quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

He loves me

"He loves me", de Konstantinos Menelaou (2018) Escrito, produzido e dirigido pelo Cineasta e Artista visual grego Konstantinos Menelaou, "He loves me" emula o clássico de Robert Mullighan, "Houve uma vez um verão". Todo narrado em Off, acompanhamos um casal gay, em crise de relacionamento, fazendo uma viagem até uma praia deserta no litoral da Grécia. No texto em off, um dos namorados reflete sobre a vida em comum, as traições, o tesão, o ciúme, os olhares apaixonados. Discorre também sobre a viagem que o espectador está assistindo, narrada em verbo passado. Como voyeurs, presenciamos o casal fazendo sexo, se masturbando, mergulhando, rolando na areia, dormindo juntos, caminhando nús, se divertindo, comendo. Os atores Hermes Pittakos e Sanuye Shoteka são casados na vida real, e por isso o filme funciona tão bem. Eles se permitem fazer de tudo, sem constragimentos, tudo real. as lentes do fotógrafo Kostis Fokas expressam com muita volúpia a relação do casal, e registram as locações em cores vibrantes. A trilha sonora dá um toque de new age, e a direção de Konstantinos Menelaou vai de acordo com o ideal de seu projeto. Todo financiado por Crowdfunding, ele levou anos desenvolvendo o filme, que tem um caráter de video arte, experimental e conceitual. Konstantinos Menelaou quiz falar sobre relacionamento aberto de um casal gay, e ele escolheu fazer o filme na natureza para levantar a possibilidade de que a natureza e a sua exuberância podem interferir nos sentimentos das pessoas.

Mowgli: Entre dois mundos

"Mowgli: legend of the jungle", de Andy Serkis. O Ator Andy Serkis pode não ser famoso para o público em geral, mas as suas criações com certeza o são: ele deu vida ao Gollun, de "O Senhor dos anéis", deu vida a Caesar, de "O planeta dos macacos" e tanto outros personagens digitais. "Mowgli" é sua 2a Direção. Ele estreou há 2 anos atrás com o drama "Uma razão para não esquecer", onde ele contava a história real de um advogado, interpretado por Andrew Garfield, que contraiu uma doença que o deixou tetraplégico. Essa sua versão de "Mowgli", baseado em "O livro das selvas", é um projeto anterior ao Live-action da Disney, de 2016, mas acabou sendo adiado para não sofrer a concorrência. O filme foi adquirido pela Netflix, e conta com um elenco de peso dando voz aos personagens: Cate Blanchett ( a serpente Kaa), Christian Bale ( A pantera Bagheela e a voz inconfundível de Bale faz lembrar Batman o tempo todo), Benedict Cumberbatch como o tigre Shere Khan e o próprio Serkis na voz do Urso Balloh. Mas a grande diferença entre essa versão e as 2 versões da Disney, é que essa é inviável para crianças. Para se ter uma idéia, um dos personagens carismáticos aparece no terceiro ato decapitado e com a cabeça espetada. É para provocar pesadelos em qualquer criança. Fora isso, Serkis tornou todos os animais mesmo os fofos, em feras com ar assassino, para dar mais veracidade aos perigos da selva. A fotografia escura também contribui para essa atmosfera sombria e adulta, mais apropriada para fábulas macabras. Fora isso tudo, é um filme bastante violento: facadas, mordidas sangrentas, tudo é mostrado em detalhes pela produção. A parte técnica é muito boa, e os efeitos também, apesar de alguns animais , como os pássaros, parecerem bastante falsos em seus traços. Outro ponto a se registrar: o excelente trabalho do menino Rohan Chand, no papel de Mowgli. Intenso, mais visceral do que o menino da Disney, e enfrentando cenas bem fortes.

O amigo de Tel Aviv

"The friend from Tel Aviv", de Federica Gianni (2015) Esse filme conta a história real de Nitzan Krimsky, o protagonista que saiu de Tel Aviv há anos e mora em Nova York como Artista plástico. No filme, Nitzan Krimsky tem o nome de Noam: nascido mulher, Nitzan transicionou para um corpo masculino, sendo designado Homem trans. Morando com Louise, uma mulher mais velha que se apaixonou por ele, Nitzan recebe uma ligação de Natan, um amigo e antigo flerte platônico que ele tinha quando ainda morava em tel Aviv como mulher. Ao chegar na festa promovida por Louise, Natan se surpreende com Nitzan e seu corpo masculino, que lhe traz uma tensão sexual muito mais apurada do que antes. Ver um filme onde o próprio Ator conta a sua história e interpreta a si mesmo, é bastante intenso. A cena que Louise lhe obriga a tirar a camisa e mostrar seu corpo novo para Natan, é ao mesmo tempo, excitante e sádica. Um filme que merece ser visto e debatido, dentro dos parâmetros modernos de aceitação dos vários gêneros existentes e que mesmo assim, sofre bastante preconceito pelos conservadores e homofóbicos.

A família

"La família", de Gustavo Rondón Córdova (2017) Primeiro filme Venezuelano a competir no Festival de Cannes, dentro da Mostra Semana da Crítica, e também selecionado pela Venezuela para representar o País para uma vaga ao Oscar 2019, "A família"é uma cacetada sem tamanho, uma dura realidade sobre a tragédia que se abateu na Venezuela desde a grave crise econômica e migração da população para outros Países. A Venezuela da periferia de Caracas apresentada no filme, não difere em nada a qualquer País do terceiro mundo. Um enorme abismo social, desemprego, favelas super povoadas, evasão de escola e principalmente, a falta de assistencialismo em prol da juventude. Os protagonistas do filme são os meninos crescidos na favela: desde cedo, testemunhando assassinatos, crianças de 8 anos empunhando arma e assaltando, tráfico e muita violência. Pedro, um garoto de 12 aos, mora com seu pai Andrés. Andrés quase não para em casa, fazendo bicos em tudo quanto é lugar para poder trazer dinheiro para casa. Pedro passa o dia com seus colegas da comunidade, testemunhando os adultos às voltas com tráfico, arma,s mulheres, bebidas e festas. Seduzidos por esse Universo, Pedro e os outros garotos crescem marrentos, brutos, sem qualquer resquício de civilidade. Por um acidente, Pedro acaba matando um garoto da gangue rival. Seu pai ao saber disso, foge com Pedro para a cidade, temendo que os bandidos os matem. Durante essa travessia, pai e filho tentam se reaproximar. Mas Pedro decide retornar à favela e saber o que aconteceu com seu melhor amigo, Jonnhy, que estava cm ele na hora do acidente. Herdeiro do neorrealismo italiano e do cinema dos irmãos Dardenne, que aponta a sua câmera documental para as figuras marginalizadas pela sociedade. " A família" tem duas performances avassaladoras. Giovanni García e Reggie Reyes, este último como Pedro e sem qualquer trabalho anterior na interpretação, surpreendem e vivem de forma quase espiritual a vida dessas duas figuras amaldiçoadas pela pobreza. Acompanhar a trajetória dos dois é bastante sofrida. As cenas onde o filho observa o pai trabalhando em sub-empreog, e aos poucos, vai tentado imitá-lo, são emocionantes e contundentes. Mais foda ainda, é a cena onde o filho presencia o pai apanhar por ter roubado garrafas de bebida de uma festa onde trabalhou como garçon. Um drama arrebatador. eu quase não conhecia o Cinema da Venezuela e fiquei bastante feliz de ter visto esse filme.

Bumblebee

"Bumblebee", de Travis Knight (2018) Travis Knight tem apenas 2 longas em seu currículo, mas já ganhou admiração dos executivos de Hollywood: ele estreou com a premiada animação "Kubo e as cordas mágicas", onde Travis assumidamente homenageou Akira Kurosawa e Hayao Miyazaki, suas maiores referências do cinema asiático. Agora com "Bumblebee", o prequel da milionária franquia de Michael Bay, Travis Knight conseguiu uma grande façanha que Michael Bay não havia conseguido até então: fazer a melhor homenagem ao cinema de Steven Spielberg, se escorando naquilo que Spielberg já ensinou desde o seu primeiro filme: aposte na emoção e na fantasia da relação do humano com o ser diferente. Travis fez o filme que todo fã nostálgico saudoso dos anos 80 ( e consequentemente, a nova geração viciada em 'Stranger things") mais gosta: falar das amizades antes da era da internet e do celular. Além de Spielberg outro grande homenageado é John Hughes, famoso Cineasta único em retratar o conflito de geração e o amadurecimento do adolescente, às voltas com problemas envolvendo família, perda de ente querido ( quer algo mais Spielberg do que o protagonista não ter pai???), escola, bullying e primeiro amor. E tudo graças a Deus, embalado por uma das melhores coletâneas dos anos 80, que tem tudo aquilo que a gente mais ama: The Smiths, Rick Astley, A-ha, Tears for fears, Duran Duran, e até a atriz Heilee Steinfield revisitando a época com a música "Back to life". O mais curioso é que apenas uns 15% do filme lembra os Transformers de Michael Bay, nas inevitáveis batalhas e lutas metálicas e épicas onde se destrói meio mundo. Os outros 85% é um filme de Spielberg e Hughes, onde existem referências explícitas aos filmes "Et, o extraterrestre" e "O Clube dos cinco". A história é clichê, mas bastante funcional: Charlie (Hailee Steinfeld, revelada pelos irmãos Coen em "Bravura indômita" e filha de Mark Rufallo no delicioso "Se nada mais der certo") é órfã de pai e mora com sua mãe, padrasto e irmão caçula. Melancólica e introspectiva, ela sente a perda do pai. Charlie trabalha em um quiosque e seu sonho é ter um carro. No seu caminho, ela encontra um fusca amarelo, que mais tarde ela vai descobrir ser Bumblebbe ( apelido que la dá) e que está na terra para salvar o mundo dos Decepticons. O filme investe mais no drama e na amizade da menina com o robô, tema comum de 8 entre 10 filmes de ficção científica dos aos 80. "Bumblebbe" é uma emotiva viagem no tempo que presenteia seu público com esse registro de época singular. E que maravilha é assistir Hailee Steinfeld e perceber que ela está crescendo e se tornando uma carismática e talentosa atriz.

Ursinho

"Ursinho", de Stéphane Olijnyk (2018) Selecionado para a Competição oficial do prestigiado Festival de Clermont Ferrand, e participando do Festival Mix Brasil 2018, "Ursinho" foi escrito e dirigido pelo Cineasta francês Stéphane Olijnyk, que levou anos desenvolvendo esse projeto, financiado com recursos próprios e com apoio da CNC (Centre Nacional de la Cinematographie) e do Canal Arte. Stéphane Olijnyk filmou na comunidade do Pavãozinho e nas ruas de Copacabana, e também na famosa Sauna Gay Point 202. Ursinho (Digão Ribeiro) - apelido dado por seu pai- é um jovem de 30 anos, negro, favelado, sem escolaridade. Ele mora com seu pai, deficiente físico, em um barraco no Pavãozinho, na parte alta. Ursinho vive de fazer serviços de faxina em apartamentos de moradores de Copacabana. Um dia, ele vai fazer serviço no apto do Sr Fortíssimo (Luís Furlanetto), um idoso aposentado. Ursinho descobre que ele aluga o quarto da empregada para um michê (Rafael Braga), por quem ele fica totalmente fascinado. Mais tarde, ao frequentar a sauna gay, Ursinho descobre que o mesmo michê trabalha lá. Mas a sua timidez e baixa auto-estima o impedem de se aproximar do rapaz. O filme surpreende pelo olhar sem piedade para as figuras invisíveis de Copacabana. Não existe compaixão. Negros, idosos, transformistas, gays, garotos de programas, todos vivem a sua rotina tentando desesperadamente sobreviver. A fotografia de João Padua recria com tintas realistas o ambiente da favela e das ruas de Copacabana, e contrasta com a atmosfera da Sauna, que é lúdica, luxuriosa, fetichista, coberta de cores hipersaturadas. É um filme voyeurista, sacana, cheio de sacanagem, de putaria. Mas também imerso em solidão, tristeza, amargura e cheiro de morte, tanto física ( o pai doente, o idoso solitário) quanto psicológica. Ursinho, que nem nome tem, se deixa abater pela condição de inferioridade que a sociedade e o padrão de consumo e de beleza lhe impõem. A sua única possibilidade de subida na vida, é literalmente, subindo a escadaria da comunidade. Ponto para a Direção de Stéphane Olijnyk. É um filme que machuca, o seu desfecho é cruel. O elenco, escalado pela produtora de elenco Duda Gorter, está excelente: Digão Ribeiro, Rafael Braga, Luís Furlanetto. Viscerais, trabalhando no registro naturalista. É filme provocador, adulto, e que instiga reflexões.

No telhado

"En la azotea", de Damià Serra Cauchetiez (2016) Super premiado curta espanhol LGBTQ+, tem como ponto forte o ótimo trabalho de todo o jovem elenco. Um grupo de meninos se encontra todos os dias às 17 horas no alto de um prédio, para observar a vizinha do prédio da frente tomando banho de sol nua. Mas nesse dia, um dos meninos terá sua atenção tomada por um rapaz que também toma banho de sol pelado. Tratando de temas como descoberta da sexualidade e homofobia, o diretor Damià Serra Cauchetiez lida com bastante sensibilidade o trabalho dos garotos com a tensão sexual provocada pela excitação de ver um corpo masculino nú, Simples mas bem construído, o filme poderia ter sido rodado em qualquer parte do mundo, até mesmo em comunidades do Rio de Janeiro. Voyeurismo, brincadeira boba de garotos metidos a machos e provocação acontece com todo mundo, e cada um reage de forma diferente. Vale como reflexão para um mundo onde a sociedade machista comanda a educação dos meninos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O filho

"El hijo", de Venci Kostov (2012) Polêmico curta espanhol LGBTQ+, escrito e dirigido por Venci Kostov. Pedro é um adolescente revoltado. Seu pai, um policial, o abusa sexualmente. Na escola, Pedro faz parte de um grupo de baderneiros que passam a noite quebrando lojas e batendo em homossexuais nos guetos. Pedro tem um amante, seu colega de sala, Luiz, e transam às escondidas. A mãe de Pedro, é quem ele mais ama no mundo. Imersa em sua cozinha, ela ignora quem realmente são seu marido e seu filho. Uma noite, Pedro e seus colegas espancam garotos de programa e seus clientes em uma avenida afastada da cidade. Pedro reconhece seu pai como um dos clientes. O diretor Venci Kostov dirige com cautela e sensibilidade um tema tão complexo quanto o do incesto. Graças ao talento dos 3 atores principais ( os que interpretam Pedro, o pai e a mãe), o filme atinge um nível de realismo e maturidade absurdos. É um trabalho visceral a dos atores, e merecem elogios. O roteiro conta também com clichês de homofobia, mas a trama funciona bem. As cenas do pai observando o filho em momentos de intimidade ( tem uma cena cruel, do pai obrigando o filho a tomar banho e o observa nu no chuveiro) são avassaladoras.

Animais fantásticos: Os crimes de Grindelwald

"Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald", de David Yates (2018) Gostei muito mais dessa 2a parte da franquia "Animais fantásticos". Efeitos sensacionais, várias cenas épicas e aquele gostinho que tive quando assisti a "O império contra-ataca": aquela sensação de que esse é um filme intermediário. O roteiro joga várias surpresas, e deixa tudo em aberto. Como é foda essa escritora J. K. Rowling. Ela merece cada libra que ela ganha. que mente criativa, caramba! São uma porrada de personagens e criaturas que surgem ao longo do filme. Acho inclusive que há um excesso de personagens e de sub-tramas, muitas intrigas familiares, romances desenlaçados. Mas o que é inegável: Johnny Depp nasceu para esses papéis. Não dá para imaginar outro Ator interpretando um vilão tão debochado, cool, e carismático. A mídia insiste em querer derrubar a carreira do Ator, mas que bom que ele continua sendo escalado. Confesso que não sou expert nesse Universo do Harry Potter e me perdi em vários momentos. Quem é Aurelius Dumbledore????? Muita informação, saí do filme parecendo que caí num liquidificador. Um dia compro um dicionário Hogwarts para entender um pouco melhor tudo isso aí. Ah sim, quero um ornitorrinco daqueles, coisa fofa.

Lockjaw

“Lockjaw”, de Chris Michael Birkmeier (206( Curta LGBTQ+ exibido em diversos Festivais, foi rodado em preto e branco e apresenta um dilema para um casal gay: Peter e Rory são felizes, moram juntos e aparentemente nada lhes falta. Durante um papo descontraído em casa, tomando um café, Rory se incomoda que Peter está teclando no celular enquanto conversam. Acaba descobrindo que Peter criou um perfil no Tinder, e pior, deu Match com uma pessoa. Rory se irrita, pergunta se Peter avisou que tinha um namorado. Peter diz que sim, e propõe que façam sexo à três. Rory se recusa, mas por amor, cede. Mas enquanto aguardam a chegada da terceira pessoa, o relacionamento do casal parece desmoronar. Bons atores, bons diálogos e um tema pertinente aos dias de hoje, onde um relacionamento parece estar com dias contados e substituído pelo prazer volátil dos aplicativos. Filme enxuto e no tempo certo.

Night out

“Night out”, de Stratos Tzitzis (2017) O roteirista e cineasta grego Stratos Tzitzis realiza o seu “Shortbus” alemão. Para quem não se lembra, ‘Shortbus” é o cult independente americano de John Cameron Mitchell que sacudiu o Festival de Cannes quando foi exibido em 2006, com seu coquetel explosivo de sexo explícito, em histórias entrecruzadas de casais de todos os sexos, gêneros, raças e credos às voltas com conflitos amorosos. Todos se encontram na Boite/Cabaret Shortbus, onde tudo é permitido. Em “Night out”, Stratos Tzitzis faz o mesmo. Sua intenção é mostrar a vida sexualmente ativa de alemães e estrangeiros que moram em Berlin. De dia ou d enoite, tudo converge para o Nightclub KitKat Club, onde as pessoas transam com quem querem, em orgias, dark rooms, tudo altamente permissivo e liberal. Trans, gays, lésbicas, heteros, vale tudo para todos, é a alegria do Poliamor. O que faltou no filme foi um bom roteiro e bons personagens que justifiquem acompanhar as histórias. Todos os personagens ao bastante rasos, e acaba que o único ponto de interesse mesmo no filme é a putaria e a vontade de conhecer esse KitKat Club. Fosse um filme brasileiro, todo mundo iria dizer que no Brasil só se mostra sacanagem nos filmes nacionais. Será que os alemães pensam o mesmo?

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Versátil

"Versatile", de Carlos Ocho (2017) Curta espanhol escrito e dirigido por Carlos Ocho. Alex e Hugo formam um jovem casal gay. Eles são bonitos, bem sucedidos. Os dois estão de bem com a vida. São 8 meses de namoro. Mas hoje, as coisas irão mudar. Alex é passivo. Hugo é versátil. Eles chegam de uma festa, estão excitados. Alex se prepara para fazer o passivo, mas súbito, Hugo pede para que Alex mude seu papel sexual: Hugo quer ser o passivo da vez. Chocado com a postura do namorado, Alex se recusa. O casal começa a discutir forte a relação, baseada no papel sexual de cada um deles. O tema poderia render uma ótima comédia de Almodovar, mas na mão de Carlos Ocho, vira um drama de performances consistentes e fortes de Eudald Font e Christian Escudero. Os diálogos são francos, honestos, duros. Não há mais espaço para o amor, e sim, para revelações. Bem conduzido, econômico, um filme de baixo orçamento baseado apenas no trabalho de 2 atores, um apartamento e um roteiro de tema controverso.

Psychokinesis

"Psychokinesis", de Yeun Sang-Ho (2018) O cinema sul coreano é polêmico: tem quem goste em quem odeie. Independente do gênero: terror, ação, drama, comédia, fantasia, ficção científica, os sul coreanos sempre colocam uma porção de pastelão no meio da história. Às vezes funciona bastante, como no filme de monstro "O hospedeiro". Aqui, em "Psychokinesis", o cineasta Yeun Sang-Ho, do cultuado filme "Invasão Zumbi", brinca de filmes de super herói. Dependendo do seu ponto de vista e do seu humor, pode ser que você se divirta, ou então, se irrite bastante. Eu me diverti. Gosto dessa mistura inusitada de comédia e de personagens caricatos que a filmografia sul coreana tem. A trma desse filme lembra bastante do filme americano "Poder sem limites". Pessoas comuns que expostas a um material radioativo proveniente do espaço se transformam em super heróis. Aqui, no caso, o pacato Seok-heon, durante um passeio nas montanhas, bebe de uma água contaminada por um material alienígena e adquire poderes de poder mover objetos e de poder voar. Ele se reaproxima de sua filha Roo Mi, que ele abandonou quando ela era criança. Com a morte da mãe de Roo Mi, dona de um restaurante, por acidente provocado por donos ambiciosos de uma construtora que querem construir um Shopping no terreno do restaurante, Seok-heon trava uma luta sem igual contra os vilões. Com efeitos especais que nada devem ao padrão americano ( apesar de uma ou outra cena ficar nítida o uso de croma e cabos de sustentação) , o filme tem personagens carismáticos e boas cenas de ação. Aonde o filme fica mais prejudicado, é no seu roteiro, bastante ingênuo e com pontas soltas ( por ex, a grande vilã simplesmente desaparece do filme). Mas vale como passatempo para um domingo de tarde. Pipoca matutina.

Lizzie

"Lizzie", de Craig William Macneill (2018) Adaptado para o cinema e para a tv, e também como série de tv com Cristina Ricci, "Lizzie", adaptação do famoso caso envolvendo Lizzie Borden, ganha nova versão, dessa vez produzido e protagonizado por Chloe Sevigny e co-estrelado por Kirsten Stewart. Em 1892, em Fall River, Massachussetes, o pai e a madrasta de Lizzie foram encontrados mortos a machadadas, cada um com mais de 40 golpes. A suspeita recaiu sobre Lizzie, mas após julgamento, ela foi absolvida, pois nada foi provado contra ela. Essa nova versão, adaptada para os tempos de diversidade sexual e feminismo, apresenta uma versão polêmica: Lizzie tem uma relação conflituosa com seu pai e madrasta. Ela acreditava que seu pai estava querendo tirar ela do testamento. Fora isso, ele a maltratava fisicamente. Quando a empregada Bridget (Stewart) começou a trabalhar na casa dos Borden, Lizzie presenciou seu pai estuprando a serviçal. Lizzie nutria um flerte sexual por Bridget, o que aparentemente era correspondido. O desfecho do filme apresenta uma versão muito pessoal na hora do assassinato, mas segundo constam os arquivos reais, nada foi comprovado. O cineasta Craig William Macneill conduz o filme com bastante frieza narrativa, refletida em seu ritmo bastante lento. É um filme ousado, violento e bastante angustiante. Vale assistir pelo trabalho das duas ótimas atrizes ( e como Stewart tem crescido como atriz!!). Em atuações viscerais, ambas ficam nuas em cena. Não é um filme fácil de ser absorvido, dada a natureza de sua história cruel. Para quem não consegue assistir cenas de maus tratos com animais, há uma cena cruel contra pombos. O filme concorreu em Sundance 2018, mas saiu d elá sem prêmios.

Como fera enjaulada

\ "Classes tous risques", de Claude Sautet (1960) Obra-prima do cinema policial francês dos anos 60, dirigida por um dos maiores Cineastas do gênero , Claude Sautet. Tanto Sautet quanto Jean Pierre Melville, também cineasta francês famoso por seus filmes policiais, foram esnobados na época pelos críticos de Cinema, que veneravam o expoente movimento da Nouvelle Vague e seus cineastas, e consideraram os filmes policiais como filmes menores. Mas o tempo foi generoso e hoje muitos de seus filmes são considerados obras-primas, como esse "Como fera enjaulada". Rodado na Itália e França, o filme tem como protagonista Abel (Lino Ventura, um dos maiores atores franceses da história), que foge com seu colega Raymond, ambos ladrões, para Paris. Juntos, seguem a esposa e os dois filhos pequenos de Abel. Mas ao cruzar a fronteira eles sofrem emboscada: a esposa de Abel e Raymond são mortos pela polícia. Abel liga para seus ex-companheiros de roubo e pede ajuda. Eles enviam um jovem ladrão, Erik (Jean Paul Belmondo, em início de carreira, excelente) para levar uma ambulância e trazer Abel e os filhos. Mas ao chegarem em Paris, Abel é traído pelos ex-companheiros e quer vingança. Com uma direção exemplar de Sautet, filmando em locações, o filme tem uma narrativa semelhante a "Cidade nua": um olhar quase documental, com resquício do cinema noir, narrado em voz off. O elenco é soberbo, assim como a trilha sonora e o roteiro, recheado de frases de efeito. Um filme obrigatório para quem ama cinema.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Codinome: Dynastud

"Code name: Dynastud", de Richard Griffin (2018) Nossa, há tempos eu não ria tanto. Imagina um filme B onde o super herói é um defensor dos gays, e que usa como arma o seu pênis cujo esperma explode a cabeça dos vilões? No ano de 2024, o Presidente homofóbico sósia de Donald Trump instaura uma Lei onde o homossexualismo é proibido. Os gays andam pelo submundo e tentam fugir para o Canadá através de um túnel subterrâneo que os leva para o Canadá, País onde eles podem ser livres e felizes. Um desses jovens gays, Bart ( que é a cara do assistente Smithers, assistente do Sr Burns de "Os SImpsons") ao fugir, é feito prisioneiro e obrigado pelo Presidente a se casar com sua filha virgem e fazr sexo com ela. Dynastud, o super herói Gay, salva Bart e descobre que o sêmen dele pode ressuscitar Bruce Li, um herói asiático congelado e também amante de Dynastud. Juntos, os 3 precisam lutar conra o Presidente, que criou uma arma que torna todos os gays, heteros. O filme é uma catarse repleta de bizarrices no roteiro: Ursos transgêneros; vozes dubladas de propósito com erros de sync; Policiais vestidos de Village People que são atacados por uma quadrilha de lésbicas assassinas; um alienígena chamado Gaydar; uma batalha espacial mais trash do que qualquer filme de Ed Wood, e por isso mesmo, divertida; o olhar de Raio X do Dynastud que despe todos os homens; e logo no início, um prólogo e créditos iniciais que brincam com James Bond. O Slogan do filme sacaneia a frase da campanha de Donald Trump: "Make America great again" se transforma em "Make America gay again". Para quem quiser dar boas risadas e não tem nenhum preconceito com uma das comédias B mais gays da história do cinema, repleta de nudez masculina e muita bichice, vai se divertir bastante. Visualmente, o filme homenageia os anos 80, com as cores super coloridas e fortes, trilha de sintetizadores e um figurino delicioso de brega.

Mais

"Daha", de Onur Saylak (2017) Premiado filme turco que tem um dos finais mais angustiantes que vi recentemente. Filme de estréia de Onur Saylak, que adaptou o livro homônimo de Hakan Gunday, "Mais" mostra uma relação doentia entre pai e filho, ambos traficantes de refugiados da Turquia para a Europa. Gaza é um garoto de 14 anos, inteligente ee studioso. Mas seu pai, Ahad, é um bruto que obriga Gaza a largar os estudos e o ajudar no tráfico de refugiados, dando alojamento no subsolo de sua casa e tratando-os como escravos. Não contente Ahad escolhe mulheres para estuprar. Gaza, assustado com o comportamento de seu pai, tenta fugir, mas é impossível: a polícia local está convivente com o serviço sujo de seu pai. Com trabalhos extraordinários de Hayat Van Eck (Gaza) e Ahmet Mümtaz Taylan (Ahad), "Mais" é um filme difícil de se assistir, devido à sua brutalidade e violência, tratando seres humanos como lixo, incluindo crianças e mulheres. Para quem tiver estômago forte, irá se deparar com um filme que é uma verdadeira porrada.

Reviver

"Reviver", de Cavi Borges e Patricia Niedemeier (2018) Os Cineastas Cavi Borges e Patricia Niedemeier desenvolveram uma trilogia cinema/poesia intitulada "Filmes de viagem". "Salto no vazio", a 1a parte da trilogia, tinha como locações Países da Europa e do Oriente médio, e tinha como tema a liberdade do ser humano em tempos de angústia e de violência. A atriz e bailarina Patricia Niedemeier fazia performances em paisagens famosas para explorar a camaleônica função do artista: se mimetizar com aquilo que o rodeia. Agora em "Reviver", a paisagem se tornou brasileira, mais precisamente, São Luís do Maranhão e a paradisíaca Lençóis Maranhenses. O filme, co-produção Rio de Janeiro e Maranhão, teve o roteiro escrito pelos 2 protagonistas: Jorge Caetano e Patricia Niedemeier. Ele, Gustavo, roteirista de cinema, mora no Rio de Janeiro. Ela, Maria Guaranis, artista visual, atual paradeiro desconhecido. Seu apartamento, com toda sua obra, pegou fogo e não foram encontrados vestígios de seu corpo. Tentativa de suicídio? Ou de apagar a memória da sua obra? Há quem diga que ela está no Maranhão. Outros dizem que foi vista perambulando no Peru. Diferente de "Salto no vazio", "Reviver" é mais narrativo. Tem seus momentos poéticos e lúdicos, mas eles fazem parte da mente de Gustavo, que se encontra em crise criativa. Ele foi contratado por um produtor (Alexandre DaCosta) para escrever um roteiro de 70 páginas no prazo de 15 dias, caso contrário, perderão a inscrição em um edital de produção audiovisual. Gustavo não consegue sair da página 1. A memória e a arte de Maria, espalhadas em fotos sobre a sua mesa e em vídeos do Youtube que ele não cansa de assistir, o atordoam. Gustavo quer , inconscientemente, seguir os passos de Maria. O filme discute até onde a obra de um artista interfere em sua vida pessoal. Alguns enlouquecem, outros se matam, outros de acomodam. Gustavo se encontra nesse momento de inquietação: o que ele quer, como Artista? Cavi e Patricia seguem os passos de Woody Allen, que em determinado momento de sua filmografia, abriu um espaço para os tais "Filmes de viagem": Woody Allen filmou em Paris, Barcelona, Roma e criou obras memoráveis. Os brasileiros também encontram no filme de Fellini, "8 1/2", a semente de "Reviver: é na crise criativa que um Artista cria a sua melhor obra? O Ator e Diretor de Teatro Jorge Caetano é para mim, a grande surpresa do filme. Uma escalação nada óbvia e muito bem vinda, trazendo dignidade e uma performance naturalista para o atormentado roteirista. Gustavo e Maria são Yin e Yang, como todo Artista: em um Polo tem a pressão para que se produza algo. No outro, existe a liberdade, após a concepção de sua obra. Com imagens belíssimas captadas pelas lentes de 3 fotógrafos (Vinicius Brum, André Amado e Guilherme Verde - Um parênteses: não gosto de praia nem areia, mas as cores impressas dos Lençóis são acachapantes), o filme explora o que todo Artista busca: a sua Musa inspiradora e o tempo necessário para que ela se faça presente. Que venha a terceira parte.

Beautiful

"Beautiful", de Inkyu Baek (2018) Drama LGBTQ+ Sul coreano, tem como tema a busca obsessiva pela beleza, dentro da comunidade gay. O jovem Beom Hae se acha feio e por conta disso, tem baixa auto-estima. Ele venera Dohan, um rapaz idolatrado por todos os jovens gays de Seul. Beom entra no aplicativo de pegação, rouba fotos de Dohan e cria um perfil, se fazendo passar por ele. Dessa forma, ele bate papo virtual com pretendentes e se sente desejado, porém se frustra porquê não pode conhecer pessoalmente essas pessoas. Um filme correto, sem grandes méritos, e que acredito, funcione melhor com o público adolescente, que são bastante obcecados com aparência, roupa, aplicativos. O roteiro é ingênuo, os personagens bastante rasos e estereotipados e as cenas onde se simulam os bate papos virtuais são bem trash.

Mártir

"Mártir", de Mazen Khaled (2017) O Cinema libanês atual é conhecido no mundo inteiro pela filmografia da libanesa Nadine Labaki, conhecida pelos seus filmes "Caramelo" e "Carfanaum", ambos premiados em inúmeros Festivais. Mas é nesse mesmo País que o Cineasta assumidamente gay Mazen Khaled realiza os seus filmes. Em "Mártir", ele faz lembrar do cinema do argentino Marco Berger. Berger realiza filmes LGBTQ+ com personagens heteros, expostos em todo o esplendor da nudez e de corpos esculpidos. "Mártir" é dos filmes homoeróticos mais sensuais que vi recentemente. A beleza com que as lentes de Mazen Khaled retratam o corpo masculino é impressionante. O filme é repleto de sensualidade e tensão sexual, e consegue extrair tesão até mesmo com um cadáver. O filme é dividido em 2 partes: na primeira, somos apresentados ao protagonista Hassane: jovem, bonito, desempregado e por isso mesmo, motivo de discussão com seus pais. Hassane se recusa a procurar trabalho com um conhecido de seu pai, e resolve ir até a praia para mergulhar com seus 3 amigos. Os 4 amigos se divertem, mas Hassane, ao dar um salto, bate a cabeça e morre. Na 2a parte, acompanhamos a preparação do corpo de Hassane por seus 3 amigos, para o ritual de enterro. Com o corpo nu, os amigos lavam o corpo com água e sabão e no final o embalsamam em um pano de algodão. A direção de Mazen Khaled é bastante sensível e delicada, e ele sabe onde colocar a sua lente, aproveitando ao máximo a sensualidade dos corpos de seus personagens, seja na praia, seja no velório. A linguagem do filme é bem estilizada, com câmera lenta, tableau, e se apropriando também da linguagem da coreografia nos palcos, em um trecho metalinguístico. O roteiro é extremamente simples, mas o que Mazen Khaled quiz mesmo é provocar o seu público. O filme ganhou diversos prêmios e competiu na Mostra Queer Lion do Festival de Veneza 2017. Para espectadores voyeurs, é uma obrigação assistir.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Réplicas

"Replicas", de Jeffrey Nachmanoff (2018) Keanu Reeves é daqueles Atores que viraram arroz de festa. Em um mesmo ano, ele lança de 3 a 4 filmes, e a gente se pergunta como ele consegue tempo para fazer tantos filmes. A maioria filmes de fantasia, ficção científica, quase todos com cara de Filmes B. Em "Replicas", não podia ser diferente. Co-produçao China/Porto Rico/Estados Unidos e Inglaterra, o filme é uma espécie de "Frankestein" moderno. Reeves interpreta Will Foster, um neurocirurgião que trabalha em uma empresa de clonagem e de transferência de dados de um morto para um robô, para que a pessoa renasça através do corpo de um andróide. Pai amoroso, ao dirigir o carro com sua esposa e 3 filhos, ele sofre um acidente e toda a família morre. Desesperado, ele leva os corpos para o laboratório, às escondias, para clonar todos e revivê-los. O primeiro problema: só existem 3 cápsulas, e Will precisa decidir qual dos 4 morrerá para todo o sempre. Com um roteiro tão bizarro e nonsense, o filme acaba divertindo pela total falta de lógica. Para o espectador que se deixar levar puramente pela fantasia, bem provável que se divirta com o filme. Caso contrário, pode ser que desista de assisti-lo nos primeiros 20 minutos. A atriz Alice Eve, que interpreta Mona, a esposa de Will, aparenta bem menos idade que Reeves e muito jovem para ser mãe dos 3 filhos. Os efeitos do filme são ok, lembrando aqueles andróides do filme do Will Smith, 'Eu, robô". Passatempo pipoca.

Eu sinto sua falta quando te vejo

'I miss you when I see you", de Simon Chung (2018) Drama de Hong Kong LGBTQ+, é um triste melodrama sobre um amor sofrido entre 2 amigos que se reencontram 10 anos depois. Kevin e Jaime se conhecem desde a época do colégio. 10 anos depois, Jaime vai até Sidney na Austrália e vai visitar Kevin, que está em depressão profunda e internado. A visita de Jaime reanima Kevin e ele decide voltar para Hong Kong e recomeçar sua vida, dando aula de inglês. Jaime está namorando uma colega de trabalho, e Kevin passa a flertar um aluno do curso. Mas em flashbacks, descobrimos que Jaime e Kevin eram apaixonados um pelo outro, e um incidente os separou. Delicado e sensível e com ótima direção de Atores, o filme faz um retrato sobre a solidão e a depressão na geração de jovens gays, que não conseguem expôr para a sociedade a sua homossexualidade e por isso, se fecham em um mundo interior e para a depressão e suicídio. A fotografia e a trilha sonora intensificam a melancolia, e a cidade de Hong Kong, que é uma mega metrópole, ajuda a corroborar esse sentimento de invisibilidade. É um belo retrato da vida gay em Hong Kong, e o cineasta e roteirista Simon Chung é dos poucos cineastas assumidamente gays em atividade no audiovisual local.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Borboletas verdes

"Mariposas verdes", de Gustavo Nieto Roa (2017) Drama colombiano LGBTQ+, baseado na história real do estudante Sergio Urrego, que se suicidou se jogando do alto do prédio de sua escola. No filme, Sergio tem o nome de Mateo. em flashbacks, o filme mostra a amizade ainda criança de Mateo e Daniel, melhores amigos. Crescidos e já na escola secundária, ambos continuam amigos, mas desconhecem o fato de que são gays. Em casa, os 2 sofrem com os pais homofóbicos, machistas e ignorantes. Um outro estudante, Lucas, tem ciúmes de Mateo por conta de suas notas e acaba descobrindo que Mateo e Daniel se tornaram amantes. Ele revela o caso para o colégio, que recrimina os garotos e chama os pais. Assustado com as consequências, Mateo se desespera, e escreve uma carta antes de se jogar do prédio. A metáfora do filme quanto às borboletas vem do fato de que Mateo sempre foi apaixonado por borboletas e como elas, tinha um desejo de voar e sair do casulo. O filme toca em temas muito importantes, como homofobia, bullying, falta de comunicação entre pais e filhos, saída do armário, suicídio. O caso se tornou tão famoso na Colombia que logo após a morte de Sergio, o Governo instituiu uma Lei que proíbe que qualquer escola descrimine um aluno por gênero, raça ou credo. Tecnicamente, no entanto, o filme é bastante sofrível. As atuações são fracas, principalmente das crianças. As cenas de luta são falsas, os diálogos, péssimos. A trilha sonora é algo de inenarrável. Mas se você curte uma novela mexicana, encontrará bons motivos para adorar esse filme. Ele é cafona e tosco nível 1000.

O retorno de Mary Poppins

"Mary Poppins returns", de Rob Marshall (2018) Rob Marshall é um DIretor famosos por seus filmes extravagantes. Às vezes acerta, às vezes erra. às vezes fica correto. Acertou em "Chicago", errou feio em "Caminhos da floresta"e ficou devendo em "Memórias de uma gueixa". "O retorno de Mary Poppins" ficou devendo também. O filme não é ruim, longe disso. Mas é o tipo de projeto que eu fiquei me perguntando: "Porquê fazer essa continuação?" . Claro, nós somos fãs do clássico original, tinha Julie Andrews, Dick Van Dyke. Aliás, o que ha de melhor nessa continuação é o elenco: Além de Dyke, tem Emily Blunt (dando dignidade à uma personagem icônica de Julie Andrews e que lhe rendeu o Oscar) , Meryl Streep (responsável por um dos melhores momentos do filme), Angela Lansbury, Emily Mortimer, Ben Wishaw e as 3 crianças bastante talentosas e fofas. Ah sim, tem também Colin Firth de vilão! Mas o que não deu certo para mim? em primeiro lugar, as músicas. são burocráticas, n!ao grudam nos ouvidos depois de acabar a sessão. Depois, o roteiro, que parece cópia escarrada de "Christopher Robin", também da Disney, com o Ursinho Pooh e seus amigos. O que os 2 filmes têm em comum na história? Ambos os personagens , que eram crianças, cresceram e viraram adultos chatos, burocráticos e trabalhando em repartição pública. Tanto Pooh quanto Mary Poppins precisam fazer esses adultos voltar a sonhar como crianças, a acreditar que a imaginação é o motor da criatividade e da vontade de viver. Pois bem, ambos os filmes fracassaram de público. Esses temas adultos acabam deixando o encantamento de fora, e o filme acaba ficando meio deprê. Uma pena. Mesmo assim, existem alguns números musicais bacanas, dignos de Broadway, como a dos Lumes. E a cena musica; de Meryl Streep, virando a casa de pernas pro ar literalmente. Talvez daqui a alguns anos eu dê nova chance ao filme, e pode ser que eu goste mais. Por enquanto, fiquei com desejo.

1985

"1985", de Yen Tan (2018) Meu Deus, esse filme estraçalhou meu coração. Que lindeza, que filme triste! Ambientado em 1985 nos Estados Unidos, o ano em que mais tiveram casos de falecimentos decorrentes do contágio do HIV, o filme narra a história de Adrian, um jovem que saiu de sua cidade Natal em direção a Nova York para estudar e seguir carreira. Um ano depois, ele volta para a sua cidade para as comemorações do Natal com sua família. Mas o que o seu pai, ex-veterano de guerra, e sua mãe, uma evangélica não sabem, é que Adrian veio trazer duas notícias: ele é gay, e ele está em estágio final da AIDS. Com um roteiro soberbo, repleto de diálogos emocionantes, personagens contundentes e críveis, o filme, rodado em belo preto e branco, traz performances memoráveis, em especial, a de Virginia Madsen, que cada vez mais tem trazido atuações memoráveis para as suas participações, principalmente quando elas são mães. O filme tem cenas antológicas: a despedida dentro do carro de Adrian e sua mãe, a revelação de Adrian para sua ex-namorada; e a cena que o irmão pequeno de Adrian, Andre, escuta a fita K7 gravada pelo irmão em sua despedida. Um filme tocante, que certamente ficará um bom tempo no coração do espectador. O desfecho é belíssimo, auxiliado por uma trilha sonora arrepiante de linda. O filme vencei inúmeros prêmios em Festivais Internacionais, e seu diretor nasceu na Malásia.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A história de Joanna

"The story of Joanna", de Gerard Damiano (1975) Adaptação do clássico erótico "A história de O", de Anne Desclos, publicado em 1954 e proibido em vários países. dirigido pelo Mestre do cinema erótico Gerard Damiano, autor ds cults "Garganta profunda" e "o Diabo na carne de Miss Jones", "A História de Joanna" é considerado um dos melhores exemplares do cinema erótico de todos os tempos. O filme foi atualizado para os dias d ehoje. Jason, um milionário excêntrico, conhece uma jovem mulher, Joanna, em um bar. ele a convida para o seu castelo, e ela cede. Ao chegar lá, ela descobre que Jason é adepto de práticas sadomasoquistas. No início Joanna se assusta, mas aos poucos, vai se deixando levar pelo prazer sexual associado à dor. Para a nova geração, essa sinopse será idêntica ao da franquia "Cinquenta tons de cinza", e é. Christian Gray é uma atualização de Jason. O filme aposta bastante no drama, os atores interpretam com dignidade e tem uma ótima direção de arte e figurino. As cenas de sexo são bem cuidadas, com requintes na decupagem. A trilha sonora é composta de música clássica. A curiosidade fica por conta de uma cena sexual inusitada para o padrão de filmes eróticos destinado a público hetero: em uma cena, o mordomo faz massagem em Jason e depois pratica sexo oral nele. Deve ter sido um baita escândalo na época!

Colette

Colette", de Wash Westmoreland (2018) Diretor do excelente drama "Para sempre Alice", com Juliane Moore, Wash Westmoreland comprova o seu grande talento em contar histórias de protagonismo feminino. "Colette" é a cinebiografia da escritora francesa Sidonie Gabrielle Colette, nascida em 1873 e falecida em 1954. A história lembra demais o recente drama com Glenn Close, 'A esposa", e outro filme francês recente, 'Sr e Sra Adelmann". São filmes que têm como protagonista uma escritora talentosa, mas que assina os livros do marido como ghost writer, tendo o esposo como receptor de todas as láureas e prêmios. Cansada de ser subjulgada pelo marido, Willy, Colette resolve se libertar: tem amantes mulheres, se torna atriz, performática e acaba escrevendo livros com sua assinatura (antes, o marido a proibia). O filme é bastante correto e competente na reconstituição histórica: fotografia, trilha sonora, figurino, direção de arte, tudo perfeito. Keira Knightley mostra mais uma vez que é ótima para personificar mulheres de época. O que dá uma sensação bastante estranha, é o fato de ser uma história francesa, ambientada na França, daquela que é considerada a maior escritora francesa do País.. e ser interpretado por um elenco de atores ingleses, falado em inglês!!! Enfim, fico no aguardo de uma versão totalmente francesa para comparar.

Todo clichê do Amor

"Todo clichê do Amor", de Rafael Primot (2018) O Ator e Diretor Rafael Primot é um desses talentos precoces que a gente acompanha há tempos. Na verdade, desde que surgiu o premiadíssimo Curta "Manuel para atropelar cachorros", em 2005. Desde então, ele divide seu tempo entre a direção de filmes, e a atuação nos palcos, cinema e tv. Em 2009, ele começou sua parceria com a atriz Debora Falabella, no ótimo e irreverente curta "Doceamargo". Juntos, já estiveram nos palcos no emocionante e épico "Love Love love". Agora, após a sua estréia no longa com o cult de suspense psicológico "Gata velha mia", com Barbara Paz e Regina Duarte totalmente endiabrada, Primot surge com seu 2o longa. Uma espécie de "Relatos selvagens", mega sucesso argentino dividido em episódios, "Todo clichê do amor" envolve histórias protagonizadas por mulheres intensas, loucas, furiosas, absolutas e perigosas. E os homens? Coitados, todos hipnotizados, nas mãos dessas mulheres insaciáveis e sedutoras. Sim, "Todo clichê do Amor", apesar de ter sido escrito e dirigido por um homem, é embalado por vozes femininas. Elas comandam o espetáculo, que varia de gênero e prosa. Comédia, erotismo, drama, suspense, romance e porquê não, melodrama, daqueles bem apaixonantes, que não tem vergonha de falar "Eu te amo"( que aliás, é dito inúmeras vezes no ato final). Rafael Primot é dos raros diretores que investem no Pop e no popular sem ter medo de ousar, de cair fundo naquilo que propõe. Seu filme tem uma pegada autoral, mas um autoral com abertura para todo tipo de público. É daqueles filmes para se assistir sozinho, acompanhado, em grupo: depende do seu mood, e a experiência poderá ser variada. Das várias histórias ( e como todo filme em episódios, algumas funcionam melhores que as outras), as mais saborosas envolvem um Motoboy (Primot) que é apaixonado por uma garçonete ( Falabella) e faz tudo para provar o seu amor para ela (esse episódio tem também como Estrela a excelente atriz Gilda Nomacce, famosa por ser ladra de cenas). Em outro episódio, temos uma dominatrix ( Marjorie Estiano), que atende um cliente (Eucir de Souza), mas enquanto distribui umas chicotadas nele, atende o telefone para fazer uma DR com seu namorado, um ator pornô (João Baldassarini). No enorme elenco do filme, ainda temos Maria Luisa Mendonça e um excelente time de atores paulistas. Primot dirige o filme com sutileza, e também tem carisma quando está e cena. Destaque para a fotografia de Kaue Zilli, que recentemente fotografou o suspense "O Segredo de Davi", e a trilha sonora de Marcello Pelegrini, responsável pela atmosfera acridoce do filme. Para quem perdeu o filme, ele está em cartaz no Canal Brasil.

Rasga coração

“Rasga coração”, de Jorge Furtado (2018) Oduvaldo Vianna Filho foi um dos grandes escritores brasileiros um grande cronista que retratava cm humor, doc;ura e melancolia, a vida comum das pessoas que transitavam em meio à ditadura, amor, traições, conflitos familiares. "Rasga coração" foi lançada em 1974, anos da morte de Vianinha, aos 38 anos de idade. Ficou anos proibido de ser encenado. Somente mais de uma década depois teve sua primeira montagem. Jorge Furtado, famoso roteirista e CIneasta consagrado, ficou com a missão de levar a peça para as telas. Ele atualizou a história, trazendo-a para 2 épocas distintas: anos 70, em plena ditadura, e o ano de 2013, quando começaram os movimentos nas ruas pedindo um fim à corrupção, liderado por estudantes. Manguary (Marco Ricca) trabalha numa repartição pública há mais de 20 anos. Sua esposa, Nena (Drica Moraes) , é dona de casa. O filho deles, Luca (Chay Suede) está estudando, e começa a participar de liderança estudantil, ajudado pela sua namorada Mil (Luisa Arraes). Inconformados com os rumos conservadores da escola, eles passam a discutir movimento nas ruas. Os pais de Luca não concordam com o rumo do filho, mas ao mesmo tempo, Manguary se lembra de seu tempo de líder estudantil (João Pedro Zappa), e a sua amizade com Bundinha (George Sauma), um artista que vive de trambiques. Manguary também teve seus entraves com seu pai, e parece que, décadas depois, a história se repete. Jorge Furtado sempre foi famoso por escalar atores de peso em seus filmes. Em "Rasga coração", ele conta com a ajuda mais do que luxuosa de atores fortes, que dão suporte a personagens bastante esquemáticos. As frases em sua maioria são aquelas construídas como frases de efeito, mas tudo bem, em um filme onde se discute política e lições de vida e moral entre gerações, isso se torna inevitável. Também me incomodou o tom do personagem de George Sauma, graus acima dos outros personagens. Tudo bem que ele, como Artista, quer ser o vanguarda, o engraçadinho, o prafrentex, mas saiu ficou muito distante dos outros personagens. No mais, destaque total para Marco Ricca, Drica Moraes e Chay Suede, que estão ótimos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Diamantino

“Diamantino”, de Gabriel Abrantes e Rafael Schmidt (2018) Co/ produção Portugal / Brasil, “ Diamantino” conseguiu o grande feito de ganhar o Prêmio de melhor filme da semana da crítica em Cannes 2018. Literalmente, gol na placa dessa produção que tem como protagonista um jogador de futebol, Diamantino, claramente inspirado em Cristiano Ronaldo, o maior jogador do mundo. De bom coração, apaixonado pelo seu pai que é seu treinador e lhe dá conselhos de vida, Diamantino está às vésperas do jogo final que dará o título na Copa da Rússia. Porém, durante um passeio de iate, ele vê um barco com refugiadas. Diamantino nunca tinha visto nada parecido na vida, afinal seu pai e suas irmãs megeras sempre esconderam a realidade da vida para ele. Essa visão o atordoa e acaba fazendo ele perder a partida. Amaldiçoado pelo fã clube e pelo País, Diamantino acaba se transformando, sem ele saber, em um projeto que envolve clonagem, evasão de divisas pro exterior, corrupção e muito mais. No seu caminho, suas irmãs gêmeas que mais parecem ter saído de um conto de “ Cinderela”, uma lésbica que se faz passar por refugiada, uma cientista maluca de cadeira de rodas. Isso aí,o grande feito do roteiro escrito pelos cineastas é jamais se levar a sério. Fala-se de temas atuais, como saída da união europeia, etc, mas tudo em tom de deboche e escárnio. O ator Carlotto Cota encarna com perfeição Diamantino: boa pinta assim como Cristiano Ronaldo, bom rapaz e com uma narração em off absolutamente divertida e infantilizada. Não sei a que tipo de espectador esse filme se destina: mas com certeza, para aqueles de mente livre, em busca de narrativas novas e ousadas e que queiram rir de si próprios e desse mundo tão absurdo que só em ritmo de comédia e de realismo fantástico podemos dar algum tipo de sentido. Efeitos divertidos e aquele ar nostálgico dos anos 80. Vale assistir, irá render muito papo depois da sessão. Produção brasileira da Syndrome filmes de Daniel Hoogs e Felipe Sholl.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

História de borboletas

"História de borboletas", de Marcelo Brandão (2012) Adaptação do conto de Caio Fernando Abreu, "Uma história de borboletas", Esse curta dirigido por Marcelo Brandão e produzido por Cavi Borges tem como protagonistas os jovens atores Juliana Terra e Rafael Primot, ótimos nos papéis de um jovem casal apaixonado mas que devido a circunstâncias inexplicáveis, começam a desenvolver doença mental, no caso, a loucura. André é o primeiro a enlouquecer: ele quebra os móveis da casa, picota papéis, tem pesadelos de noite. Resta para sua esposa interná-lo em uma clínica psiquiátrica. Ao chegar em casa, a mulher começa a se lembrar dos momentos felizes com o marido, e a solidão faz com que ela comece a sentir também os mesmos sintomas dele. O filme tem uma ficha técnica excelente: fotografia delicada de Vinicius Brum, Direção de arte de Abelardo de Carvalho, que aposta na poesia e no lúdico e uma trilha sonora melancólica de Bernardo Gebara que conduz a narrativa sensível de Marcelo Brandão com muita força. Sem diálogos, Marcelo Brandão e sua roteirista Marcela aAcedo apostam no cinema de imagens, onde as palavras se fazem desnecessárias. A cena final é de grande impacto: o casal, no banco da clínica, retirando borboletas de suas cabeças e elas voando sobre eles. Linda metáfora sobre o Amor Louco e livre. https://www.youtube.com/watch?v=xiaBxeL7tJI&t=361s&fbclid=IwAR0mJiq7FP5KSL7OelR6t_6aHhPGsVEW7Noi41M5FZnqpCTkeIgCgEgG8OM

The Fog- A bruma assassina

"The fog", de John Carpenter (1980) Clássico cult do Mestre do Terror John Carpenter, foi o filme lançado logo após o mega sucesso de "Halloween". No entanto, a expectativa em relação a "The fog" foi muita e acabou decepcionando críticos e público. Porém, quase 4 décadas depois, o filme foi alçado ao título de clássico e considerado pelos fãs um dos melhores trabalhos de Carpenter. Novamente escrevendo o roteiro e compondo a trilha sonora, Carpenter conta uma história de fantasmas vingativos. No balneário de Antonio Bay, Califórnia, a cidade vai comemorar os 100 anos de fundação da cidade. No entanto, a chegada de um forte nevoeiro revela a verdade sobre a cidade: há 100 anos atrás, um barco afundou, e com ele, 6 leprosos, incluindo um milionário, derrubado pelos moradores locais que não queriam que os leprosos viessem ao balneário. 100 anos depois, os fantasmas dos leprosos desejam matar os 6 descendentes daqueles que os mataram. Pela primeira vez, a atriz Jamie Lee Curtis, estrela de "Halloween", contracena com sua mãe, a atriz Janet Leigh, de "Psicose". São muitos os personagens no filme, que tem uma estrutura interessante de roteiro: acompanhamos várias histórias isoladas, e somente no final, os personagens irão se encontrar em uma velha igreja. O filme é repleto de atmosfera de suspense, e Carpenter sabe criar esse clima. Visto hoje em dia, o filme parece bastante datado, mas ainda assim é uma deliciosa diversão nostálgica, na época que os sustos não eram provocados por efeitos digitais.

Memória da dor

"La douleur", de Emmanuel Finkiel (2017) Adaptação do livro de Marguerite Duras, "A dor", narra a história de Marguerite, escritora e durante a 2a guerra mundial, uma das líderes do movimento da Resistência francesa e também membro do partido comunista. Seu marido, Robert, também da resistência, foi preso pela Gestapo e Marguerite não consegue nenhuma informação dele. Até que surge Pierre Rabier, um dos delatores franceses que trabalham a favor da Alemanha nazista. Marguerite percebe que Pierre está interessado nela e tenta obter informações do marido, mesmo que seus colegas da resistência sejam contra. Protagonizado por Melanie Tierry, de longe o maior ponto de interesse do filme, "Memória da dor" tem 127 minutos mas parece ter 4 horas. Lento, arrastado, o filme é quase todo narrado em voz off por Marguerite. Mesmo com a super produção, que caprichou na direção de arte, figurino e cenários, o filme não arrebata. Uma tortura assisti-lo inteiro. Mesmo assim, o filme foi selecionado pela França para represestá-lo no Oscar 2019.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Caixa de pássaros

"Bird box", de Susanne Bier (2018) A premiada cineasta dinamarquesa Susanne Bier estréia em seu primeiro filme de terror, baseado no livro de Josh Malerman, publicado em 2014. O filme pega carona no sucesso de "Um lugar silencioso", e também no filme de Shayamalan de 2008, "Fim dos tempos". Em um futuro apocalíptico, o mundo foi devastado por um surto de suicídios, provocado porquê as pessoas enxergam o ar e esse mesmo ar faz com que a pessoa se mate. Para evitar o suicídio, os sobreviventes precisam aprender a andar com vendas nos olhos. Entre os sobreviventes, estão Malorie (Sandra Bullock) e seus 2 filhos pequenos. Ela escuta no rádio amador que um grupo de sobreviventes se encontra do outro lado de um rio traiçoeiro. Malorie precisa atravessar esse rio de olhos vendados, e ainda evitar que internos psiquiátricos que fugiram de um hospício, imunes ao surto, a mate. O filme ainda pega carona no tema da sobrevivência e de que não se pode confiar no ser humano, temas comuns em "The walking dead". Inclusive, um dos personagens tem o nome de Rick. Susanne Bier não fez feio no filme, mas também não trouxe novidades. O filme tem exagerados 125 minutos de duração, e tudo se torna bastante repetitivo. O elenco estelar, que vai de John Malkovich, Jackie Weaver entre outros, aparece na primeira parte do filme, como sobreviventes que ficam enclausurados em uma casa e que não confiam em ninguém. O terror é baixos teores, não tem nenhum susto daqueles de pular da cadeira. Achei também que os vultos do mal, que só fazem sussurrar o filme todo, uma grande bobagem. Mais um filme que quer explorar o lado mal das pessoas.

O beijo no asfalto

"O beijo no asfalto", de Murilo Benício (2017) Cinema e Teatro andaram de mãos juntas em muitas experiências cinematográficas, boa parte muito bem sucedida. "Querelle"e "Lágrimas amargas de Petra Von Kant", de Fassbinder, "Dogville", de Lars Von Triers, "Anna Karenina", onde se expunha a existência de uma coxia com técnicos trazendo cenários. Até mesmo no Brasil tivemos uma tentativa de metalinguagem, com "Todo mundo tem problemas sexuais", de Domingos de Oliveira. A peça "O beijo no asfalto", escrita no início dos aos 60, já ganhou diversas montagens, sendo a primeira com Zilka Salaberry e Fernanda Montenegro. Em 1981, Bruno Barreto fez a versão para o cinema, com Ney Latorraca no papel de Arandir e Cristiane Torloni no papel de Selminha. O Ator Murilo Benício, que tem investido em uma carreira mais autoral, tanto na frente como atrás das telas, estréia na Direção com uma proposta ousada e arriscada: apresentar os artifícios do cinema e do teatro durante a sua encenação metalinguistica. Com um elenco formidável que vai de Lazaro Ramos, Stenio Garcia, Debora Falabella, Fernanda Montenegro, Otavio Muller, Augusto Madeira, o filme mescla leitura de mesa com os atores, comandados pelo diretor teatral Amir Haddad, encenação fictícia e ao mesmo tempo, apresentação de cenários no palco de teatro. Isso sem falar na vida real, as ruas do centro da cidade, logo no início, mostrando a cena do atropelamento. Fosse uma obra atual, diríamos que o tema central seria o "Fake news"e a calúnia virtual. Como o filme é de época, e se passa no subúrbio, o que comanda é a mídia jornalística, encarregada de publicar uma matéria sensacionalista: um homem, Arandir, beija uma vítima de atropelamento na boca, antes desse morrer. Mas o mais surpreendente no filme nem é a peça de Nelson: é a discussão dos atores diante do conservadorismo, quase 60 anos depois da peça escrita, como a violência e a homofobia continuam iguais. Para Atores e Diretores, o filme tem uma espetacular digressão acerca da ARte e do papel do Ator. Presenciar Fernanda lendo o roteiro na mesa, com os outros atores, e dando vida à personagem, é algo impressionante. O elenco está todo formidável, assim como a ficha técnica, principalmente a fotografia de Walter Carvalho, a direção de arte de Thiago Marques e a edição de Pablo Ribeiro. Programa imperdível.

Engano

"Engano", de Cavi Borges (2008) Super premiado curta do cineasta e produtor Cavi Borges, que por sua vez foi parcialmente financiado com prêmios ganhos pelo curta anterior, o igualmente ovacionado "7 minutos". Ëngano" tem a narrativa inspirada no longa independente americano de Mike Figh, "Time code": 4 histórias paralelas rodadas em planos-sequência simultâneos, e que no final, convergiam para uma única história. Cavi rodou com 2 equipes paralelas filmando ao mesmo tempo: uma na estação do metrô, e outra pelas ruas de Copacabana. "Engano" é um filme romântico latino por natureza, e que não tem medo de apostar numa história de amor simples e eficiente. Em 2005, o cineasta argentino Gustavo Taretto rodou um curta que posteriormente virou longa, chamado "Medianeiras", e que também fala sobre o acaso promovendo possíveis encontros de 2 almas solitárias. Mas a proposta de Cavi é mais técnica, inspirado provavelmente na experiência de seu curta anterior, "7 minutos": usar o plano-sequência como um grande desafio de produção e estilístico, assumindo as falhas técnicas que por ventura vierem, pois na organicidade do projeto, tudo está valendo: populares olhando para a câmera, som sujo e com ruídos, câmera tremendo. Nada disso tira o prazer do espectador de se assistir a uma experiência que é Cinema puro, orquestrada pelo improviso dos diálogos proposto pelos próprios atores, que vivem seus personagens com muita verdade cênica, afinal, a experiência dos personagens, é a mesma dos atores: batalhar por um espaço profissional na grande Metrópole que é o Ro de Janeiro. Os atores Filipe Mônaco e Miila Derzett vivem 2 atores gaúchos que vieram ao Rio tentar a sorte Filipe pega o metrô, liga para um número de celular para avisar que chegará atrasado no teste de elenco. Miila atende, diz que é engano. A partir dai, esse inusitado papo telefônico vira a balada de 2 almas solitárias na grande cidade, embalada por uma linda trilha sonora composta por Phylipp Rye. Tudo conduzido com muita delicadeza e simplicidade. Link para assistir ao filme e se deixar levar pelos encantos da produção. https://vimeo.com/282121390?fbclid=IwAR3jWLnapR_k1Z3epTjtqcLwU5yaprmF63WDddEo3UcYKdkgCXJ99WSSUcI

Al Berto

"Al Berto", de Vicente Alves do Ó (2018) Cinebiografia do poeta português Alberto Raposo Pidwell Tavares, mais conhecido como Al Berto, que viveu de 1948 a 1907, morrendo aos 49 anos de idade. Alberto nasceu em uma família da burguesia portuguesa, na cidade de Sines. Com a ditadura de Salazar, a família perdeu sua posse, e Alberto foi estudar pintura em Bruxelas. O filme acompanha a vida de Alberto de 1975 a 1978, logo após o fim da ditadura. Alberto retorna para a sua cidade, Sines, e reassume a mansão da família, apropriando-a indevidamente ( havia sido confiscada durante a ditadura). Alberto passa a hospedar em sua casa, artistas sem teto, e na cidade, fica famosa como uma comunidade hippie e mal vista. Alberto conhece o cantor e poeta João ( irmão do cineasta Vicente Alves) e passam a conviver uma relação intensa e conturbada de amor. O filme fala sobre Arte, homofobia, política e amor livre. Bem dirigido, o filme ganhou diversos prêmios internacionais. O elenco está excelente, e durante o tempo todo me lembrei do filme de Thomas Vintemberg, "A comunidade". As cenas de sexo são repletas de tesão, fotografadas pelas lentes do Mestre português Rui Poças. Ótima direção de arte, figurino e trilha sonora, repleta de canções pop.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Imitation is suicide

“Imitation is suicide”, de Julian Davis (2016) Curta estudantil escrito e dirigido por Julian Davis e vencedor de inúmeros prêmios em Festivais de Cinema americano. A premissa do filme é bastante simples e óbvia: a eterna crítica à tecnologia, que afasta o convívio social. Um jovem apreciador da leitura com livro de verdade se sente acuado quando vê que ao seu redor todas as pessoas estão solitárias e vendo seus celulares. O garoto procura encontrar um lugar aonde ele se sinta à vontade, mas cada vez mais ele fica angustiado. O filme poderia dar ideia a um episódio de Black Mirror, mas é bastante simplório para isso. Mas valeu pela iniciativa e para um filme estudantil está com excelente qualidade, no ritmo e tempo certos. Um belo trabalho. https://youtu.be/Wkc1DQLLCUM

Sequence break

“Sequence break”, de Graham Skipper (2017) Trilher de ficção científica e fantasia independente, escrita e dirigida Graham Skipper, lembra uma mistura alucinada de “Tron”, “ Videodrome”, de Cronemberg e “Christine”, de John Carpenter. De “Tron” é a história de um jovem nerd apaixonado por fliperamas que passa o dia jogando e trabalhando numa loja vintage de fliperamas e se envolve com uma máquina que o leva até outra dimensão. De “ Videodrome” tem a relação sexual entre a máquina e o jovem. De “ Cristina”, a máquina se apaixona pelo jovem e afasta todos que se aproximam dele, incluindo a namorada dele. A cena do garoto jogando a máquina e usando o joystick e os botões como se fossem os seios e o clitóris dela é antilógica e bastante doentia. O visual e a trilha sonora são bastante retrô, super anos 80 repleto de sintetizadores. Pena que o filme tenha sido realizado com tão pouco dinheiro,ele poderia ter rendido bem demais. Muita coisa ficou pobre, e no final das contas, ficou apenas uma homenagem a um gênero e uma época. Vale assistir, mas com ressalvas pela falta de efeitos melhores.

A aparição

“The appearance”, de Kurt Knight (2018) Escrito e dirigido por Kurt Knight, “ A aparição” tenta pegar carona em “ A freira”, “Sherlock Holmes“ O nome da rosa”, mas sem sucesso. Longo e sem ritmo, e com efeitos fracos, o filme se passa na idade média e acontece em uma abadia. No início, um monge é encontrado morto. Um Inquisidor, Mateho e seu assistente, Johnny ( Kristian Nahim, o Hodor de “ Game of thrones”) são convocados para desvendar o crime. Chegando lá eles são mal recebidos pelo Monge Scipio, que é quem comanda a abadia. Outras mortes vão acontecendo, e Scipio acredita que a responsável é a jovem Isabel, que ele diz ser uma bruxa e a sentencia à morte. Mateho precisa correr contra o tempo para provar a inocência da jovem. Jake Stormoen não tem carisma para segurar o protagonista Mateho, e Kristian Nahim está muito mal aproveitado e provavelmente escalado porque seu personagem lembra Hodor. O roteiro é fraco e as cenas de susto não assustam ninguém. Uma pena porque o filme poderia ter sido uma ótima reposta a “ A freira”, com elenco majoritariamente masculino em contraponto ao elenco feminino do outro filme. Mas nem chega aos pés da eficiência de “A freira”.

Roma

“Roma”, de Alfonso Cuaron (2018) No ano de 2009, o Cinema chileno lançou um extraordinário drama chamado “ A criada”, dirigido Sebastian Silva. Com um performance arrebatadora de Catalina Saavedra, no papel da empregada Raquel,o filme conta a história da servidão dessa criada, que trabalha em silêncio para uma família de classe média por 23 anos. As crianças a amam, os pais têm seus momentos de crise e ao mesmo tempo, Raquel, tímida e introvertida, procura resolver suas questões existências. “Roma” poderia ter sido um remake desse longa. Só não o é porque o filme se baseia nas memórias afetivas de Alfonso Cuaron. O filme diz tanto a Cuaron que ele assumiu praticamente o comando do filme: dirige, escreve, fotografa, produz e edita. “Roma” é o “Amarcord” de Cuaron: assim como o filme de Fellini, a narrativa é construída a partir de cenas soltas, rotineiras mas que apresentam momentos de deliciosa afetividade ou de gigantesca dimensão época. A beleza pictórica do filme chama atenção em todos os fotogramas. É impressionante a capacidade de Cuaron de lapidar cada elemento na tela: em quase todos os momentos de externa, vemos situações acontecendo em segundo plano. Há muito tempo eu não via um drama intimista ter uma grandiosidade como “ Roma”. Figuração numerosa,direção de arte, profundidade de campo mostrando em todo o esplendor a locação , sem esconder nada. É uma super produção disfarçada de filme pequeno. Cuaron filme a história de sua empregada Lido, que inspirou a personagem Cleo, ambientada no ano de 1970, no México. Roma é o nome do bairro onde mora a família: casal e 4 filhos, além da avó e de outra empregada, Adela. Acompanhamos essa história pelo período de 1 ano: o casal se divorcia, Cleo engravida de um policial que pratica artes marciais. As cenas sketches seguem na rotina da família mas a partir do segundo ato tudo vai mudando para um cinema mais espetaculoso: a cena da manifestação estudantil é impressionante, assim como o treinamento de artes marciais. Mas nada supera o plano sequência na praia, de Cleo vindo da areia e a câmera a seguindo até a água do mar. É de cair o queixo. Yalitza Aparício impressiona no minimalismo de sua atuação como Cleo. Seria leviano dizer que ela não interpreta porque a atriz seria exatamente assim. Os olhares, as pausas dramáticas, o tempo de cena de Yalitza, são cosas de ator veterano. Ela vai ser uma grande estrela. Cuaron curiosamente homenageia o seu filme anterior “ Gravidade” em uma linda cena no cinema. “Roma” venceu o Leão de Ouro em Veneza 2018 de Melhor filme

Cola de mono

Cola de mono, de Albert Fuguet (2018) Intenso trhiller erótico LGBTQ+ Chileno, repleto de cenas de sexo explícito. E com uma curiosa referência ao cinema de Brian de Palma, principalmente “Vestida para matar”. O filme se passa em 2 épocas: 1986 e 1999 no Chile. Em 1986, os irmãos Borja e Vicente moram com a mãe deles em uma casa decadente. A família perdeu posses desde a morte do pai, por suicídio. Borja deseja ser estudante de cinema e é cinéfilo. Vicente se separou da namorada. A mãe é reclusa e introspectiva desde a morte do marido. Na noite do Natal, a família comemora sozinhos a festa, mas a mãe destrata Borja, dizendo que Vicente é melhor do que ele. Vicente sai pra noite para viver sua vida secreta: ele é gay enrustido, e vai fazer pegação no parque. Borja por sua vez, bebe “Cola de mono”( bebida alcóolica servida no Natal) e entra no quarto do irmão. Ao descobrir revistas de homens nus escondidas, Borja se excita e confessa depois pro irmão que também é gay. O filme tem um tom bastante estranho e bizarro para narrar, mesclando momentos lúdicos com outros bastante crus e realistas. Tem uma pitada de filmografia de Almodovar, principalmente nas cores e na trilha sonora dos anos 80. A segunda parte do filme investe bastante no erotismo, fechando o último ato com uma enorme sequência que acontece dentro de uma sauna gay, repleto de homens nus e bastante sexo. Não é um filme para qualquer um: é forte, fortes cenas de sexo gay e também bastante violência. Confesso que curti essa levada underground do cinema chileno. Os atores se jogam totalmente em seus personagens, visceralidade total.