sábado, 22 de junho de 2019
Perdido no Paraíso
"Hot Boy Noi Loan", de Vu Ngoc Dang. Considerado o primeiro drama gay do Vietnã, por ter protagonistas LGBTQ+, "Perdido no Paraíso" é um melodrama dividido em 2 histórias ambientadas na Metrópole Saigon. Ambas as histórias têm como tema central a prostituição.
Na primeira história, Khoi (o cantor pop Ho Vinh Khoa) é um rapaz que chega em Saigon para tentar a vida, depois de ter sido expulso de sua casa no interior quando os pais descobriram que ele é gay. Ele conhece Dong, um rapaz que lhe oferece dividir um apartamento. Quando chega no apartamento, Dong lhe apresenta Lam, dizendo ser seu primo. Khoi vai tomar banho, e acaba sendo roubado pela dupla. Desesperado, sem dinheiro, Khoi faz bicos em qualquer tipo de serviço pesado, até que se machuca. Lam é abandonado por Dhing, que foge com o dinheiro. Ao encontrar Khoi na rua, Lam o traz para seu quarto e cuida dele. Ambos acabam se apaixonando, e Lam revela a Khoi que faz programas para sobreviver.
Na outra história, Hahn, uma prostituta quarentona, é protegida nas ruas por um deficiente metal que cria um pato. Quando a cafetina ameaça Hhan, o rapaz deficiente, Cuoi, tenta defênde-la.
Exagerando no melodrama, principalmente pelo uso excessivo de música, "Perdido no Paraíso" vai fazer a alegria de quem gosta de uma trama novelesca e cheia de vilões. É um filme com bastante sensualidade, e uma fotografia realista que acentua a vida mundo cão dos personagens. Os atores estão todos bem, e para uma filmografia que até então a pouco deixou de ser conservadora, o filme é bem usado com cenas de nudez. "Perdido no Paraíso" fez muito sucesso em seu País e foi exibido em dezenas de Festivais mundo afora.
Burn your maps
"Burn your maps", de Jordan Roberts (2016)
Adaptado pelo próprio Cineasta Jordan Roberts de um conto escrito por Robyn Joy Leff, "Burn your maps" é um emocionante drama sobre a jornada de uma família que perdeu o seu rumo após a morte da filha pequena.
Alise (Vera Farmiga)é professora de inglês para imigrantes. ela é casada com Connor e possuem 2 filhos, a adolescente Becca e o pequeno Wes (Jacob Tremblay, de "O quarto de Jack"). Cada um dos integrantes da família enfrenta o luto pela morte da bebê de uma forma diferenciada. Wes acredita ser a reencarnação de um pastor de ovelhas da Mongolia e passa a agir como tal. O pai se preocupa, a mãe estimula a fantasia do filho. Juntos de Ismail, um aluno hindu de Alise, Alise e Wes viajam até a Mongolia e lá, buscam respostas para o drama de suas almas.
Com ótimas performances de Vera Farmiga e de Jacob Tremblay, "Burn your maps" enfrentou o pouco caso da distribuição nos Estados Unidos. exibido no Festival de Toronto em 2016, só agora conseguiu uma distribuição pequena. O filme traz uma bela reflexão sobre a religiosidade budista, fazendo os pais acreditarem que a pequena bebê não morreu, mas encontrou um outro estagio. Um personagem mongol diz ao pai: "Você não perdeu sua filha. Você a encontrou." Para quem gosta de filmes road movies, que geralmente são metáforas sobre jornadas da alma, vai gostar bastante desse filme. As locações da Mongólia foram filmadas no Canadá.
sexta-feira, 21 de junho de 2019
O Amor dos leões
"Lions Love (... and Lies)", de Agnes Varda (1969)
Drama experimental dirigido por Agnes Varda na sua fase "Californiana", quando ela foi morar em Los Angeles em 1958 com Jacques Demy, seu marido. O filme tem toda a narrativa que se esperava de um filme de Agnes Varda: artes plásticas, fotografia e muita discussão acerca da Arte, Cinema, Política e relacionamento poliamor, em voga na época por conta do movimento Hippie. Muito sexo, drogas e rock'n roll sob o ponto de vista da liberação sexual e do comportamento, e o mais interessante, sob o olhar feminino e revolucionário de Agnes Varda.
Varda convidou os atores Gerome Ragni e JAmes Rado, que haviam participado do filme "Hair", de Milos Formam, para fazerem parte do filme. A eles se juntaram a Artista e performer Viva, famosa por sua contribuição artística na The Factory de Andy Warhol, e a cineasta independente de Nova York Shirley Clarke, convidada por Varda para dar vida a uma cineasta que filma o relacionamento dos 3 hippies que convivem em uma mansão. O filme parece, aos olhos de hoje, um reality show sobre comportamento. Através da rotina filmada de Viva, Jim e Jerry, em momentos de performance, sexo e divagações acerca de política ( a candidatura e assassinato de John Kennedy), Televisão e Star System das celebridades de Hollywood, Shirley interage com eles. Em determinado momento, Shirley discute com Agnes Carda, or se recusar a fazer uma cena onde ela se suicida. Agnes assume a cena e ela mesmo interpreta.
O filme é bastante ousado em termos de nudez e comportamento, e na cena final, vemos crianças pequenas fumando e bebendo álcool.
Agnes Varda sempre foi uma Artista militante, que provocava em seus filmes discussões sobre todas as áreas artísticas e políticas.
Linha direta da Crise
"Crisis hotline", de Mark Schwab (2019)
Thriller LGBTQ+ escrito, produzido e dirigido por Mark Schwab, é uma produção independente americana.
Simon trabalha em um tele atendimento voltado para o público LGBTQ+ que se encontra em depressão. Entre vários trotes, ele recebe a chamada de Kyle, um jovem millenial de SIlicon Valley que diz estar prestes a se suicidar e antes, matar algumas pessoas. Simon vai tentando entender o caso, enquanto procura extrair de Kyle o motivo dele querer praticar o crime.
Curioso suspense psicológico, mostra o submundo do sexo da deep web, onde pessoas são inocentemente procuradas em chats de namoros online e acabam se envolvendo em um mercado clandestino de sexo virtual. Os atores são medianos, mas como o foco do filme são cenas eróticas, acabam dando conta do recado.
quinta-feira, 20 de junho de 2019
Quem você pensa que sou
"Celle que vous croyez", de Safy Nebbou (2019)
Adaptação da novela escrita por Camille Laurens , "Quem você pensa que sou"foi dirigido pelo mesmo realizador do excelente "Na floresta da Sibéria", Safy Nebbou.
Exibido em Berlin 2019, o filme mistura vários gêneros: drama, romance e suspense, com uma trama diabólica que no terço final, dá vários plot twists.
Claire (Binoche) é uma mulher divorciada. Seu marido se separou para ficar com uma mulher mais jovem. Claire mora com seus dois filhos adolescentes, e nos dias que eles estão com o pai, ela traz um jovem amante, Ludo. Quando Ludo pede para dar um tempo, Claire responde mal e fica frustrada. Ao ligar para o celular dele, o roommate dele, Alex (François Civil), um fotógrafo, atende e destrata Claire. irritada e querendo se vingar, Claire cria um perfil falso no Facebook, com o codinome de Clara, 24 anos. Dessa forma, ela tenta se aproximar de Ludo, mas o que ela não poderia esperar, era que Alex focasse interessado em 'Clara". Sentindo-se desejada, Claire entra no jogo virtual. Para aliviar a adrenalina, ela frequenta uma psicóloga, Dra Catherine, e faz dela a interlocutora desse jogo erótico e perigoso.
Com uma performance arrebatadora de Juliette Binoche, que em segundos, transforma um sorriso em lágrimas, o filme aposta no olhar feminino sobre as relações humanas. O filme também faz uma pesada crítica à lavagem cerebral que são as redes sociais e o afastamento das gerações, principalmente as mais velhas, que não conseguem acompanhar a juventude.
Desfecho arrebatador. François Civil prova ser um dos grandes talentos da nova geração francesa.
Toy Story 4
"Toy Story 4", de Josh Cooley (2019)
E pensar que o primeiro "Toy Story" acaba de fazer 25 anos! Quando John Lassiter escreveu e dirigiu o filme original, talvez não fizesse idéia da grande catarse que a futura franquia faria no imaginário de toda uma geração. Recentemente John Lassiter sofreu acusações de assédio sexual, e portanto sue nome foi relegado a colaborador no roteiro dessa parte 4, tendo a direção sido entregue para Josh Cooley.
Em 2010, quando foi lançada a Parte 3, todo mundo achou que a franquia havia terminado. Afinal, Andy, o menino, cresceu, foi pra faculdade e se desfez de seus bonecos, em uma das cenas mais tristes da história do cinema. Mas povo da Disney e Pixar adoram dinheirinho fácil, e porquê não retomar o filme exatamente de onde parou?
Os bonecos agora estão com a pequena Bonnie. Ela tem seus boneco preferidos, e definitivamente, Woody não é um deles. Woody sente-se triste. Mas quando descobre que Bonnie vai começar a frequentar as aulas, relembra de como foi com Andy e se enfia na mochila dela, para ajudá-la a encarar a barra pesada da escola. Bonnie acaba criando um boneco novo, feito de material descartável: o Garfinho.
Quando vão para as férias da semana acampar, Bonnie leva os bonecos. Mas Garfinho sofre de crise existencial e acaba se jogando da estrada. Woody sente-se na missão de salva-lo.
Repleto de personagens novos, e recuperando alguns antigos, como a Pastora Betty e suas ovelhas, "Toy Story 4" novamente fala daquilo que mais lhe cabe: amizade e desapegos.
O filme é recheado de ótimas piadas, e também muito drama, culminando com muitas lágrimas derramadas no cinema. A trilha sonora é excelente, e as vozes originais imperdíveis: além dos tradicionais Tom Hanks e Tim Allen, temos também Keanu Reeves no papel do motoqueiro Duke, genial.
O filme reserva homenagens a vários filmes, entre eles, "ET".
As fábulas negras
"As fábulas negras", de Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf, Joel Caetano e José Mojica Marins (2015)
Antologia de Terror, baseada em lendas do folclore brasileiro. O Cineasta capixaba Rodrigo Aragão, realizador de "Mata negra", coordenou esse filme e convocou mais 3 diretores, entre eles, Zé do Caixão, para darem sua visão de lendas como Saci, Lobisomem e Iara.
Para costurar as 5 histórias, temos 4 meninos fantasiados de super heróís, que ficam narrando histórias de terror para um deles, que é totalmente descrente da veracidade das lendas.
Rodrigo Aragão dirige o primeiro e o último episódios:
"O monstro do esgoto"e "A lenda da Iara". No primeiro, um prefeito corrupto é morto pelo monstro do esgoto, que atava todos aqueles que são favoráveis à burocracia e a corrupção; em "A lenda da Iara", uma mulher se une ao demônio para matar o marido traidor e a amante dele.
Zé do Caixão dirige "O Saci": um casal é avisado por um Pai de Santo para não atravessar a mata e zoar o Saci. Desobedecendo a ordem do homem, o casal sofre as consequências.
"Pampa feroz", dirigido por Petter Baiestorf, conta a história de um Coronel que quer matar um lobisomem que ameaça suas terras.
"A loira do banheiro". de Joel Caetano, conta a famosa lenda urbana da loira que foi morta em um banheiro de um colégio e que agora se vinga das pessoas.
O episódio da "Loira do banheiro" é disparado o melhor de todos, não que isso seja um grande mérito. O filme como um todo só funciona para o espectador se ele souber de antemão que o filme é trash, uma homenagem ao Cinema de terror B e sem dinheiro, como Zé do Caixão fazia em seus filmes. Aqui, o que vale é o quanto pior , melhor: Atores ruins e exagerados, maquiagem tosca, efeitos de quinta, enfim, para quem estiver nessa vibe, vai se divertir bastante, assim como eu. É o famoso terror baixo orçamento tupiniquim, que visto com amigos se torna uma grande diversão.
Os episódios são irregulares, mas o mais divertido em termos de trash é "O Monstro do esgoto". Esse merece um troféu pela insanidade que ele é como uma obra de resistência, de querer fazer um cinema a qualquer custo.
O Círculo
"Der kreis", de Stefan Haupt (2014)
Comovente docudrama LGBTQ+ sueco, indicado pela Suiça uma vaga para o Oscar de filme estrangeiro em 2016.
Baseado em uma história real, o filme narra a história da Revista The Circle", voltada para o público gay masculino. Lançada em 1934 na Suíça, ela durou até dezembro de 1967. Durante a sua existência, ela publicou matérias jornalísticas , eventos e fotos com homens semi-nus e tinha milhares de assinantes pela Europa, a maioria, enrustidos. Na Suíça, o homossexualismo era permitido, mas assim que os primeiros crimes contra homossexuais surgiram, eovocados por garotos de programa que vinham de outros países para chantagear gays na Suíça, a polícia resolveu intervir e ameaças contra os gays começaram a acontecer. A derrocada da Revista aconteceu porquê Holanda e Dinamarca começaram a publicar revistas com fotos explícitas de nus masculinos e aí, as assinaturas foram desaparecendo.
O filme também conta a história de amor entre Ernst e Robi. O primeiro era um professor de literatura enrustido, que trabalhou clandestinamente para a Revista como colaborador. Lá, ele conheceu a transformista Robi. O Casal foi o primeiro a se casar na Suiça em 2003, aonde vivem até hoje.
O filme alterna cenas ficcionadas que vão dos anos 50 a 70, com entrevistas com o casal real e sobreviventes da Revista. Um filme importante historicamente, com ótima reconstituição de época e bons atores.
Barragem
"Demnig", de Paul Tunge (2015)
Segundo filme dirigido pelo Cineasta norueguês Paul Tunge, que também escreveu o roteiro, "Barragem" é um drama LGBTQ+ intimista e com forte influência do cinema documental.
Dois rapazes, j e Jo, se conhecem em um bar e passam uma noite juntos. No dia seguinte, J convida Jo para fazerem montanhismo. Jo aceita eles passam um dia inteiro solitários nas montanhas. Aos poucos, eles vão conhecendo a verdadeira faceta de cada um: J tem uma índole violenta, e Jo, é carente e desesperado em busca de um amor.
Um filme totalmente carregado nas costas pelos 2 jovens atores, "Barragem" é um titulo metafórico sobre a "muralha"que se constrói sobre os dois: no inicio se divertem, riem, brincam, lutam, mas depois, quando os segredos mais íntimos de ambos afloram, fica uma terrível sensação de isolamento.
O filme tem um ritmo muito arrastado e pode atrair cinéfilos mais afeitos a um cinema independente com olhar mais autoral e quase experimental. Bela fotografia e paisagens. O filme vale mesmo pela performance de Joachim Kvamme e Jørgen Hausberg Nilsen, nos papéís de Jo e J, respectivamente.
quarta-feira, 19 de junho de 2019
Inocência roubada
"Les chatouilles", de Andréa Bescond e Eric Métayer (2018)
Casados na vida real, Andréa Bescond e Eric Métayer se conheceram em 2012. Eric tomou conhecimento da história traumática de Andréa Bescond, e juntos, escreveram uma peça teatral, intitulada "As cócegas", e agora transformada em premiado filme. Concorrendo em Cannes 2019 na Mostra "Un certain regard", o filme ganhou diversos prêmios internacionais, entre eles, o de Melhor roteiro e de melhor atriz coadjuvante para Karin Viard, no papel da mãe de Odette, pseudônimo de André ano filme.
Odette ( Andréa Bescond) é uma dançarina contemporânea que resolve ir até uma psicóloga e contar finalmente o seu grande trauma de infância: ela foi estuprada aos 10 anos de idade pelo melhor amigo de seus pais, Gilbert (Pierre Deladonchamps, ótimo em um papel muito complexo e difícil). Odette passou a vida toda escondendo o fato dos pais, mas com a ajuda da psicóloga, ela toma a iniciativa.
O filme utiliza um recurso utilizado em filmes como 'Eu minha mãe e os meninos"e "Rocketman": fazer do filme uma sessão de terapia, falando das relações familiares e botando para fora todos os fantasmas, de forma lúdica. O filme pode ser visto como uma grande sessão de terapia, e o final é uma grande catarse. Ecos de Bergman, em um filme que mistura drama, musical e alguns poucos elementos de humor para suavizar uma história tão barra pesada.
Algumas cenas são bastante difíceis de se assistir, e a bravura de Andréa em expôr seu drama merece todos os aplausos.
Cyrille Mairesse, no papel de Odette criança, é um talento e muito expressiva, além de dar vida a uma personagem bastante polêmica.
Duas vezes
"Due volte", de Domenico Onorato (2018)
Intenso curta LGBTQ+ italiano, "Duas vezes" tem como tema a homofobia e o bullying.
Antonio e Diego são melhores amigos. De classe média alta, os dois passam os dias curtindo o que a vida tem de melhor: festa, bebidas, garotas, praias. Diego é enrustido e platonicamene, apaixonado por Antonio. Antonio percebe, e para instigar a masculinidade de Diego, o obriga a estuprar uma garota que conheceram em uma festa.
Com ótimas interpretações dos 3 atores, o filme é quase todo narrado em Off por Diego, em construção narrativa que torna o drama um grande suspense. Muito boa edição, fotografia e trilha sonoras.
terça-feira, 18 de junho de 2019
Thirsty
"Thirsty", de Margo Pelletier (2016)
Musical cinebiográfico da Drag Queen Thisrty Burlington, nascido Scott Townsend em PrinceTown, Massachussets. O filme acompanha Scott desde que ele tinha 11 anos de idade em 1970, até os dias de hoje. Nos anos 90, ele personificou a cantora Cher em quase todos os seus números musicais apresentados em cabarets e shows.
A cineasta e roteirista Marg Pelletier faleceu de câncer logo após finalizado o longa. Famosa por realizar filmes e documentários que têm em comum o tema do transgênero, Margo foi uma lésbica militante. O filme faz um apanhado musical de várias décadas, e de certa forma, lembra bastante Hedwig", de John Cameron Mitchell ( o ator Scott Towsend interpreta a si mesmo já na fase adulta). Scott sofreu durante sua infância e adolescência com o bulllying de estudantes e de vizinhos , que sempre o consideraram afeminado. Sua mãe era alcóolatra. Foi seu tio quem motivou Scott a cantar em pequenos shows. O filme em si é interessante, bem dirigido, mas longo e sem ritmo. A história de Scott é narrada em uma edição que vai e volta no tempo, tornando a narrativa confusa. Mas a mensagem que o filme passa acaba sendo o grande motivo para se assistir ao filme. Produção de médio orçamento, e com desfecho reunindo todo o elenco em um grande número musical.
O filme foi exibido em diversos Festivais e ganhou alguns prêmios.
A lenda do Golem
"The Golem", de Doron Paz e Yoav Paz (2018)
Raro filme de terror israelense, "A lenda do Golem" é um ótimo exemplo de que filmes de gênero podem ser muito bons. Com um drama bastante acentuado, o filme conta a história de Hannah
(Hani Furstenberg, sósia de Jessica Chainstain) , uma mulher que vive em uma Vila Lituana na Europa do Século XVII. O mundo está sendo devastado pela Peste Negra. Hannah vive com seu marido em uma comunidade judaica. O casal perdeu recentemente o marido. Invasores pagãos surgem na vila exigindo que salvem a filha do chefe deles, que está morrendo da peste negra. O Chefe pagão afirma que os judeus são feiticeiros, pois não contraíram a doença. A vila fica ameaçada. Hannah descobre que ela pode invocar o Golem, uma figura mítica feita de barro, para proteger a vila e também para substituir o filho morto. Mas a criança nasce com desejo de sangue, e foge do controle de Hannah.
Violento, o filme apresenta mortes brutais, principalmente cabeças explodindo. É um filme que se aproxima dos recentes "Brightburn"e "Cemitério maldito", apresentando crianças sanguinárias e assassinas. 'A lenda do Golem" além de ser filme de terror, também é um ótimo drama, apresentando a cultura machista e misógina dos judeus, que não oferecem espaço para a mulher na religião e no comando da sociedade.
O Adeus
"The gooodbye", de George Velez Junior (2018)
Um jovem descobre que tem 6 meses de vida. Ele se desespera, e evita refazer as pazes com seu ex-namorado que o traiu, e com seu pai, que abandonou a família quando o filho anunciou que era gay.
Dramas sobre pessoas comuns que descobrem ter doença terminal e pouco tempo de vida são bastante comuns. Mais comum ainda, é quando essa pessoa é jovem. Talvez o melhor filme sobre esse tema seja "O tempo que resta", de François Ozon. "O Adeus" é um drama inglês, e por conta disso, merece crédito pelo seu bom elenco, e pelo carinho com que o Diretor e roteirista George Velez Junior lida com esse tema sempre tão delicado, evitando excessos de melodramas.
segunda-feira, 17 de junho de 2019
Os Príncipes
"Os Príncipes", de Luiz Rosemberg Filho (2018)
No dia 19 de maio de 2019, faleceu o Cineasta Luiz Rosemberg Filho. Ativo na produção de filmes autorais e provocativos desde o final dos anos 60, Rosemberg nunca escondeu a sua influência ciinematográfica das filmografias de Godard e de Glauber Rocha. De Godard, ele buscou inspiração nas colagens, na montagem de imagem e som esquizofrênicas e nos protagonistas anti-heróicos. De Glauber, trouxe a narrativa teatral, épica e a câmera livre.
Em "Os Príncipes", Rosemberg volta a filmar com alguns de seus atores recorrentes: Ana Abbot e Patricia Niedemeier, que trabalharam com ele em "Dois casamentos" e Guerra do Paraguay", e Alexandre Dacosta, também de "Guerra do Paraguay". Esses 3 filmes, aliás, foram produzidos por Cavi Borges, incansável batalhador do Cinema autoral brasileiro. "Os Príncipes" também teve produção da Cafeína Filmes, de Ph Souza, Produtor de Belo Horizonte.
Competindo no Festival Cine PE 2018, "Os Príncipes" conseguiu o grande feito de ganhar 6 importantes Prêmios:
Melhor Ator para Igor Cotrim; Melhor Atriz para Patricia Niedemeier, Melhor Ator Coadjuvante para Tonico Pereira, Melhor Fotografia, Edição de Som e Trilha Sonora.
É difícil não enxergar algumas referências cinéfilas: podemos encontrar uma homenagem explícita à "A Laranja mecânica", quando os protagonistas, em busca de uma noite de sexo e violência, invadem uma casa e batem nos moradores, cantando 'Singing in the rain". Tem também ecos de "O bandido da Luz Vermelha", com o recorrente locutor de uma rádio ligada no carro narrando noticiários políticos.
O filme acompanha a trajetória de 2 "Príncipes" urbanos no Rio de Janeiro: pilotando um carro anos 70, eles vagueiam pelas ruas da cidade, acompanhados de 2 prostitutas. Os 4 seguem uma epopéia de muito sexo, drogas e destilando uma metralhadora giratória de impropérios verbais que atiram para todos os lados. é uma crítica feroz à sociedade, ao governo, à corrupção, ao Cinema comercial e, impossível de não reparar, ao machismo. Para o público feminino, o filme deve incomodar bastante: as personagens femininas são vitimas da misoginia dos personagens masculinos, que comandam a narrativa.
O filme reserva uma cena divertida, quando quer criticar o Cinema feito por Hollywood: o crítico de cinema Rodrigo Fonseca interpreta a ele mesmo, entrevistando uma Diva que representa Hollywood. É uma cena digna da melhor chanchada brasileira, ao som de samba e Nino Rota de "8 1/2"de Fellini, e muita avacalhação narrativa do cinema marginal. O elenco como um todo atua de forma visceral, sem pudores e sem amarras. Um filme brutal, sujo, violento, que choca e que faz refletir sobre o mundo que estamos vivendo.
O mais jovem
"The younger", de Etsen Chen e Yen-Hung Chen (2014)
Dirigido, escrito e protagonizado por Etsen Chen, que co-dirigiu com Yen Hung Chen, "O mais jovem" é um premiado drama LGBTQ+ de Taiwan. O filme narra a rotina barra pesada do jovem Chen Hao-Zhi: seus pais o abandonaram sozinho com sua avó, que sofre de Alzheimer. Sem ter dinheiro para pagar os medicamentos caros de tratamento da avó, Chen acaba indo trabalhar em uma casa de massagem gay. O que de início era só massagem, acaba aos poucos sendo sexo, para que possa ganhar uma diária maior e poder arcar com os custos domiciliares. Mas Chen se apaixona por um cliente casado, que lhe promete presentes e carinho.
Intenso no drama e com uma cena especialmente sensual e provocativa, quando Chen faz sexo pela primeira vez com o cliente casado, "O mais jovem" apresenta a dura realidade da juventude que teve que abdicar de seus estudos por motivos vários, e que precisa enfrentar a realidade do mercado do sexo. Comovente e com ótimas performances dos atores Etsen Chen, no papel principal, e de Chun-Mei Hou, no papel da avó.
domingo, 16 de junho de 2019
Rastros de um sequestro
"Gi-eok-ui bam", de Hang-jun Zhang (2017)
Excelente suspense sul-coreano, com uma trama absolutamente diabólica. O roteiro, do próprio Hang-jun Zhang, possui pelo menos uns 10 Plot twists, daqueles de fazer virar na cadeira. Claro, muitas dessas viradas de roteiro sôam bastante forçadas, para fazer a história avançar, fora algumas coincidências da trama. Mas nada que tire o grande prazer de acompanhar tenso do início ao fim uma história que o espectador pode até tentar adivinhar logo de cara, mas que vai ser constantemente surpreendido com o típico "Achei que seria isso."
No ano de 1997, uma família acaba de se mudar para uma casa nova: os pais e os irmãos, Jin-seok, o mais novo ( excelente trabalho de Ha-Neul Kang) e Yoo-seok (o igualmente ótimo Mu-Yeol Kim). Jin Seok venera o seu irmãos mais velho, que sempre foi bastante estudioso e dedicado. Um ano atrás, a família sofreu um acidente de carro e Yoo Seok ficou com defeito na perna. Uma noite, ao retornarem de um passeio, o irmão mais velho é sequestrado, para o desespero de Jin Seok. 19 dias depois, o irmão retorna, mas Yoo Seok estranha a postura do irmão e acredita que ele é um impostor.
Um filme obrigatório para quem curte suspense com trama rocambolesco e que propõe um monte de charada. Boas cenas de ação e trilha sonora que remete à trilha de Bernard Hermann, compositor de Hitchcock.
I Am Mother
"I Am Mother", de Grant Sputore (2019)
Exibido em Sundance 2019, "I Am Mother" é um excelente filme de ficção cientifica, um surpreendente filme de estréia do australiano Grant Sputore. Co-escrito pelo próprio, o filme é um amálgama de muitos clássicos de terror e ficção científica: 'Alien", "O iluminado", "O exterminador do futuro", "2001" , "Cloverfield 10" são alguns exemplos, com cenas muito semelhantes que claramente são uma homenagem dos criadores.
Com apenas 3 atrizes em cena, sendo que uma apenas com a voz ( Rose Byrne) , que dá vida à "Mother", uma andróide emotiva e carinhosa mas também perigosa, uma máquina assassina. As outras atrizes são Hillary Swank, no papel da "Mulher", e Clara Rugaard, no papel da "Filha".
No futuro, uma adolescente é criada pela "Mother", uma andróide, que faz o papel de sua mãe, educando-a. A Filha é a única humana existente no universo: a Mãe diz que a humanidade se extinguiu por conta de um vírus e portanto, a menina não pode sair do bunker sob o risco da também ser contaminada. Um dia, uma Mulher surge ferida no bunker, e a Filha se surpreende: a Mulher diz que existem sobreviventes no exterior e que precisam de ajuda. O que está acontecendo de verdade: Teria a mãe mentido sobre o mundo externo?
Com um roteiro inteligente e instigante, ótima Direção, atrizes excelentes e efeitos especiais de arrepiar, "I Am Mother" surpreende e cria uma grande expectativa sobre o que de fato está acontecendo. O desfecho é complexo, há que se raciocinar um pouco sobre tudo o que foi visto. É um filme melancólico, claustrofóbico, intimista. Uma grande pedida para quem busca filmes provocadores.
sábado, 15 de junho de 2019
Ray e Liz
"Ray and Liz", de Richard Billingham (2018)
Em 1997, uma exposição fotográfica chamada "Sensation" exposta na The Royal Academy of Art em Londres chamou a atenção do mundo: fotos de um casal decadente, o homem alcóolatra e desdentado e uma mulher obesa e toda tatuada, em momentos de pura degradação humana. As fotos foram tiradas em um apartamento de classe média baixa, em um prédio de periferia durante o Governo Tatcher. Descobriu-se depois que o casal eram os pais do fotógrafo, Richard Billingham. No ano anterior, ele já havia lançado um livro de fotos chamado "Ray's a laugh", onde expunha fotos do cotidiano de seus pais. Essa foi a forma que Billingham conseguiu exorcizar a sua difícil relação com seus pais, e que agora ele próprio complementa com o seu filme de estréia. Intitulado "Ray e Liz", nome de seus pais, acompanhamos 3 fases distintas na vida do casal: anos 80, anos 90 e anos 200, já no fim da vida. Richard, nos anos 80, então com 10 anos, morava com seu irmão pequeno Jason em péssimas condições de higiene. Seus pais eram negiigentes e passavam o dia todo bebendo. Quando Jason é esquecido do lado de fora de casa, quase morrendo de frio, a assistência social resolveu tirá-lo da guarda dos pais e entregá-lo a pais adotivos. Richard permaneceu morando com os pais, e sua vida foi eternamente marcada por uma vida de depressão e pobreza.
Dramaturgicamente o roteiro parece ter sido extraído de filmes de Ken Loach e Mike Leigh, mas esteticamente, se diferencia bastante. A rotina da classe desempregada da era Tatcher, às voltas com fome e alcoolismo, é apresentada com extremo rigor narrativo. Planos fixos ou com movimentos lentos de travellings, com uma estilização na fotografia que não vemos nos filmes de Ken Loach, mas afeito ao olhar documental. Os atores estão todos excelentes. É um filme barra pesada, difícil de ser visto não pelo ritmo extremamente lento da narrativa, mas pelas cenas fortes e escatológicas. Uma pedrada.
O filme ganho quase 20 prêmios internacionais em Importantes Festivais, incluindo Locarno e BFI.
sexta-feira, 14 de junho de 2019
Amarrados para o perigo
"Strapped for danger", de Richard Griffin (2017)
Comédia trash LGBTQ+, repleta de erotismo e nudez explícita. Richard Griffin, diretor, editor e produtor do filme, já ganhou dezenas de prêmios em sua filmografia, baseada em filmes B de horror e comédias Lgbtq+, tudo dentro do universo trash. Em "Amarrados para o perigo", ele conta a história de 3 amigos: o casal gay Joey e Matt e o hetero Chuck. Os 3 trabalham como Streapers de um club gay. Cansados da dura rotina, eles resolvem assaltar a clientela e roubar todo o dinheiro da casa. Durante a fuga, eles são encurralados por uma policial homofóbica. Eles sequestram o parceiro da policial, que vira refém. O grupo foge até uma fraternidade universitária masculina. Lá, eles transam com todos os alunos, ao mesmo tempo que tentam descobrir uma forma de fugir da polícia.
Impossível não rir de tantas cenas verdadeiramente toscas do filme. Abusando da caricatura gay, mas voltadas para um público Lgbtq+, o filme usa e abusa de closes de genitálias, e sacaneia o feminismo, o machismo, as drag queens, os musicais e tudo o mais que envolve o universo gay. Tecnicamente amador, e com uma deliciosa trilha sonora que evoca os sintetizadores dos anos 80, o filme tem um elenco formado por péssimos atores, mas por isso mesmo, divertidos e totalmente dentro da proposta do filme.
Matar Jesus
"Matar a Jesus", de Laura Mora Ortega (2017)
Co-escrita e dirigida pela Cineasta colombiana Laura Mora Ortega, "Matar Jesus" ganhou mais de 18 prêmios importantes em renomados Festivais.
O filme é um relato da rotina de violência em Medellin, capital da Colômbia. Uma história como outra qualquer, que acontece a cada minuto em um País da América Latina. Paula ( a ótima Natasha Jaramillo) é uma jovem estudante de Artes. Seu pai é um professor de universidade pública de ciências sociais. Ao voltar para casa com seu pai, ele é assassinado na rua com um tiro. Paula consegue enxergar o assassino na garupa de uma moto. Desconsolada pela forma como a polícia atua no caso de seu pai, Paula resolve sair em busca de vingança. Uma noite, na balada com amigos, ela reconhece o assassino. Se aproximando dele, ela descobre o nome dele, Jesus. Aos poucos, ela vai invadindo a intimidade dele, e descobre que ele também é vítima de violência. O inevitável acontece: ela se afeiçoa a ele.
Bem dirigido e com uma câmera documental que vai atrás dos personagens. "Matar Jesus" tem um título dúbio que fala sobre a perda da inocência em todos os sentidos. Sem um desfecho conclusivo, o que poderá irritar muitos espectadores, o filme procura apresentar um flash de violência em uma grande Metrópole, ciente de que não existe solução a longo prazo, diante da total apatia d Governo.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
Fora de série
"Booksmart", de Olivia Wilde (2019)
A atriz Olivia Wilde estréia na direção com essa comédia dramática premiada em San Francisco e Palm Spings. O filme tem um roteiro já visto diversas vezes em comédias americanas inconsequentes, como na franquia 'Se beber não case", "Finalmente 18", "Projeto X", Superbad" e tantos outros similares. A diferença, é que nesse filme produzido pelo ator Will Ferrel, o foco é no ponto de vista feminino. Dirigido, escrito e protagonizado por mulheres, "Fora de série" destaca a adolescência inconsequente e mais do que isso, fala sobre o tema do desapego e o fim da inocência.
Molly e Amy ( as ótimas Beanie Feldstein e Kaitlyn Dever) são cdf e dedicam seu tempo aos estudos. Ao descobrirem que outros colegas que elas consideravam vagabundos também passaram para importantes faculdades, elas decidem ir a uma festa para, pela primeira vez, aproveitarem a vida como elas nunca fizeram antes. Amy saiu do armário há pouco tempo, e Molly morre de ciúmes da amizade de Amy. Juntas, elas tentam descobrir o endereço da festa, mas até chagarem lá, passarão por muitos percalços em uma noite muito azarada e repleta de descobertas.
O que difere esse filme de todos os outros citados, é o tratamento dado a ele, com uma narrativa mais autoral e independente. Os diálogos são espertos e o filme ainda flerta com o universo Lgbtq+ e as diferenças, representadas através da gordofobia, bullying contra latinos e a melhor de todas as piadas, o desemprego: o reitor da escola trabalha de noite como motorista de Uber para aumentar sua renda.
Bem vindo de volta
"Bem vindo de volta", de Lucas Vasconcelos (2018)
Curta de estréia do roteirista e Cineasta Lucas Vasconcelos, "Bem vindo de volta" poderia também se chamar de "Crônica de uma morte anunciada", em um País como o Brasil onde a cada duas horas, uma mulher é morta, segundo pesquisas. A maioria dessas mortes é causada por ciúmes ou suspeitas de traição. Luiza
(Giulia Buscacio) e Felipe (Victor Thiré) formam um jovem casal de classe média alta. Alegres, apaixonados. Um dia, porém, Luiza resolve terminar o relacionamento. Inconformado, Felipe vai na rede social de Luiza e encontra evidências de que ela está saindo com alguém. Felipe pega a sua arma e resolve ir tomar satisfações.
Lucas busca referências estilísticas em clássicos do cinema de suspense psicológico, protagonizados por sociopatas, como "Psicopata americano" e "Seven". Com uma fotografia hperrealista e uma montagem frenética, o filme traz elementos de horror, para intensificar o desespero emocional dos protagonistas. Bom trabalho dos atores e um desfecho curioso, que justifica o título do filme.
Fado tropical
"Fado Tropical", de Cavi Borges (2019)
O que o Cineasta independente Cavi Borges e a cantora Madonna têm em comum? Em termos cinematográficos, pouco, mas musicalmente, tudo. Ambos buscaram recentemente inspiração musical em Portugal, através das variações globalizadas e estilísticas que vão do Fado, ao rap, ao samba, ao funk, à Batukada. Produzido pela Cavideo e pela JCaetano, "Fado Tropical" é o filme mais emotivo da premiada produtora carioca, falando diretamente ao coração e aos ouvidos.
Isabel (Patrícia Niedermeier) é uma cineasta independente brasileira, que se encontra em Lisboa com o seu produtor interpretado pelo também Cineasta Felipe Bond. Apresentando seu novo filme no Festin, Festival de Cinema independente Brasil Portugal, ela reencontra o seu irmão Antonio (Jorge Caetano). Há anos, ele de mudou com o pai para Lisboa, diante do desejo do pai de morrer no País aonde nasceu. Antonio é cantor, mas atualmente trabalha como produtor musical. Isabel sofreu com a partida do irmão, e por isso, a sua relação com ele ficou estremecida. Com a morte do pai, e o desejo de ter suas cinzas jogadas por ambos os filhos em vários pontos de Lisboa. Isabel e Antonio reaprendem a se reconectar, ao mesmo tempo que fantasmas de um passado tortuoso e controverso, que fala sobre um Amor incondicional e além das convenções entre os irmãos, parece querer retornar.
Terceiro e último filme da trilogia da Viagem, elaborado pela dupla Cavi Borges e Patrícia Niedermeier, enquanto rodavam países e estados brasileiros durante temporadas de Festivais e Workshops, foi iniciada em 2017 com "Salto no vazio" e depois em 2019 com 'Reviver". Os 2 primeiros filmes possuem uma narrativa mais experimental e poética, enquanto que "Fado tropical" fala sobre memória e sobre Saudade, a tal da palavra portuguesa que não encontra tradução em outras línguas. O roteiro, escrito a 4 mãos por Patrícia Niedermeier e Jorge Caetano, recorre ao elemento mais utilizado pelo gênero Road movie: antagonistas que precisam aprender a lidar com as diferenças e aprenderem a olhar para a frente. E essa trama é realizada com muita dignidade, com sentimentos aflorados que em momento algum, apostam no melodrama barato. É possível encontrar referências cinematográficas em 2 filmes de Walter Salles, acredito que até inconscientemente: "Terra estrangeira", clássico que fala sobre a falta de identidade entre ser brasileiro ou português, e "Diários de motocicleta", com a famosa cena final, com lindos portraits de pessoas anônimas, e aqui, representada por uma família portuguesa em um restaurante.
Belamente fotografado, e com uma ficha técnica musical de primeira qualidade, com trilha composta por Rodrigo Marçal e edição de som do craque Bernardo Uzeda, "Fado Tropical" é um filme necessário, um grito de resistência Cultural, realizado com garra e incentivos próprios, que deixa claro o seu amor ao Cinema através de uma cena filmada dentro da Cinemateca portuguesa, onde os 2 irmãos conversam: ao fundo, temos um livro de capa dura intitulado "O Cinema não morreu". Depender desses realizadores, jamais.
Dor e Glória
“Dolor y Gloria”, de Pedro Almodóvar (2019)
Premiado em Cannes 2019 com a Palma de Ouro de melhor ator para Antonio Banderas, "Dor e Glória"encerra a trilogia do Desejo, iniciada com "A lei do desejo" em 1987 e em seguida, por "Má educação", em 2004. Os 3 filmes são autobiográficos, se envolvem no ambiente do cinema e trazem um realizador de cinema em crise existencial e criativa, trazendo seu passado e seus fantasmas à tona. "Dor e Glória" é o "Amarcord" e "8 1/2"de Almodovar, um retrato comovente e cativante de um Cineasta apaixonado pela sua profissão. Aqui, Almodovar exorciza a figura de sua mãe, belamente interpretadas por Penelope Cruz e depois, por Julieta Serrano; fala de sua relação conturbada com Antonio Banderas, aqui representado por Leonardo Sbaraglia; a sua infância e descoberta dos desejos homossexuais, através da performance encantadora do menino Asier Flores, responsável por uma das cenas mais lindas do filme, que é ele desmaiando vendo um pintor totalmente nu; fala de suas doenças crônicas e de como elas o impediram por um tempo de continuar filmando, e o seu envolvimento com drogas. O que é real ou fictício no filme, cabe ao espectador tentar descobrir. Almodovar joga muitas pistas, muitas bastante corajosas, abrindo seu baú emocional e seu coração para todo o mundo. Os seus eternos colaboradores continuam firmes e fortes: o fotógrafo José Luis Alcaine, o compositor Alberto Iglesias. O filme reserva pouquíssimos momentos de humor, focando na angústia e na frustração de um Artista que parou de criar. Tem uma frase que o Cineasta de Antonio Banderas, Salvador, diz a um Ator, que resume bastante o cinema de Almodovar: "Eu não quero um Ator que faça chorar. Eu quero um Ator que contenha as suas lágrimas."
Particularmente, continuo preferindo "Tudo sobre minha mãe" como meu Almodovar preferido. Mas definitivamente, 'Dor e Glória"está entre seus melhores trabalhos.
Um homem fiel
“L'homme fidèle”, de Louis Garrel (2018)
Ninguém tem dúvidas de que Louis Garrel é dos melhores atores franceses de sua geração, filho de um grande Cineasta, Philipe Garrel, de onde veio sua paixão Cinefila. Agora em seu segundo longa, depois do divertido “Dois amigos”, Garrel novamente volta ao tema do triângulo amoroso. Dessa vez, ele convidou para escrever o roteiro Jean Claude Carriere, um mito do Cinema de Bunuel a Godard, passando por todos os importantes cineastas europeus dos anos 60 aos dias de hoje. Garrel trouxe um olhar de Nouvelle Vague ao filme, com um tratamento estético e temático que muito se assemelha a vários clássicos dos anos 60. Rodado em 35 mim, Garrel também interpreta o protagonista Abel. Ele mora com Marianne ( Laetitia Costa, radiante), que mais tarde, ele descobre ter traído ele com Paul, seu melhor amigo é pior, grávida do amigo. 9 anos de passam e Paul morreu. Viúva, Marianne se reaproxima de Abel, que sempre a amou. Só que agora existem 2 obstáculos: o ciumento filho de Marianne, Joseph, que diz a Abel que seu pai foi assasinado por envenenamento pela mãe, e Eve (Lily Depp, filha de Jonnhy Depp com Vanessa Paradis”, irmã de Paul e que sempre foi apaixonada por Abel.
Nessa confusão de paixões e traições, Garrel evoca o humor sofisticado de Woody Allen, em cenas bem orquestradas com ótimas performances de todo o elenco. Enxuto, com 75 minutos, é um filme charmoso, com linda trilha sonora e fotografia.
Os dois filhos de Joseph
“Deux fils”, de Félix Moati (2018)
O Cineasta Félix Moati também é ator e interpretou um dos personagem do sucesso “Um banho de vida”. Agora, ele escreve o roteiro de “ Os dois filhos de Joseph”, um filme onde ele quer discorrer sobre a masculinidade dentro de uma família formada apenas por homens: pai, Joseph ( Benoit Poolvedore” e seus dois filhos, Ivan, de 13 anos, e Joaquim ( Vicente Lacoste, um dos jovens atores mais prolíficos da França atualmente).
A família se dá muito bem. O pai é médico, Joaquim um brilhante estudante de psicologia e Ivan os vê como um espelho. Mas quando o irmão de seu pai morre, Joseph perde o rumo e desiste de ser médico, se voltando para a escrita, seu grande sonho. Joaquim por outro lado, vai se tornando relapso e péssimo estudante. Fora isso, os dois irmãos estão as voltas com desejos e paixões de um
Primeiro amor.
Comédia dramática mais puxada pro drama, com fotografia bastante escura e um tom narrativo mais sóbrio. O filme carece de ritmo, e o roteiro perde o foco ao querer narrar as histórias dos três homens e suas relações com varios personagens paralelos. Apesar dos três bons atores, o filme não decola. Faltou se apaixonar mais pelos personagens, fundamental para quem quer falar sobre “loosers”.
terça-feira, 11 de junho de 2019
The Mustang
"The Mustang", de Laure de Clermont-Tonnerre (2019)
Drama independente americano, dirigido pela atriz francesa Laure de Clermont-Tonnerre, e vencedor de um prêmio especial em Sundance 2019.
Tomando como base o programa de reabilitação de prisioneiros perigosos, que são obrigados a treinar cavalos selvagens, os Mustangs", como forma de treinar o psicológico e a reabilitação em sociedade, o filme conta a história de Roman (Matthias Schoenaerts), um homem violento e temperamental que recebeu pena de 12 anos por ter batido na sua ex-companheira, que ficou com traumas físicos sérios. Roman evita qualquer contato com pessoas, evitando inclusive sua filha adolescente Martha, que o visita para pedir para que ele assine uma carta de emancipação. Ao receber a missão de treinar o mais selvagem dos mustangs, ao qual ele apelida e Marquês, Roman vai entendendo o paralelo da vida desse animal e a sua própria vida: arredio, anti-social, violento e intempestivo.
Seguindo a tradição do sub-gênero americano que se utiliza de cavalos para falar sobre virada de personagens, através do convívio e aceitação de sua fraquezas e virtudes, "The mustang" é um filme muito bem dirigido, com atuação exemplar do ótimo Matthias Schoenaerts, e também de Bruce Dern. Tecnicamente o filme é impecável, principalmente na fotografia e na edição. O desfecho é emocionante e mesmo caminhando para um melodrama, vale pelo trabalho do elenco.
segunda-feira, 10 de junho de 2019
Mapplethorpe
"Mapplethorpe", de Ondi Timoner (2018)
A cineasta independente americana Ondi Timoner foi, por 2 vezes, Ganhadora do Sundance por dois de seus documentários, tendo ganho o Grande Prêmio do Juri. Em 2018, ela lançou a sua cinebiografia do Artista plástico e fotógrafo americano Robert Mapplethorpe, morto aos 42 anos de idade em 9 de março de 1989, em decorrência do HIV.
Nascido no Queens, e tendo estudado Artes Plásticas, no final dos anos 60 Mapplethorpe conheceu a poetisa e cantora Patti Smith. Moraram juntos e criaram parcerias artísticas. Ao se assumir gay e revelar casos com outros homens, Mapplethorpe se afasta de Patti. ele conhece vários amantes, assistentes, empresários que acabaram levantando exposições que expusessem suas fotos explícitas de sexo e nudez para um público seleto que começou a venerar as fotos. No limite da Pornografia e Arte, as fotos enfrentaram resistência e galeristas, público, mas adquirindo um status de cult entre celebridades. Mapphetorpe, já no auge, contraiu HIV vindo a falecer. Toda sua obra foi doada pela fundação para a Getty Research Institute, com trabalhos indo dos anos 1970 até 1989. Até hoje, mais de 50 milhões de dólares foram arrecadados para pesquisa de apoio ao HIV.
Assim como o filme "Linda Lovelace", "Mapplethorpe" sofre com a extrema caretice da narrativa. Linda Lovelace ficou famoso pelos seus filmes pornôs e pela famosa cena de sexo oral, no filme "Garganta profunda". O filme ficou pudico, nem mesmo nudez teve. "Mapplethorpe "até tem algumas cenas de nudez, mas as cenas de relacionamento, sessões de fotografia provavelmente foram pensadas para atingir um grande público.
O filme ficou chato, arrastado, os personagens sem carisma, tudo muito burocrático. A essência da vanguarda artística e polêmica passou longe, para um público cinéfilo que vai em busca de algo mais avassalador.
domingo, 9 de junho de 2019
Vil romance
"Vil Romance", de José Campusano (2008)
Há tempos eu não via um filme argentino tão ruim como esse "Vil romance". escrito e dirigido por José Campusano, o filme conseguiu a façanha de ser exibido em diversos Festivais, incluindo o importante Festival de Mar del Plata. Roteiro ruim, atores amadores, edição fraca, direção atirando para todos os lados. O filme não se decide em relação ao gênero: quer ser drama, quer ser humor negro, quer ser policial. "Vil Romance" é um filme LGBTQ+ que fala sobre um relacionamento tóxico. Raul é um adolescente de família classe média baixa. Ele trabalha como mecânico em uma oficina, e passa suas noites em busca de sexo com outros homens em bares e ruas. Sua mãe e sua irmã igualmente procuram homens para saciar desejos sexuais em casa. Um dia Raul conhece Roberto na rua: um homem mais velho, e que trata Raul como um objeto sexual: o estupra, o violenta, pratica atos masoquistas. Raul gosta dessa relação e cada vez mais procura por Roberto. Um dia, ele conhece um espanhol, que se apaixona por Raul. Roberto quando fica sabendo da existência desse espanhol, resolve se vingar.
O filme contém cenas de sexo explícito, e algumas doses involuntárias de humor. Ri bastante com a tosquice do filme, e essa é a única forma de se assistir ao filme do início ao fim. Esse é a da turma do quanto pior melhor. Vale assistir com amigos e se divertir. Os atores são fraquíssimos, e por isso mesmo, um grande barato.
Ma
"Ma", de Tate Taylor (2019)
Um filme de suspense com Octavia Spencer interpretando uma psicopata serial killer? Essa ideia sensacional é o que salva esse projeto: Octavia engole todo mundo no filme, tanto o jovem elenco de desconhecidos, quanto o veterano Luke Evans, o Gaston de "A Bela e a fera". Juliette Lewis, que nos anos 90 já foi ninfeta de tantos filmes cults, agora interpreta uma mãe à la Winona Ryder em 'Stranger Things": solteira, independente e bastante mandona e defensora de sua filhota, a tímida e insegura Maggie. Ela e sua mãe se mudam para uma pequena cidade, onde Erica (Lewis) conseguiu um emprego em um cassino. Lá, Maggie se torna amiga de um grupo de 4 amigos: Haley, Andy, Chaz e Daryll. O grupo decide comprar bebida alcóolica para uma festinha, mas como são menores de idade, pedem ajuda à uma desconhecida, Sue Ann (Spencer) para comprar. Logo, ela se torna amiga deles e os convida para fazerem festinha no porão de sua casa.
Com um roteiro esperto, remetendo aos filmes de psicopatas dos anos 80 e 90, o Cineasta Tate Taylor, que também é ator e aqui faz uma ponta como um policial, diverte a platéia com um punhado de clichês do gênero, mas que funciona a contento, muito por conta do talento de Octavia, que dá credibilidade à uma personagem que faz tudo para se vingar de um fantasma do seu passado.
sábado, 8 de junho de 2019
Atentado ao Hotel Taj Mahal
"Hotel Mmbai", de Anthony Maras (2018)
Co-escrito e dirigido por Anthony Maras, "Atentado ao Hotel Taj Mahal" reproduz a história real do dia 26 de novembro de 2008, quando um grupo islâmico terrorista formado por 10 homens provocou inúmeros atentados em Mumbai, maior capital da Índia. Entre os atentados, estavam a rodoviária, um café frequentado por turistas e o Luxuoso Hotel Taj Mahal, point de milionários, artistas e celebridades e considerado um dos hotéis mais caros do mundo.
Ali, morreram mais de 100 pessoas, entre hóspedes e funcionários. O filme faz uma homenagem aos funcionários, que dedicaram suas vidas para salvar os hóspedes, e cujo lema do Hotel é : "Hóspede é Deus".
Entre os que estão no Hotel e que lutam pela sobrevivência, estão o garçon Arjun (Dev Patel) e o americano David (Armie Hammer), casado com Zahra e acompanhado da babá Sally e seu bebê. Quando os ataques começam no Hotel, o grupo acaba se separando, e precisam se reencontrar para poderem fugir juntos com vida.
O filme é violento e brutal, e não poupa esforços para mostrar a violência que aconteceu no Hotel. Logo de cara, os terroristas chacinam todos que estavam no Lobby, dando tiros na cabeça, sem trégua. Os assassinos são apresentados como máquinas de fúria, guiados pela religião e por um Mentor. Entende-se que eles matam os turistas como forma de protestar contra o "roubo" das riquezas do País.
A direção de Anthony Maras é dinâmica e mostra bastante agilidade nas cenas de ação. O filme só poderia ser pelo menos 20 minutos menor.
Graças a Deus
"Grâce à Dieu ", de François Ozon (2018)
É impressionante o ecletismo de Ozon, que alterna dramas com comédias, musicais, sátiras, fantasias e agora, um denso drama que reconstitui uma história real ainda em julgamento: um grupo de vítimas masculinos que entraram com um processo contra o Padre francês Bernard Preynat, que atuou em diversos lugares, como França, Irlanda, Portugal, etc.
Alexandre (Melvil Poupaud), François (Denis Ménochet) e Emmanuel (Swann Arlaud) foram vítimas do Padre quando eram escoteiros mirins mos acampamentos da Igreja liderados pelo Padre. Abusados sexualmente, eles foram calados pelos pais na época ou tiveram suas denúncias enterradas pelo Alto escalão da Igreja. 30 anos depois, Alexandre descobre que o Padre voltou a trabalhar na Igreja de Lyon e lecionar catecismo com crianças, e resolve ir atrás para exorcizar seus fantasmas do passado. Outras vítimas se unem para impedir que o Padre trabalhe e que seja excomungado e levado ao tribunal, mas enfrentam resistências da Igreja.
O filme aborda em quase 140 minutos a vida desses 3 homens, brilhantemente interpretados , além de todo o numeroso elenco. Cada personagem se relaciona com os pais, filhos, espoas, e de que forma o abuso transformou suas vidas e a dos familiares. O Ator Bernard Verley tem a difícil missão de dar vida ao Padre Preynat, sem torná-lo uma caricatura de vilão. O filme ganhou o Urso de Prata em Berlin, concedido pelo Juri.
Um filme corajoso e ousado, que não teve medo de filmar cenas com crianças e que com certeza, permanecerá na mente dos espectadores por um bom tempo.
O pior de tudo, é descobrirmos o motivo do filme se chamar "Graças a Deus". Revoltante.
Boas intenções
"Les bonnes intentions", de Gilles Legrand (2018)
Comédia dramática francesa co-escrita e dirigida por Gilles Legrand, é um sub-gênero que merece classificação própria: professor que chega para dar aula a uma turma de alunos desajustados e que, com o tempo, dedicando amor e atenção, consegue transformar a todos, incluindo a si próprio.
Você já assistiu a esse filme mil vezes. Aqui, a diferença é que o tema principal é o humanismo e o tratamento feito pelos franceses aos refugiados e estrangeiros.
Brincando com todos os clichês sobre estrangeiros, incluindo negros, asiáticos, judeus, etc, o filme tem uma excelente protagonista, Isabelle (Agnès Jaoui, ótima), uma professora de francês que dedica o seu tempo aos refugiados e acaba esquecendo seus 2 filhos adolescentes e e marido. A turma que Isabelle está dando aula é formado por adultos estrangeiros, que precisam aprender a língua para poderem trabalhar no País. O filme bota em pauta várias questões humanitárias, embaladas por drama e humor e uma protagonista altruísta que acredita estar fazendo bem aos outros, mas esquecendo dos seus próprios familiares.
Com ótimos atores no elenco, o filme diverte e emociona, e na área da comédia, reveza um humor refinado com uma comédia quase beirando o pastelão, mas com bons resultados.
Pássaros de verão
"Pájaros de verano", de Cristina Gallego e Ciro Guerra (2018)
Em 2016, o cineasta Colombiano Ciro Guerra ficou mundialmente famoso ao ter o excelente "O abraço da serpente" como um dos finalistas para o Oscar de filme estrangeiro. Agora, dirigindo junto de sua esposa, Cristina Gallego, Ciro Guerra conta a história do surgimento do tráfico na Colômbia dos anos 60 a 80 através da saga de 2 famílias indígenas, uma delas, os wayúus, um povo indígena que vive da região de Guajira.
Rapayet saiu de sua aldeia wayuú e foi mora na cidade de Medellin. Quando resolve retornar, quer pedir a mão de Zaida em casamento, mas a mãe dela, Ursula, exige que Rapayet siga os preceitos e tradições da cultura de sua tribo. pois alega que Rapayet passou muito tempo fora e perdeu a ancestralidade. Necessitado de dinheiro, Rapayet conta com a ajuda do amigo Moisés, um alijuna ( que não é indígena). Moisés diz que o País está sendo visitado por americanos hippies que querem consumir maconha. Os dois amigos resolvem ir buscar maconha com uma família que planta maconha. A partir daí, Rapayet torna-se fornecedor de maconha para os americanos. Ursula pressente que algo de ruim irá acontecer com a família, mas ela mesma decide entrar no tráfico.
Com excelente direção e um roteiro que lembra a ascenção e derrocada da família Corleone de "O Poderoso Chefão", "Pássaros de verão" é um curioso estudo antropológico que reveste uma trama mafiosa de sangue e violência, onde traições são pagas com sangue . O elenco mistura atores profissionais e amadores, com grande acerto, como já haviam feito no filme anterior. É um filme violento, e que ganhou diversos prêmios em importantes Festivais.
quinta-feira, 6 de junho de 2019
Não é o Pornógrafo que é perverso..
"It is Not the Pornographer That is Perverse... ", de Bruce La Bruce (2019)
Parafraseando um filme LGBTQ+ cult do Cineasta alemão Rosa von Praunheim, "Não é o homossexual que é perverso, e sim a sociedade em que ele vive", o igualmente contestador e polêmico Bruce la Bruce traz uma antologia de 4 curtas eróticos gays, escalando como protagonistas, modelos da produtora de filmes pornôs Cockyboys.
1) Diabo em Madri- Um diabo surge no cemitério de Madri, tentando seduzir homens que velam os seus entes queridos. Um anjo sedutor surge para salvar a alma desses homens, mas o Diabo o seduz.
2) Über Menschen- Um professor ( o astro Colby Keller) viaja de Buenos AIres para Madri para se suicidar da Ponto de Segovia. O motorista do Uber que o leva até lá, ao perceber as intenções do homem, o convida para uma boa transa, para que ele desista da idéia.
3) Purple Army Faction- Um grupo armado quer evitar a alta população mundial, e para isso, sequestra homens heteros nas ruas com a intenção de torná-los gays. O filme é protagonizado pelo astro pornô francês François Sagat, que já havia sido dirigido por Bruce la Bruce no filme "Um homem no banho".
4_ Cinema sujo- Durante a exibição do filme "Thw Raspberry Reich", de Bruce La Bruce, a platéia se deixa envolver pelos ideais do filme e começam a transar e a praticar uma grande orgia.
Bruce la Brice já realizou clássicos do cinema underground gay, como "The Hustle white", "The raspberry reich", "Otto", "Super 8 1/2". Mas aqui ele perdeu a mão e faz uma paródia pobre de seu filme "The Rasbperry reich", no entanto, sem a mesma força ou militância. Escalando modelos de filmes pornôs sem talento para dramaturgia, La Buce deixa claro as suas reais intenções com o filme: muito sexo explícito e conteúdo em segundo plano.
Godzilla II- Rei dos Monstros
"Godzilla II - King of monsters", de Michael Dougherty (2019)
Sequência do filme de 2014 dirigido por Gareth Edwards e ignorando totalmente a existência do filme de 1998 de Roland Emmerich, "Godzilla II- Rei dos Monstros" traz uma reviravolta na personalidade do monstro radioativo: Godzilla agora é do bem e quer ajudar os humanos a destruírem os Titãs, que são Monstros que querem destruir o planeta. Entre os monstros, está o Rei Ghidorah e Rodan. Mothra, a borboleta gigante, ajuda Godzilla a lutar contra os outros bichanos.
Vera Farmiga e Millie Bobby Brown ( a Eleven de "Stranger Things" são mãe e filha. Emma (Farmiga) é uma cientista que quer descobrir uma forma de controlar os Titãs através de ondas eletromagnéticas. Seu marido se separou dela quando o filho deles moreu durante o ataque de Godzilla em 2014. A família se une quando Emma e sua filha são sequestradas por Jonah, um eco-terrorista que quer controlar os monstros.
Com longos e intermináveis 135 minutos, "Godzilla" poderia ter no mínimo 30 minutos a menos, principalmente na parte que conta a história chata da família de Emma. Essa mania de, em filmes catástrofes, o drama humano virar Divã para reconciliação é uma grande chateação. O que tem de bom no filme claro, são os efeitos e a porradaria. De resto, muito drama familiar enfadonho e um desfecho sem noção que faz chamada para uma continuação totalmente descnecessária.
Homens expostos
"Private dicks- Men exposed", de Thom Powers e Meema Spadola (1999)
Documentário que tem como tema um dos elementos do corpo humano masculino de maior tabu em qualquer lugar aonde ele é comentado: o Pênis.
25 homens de todos os gêneros ( hetero, gay, trans), raças
(latino, brancos, asiáticos, negros) e idades entre 17 a 70 anos comentam sobre a sua própria experiência com o seu pênis: tamanhos, doenças, vergonha, exposição em público, masturbação, libido, paralisia, enfim, todos os assuntos abordados e relacionados ao pênis são questionados e respondidos pelos entrevistados, em grande maioria, nús em pêlo, com nu frontal.
A idéia do documentário é desmistificar a imagem do pênis para o grande público: homens conversam espontaneamente enquanto surgem nus. Os diretores querem que o espectador veja o órgão sexual masculino sem er que desviar o olhar e se sentirem confortáveis.
O filme poderia ter sido mais divertido, e terem selecionado melhor os depoentes. Mas a ousadia e a coragem dos realizadores é bem vinda, e mesmo irregular, é um grande feito ter sido realizado e apresentado sem censura.
terça-feira, 4 de junho de 2019
Domino
"Domino", de Brian de Palma (2019)
Com um Elenco All Star, que vai dos atores de "Game of Thrones" Nikolaj Coster-Waldau (Jaime Lennister) e Carice van Houten (Melisandre) a Guy Pierce, o Cineasta Brian de Palma retoma a direção de filmes desde "Passion", seu filme de 2012.
Todos os estilos narrativos e técnicos de Brian estão aqui: câmera lenta, planos longos e virtuosos, zoom, POV de binóculo, desfecho épico em uma locação repleta de figurantes e trilha sonora excessiva e dramática, composta pelo eterno companheiro Pino Donaggio.
O roteirista Petter Skavlan, do ótimo "Kon Tiki", escreveu um dos piores textos para um filme de de Palma. Tudo na história é ruim e pavoroso, sem nenhuma surpresa, sem nenhuma reviravolta que a gente amava ver nos filmes de Mestre de suspense. A homenagem à Hitchcock continua, com uma referência a "Um corpo que cai" e uma perseguição no telhado. Mas isso é muito pouco, para quem nos presenteou com algumas grandes obras primas do cinema, como 'Carrie", "Um tiro no escuro", "Vestida para matar", "Os intocáveis", "O pagamento final", entre outros.
A trama, mirabolante e confusa, gira em torno de terroristas islâmicos , agentes da CIA, policiais dinamarqueses e touradas em um estádio espanhol.
Nikolaj Coster-Waldau é Christian, um policial dinamarquês que quer vingar a morte de seu colega, um policial casado que tinha como amante a também policial Alex ( Carice). Juntos, formam uma dupla, que descobrem que o responsável pela morte do colega é um terrorista líbio que é cooptado por um agente escroque da CIA, Joe ( Guy Pierce).
Nem dá para falar muito do filme, pois tudo é uma grande tristeza e uma pálida sombra do gênio que de Palma foi. Li que ele próprio rejeitou o filme, acusando os produtores de terem reeditado tudo. Mas com esse roteiro, fica difícil imaginar se ele realmente era melhor.
A cena de uma terrorista massacrando atores, equipes em um festival de cinema parece uma vingança de de Palma por ter sido esnobado pelos grande eventos cinematográficos.
segunda-feira, 3 de junho de 2019
Um filho
"Un fils", de André Gaumond (2011)
Escrito e dirigido por André Gaumond, "Um filho" é um premiado filme canadense, que tem como tema o abuso sexual contra adolescentes.
Frederic, um adolescente, é levado por sua mãe até um Psicólogo, Sebastien. O rapaz vai contra a vontade dele. Aos poucos, o psicólogo quer saber os motivos do rapaz tentar o suicídio. Aos poucos, se revela os maus tratos e violência sexual do padrasto do garoto. Desesperado, Frederic diz ao psicológo que não quer mais voltar para casa.
Com ótimas performances dos dois atores principais, "Um filho" tem bons diálogos e direção firme de André Gaumond. Gaumond se apropria de um tema bastante denso para fazer um alerta à sociedade diante do aumento de caso de estupros contra crianças e adolescentes dentro de suas casas.
domingo, 2 de junho de 2019
Ace
Av
'Ace", de Jordan Gear (2018)
Curta LGBTQ+ independente americano, com uma pegada de Gus Van Sant dos anos 90. Ace é um calouro introvertido, que chega na faculdade e se enturma com outros estudantes. Nesse universo de estudantes tão ecléticos, Ace se interessa por Z, um jovem negro hetero que namora uma das garotas. Durante uma festa, os 2 trocam olhares e flertes, que culmina em uma one night stand. No dia seguinte, Ace fica inseguro sobre os sentimentos que nutre por Z, ao passo que esse se interessa cada vez mais pelo outro rapaz.
Um filme que fala sobre inseguranças acerca da sexualidade, o filme aponta para as incertezas no âmbito do relacionamento. Bem filmado, com uma fotografia e imagem estilizadas, alternando preto e branco e cores, o filme é filmado de forma bastante despojada, quase um documentário com atores amadores.
sábado, 1 de junho de 2019
Dias vazios
"Dias vazios", de Robney Bruno Almeida (2018)
Escrito e dirigido por Robney Bruno Almeida, 'Dias vazios" competiu no Festival de Tiradentes 2019. Longa de estréia do cineasta goiano, o filme se passa na pequena cidade de Silvânia, no interior de Goiás. O filme tem como temas o desencanto da juventude e o suicídio, e como muitos filmes recentes brasileiros, são filmes bastante pessimistas.
Livremente adaptado do livro "Hoje Está um Dia Morto", escrito por André de Leones, o filme se passa em duas épocas distintas e com dois casais separados pelo tempo.
Jean e Fabiana estudam em um colégio católico. Namorados, eles não sabem o que fazer de suas vidas assim que se formarem. Ambos demonstram o desejo de sair da cidade, mas não encontram estímulo para tal. Jean acaba se suicidando com um tiro na cabeça, e Fabiana desaparece. Dois anos depois, Daniel e Ailana estudam no mesmo colégio.Igualmente apáticos, suas vidas espelham a de Jean e Fabiana. Daniel decide escrever um livro sobre Jean e Fabiana, e imagina um final para Fabiana. Aos poucos, a identificação entre os 2 casais vai cada vez mais se aproximando.
Corajoso por tratar do tema do suicídio de forma crua e sem apelações melodramáticas, "Dias vazios" não deve ser visto por pessoas depressivas. Um alerta contra a apatia dos pais e da sociedade, além da Igreja, fortemente criticada no filme, que nada ou pouco fazem para salvar as vidas de jovens depressivos. Com um ótimo elenco de jovens, preparados por Fátima Toledo, e a participação especial e bastante significativa de Carla Ribas no papel de uma freira, o filme incomoda pelo tema, mas faz vislumbrar um cineasta com domínio de sua narrativa.
A saída do comerciante
"Trademans's exit", de Tom E. Brown (2015)
Escrito, dirigido, protagonizado, editado e produzido por Tom E. Brown, esse curta teve participação em vários Festivais, e é um drama LGBTQ+ que brinca com o universo do Macgyver, aquele detetive que produzia todo tipo de equipamento para resgate e explosivos.
O filme começa com Hank produzindo todo tipo de explosivos e detonadores, e com um semblante nitidamente de quem está irritado com algo. Logo, a verdade de revela.
Singelo mas com boa edição, o filme tem um roteiro esperto, um plot twist curioso.
Primeiro ano
"Première année", de Thomas Lilti. O Cineasta e roteirista francês Thomas Lilti é médico de formação e isso explica porquê todos os seus filmes giram em torno da Medicina. "Hpócrate", "Insubstituível" e agora "Primeiro ano".
Com atuações brilhantes de Vicente Lacoste ( do recente "Amanda") e William Lebghil, "Primeiro ano" tem um tema muito comum aos estudantes brasileiros: a preparação e o stress emocional para o Vestibular. O filme também é uma linda homenagem à amizade, com uma cena final de fazer soltar lágrimas.
Antoine (Lacoste) tenta pela terceira vez passar para Medicina, sem sucesso. Por ser veterano em Vestibular, ele é incumbido da missão de ser o monitor do calouro Benjamin ( Lebghil), que está tentando prova para medicina pela primeira vez. Ambos possuem questões com seus pais: enquanto os pais de Antoine pedem para que ele não se sacrifique tanto, pois os estudos estão deixando ele surtado, o pai de Benjamin, que também é médico, não lhe dá muito crédito, o considerando fraco e sme vocação. À medida que Antoine vai percebendo que Benjamin tem mais chance de passar no vestibular do que ele, a amizade vai degringolando.
Bem dirigido, com um roteiro bastante eficiente, apesar de muito verborrágico, o filme acompanha todas as fases que qualquer estudante já enfrentou. As cenas das provas e dos resultados são muito bem editados, dando um enorme tom de suspense. O filme se permite a uns pequenos toques de humor.
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