sábado, 12 de setembro de 2020

5 Estrelas

"Cinco estrelas", de Rodolfo Sanches (2020)
Depois de dirigir as atrizes
Gilda Nomacce
e Luciana Paes, das mais talentosas e brilhantes no país, no longa "Galeria Futuro", o cineasta Fernando Sanches resolveu repetir a dose com as duas no curta "Cinco estrelas". O filme serve de teaser para um longa chamado "As 7 pecadoras", e pelo curta, é possível ver grandes referências do cinema de Tarantino e Robert Rodriguez. Gilda interpreta Kátia, uma atriz de teatro e tv, que pega um Uber. Ela quer ir para uma festa no interior, com mais de duas horas de distância da capital paulista. O que ela não esperava, era pegar um carro com uma motorista Punk e psicótica, interpretada por Luciana Paes. durante o trajeto, a motorista se mostra extremamente inconveniente. Quando a situação se torna insustentável, o pneu fura em uma região inóspita. E para surpresa e pavor de K'tia, ela descobre que no porta-malas, está uma arma calibre 12, apelidada de Tábata.
Com uma excelente parte técnica, o filme diverte bastante com diálogos ótimos e performances irretocáveis das atrizes. Sö não é perfeito porquê o filme tem uma cara demais de teaser de um projeto maior, com o seu final em aberto e sem explicação.
O filme foi visto no Site do Cine Belas artes, no Festival CineFantasy.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O Patalarga

"El Patalarga", de Mercedes Moreira (2020)
Simpática animação infantil argentina, de produção independente, tem aventura comédia e suspense em doses que irão animar toda a garotada. Com referências a 'Et", "A hora do pesadelo" e outros clássicos, o filme se passa em uma pequena cidade do interior. Lá, todas as crianças são obrigadas a cochilar de tarde, caso contrário, o Patalarga irá pegá-las. Três amigos , dois meninos e uma menina, não gostam de cochilar de arde, e um deles não acredita na história. Até que se deparam com o Patalarga, mas aí descobrem um segredo sobre a sua existência.
O filme é bastante ingênuo, por isso deve funcionar melhor para a criançada. Os traços são bem artesanais, simples, mas nem por isso, menos encantador. Uma boa pedida para assistir com a família.
Filme visto no Site do Cine Belas Artes, dentro do Festival Cinefantasy.

Garotos negros

"Black boys", de Sonia Lowman (2020)
Que documentário foda, até chorei no final. Um filme importante, necessário, que procura falar sobre a perda da auto-estima de boa parte da população negra, e em especial, o foco aqui do filme, dos meninos negros.
O filme é composto de depoimentos de jovens, historiadores, esportistas e sociólogos negros nos Estados Unidos. A questão do filme é entender como fazer o resgate da humanidade dos jovens, que vivem constantemente uma ameaça contra a sua integridade física e moral.
"Você precisa provar que você é excelente, maravilhoso, fora do comum, caso contrário, não te aceitam."; "Você precisa fazer sucesso, ou como esportista, ou como cantor de hip hop, as únicas profissões onde o negro é bem visto e onde as empresas investem bilhões de dólares"; "Mesmo que você entenda que esse mundo não foi feito para você, a sua humanidade é questionada o tempo todo". "Destruir o corpo negro é uma tradição, é uma herança". Frases assim são ditas por adolescentes e crianças no filme, que fazem parte de uma Ong onde estudam a sua cultura afro, e onde os educadores procuram ensiná-los sobre como a história representou o negro, para que todos os alunos saiam de lá fortalecidos e com condições de enfrentar o mundo de igual a igual.
É muito cruel assistir a anúncios publicitários, onde as crianças negras querem brincar com a Barbie branca e loira. Ou onde a dona de casa se lava com sabonete e sabão em pó, e a pele negra embranquece, associando a cor preta à sujeira.
Sociólogo comentam essa associação do mundo publicitário de que os negros são inferiores, associados a coisas ruins.
Em determinando momento, a diretora Sonia Lowman ( Obs: a diretora é branca, mas não parece haver nenhuma questão dos participantes do filme, tanto na frente quanto atrás das câmeras, sobre a legitimização dela fazer o filme) pergunta a um rapaz como ele se sente quando sente medo no olhar de uma mulher branca. O garoto responde que machuca, e daí, se emociona.
"Como a minha presença ofende você?"; "Estou cansado de mostrar minhas mãos para o alto o tempo todo, para provar que não carrego nada"; "É terrível quando você entra em um elevador e sente que todos ali não se sentem bem com a sua presença".
A cena final, é um alento, apontando para uma possibilidade remota, mas desejável: um pai dando banho em seu filho de 2 anos, e lhe pergunta: "O que você quer ser quando crescer?". O filho responde: professor, engenheiro. O Pai pergunta: "Quer ser esportista?". o filho diz que não.
Essas perguntas fazem um contraponto a quando Martin Luther King quiz estudar direito, e lhe negaram, dizendo que ele era negro e não podia.
A música "I'm a black man in a white world" ecôa no filme, cantada por Michael Kiwanuka. A música ideal para fazer todos refletirem sobr eo mundo em que vivemos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Tubarões voadores


"Sky sharks", de Marc Fehse (2020)
Nossa, há tempos eu não via um filme tão trash como essa salada alemã, que mistura Nazistas zumbis, tubarões voadores geneticamente modificados, muitas mulheres nuas, em um exploitation revisitado. O filme foi filmado em 2014, mas somente agora, em 2020, ganhou lançamento em streaming, e entrou em Competição na mostra oficial do Festival Cinefantasy.
A história é uma maluquice só: um grupo de geólogos descobre no subterrâneo, um laboratório zumbi onde eram feitos experimentos para criar super soldados nazistas que cavalgam em tubarões voadores. Quando os zumbis se libertam, somente um grupamento de soldados que lutaram no Vietnã será capaz de lidar com eles.
Os efeitos são os piores possíveis, repleto de gore, mas com um visual que parece de games dos anos 90, daqueles sem identidade e genéricos. Os atores são péssimos, o roteiro, inexistente. Adoraria ter curtido o filme, mas um trash com quase 2 horas de duração, fica difícil de aturar. A melhor cena: o ataque zumbi no avião,logo no prólogo.
De qualquer forma, o filme está disponível para ser visto no Site do Cine Belas Artes

Amantes do proibido


"Trailer para amantes de lo prohibido", de Pedro Almodovar (1985)

Hilário e devastador curta dirigido por Almodovar entre dois de seus grandes clássicos, "O que eu fiz para merecer isso?" e "Matador", no ano de 1985." O filme mistura melodrama, musical e comédia, contando a história de uma mulher abandonada pelo marido, que a trocou por uma travesti, Lili Put, interpretada pela musa de Almodovar, Bibi Andersen. Mãe de dois filhos pequenos, e sem ter como comprar comida, a mulher rouba uma senhora, que vem do mercado, e pede para que ela tire a calcinha ( uma cena sensacional!). Depois ela se prostitui, e por fim, se apaixona por um jovem que monta cartazes de filmes em fachadas de cinema. Tudo isso embalado por uma trilha sonora que vai de Eartha Kitt, Edith Piaf e "Soy lo prohibido". Um clássico de Almodovar, uma narrativa que desconstrói todos os gêneros, e um aperitivo do que viria a seguir em sua premiada filmografia.

Gente nos domingos

 


"Menschen onn sontagg", de Robert Siodmack e Edgar G. Ulmer (1930)

Obra-prima do cinema alemão, lançado em 1930, tem inspiração em outra obra-prima alemã, "Berlin, sinfonia da metrópole". Pegando emprestada a linguagem documental, documentando em narrativa autoral e artística a rotina de uma cidade e eus moradores, os roteiristas foram além: incluíram uma parte ficcional com 5 pessoas reais, e acompanhamos essas histórias de suas vidas mundanas. O filme se vangloria de usar amadores, que nunca participaram de filmagem, e traz a persona real delas: as profissões apresentadas, são as profissões reais, inclusive o ambiente de trabalho. O filme apresenta pessoas comuns: um taxista, uma modelo, uma lojista de loja de discos, etc, e traz encontros e desencontros em um dia de domingo no parque, envolvendo flertes, traições, piquenique, sexo, machismo.

Mas o que mais impressiona no filme é a sua ficha técnica: anos depois, todos foram para Hollywood, e fizeram suas carreiras ali, todos conhecidos como grandes autores e técnicos que ajudaram a mudar a cara do cinema americano. Os diretores Robert Siodmarck e Edgar G. Ulmer ( esse viria a filmar bastante com Boris Karloff e bela Lugosi, em clássicos como "Gato preto"). O roteirista é Billy Wilder e Cid Siodmarck. O fotógrafo é Eugen Schuftan, que ganharia o Oscar de fotografia por "Desafio à corrupção". O c6amera é Fred Zinnermann.
Outro elemento curioso e revelador a se observar no filme: como era maravilhosa a Berlin da época, com pessoas felizes, cumprindo a rotina de suas vidas com disposição, a cidade efervescendo nos bares, cinemas, ruas com bastante trânsito. E no domingo, no parque, muito agito. E pensar que anos depois, tudo viria abaixo com a ascenção do nazismo.
Com esse approach pioneiro, o filme possui enquadramentos lindos, registro emocionante das pessoas comuns. Obrigatório.
O filme faz parte do catálogo da coleção Criterion, dedicada a filmes que fizeram história.

Salomé

"Salomé", de Pedro Almodovar (1978)
Curta que Almodovar rodou antes de seu primeiro longa, "Pepi, Luci, Bom e outras chicas de montón", de 1980. O filme é baseado na obra de Oscar Wilde. e traz uma história bíblica recriada por Wilde. Abrão está caminhando nas montanhas com seu filho Isaac. No caminho, se depara com uma linda mulher, que se chama Salomé. Encantado com a beleza da mulher, Abrão propõe que ela dance para ele, e em troca, ela poderá pedir o que quiser. Após dança sensual, Salomé pede a cabeça de Isaac.
Almodovar já faz a sua transgressão em vários elementos: Isaac usa tênis All Star, Salomé usa botinha branca de cano longo. A na trilha sonora, Almodovar usa a canção tema de "Carrie, a estranha", de Pino Donaggio. Curiosidade para quem é fã de Almodovar.
Link para assistir ao filme

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Você está com fome?

"Onko sulla nalka?", de Teemu Niukkanen (2020)
Concorrendo na seleção oficial de Sundance 2020 e Festival de Toronto, 'Você está com fome" é uma comédia de humor negro finlandesa. O filme tem uma narrativa semelhante aos filmes de Mika Kaurismaki, o cineasta finlandês mais famoso do mundo. Uma mãe super protetora, (Pirjo Lonka) trabalha como taxista. Ela tem um filho adotivo: um adolescente asiático, mas ambos mal se comunicam. Ele vive no celular o dia todo. A mãe acredita que o filho é gay, e frágil, e por isso, ela pesquisa o tempo todo sobre predadores. Quando ela vê o filho entrando em um carro com um homem mais velho, ela se desespera e vai atrás.
O filme tem uma ótima performance da atriz Pirjo Lonka, que compõe com muito desespero e angústia uma mãe preocupada. A direção é dinâmica, busca elementos esquisitos e bizarros, bem ao gosto de Kaursmaki. A trilha sonora é sensacional.

Lindinhas

"Mignonnes", de Maïmouna Doucouré (2019_
Vencedor do prêmio de melhor direção em Sundance 2019, a cineasta senegalesa Maïmouna Doucouré, e concorrendo no Festival de Belrin, "Lindinhas" se tornou, junto do holandês "365 dias", os filmes mais polêmicos do catálogo da Netflix. Por um erro de estratégia, toda a campanha de poster e marketing feito para o filme, foi apresentando a sexualização das meninas de 11 anos que estrelam o filme. Mediante uma enxurrada de mensagens cobrando uma atitude, o filme sofreu boicote mesmo antes de estrear. Para quem não viu ou não pensa em assistir, o filme é uma crítica à hipersexualização cada vez mais precoces das crianças, seduzidas por músicas, danças eróticas e a possibilidade de entender que a arma que elas possuem é o próprio corpo. Em 2006, o filme "A pequena Miss Sunshine" já trazia essa denúncia, através de um humor debochado, de eventos que colocam a criança em um papel de adulto erotizado, no concurso da Miss Sunshne.
Amy (Fathia Youssouf), de 11 anos, é uma menina reprimida por cnta da religião muçulmana, do qual sua família faz parte. Todos são imigrantes senegaleses, e moram em um pequeno apartamento em Paris. Amy descobre que seu pai se casou de novo, trazendo tristeza para sua mãe. Inconformada com sua vida cinzenta, Amy conhece Angelica (Médina El Aidi-Azouni), uma menina de sua idade que mora no mesmo prédio, mas totalmente sensualizada. Angelica tem um grupo de dança na escola, junto de outras 3 meninas, todas precoces. Quando Angelica discute com Yasmine, uma das integrantes, Amy imediatamente é convocada para fazer parte do grupo. Mas Amy precisa esconder de sua mãe, para evitar de ser punida. Algumas cenas provocarão repulsa em famílias conservadoras: ao passearem no entorno de uma mata, uma das meninas encontra uma camisinha usada, e a enche, crente que é uma bola de encher. As outras meninas vêem e a agridem, dizendo que ela está com Aids, e lavam a bica dela com sabão. Em outra cena, as meninas se passam por garotas mais velhas e seduzem um rapaz mais velho no chat. O que mais me impressionou no filme, foi a direção de atores da diretora. As meninas, todas muito jovens, simplesmente arrebentam em seus papéis, trabalhando todas as emoções de forma super convincente. As danças, as poses sensuais, a disputa, a raiva, a alegria, tudo é demonstrado com muito naturalismo. O filme choca? Pode chocar, e certamente o fará com determinando tipo de público. Sim, o filme é uma crítica a essa cultura da erotização, mas não deixa de ser curioso o fato das atrizes terem que trabalhar essa sexualização de suas personagens. A cena final, aparentemente moralista, é belíssima

O desejo de Robin

"Robin's wish", de Tylor Norwood (2020)
Documentário sobre os últimos anos de vida do ator Robin Willians, contado a partir do momento que os amigos e sua esposa Schneider Williams, com quem se casou em 2011, passaram a reparar em mudanças no comportamento dele. No dia de sua morte, 11 de agosto de 2014, aos 63 anos, o mundo todo levou um grande susto. As informações eram muitos, e todas alardeando quem teria sido realmente Robin Willians? Encontrado enforcado, um suicíciio, teria Robin Willians enganado todo mundo, se fazendo passar por uma pessoa alegre, feliz e alto astral, tendo por baixo a persona de um palhaço triste? Muitos passaram a acusá-lo de drogado, entre outras levianidades. Sua esposa e amigos íntimos estavam tentando processar o que teria ocorrido com a mudança brusca na personalidade de Willians. Somente meses depois, após a autopsia, veio o veredito: Willians sofria de uma doença neurodegenerativa , conhecida como Demência com corpos de Lewy, e que, dependendo do nível, leva ao suicídio. Os médicos ficaram horrorizados: o nível de Willians era o mais alto já visto.
Em seu último ano, Robin Williams foi confrontado com ansiedade, paranoia, insônia e realidades alteradas assustadoras. O filme alterna momentos da carreira de Willians com depoimentos de amigos e diretores próximos. Shaw Levy, que o dirigiu na franquia "Uma noite no museu", percebeu que Willians estava diferente, mas não ousou falar com ele. Mas ele era constantemente perguntado por Willians se o que ele tinha feito estava bem, se prestava. Willians ligava para ele às vezes de madrugada, inseguro com o seu trabalho. O último filme da franquia foi rodado em 2014, meses antes da morte de Willians. Levy mostra a cena de despedida do personagem de Willians, que curiosamente, foi rodado o último dia, e ficou impressionado como foi realista a cena.
O filme é produzido pela viúva, que quiz colocar na prática o desejo de Robin: que o seu legado não fosse destruído. Para isso,
Schneider promove palestras sobre a doença nos Estados Unidos, para que o diagnóstico seja feio ainda no estágio inicial.
Os depoimentos são todos bastante comoventes, e claro, todo mundo falando o quanto Willians era maravilhoso e bondoso. O filme tem um tom nostálgico e melancólico, e por ser produzido pela esposa, não existe nenhuma informação contrária ao caráter do ator. VAle assistir, e provavelmente, se emocionar.
Tem uma pergunta de uma jornalista que Willians responde de bate pronto: ele improvisa 23,5% de tudo o que faz. ta aí, o gênio.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

O jardim deixado para trá

"O jardim deixado para trás", de Flavio Alves (2019)
Drama LGBTQIA+ que recebeu dezenas de prêmios em Festivais, incluindo, melhor filme do público no SXSW 2019. Tão fascinante quanto o roteiro e a performance poderosa do elenco, é a história do seu diretor e produtor, Flavio Alves. F;avio é brasileiro, De 1988 a 1994, foi marinheiro e escreveu um livro autobiográfico sobre a homossexualidade nas forças armadas. Recebeu ameaças de morte e acabou pedindo asilo político nos Estados Unidos, o que acabou acontecendo em 1998. Desde então, Flavio produziu muitos filmes, dirigiu curtas e agora estréia m longa com o elogiado e contundente "O jardim deixado para atrás", que trata de dois temas que Flavio conhece muito bem: homofobia e imigração ilegal. A protagonista é Tina (a atriz trans Carlie Guevara). Ela mora em Nova York com sua avó, que a trouxe ilegalmente do México para tentar a vida nos Estados Unidos. Hoje em dia, a avó quer retornar para o México, para cuidar do jardm que ela deixara para atrás. Mas Tina quer continuar em Nova York para seguir o seu sonho: transição total para uma mulher trans. Para isso, ela faz consultas com um psiquiatra, para ter certeza de que ela está psicologicamente estável para a cirurgia. Mas a vida de Tina não está fácil: trabalha como motorista de Uber para sobreviver; seu namorado gosta dela com o órgão masculino, e ao saber que ela vai fazer a cirurgia, ele a rejeita; a avó só a chama de Antonio, ao invés de Tina, e não entende o porquê dela querer mudar de sexo; as amigas trans de Tina a convocam para participar de passeata contra o assassinato de uma trans e para finalizar, o atendente da mercearia onde Tina faz compras, sente repulsa por ela, ao mesmo tempo que a deseja.
O filme caminha entre o drama e o suspense, e faz com bastante dignidade e simplicidade. Flavio baseia o seu filme na performance do elenco, todos em registro naturalista e boa parte do elenco, formado por não atores. Todos os personagens trans são realizados por trans de verdade. É um filme que homenageia as trans assassinadas nos Estados Unidos, e alerta que em 2018, foi o ano onde mais se matou trans, principalmente mulheres negras.

Jim Botão e Luke o maquinista

"

Jim Knopf und Lukas der Lokomotivführer

", de Dennis Gansel (2018)
Adaptação do livro escrito por Michael Ende, o mesmo autor do clássico 'A história sem fim". Essa aventura fantástica alemã foi dirigida por Dennis Gansel, e tem como público alvo o infantil e adolescente, principalmente os apaixonados pelas aventuras de "Percy Adlon", "Rin Tin Tin", "Crônicas de Nárnia , "Artemis Fowl", e "Harry Potter". Os efeitos especiais são satisfatórios, não deixando a desejar a filmes médios americanos.
Em uma época incerta, um bebê é entregue ao rei de Lummerland, um reino que ocupa uma pequena ilha. Lá, o bebê é criado pelos moradores, que se afeiçoam por ele, principalmente o maquinista Luke. Quando o bebê cresce, agora apelidado de Jim Botão, ele ajuda Luke com o vagão de trem apelidado de Emma, que tem vida própria. Jim confidencia a Luka que seu desejo é seguir o mundo em busca de sua família. Luke atende o pedido do amigo e juntos embarcam em uma aventura que envolve princesa, dragões, gigantes e piratas.
O filme é um grande épico alemão, e atende mais ao público infantil, por conta de seu visual conto de fadas e pela infantilidade dos personagens e das situações, que beiram o pueril. É um grande passo o fato do protagonista ser um adolescente negro, sem precisar se utilizar de estereótipos de raça. É um filme simpático, que eu adoraria que tivesse um apelo maior aos adultos.
Visto no Festival Cinefantasy.

Hoje eu não fico no vestiário

"Hoje eu não fico no vestiário", de Nicole Lopes (2019)
Pegando emprestado o título do filme "Hoje eu não quero voltar sozinho", de Daniel Ribeiro, o ótimo curta LGBTQIA+ dirigido por Nicole Lopes é um exemplo de união que dá certo. Logo n início, a cartela anuncia que quase 30 mil jogadores de futebol estão officializados, mas que os que fazem parte dos times de ponta, nenhum se assumiu publicamente como homossexual. Em 2016, 9 amigos curitibanos resolveram criar, de brincadeira, o Capivara futebol clube. Também como forma de inclusão e para se beneficiarem da socialização e do prazer do esporte, proporcionando bem estar, O clube não visava competição, apenas se sentirem longe do ambiente homofóbico dos estádios e dos times, que gritam palavras de ordem homofóbicas, e em vários relatos, os jogadores falavam do desconforto de serem os únicos homossexuais do time. Ainda mais que se espera masculinidade e comportamento machista para o jogador de futebol. Logo, o Capivara entendeu que o time também não poderia ser apenas de integrantes LGBTQIA+, pois isso seria também uma forma de censura. Hoje, o time possui mais de 50 jogadores, de várias raças e gêneros. O importante é a aceitação e a promoção da harmonia e do bem estar geral. É um filme que enaltece o esporte, como importante para a saúde física e mental, mas também a seriedade do projeto. Ótimos depoimentos de histórias de exclusão e homofobia.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Me and my penis

"Me and my penis", de Jenny Ash (2020)
Esse documentário inglês entrou para a história por ser o primeiro a apresentar na tv aberta, closes de pênis eretos. Dirigido pela documentarista Jenny Ash, o filme explora, de forma artística, depoimentos de vários homens, de raças e gêneros distintos, falando sobre a presença ou não do pênis em seus corpos. Esse filme provavelmente será o pavor de feministas, por adular e empoderar a genitália masculina, que segundo os entrevistados, lhe conferem segurança, a confiança em sua masculinidade. Eternizado como símbolo do prazer e fertilidade, o pênis é apresentado nesse filme de todas as formas possíveis. Para espectadores voyeurs, é um prato mais do que cheio. O filme começa com os homens falando as várias formas de darem nome ao pênis. Depois, um a um vai relatando as suas experiências, sejam elas traumáticas, relacionadas à sexualidade, religião, bullying pelo tamanho. No final, tem o depoimento mais revelador, a de um homem trans, dizendo que o fato de não ter um pênis não o torna um homem completo e a sua frustração. Um outro fala sobre o fascínio até mesmo entre os homens heteros, de observar os pênis de outros homens em banheiros públicos. Um outro homem, muçulmano, fala da repressão que sofreu a vida toda, por conta da religião, que dizia que quem se masturbasse, iria para o inferno. e quanto ele sofreu por conta disso. Um homossexual fala sobre uma transa, onde ele foi pedido para fazer o papel do ativo, e ele se desesperou, pois não tinha confiança em sua masculinidade e o fato de ter que dominar o ato sexual, usando o seu pênis como agente de toda a ação, lhe provocou calafrios. O filme apresenta também sessões fotográficas artísticas com cada um dos homens, totalmente nús, e a sensação de estarem sem roupa diante das câmeras. O fotógrafo é Ajamu X é um artista e ativista britânico. A sua fotografia artística explora o desejo, o corpo masculino nú.

Anthony

"Anthony", de Terry McDonough (2020
Que drama poderoso! Uma forte denuncia contra o racismo e o absurdo da intolerância racial. O filme é baseado em uma história real, mas a mãe do falecido pediu a um amigo cineasta que reinventasse a vida do filho, resultando nesse filme muito foda.
No dia 3 de julho de 2005, Anthony Walker, um negro esportista e apaixonado pelos amigos, família e pela vida, excelente aluno e dedicado ao próximo, foi assassinado à sangue frio por dois racistas. Anthony tinha 18 anos. Gee Walker decidiu então contar uma história que poderia ter sido. Seu filho queria casar com a garota que ele era apaixonado. a jovem professora Katherine. Anthony desejava ter um filho. Anthony desejava tirar o seu grande amigo Mick do alcoolismo. Anthony desejava se formar na faculdade. Tudo isso acontece no filme, inclusive o atentado que lhe tirou a vida, só que agora, aos 25 anos de idade, tendo vivenciado tudo o que ele sempre quiz.
Na vida real, os dois assassinos foram presos e condenados à prisão perpétua. Anthony não casou nem teve filhos. Glee, a mãe, acabou criando uma Ong de ajuda a jovens negros, com apoio em esportes e arte. É um filme com excelentes performances, com uma narrativa simples mas emocionante, ainda mais sabendo que nada do que estamos vendo aconteceu de fato. Um roteiro muito bom, criativo, reencenando uma vida que poderia ter sido

O cemitério das almas perdidas

"O cemitério das almas perdidas", de Rodrigo Aragão (2020)
Quinto longa do diretor de filmes de gênero terror , nascido no Espírito Santo, "O cemitério das almas perdidas" novamente traz o livro de são Cipriano, associado à magia negra e ao satanismo, como protagonista de suas tramas. Algo como 'Evil dead", a evocação dos textos do livro maldito transforma o seu leitor em uma poderosa evocação do mal, repleto de forças malígnas, sedenta de sangue. O filme começa no Brasil colônia, no estado do Espírito Santo. Um jesuíta ambicioso descobre o livro e junto de seus seguidores, deseja dominar tudo: bandeirantes, a igreja e as comunidades indígenas. Mas eles acabam sendo amaldiçoados e não podem sair de um cemitério maldito. E é para lá que eles cvoam, durante centenas de anos, vítimas que nutram seu os desejos de sangue e juventude dos seguidores de São Cipriano. Um dos seguidores se apaixona por uma índia feito prisioneira, e visto como traidor, evoca uma maldição, antes de ser morto. As próximas vítimas são artistas de um circo ambulante.
A filha de Rodrigo Aragão, Carol Aragão, novamente interpreta uma heroína no filme. Marcus Konká e Francisco Gaspar são também habituées do cinema oitocentista de Aragão. O filme tem o maior orçamento já captado, com 2 milhões de reais, e é possível ver o dinheiro gasto em inúmeros e gigantescos cenários, além dos efeitos mecânicos e de pós-produção. Aqui, mais do que nunca, as referências aos cinemas de Lucio Fulcci e Lamberto Bava se faz evidente, com muita gosma, maquiagem pesada, sangue, decapitações e canibalismo. Uma festa visual e trasheira para quem adora o estilo de cinema de Aragão, que aqui, homenageia José Mojica Marins.
Filme visto no Cinefantasy, através da plataforma do Cine Belas artes.

O Gatilho

"The trigger", de Christopher Bradley (2019)
Escrito e dirigido pelo estreante Christopher Bradley, "O gatilho" é um drama baixo orçamento independente LGBTQIA+. O protagonista é Eric Coyle, um garoto de programa de 19 anos, que acaba de sair da prisão por porte de drogas. Eric quer se reconectar com sua namorada , Heather. Mas em seu encalço surgem o cafetão, o ex-amante que bancava Eric e o traficante, que quer prestar contas.
Um filme com boas intenções, mas infelizmente os defeitos são muitos, a começar pelo elenco, todos absolutamente fracos e sem expressão. O roteiro também não ajuda, querendo transformar Eric numa espécie de James Dean dos dias atuais. Os diálogos são pobres e tecnicamente, o filme tem problemas de decupagem e de edição, que torna o filme sem ritmo. Uma pena.

domingo, 6 de setembro de 2020

Gente da Sicília

"Sicily", de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub.(1999)
Primeiro filme que assisto da dupla de cineastas franceses Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. Casados há mais de 40 anos, realizaram inúmeros filmes em formatos de curtas, médias e longas, na Franca, Alemanha e Itália. O cinema deles é bastante radical, e o próprio Jean diz que eles vão contra o cinema comercial e de exposição, e o mais famoso caso aconteceu em 2005, quando foram homenageados pelo Festival de Veneza pela obra e se recusaram a aceitar a homenagem.
Daniele faleceu em 2006. Em "Gente de Sicília, lançado em 1999, o casal adaptou o livro de Elio Vittorini, Conversas em Sicília, publicada em 1938. Um escritor retorna para Sicília, 15 anos depois de ter ido morar em Nova York, para rever sua mãe. No seu retorno, ele conversa com um vendedor de laranjas no porto, com passageiros em um trem, sua mãe e depois com um amolador de facas.
As conversas são bastante contundentes em relação à sociologia, política e até assuntos banais, como quando conversa com o vendedor de laranjas e falam sobre o americano tonar café da manhã. A forma como o casal dirige é bastante radical: planos rigorosamente formais, estáticos, em um preto e branco estasiante. A escola de interpretação é a mesma usada por Robert Bresson e os seus famosos atores modelos: o elenco não expressa emoção, dá as falas de forma robotizada, dura. O filme não faz uso de trilha sonora, os planos tem tempos mais longos, de respiro. Não e um cinema para qualquer espectador, eu mesmo fiquei na dúvida se gostei do filme. Mas a beleza imagética do filme é inegável. O filme recebeu prêmio na Mostra de São Paulo, e concorreu em Cannes.

Arianna

'Arianna", de Carlo Lavagna (2015)
Intenso drama LGBTQIA+ italiano, vencedor de diversos prêmios em festivais importantes, como Veneza, Rotterdan, entre outros. Filme de estréia do cineasta Carlo Lavagna, o texto me remeteu à peça que assisti em São Paulo, "Brian ou Brenda?. Uma criança nasce intersexual ( novo termo para hermafrodita). Os pais, temendo que o "filho" sofra bullying futuramente, decidem eliminar o genital masculino e assim, criar a criança como mulher. Isso sem jamais falar à Arianna, nome dado à criança, sobre a sua condição. Quando ja adolescente, Arianna sente que a sua menstruação não chega, ao contrário das outras meninas de sua idade. E mais: em sua primeira experiência sexual com um rapaz, ela não sente prazer, e sim, repulsa. Arianna vai a um ginecologista e descobre a verdade.
Com um trabalho explosivo da novata Ondina Quadri no papel principal, sem nunca ter tido experiência como atriz ( ela era filha de um amigo do produtor), Ondina exala uma atmosfera misteriosa, assexuada, fundamental para a personagem. A direção sensível e impecável de Carlo Lavagna, além da fotografia, em tom etéreo, e trilha, fazem desse filme um excelente estudo de personagem, e que merecia uma adaptação teatral. Imperdível.

Maria Gladys- uma atriz brasileira


"Maria Gladys- uma atriz brasileira", de Norma Bengell (1979)
Um filme que une duas das maiores expressões artísticas femininas no Brasil, "Maria Gladys- uma atriz brasileira" foi lançado em 1979, e é mais do que uma justíssima homenagem à eterna Musa do cinema brasileiro. Aproveito para fazer uma homenagem também à Norma Bengell, que foi limada da memória do audiovisual por conta de uma polêmica em prestação de contas, mas um fato injusto, pois sua carreira é ímpar. Normal protagonizou várias obras-primas do cinema brasileiro, além de ter dirigido filmes onde colocasse sempre a mulher como protagonista. Ela é, definitivamente, uma mártir do movimento feminista no país.
O filme é sobre Maria Gladys, mas filmado de forma bastante intimista, autoral, com uma narrativa própria do cinema marginal, de onde Gladys se sobressaiu. Ao som de Índia", na voz de Gal Costa, Maria literalmente se desnuda para falar de sua carreira: nascida em 1939 no bairro de Cachambi, Rio de Janeiro. Aos 16 anos, iniciou carreira artística. Começou no teatro, depois dez amizades com cineastas e trabalhou com os maiores realizadores da época: Neville D'almeida, Domingos de Oliveira, Julio Bressane, Rogério Sganzerla, Antonio Carlos Fontoura, Ruy Guerra, Paulo Saraceni, Antonio Calmon...as entrevistas foram realizadas antes dela filmar "O gigante da América", de Bressane.
Em determinado momento, Gladys pergunta à Bengell: "Mas vou ficar falando de filmes que ninguém viu?". Essa é a maravilha do filme, trazendo o sentido a artistas que estão à margem do audiovisual de entretenimento. É essa eterna luta que envolve amor, paixão e muita garra. Maria Gladys Mello, ETERNA! Que se faça mais um novo documentário!

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