora, Paul Morris, é conhecido por tratar os modelos como escravos e maltratá-los. Não recomendo o filme a pessoas sensíveis ao forte conteúdo de exploração sexual.
Super/Man: The Christopher Reeve Story
"Super/Man: The Christopher Reeve Story", de Ian Bonhôte e Peter Ettedgui (2024)
É impossível não se emocionar com a história trágica do ator Cristopher Reeves. Mas além de sua fatalidade, o filme ainda reserva outras: a de Robin Willians, a da esposa de Reeves, Dana, e a crueldade do pai de Reeves, Franklyn, que nunca o apoiou em nada na vida, principalmente em sua carreira artística. É comovente ver o quanto que Robin Willians e sua esposa Marsha se dedicaram para a recuperação de Reeves, sempre estando ao seu lado e trazendo alegria e conforto. Reeves e Willians estudaram juntos na prestigiada escola de artes Julliard, nos anos 70, e desde então, foram inseparáveis. Em determinado momento, Glenn Close dá um depoimento contundente: "se Reeves não tivesse morrido, Robin Willians ainda estaria conosco". O filme traz toda a história de Reeves, desde sua infância, a carreira, a escalação para 'Superman", o desprezo de seus colegas artistas e família dizendo para ele não fazer o filme; o fracasso comercial de todos os filmes que ele fez como ator, fora do personagem de "Superman; as 2 esposas que teve: Gae exton, modelo inglesa e mãe de dois de seus filhos (Alexandra e Matthew), e Dana Reeve, atriz americana, com quem teve um filho, Willian, e ficou do lado de Reeves o tempo todo, até morrer de cancer, 18 meses depois da morte do marido.
Dois momentos que chorei desesperadamente: 1) Após seu acidente, em 1995, Reeves queria morrer. Mas Dana pediu para que ele lutasse e que ficaria ao seu lado o tempo todo, que jamais o abandonaria. Reeves diz que olhos para os olhos de Dana, e que qualquer getso que parecesse piedade, ele desistiria. 2) A homenagem que a Academia do Oscar fez para ele, em sua 1a aparição pública, no ano de 1996. Quando Whoopi Goldeberg anuncia seu nome, e ele surge na cadeira de rodas e a platéia em peso se levanta e o aplaude, é dos momentos mais tocantes que você verá em um filme.
O filme traz depoimentos de Richard Donner ( que o dirigiu em 'Superman"), atores, família, amigos. Susan Sarandon, Glenn Close, Jeff Daniels. Ah, esqueci de mencionar o 3o momento sublime: Quando Robin Willians apresenta no Oscar de 2005, naquele momento clipe dos mortos do ano, a imagem de seu amigo Cristopher Reeves. Ele diz que a água que ele está jogando em sua imagem, é para regar as céluas tronco dele. Reservem os lenços.
A verdadeira dôr
"A real pain", de Jesse Eisenberg (2024)
Concorrendo a melhor filme no Festival de Sundance 2024, de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro, "A verdadeira dôr" me lembrou muito de "Uma vida iluminada", de Liev Schreiber. Ambos os filmes falam sobre a herança de seu judeu nos EStados Unidos. Os protagonistas, após a morte da avó, decidem visitar o local onde ela nasceu, e assim, se conectar com os antepassados. O filme é a 2a direção do ator Jesse Eisemberg, que estreou em 2002 com o estranho "Quando Você Terminar de Salvar o Mundo", com Finn Wolfhard e Juliane Moore. Mas "A verdadeira dôr" é excepcional: misturando com precisão e inteligência drama e comédia. Jesse Eisemberg interpreta David (no melhor estilo Woody Allen de ser: inseguro, misantropo, arredio, anti-social), casado e com filho pequeno, morando em Nova York e trabalhando como vendedor de anúncios digitais para a internet. Em sua vida aparentemente feliz, ele reencontra o seu primo Benji (Kieran Culkin), que ainda mora na cidade do interior onde David nasceu. Após a morte da avó de ambos, Benji tentou o suicídio, mas sobreviveu. Benji tem surtos emotivos e não consegue entender porquê as pessoas são felizes em um mundo onde a desigualdade social, as guerras são constantes. Com a herança da avó, David convida Benji para ir até a Polônia e conhecer o lugar onde a avó nasceu. Durante a viagem, os dois se unem a um grupo de excursão, e fazem um passeio turístico guiado. Benji é a grande atração do grupo: ele é sincero e fala tudoo que vem na sua mente. David o inveja por ser a pessoa que ele sempre quiz ser, mas não teve coragem.
O filme é repleto de momentos divertidos e contemplativos. A química de Eisemberg e Culkin é perfeita, sem contar que Kieran Culkin está fenomenal. Um personagem apaixonante, carismático em suas idiossincracias. A cena em que o grupo vai visitar o Campo de Concentração de Majdanek é um filme dentro d eum filme: solene, sem trilha, respeitoso e doloroso. O filme é um verdadeiro passeio pela Polônia e cidades de periféricas.
Pedaço de mim
"Mon inséparable", de Anne-Sophie Bailly (2024)
Vencedor de 3 prêmios no Festival de Veneza 2024, na mostra Orizonte (melhor diretora, melhor filme em língua estrangeira e um prêmio especial), "Pedaço de mim" é o longa de estréia da roteirista e cineasta francesa Anne-Sophie Bailly. O filme é protagonizado por uma das melhores atrizes franceses da atualidade, Laure Calamy, dos excelentes "Contratempos" e "Sybil". Ela é Mona, uma mulher que trabalha como depiladora em uma clínica de estética. Mona foi abandonada pelo marido, depois que Joel (Charles Peccia) nasceu: ele tem autismo e necessita de cuidados especiais. Joel trabalha em uma empresa que emprega portadores de doenças mentais, e lá, ele conhece Oceane (Julie Froger). Para surpresa de Mona e dos pais de Oceane, ela está grávida de Joel. O casal quer manter a criança. Mona decide guardar os sentimentos para si, até que conhece um homem em um bar, Frank (Geert Van Rampelberg). Pela 1a vez, Mona se sente livre, sem pensar no filho, e dedica um tempo para o romance com Frank. Mas quando o filho decide fugir, após uma discussão com sua mãe, ela encontra uma liberdade que ela nunca teve, e entra em conflito.
O filme lembra bastante o recente filme francês "Deixe-me", sobre uma mulher, mãe de um filho autista, que o deixa em casa para ter encontros com homens em hotéis e se apaixona por um deles. "Pedaço de mim" não julga a sua protagonista. O espectador entende o conflito de uma mulher e de uma mãe, que abdicou de tudo para cuidar do filho. Abandonada pelo marido, ela teve que se virar sozinha. Seu filho tem um olhar carinhoso da roteirista e diretora: ele é carinhoso com todo mundo, e protege sua mãe e sua namorada de qualquer ameaça. A cena de Mona desabafando para Joel é dolorosa e um show de interpretação. A inspiração da diretora veio quando ela trabalhou em um asilo e viu uma mãe de 80 anos cuidando de uma filha de 60 anos, especial, e elas sempre estavam juntas. O filme é comovente e certamente fará muita gente se emocionar.
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