domingo, 18 de agosto de 2019
Humberto Mauro
“Humberto Mauro”, de André Di Mauro (2018)
Dirigido e escrito por André Di Mauro, sobrinho-neto do Cineasta mais famoso de Cataguazes, Minas Gerais, “Humberto Mauro” é um filme obrigatório para estudantes e estudiosos de Cinema, Cinéfilos e para quem acredita que o Brasil não preserva a sua memória cultural. André levou cerca de 2 anos decupando, estudando cerca de 300 filmes ( editou trechos de 70 no final) dirigidos por Humberto, entre curtas, longas e filmes educativos produzidos depois de 1936 no Instituto Nacional de Cinema Educativo, o INCE, financiado pelo Governo Vargas e que tinha como intuito, produzir curtas e médias para serem exibidos em escolas e instituições públicas de todo o Brasil.
André construiu o seu filme todo a partir de material de arquivo, não tendo cenas filmadas posteriormente nem as tradicionais entrevistas com amigos e parentes vivos. Costurando imagens dos filmes com entrevistas cedidas por Humberto nos anos 60, o filme se torna uma linda declaração de amor do próprio à Arte de se fazer e apreciar o Cinema. Assim como “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, ou “Histórias que nossas Babás não contavam”, que tinha como tema a pornochanchada e o seu olhar sobre a Ditadura militar no Brasil, todos esses filmes reconstroem as imagens originais, transformando-as em um filme próprio, trazendo um novo olhar sobre os filmes envolvidos.
Ao final da projeção, tem um depoimento contundente de Humberto, já com voz embargada pela idade avançada (Humberto faleceu aos 86 anos em 1983) dando a declaração: “Gostaria que um bisneto ou um tataraneto me confirmasse, lá pelo ano de 2020, se a Terra é azul”. O Cineasta André di Mauro editou o filme de forma que o próprio Humberto, metafisicamente, já tem a resposta. No belíssimo prólogo do filme, vemos imagens da natureza, um dos temas recorrentes e mais apaixonantes de Humberto. Logo vemos crianças observando o céu, e também alguns adultos. Sobre essas imagens, ouvimos a voz de Humberto surgindo como se ecoasse do Universo, desse céu azul, no filme retratado em imagens em preto e branco.
O grande acerto de André di Mauro foi ter focado o seu documentário na experiência de Humberto com o cinema, evitando falar d avida pessoal dele. Logo em seu primeiro filme de1926 ,” Na Primavera da Vida”, assinou como Reinaldo Mazzei. Por sugestão do Produtor carioca Adhemar Gonzaga, alterou sue nome para Humberto Mauro. Filho de italiano com brasileira, Humberto veio ao Rio de Janeiro em 1937, a convite de Adhemar Gonzaga, e realizou o primeiro filme do Estúdio Cinédia, “Lábios sem beijos”. Vários outros filmes foram produzidos pela Cinédia, formando uma bela parceria.
Humberto gostava de filmar sem muita preparação, gostava do improviso e do elemento surpresa, principalmente quando filmava a Natureza, segundo ele. “Na Natureza, nada se repete, cada instante acontece uma única vez”. Humberto nunca estudou Cinema nem leu livros, diz que é um processo próprio que nasce com a pessoa. Parafraseando uma frase de Michelangelo, onde “A escultura já vem dentro do bloco de mármore, basta esculpir que ele sai.”. Humberto: “O Cinema tá lá dentro da gente, basta apertar um botão que ele sai”.
A parte curiosa é quando diz que as mulheres de sua família, que o ajudavam em seus filmes, o censuravam quando o assunto era a exposição de corpos femininos: sugeriam enquadramentos que não mostrassem demais, figurinos que não explorasse a sensualidade delas.
Outro momento revelador, é quando Humberto explica o sentido de sua famosa frase, ‘Cinema é Cachoeira”: Muitos amigos seus, fazendeiros, chamavam Humberto para filmar as cachoeiras de suas fazendas. Humberto concluiu que a Cachoeira trazia esse desejo das pessoas de filmar
algo belo, que merece ser imortalizado na película. Cachoeira é Cinema, logo, Cinema é Cachoeira.
Na última cena do documentário, temos a imagem do próprio Humberto Mauro, representando um Coronel no seu filme “Canto da saudade”, do alto de um Morro, orgulhoso, como se refletisse sobre toda a sua História no Cinema Brasileiro e dissesse para si mesmo: “Meu legado agora pertence a vocês.”
“Humberto Mauro” concorreu nos prestigiados Festivais de Cinema de Veneza e Rotterdan em 2018, e concorre a uma vaga para representar o Brasil no Oscar 2020.
Bacurau
“Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019)
Escrito e dirigido por Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, “Bacurau” faturou no Festival de Cannes 2019 o cobiçado Grande Prêmio do Juri, que equivale a um 2o lugar. O filme pode ser visto como uma parábola sobre os homens de bem e os homens do mal, personificados em: do lado dos mocinhos pelos quais o espectador irá torcer, estão assassinos, prostitutas, lésbicas, trans, negros, idosos, crianças, cordelistas, nordestinos, pobres
(faltaram os orientais e índios nesse microcosmo do Brasil, mas tudo bem, entendemos o recado). Na parcela dos malvados, temos os políticos brasileiros, os brasileiros corruptos e os “gringos”, que no melhor estilo “O Albergue”, só querem se divertir matando a população do terceiro mundo, representado na cidade de Bacurau, que fica a Oeste de Pernambuco.
Em Bacurau, todos são felizes e vivem em harmonia, que é quebrada com a chegada do político e dos gringos. A partir daí, o filme pega o melhor estilo Sergio Leone de ser, aliado à trasheira B dos filmes italianos Gore de Dario Argento. É sangue, é víscera, é tudo aquilo que a onda vintage dos anos 80 está retornando com força total nas produções de cinema e tv de hoje. Música eletrônica de sintetizadores, fotografia suja, e ode aos filmes de ficção científica de Ed Wood, o drone tem formato daqueles discos voadores de pratos pendurados em cordinhas de nylon.
Assim como “Aquarius” e “o Som ao redor”, é impossível não associar o filme ao momento político brasileiro. Crítica feroz, aqui representada na violência extremada que faz o público urrar, resgatando o instinto de proteção que todos temos dentro de nos. Não se pode julgar alguém quando este está para proteger os seus entes queridos.
O Destaque no entanto, vai para o elenco brasileiro, em uníssono, fabuloso. Os atores estrangeiros, como estão sob o signo da caricatura, fica mais difícil avaliar.
sábado, 17 de agosto de 2019
Kinky Boots- Fábrica de sonhos
"Kinky Boots", de Julian Jarrold (2005)
Deliciosa comédia musical inglesa LGBTQI+, baseada em incrível história real. A história foi encenada na Broadway com muito sucesso e uma trilha sonora composta por Cindy Lauper.
Na periferia de Londres, em Northamptonshire, existe uma tradicional fábrica de sapatos. Outrora de muito sucesso, agora está decadente. O pai de Charlie (Joel Edgerton) morre e a fábrica passa para Charlie, que não tem idéia de como administrar a empresa. Sabendo das dificuldades financeiras, Charlie é obrigado a demitir quase todo os funcionários que estão ali há décadas. Mas acidentalmente, andando em Londres de noite, Charlie salva Lola ( Chiwetel Ejiofor) de um ataque homofóbico. Lola é Drag Queen e canta em um cabaret. Os dois acabam se tornando amigos e Charlie resolve fabricar sapatos de saltos para Drag Queens, com a ajuda da funcionária Lauren. Mas Charlie precisa lidar com a homofobia de parte dos funcionários.
Carismáticos, Joel Eddgerton e Chiwetel Ejiofor dão um show em papéis bem diferentes de tudo o que eles têm feito hoje em dia. Acredito que muita gente não faz idéia de que Chiwetel Ejiofor interpretou uma Drag Queen de forma tão poderosa e verdadeira como a Lola no filme. Com músicas clássicas do universo pop, o filme seduz o espectador com divertidos números musicais e de brinde, nos oferece uma belo conto sobre aceitação.
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
Era uma vez...em Hollywood
'Once upon a time..in Hollywood", de Quentin Tarantino (2019)
Sim, Tarantino continua filmando pés femininos em primeiríssimo plano, um fetiche incorrigível e assumido. Nesse seu 9o filme, um dos Cineastas mais pops da história do cinema reconstitui a noite em que Sharon Tate, atriz casada com Roman Polansky e grávida de 6 meses, foi morta junto de um casal de amigos em uma Mansão de Los Angeles, no ano de 1969. Para contar essa história, Tarantino cria o filme mural muito comum aos filmes de Robert Altman, e que o próprio Tarantino havia se apropriado em "Pulp Fiction": várias histórias se entrecruzando até chegar a um desfecho que linka todas em uma só.
A história principal é a do ator decadente Rick Dalton (Leonardo di Caprio, brilhante). Um astro acostumado a fazer filmes de ação, ele traz sempre consigo o seu dublê de ação e faz tudo Cliff (Brad Pitt, impagável). Ele recebe um convite de um produtor de cinema, interpretado por Al Pacino, para protagonizar filmes de western spaghetti e espionagem na Itália, mas ele se recusa. Rick procura urgentemente uma forma de se reinventar, em um período em que surgem novos galãs a cada ano.
Tarantino filma tudo com um olhar compassado, sem pressa, até o final catártico. Até lá, ele não tem pressa em narrar suas histórias e crônicas de uma Hollywood que não existe mais. Narrando didaticamente as funções e temas dentro da Indústria do cinema, o filme traz um olhar nostálgico para a 7a arte repleta de paixão e com muitas referências, inclusive ao próprio cinema de Tarantino.
A trilha sonora é absurdamente eficaz, inclusive toda a parte técnica, um primor. Vê-se que Tarantino gastou bastante dinheiro aqui para reproduzir ruas inteiras.
Muitas cenas antológicas: além do desfecho. tem a cena em que Sharon vai assistir a um filme que ela trabalhou no cinema, só para testemunhar a reação da platéia. O elenco está genial, repleto de participações de toda sorte de atores que já trabalharam com Tarantino em outros filmes. O trio Brad Pitt, Leonardo di Caprio e Margot Robbie está super carismático, impossível não se apaixonar por eles. Outra que merece destaque é a pequena é Julia Butters, no papel da atriz mirim Trudi, que trabalha sob as orientações do "Método"e permanece na personagem o tempo todo. Antológica e fascinante a performance da garota.
Tragam-me a cabeça de Carmem M.
"Tragam-me a cabeça de Carmem M.", de Felipe Bragança e Catarina Wallenstein (2019)
Vindo de uma tradição de filmes experimentais, Felipe Bragança lançou em 2017 o seu filme mais acessível para o grande público, "Não devore o meu coração", que tinha como protagonista Cauã Raymond em crise existencial por se apaixonar por uma jovem paraguaia, fazendo alusão ao conflito Brasil/Paraguai.
Agora com "Tragam-me a cabeça de Carmem M.", Felipe se une à atriz portuguesa Catarina Wallenstein e juntos dirigem esse jogo de metalinguagem que apresenta em ficção e um filme dentro do filme, a figura polêmica de Carmem Miranda. Catarina interpreta Ana, uma atriz portuguesa contratada para dar vida à Carmem Miranda em um filme dirigido por uma Cineasta excêntrica e cadeirante, interpretada por Helena Ignez. O filme apresenta uma difícil convivência profissional entre a atriz e a diretora, que, exigente, procura extrair o que idealizou de sua Carmen Miranda. Mas Ana, assim como a própria Carmen Miranda em vida, sofre uma grande crise de identidade. Agredida pela mídia, que a acusavam de ter se tornado americanizada, Carmen passou boa parte de sua vida frustrada com a falta de apoio do povo brasileiro. Ana interpreta o Brasil nos dias de hoje: uma atriz portuguesa precisando viver Carmem Miranda, um ícone brasileiro. O Brasil dos anos 40 e 50 de Carmen se torna um Brasil desconhecido por todos, onde juntas e paradas militares se fazem presentes nas ruas. Nas paredes, frases de protesto contra o Governo procuram chamar a atenção das pessoas. Na primeira cena do filme, Carmen Miranda é vista jogada nas ruas, ao lado de bananas podres, e os transeuntes simplesmente a ignoram. O Descaso dos brasileiros continua o mesmo de décadas atrás.
Toda essa premissa é contada com muita ousadia narrativa, costurada com artes plásticas e uma sub-trama que envolve uma trans e uma travesti que recolhem Carmem na rua e a acolhem em seu hotel da Lapa. Também temos números musicais com canções de Carmen Miranda, cantadas em ambientes de demolição: O cassino da Urca é dos cenários mais emblemáticos do filme, totalmente destruído e simbólico na construção de um ideal de decadência da cultura no Brasil.
Curioso notar como o Cinema independente brasileiro se apegou à figura de Carmem Miranda: Gustavo Pizzi, em seu filme "Riscado", também se apropria da figura da cantora, e tendo na narrativa também uma narrativa de metalinguagem com o cinema e a vida real. A se notar também o título do filme, pêgo emprestado de um clássico de Sam Peckimpah, "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia", onde literalmente, uma cabeça é dada como prêmio. Aqui no filme, os prêmios inexistem. Existe um desejo forte de resistência, demonstrada em imagens de arquivo como o Incêndio do Museu histórico nacional e outros eventos que baixaram a guarda da auto-estima do carioca e do brasileiro.
Com um excelente elenco de apoio comandado por Higor Campagnaro, Marcos Sacramento e Lux Nègre, o filme foi selecionado em 2019 ara o prestigiado Festival de Rotterdan.
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
O Monstro do Ártico
"The Thing from another world", de Christian Nyby e Howard Hawks (1951)
Clássico de 1951 que inspirou o Cineasta John Carpenter na sua obra-prima do terror "O Enigma do outro mundo", de 1982. Baseado no conto "Who goes there?", de John W. Campbell Jr., esse filme de 1951 envelheceu bastante, tendo praticamente nenhuma tensão, ao contrário do filme de John Carpenter, que é assustador do início ao fim.
"O Monstro do Ártico" faz parte de uma leva de filmes da década de 50 que usavam o Macarthismo como base filmes com subtexto político, contrários à invasão comunista na vida social, política e cultural dos Estados Unidos. Geralmente, os filmes eram de ficção científica, e representavam os comunistas como alienígenas do mal ou monstros assassinos.
Em uma estação polar no Ártico, um grupo de cientistas e jornalistas encontram uma nave espacial enterrada no gelo. Dentro, encontram uma enorme cápsula com um corpo congelado. Ao trazerem a cápsula para a base, esse degela, trazendo de volta à vida um enorme homem que quer matar a todos.
O tal do Monstro aqui é muito semelhante à figura de Frankenstein, ao passo que no filme de Carpenter ele é um monstro disforme, que consegue adquirir a forma de qualquer um, tornando o filme mais paranóico e claustrofóbico, pois qualquer um pode ser o monstro.
O filme é muito verborrágico e tem personagens demais. Mesmo assim, vale como um registro de época, um importante momento histórico que testemunha o aterrorizante código Machartista, onde a censura imperava e técnicos de cinema de todas as áreas eram denunciados por prátIcas comunistas, na famosa lista negra.
terça-feira, 13 de agosto de 2019
Socorro, virei uma Garota
“Socorro, virei uma Garota”, de Leandro Neri (2019)
Muito provavelmente, 100% das críticas ao filme deverão mencionar a comédia blockbuster “Se eu fosse você” como uma grande referência, e é verdade. Tem a primeira cena no espelho, semelhante ao que Tony Ramos se olhava no espelho e vice versa com Gloria Pires. Tem a cena da depilação. Lá pelo terço final do filme, tem um plot twist idêntica ao do filme “A morte te dá parabéns 2”: mas não se pode dizer que o roteirista Paulo Cursino tenha pego emprestada a idéia do filme, porquê o terror teen foi lançado em 2019, ou seja, muito depois do filme brasileiro estar pronto. Coincidência, como muitos exemplos que já ocorreram em outros filmes.
‘Socorro, virei uma Garota” é uma simpática comédia romântica fantasiosa. Com um time de ótimos jovens atores, o filme tem carisma o suficiente para seduzir o espectador, alternando momentos de humor, drama e romance. Thati Lopes e Victor Lamoglia são aquele talento que todo mundo já espera, vide o grande sucesso de ambos em plataformas de youtube. A surpresa vem do elenco coadjuvante, muitas vezes roubando as cenas: Leo Bahia (Cabeça) , impagável como o amigo nerd; Lipy Adler, divertido como o playboy bobão; Lua Blanco como a irmã lésbica de Cabeça e os adultos Nelson Freitas e Vanessa Gerbelli: Nelson tem um momento revelação do personagem que bota todo mundo para gargalhar, e Vanessa garante os momentos mais delicados do filme.
Victor Lamoglia interpreta Júlio, um nerd que tem dificuldade de relacionamento com seu pai e seu irmão sarados de academia. Júlio tem paixão platônica por Milena, mas o acaso de uma chuva de meteoro, advindo de um céu estrelado ( referência ao filme “A culpa é das estrelas”, citado várias vezes no filme) , faz Jülio fazer um pedido que é atendido: ele vira uma garota, Júlia (Thati Lopes). Júliio entendeu que fez o pedido de forma errada e agora precisa reverter a situação.
O melhor do filme, é trazer para o universo juvenil, e dentro de uma comédia adolescente, o complexo tema da aceitação do Gênero sexual: lésbicas, gays precisam ser aceitos pela sociedade conservadora. E isso o filme consegue, de forma leve e divertida.
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Anima
“Anima”, de Paul Thomas Anderson (2019)
Curta de 15 minutos dirigido por Paul Thomas Anderson para promover o novo disco do Radiohead, ‘Anima”. Thom Yorke, vocalista da famosa banda inglesa, protagoniza o filme, buscando referências em filmes distópicos como “Metrópolis”, “1984” e “Pink Floyd The Wall” . O filme, sem diálogos, tem 3 canções do disco, na ordem: “Not the News”, “Traffic” e “Dawn Chorus”.
A história é simples: um homem encontra uma lancheira deixada por esquecimento por uma passageira em um trem. Ele decide entregar o objeto à moçam mas ela desapareceu e ele fará de tudo para encontrá-la.
Como qualquer filme distópico, somente o Amor quebra a barreira da apatia e da mecanização. Com coreografia deslumbrante e soberba de Damien Jalet, que fez os movimentos no filme “Suspiria”, de Luca Guadagnino, o filme aind atem a exptraordinária fotografia de Darius Khondji, fotógrafo de vários filmes de Woody Allen e da série de Nicolas Winding Refn, “Too old to die Young”. A slocações foram filmadas em Praga e em Le Baux de Provence, na França. Rodado em película, o filme tem como objeto de amor do protagonista a esposa de Thom York, Dajana Roncione. Todos, do elenco e elenco de apoio, dançam coreografias vigorosas e instigantes, reproduzindo movimentos de maquinaria de uma fábrica.
Um espetáculo visual que deve, segundo recomendações, ser escutada com volume máximo.
Vivendo no abandono
“Living in oblivion”, de Tom DiCillo (1995)
Não há nada mais prazeroso para um Cinéfilo do que assistir a um filme que tem os bastidores do cinema como pano de fundo. Todo mundo tem “A noite americana de Truffaut como filme de cabeceira, e provavelmente, alguns têm “Vivendo no abandono” como um filme xodó. Cult absoluto, “Vivendo no abandono” é daqueles filmes que é sempre bom rever, e perceber a cada revisão o quanto ele é perfeito em todos os aspectos: elenco, roteiro e direção primorosos. O Roteirista e diretor Tom DiCillo começou sua carreira como fotógrafo, inclusive fotografou os primeiros trabalhos de Jim Jarmusch, “Estranhos no Paraíso” e “Coffee and cigarretes”.
No filme, acompanhamos a rotina de uma diária de filmagem de um filme de baixo orçamento, realizado dentro de um estúdio. Todos os problemas existem ali: Diretor inseguro, atriz que tem um caso com o ator e acabam se desentendendo, assistente de direção estressada, fotógrafo estrela que quer mandar na direção, foquista que erra o foco, máquina de fumaça que não funciona, ator anão que reclama de ser escalado por ser anão, continuísta que dá em cima do ator...enfim, quase uma reprodução de “A noite americana”, mas com um sabor de filme independente americano.
Os atores estão impecáveis em seus papéis, e é impressionante o quanto carregam a persona das funções do cinema, trabalhados nas caricaturas mas mesmo assim, divertidíssimos: Steve Buscemi como o cineasta, Catherine Keener como a atriz problemática, Dermot Mulroney como o fotógrafo mandão, Danielle von Zerneck, excelente como a assistente de direção e Peter Dinklage em início de carreira como o anão.
Noite do Slasher
“Night of the slasher", de Shant Hamassian (2015)
Premiado em importantes Festivais de terror, “Noite do Slasher” é um terrir que brinca com todas as convenções dos filmes do gênero, algo que a série “Pânico” já havia feito.
Uma garota, Janelle, aguarda a chegada de um serial killer em sua casa. Ela quer vingança. Para isso, ela enumera uma lista com todos os clichês de filmes de terror: ambientação anos 80, ficar semi-nua, fazer sexo, etc. Quando o serial killer surge, mais clichês: ele é indestrutível, ele usa máscara.
O diretor e roteirista Shant Hamassian brinca com estilo, e se apropria da idéia do plano-sequência, que aqui na verdade, possui cortes discretos em chicotes de câmera. A maior brincadeira é o serial killer usar a máscara do Spock de ‘Star Wars”, com a cara do ator Leonard Nimoy. Para quem não sabe, em “Halloween”, a máscara de Mike Meyers era uma reprodução do rosto de Willian Shatner, o Capitão Kirk.
Link para assistir ao filme
https://vimeo.com/127454533
Meu amigo Enzo
“The Art of Racing in the Rain”, de Simon Curtis (2019)
Malditos filmes com cachorros que fazem a gente chorar mil litros. Mas sério, o que mais me chamou atenção nesse sensível e lacrimogêneo filme foi rever o ator Martin Donovan, ator fetiche de quase todos os filmes do cineasta independente Hal Hartley, fazendo papel de avô!!!! Nos anos 90 ele era galã dos filmes de Hartley, e agora, interpreta o avô da menina Zoe, filha do casal Denny (Milo Ventimiglia) e Eve (Amanda Seyfried).
Denny (Milo Ventimiglia, ator da série “This is us” e filho de Rocky Balboa no filme “Creed”) interpreta um piloto cujo sonho é fazer parte da corrida de Fórmula 1. Solteiro, ele compra um filhote de Golden Retriever, e dá o nome de Enzo, em homenagem a Enzo Ferrari. Entre aulas, corridas frustradas e passeios com Enzo, Denny conhece a professora de inglês Eve. Eles namoram, casam e têm uma filha, Zoe. Mas Denny, por conta das corridas está sempre ausente nos momentos-chaves de Eve. Até que ela descobre estar com câncer terminal.
Como se vê, o filme aposta em vários truques para arrancar de qualquer jeito lágrimas dos espectadores: tem personagem com doença terminal, tem cachorro que cresce e envelhece, tem avôs que querem a guarda da filha. O filme cativa pelo bom elenco que dá conta dos personagens, e claro, pelo carisma do cachorro Enzo. O filme aposta na fórmula do excelente “Quatro vidas de um cachorro”: dá voz ao bicho, que passa o filme todo tendo reflexões sobre querer ser um ser humano. A voz é de Kevin Costner. Seus pensamentos são entre divertidos e filosóficos, muitas vezes ficando exagerados. Mas é um filme para apaixonados por cachorros, realizado pela mesma produtora de “Marley e eu”, daí já dá para sacar o que vem no final.
O Diretor inglês Simon Curtis realizou os ótimos “7 dias com Marylin” e “Adeus, Christopher Robin”. Para os brasileiros, um sabor especial: o filme homenageia Ayrton Senna diversas vezes.
domingo, 11 de agosto de 2019
Cada vez que eu morro
“Every time I die”, de Robi Michael (2019)
Drama de suspense sobrenatural, traz elementos de “Feitiço do tempo” e “Amnésia”, dois grandes cults do cinema. A questão é que o roteiro aqui tem uma história simples, mas executada com tanta complexidade, principalmente na edição, que acaba tornando o filme confuso. O filme vai e volta no tempo, e o espectador só começa mesmo a entender lá pelo meio do filme. Até então, pelo menos eu, achei tudo uma piração, e mesmo sabendo que era uma fantasia, tava querendo acreditar no que estava vendo. Deixe a mente livre para reencarnação e espiritismo e aí sim você poderá encontrar interesse no projeto.
Sam e Jay trabalham juntos como paramédicos e são melhores amigos. Ambos vão passar um final de semana na casa de campo de Tyler e Mia. Tyler é um mariner e retorna para o lar após um ano de serviços militares. Sam e Mia são amantes e quando Tyler descobre, o mata na beira do lago. Imediatamente, o espírito de Sam reencarna em Jay, e dessa forma, ele tenta impedir que Tyler mate outras pessoas. No flashback, Sam, quando criança, foi acusado de ter matado sua irmã menor, que foi encontrada afogada no lago. Esses dois tempos se mesclam na mente de Sam, que tenta compreenderêele reencarna no corpo de outras pessoas toda vez que morre.
Se o Diretor e roteirista Robi Michael tivesse realizado o filme pensando no espectador e menos em estilização e intelectualização, o filme teria sido muito mais interessante. Como falei antes, a história é simples, mas Robi quis “dourar a embalagem”, e dessa forma, irá afastar boa parte do público que até iria se interessar nessa história que de fato tem elementos curiosos. O elenco funciona a contento, apesar da caricatura na figura do Mariner Tyler, muito óbvio na construção do ‘white american” nacionalista e psicopata.
Num ano com 13 luas
“In einem Jahr mit 13 Monden ”, de Werner Fassbinder (1978)
Realizado com extrema rapidez em 1978, “Num ano com 13 luas” é uma resposta de Fassbinder ao suicídio do Ator Armin Meier, também namorado do cineasta alemão, que o acusava de negligenciar o seu amor e não lhe dar atenção. Fassbinder se sentiu culpado pela morte de overdose de Meier e decidiu seguir até Frankfurt e rodar esse denso e provocativo drama assumindo quase todas as funções técnicas: Direção, roteiro, fotografia, câmera, direção de arte, montagem. O título significa que 1978 é um ano de 13 luas, e que esse fenômeno provoca em algumas pessoas uma tristeza profunda.
A protagonista do filme é Elvira, uma mulher trans (em atuação impecável de Volker Spengler). Antes de transitar, Elvira era Erwin, funcionário de um matadouro e casado com Irene, com quem teve uma filha, Marie Anne. Erwin no entanto se apaixonou pelo colega de trabalho, Anton, que disse ser impossível manter um relacionamento com Erwin, a não ser que ele se torne uma garota. Erwin resolve seguir até Casablanca e faz a mudança de sexo. Ao retornar como Elvira, ela sofre um duplo baque: Anton a rejeita, assim como sua esposa Irene. Elvira acaba se relacionando com um Ator, Christoph. Durante anos, eles se apaixonam, com Elvira sustentando o amante, mas quando Christoph passa a trabalhar, rejeita Elvira e passa a desprezá-la.
Fassbinder realiza um de seus filmes mais cruéis, e transforma Elvira em uma personagem aonde ele despeja todo o seu rancor pela sociedade: ela sofre, é desprezada, humilhada, espancada. Logo no prólogo do filme, buscando um pouco de amor, Elvira vai até um lugar de pegação gay, mas é espancada pelos gays que descobrem que ela é uma trans. Em 1978 Fassbinder já foi vanguarda ao tratar do tema da Trasnfobia entre a própria comunidade gay.
Fassbinder faz várias referências cinematográficas: além dos melodramas clássicos de Douglas Sirk, fonte eterna de seus dramas com protagonistas femininos, temos “Amarcord”, de onde vem a trilha sonora de Nino Rota, acompanhando as entradas em cena da prostituta Zora. Na apresentação de Anton, o vemos já milionário, assistindo na tv a cena da parada com as mulheres do filme “O meninão”, com Jerry Lewis e Dean Martin.
Duas grandes polêmicas surgiram por causa do filme: o personagem Anton é um judeu sobrevivente dos campos de concentração. Logo depois se tornou um milionário, aprendendo a ganhar dinheiro com informações de judeus que foram mortos nos campos. Se tornou um homem desprezível e frio. Fassbinder foi acusado por boa parte da mídia de anti-semitismo. Outro momento desconfortável, é na famosa cena do suicídio de um ex-funcionário de Anton. Elvira presencia o homem se preparando para se matar, e nada faz: ele se enforca na sua frente, com todo um ritual de preparação. Essa cena seria uma forma de Fassbinder se colocar no lugar de Elvira como se testemunhasse o suicídio de Armin e nada fez para impedir.
Depressivo mas ao mesmo tempo fascinante, “Num ano de 13 luas” é um filme obscuro de Fassbinder que tive o prazer de descobrir ao assistir a um documentário sobre a obra do cineasta.
O.D. Overdose digital
“O.D. Overdose digital”, de Marco DeBrito (2007)
Vencedor do prêmio de melhor ator em curta para Francisco Gaspar no Festival de Gramado e de melhor fotografia em Paulínia, esse curta de 2007 de um dos novos talentos do gênero terror Marco DeBrito é um excelente exercício de estilo, muito provavelmente tendo “Requiem para um sonho”, cult de Darren Aranofsky como referência.
Dividindo a tela em várias e fazendo uso de câmeras acopladas ao corpo, exatamente como em ‘Requiem”, o filme narra o encontro entre um Traficante, Zelão (Gaspar) e um viciado (Leonardo Miggiorin). Zelão tortura o rapaz psicologicamente, e sente prazer imenso ao ver o rapaz ficando cada vez mais tenso. Nesse embate verborrágico, o diretor e roteirista brinca com estilo e extrai o melhor de seus atores.
Link para assistir ao filme.
https://vimeo.com/user8311254
Apóstolos
“Apóstolos”, de Marcos DeBrito. O Cineasta Marcos DeBrito (2017)
é especializado em filmes de terror. Na sua filmografia, tem a co-direção do terror teen ‘Condado Macabro” e outros curtas premiados. Em ‘Apóstolos”, Marcos, que também escreveu o roteiro, cria uma fábula macabra sobre um Homem sem cabeça!!!!! Que deseja reproduzir a mesa da última ceia, com cabeças de vítimas representando os Apóstolos!!!!! No entanto, ainda falta a cabeça de Judas, e o Homem sem cabeça parte para a sua nova empreitada fatal.
A curiosidade da trama é que ela remete a uma das personagens de “Game of Thrones”, Arya, quando ela faz parte da seita de Deus de muitas faces. No curta, o homem vai trocando de cabeça com as suas vítimas, todas decepadas.
Os efeitos são incríveis, e a direção de Marco transmite um clima de decadência moral e social, através da bela fotografia de Lucas Loureiro. No elenco, Francisco Gaspar, Marcelo Argenta, Thaty Taranto, Gabriel Muglia e Jesus Machanoscki, no papel do próprio, se divertem bastante em suas cenas viscerais.
Link do curta
https://www.youtube.com/watch?v=3V6-F4e50YI
Trauma
“Trauma”, de Lucio A. Rojas (2017)
Há tempos eu não assistia a um filme que me deixava tão irritado com o roteiro e com a forma como o Diretor manipula o espectador. Lucio A. Rojas é um cineasta chileno que produz filmes de terror independente com extrema violência, no estilo “O albergue” e “A Serbian film”. É desse último filme sérvio, condenado e proibido em vários países, que o filme chileno mais se aproxima.
Pense numa cena onde o filho é obrigado a estuprar sua mãe! O pai é um General da ditadura chilena, no ano de 1978, e descobre que a esposa está envolvida com revolucionários. Ele a espanca e a tortura, e o clímax é obrigar o filho adolescente, Juan, a estuprar sua própria mãe. Em outra cena, esse mesmo filho, agora sendo “educado” pelo pai a praticar atos horrorosos com os revolucionários presos, é obrigado a estuprar um bebê!!! Para quem assistiu a “A serbian film”, imediatamente se lembrou da cena mais repugnante da história do cinema.
“Trauma” é assim: um filme que provoca as piores sensações no espectador. Nos dias de hoje, 4 amigas decidem viajar até uma cidade no interior do Chile. Elas se perdem e vão parar em uma cidade inóspita. Lá, elas são estupradas e assassinadas com requinte de crueldade pelo já crescido Juan e seu filho, também treinado para praticar o mal.
Em 1:40 horas, o filme desfile um rol de cenas que fazem “Jogos mortais” virar filme de criança. Não à tôa, a produtora se chama “Artexploitation” , deixando claro que é filme feito para explorar violência e sexo. Ara quem é fã daqueles filmes dos anos 70, que misturavam nazistas torturadores, lésbicas e muito sexo, vai adorar “Trauma”. Tem um casal de lésbicas que passam metade do filme fazendo sexo, e a outra metade, tendo as vísceras cortadas.
Eu gosto de filmes “Torture porn”, mas precisam ter um roteiro decente. Não dá mais para assistir hoje em dia, personagens idiotas e imbecis, que toda vez que conseguem desarmar um dos torturadores ou escapar, não os matam e ainda resolvem voltar. E isso vale para todos os personagens: nenhum deles quer matar os assassinos, mesmo ele tendo já matado suas amigas!!!!!!!!! Tudo é revoltante, um ódio avassalador. No final, a vontade era de ter apagado o filme da mente de tão irritado que fiquei. Impossível indicar o filme para quem quer que seja: ou por causa da violência extrema, ou pelo roteiro indigente.
Parasita
“Gisaengchung”, de Bong Joon Ho (2019)
Pasmo que essa obra-prima de Bong Joon Ho não tenha ganho a Palma de Ouro de roteiro em Cannes 2019. De lá, ele saiu com o prêmio máximo, a Palma de melhor filme. Mas é o caso de roteiro, escrito pelo próprio diretor, com tantas reviravoltas surpreendentes que fica impossível não mencionar o primor da escrita.
O Sul coreano Bong Joon Ho já é conhecido por cinéfilos do mundo inteiro, tendo realizado filme extraordinários como “Mother”, “O Hospedeiro” e “Memória de um assassino”, além do ótimo “Okja” e do curioso “O expresso do amanhã”.
Aqui, as lentes poderosas de Joon Ho apontam para uma cruel e violenta fábula sobre os ricos e os pobres, e a tentativa de ascenção dos menos abastados. A família Kim Ki-taek (Song ang Ho, protagonista de quase todos os trabalhos do cineasta) mora com sua família ( esposa e casal de filhos) no porão decadente de um prédio na periferia de Seul. Todos desempregados, eles vivem de pequenos golpes. Quando um amigo rico do filho o procura, oferecendo para ele ser professor de inglês de uma adolescente milionária, a família encontra a chance que tanto esperava para saírem do buraco. Um a um, eles vão se empregando na casa, e para isso, armando golpes para desempregarem os empregados da casa e assumirem os seus lugares.
Variando em tons, que vão da comédia ao suspense, drama e até elementos de terror, o filme se aproxima mais da metáfora de “O hospedeiro”, que mesmo sendo um filme sobre um monstro que ataca a cidade, não deixa de ser um simbolismo para falar da família e da importância da união e do laço entre os membros. Como quase todo filme sul coreano, os personagens são retratados com uma caricatura que estimula o olhar do espectador para as diferenças, aqui no caso, de classes sociais e de comportamento. De anti-heróis, a família de Kim vai se tornando heroica, deixando claro que mesmo entre os golpistas, existe amor e compaixão.
O filme tem muitas referências ao cinema dos irmãos Coen, especialistas em reviravoltas na trama e tornando tudo menos óbvio. Muitos pontos altos no filme: o elenco absolutamente espetacular, a direção de Joon Ho, repleta de maneirismos criativos, a fotografia que emoldura com cores os ambientes deixando bem distintas as castas econômicas e a trilha sonora, variando com o gênero.
Uma cena exemplar e antológica: a da inundação no bairro de Kim. Genial!
Histórias assustadoras para contar no escuro
“Scary Stories to Tell in the Dark”, de André Ovedral (2019)
Dirigido pelo Cineasta norueguês do ótimo “O Caçador de Trolls”, e co-escrito e produzido pelo mexicano Guillhermo del Toro, “Histórias assustadoras para contar no escuro” é baseado na série de livros homônimos publicados a partir de 1981 e escrito pelo americano Alvin Schwartz , que desenvolveu nos livros contos de terror para crianças. Os livros tinham ilustrações assustadoras feitas por Stephen Gammell
e durante anos, foram proibidos de serem doados em bibliotecas públicas.
O filme tem como base um grupo de adolescentes no ano de 1968, na cidade do interior Mill Valley. Os homens eram obrigados a se alistar na Guerra do Vietnã e Nixon inflava o nacionalismo nos Estados Unidos. Diante desse quadro caótico, os amigos Stella, Auggie e Chuck procuram se divertir na noite de Halloween. Cada um tem seus problemas familiares, mas o que os une é o bullying praticado pelo rebelde Tommy contra os 3. Quando os 3 resolvem se vingar de Tommy, acabam fugindo com a ajuda do mexicano Ramon, que desertou do alistamento. Eles se refugiam na mansão abandonada da família de Sarah Bellows. Sarah durante décadas foi considerada autora de crimes que vitimaram crianças. Ela ficou trancada no porão de sua mansão pela sua família. Lá, ela escreveu contos de terror. Stella encontra o livro e leva. A partir daí, o livro escreve suas próprias histórias, e cada um dos jovens presentes na mansão está fadado a morrer através de monstros que habitam o imaginário deles.
O filme é uma mescla de “O iluminado”, “Dead note”, “Premonição”, a série “Stranger Things”, “It a coisa”, "A mosca", “A noite dos mortos vivos” e várias outras referências de terror para a geração nerd. Só a cena extraordinária no corredor vermelho do hospital já valia o filme. Primorosa, com uma fotografia e edição de som fantásticas, a cena é um show de Direção. Muitas outras cenas são primorosas. O elenco juvenil é competente, os efeitos especiais, bem ao gosto do estilo de del Toro, com seres fantásticos que parecem ter saído de “O Labirinto do Fauno”. Suspense, drama e suspense em doses que irã satisfazer os fãs de terror.
sábado, 10 de agosto de 2019
Light of my life
“Light of my life”, de Casey Affleck (2019)
Longa de estréia do Ator Casey Affleck, que também escreveu o roteiro. Affleck já havia dirigido um documentário em 2010, “I’m still here”, sobre o seu amigo Joaquim Phoenix. Affleck escolheu um tema complexo para o seu debut na ficção: Um filme apocalíptico, onde só existem homens. Há 9 anos atrás, uma pandemia dizimou as mulheres do mundo. Affleck é um pai de uma menina de 11 anos, Rag, a única representante feminina do mundo. Ela tem 11 anos de idade, e o pai ( o personagem do pai não tem nome) quer que ela se comporte como um garoto, vestindo e cortando os cabelos dela como um menino. O pai quer protege-la do mundo, com medo de que os homens a sequestrem e estuprem. Aonde eles vão, se sentem constantemente ameaçados. Até que começam a desconfiar de Rag, que já está em fase de puberdade e passa a questionar o seu lugar no mundo.
Brilhante fábula que reflete os papéis dos homens e mulheres no mundo. Affleck, que foi acusado de assédio sexual, parece querer pedir desculpas às mulheres nessa distópica fantasia, deixando claro a importância do feminino na sociedade. A personagem Rag vai aos poucos questionando a sua transição para menino, e inconformada, decide aceitar o sue papel de mulher, o que assusta o pai, que teme que ela seja eliminada do mundo. O filme , apesar de lidar com o fantástico, tem uma metáfora muito clara por trás de sua história. Casey Affleck foi bastante ousado, não abrindo concessões para que seu filme se tornasse mais comercial. Os elementos aqui são muito semelhantes ao de “A estrada”, suspense com Viggo Mortensen também sobre um pai que quer defender seu filho de um mundo que se torna canibal. Mas em Á estrada”, não há espaço para filosofias, é mais centrada na ação. No filme de Affleck, existem cenas extremamente longas e verborrágicas entre pai e filho ( Atuações brilhantes de Affleck e a menina Anna Pniowsky. Só o prólogo, dos 2 personagens na cama e ele contando uma história de ninar, dura mais de 10 minutos.
Quem busca um filme de ação, passe bem longe. Quem deseja conferir um olhar mais autoral e instigante sobre futuros distópicos, é bem provável que vá gostar do filme, que mesmo assim, se tivesse uns 20 minutos a menos, teria sido bem melhor.
Uruguai na Vanguarda
“Uruguai na Vanguarda”, de Marco Antonio Pereira (2019)
Distribuído pela Cavideo, “Uruguai na Vanguarda” traz uma interessante análise de um dos menores Países da América Latona, mas que se tornou uma referência para o Mundo em se tratando de avanços sociais e econômicos para o bem da sociedade: Leis que protegem a igualdade de gênero, a regulamentação da maconha, a lei da interrupção do aborto até 12 semanas, Direitos trabalhistas para todos e a liberação do Candombe, ritmo africano que se misturou à cultura de um País majoritariamente branco. Repleto de depoimentos de moradores, políticos, consumidores de maconha, representantes de movimentos LGBTQ+, feministas, sociólogos e historiadores, o filme faz uma pesquisa sobre a origem do País, e também, sobre hábitos e costumes antes e pós ditadura. Após a ditadura, que durou de 1973 a 1985, segundo depoimentos, 4 anos depois já havia uma pauta no Congresso apoiando uma cota de mulheres na política. O Uruguai sempre esteve na frente desses avanços todos. O tamanho do País e o fato de ser um Estado laico com certeza ajudaram muito a ser implementadas as leis.
Com uma boa dinâmica e trilha sonora, o filme traz um painel curioso e didático sobre o nosso vizinho, e nos faz sair do cinema pensando a gigantesca diferença que existe entre o Brasil e o Uruguai.
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Mulheres armadas, homens na lata
"Rebelles”, de Allan Mauduit (2019)
Com esse título divertido em português, nenhum cinéfilo tem dúvida de que o Distribuidor quer seduzir o fã clube de Tarantino Guy Ritchie, e com toda a razão. O filme reúne todo o estilo narrativo, personagens bizarros dos 2 cineastas, ainda trazendo elementos icônicos da filmografia de ambos: hiper violência, trilha sonora que faz referência ao universo pop e do faroeste de Sergio Leone, e a indefectível cena onde todos os personagens apontam as armas um para o outro, cena que Tarantino criou em “Cães de aluguel” mas que já havia roubado de cults de Hong Kong.
A diferença agora é que houve inversão dos protagonistas: as mulheres é que comandam a história. Elas são totalmente “Bad asses”: dão porrada, apanham, dão tiros e não têm dúvidas sobre que decisão devem tomar, além de cuidar dos afazeres do lar e do trabalho. Os homens aqui são todos escórias: ladrões, trapaceiros, assediadores.
Sandra, Nadine e Marilyn trabalham em uma fábrica que produz latas de pescados. Apáticas com a vida que levam, repletas de problemas pessoais, elas não sabem como sair dessa fim de poço. Ao tentar evitar um assédio de um traficante, Sandra acaba provocando um acidente, e o traficante morre. Elas descobrem uma mala repleta de dinheiro, decidem mandar o corpo do traficante para o triturador e enlatar tudo e ficarem com a grana. O que elas não esperavam, é que os donos do dinheiro sujo fossem aparecer e fazer de tudo para reaver.
A grande força do filme é o carisma das personagens e o talento das atrizes, que se divertem nessa fábula de humor negro. Cecile de France, Yolande Moreau e Audrey Lamy estão sensacionais. São anti-heroínas que o espectador irá amar torcer a favor, por mais merda que elas façam para si mesmas e para os outros. A sequência final, do tiroteio na casa, é um primor de direção e de non sense.
Piranhas
“La paranza dei bambini”, de Claudio Giovannesi (2019)
Esse filme é uma porrada! Nada muito diferente da situação que vivemos aqui no Brasil ou qualquer país do terceiro mundo: a escalada da violência nas periferias das grandes cidades, tendo agora como mentores do crime, adolescentes totalmente desprovidos de família, educação ou assistência social. É uma geração com pressa de acontecer, de ficar rico, de dizerem ao mundo que existem e saírem do anonimato.
“Piranhas” é a gíria que se dá aos jovens sedentos de Poder que entram na Máfia italiana. Mais precisamente, na Máfia de Nápoles. O adolescente Nicola ( em sua estréia no cinema, um não ator, impressionante) mora com sua mãe e sue irmão pequeno em um pequeno sobrado. Cansado de ver a máfia local cobrando impostos da lavanderia decadente de sua mãe Nicola resolve tomar satisfação com o mafioso do bairro. Nicola acaba apanhando, mas repleto de Poder, se oferece para trabalhar para o chefão, cobrando impostos de comerciantes. Logo, Nicola e sua gangue passam a ganhar dinheiro, cheirar pó, circular com mulheres, tudo aquilo que a vida de luxo da cartilha do traficante demanda. Mas Nicola se apaixona por Letizia, que mora em um bairro comandado por outra Máfia, e assim, se inciia a sua derrocada.
Escrito por Francesco Di Napoli, um dos roteiristas da série de sucesso “Gomorra”, de onde também vem o diretor Claudio Giovannesi, “Piranhas”tem ingredientes de todos os clássicos da Máfia “Era uma vez na América”, “Scarface”, “Os bons companheiros. Amizade, amor, traição são os temas comuns a esses filmes. O que difere esse filme dos outros, é o olhar realista sobre esse mundo sem perspectiva, sem glamour, sem piedade. No elenco, impressionantes jovens não atores dando vida a seus personagens raivosos, aliados à estética da câmera na mão que segue seus personagens, como nos filmes dos irmãos Dardenne. Mesmo não trazendo nada de novo na dramaturgia ( e mesmo assim, levando o Urso de Ouro de melhor roteiro no Festival de Berlin 2019), o filme comove pela dura realidade que destrói gerações. Aqui como lá na Itália, os sonhos estão sendo dizimados desde o berço.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Os mortos não morrem
“The dead don't die”, de Jim Jarmusch (2019)
Filme que abriu o Festival de Cannes 2019, “Os mortos não morrem” é a incursão de Jim Jarmusch no universo dos zumbis. Jarmusch já havia trabalhado com o gênero terror em “Amantes eternos”, com vampiros como protagonistas. Mas todo mundo que adora os mortos-vivos sabe que eles são uma metáfora contra o capitalismo, fascismo e que os zumbis representam uma sociedade morta e apática. Aqui não seria diferente. Jarmusch joga o seu petardo na América de Donald Trump, com direito a um monólogo existencialista de um eremita mendigo representado por Tom Waits, dando um tom sombrio e melancólico a um mundo que caminha para o Apocalipse.
Jarmusch traz um elenco fabuloso para dar vida a essa paródia/manifesto: Adam Driver, Bill Murray, Tilda Swinton, Danny Glover, Selena Gomez, Chloë Sevigny, Steve Buscemi ( fazendo aquele tipo rabugento que só ele sabe fazer) e para fechar a chave de ouro das participações estelares, Iggy Pop no papel de um zumbi viciado em café.
Aliás, os zumbis desse filme agem como seres humanos e têm desejos mundanos como qualquer um teria: querem wi-fi, vinho, roupas da moda. Em Cleverland, cidade com menos de mil habitantes, a pacata e monótona rotina é quebrada quando a noite demora a se pôr. Celulares não funcionam mais, relógios param, tudo causado pela extração de petróleo nos polos sul e norte que mexeram com o eixo da rotação terrestre. Essa ação do homem contra a natureza provoca o reavivamento dos mortos, e os zumbis passam a atacar os moradores da cidade. Entre eles, os policiais Cliff, Ronni e Mindy (Murray, Driver e Sevigny). Tilda Swinton interpreta uma médica legista meio dublê de Mestre Yoda, com direito a quimono e espada e sabedoria oriental para matar os zumbis.
A brincadeira de Jarmusch é provocar o espectador: quem são os zumbis? Os mortos-vivos, ou os vivos apáticos que agem como pessoas mortas? Ë divertido rever Bill Murray, Adam Driver e toda essa galera interpretando naquele estilo bem de Jarmusch, totalmente apáticos, sem vida, dando falas pausadas. Os zumbis são caracterizados como os seres dos anos 80 de George Romero, totalmente trash, sem o apelo computadorizado de “The walking dead”. Inclusive quando um é morto, sai fumaça preta de seu corpo.
Divertido no início, o filme vai perdendo graça quando se torna repetitivo. Se fosse um curta, seria uma obra-prima. Como longa, fica valendo a brincadeira de um dos grandes cineastas americanos, que decidiu fazer uma crítica à sua maneira do mundo em que vivemos.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
Sugar
“Sugar”, de John Palmer (2004)
Drama independente LGBTQ+ Canadense, ‘Sugar” lembra muito aquela estética suja e autoral dos primeiros filmes de Gus Van Sant, como “Mala noche”, ‘Drugstore cowboy” e “My own private Idaho”.
Adaptado de crônicas escritas pelo Cineasta queer Bruce la Bruce, ‘Sugar” é ousado na forma e no conteúdo, apresentando ousadas cenas de sexo e nudez, repletas de fetiches.
Cliff acaba de fazer 18 anos. Gay enrustido, ele mora com sua mãe e sua irmã de 10 anos. A mãe lhe dá de presente um skate. A irmã é mais direta a assunto: dá ao irmão uma garrafa de vodka e um mapa da cidade onde existe um gueto gay, e recomenda ao irmão que perca a virgindade nessa noite. Ele segue o conselho da irmã e vai parar em uma rua de prostituição masculina. Ele conhece Butch, um michê por quem fica apaixonado, e o segue pelas ruas e baladas. Os dois ficam amigos, mas Cliff insiste em querer algo mais de Butch, que evita um relacionamento.
O filme tem divertidas cenas envolvendo os clientes de Butch: masoquistas, uma mulher obesa, voyeurs, etc. Os atores que interpretam os clientes são muito realistas, e acredito que são não atores. A fotografia granulada, a direção de arte, o ambiente underground, tudo dá um tom de decadência ao filme, que é ambientado nos anos 80. Sexo, drogas e rock’n roll protagonizados por 2 jovens atores que embarcam na visceralidade: Andre Noble como Cliff, e Brendan Fehr como Butch.
Fassbinder
“Fassbinder”, de Annekatrin Hendel (2015)
Sou apaixonado pela filmografia do Cineasta alemão Werner Reiner Fassbinder, morto aos 37 anos em 1982, de overdose. Fassbinder viveu uma vida de excessos: álcool, drogas, amantes. Bissexual, Fassbinder começou sua carreira nos anos 60 como Ator, e foi ali que ele descobriu sua paixão por cinema. O documentário, dirigido e escrito pela Cineasta Annekatrin Hendel apresenta imagens raras de entrevistas com Fassbinder e de cenas dele ainda jovem atuando nos palcos. Depoimentos de atrizes que trabalharam com Fassbinder, como Hannah Schygulla, Margit Carstensen, Irm Hermann além de produtores, assistentes de direção, editores e colaboradores, ajudam a criar um perfil sobre quem foi esse polêmico e apaixonante homem que colocava o trabalho na frente de tudo em sua vida. Fassbinder dirigiu 43 longas em poucos anos, além de ter dirigido a série de tv mais cara na Alemanha até o ano de 1980, “Berlin Alexandreplatz”, com quase 16 horas de duração.
Logo no seu primeiro filme, “O Amor é mais frio que a morte” em 1967, foi selecionado para o Fetsival de Berlin, recebendo enormes vaias. No ano seguinte, com “O Machão”, ele novamente foi para o Festival. Fassbinder montou uma comunidade cinematográfica em um apartamento: ali vivia a equipe técnica e atores que trabalhavam com ele, realizando filmes com baixo custo. Ele alternava a direção com trabalhos como ator em produções de importantes cineastas, como Volker Schloendorff, com quem protagonizou “Baal”. Fassbinder odiava pagar impostos, e acabou devendo mais de 200 mil marcos em impostos. Sua mãe acabou assumindo a função de Diretora de produção seu seus filmes para administrar as finanças. O filme traz depoimento das atrizes que trabalharam com ele em “Lágrimas amargas de Petra Von Kant”, e elas denunciam o quanto Fassbinder era cruel: dizia segredos íntimos das atrizes para a equipe técnica, as obrigava a decorar textos enormes de uma hora para outra, tudo para fazê-las entrar no estado emocional das personagens. Fassbinder era conhecido pelo seu terrível gênio, e constantemente maltratava equipe e elenco, além de seus amantes, que ele costumava escalar para os filmes. Tinha total desprezo pelo método de Stanislawsky e não gostava de trabalhar com atores amadores. Experimentou o sucesso comercial com “O casamento de Maria Braun”, que ficou 54 semanas em cartaz no cinema Lincoln Center em Nova York. Após a morte de um de seus amantes, Armin Meier
, que morreu de Overdose, Fassbinder se afastou de algumas pessoas, se sentindo culpado pela morte dele. O filme termina com depoimentos das pessoas falando sobre o legado dele para o cinema alemão.
Para quem é fã de Fassbinder, é um documentário fundamental, mesmo que tenha um formato careta. As raras cenas de filmes e depoimento do próprio Cineasta já vale a sessão.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
Cities of last things
"Cities of last things", de Wi Ding Ho (2019)
Premiado drama Taiwanês dirigido e escrito por Wi Ding Ho, lembra bastante o visual de “2046”, filme ambicioso e futurista de Wong Kar Wai, e narrativamente remete a “Amnésia”, filme de Christopher Nolan que vai voltando ao tempo durante a sua narrativa.
“Cities of last things” se passa em 3 épocas distintas com o mesmo personagem em idades variadas, ambientadas na cidade de Taipei, capital de Taiwan.
No futuro, Zhang Dong Ling é um policial obcecado pela esposa, seu chefe Subtenente e pela filha já adulta. Após um ato de violência, o filme volta ao tempo, e mostra o mesmo personagem, agora jovem, acabando de entrar na polícia e lutando contra a corrupção dentro do departamento. Zhang Dong Ling se envolve com uma prostituta ocidental, mas novamente termina em ato de violência. Na última parte, vemos Zhang Dong Ling adolescente, praticando um roubo. Ao ser preso, ele descobre que sua mãe, que o abandonou, também está presa e está ao seu lado.
Com uma fotografia que valoriza os neons coloridos da noite cosmopolita, o filme arrebata pelo roteiro complexo mas sempre sedutor, mesclando ação, romance e melodrama. Todas as histórias possuem como tema de fundo amores frustrados. A trilha sonora impecável, de Robin Coudert, traz tintas melancólicas que ecoam por um tempo na nossa mente. Ótimo trabalho de todo o numeroso elenco. O filme ganhou inúmeros prêmios, entre eles, um especial no Festival de Toronto. O filme foi todo rodado em 35 MM.
No coração do Mundo
“No coração do mundo”, de Gabriel Martins e Maurílio Martins (2019)
A mais nova produção do Coletivo mineiro “Filmes de plástico”, que já recebeu uma centena de prêmios em Festivais mundo afora, além de terem filmes exibidos nos prestigiados Festivais de Cannes e Rotterdam, prima pela qualidade em todas as categorias. Mais uma vez, o Coletivo apresenta o cotidiano sofrido e pesado de moradores da periferia de Belo Horizonte, mais precisamente, na comunidade de Contagem. Essas figuras anônimas suam a camisa para conseguir sustentar suas casas e familiares: são motoristas e trocadores de ônibus, cabeleireiras, traficantes, motoristas de Uber, vendedores de desinfetante, lojistas. Até que um desses personagens resolve assaltar uma redidência, e para isso, conta com a ajuda de um casal de amigos.
O roteiro já vimos em centenas de outras produções, e de certa forma, nos filmes dos irmãos Coen, especialistas em protagonistas loosers. Mas no filme dos sócios e roteiristas Gabriel e Maurilio Martins, o olhar sobre os personagens não é nada apaixonado: happy end só existe no cinema. Na vida real, que o filme faz questão de retratar, a dificuldade é extrema. O filme traz um olhar documental sobre o dia a dia dessa comunidade. São muitos os personagens, mas as atenções são voltadas para 3: Ana e Selma, o casal apaixonado e batalhador, e Selma. Todos os 3 buscam “O coração do mundo”: um lugar idílico, para onde querem fugir e sair dessa periferia.
Grace Passô, que interpreta Selma, já é habitueé de Festivais e todo cinéfilo já conhece. O seu personagem parece até uma extensão da que ela interpretava em ‘Temporada”, também do Coletivo. Mas e Leo Pyrata, Kelly Crifer, Barbara Colen Robert Frank e mais uma dezena de atores com nomes curiosos? Todos são mineiros, e possuem um talento formidável. O filme mescla atores profissionais com não-atores. Entre as participações especiais, tem a de Karine Teles e Romulo Braga. Karine alíás, protagoniza uma das cenas mais divertidas do filme, a do prólogo, que tem como música de fundo “Love by Grace”, um clássico pop romântico de novela da Globo.
O filme privilegia planos-sequências muito bem armados, em especial, o da cena de Grace Passô na escola, sendo enquadrada por uma filmadora.
Front cover
“Front cover”, de Ray Yeung (2015)
Drama romântico LGBTQ+, “Front cover” ganhou diversos prêmios em Festivais internacionais, e foi escrito e dirigido pelo Cineasta de Hong Kong Ray Yeung. O Cineasta colocou no filme um pouco da sua experi6encia pessoal: ambientado em Nova York, o protagonista Ryan é um jovem chinês nascido nos Estados Unidos, Figurinista de sucesso de uma empresa de publicidade, ele produz capas de importantes revistas. Ryan é assumidamente gay, mas renega a sua ascendência cultural chinesa. Ele se vê como um ocidental, e somente se relaciona com ocidentais. Desde que se assumiu gay, se distanciou de seus pais, que não aceitaram a sua homossexualidade. Um dia, Ryan descobre que terá que produzir uma campanha para um famoso Ator chinês, Ning, que quer abrir mercado como ator no ocidente. Ning é arrogante, cercado de mulheres. Ning é gay enrustido e por conta disso, não aceita Ryan logo de cara. Ning também provoca Ryan por ele renegar a sua cultura chinesa. Aos poucos, as diferenças entre os dois vão ganhando contorno de romance.
“Front cover” é um belo romance que tem como título uma metáfora da vida dos dois personagens: ambos vivem sob fachadas, mentindo para todo mundo a verdade sobre a sua identidade. Com ótima interpretação dos atores principais e uma direção que traz sutilezas e narrativa elegante, o filme seduz ainda pela fotografia e trilha sonora.
domingo, 4 de agosto de 2019
The jealous sea
“The jealous sea”, de Reid Waterer (2018)
Um dos curtas LGBTQ+ mais cafonas que já assisti na vida, e por isso mesmo, delicioso. Lembra daquela autora de romances de bolso, vendidos no mundo inteiro e que fazia a alegria de mulheres de todas as idades, Barbara Cartland? Imagina um romance daqueles repletos de paixão, sexo, ciúmes? Interpretado por 3 modelos lindos, mas que não são atores? Sem diálogos, como se fosse um filme mudo? Com uma trilha sonora mais épica do que a de “E o vento levou”? E claro, com muita câmera lenta e espelhos refletindo os corpos torneados dos rapazes?
“The jealous sea” parece o prólogo primoroso da animação ‘Up-Altas aventuras”: o filme conta toda uma história em flashes. 2 homens se conhecem em um parque. Eles namoram firme, apaixonados. Um deles é fotógrafo de modelos nús, e claro que o namorado vai ficar enciumado, achando que ele está namorando um dos modelos.
A direção é calcada em todos os estereótipos de romance e de filmes gays, com a lente totalmente apaixonada pelos corpos. Vale assistir.
Sinônimos
“Synonyms”, de Nadav Lapid (2019)
Vencedor do Urso de Ouro em Berlin 2019 de Melhor filme e também do Fipresci, “Sinônimos” é dirigido pelo cineasta israelense Nadav Lapid, realizador do também provocador e incômodo “A professora do jardim de infância”, que ganhou remake americano com Maggie Gyllenhall no papel da professora obcecada e psicótica.
Os protagonistas dos filmes de Nadav Lapid são assim: frutos de uma sociedade paranóica, competitiva, fria e doente. “Sinônimos” lembra bastante a estrutura narrativa de vencedor de Cannes “The square: a Arte da discórdia”. Ambos narram o filme em estrutura de sketches independentes, falam de nacionalismo, orgulho, Arte e também, abuso de Poder. São relacionamentos onde um tenta tirar proveito do outro, e usam o sexo como forma de empoderamento e dominação.
O Ator israelense Tom Mercier, na sua estréia no cinema, impressiona pela sua visceralidade e entrega ao papel de Yoav, um ex-soldado israelense que abandona o seu País e sua Cultura para se aventurar em Paris. Yoav renega a sua língua hebraica e sua cultura israelense, e quer se apropriar da cultura francesa. Ele não se vê como israelense. Yoav constantemente é passado para trás ou é abusado por outras pessoas. Ele é ajudado por um jovem casal francês, Emile e Caroline: ele querendo ser escritor, ela musicista. Emile se aproveita das histórias e Yoav, quando soldado, para escrever o seu livro. Caroline abusa do corpo de Yoav, que é uma máquina sexual.
O filme é uma espécie de autobiografia do próprio Cineasta, que assim como Yoav, migrou para a França numa tentativa de ignorar sua herança israelense. Nadav acreditava ter nascido por engano em Israel, até entender que todos os países, de certa forma, possuem seus defeitos e qualidades.
O filme abusa de câmera na mão, com cenas com imagens bastante tremidas. O título se refere à tentativa de Yoav decorar o dicionário Hebraico-francês. Com uma mistura de gêneros, que aposta no drama e no humor negro, o filme achincalha o exército israelense, assim como no ótimo “Foxtrote”, mostrando soldados em atividades como canto e violência extremada.
O filme fez muito sucesso junto ao público LGBTQ+, inclusive o filme concorreu ao Prêmio Teddy ( dedicado a filmes com temática gay) no Festival de Berlin, devido às cenas homoeróticas envolvendo Yoav e Emile. Mas sucesso mesmo é o ator Tom Mercier, que fica totalmente nú em quase 10% de suas cenas viscerais: em uma cena se masturba, e em outra cena, ao posar nú como modelo vivo para ganhar dinheiro, é obrigado pelo fotógrafo sádico a enfiar os dedos no ânus para dar “verdade” ao personagem que está interpretando. Sem contar o tamanho avantajado de sua genitália.
sábado, 3 de agosto de 2019
Mangue-Bangue
“Mangue-Bangue”, de Neville D’almeida (1971)
Filmado em 1971, “Mangue-Bangue” é um filme de contestação de Neville D’almeida, cansado de ter seus filmes censurados pela ditadura militar vigente na época. Revoltado, ele se juntou ao amigo artista plástico Helio Oiticica e juntos, criaram um “roteiro” onde descreviam várias ações, sem diálogos: travestis na Zona do Mangue, área de prostituição; hippies experimentando drogas; galos de briga se engolfinhando, em uma metáfora da tensão e da pulsão animalesca que habita em cada um de nós. E é através desse sentido animalesco que se apresenta a história que costura toda a narrativa: um homem da bolsa de valores ( Paulo Villaça, brutal) começa a passar mal e vomita dentro do prédio da Bolsa. Aos poucos, ele se joga na rua, no esgoto, e acaba como um andarilho na rua. Ele se despe das ruas e vaga nú, defecando e praticando atos escatológicos próprios do animal. No final, ele entra numa floresta, voltando ao estágio do animal antes da evolução humana.
Uma crítica cruel e violenta a todo o sistema vigente na época, e que perdura ainda nos dias de hoje, “Mangue-bangue” apresenta, além de Villaça, Maria Gladys, antológica e visceral, e o próprio Neville, em cenas vibrantes. Um filme experimental, documento da contracultura brasileira e prova viva de que o Cinema já teve seu momento de libertação.
Durante 40 anos, o filme esteve perdido, e jamais exibido no Brasil. A cópia única foi encontrada no Moma de NY, quando foi exibido lá. Restaurado e exibido em 2008, eaocntinua sme cópia existente no País.
Luz del fuego
"Luz del Fuego", de David Neves (1982)
Revendo o filme nos dias de hoje, impressiona a sua atualidade em relação a temas como censura, conservadorismo e corrupção policial e na Política.
Lançado ainda na época da ditadura, em 1982, o filme sofreu forte censura por conta de suas cenas de sexo e nudez. Dificilmente teria sido realizado nos dias de hoje: atores famosos da época, como Lucélia Santos, Walmor Chagas, Joel Barcellos, Helber Rangel totalmente nus, em uma história que celebra a nudez e que tem como motes as frases ”Toda nudez será bem recompensada” e “Todo mundo nu”.
O filme apresenta a história de Luz del Fuego pelo olhar do senador João Chagas (Walmor Chagas). Já idoso, ele conta para a sua enfermeira quem foi Luz del Fuego, durante um passeio em direção à Ilha do Sol, refúgio naturalista da personagem interpretada por Lucélia Santos. Na Ilha, ela fundou o Clube do naturismo e o Parido naturalista do Brasil, que não obteve reconhecimento. O nome Luz del Fuego foi uma inspiração de uma das cores de um batom. Ela foi vedete de Teatro de revista, e foi lá que ela conhecer o Senador. Casado, a sua carreira política foi colocada em crise por conta de seu caso com a vedete, que costumava se apresentar envolta com cobras. Luz foi assassinada na Ilha em 1967, tendo seu corpo sido encontrado no mar dias depois. Não se sabe quem foi o mandante do crime, mas muitas suspeitas foram levantadas: o próprio senador, pescadores conservadores da região, políticos ou religiosos incomodados com a sua postura.
David Neves foi um grande cronista carioca e soube como poucos colocar em seus filmes o od de viver carioca, em filmes como ‘Fulaninha”, “Jardim de Alah”, “Lucia Maccartney”. “Luz del Fuego” foi um filme bastante escandaloso na época, muito por conta de closes em genitais masculinos eretos, que até hoje viraram referência do filme dentro do imaginário popular. O filme venceu 4 Kikitos no Festival de Gramado: Atriz, Ator, fotografia e direção de arte.
A grande delícia de se rever o filme é ver a ficha técnica: a cineasta Sandra Werneck foi a assistente de direção.
Como lidar com a Morte
"How to cope with death", de Ignacio Ferreira (2002)
Premiado curta de animação do Cineasta espanhol Ignacio Ferreira, famoso pelo longa "Rugas", que também lida om temas sobre velhice, solidão e morte.
Uma idosa mora sozinha em um pequeno apartamento. Ela passa dia todo assistindo televisão. Um dia, a Morte surge para buscá-la. Mas a Morte não esperava uma reação da mulher.
Com menos de 4 minutos, o filme arrebata pela simplicidade e pela idéia absolutamente divertida, provavelmente inspirada em ‘O Sétimo selo”, de Bergman.
O final é maravilhoso, esperem até o final do crédito.
Link para assistir ao filme.
https://www.youtube.com/watch?v=UTWRZppYyzo
Síndrome de Estocolmo
”Stockholm, de Robert Budreau (2018)
Adaptação de um dos maiores casos reais de assalto a banco da história, e que deu origem ao termo ‘Síndrome de Estocolmo”, quando uma das vítimas se afeiçoa ao algoz por conta do longo período em que permanecem juntos em situação limite.
O Assalto ocorreu em Estocolmo no dia 23 de agosto de 1973, último dia de verão. O assaltante Janne Olsson, no filme chamado de Lars Nystrom (Ethan Hawke), invade um banco com uma metralhadora e anuncia o assalto. Ele mantém alguns reféns e liberta a maioria. Entre os reféns, está Bianca (Noomi Rapace), dedicada esposa e mãe de 2 crianças. Lars pede, além do dinheiro, que libertem seu companheiro de assaltos, que está preso, Gunnar (Mark Strong). Só não contavam com o método frio do chefe de polícia, que insiste em não atender aos pedidos de fuga dos assaltantes.
Impossível não se lembrar da obra-prima de Sidney Lumet, "Um dia de cão". O filme tem as mesmas características: humor negro para atenuar o drama, chefe de polícia durão, rivalidade entre os 2 assaltantes. A grande força do filme se reside no trabalho do elenco, com um time de primeira qualidade capitaneado por Ethan Hawke, Mark Strong, Noomi Rapace e Christopher Heyerdahl como o chefe de polícia. Uma pena que o filme não tenha sido rodado com atores suecos, apesar do talento dos americanos, para dar mais veracidade. A única sueca do elenco é Noomi Rapace, mesmo assim, falando em inglês
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
O homem que amava as mulheres
"L'homme qui aimait les femmes", de François Truffaut (1977)
Lançado em 1977 (Truffaut viria a falecer em 1984), "O homem que amava as mulheres" poderia até ser visto como uma livre biografia de Truffaut, conhecido mundialmente pela sua paixão por Mulheres, livros e filmes. No filme, o protagonista é Bertrand Morane (Charles Denner), um homem na faixa dos 40 anos, totalmente obcecado por pernas femininas. Bertrand é tão fascinado pelas mulheres, independente de sua idade, beleza ou profissão, que as persegue como stalker, inventa histórias, tudo para poder se aproximar delas. Bertrand não é bonito, nem rico. Apenas galanteador, romântico, e conquista as mulheres com muita lábia. O filme começa com o seu enterro, onde apenas mulheres estão no cortejo. O filme é narrado por uma dessas mulheres, Genevieve, uma editora de livros, que resolve publicar o livro de memórias de Bertrand, de título homônimo, onde ele narra as várias mulheres de sua vida.
Fico curioso em pensar o olhar de parte dos cinéfilos em relação a esse belo filme de Truffaut, nos dias de hoje. Um filme onde o protagonista tem verdadeira obsessão pelas mulheres, a um passo da psicopatia, inclusive mentindo para ter acesso a elas. Como sempre, em todos os filmes de Truffaut, o filme tem bela direção de atores, ótima fotografia, a cargo do Mestre Nestor Almendros e trilha sonora de Maurice Jaubert. O roteiro tem verdadeiros diálogos que são pérolas, frases feitas proferidas pelo protagonista que trazem o sabor da paixão.
A última noite de Caire Darling
"La dernière folie de Claire Darling", de Julie Bertuccelli (2018)
A cineasta e roteirista francesa Julie Bertuccelli, que em 2003 lançou o seu primeiro filme, o comovente "Desde que Otar partiu", buscou em Ingmar Bergman e a sua obra-prima "Morangos silvestres"a base para o seu novo filme, "A última noite de Claire Darling". Reunindo na ficção e na vida real a relação mãe e filha, através da dupla Catherine Deneuve e sua filha Chiara Mastroianni, ou Claire e Marie. Assim como no filme de Bergman, uma idosa , Claire, começa a sofrer delírios que a remetem ao seu passado, através de flashbacks que ocorrem pelo olhar dos personagens, rebuscando memórias traumáticas de seu passado, envolvendo uma tragédia familiar e o fantasma eterno da Morte, que cisma em rondar a protagonista. Mesclando realidade e fantasia, Claire imagina estar diante do seu último dia de vida. Por isso, ela abre a sua mansão, onde mora solitária e de onde não sai há 20 anos, para vender todas as relíquias que fazem parte do acervo da casa. Vendendo a preço de banana, esse tumulto acaba atraindo o retorno de sua filha Marie, que saiu de casa há 20 anos, após ter sofrido distanciamento emocional por parte de sua mãe desde a morte do irmão e do pai de Marie.
O filme é ambientado em Verderonne, um pequeno vilarejo francês, e a fotografia faz questão de trazer uma atmosfera de eterno sonho, através dos olhares dos personagens. É um filme que lembra muito "Desde que Otar partiu", por falar de relação silenciosa entre familiares, dando ao ritmo do filme um espaçamento mais largo que filmes tradicionais. As atrizes estão excelentes, e é comovente ver Deneuve e sua filha Chiara em cena, com muita emoção.
A Batalha do Passinho - O Filme
"A Batalha do Passinho - O Filme", de Emílio Domingos (2012)
"As meninas das favelas gostam de quem tem Poder. Hoje em dia, quem tem Poder é Dançarino ou Traficante".
É com essa frase emblemática que o roteirista e cineasta Emílio Domingos dá o tom de seu segundo documentário ( o primeiro, "L.A.P.A", ele co-dirigiu com Cavi Borges.
O Passinho é uma dança que surgiu nas comunidades cariocas desde 2001, mas somente em 2008, com o vídeo do Youtube chamado 'Passinho foda" que o movimento explodiu com mais de 4 milhões e meio de visualizações. A partir desse vídeo, os dançarinos competiam via Youtube ou nos próprios bailes. Em 2011, o escritor Julio Ludemir e o músico Rafael Nike promoveram a primeira Batalha do Passinho entre Comunidades, no morro do Borel. O filme pega depoimento de dançarinos que ficaram famosos, como Cebolinha, Yuri Passista, Beiçola, Brayan Dancy, João Pedro, Pablinho, TK e Gambá. O Passinho tem predomínio dos homens, mas algumas mulheres se destacam, como Leandra Perfects.
Ver as cenas das Batalhas, com crianças pequenas competindo em pé de igualdade com veteranos, é emocionante. É nítida a felicidade dos concorrentes quando expressam na dança o desejo de querer ser alguém na vida e expor seu talento. Os dançarinos são vistos como vaidosos, vestindo grifes e cortes de cabelo estilosos. Alguns deles chegaram a ir no Programa do Xuxa na Globo. Muitos desejam fazer sucesso no Mundo, cientes do grande sucesso de seus vídeos que são consumidos na Internet. Nos depoimentos, os rapazes dizem que o assédio feminino é intenso.
O dançarino Gambá foi assassinado em 201 ao voltar de um Baile de reveillon. O Passinho é um momento de Alegria na vida desses moradores de comunidade que continuam vivendo sua rotina de violência de forma contundente.
O filme ganhou o Prêmio de melhor filme na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio em 2012.
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