quarta-feira, 20 de novembro de 2024
Madame Durocher
"Madame Durocher", de Dida Andrade e Andradina Azevedo (2024)
A dupla de diretores Duda ANdrade e Andradina Azevendo tem uma filmografia bastante eclética, que vai do indie premiado em Gramado em 2013 com melhor direção e melhor fotografdia "A bruta flor do querer", passando pelo blockbuster 'Eike- tudo ou nada", e agora trazendo outra cinebiografia, mas com uma alma totalmente intimista e feminina. Aliados à produtora Rita Buzzar, do grande sucesso 'Olga", que também co-escreveu o roteiro junto de João Segall, os diretores levam às telas a história da primeira mulher a obter o título de parteira no Brasil e a se tornar membro oficial da Academia Nacional de Medicina, no período do Brasil Império, sob o comando de Pedro II. Ela é Marie Josephine Mathilde Durocher, mais conhecida como Madame Durocher. Interpretada na juventude por Jeanne Boudier e na fase adulta Sandra Corveloni, a protagonista passou por diversas tragédias em sua vida pessoal, mas sempre mantendo o foco nos pacientes, tendo feito o parto de mais de 4 mil mulheres.
O filme mostra uma sociedade misógena, machista, patriarcal e também racista. A mãe de Marie, Anne (Marie-Josée Croze) veio ao Brasil para construir sua vida e ela se vangloria de vir de uma linhagem de mulheres que sempre batalharam a vida sozinhas e independentes, sem precisar de homens para que as sustentassem. Mas a sociedade brasileira via com maus olhos mulheres independentes. Anne sucumbe à sociedade conservadora, e cabe à sua filha Marie dar continuidade ao seu legado, decidindo se tornar parteira, com a ajuda do Dr Joaquim (André Ramiro), médico negro que sofre preconceito da sociedade branca. Os diretores decidiram dar um conceito estético ao filme muito semlehante ao filme "O filho de Saul': com planos fechadosm e câmera na mão, intensificando assim a angústia e martírio de uma mulher lutando contra um mundo que lhe dá as costas. Outra referência é "Albert Nobbs", onde Glenn Close se vestia de homem para poder se igualar aos direitos dos homens e não sofrer violência nem humilhação. A fotografia, de Andradina Azevedo, é outro ponto alto do filme. O extenso e talentoso elenco chama atenção: Armando Babaioff, Adriano Toloza, Fernando Alves Pinto, Matheus Solano, Thierry Tremouroux, Clara Moneke, Junior Vieira, entre outros. Mas quem tem seu momento de brilho é Isabel Fillardis, no papel da escrava Clara: o seu monólogo para Marie é emocionante e traz a força de uma grande atriz que merece mais papéis de destaque.
Continente
"Continente", de Davi Pretto (2024)
Prêmio de melhor direção na Mostra novos rumos do Festival do Rio 2024, "Continente" é dirigido pelo porto alegrense Davi Pretto, diretor dos premiados "Castanha" e "Rifle". Com 'Continente", Pretto investe no cinema de terror, mas mantém o seu olhar para as paisagens e a solidão do ser humano diante de um mundo inóspito e vasto. Com referências a 'Grave", de Julia Ducournau, e semelhanças com os recentes brasileiros "Propriedade" e "Cidade campo", todos investindo no cinema de gênero como metáfora para falar das lutas entre patrão e proletariado e a luta de classes, "Continente" traz como protagonista Olívia Torres, em alta no cinema brasileiro com o drama "Ainda estou aqui", de Walter Salles.
Olívia interpreta Amanda, filha do fazendeiro Afonso (Anderson Vieira). Ela retorna da frança com seu namorado francês Martin (Corentin Fila), após receber a notícia que seu pai está muito doente. Eles seguem até a fazenda de Afonso, no sul do País. Chegando lá, eles são recebidos pelos empregados da fazenda, que temem a morte de AFonso. A médica da região, Helô (Ana Flavia Cavalcanti), sofre pressão dos empregados para curar Afonso, pois dependem dele para curar uma "doença" que todos são acometidos. Helô propõe m remédio paliativo, mas as pessoas não querem. À medida, que Afonso vai convalescendo, Amanda vai sentindo uma força dentro dela que ela desconhecia, deixando Martin preocupado.
O filme é uma saga sobre vampiros e herdeiros bem ao estilo do novo cinema de terror: usando o gênero para falar de temas sociais. a 1a e. a 2a parte do filme são mais focados no drama, com alguma estranheza, e somente no ato final, o filme investe no terror, e memso assim, de forma bastante estilizada, como a um ritual de iniciação. A fotografia de Luciana Baseggio é muito boa, trazendo uma ótima ambientação de pesadelo eminente. O elenco, formado boa parte por atores do sul, formam um talentoso núcleo de tipos e personagens, trabalhando com muia densidade as angústias dos empregados locais. Olívia Torres prova ser uma das melhores vozes da nova geração de atrizes brasileiras, transitando muito bem no terror, exalando sensualidade e drama à sua personagem.
Self destructive boys
"Self destructive boys", de Marco Leão e André Santos (2018)
Premiado curta LGBTQIAP+ português, "Self destructive boys" é um filme repleto de homoerotismo, malícia e sensualidade, mostrando corpos nús masculinos em nudez total. O filme tem como referência os sites onde rapazes heteros fazem cenas de sexo com outros homens por dinheiro, os chamados "gay for pay". Sites como "broke straight guys" escalam rapazes heteros para saciar os fetiches do público gay que quer ver heteros fazendo sexo. A partir dessa premissa, o site "Self destructive boys", conduzido pela dupla de diretores pornôs Victor Gonçalves e Nuno velasco escalam rapazes em audições, que topem fazer sexo com outros homens por dinheiro. Miguel (João Mota), Antonio (João Veloso) e Xavier (Miguel Cunha) são os escolhidos e seguem para uma filmagem na floresta, próximo à uma cachoeira. Após sessão de fotos, os 3 rapazes se preparam para gravar a cena de sexo. Durante o ensaio, Miguel não se sente à vontade e decide sair para mijar. Enquanto isos, todos os outros aguardam o seu retorno.
Filmado com muito improviso e bastante naturalidade, o filme diverte com momentos engraçados e também faz refletir sobre o quanto as pessoas decidem fazer qualquer coisa por dinheiro. O tema da macsulinidade é apresentado como uma pauta a ser quebrada, mas que ainda sofre resistências em quem teve uma criação estritamente conservadora.
terça-feira, 19 de novembro de 2024
In camera
"In camera", de Naqqash Khalid (2023)
Premiado drama inglês, escrito e dirigido por Naqqash Khalid em seu filme de estréia. O filme apresenta o protagonista Aden (Nabhaan Rizwan), um jovem ator inglês, filho de paquistaneses. Aden vive a rotina de fazer audições para vários filmes, mas por conta de sua fisionomia, ele não passa em nenhum. Nos cursos que ele frequenta para aprimorar a sua atuação, ele se destaca em relação aos atores brancos. Tudo o que ele consegue são pontas fazendo papéis irrelevantes (o filme começa mostrando Aden interpretando um cadáver). Aden divide seu apartamento com o jovem médico Bo (Rory Fleck Byrne), que também vive a pressão da sua profissão, e com o designer de moda Conrad (Amir El-Masry), que arrume uns bicos para Aden como modelo nas fotos. mas Aden acaba sendo contratado por um grupo de terapia, para dar vida aos parentes falecidos dos pacientes, e acaba se envolvendo na vida de um casal de terceira idade enlutado pela morte do filho.
Em diversos momentos o filme me fez lembrar de "La la land", com Emma Stone fazendo audições em salas com diversas sósias vestidas exatamente iguais. O filme procura lidar com a pressão profissional de uma geração na faixa dos 30 anos, que ainda não conseguiu um espaço na carreira. A carreira do ator é apresentada no filme de uma forma cruel, com uma forte concorrência e também, no caso de Aden, com preconceito e xenofobia, independente do talento do ator. O filme começa como uma comédia, mas vai entrando em um campo bastante dramático e às vezes, parecendo ser um filme de Spike Jonze. Eu memso fiquei na dúvida se os dois colegas de apartamento de Aden eram reais, ou delírios de sua mente. O ator Nabhaan Rizwan está excelente no papel, e por ele vale a pena assistir ao filme, mesmo que o final seja sme lógica alguma.
Uma cama para três
"Ein Bett für Drei oder die außergewöhnliche und überraschende Komplexität von Schlafzimmermöbeln", de Jan-Peter Horstmann (2023)
Comédia alemã LGBTQIAP+, "Uma cama para três" é um curta que apresenta um trisal: 3 homens gays que vivem um relacionamento decidem morar juntos. A primeira providência para Fred (Patrick Güldenberg), Timo (Jan Andreesen) e Jona (Chris Swientek) é comprar uma cama grande que caibam os 3 juntos. Eles são atendidos pela vendedora Bettina, que consegue uma cama king size que é o sonho de consumo deles. Mas com a rotina da divisão da cama, o relacionamento vai se deteriorando. Eles ligam para a loja querendo devolver a cama, mas Betina propõe que eles tentem novas formas de diversão na cama.
O filme é de 2023, mas todo o seu visual, tanto figurino , quanto caracterização e direção de arte, além da footgrafia retrô, remetem a um tipo de comédia alemã dos anos 90, como as de Doris Dorrie. Cafona no visual e divertido na trama, "Uma cama para três" propõe discutir o relacionamento entre 3 pessoas que se amam, mas que não conseguem dividir a mesma cama.
Família nuclear
"Famille nucléaire", de Faustine Crespy (2020)
Premiado curta belga, "Família nuclear" é totalmente rodado em Waimes, Bélgica, um conhecido acampamento para nudistas. É lá que o jovem Jules (Louka Minnela), 18 anos, vai passar o final de semana com seu irmão pequeno e sua mãe, Adele (Catherine Grosjean). Adele é depressiva e alcoolatra, e perambula totalmente nua pelo acampamento e também por áreas ond eé proibido circular sem roupa. Cansado de ter que segurar a onda de sua mãe, Jules decide caminhar pela praia. É quando conhece Karim (Syrus Shahidi), um belo enfermeiro que trabalha colhendo sangue de voluntários na praia. Karim se torna o primeiro amor de Jules, mesmo que platonicamente.
Um filme que lida com 2 temas que sufocam Jules: a depressão de sua mãe, e o primeiro amor por um outro homem. Filmado com delicadeza por Faustine Crespy, o filme lembra um pouco o frescor dos primeiros filmes de Xavier Dolan, apresentando a relação conflituosa entre mãe e filho, mesclados ao desejo do amor juvenil.
Férias trocadas
"Férias trocadas", de Bruno Barreto (2024)
Premiado no Festival de cinema da Lapa 2024 com os prêmios de melhor filme do público e de fotografia, para Carina Sanginitto, "Férias trocadas" foi escrito por Bia Crespo, Juliana Araripe e Ricky Hiraoka. O filme é uma comédia que brinca com as situações envolvendo 2 famílias: uma pobre, e uma rica, e como através de diversos momentos de redenção e de reconexão familiar, ambas as famílias entendem que o mais importante é o amor da família, acima de qualquer luxo proporcionado pelo dinheiro.
Edmilson Filho, astro de "Cine Holliudi", interpreta o patriarca das 2 famílias: Zé, casado com Suellen (Aline Campos) e pais de Romária (Klara Castanho), uma blogueira. Eles ganham passagens para uma temporada em Cartagena, mas para um hotel afastado e bem simplório. Edu é casado com Renata (Carol Castro) e pais do influencer João (Matheus Costa). Por uma confusão na chegada ao aeroporto da Colômbia, as duas famílias acabam sendo confundidas e trocam de hotel. Edu e família seguem para o bangalô, e Zé e família seguem para o hotel 5 estrelas. O recepcionsta do hotel, Micael (Gustavo Mendes), desconfia de Zé. Kaluma (Flavia Garrafa), uma hipponga, recebe Edu e família no bangalô. A nova realidade de ambas as famílias as transformam, para o bem e para o mal, e Edu parece ser o único desconfortável em ser pobre.
Repleto de valor de produção, pelas belas locações, cenas aéreas e marítimas e pela fotografia super colorida, o filme traz situações óbvias que todo espectador sabe como vai terminar. Mas é justamente essa lição de moral proposta pelo filme que agrada e diverte o público, um passatempo totalmente sessão da tarde, com direito a porradaria e muitas confusões. O fato de Edmilson Filho interpretar os dois personagens acaba não sendo epxlorado pelo roteiro, pois não há cenas onde as pessoas o confundem com o patriarca da família alheia. O elenco todo está ótimo, e certamente, se divertiram bastante nos bastidores.
Oasis
"Oasis", de Joshua Longhurst (2016)
Premiado curta LGBTQIAP+ australiano, "Oasis" se ambienta em 1993, na Austrália. O adolescente tímido Dale Fielding (Alex PAckard) está escondido em um banheiro público de um acampamento de trailers. Quando o mochileiro Jake (Chris Dingwall) entra no vestiário, Dale sai do banheiro e começa a puxar asusnto com Jake. Jake tira a roupa e toma banho no chuveiro. Sem que Jake veja, Dale tira uma foto do rapaz pelado com sua câmera. Ao sair do banheiro e fazer a barba, Jake percebe a câmera e repreeende Dale, que sai envergonhado.
"Oasis" é um filme repleto de homoerotismo e que fala sobre desejos e tesão de um adolescente queer reprimido e que cria toda uma fantasia em cima de seu crush. Belamente fotografado, com cores que lembram os filmes de Wong Kar wai, o desfecho traz uma bela mensagem de aceitação.
O caminho da serpente
"Le chemin du serpent", de Kiyoshi Kurosawa (2024)
Concorrendo no Festival de San Sebastian 2024,"O caminho da serpente" é um remake do filme dirigido e escrito pelo mesmo cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa, lançado originalmente em 1998. Nessa nova versão de 2024, Kurosawa sobstitui a co-protagonista por uma mulher (no original era um homem pertencente à Yakuza). Co-produzido por Japão e França, "O caminho da serpente" foi rodado em Paris e apresenta uma trama de vingança. Kurosawa lançou em 2024 3 longas: "Chime", "Cloud" e esse remake.
Um homem, Albert (Damien Bonnard) e a sua psiquiatra, a japonesa Sayoko (Kô Shibasaki), sequestram um contador de uma empresa, Laval (Mathieu Amalric). Eles o aprisionam e o torturam. Albert apresenta um vídeo onde mostra a sua filha Marie, de 8 anos. Ela foi morta há uma semana, e encontrada sem os orgãos internos. Albert acredita que Laval faz parte de um clube onde crianças são vendidas e tem seus orgaos contrabandeados, além de terem os vídeos gravados e comercializados. Albert e Sayoko sequestram outros homens pertencentem ao clube, e igualmente os torturam, até descobrirem a verdade.
O filme tem uma trama confusa, e o ritmo é bem lento e arrastado. Mas traz um pano de fundo bastante sinistro, que é o assassinato de crianças sequestradas e comercializadas por um tráfico internacional. O elenco é composto por grandes nomes do cinema francês, como Grégoire Colin, no papel de um dos suspeitos, Pierre Guérin, e também do cinema japonês, como Hidetoshi Nishijima, protagonista de 'Drive my car" e interpretando um dos pacientes de Sayoko, Yoshimura. Um bom filme, mas bem distante dos cults "Pulse"e "A cura".
segunda-feira, 18 de novembro de 2024
Thirstygirl
"Thirstygirl", de Alexandra Qin (2024)
Concorrendo em Sundance, Denver e San Francisco, "Thirstygirl" é um relato autobiográfico da roteirista e cineasta Alexandra Qin. O filme fala sobre viciados em sexo (Charlie, alter ego de Alexandra) e suicídio na adolescência e depressão, através da personagem de Nic. O filme é denso e tem um tom bastante dramático, e fala sobre as doenças mentais que as irmãs carregam. Charlie (Samantha Ahn) e Nic (Claire Makenzie) atravessam de carro para chegar até um estado aonde Nic deverá se internar. A convivência 24 horas com a irmã mais nova deixa Charlie numa situação bastante constrangedora e angustiante: ela é viciada em sexo, e em qualquer oportunidade de parar em algum posto, ela se masturba mo banheiro. Quando Nic pede para jogar boliche, Charlie observa o ambiente, repleto de homens, e se desespera.
O vício retrata com bastante crueza o vício que Charlie possui, deixando-a em crise de abstinência, ao ponto de se masturbar ao volante enquanto sua irmã dorme na poltrona ao lado. As duas atrizes estão muito bem, e traz protagonismo asiático. A fotografia de Fletcher Wolfe e o aspect ratio 4:3 ajudam a dar um tom mais claustrofóbico ao filme.
Paper
"Paper", de Charles Wahl (2024)
Angustiante drama canadense dividido em 3 histórias que se entrecruzam, no melhor estilo de Paul Higgis em "Crash". As três histórias giram em torno de um círculo vicioso de quem está com dívidas e a sua relação com os cobradores. A idéia para o filme veio para o roteirista e diretor Charles Wahl quando ele conhecer um cobrador de dívidas, e ficou impressionado com a violência que os cobrdaores usam para cobrarem os devedores.
Ms Howard (Kaelen Ohm) é uma viuva , mãe de 2 filhos pequenos. Ela deve à escola das crianças e está sendo cobrada de todos os lados. O Agiota, Max (Shaun Majumder), cobra Howard insistentemente até que decide levar o carro dela. Howard implora, mas Max é irredutível. Ele trabalha em uma empresa de emprestimos cujo lema é não ceder às histórias tristes dos devedores. Acontece que Max é um viciado em jogos online e está repleto de dívidas, com empréstimos feitos à uma agiota. Stick (Hugh Thompson) é o cobrador que age de forma violenta, e que vai até Max para cobrar dele.
O filme é bem dirigido e possui uma excelente edição, que faz com que as histórias fluam organicamente e sem perder ritmo. O desfecho reserva uma surpresa, e revela que mesmo debaixo de toda uma truculência, muitas vezes se econde um ser humano com compaixão.
Cloud
"Kuraudo", de Kiyoshi Kurosawa (2024)
Em 2022, o Japão ganhou o Oscar de filme internacional com "Drive my car". Agora, o país indicou o drama de ação "Cloud", do renomado diretor Kiyoshi Kurosawa para uma vaga ao Oscar de filme internacional 2025. É um risco muito grande, uma vez que o filme não tem o perfil dos acadêmicos: é um thriller de ação, com um 3o ato repleto de tiroteios e morte, no melhor estilo Tarantino ou Takashi Miike. Diferente de seus grandes filmes, "Pulse" e "A cura", cults do terror fantástico, "Cloud" é uma crítica ao mundo da venda de produtos online que resultam em ação de vigaristas que enganam os consumidores. Yoshii (Suda Masaki) é um jovem ambicioso que trabalha em uma fábrica, sem perspectivas de ascender na empresa. Para ganhar um dinheiro extra, Yoshii compra produtos de baixa qualidade e os revende como se fossem premium. A namorada de Yoshii, Akiko (Furukawa Kotone) descobre que Yohsii vive de golpes, mas ela não se opõe. Para ajudá-lo, Yoshii contrata o jovem Sono, que tem um segredo. Mas logo os compradores enganados decidem se unir e localizar Yoshii, para se vingarem dele.
O filme é longo e tem um ritmo bem arrastado. A primeira metade do filme acompamhamos a rotina de Yoshii com sua namorada e Sono, e as vendas online. A 2a metade, concentra nos compradores e o ato final é a vingança repleta de porradaria e tiros. O filme é bom, mas não está entre os melhores filmes de Kurosawa. O filme concorreu no prestigiado Festival de Sitges.
Verdade ou desejo?
"Verdade ou desejo?", de Eduardo Albino e Mauro Carvalho (2024)
Quem nunca teve um sonho erótico com o seu crush? Pois Lucas (Caio FLiper) e Diego (Luigi Calduch) são dois colegas de faculdade que decidem estudar juntos na casa de Lucas. Sozinhos, no quarto, eles acabam se entregando a jogos eróticos, através do jogo "verdade ou consequência". Mas alguém toca a campainha, e Lucas fica na duvida se atende ou se continua no jogo do prazer com Diego.
Um roteiro simples mas bastante divertido, com os dois atores se entregando a um jogo de muita sacanagem e humor. Um filme de orçamento bem modesto, mas que resulta em um passatempo agradável e sensual.
Hey you
"Hey you", de Jared Watmuff (2019)
Uma denúncia contra os crimes de homofobia ocorridos na Rússia, "Hey you" é um filme que, através da montagem, engana o espectador. Dois homens se conectam via Grindr na mdrugada. Eles marcam encontro. Porém, um dos homens mora em Londres, e o outro, na Chechênia, Rússia. Um terá uma noite de sexoe. prazer. Outro, encontrará a sua morte através de um encontro fake com um grupo de homofóbicos.
COm roteiro e direção de Jared Watmuff, esse filme inglês traz um alerta para os encontros que a comunidade queer marca através de apps, sem qualquer tipo de cuidado ou segurança. E aproveita para denunciar a Rússia como um dos países que mais cometem crimes contra pessoas Lgbt. Um filme sombrio e trágico.
A fold in my blanket
"Chemi sabnis naketsi", de Zaza Rusadze (2013)
Concorrendo no Festival de Berlim e vencedor do prêmio de melhor filme no Queer Lisboa, "A fold in my blanket" é um filme da Georgia que traz elementos de surrealismo na sua narrativa. O filme se passa em uma época atemporal, mas parece se ambientar em um país dos anos 70, ainda no regime comunista. Dmitrik (Tornike Bziava) retorna de um período de estudos em Londres para a sua cidade natal. Ele trabalha com seu pai, um poderoso juiz no tribunal da cidade. Dmitrij enfrenta uma rotina entendiante, onde pouco acontece de excepcional em sua vida. Em casa, ele divide o espaço com eus pais e sua tia que sofre de Alzheimer. Para fugir do tédio, Dmitrij escala montanhas em seu tempo vago. Um dia, ele conhece um rapaz, Andrej, com quem forma uma amizade, além de dividirem o hobby do alpinismo.
O filme sugere uma trama queer, mas não acontece nada na narrativa que possa indicar um relacionamento homoafetivo entre Dmitrij e Andrei. Um típico caso de queerbaiting, onde o filme é vendido para atrair um público queer. "A fold in my blanket" é um filme hermético, sem uma lógica, que parece caminhar por delírios do protagonista, mas nada fica explicado. Apresentado em sketches, conduzidos por personagens paralelos, certamente o único atrativo é a beleza dos dois atores que interpretam Dmitrij e Andrei.
C'est pas moi
"C'est pas moi", de Leox Carax (2024)
Exibido nos festivais de Cannes e San Sebastien, "C'est pas moi" é um manifesto político e cultural realizado por Leos Carax, cineasta francês famoso pelos filmes "Mauvais sang", "Os amantes da Ponte Neuf" e "Holly motors". Frequentemente associado a um cinema provocativo e em busca de novas linguagens, Carax faz de "C'est pas moi" uma video-colagem, um video arte repleto de imagens decsonexas, letreiros enormes que aparecem com intertítulos, uma narrativa já realizada por Godard em diversos filmes. O filme foi realizado quando o Museu de Pompidou decidiu fazer uma exposição pelos 40 anos de filmografia de Carax, e mediante uma pergunta provocativa: "Onde você está Carax?". O filme tem referências cinematográficas ( Hitchcock, Jean Vigo, etc), referências políticas (nazismo), trechos de seus filmes e claro, o seu alter ego Mister Shitt Denis Lavant, ator de quase todos os seus filmes. É experimental e não é para todos os gostos. Eu particularmente não gostei, talvez o filme funcione melhor como uma instalação em um museu, como foi a proposta, do que como filme.
domingo, 17 de novembro de 2024
A casa
"La casa", de Álex Montoya (2023)
Vencedor dos prêmios da crítica, do público e de melhor roteiro no Festival de Málaga, "A casa" é adaptação da graphic novel de Paco Rosa, a partir de elementos autobiográficos. Após a morte de Antonio, pai de José, Vicente e Carla, os irmãos se reencontram e decidem vender a casa construída pelo pai e que traz muitas memórias. Ali, os irmãos cresceram, viveram com o pai e a mãe até a morte dela. O pai acabou vivendo sozinho, e muito esporadicamente, os filhos vinham visitá-lo. Agora, os irmãos decidem passar o final de semana com seus familiares e assim, se despedir da casa que traz boas recordações e alguns segredos.
José (David Verdaguer) se tornou escritor e vem com sua esposa. Ele é o mais novo dos irmãos. Vicente (Óscar de la Fuente) vem com sua esposa e filhos e é o workhaholick da família. Carla (Lorena Lopez) procura trazer união entre os irmãos, mas sabe que é difícil.
O filme lembra "Morangos silvestres", de Bergman, ao trazer as memórias dos irmãos sendo reconstituídas com imagens deles mais jovens, na presença dos pais em diversas idades. É um filme sensível, comovente e traz um olhar sobre a morte de pessoas queridas de forma natural, sem sensacionalismo. os atores são muito bons, e a edição, mesclando épocas distintas, mistura formatos de tela para ajudar o espectador e entender melhor as transições temporais.
O Roteiro da Minha Vida – François Truffaut
"Le Scénario De Ma Vie - François Truffaut", de David Teboul e Serge Toubiana (2024)
Exibido no Festival de Cannes 2024, "O Roteiro da Minha Vida – François Truffaut" é um documentário que certamente cinéfilos e apaixonados pelo cinema de um dos precursores da Nouvelle Vague irão assistir. O filme contém trechos de quase todos os seus filmes, e ainda traz segmentos referentes ao livro que escreveu sobre o cinema de Hicthcock e sobre a sua participação como ator em "Contatos imnediatos do terceiro grau", de Spielberg, grande fã do cineasta francês. Falecido prematuramente aos 52 anos em 1984, Truffaut dedicou a sua vida ao cinema, seja filmando, ou admirando os filmes de outros cineastas, a quem deicou muitas críticas enquanto escrevia pra "Cahiers do cinema". O filme é baseado em correspondências com familiares, colaboradores e amigos, e abre a vida de Truffaut narrando as rusgas de família, a sua insatisfação na convivência com seus pais, a sua admiração e apadrinhamento pelo crítico André Bazin, a sua relação com sua primeira esposa, Margareth, e o seu amor pelas 2 filhas. O filme se esquiva em falar de seu relacionamento com Fanny Ardant, estrela de alguns de seus filmes e com quem viveu até a sua morte. O filme dedica grande parte para "Os incompreendidos", considerado um filme autobiográfico, mas a carta de seus pais deixam clara a insatisfação deles de se verem retratados como pais omissos. Amei a declaração de Truffaut em relação ao trabalho de atriz de Catherine Deneuve, uma atriz que ele admira muito, assim como Jeanne Moreau. O filme é um grande presente para amantes do cinema: ainda assim, é cansativo e monocórdico, ele é narrado o tempo inteiro por diversas vozes.
As três filhas
'His three daughters", de Azazel Jacobs (2023)
O tema sobre irmãs que se reecontram após a morte de um parente já trouxe excelentes dramas com atrizes excepcionais, como "Crimes do coração", com Jessica Lange, Diane Keaton e Sissy Spacek, e "A partilha", do texto de Miguel Falabella, com Gloria Pires, Andrea Beltrão, Lilia Cabral e Paloma Duarte. Em "As três filhas", as atrizes Carrie Coon, Natasha Lyonne e Elizabeth Olsen se reencontram, cada uma com a sua personalidade e afastadas pelo ressentimento e pelos diferentes temperamentos. Eu nte me lembrei também da peça de Mauro Rasi 'A cerimônia do Adeus": em uma casa, ficamos sabendo que o pai está gravemente enferno no seu quarto, mas nunca o vemos ( aqui, ele surge no final, após muita expectativa).
O filme é bastante teatral, focado em boa parte de sua duração dentro do apartamento ond emorava o pai.
Rachel (Natasha Lyonne) era quem morava com o pai durante a sua fase terminal. Christina (Elizabeth Olsen) deixa seus filhos e marido e viaja para a casa de seu pai. Catie (Carrie Coon) mora em Nova York mas raramente visitava o pai e a irmã Rachel. O reencontro das irmãs irá botar em pauta as angústias, medos e frustrações das irmãs, enquanto o pai convalesce no quarto.
Diferente do que poderia se esperar, o filme traz um fino humor bem distante. Fosse Woody Allen o diretor e roteirista, o reusltado final certamente teria sido mais ácido e rancoroso, mas sempre dosado com humor. Em "As 3 filhas", o diretor e roteirista Azazel Jacobs torna a história mais dramática, mais cruel. O filme rende uma peça teatral espetacular, com 3 atrizes e mais uns 3 atores masculinos: o médico, o namorado de RAchel e o pai, no final. Para quem busca um bom drama com performances matadoras, esse filme é uma ótima pedida.
Blind spot
"Blindsone", de Tuva Novotny (2018)
Vencedor do prêmio de melhor performance feminina para Pia Tjelta, no papel da protagonista Marie no intenso drama norueguês sobre doenças mentais e suicídio "Blind spot". Escrito e dirigido pela cineasta Tuva Novotny, o filme é rodado em um único plano sequência real, sem cortes falsos. Li no Imdb que foram rodados 3 takes, e foi utilizado o 2o take. Mas o fascínio pela técnica do plano sequência, que de fato, possui momentos impressionantes de movimentos de câmera e de marcação de atores, esconde uma grande armadilha: os tempos mortos, onde absolutamente nada acontece. E fica a pergunta: qual a real necessidade de ter rodado esse filme em plano sequência? Bom, certamente a diretora quiz passar ao espectador a sensação d etempo real, entre um fato trágico e o desfecho, e entre esse momento, apresnetar ao público o excelente trabalho do elenco, forçado a vivenciar a história em tempo real, tendo que estar cem por cento ativo em cena. Mas ainda assim, fico com a impressão de que o filme poderia ter sido mais potente se tivessse sido decupado em planos.
Thea (Nora Mathea Øien) é uma adolescente de 13 anos que retorna da escola após um treino de handebol. Chegando em casa, ela dá boa noite para sua mãe, Marie(Pia Tjelta), para seu irmão menor, lancha e vai até seu quarto, escrevendo no diário. Depois, ela se joga da janela. Marie decsobre a tentativa de suicídio e se desespera, correndo até o térreo e encontrando a filha desacordada e machucada. Ela grita por uma ambulância, acionada por vizinhos. Marie, em choque, acompanha a a filha até o hospital, onde são recebidos pelo enfermeiro Martin (
Oddgeir Thune), que tenta acalmar Marie. Anders (Anders Baasmo) é chamado e chega ao hospital. Em surto, Anders desmaia. A noite reserva segredos de família que serão decsobertos por Martin.
O grande acerto do filme é a escalação do elenco, todos excelentes. A narrativa também chama atenção, ao começar o filme em um cotidiano comum e subitamente, o ato de suicício, sem qualquer planejamento. O tema do suicidio juvenil precisa e deve ser discutido, mas aqui infelizmente temos poucas informações sobre Tea e seus reais motivos para cometer o suicídio. Um filme denso, depressivo e que não pode e nem deve sre assistido por ninguém que possa vir a ter gatilhos emocionais.
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