terça-feira, 9 de junho de 2020

Basquiat- Downtown 81

"Downtown 81", de Edo Bertoglio (2000) Único filme protagonizado pelo artista plástico Jean Michel Basquiat, "Downtown 81" é um doc ficção que retrata a vida do jovem Basuiat no início dos anos 80. Rodado entre os anos de 1980 a 1981, o filme foi abandonado em meados dos anos 80 por falta de financiamento, sendo recuperado no final dos anos 90, pelo produtor e roteirista do filme, Glenn O'Brien. Reeditado, o filme teve que ser dublado pelo ator Saul Willians, pois Basquiat morreu em 1988 e todo o aúdio foi destruído. O filme teve sua estréia no Festival de Cannes 2000. O filme é um registro histórico e importante da Nova York efervescente do início dos anos 80, quando a cena musical independente apontava para a geração New Wave, de onde surgiram bandas como Blondie. O filme tem registros musicais de Arto Lindsay, Kid Creole e outros da cena nova yorquina. Basquiat interpreta a si mesmo: saindo de um hospital, ele segue para o seu apartamento, mas é expulso pelo locatário pela falta de pagamento do aluguel. Sem ter aonde morar, Basquiat é assediado por um bela modelo, que diz que quer casar e cuidar dele Eles combinam de se encontrar em um clube noturno, mas Basquiat perde o contato e segue de clube em clube atrás da jovem. No final, ele dá de cara com a fada madrinha, interpretada por Debbie Harry, vocalista do Blondie. Com um roteiro bizarro que mistura ficção, documentário, musical e conto de fadas, o filme tem como qualidades justamente essa junção de elementos e um registro da cidade nos bairros menos turísticos, mais da periferia e decadente. As atuações são todas fracas, afinal ninguém ali é ator, mas tá valendo pelo valor histórico.

Baixo centro

"Baixo centro", de Ewerton Bélico e Samuel Marotta (2017) "Baixo centro" venceu a Mostra Aurora do Festival de Tiradentes 2018, e é uma produção de baixíssimo orçamento, rodado nas noites de Belo Horizonte, tanto na capital quanto na periferia. O filme me lembrou em alguns pontos do excelente "Temporada", de André Novais Oliveira. A diferença é que "Temporada" é mais solar, mais diurno, enquanto 'Baixo centro"revela uma Belo Horizonte melancólica, triste e solitária nas noites. Mas em ambos os filmes os personagens lidam com desemprego, violência urbana, tráfico e relacionamentos mal resolvidos. "Baixo entro" tem na sua trilha raps cantados por mulheres e cantos africanos. O filme acompanha vários personagens, entre encontros e desencontros, que não escondem sua apatia, desesperança de uma vida sem rumo. Gu (Renan Rovida) e Luisa (Barbara Colen), Robert (Alexandre de Sena) e Teresa (Cris Moreira) e o fotógrafo Djamba (Marcelo Souza e Silva). O filme traz situações episódicas dos personagens, que perambulam sem perspectiva. "Baixo centro" é um filme político, que faz um alerta sobre a violência contra a população negra, sobre um povo sem assistência e sem encanto para o lugar aonde moram. Um filme triste sobre um País sem cultura, sem educação e sem emprego. Os atores interpretam em registro naturalista, em um filme que lembra um olhar mais documental.

Ingmar Bergman

"Ingmar Bergman", de Stig Björkman (1971) Documentario obrigatório para fãs do diretor sueco e que querem saber mais sobre seus métodos de trabalho, com cenas registradas durante as filmagens de "A hora do amor", de 1971. Bergman dá depoimentos sobre como dirige seus atores e busca a essência deles, além do trabalho como o fotógrafo Sven Nykvist. Em cenas sensacionais e reveladoras do perfeccionismo de Bergman, como por ex, quando ele discute com a atriz Bibi Anderson sobre uma calça que a personagem usa. Tod o elenco e equipe dão depoimentos sobre Bergman e como ele trabalha. Max Von Sydow elogia Bergman e diz que ele dirige dando liberdade aos atores, e deixando claro que ele busca o ritmo de cada personagem, comparando a notas musicais. Com imagens raras mostrando as exigências de Bergman no set, o filme também traz imagens de seus filmes mais famosos, como "Persona", "O sétimo selo", "A paixão de Ana", entre outros. Um prazer e uma descoberta enormes ver Bergman falando sobre o Amor ao cinema e o Amor em fazer cinema. O diretor Stig Björkman dirigiu em 2015 o também xcelente documentário 'Eu sou Ingrid Bergman", obre a grande atriz sueca.

Pazucus: A Ilha do Desarreago

"Pazucus: A Ilha do Desarreago", de Gurcius Gewdner (2017) Muito provável que esse filme do cineasta e roteirista Pazúcus: A Ilha do Desarreago, rodado em Florianópolis pelo diretor Gurcius Gewdner leve o título de pior filme trash do cinema brasileiro, e que isso não sôe como uma crítica, mas sim, um elogio. Se Pazúcus: A Ilha do Desarreago, rodado em Florianópolis pelo diretor Gurcius quiz atormentar seu público com tudo o que o sub-gênero propõe, acertou em tudo: gritarias insuportáveis do elenco, uma extensa duração de quase duas horas numa prova de ousadia do seu diretor , que também é editor e resolveu dar um foda-se pro espectador como se dissesse "Vocês verão o filme que eu quiz fazer , sem interferências de produtor pedindo para diminuir o filme". Os efeitos são os piores possíveis, com facas e machados feios de papel alumínio e isopor, muito cocô fake, vômitos verdes e pretos, um inacreditável tubarão humano e uma infinidade de situações que só vendo para acreditar. Com o incrível feito de ter sido selecionado para Festivais de gênero na Europa e aqui no Brasil, exibido na Mostra de realizadores, que faz apostas na produção independente. A história acontece em dois núcleos distinto que convergem no final: Carlos (Marcel Mars) está sofrendo de constipações fecais e procura o médico dr Roberto ( também Marcel Mars) para falar de seu problema. As fezes no intestino de Carlos promovem uma revolução, querendo dominar a Ilha do desarrego. É para lá que Carlos segue vomitando pelo caminho. Dr Roberto vai em sue encalço para matá-lo. Nessa mesma ilha, acompanhamos o casal Omar ( o diretor Gurcius Gewdner) e sua namorada Oréstia, em busca de paz no relacionamento. Mas a floresta se rebela e eles são possuídos. É possível ver muitas referências ao cinema de terror, como "Evil dead", "O iluminado"( de onde o filme rouba a trilha), "It, a coisa"e mais louco ainda, do cinema marginal brasileiro, como "O rei do cagaço" e "Superoutro", de Edgar Navarro, com suas fezes e excreções proclamadas por um homem que perambula pelas ruas da cidade, vociferando frases e manifestos, além da linguagem de "O bandido da luz vermelha", de Sganzerla. Nesse curioso caso de filme trash udigrudi e experimental, vale tudo, até explorar dezenas de clássicos da disco music, funk, soul e pop na trilha sonora, oriundos dos anos 70, como o grupo Voyage e Fleetwood Mac. As músicas tocam em momentos nada a ver, dando um tom surreal. As animações que abrem e fecham o filme, animadas por Christian Caselli são sensacionais, a melhor coisa do filme. O cineasta e produtor Cavi Borges entrou como co-produtor, ajudando a dar ao filme uma maior visibilidade e levando o cinema trash para um público mais amplo. Achei curioso que o ator Marcel Mars tem a fisionomia do cineasta Carlão Reichembach, misturado ao tipo e narração empostada e exagerada caricata do ex-candidato a presidente Enéas Franco. Fiquei na dúvida se o título do filme é uma brincadeira em cima de "Pax no cú" Link para ver o filme: https://vimeo.com/189240086

A pequena sereia

"Malá morská víla", de Karel Kachyna (1976) A Disney quando lançou a animação "A pequena sereia" em 1989 enganou todo o mundo com aquele final feliz. Assistindo a essa belíssima versão com atores do cinema tcheko, lançada em 1976, eu fiquei chocado com o seu terço final, e no desfecho então, fiquei traumatizado. Fui pesquisar o conto original de Hans Christian Andersen e vi que esse filme é totalmente fiel à escrita do escritor dinamarquês. Fui pesquisar mais a fundo e descobri que Hans escreveu esse conto por causa de um amor não correspondido. Apaixonado por um outro homem, que acabou trocando Hans por uma mulher, com quem se casou. Nessa adaptação, o filme se mistura ao famoso experimentalismo e vanguarda do cinema tcheco, mais uma encenação teatralizada dos cenários, figurinos e maquiagem, amplamente Kitsch. O filme foi rodado na costa litorânea de Kladruby, e em estúdios de Praga. Todo o cenário submarino foi montado no estúdio, e a concepção que o diretor deu é bem curiosa: para dar a sensação de fundo do mar, toda a parte submarina é rodada em camera lenta. O filme tem um visual que lembra muito o filme de Jacques Demy, "Pele de asno". O fundo do mar é totalmente azulado, assim como os figurinos da população marinha. Nessa história, o que difere do filme da Disney é seu final, trágico. Reza a lenda contada pela Bruxa do mar que a pequena sereia, ao tomar a opção, perde a voz e ganha pernas, mas ao colocar os pé sno chão, terá a sensação se estar pisando em pontas de facas e sentir dores homéricas. Quando a sereia pisa na areia, a areia fica com sangue. É uma imagem impressionante e chocante. Outros momentos antológicos: A Pequena serie,a já em forma humana, é obrigada a jantar no castelo do Rei, mas somente servem peixes e ostras, que são amigos da Sereia, que fica chocada, e o fundo do mar, após um naufrágio, com os corpos dos marinheiros mortos. O filme é uma pequena pérola, que provavelmente não trará nenhum atrativo para as novas gerações, que acharão o filme datado e teatral. As canções cantadas pelas sereias são muito lindas, assim como a fotografia.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

O selvagem da motocicleta

"Rumble fish", de Francis Ford Coppola (1983) Adaptação do livro homônimo de S. E. Hinton, publicado em 1975, "O selvagem da motocicleta" se tornou objeto de culto desde o seu lançamento em 1983. Coppola já havia adaptado outro livro do mesmo autor, "Vidas sem rumo", lançado no mesmo ano que "O Selvagem da motocicleta". O filme anterior de Coppola, "Do fundo do coração", custou uma fortuna e deu um mega prejuízo para a sua produtora, a Zoetrope. Coppola resolveu então investir em filmes menores, de baixo orçamento, mais artísticos e com um elenco que estava começando a despontar. A fotografia absolutamente extraordinária e mágica de Stephen H. Burum, fotógrafo de quase todos os filmes de Brian de Palma, é a grande estrela do filme. Com um preto e branco que traz elementos do cinema noir e do Expressionismo alemão, e uma atmosfera de filmes B, com direito a muita fumaça em cena. A trilha sonora é outro ponto cultuado do filme: o baterista do The Police, Stewart Copeland, compôs um arranjo que briga com a cena e por isso mesmo, interessante. Os dois atores principais se tornaram por muito tempo, dois dos maiores galãs de Hollywood: Matt DIllon e Mickey Routke. Donos de um enorme carisma e fotogenia, ambos brilham em cena. Além deles, o elenco prima com a presença dos ícones de Coppola: Diane Lane, Tom Waits, Dennis Hopper e o sobrinho de Coppola ainda estreando, Nicolas Cage, Lawrence Fishburne e Chris Penn. Em uma cidade pequena, Rusty James (Dillon) é um jovem rebelde que sonha um dia ser igual o seu irmão, uma lenda conhecida como "The motorcycvle boy"( Rourke). Rusty mora com seu pai (Dennis Hopper), um alcóolatra. Rusty passa seus dias matando aula, namorando a doce Patty (Diane Lane), cuja irmã pequena é interpretada por Sophia Coppola, filha do diretor. Rusty se junta à sua gangue e nas noitadas vive brigando com outras gangues. Quando seu irmão retorna, Rusty se surpreende que ele agora se tornou uma outra pessoa, mais pacífica. A direção de Coppola procura montar enquadramentos em quadros fixos, alternando com belos travellings. Abusando da grande angular, Coppola investe em experimentação no visual do filme, e para as passagens de tempo, ele inclui planos deslumbrantes de time lapse. O filme é repleto de cenas antológicas, como o vôo do espírito de Rusty, a cena do aquário com os irmãos conversando sobre os peixes de briga, que são os elementos coloridos do filme e um travelling final que percorre todo os personagens do filme.

Alemanha, mãe pálida

"Deutschland bleiche Mutter ", de Helma Sanders-Brahms (1980) Assisti a esse drama alemão há mais de 30 anos atrás e tinha na minha lembrança de que era um filme muito angustiante e triste. Revendo agora, fiquei arrasado com essa metáfora sobre a Alemanha de antes , durante e pós a 2a guerra mundial, na figura de uma mulher comum, mas extraordinária, Helene, protagonizado por uma visceral Eva Mattes, atriz fetiche de vários filmes de Fassbinder. Helena ama, sofre, é estuprada, é mãe, apanha do marido, fica doente, tenta o suicídio. Esse é o retrato da Alemanha, um País que amou o sue povo, sofreu durante e depois da 2a guerra e quer manter o espírito de esperança, apesar da destruição em massa e da baixa auto-estima da população, dilacerada pela fome, desemprego, sme moradia. O filme é todo narrado em off por Hanne, filha de Helena e Hans (Ernst Jacobi), soldado alemão que se apaixona por Helena e se casam. Mas quando Hans volta do front, ele está mudado. Depois de ter matado civis, entre eles, mulheres com o mesmo rosto de Helena, ele perdeu a esperança em tudo e se torna um homem violento. Ao retornar ao front, helena é obrigada a sobreviver com Hanne, em uma Alemanha destruída pelas bombas. O filme tem 150 minutos de duração,e logo no seu prólogo, a filha de Bertolt Brecht lê em offf o poema de onde originou o título do filme. Um filme muito triste, com cenas chocantes, escrito e dirigido por uma mulher e protagonizado por mulheres.

Pavão

"Furiant", de Ondřej Hudeček (2016) Chocado com a qualidade desse curta premiado em Sundance com o prêmio de melhor direção e exibido em dezenas de Festivais mundo afora. E o choque é maior ainda quando descobri que o diretor e roteirista é estudante de cinema na Film and TV School of the Academy of Performing Arts in Prague. O filme é uma cinebiografia do autor e dramaturgo tcheko Ladislav Stroupeznický, criador do teatro moderno na Tchekoslovaquia. O filme, uma comédia de humor negro com referências assumidas ao cinema de Stanley Kubrick e seu "Barry Lyndon", e ao cinema de Lars Von Triers e todas as suas obsessões por narração em off, catalogação, divisão em capítulos e muito sexo e violência. O filme é dividido em 3 capítulos e um epílogo, e vai de 1853 até o final do século XIX. No ò ato, o filme apresenta Ladislav, um menino de família rica, mas um psicopata que tem prazer em torturar e matar animais. Adolescente, Ladislav conhece Jan, um estudante por quem se apaixona e se tornam amantes. Mas o excesso de ciúmes de Ladislav faz com que Jan cometa suicídio na frente de Ladislav, com um tiro. Passado o trauma, durante uma caça, Ladislav acerta o filho do guardião, e acreditando tê-lo matado, Ladislav comete suicídio, dando um tiro em seu queixo, mas ele não morre. Com a mandíbula e o nariz destruídos, e refeitos por cirurgia, Ladislav se dedica ao Teatro moderno de Praga, escrevendo peças que se tornaram famosas e referências até hoje. Com uma fotografia deslumbrante do próprio diretor e atuação primorosa de Ladislav Stroupeznický no papel de Lzdislav adolescente e adulto, o filme prima pela beleza de seus enquadramentos, verdadeiras pinturas.

domingo, 7 de junho de 2020

Piccadilly Pickups

"Piccadilly Pickups", de Amory Peart (2000) Drama LGBTQI+ inglês que reúne um verdadeiro festival de taras, fetiches e perversões reunindo um elenco de jovens atores desconhecidos que dse propõem a fazer cenas de sexo pornô para poder ganhar dinheiro. Produção de mega baixo orçamento, com toda a parte técnica bem tosca: fotografia, trilha sonora, decupagem, direção, e isso é que acaba dando um charme extra para quem gosta de filmes bagaceiros trash repletos de cenas de sexo explicito. Jake e um rapaz de 18 anos que sai de Manchester para Londres em busca de um emprego como rent boy ( garoto de programa) em Picadilly Circus. Só que ao perguntar para um rapaz na rua o endereço de Picadilly circus, ele é convencido pelo jovem de que vai ganhar mais dinheiro fazendo filmes pornôs gays. Ao chegar no lugar da audição, ele descobre que o teste é para um pornô "trannie", com travestis. O filme é um mockmentary, onde um dos atores pornôs, Brad, dá entrevista para um apresentador para falar de sua experiência como rent boy, ator pornô e a relação com drogas. As cenas de audição com vários garotos inexperientes impressiona pelo realismo, a impressão que fica é que eles realmente estão fazendo o teste pela primeira vez, sendo constantemente assediados pelo diretor do teste. O filme é ruim, mas para quem gosta de fetiches, é um verdadeiro clássico do gênero.

1941- Uma guerra muito louca

""1941" de Steven Spielberg (1979) Sempre resisti de assistir a esse filme porquê todo mundo dizia que era muito ruim. Como só faltava esse título para eu fechar a filmografia de Spielberg, resolvi investir. E o filme é uma prova de que , mesmos talentos inquestionáveis, na frente e atrás das câmeras, também erram. É injusto colocar a culpa apenas em Spielberg dessa mega bomba colossal. Spielberg dirigiu; Robert Zemeckis e Bob Gale, que escreveriam anos depois a obra-prima "De volta para o futuro", escreveram o roteiro; John Milius, roteirista de "Apocalipse now", fez a produção executiva. E em todos esses quesitos, o filme falha. No elenco, comediantes reconhecidos como Dan Akroyd, John Belushi (ambos fariam 2 anos depois a obra-prima "Os irmãos cara de pau" e John Candy não têm nenhuma graça. Nancy Allen, grande estrela da época, casada com Brian de Palma ( que se formou na Ucla junto de toda essa galera, além de George Lucas) até hoje deve ter vergonha da sua personagem, uma ninfomaníaca tarada por aviões e que transa com qualquer um que a leve para voar. Spielberg é excelente em filmes de ação e aventura e disso ninguém tem dúvida que ele é Mestre, até mesmo em dramas reconhecidos. Mas a comédia simplesmente não funcionou. Nenhuma piada visual ou dita em falas tem graça. É nítida a impressão de que os efeitos e a megalomania da produção suplantou o roteiro e o trabalho de direção de atores. Tá tudo forçado, nada parece querer fazer sentido em um filme que foi lançado em versões diferentes ( a do estúdio, com 2 horas, e a versão do diretor, com 145 minutos). O filme tem dezenas de sub-plots, muitos personagens mal desenvolvidos, costurados por uma trama até original, mas que não emplaca: depois do ataque de Pearl Harbor, os americanos ficam na paranóia de que os japoneses irão atacar outra cidade litorânea do Estados Unidos. Califórnia fica em polvorosa, e civis e militares se preparam para um iminente ataque. Paralelo, um submarino japonês, pilotado pelo ator Toshiro Mifune, de filmes de Kurosawa, querem chegar de submarino para Hollywood e destruir tudo. Spielberg se auto -parodia no início, quando ele repete os mesmos planos dando a falsa impressão de estarmos vendo 'Tubarão", incluindo a trilha famosa de John Willians. Depois, uma outra referência a "O encurralado". Feito entre "Contatos imediatos do terceiro grau"e "Caçadores da arca perdida", "1941" é uma bola fora de todos e que revisto hoje, é um festival de machismo, sexismo e racismo contra os orientais, numa mega hiper caricatura.

Flor de cacto

""Cactus flower", de Gene Saks (1968) Adaptação da peça teatral de grande sucesso na Broadway, com Lauren Bacall encenando a personagem que Ingrid Bergman faz aqui no filme. Uma comédia de muito brilho, com diálogos inspiradíssimos e hilários e muito vaudeville típicos de teatro e adaptados com muita dinâmica e competência de um elenco triunfal. Além de Ingrid Bergman, o elenco tem Walter Matthau, Jack Weston e a estréia no cinema avassaladora de Goldie Hawn, então com 23 anos, e vencedora do Oscar de atriz coadjuvante pelo papel maravilhoso de uma jovem maluquinha e apaixonada. Ambientada em Nova York, o filme começa com Toni (Hawn) preparando uma carta de despedida para amante, Julian (Matthau). Ao descobrir que ele é casado e em 3 filhos, Toni prepara seu suicídio, mas é salva pelo vizinho, o aspirante a escritor Igor (Rick Lenz). Toni confidencia a Julian que é apaixonada e quer adoraria se casar com ele. Julian resolve então bolar um plano: pede para sua secretária frígida e fria, Stephanie (Bergman) para que se passe por sua esposa, e a apresente para Toni e dizer que estão se divorciando. Mas a farsa se transforme em enorme confusão, quando Stephanie acaba adorando a brincadeira e passa a curtir a noite e as baladas com homens diferentes, mas no fundo, apaixonada por Julian. Hilário do início ao fim, o filme teve uma refilmagem em 2011, "Uma esposa de mentirinha", com um trio também poderoso: Nicole Kidman, Jennifer Anniston e Adam Sandler. Mas "Flor de cacto"tem um charme deliciosos por ter sido realizado durante a contra-cultura, que está presente nas roupas hippies de Toni, na genial trilha sonora de Quincy Jones e na fotografia hiper colorida de Charles Lang. A cena da balada com Ingrid Bergman, Goldie Hawn e Walter Matthau dançando é absolutamente antológica. Impressionante testemunhar o quanto Ingrid Bergman se diverte fazendo comédia, após ter realizado os dramas densos de Rosselini na Itália nos anos 50.

Macbeth- O reinado de sangue

“Macbeth”, de Orson Welles (1948) Após o sucesso de crítica de “A dama de Shanghai”, Orson Welles resolveu investir naquela que seria a primeira versão cinematográfica de “Macbeth, de Willian Shakespeare. Orson Welles estava ensaiando com a sua companhia teatral o texto para ser encenada no Festival Centenário de Utah, quando resolveu procurar Herbert Yates, o dono da Republic Pictures, e convencê-lo a produzir o filme. Herbert estava querendo expandir a linha de seus filmes, que eram basicamente filmes de faroeste e filme B baratos, e investir em filmes mas artísticos, e topou a empreitada, mas deixando claro a Welles que seria um filme de baixo orçamento. Welles tinha fama de estourar todos os orçamentos, e assinou um contrato dizendo que se passasse dos 700 mil dólares do orçamento, ele deveria pagar do seu bolso. O filme foi rodado em 21 dias, totalmente nos estúdios da Republic. Cenários foram aproveitados de outras produções, parte dos figurinos vieram da encenação teatral de Welles. “Macbeth” foi a primeira incursão de Welles na literatura de Shakespeare, completando com “Othello”, que seria sue próximo filme, e depois, “Falstaff”. O maior mérito do filme é a sua poderosa encenação: com uma atmosfera fantasmagórica, um misto de expressionismo alemão com filmes de terror B, repletos de fumaça e de fundo infinito, o filme une as linguagens de teatro e do cinema, através da extraordinária fotografia em preto e branco de Joseph L. Russell ( que filmaria “Psicose” com Hithcock. Welles inscreveu seu filme no Festival de Veneza em 1948, mas ao descobrir que Laurence Olivier inscreveria também “Hamlet”, resolveu tirar o filme do evento. Inclusive Welles queria escalar Vivien Leigh para o papel de Lady Macbeth, mas como Olivier estava filmando “Hamlet”, percebeu que Vivien, que era casada com Olivier, não aceitaria. O papel acabou ficando com Jeanette Nolan, estrando no cinema com um personagem difícil e complexo e ao lado de Welles. Jeanette recebeu muitas críticas pela sua performance. A concepção artística do castelo, toda em pedra em cima de uma montanha, como se fosse uma enorme caverna, é extremamente ousada e visualmente estranha e bela. As 3 bruxas, vistas como elementos místicos, não têm seus rostos revelados, fortalecendo a aura de mistério e tensão na profecia proferida por elas. Outra aula de cinema de Orson Welles, em atuação magnânima, fazendo uso dos diálogos originais de Shakespeare, com sotaque escocês, mas que acabou sendo criticado pelos puristas da obra do escritor inglês.

Um certo verão

“That certain summer”,de Lamont Johnson (1973) Que texto maravilhoso, que sugiro 4 atores montarem numa peça teatral: 2 homens e uma mulher acima de 35 anos, e 1 adolescente. A dica está dada. Com roteiro escrito por Richard Levinson e William Link, “Um certo verão”, de 1972, foi o primeiro telefilme na história da televisão americana a lidar com o tema da homossexualidade de forma honesta e prática, sem usar de estereótipos e caricaturas na composição da história e dos personagens. O filme provocou enorme discussão, e no Brasil foi proibido por 8 anos durante a ditadura. Foi amplamente premiado, ganhando o Globo de Ouro de melhor telefilme, e várias indicações ao Emmy, premiando com muita justiça o jovem ator Scott Jacoby, de 14 anos, com o prêmio de melhor ator revelação, pela sua performance contundente do filho que descobre que o pai é gay. Nick (Jacoby) mora com sua mãe, Janet (Hope Lange), divorciada de seu pai, Doug (Hal Holbrook, indicado ao Oscar pelo filme de Sean Penn, ‘Na natureza selvagem”, em 2008). Nick e sua mãe moram em Los Angeles, e o pai mora em San Francisco. Durante as férias do verão, Nick vai passar a temporada com seu pai. Ao chegar lá, o pai o apresenta a um amigo, Gary (Martin Sheen). Nick fica amigo de Gary, mas durante uma festa, descobre a relação entre seu pai e Gary e fica transtornado, fugindo de casa. Fico impressionado como esse filme lançado há quase 50 anos atrás, traz tanta humanidade aos personagens, escritos com extremo carinho pelos roteiristas, e habilmente dirigidos pelo diretor Lamont Johnson, que colocou muita sutileza e forca narrativa. As belas locações de San Francisco contribuem para dar um ar de solidão no meio de uma grande metrópole. Duas cenas poderosas para os atores: a cena onde Janet confronta Gary, falando da dor do divórcio e de ter perdido o homem que ela tanto ama, com uma frase que jamais esquecerei: “Se você fosse uma mulher, eu saberia como lidar,”. Outra cena, a final, com a conversa franca entre pai e filho, onde ele explica de forma didática mas emocionante para o filho a questão de sua homossexualidade, é de se aplaudir de pé.

sábado, 6 de junho de 2020

7 minutes

"7 minutes", de Ricky Mastro (2020) Drama LGBTQI+ escrito e dirigido pelo brasileiro Ricky Mastro, totalmente rodado em Toulouse, França. Produção de baixo orçamento, o filme é baseado em uma história real. Ricky dirigiu 7 curtas e aqui ele estréia na direção de longas. O filme teve a sua estréia mundial na plataforma de conteúdo Lgbtqi+ de Taiwan, GAGAOOLALA. Jean, um policial de 55 anos, tenta descobrir os motivos da morte de seu filho, Maxime, encontrado em um quarto de hotel enforcado junto de seu namorado, Kevin. Mas a autópsia contradiz a hipótese de suicídio: no sangue, foi encontrado cocaína misturado ao GHB. Maxime faleceu 7 minutos após Kevin. Para entender o mundo no qual seu filho se envolvia, Jean frequenta a boite gay Bisou, e lá conhece Fabien, o host do local. Jean observa um universo totalmente novo para ele, onde drogas, sexo e música eletrônica ditam as regras, até ele se envolver com Fabien e se tornar seu amante, na intenção de vivenciar tudo o que o seu filho viveu e entender a mente e o comportamento dele. Comentários em breve. "

Os boas vidas

"I vitelloni", de Federico Fellini (1953) A primeira grande obra-prima de Fellini, seu terceiro longa, depois de "Mulheres e luzes" e "O Abismo de um sonho", tem um dos finais mais emocionantes da história do cinema. Fellini é muito hábil em terminar os seus filmes com grande melancolia, mas sempre com uma pontinha de esperança. Foi assim em "As noites de Cabíria", "8 1/2", "A estrada da vida", "Amarcord" e tantos outros. Em "Os boas vidas", um dos personagens se despede da cidade e do trem, ele tem um ponto de vista de cada personagem em sua rotina, como se fosse uma despedida de cada um deles. É algo extraordinário e impossível de não soltar lágrimas, ao som de Nino Rota, eterno parceiro de Fellini. Em 1953, o filme recebeu o Leão de prata no Festival de Veneza, e anos depois, 1958, indicado ao Oscar de melhor roteiro. O roteiro, co-escrito por Fellini, traz elementos autobiográficos de sua juventude. Em uma pequena cidade do interior da Itália, cinco amigos na faixa dos 30 anos, desempregados e vivendo sob o teto de suas famílias, curtem as noitadas, mulheres e bebedeiras, sem qualquer compromisso com trabalho. Moraldo (Franco Interlenghi), cuja irmã, Sandra (Leonora Ruffo), engravida do amigo Fausto (Franco Fabrizi), que não quer assumir a paternidade mas é obrigado pela família da jovem a se casar. Alberto (Alberto Sordi) é sustentado pela irmã, que se prostitui. Leopoldo sonha em er sua peça encenada por um grande ator e ser reconhecido. E Riccardo (Riccardo Fellini, irmão de Fellini) não sabe o que quer da vida. Fellini traça com muito humor e bastante melancolia a trajetória desses malandros, que na sua maioria, tentam se aproveitar das pessoas e curtir a vida e a juventude, se recusando a crescer e a se tornarem de fato, adultos. É difícil descrever tantas cenas poéticas e brilhantes do filme, mas destaco a do baile do carnaval, uma delícia, cheia de sub-plots e trazendo histórias para todo o grupo. Outro momento fenomenal 'quando Leopoldo vai até a praia com um ator famoso para ler seu texto, mas entende que as intenções do ator são outras. O elenco está absolutamente fantástico, interpretando os seus "meninos"com muita verdade, sem cair em caricaturas. O público sente que dá vontade de dar um mega puxão de orelha em todos eles, mas ao mesmo tempo, fazer carinho na cabeça deles todos. A grande metáfora de pegar o trem e ir até Roma ou Milão para construir uma vida nova, é uma maravilhosa simbologia do ato de finalmente aceitar que a fase adulta chegou. Obrigatório!!

A dama de Shanghai

"The lady from Shanghai", de Orson Welles (1947) Existem obras-primas e existe "A dama de Shanghai", um dos expoentes máximos do cinema noir americano. O próprio Orson Welles adaptou o livro de Sherwood King, "If I Die Before I Wake". Rodado entre suas outras obras primas, "O estranho" e "Macbeth", "A dama de Shanghai" tem uma das sequências mais inesquecíveis do cinema: a sala de espelhos de um parque de diversões, um trunfo de cinematografia que une o talento dos atores, a direção de Welles, o roteiro e a brilhante fotografia de Charles Lawton Jr., capaz de realizar milagres com a sua câmera, e trazendo espectros do cinema expressionista alemão. O plano onde Elsa (Rita Hayworth) surge somente com os olhos iluminados é fenomenal. A história já é bastante comum a qualquer filme noir, trazendo todos aqueles elementos que já conhecemos: femme fatale, narração em off, assassinatos, traições. Mas Orson Welles dá uma dimensão totalmente renovadora ao gênero, com diálogos mordazes e repletos de duplo sentido, além de filmar em locações externas fora do País, como Acapulco, no México. Normalmente os filmes noir eram filmados com baixo orçamento, mas o filme tem sequências de tirar o fôlego de tão primorosas: além do parque de diversões, tem uma opera chinesa filmada no Chinatown em San Francisco, e um passeio de barco em Acapulco. Orson Welles interpreta o marinheiro Michael O'Hara que salva Elsa de um assalto no Central Park, é convidado por ela para navegar um passeio de barco com ela e o marido dele, o poderoso advogado Bannester (Everett Sloane). Michael conhece também o sócio de Bannester, Grisby (Glenn Anders). Durante a viagem, Michael e Elsa mantém um relacionamento escondido, mas Grisby presencia e propõe um acordo com Michael: que ele o mate para receber um seguro. Um filme obrigatório, uma aula de cinema que deve ser vista por estudantes de cinema e provar que um filme pode valer muito mais do que um curso. Primor de roteiro, decupagem, direção, atuação e fotografia.

Fat girl- Para minha irmã

"Fat girl", de Catherine Breillat (2001) Um dos filmes mais brutais e cruéis que assisti, superando qualquer filme de terror, como por exemplo, "Terrifier", por conta de sua cena final. Ela é aburdamente realista e o susto que o espectador leva, por ser algo que surge do nada, é avassalador. Premiado nos Festivais de Berlim e Cannes, "Fat girl" não deve ser visto por espectadores desavisados: tem gore, violência extrema e cena de estupro infantil. Catherine Breillat é uma diretora que tem em sua filmografia filmes polêmicos e controversos, como "Romance". Muitos críticos e espectadores a atacaram pela violência gratuita, mas a verdade é que o filme foi adquirido pelo prestigiado selo "Criterion", e faz parte do livro "1001 filmes para se ver antes de morrer". É curioso como os europeus não têm problemas com a sexualidade em seus filmes: aqui, cenas de sexo explícito envolvendo menores de idade fizeram o filme ser banido em diversos países, e já houveram casos do filme ser contrabandeado. Breillat teve a idéia do roteiro quando esteve em uma praia e viu uma menina obesa simulando atos sexuais sozinha com um corrimão. A atriz estreante que interpreta Anaïs (Anaïs Reboux), tinha 12 anos na época e simula cenas de sexo, fica nua e enfrenta uma cena violenta. Sua irmã na história é Elena (Roxane Mesquida), 15 anos. Ambas passam um final de semana numa casa de praia no interior. Anais inveja a beleza de sua irmã ( lembra "Bem vindo à casa de bonecas", de Todd Solonz, igualmente cruel). Anais sente ciúmes de Elena porquê ela conhece um belo estudante italiano, por quem se apaixona. O rapaz quer tirar a virgindade de Elena, que resiste até quando pode, mas o desejo se impõe e ela cede, em uma longa cena de mais de meia hora, que vale por si só uma peça de teatro pelos diálogos e performance dos atores, naturalista). As atrizes estão estupendas no filme, esbanjando bastante talento e emoções afloradas de desejo, tesão e muito rancor. O italiano Libero De Rienzo também está ótimo e seu personagem é bastante complexo, alternando sedução, carisma e malandragem. "Fat girl", é um filme que fala sobre bullying, sobre desejos ocultos, sobre desamor. Li numa matéria que a mensagem do filme seria algo tipo 'Cuidado com o que voc6e deseja". E é esse o resultado final.

Mistify: Michael Hutchence

"Mistify: Michael Hutchence", de Richard Lowenstein (2019) No dia 22 de novembro de 1997, o mundo levou um susto quando soube que Michael Hutchence, líder da famosa e bem sucedida banda pop australiana INXS, foi encontrado morto em um quarto de hotel da Austrália, com um cinto preso ao seu pescoço. Imediatamente, os tablóides anunciaram que foi um acidente provocado por asfixia sexual, que é uma perversão onde a pessoa se masturba enquanto tem a sensação de sufocamento. O documentário "Mistify Michael Hutchence", escrito e dirigido pelo amigo e diretor dos clips da banda, Richard Lowenstein, veio para desmistificar e falar a verdadeira causa: depressão. Seguindo uma linha convencional de narra um documentário, Richard alterna uma variada gama de imagens de arquivo de Michael em família, com suas namoradas famosas Kylie Minogue, Helena Cristensen e Paula Yates e com a banda em shows pelo mundo inteiro. Narrado por amigos, familiares, integrantes da banda, agentes e produtores e por Kylie Minogue e Helena Cristensen, o filme traça uma trajetória de ascenção e ostracismo de uma banda que foi criada em 1980 em Sidney e atingiu seu ápice entre 1987 e início dos anos 90. Ap;os um acidente em Copenhague, Dinamarca, quando Michael foi atropelado por um taxista ao ir de bicicleta com Helena para o mercado, a vida começou a piorar para ele. Com o acidente, Michel perdeu parte do paladar e olfato, e iniciou seu processo com medicamentos e barbitúricos. Ao se relacionar com a apresentadora inglesa Paula Yates, tudo piorou mais ainda. Ela se separou do músico Bob Geldolf para ficar com Michael, e teve um filho com ele, Tiger. Uma babá encontrou ópio na casa e isso foi o estopim da derrocada do relacionamento dos dois. Michael foi considerado um dos homens mais sexies do show bizz, e teve amizades com grandes cantores, como Bono Vox, e atores, como Jonnhy Depp. Chegou a se arriscar como ator, em um filme sobre "Frakenstein". Infelizmente, encontrou um fim trágico aos 37 anos de idade.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Os olhos de Cabul

"Les hirondelles de Kaboul ", de Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec (2019) Adaptação do livro “As Andorinhas de Cabul”, de Yasmina Kadra, "Os olhos de Cabul" foi dirigido pelas cineasta francesas Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec. O filme concorreu no Festival de Cannes 2019 na Mostra Um certo olhar e recebeu um prêmio especial. Fiquei arrasado com tanta tragédia dessa animação, um olhar aterrorizante e cruel do Afeganistão de 1998, tomado pelos talibãs e vivendo um período de extremismo religioso e fanatismo que atinge principalmente as mulheres. O filme acompanha dois casais, um jovem, Mohsen e Zunaira, e um mais velho, Atiq e Mussarat. Os jovens são professores, mas impossibilitados de exercer a profissão. Atiq é carcereiro da prisão feminina e sua esposa Mussarat está com doença terminal. Ela salvou Atiq durante um confronto, quando era enfermeira, e desde então ele lhe deve a vida. Mohsen e Zunaira têm um sonho de que o futuro trará liberdade para o povo, e esbanjam felicidade, dentro de quatro paredes. Mss quando Mohsen testemunha uma mulher sendo apedrejada na rua até à morte, ele tem um impulso e também a apedreja. Esse ato impensado trará consequências trágicas para todos. O que mais gostei do filme são os traços da animação, simples mas bastante efetivos. O filme lida com temas pesados como feminicídio, misoginia e supressão da liberdade, O desfecho traz uma leve luz no fim do túnel, mas à custa de muito sangue e mortes.

Muito mais que um crime

“Music box”, de Costa Gavras (1989) Grande vencedor do Leão de Ouro no Festival de Berlin em 1990, “Muito mais que um crime” tem o roteiro escrito por Joe Eszterhas, baseado em sua própria história: Joe descobriu que seu pai foi um criminoso na 2a guerra mundial e rompeu relações com ele. O filme foi indicado a vários Oscar, incluindo melhor atriz, para Jessica Lange, e roteiro. Jessica Lange é Ann Talbot, uma consagrada advogada criminalista em Chicago. Mãe de um filho pequeno, Ann tem um pai amado por todos da família e pelos amigos, o ‘hungaro Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl), que fugiu para os Estados Unidos assim que a guerra acabou, pedindo asilo e consequentemente, conseguindo cidadania. Um dia, Mike recebe em casa um ofício do Governo pedindo cancelamento de sua cidadania americana e extradição para a Hungria, a pedido do próprio país, para responder por crimes de guerra. A família fica chocada e Ann acredita se tratar de um erro de identidade. Ann, a pedido de seu pai, o defende no caso perante o tribunal. Mas diante daquele figura amada, Ann começa a entender que muitos segredos podem ter sido escondidos. Brilhante exercício de dramaturga, com um roteiro instigante que vai deixando o espectador atônito, o filme conta com as performances magistrais de Jessica Lange e do alemão Armin Mueller-Stahl. Costa Gavras como sempre revirando segredos dos túmulos, e como em quase todos os seus filmes, lida com a questão da memória para lidar com o presente e a exorcização de crimes do passado. O roteirista Joe Eszterhas obteve seus maiores sucessos comerciais com “Flashdance”, e “Instinto selvagem”, filmes bem distintos dessa obra tensa e pulsante.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

The specials: heróis invisíveis

"Hors normes", de Olivier Nakache e Éric Toledano (2019) Filme de encerramento do Festival de Cannes 2019. Se tem uma dupla de cineasta franceses que eu mais adoro, além dos irmãos Dardenne, são Olivier e Éric. Todos os filmes que eles dirigiram foram imenso sucesso de bilheteria na França, simplesmente porquê eles falam de histórias que tocam no coração e nos bons sentimentos, com humor, drama e muita emoção. Tem muito crítico chatos que os acusam de abusarem do melodrama, sinceramente, povo chato da porra. "Os intocáveis", "Samba", "Assim segue a vida" são maravilhosos. "The specials" vai além, porquê conta uma puta história real de superação e de amor ao próximo. Bruno (Vincent Cassel) é baseado em Stephane Benhamou, Malik (Reda Kateb) é inspirado em Daoud Tatou, Ambos são conhecidos dos diretores há mais de 25 anos. Bruno, judeu, e Malik , muçulmano, gerenciam uma Ong, juntos pela vida, que cuida de crianças e adolescentes autistas. Os problemas são muitos: algumas fogem, outras são agressivas e violentas. Boa parte é maltratada pela família. Bruno cuida diretamente das crianças, e Malik treina novos cuidadores. Tanto as crianças como os cuidadores fazem um paralelo no filme, são seres humanos que precisam de muita atenção, fazem merda, e precisam constantemente de atenção e carinho. No entanto, a Ong está sob os olhos do governo, que quer desativá-la por falta de alvará. Vincent Cassel e Reda Kateb estão brilhantes, além do restante do elenco, composto por autistas e atores interpretando alguns dos pacientes. As performances são naturalistas, e assim como os Dardenne, a câmera constantemente segue o personagem, em registro documental. É um filme doloroso, comovente e o final é de derrubar em lágrimas.

They reach

"They reach", de Sylas Dall (2020) Escrito e dirigido por Sylas Dall, é uma produção independente que emula vários clássico do terror e do suspense: a série "Stranger things", "Conta comigo", "O exorcista", "Evil dead", "Inovocação do mal", "Anabelle". Quando um filme se apega a tantas referências, pode ser um mal sinal. E infelizmente, é. Ambientado em 1979, a história acompanha a problemática adolescente Jessica, traumatizada pela recente morte de seu irmão. Ao entrar em um antiquário, Jessica encontra um gravador de rolo e resolve levá-lo. Com a ajuda de seu pai, Jessica tenta fazer o aparelho funcionar, mas acaba se cortando.O sangue que jorra no aparelho faz o demônio que estava nele ressurgir. Fatos estranhos começam a ocorrer na cidade, e Jessica conta com a ajuda de seus amigos Sam e Cheddar, uma galera nerd. O filme é tão escrachadamente em cima de 'Stranger things", que copia até os rádios walkie talkies e ainda tem o portal para uma outra dimensão. Os efeitos são toscos, as atuações bem medianas e o roteiro nem se fala. Dá para passar o tempo para quem não exige muita coisa e só quer mesmo literalmente passar o tempo.

Z

“Z”, de Costa Gravas (1969) Quando eu era criança, ouvi falar sobre esse filme e achava curioso um filme se chamar com esse nome, uma letra de um alfabeto. Anos depois, querendo saciar minha curiosidade, fui pesquisar: a letra Z, em grego antigo, significa "ele está vivo". Ou seja, o filme fala sobre esperança em tempos de terror e violência. Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e de edição, tendo sido indicado também para melhor filme, edição e roteiro, o filme ainda levou o Globo de Ouro, Bafta e em Cannes, levou o prêmio do júri de melhor filme e melhor ator para Jean Louis Trintignant. O filme se inspira no assassinato real do deputado grego Grigoris Lambrakis, no ano de 1963, e no, golpe de Estado na Grécia em 1967, feito pelos militares. Por motivos óbvios, Costa Garvas não pôde rodar seu filme na Grécia e acabou rodando na Argélia. O filme se passa em um País indefinido, e apresenta um deputado de esquerda (Yves Montand) sendo morto em uma manifestação. Para a polícia e os militares, ele foi atropelado por puro descuido. Para a justiça e a imprensa, ele foi assassinado. Um repórter investigativo (Jacques Perrin) e um juiz magistrado, (Trintignant) tentam buscar provas e testemunhos que comprovem que o governo e os militares, ajudados perla polícia secreta, estão por trás dos assassinatos de membros da esquerda. Costa Gavras impressiona com o seu domínio de técnica, com excitantes cenas de ação, auxiliados por uma trilha sonora matadora de Mikis Theodorakis e da câmera e fotografia de Raoul Coutard, fotógrafo de Godard, Truffaut e Jacques Demy. O filme possui várias cenas antológicas, como a perseguição de carro a uma testemunha, a sessão de fotos feitas pelo repórter na rua e os depoimentos dos generais. A curiosidade é a estrutura narrativa que Gavras traz aqui, que ele veio repetir em “Missing”: durante meia hora, acompanhamos um protagonista, que logo dá lugar para outro. Obra-prima.

Meus vizinhos são um terror

"The burbs", de Joe Dante (1989) Comédia que parodia filmes de terror, aventura e de suspense, "Meus vizinhos são um terror"é um filme obscuro e esquecido, dirigido pelo cineasta de "Gremlins", "Piranha" e "Grito de horror", e com o casal mais improvável de Hollywood: Tom Hanks e Carrie Fisher, a eterna Princesa Lea. Lançado em 1989, o filme traz elementos dos filmes de Tim Burton, como a sátira à vida dos suburbanos, vistos como pessoas bizarras, estranhas e psicóticas. Mas talvez uma definição mais precisa para o filme fosse que ele é um "Os Goonies" com adultos no elenco, e substituindo a caverna de tesouro pelas ruas do subúrbio. Inclusive Corey Feldman está em ambos os filmes. O filme acompanha 4 vizinhos, Ray (hanks), Mark ( Bruce Dern) e Art ( Rick Ducommun) e Ricky ( Corey Feldman) que suspeitam que uma família viiznha é composta por assassinos e fazem de tudo para provar a teoria deles, mas são desacreditados por suas esposas e polícia. Carrie Fisher interpreta esposa de Ray, Carol. O filme é repleto de piadas de humor negro e de elementos que fazem referências a filmes de terror, como o número 666 de "A profecia". Tem uma sequência que é toda focada em Sergio Leone, com trilha sonora à la Morricone e uma decupagem que sugere duelos de faroeste. Além do excelente elenco de ótimos atores, o filme traz cenas inspiradas e diálogos típicos das comédias dos anos 80, com muitos elementos politicamente incorretos. Muita gente certamente irá estranhar esse filme, pois não é daquelas comédias que se espera de Tom Hanks, que tinha acabado de vir de "Quero ser grande"e de sua primeira indicação ao Oscar de melhor ator. Joe Dante veio do mega sucesso de "Viagem insólita" e depois desse aqui, partiu para a continuação de 'Germlins". "Meus vizinhos são um terror"não fez muito sucesso comercial, certamente porquê o público tentou entender que gênero estavam assistindo. De qualquer forma, é sempre bom ver Tom Hanks fazendo essas comédias. Uma nota cinéfila: em uma cena, Hanks assiste ao programa "Um lindo dia na vizinhança', com o apresentador Fred Roger, que ele viria a interpretar em 2019 e acabou sendo indicado a um Oscar de ator coadjuvante.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Adeus, mãe

"Thua Me Con Di", de Trinh Dinh Le Minh (2019) Raro drama LGBTQI+ vindo do Vietnã, "Adeus, mãe" é um comovente retrato de uma família em Saigon, Vietná. Van é o filho da senhora Hang (Hong Dao, maravilhosa). Depois de 9 anos estudando nos Estados Unidos, ele retorna para o aniversário da morte de seu pai. Para surpresa de sua família ( mãe, duas tias, primos) ele chega acompanhado de Ian, a quem ele se refere como amigo. Na verdade, os dois são namorados, e Ian veio para dar uma força para Van quando ele se declarar para a família. No entanto, por ser o filho mais velho, toda a família cobra dele um casamento e filhos. Sem coragem para sair do armário, Van se preserva, deixando Ian frustrado. Para piorar a situação, a avó da família está sofrendo de Alzheimer e confunde Ian como seu neto, ao invés de Van. Com ótimas interpretações de todo o elenco, o filme tem um pé no melodrama e no humor, fazendo um retrato comovente de uma família disfuncional, lidando com questões como herança familiar, o que provoca momentos de tensão dramática. O Vietnã é um país homofóbico e conservador, e realizar esse filme já é um grande marco. OS dois atores principais que interpretam na e Ian têm uma química maravilhosa, em lindas cenas de romantismo e olhares minimalistas. Direção delicada do diretor Trinh Dinh Le Minh , embalado por uma fotografia melancólica. Para se emocionar e soltar umas lágrimas, para quem não resiste a filmes com despedidas e doenças em família.

Pig Hag

Pig hag", de Colby Holt (2019) Drama que concorreu à melhor filme no Festival SXSW 2019, "Pig hag" é um filme extremamente cruel com a protagonista. Há muito tempo não ia um filme onde a personagem era tão maltratada. O termo Pih gah significa mulheres que só se relacionam com homens que não prestam. Essa é a sina de Jodie (Anna Schlegel, em atuação corajosa e visceral), uma enfermeira de 36 anos que acaba de se mudar para Los Angeles. Uma mulher que perdeu a chance de encontrar alguém que a ame, mas mesmo assim, tenta encontrá-lo em aplicativos. Jodie tem baixa auto- estima: é obesa, mal cuidada, e todos em sua volta tentam dar conselhos para ela, deixando-a ainda mais enfurecida. A vida fez de Jodie uma mulher agressiva, e para acalmá-la, somente seus únicos amigos, todos gays. Jodie está desacreditada dos homens. Quando ela viaja para um show do Gun's and roses, ela conhece um homem e eles acabam passando a noite juntos. Mas o excesso de zelo de Jodie afasta o homem. Uma das cenas mais cruéis que assisti recente está nesse filme: Jodie, desesperada para encontrar alguém que a queira, desiste de tudo e se oferece para um "dick door": a pessoa anuncia na rede que a porta da casa dela está aberta para quem quiser transar com ela. Ela cobre seu rosto para que ninguém veja seu rosto). Vários homens entram, de forma fria mecânica, e transam com Jodie como se ela fosse um animal ou um objeto. É uma cena muito visceral, brutal, que atenta contra qualquer resquício de humanidade. O filme tem uma narrativa propositadamente fria, e dificilmente encontrará uma fatia boa de público que o assista. É cruel, tem uma definição extremamente pessimista da vida e do ser humano em seu nível mais baixo e vil. Uma salva de palmas para a atriz Ana Schiegel, que se doou de corpo e alma para o filme, se mostrando por inteira, em cenas de nudez, sexo, em um personagem provocativo que lida com a questão do corpo o tempo todo. , sendo xingada o filme todo pela sua forma física.

Desaparecido: um grande mistério

"Missing", de Costa Gavras (1982) Grande vencedor da Palma de Ouro de melhor filme e de melhor ator, para Jack Lemmon, em 1983, além de 4 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, ator e atriz (Sissy Spacek), acabou levando o de melhor roteiro, para Costa-Gavras e Donald E. Stewart. Sissy Spacek, uma atriz já premiada pelo Oscar em 1978 e Jack Lemmon apresentam duas performances pungentes e arrebatadoras, nos papéis de esposa e pai de um americano, Charles Horman, desaparecido em Santiago no ano de 1973, logo após o golpe de estado implementado por Augusto Pinochet. Costa Gravas em 1970 rodou em Santiago o filme “Estado de sítio”, tendo tipo total apoio de Salvador Allende. A sua relação com o país é bem íntima. O filme narra a história real do assassinato de Charles Horman ( John Sea), um escritor e ilustrador de livros infantis, residente em Santiago junto de sua esposa Beth). Charles também faz traduções para o New York Times de textos considerados esquerdistas. Os dois são alienados em relação ao que está acontecendo politicamente no País, até que o Golpe explode e eles acabam se envolvendo com o que se passa no País. Beth aciona Ed (Jack Lemmon), que vem de Nova York para descobrir o paradeiro do filho. Ed também é alienado e acredita que seu filho deva estar escondido em algum lugar. Ed sempre achou seu filho um irresponsável, e durante os questionários, fica evidente que ele desconhecia quem seu filho realmente era. Juntos, ed e Beth resolvem as suas diferenças e tentam buscar o paradeiro do filho, se indispondo com ambos os governos e sofrendo represálias. Além dos atores principais, todo o elenco do filme está muito bem. O filme foi rodado no México. A fotografia é do mestre argentino Ricardo Aranovich, que trabalhou em filmes brasileiros, italianos e franceses dos mestres Ruy Guerra, Ettore Scola e Alain Resnais, entre outros. A rilha sonora é de Vangelis, muito em voga por conta das trilhas de “Blade Runner” e “carruagens de fogo”. Costa Gavras, assim como em “Estado de sítio”, desnuda os governos americano e chileno, acusando-os de trabalharem juntos na implantação de regimes ditadoriais na América Latina. O roteiro é muito bem estruturado e assim como em “Estado de sitio”, apresenta tempos distintos, muito bem trabalhados pela edição. O longo prólogo, de 15 minutos, apresentando Charles Horman Beth, é primoroso, e incrível eu Jack Lemmon somente entre em cena quase meia hora depois, mas dominando totalmente o filme. A cena onde Ed e Beth vão para o necrotério para tentar identificar o corpo de Charles e encontram centenas de corpos, é brutal e antológica.

Ar fino

"Höhenwahn", de Jonas Ulrich (2018) Super premiado curta de terror psicológico suiço, escrito e dirigido por Jonas Ulrich. Fiquei impressionado com a alta qualidade técnica do filme, rodado nos Alpes Suiços e com uma decupagem e enquadramentos sofisticados. As referências do filme são "O iluminado" e "O homem de palha", clássicos do terror e que falam sobre a paranóia ou não de um pai de família que chega com esposa e filha pequena para um final de semana nos Alpes. O pai (Gabriel Stohler Mauch, em um trabalho incrível, praticamente sem falas)) que percebe que as coisas ao redor não são como parecem ser, e se sente ameaçado a si e à sua filha. ótima direção, trilha sonora e fotografia que capta com esplendor a locação magnânima nos alpes.

Fama

"Fame", de Alan Parker (1980) Vencedor de 2 Oscars em 1981, melhor música e melhor trilha sonora, "Fama" é o filme definitivo sobre os anseios e angústias de jovens estudantes de atuação, dança e canto. O filme é um e'pico intimista, um compêndio de todas as etapas que acontecem na vida do estudante de artes dramáticas. Com um elenco de jovens desconhecidos mas muito talentosos, o filme tem um roteiro brilhante de Christopher Gore e uma edição dinâmica que engloba dezenas de histórias de forma orgânica, não à toa, ambas as categorias foram indicadas ao Oscar. O filme conta a história de jovens de raças e classes sociais distintos mas com o mesmo sonho: chegar ao estrelato. O filme é dividido em etapas: Aulas de audição, e depois, os 4 anos de estudo na New York City High School for the Performing Arts, uma prestigiada escola para formação de artistas. Vemos o nervosismo na audição, o sucesso, o fracasso, os erros, os exercícios, as tentativas frustradas, a timidez, a saída do armário, o teste do sofá, as dificuldades com a relação com professores exigentes...o filme tem 40 anos, mas todos esses elementos continuam muito atuais. É uma aula de direção, um show de roteiro e atuações. As cenas musicais são maravilhosas e é impossível não sentir a pulsação do filme. Alan Parker é um dos diretores mais ecléticos que existem: ele tinha vindo do sucesso do drama "O expresso da meia noite", e quase na sequência, filmaria "Pink Floyd, the wall". Só clássicos. "Fama" foi todo rodado em locação, nas ruas de Manhattan e em Times Square. São imagens históricas da cidade que é vista de forma melancólica, solitária e esfuziante.

terça-feira, 2 de junho de 2020

A verdadeira história de Ned Kelly

"True History of the Kelly Gang", de Justin Kurzel (2019) A história do fora da lei Ned Kelly, um mito australiano que morreu aos 25 anos em 1880, já foi levado às telas várias vezes, tendo sido interpretado por astro como Mick Jagger e Heath Ledger. No filme do cineasta australiano Justin Kurzel, diretor do estilizado "Macbeth" com Michael Fassbender e Marion Cotillard, e da ação "Assassin's creed", a história é contada pelo próprio Ned Kelly dentro da prisão, antes de ser enforcado. Ned escreve uma carta para sua filha que não nasceu, para que ela saiba a sua verdadeira história. No entanto, o filme já começa com a cartela dizendo que foram ficcionalizados fatos no filme, e que nem tudo é real. Ned é interpretado por George Maccay, protagonista de "1917". O filme e dividido em 3 capítulos: infância, fase adulta e massacre. Na infância, conhecemos Ned e sua família: sua mãe, Ellen (Essie Davis, de "O babadook"), precisa fazer sexo com um oficial inglês, Neil (Charlie Hunnam) para que eles possam deixar os seus filhos em paz. A família de Ned é imigrante irlandesa durante a ocupação inglesa na Austrália, e são vistos como párias. Ellen vende Ned para Harry Power (Russell Crowe), um famoso fora da lei, para que Ned aprenda a se virar na vida. Ned cresce então ja como um violento fora da lei e monta um grupo, chamados de Kelly Gang. O filme é totalmente estilizado, e assim como "Maria Antonieta", de Sophia Coppola, traz elementos contemporâneos para a época do século XIX: trilha sonora punk, uma hora um rapaz toca country, os figurinos em determinadas cenas são modernos. Mas a maior ousadia de Justin Kurzel é trazer elementos homoeróticos e de gênero para os personagens: o roteiro sugere uma amizade entre Ned e um de seus capangas, Joe, que vai além de uma simples brodagem. Em determinando momento, os integrantes do grupo se vestem de mulher e praticam assalto dessa forma. O filme, apesar de toda essa roupagem moderna, não decola; mantém um ritmo flat, e mesmo nas cenas de ação, não traz muita empolgação. O que vale mesmo é o incrível visual ( a cena do tiroteio no final é um deslumbre de fotografia) e o trabalho do grandioso elenco, que além dos nomes famosos, contém uma turma de excelente jovens atores.

Dois Córregos: Verdades Submersas no Tempo

“Dois Córregos: Verdades Submersas no Tempo”, de Caros Reichenbach (1999) Listado entre os 100 melhores filmes brasileiros pela Abraccine, “Dois córregos” vem logo depois do “Alma corsária”, de 1993. São dois dos melhores filmes de Reichembac, que falam sobre a memória difusa da ditadura militar no Brasil, visto pelos olhos de quem vive nos dias de hoje. Ana Paula (Beth Goulart, uma atriz maravilhosa, pena que tão pouco presnete no cinema) é uma empresária que retorna para a fazenda de sua família em Dois Córregos, interior de São Paulo. A fazenda foi invadida por uma família d egrileiros e ela vai junto de policiais e advogado para expulsar o grupo. Ao chegar na fazend,a ela vai aé o riacho e lembraças de sua adolescência convividas naquela fazenda lhe vêm à mente: nos anos 60, ela foi com sua melhor amiga, Lidia (Luciana Brasil) passar 4 dias lá, sendo acompanhadas pela governanta Teresa (Ingra Liberato). Elas descobrem que o tio de Teresa, Hermes (Carlos Alberto Riccelli) está escondido lá, mas não sabem exatamente o motivo. Logo o fantasma d aguerrilha irá assombrar Hermes ele é um fugitivo da revolução, procurado pelos militares. Hermes sente falta de sua esposa e filhos, que ele abandonou para aderir à causa. Um filme com uma montagem muito boa de Cirtsna Amaral, que une com elegância os dois tempos: passado e presente. A fotografia de Pedro Farkas, bela, e a linda trilha sonora de Ivan Lins, inesquecível, dã um tom nostálgico eo roteiro escrito pelo próprio Reichenbach. Um filme sobre perdão e sobre o amadurecimento, pelo ponto de vista de três mulheres que vivem em um mundo machista e opressor.

Estado de sítio

“Etat de siege”, de Costa Gavras (1972) Um dos mais brilhantes filmes sobre a luta revolucionária contra a ditadura militar, “Estado de sítio” foi escrito por Costa Gavras e Fraco Solinas e é um estudo contundente e brutal sobre a influência do Governo americano sobre a implantação de ditaduras na América latona. Baseado na história real do assassinato do agente americano Dan Mitrione, no filme chamado de Phillip Michael Santore (Yves Montand), morto no dia 10 de agosto de 1970 em Montevidéu, Uruguai, ato reivindicado pelos Tupamaros (grupo guerrilheiro marxista-leninista uruguaio de guerrilha urbana , formado principalmente por estudantes). Philip e mais duas pessoas, entre eles um consul brasileiro, foram sequestrados pelos Tupamaros em uma ousada operação. No cativeiro, ele é questionado pelos guerrilheiros a confessar que ele era um dirigente que trinava a polícia de países da América Latina a usar a tortura como método de confissão. Philip nega tudo. Paralelo, os Tupamaros exigem que para devolverem os sequestrados, quere a liberação de presos políticos. O governo não cede. Costa Gavras dá continuidade aos filmes políticos que lhe trouxerem reconhecimento mundial, como “Z” e “A confissão”, todos os filmes com seu ator fetiche Yves Montand. Em “Estado de sítio”, Costa Cavras revoluciona a narrativa e a linguagem do filme de ação, muito semelhante ao americano “Operação França”: um excelente estudo de personagens captados por uma câmera e linguagem documentais. “Deus é americano e golpista”. Essa frase ajudou a sedimentar uma carreira de censura ao filme em países da América atina aonde a ditadura imperava. Aqui no Brasil, foi proibido por 8 anos, só sendo liberado no início dos anos 80. O filme tem sequencias magistrais de treinamento de policiais com práticas de tortura (lembra até “Laranja mecânica”, de Kubrick.) Muito do roteiro é dedicado ao Brasil, como exemplo de ditadura implantada pelos americanos que deu certo, com a ajuda do agente Philip. A montagem constrói uma narrativa tensa, em dois tempos: antes e depois da morte de Philp. O filme aliás, já começa com o corpo dele sendo encontrado, e aos poucos, vamos descobrindo as ações que encobrem um homem aparentemente bom e ótimo pai de família. A cena final, simbólica, mostra um caixão com a bandeira americana cobrindo-o, e uma família americana descendo, sob os olhares dos tupamaros. Uma construção magistral, fechando com chave de ouro um filme obrigatório. Outra cena antológica é a votação do “Sim “ou “Não que acontece dentro de um ônibus. A trilha sonora do grego Mikis Theodorakis é um personagem à parte , ajudando a dar a atmosfera crescente de tensão muito importante ao filme. O filme foi rodado no Chile, sob o Governo de Salvador Allende que deu todas as condições para as filmagens.

Não culpe Jack

"Não culpe Jack", de Dale John Allen (2019) Premiado média metragem LGBTQI+ dirigido e escrito pelo cineasta inglês Dale John Allen. Jack (Jordan Tweddle, em excelente e contundente performance) é um jovem escritor diagnosticado com bipolaridade maníaco depressiva. Jack já tentou se suicidar e por conta disso, toma remédios psicotrópicos. Jack se sente infeliz: acredita que as sensações que tinha antes do diagnóstico e do uso de remédios lhe faziam um bem, chamado essa sensação de "Magia". Para tentar recuperar essa sensação, Jack vai para boites gays para arranjar parceiros sexuais. O cineasta e roteirista Dale John Allen descreve um relato autobiográfico no filme. Desde que foi diagnosticado como bipolar, Dale realiza filmes com a temática de doenças mentais para poder se entender melhor. "Não culpe Jack" é um filme corajoso, inimista e que fala com bastante propriedade sobre o uso dos remédios tarjas pretas, sobre a sua funcionalidade ou não e a ajuda de grupos de terapia. A cena de sexo entre Jack e um estranho, iniciada em uma pegação no banheiro, é bastante visceral, com a entrega dos dois atores com muito tesão e adrenalina. Um filme dirigido com muita delicadeza, com poucos diálogos e a voz off de Jack narrando o que lhe passa em sua mente.

Cidade de Cristal

“Crystal city”, e Terrence Crawford (2019) Premiado documentário sobre a epidemia de viciados em Crystal Meth em Nova York dentro da comunidade LGBTQI+. Muitos dos entrevistados alegam que o surgimento de aplicativos de pegação com GRINDR e SCRUFF foram os responsáveis por esse aumento de usuários. O sexo ficou fácil e a maioria das pessoas se conectam para o CHEMSEX, as famosas orgias gays regadas à drogas sintéticas para potencializar o sexo. Muitos usuários acabaram contraindo o HIV, pois estando fora de si por conta dos efeitos da droga, fazem sexo sem camisinha. Um dos depoimentos é bem contundente: o usuário, que tem HIV e é viciado no cristal, diz que essa combinação é prejudicial: por causa das drogas, ele acaba esquecendo de tomar os remédios do HIV na hora certa. Durante a troca de mensagens entre os aplicativos, as gírias usadas para deixar claro que o sexo é compartilhado com as drogas é isar os nomes “Tina”, gíria pro Cristal, ou botar um emoji de nuvem, ou escrever T maiúsculo para palavras como parTy. Kristian, um dos entrevistados, contraiu o HIV aos 22 anos de idade durante as CHEMSEX. Hoje, para bancar as drogas, ele se prostitui. Uma frase dele é bastante contundente: para que vou trabalhar o dia todo, para no final do dia ganhar 60 dólares menos as taxas? Prefiro fazer sexo com meus clientes, que são celebridades, milionários. No momento que ele prepara a droga, ele diz : “Nos filmes de Hollywood, a preparação é sempre mais rápida”. Um outro entrevistado, que é fotógrafo, disse que suas fotos ficaram melhores desde que ficou sóbrio, pois as mãos pararam de tremer. Um dado alarmante que o filme fornece é: em 2018, 10.721 usuários morreram por overdose de Cristal. O filme mostra em detalhes como preparar uma pedra para ser fumada ou ser injetada. São imagens fortes, contundentes, e a que mais me comoveu, foi a de Kristian sendo filmado durante uma aplicação de pico, e continuando a conversar durante os efeitos da droga. Não existe ator no mundo que reproduza as suas reações. Nova York é apresentada no extremo de sua solidão de grande metrópole.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Esta noite encarnarei em seu cadáver

'Esta noite encarnarei em seu cadáver", de José Mojica Marins (1967) Listado entre os 100 melhores filmes do cinema brasileiro pela Abraccine, 'Esta noite encarnarei em seu cadáver" é continuação direta de "À meia noite levarei sua alma", de 1964. Dessa vez, Zé do Caixão é encontrado pela população, surpresa que ele não está morto. Recuperado, Zé é absolvido pela justiça, que não conseguiu comprovar os seus crimes. Zé quer dar continuidade a sua busca pela mulher ideal que gerará o seu filho, fruto da pureza e que perpetuará a sua saga. Zé agora conta com a ajuda do seu assistente Bruno, um corcunda mudo. Seis mulheres da região são sequestradas e torturadas com aranhas, para que Zé possa descobrir qual dela sé corajosa. Logo depois, Zé sequestra a filha do Coronel, e a cidade vai toda em sua busca. Quando Zé descobre que uma das mulheres morta estava grávida, uma maldição é lançada sobre ele. Toda a estética e narrativa de Zé do Caixão continua: atores amadores oriundos de sua escola de interpretação, produção de baixíssimo orçamento e um visual trash que fez a fama de seus filmes. José Mojica descreve o inferno em cores, assim como iria mostrar em seu próximo filme, "O despertar da besta", com imagens grotescas e bizarras.

Adeus, Tio Tom

“Addio zio Tom ”, de Gualtiero Jacopetti e Franco Prosperi (1971) Chocado com esse documentário italiano, um dos filmes mais bizarros, obscuros e repulsivos que já assisti na vida. Lançado em 1971, faz parte do sub-gênero do cinema “exploitation” chamado “Mondo cane”: documentários que exploram o sensacionalismo, o cotidiano bizarro de povos e culturas, focados no sexo, na pornografia e na violência. O filme tem uma proposta narrativa até bastante ousada e revolucionária: 2 documentaristas italianos viajam ao tempo e vão parar na época da escravatura americana, acompanhando os negros vindos da África em navios negreiros até a sua chegada no Sul dos Estados Unidos, e toda a peregrinação de violência, venda de escravos e subserviência aos senhores da fazenda. Os documentaristas entervistas os senhores e s burguesia branca, questionando o porquê dos maus tratos e estupros. Os brancos se justificam dizendo que os negros são preguiçosos, só pensam em sexo e não são confiáveis. O filme somente dá o ponto de vista dos homens brancos: os negros são relegados à figuração. O termo “Tio Tom”, segundo a Wikipedia, é “um termo pejorativo usado para descrever um afro-americano que, aparentemente, age de uma forma subserviente às figuras de autoridade do americano branco, ou procurando a integração com este por meio de uma desnecessária acomodação.  “Tio Tom”, é o personagem de A cabana do Pai Tomás, clássico da literatura americana. O filme foi rodado no Haiti, com as filmagens autorizadas pelo sanguinário ditador  Papa Doc Duvalier, que cedeu milhares de haitianos para fazer figuração no filme. O filme recria as cenas da escravidão com atores brancos contratados. Pap Doc cedeu à equipe hotéis de luxo, carros diplomáticos e toda uma sorte de facilidades. A parte mais polêmica do filme, é ter colocado os figurantes para representarem a brutalidade dos senhores brancos, sendo que os próprios cineastas cometem a mesma brutalidade com os figurantes: comem do chão, são pendurados de cabeça para baixo, presos em gaiolas como animais todo acorrentados, se rastejam-no chão imundo, comem de uma manjedoura suja, têm ratos e baratas circulando por sobre os seus corpos. E mais cruel ainda: no bloco relacionado aos estupros e exploração sexual, os figurantes ficam totalmente nus (o filme fez sucesso comercial na época pois muitos espectadores queriam aos filmes como pornografia). Os senhores de escravo abusam sexualmente das mulheres ( coitadas das figurantes...) e os homens negros são explorados por suas donas. O filme é tão bizarro, que apresenta a pedofilia como algo normal: crianças negras t6em suas genitálias filmadas em closes, e um homem passa produto nos corpos delas, sensualizando. Uma jovem negra, interpretando uma escrava, dá um relato de que por ser virgem, o senhor da fazenda não a quis. Então ela dá um chicote para o entrevistador e pede para que ele chocoteie ela, para que ela se transforme numa mulher e que seja estuprada pelo homem branco. Ela recusa fazer sexo com um negro por causa do tamanho do pênis, ela quer um homem branco por ter pênis menor. O filme, de 140 brutais minutos, começa com um longo prólogo mostrando a passeata contra o assassinato de Martin Luther King ( são imagens impressionantes de rebelião). Um narrador diz que o discurso pacifista de King não funcionou, e dá voz aos Panteras Negras, com um discurso mais radical e que finaliza dizendo para que os negros peguem nas armas. E o bloco final é justamente essa representação: Panteras negras ( atores) assassinando a burguesia branca, com machadadas, marteladas, pancadas. São imagens extremamente violentas. O filme foi lançado com a proposta de fazer uma severa crítica ao racismo no mundo, mas foi acusado pela crítica e pela sociedade de ter o efeito contrário, de ser um filme racista, e pior: racista reverso, que é colocar a sociedade contra o homem branco, que aqui no filme são mostrados como escória. Não é um filme fácil de se assistir, e nem recomendo a ninguém., tanto pelas imagens cruéis, quanto pela mensagem a favor da violência. De positivo, a música composta para o filme, a bela “Oh my love”, de Riz Ortolani, que entrou inclusive na trilha do filme “Drive”.

Vermelho

"Red", de Scott Sullivan (2020) O roteirista e diretor Scott Sullivan resolveu produzir esse média metragem LGBTQI+ para poder exorcizar um grande fantasma na sua vida adolescente: nascido no conservador estado da Pennsylvannia, em 2007 ele conheceu Aaron, amigo de sua namorada Lizzy. A paixão foi imediata entre ambos. Mas Scott ( no filme, chamado de James) , temendo que as pessoas ao redor percebam que exista algo entre ele e Aaron, se afasta dele. Aaron insiste para que James saia do armário, mas James não quer. Até que James conta para sua namorada Lizzy do assédio de Aaron. Com ótimas interpretações do elenco jovem, 'Vermelho", que é uma alusão ao sinal vermelho que impede que a pessoa avance, é um filme realista sobre o medo de sair do armário. Hoje, o diretor Scott Sullivan, já sexualmente resolvido e assumido, insiste na grande dificuldade que os jovens têm de sairem do armário em estados conservadores na América de Donald Trump. Bem dirigido e com diálogos efetivos, "Vermelho" é um filme sobre medo, angústia e sofrimento.

Foreign lovers

"Foreign lovers", de Timothy Ryan Hickernell (2017) Que delícia é assistir a um romance LGBTQI+ que fale de amor sem violência, de amor verdadeiro e incondicional. Premiado em diversos festivais, "Foreign lovers" é produzido, escrito, dirigido e protagonizado por Timothy Ryan Hickernell, um excelente exemplo de empreendedorismo de um ator para mostrar o sue trabalho. Um americano de 35 anos (Timothy Ryan Hickernell mora em Nova York, mas sente-se solitário. Quando sua amiga lhe dá um bolo para assistir a um musical da Broadway, o americano resolve ir sozinho. Ele adora o musical e antes de ir para casa, resolve esticar em um bar para tomar um drink, algo raro para esse solitário Nova Yorkino. Aí entra o termo que o americano ama usar: "Serendipity", ou seja, uma coincidência que muda a sua vida. O ator que ele adorou no musical está ali, no bar. O americano vai falar com ele que adorou o trabalho dele na peça. O rapaz, um italiano, agradece, e o convida para conversar. entre um papo e outro, um beijo. E depois, sexo. E depois, paixão. Mas chega o dia seguinte. O filme faz uma crítica aos aplicativos de pegação: os amigos do americano todos pedem para ele criar um perfil para sair da solteirice, mas o americano é contra as relações de uma noite. E ele, sem querer, acaba tendo a relação de uma noite com o italiano. Timothy Ryan Hickernell dirige o filme com bastante elegância, e o seu texto retrata bem a solidão da grande metrópole, mesmo para alguém jovem, bonito e bem situado como ele. A fotografia explora bem a atmosfera Nova Yorkina, e a trilha sonora é uma delícia. O final é lindo, e melancólico.