quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Ursinho

"Ursinho", de Stéphane Olijnyk (2018) Selecionado para a Competição oficial do prestigiado Festival de Clermont Ferrand, e participando do Festival Mix Brasil 2018, "Ursinho" foi escrito e dirigido pelo Cineasta francês Stéphane Olijnyk, que levou anos desenvolvendo esse projeto, financiado com recursos próprios e com apoio da CNC (Centre Nacional de la Cinematographie) e do Canal Arte. Stéphane Olijnyk filmou na comunidade do Pavãozinho e nas ruas de Copacabana, e também na famosa Sauna Gay Point 202. Ursinho (Digão Ribeiro) - apelido dado por seu pai- é um jovem de 30 anos, negro, favelado, sem escolaridade. Ele mora com seu pai, deficiente físico, em um barraco no Pavãozinho, na parte alta. Ursinho vive de fazer serviços de faxina em apartamentos de moradores de Copacabana. Um dia, ele vai fazer serviço no apto do Sr Fortíssimo (Luís Furlanetto), um idoso aposentado. Ursinho descobre que ele aluga o quarto da empregada para um michê (Rafael Braga), por quem ele fica totalmente fascinado. Mais tarde, ao frequentar a sauna gay, Ursinho descobre que o mesmo michê trabalha lá. Mas a sua timidez e baixa auto-estima o impedem de se aproximar do rapaz. O filme surpreende pelo olhar sem piedade para as figuras invisíveis de Copacabana. Não existe compaixão. Negros, idosos, transformistas, gays, garotos de programas, todos vivem a sua rotina tentando desesperadamente sobreviver. A fotografia de João Padua recria com tintas realistas o ambiente da favela e das ruas de Copacabana, e contrasta com a atmosfera da Sauna, que é lúdica, luxuriosa, fetichista, coberta de cores hipersaturadas. É um filme voyeurista, sacana, cheio de sacanagem, de putaria. Mas também imerso em solidão, tristeza, amargura e cheiro de morte, tanto física ( o pai doente, o idoso solitário) quanto psicológica. Ursinho, que nem nome tem, se deixa abater pela condição de inferioridade que a sociedade e o padrão de consumo e de beleza lhe impõem. A sua única possibilidade de subida na vida, é literalmente, subindo a escadaria da comunidade. Ponto para a Direção de Stéphane Olijnyk. É um filme que machuca, o seu desfecho é cruel. O elenco, escalado pela produtora de elenco Duda Gorter, está excelente: Digão Ribeiro, Rafael Braga, Luís Furlanetto. Viscerais, trabalhando no registro naturalista. É filme provocador, adulto, e que instiga reflexões.

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