quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
O fantasma do Paraíso
"Phantom of the Paradise", de Brian de Palma (1974)
Delirante musical dirigido e escrito por Brian de Palma em 1974, é uma versão Ópera Rock de "O Fantasma da ópera", misturado a Fausto e "O retrato de Dorian Gray". Tantas referências deram resultado: até hoje o filme é cultuado, influenciou "Rocky horror picture show", realizado em 1975 e a sua protagonista, Jessica Harper, viria a trabalhar com Dario Argento em 1977 no clássico "Suspiria".
Kiss, Beach Boys, Elton John e Dr Phibes, celebrizado por Vincent Price, se transformaram em referências visuais e musicais para o filme: Winslow é um cantor e compositor que se apresenta para Swan, um Midas da Música. Swan por sua vez, deseja roubar a canção apresentada por Winslow, para usá-la na inauguração de sua casa noturna, Paradise. Winslow, traído, vai tomar satisfação com Swan, mas acaba se ferindo e dado como morto. Logo depois, ele retorna com a personalidade do Fantasma do Paraíso. Ele busca a voz da doce Phoenix, uma jovem cantora, dizendo que somente ela poderá cantar as suas músicas, e acaba matando todos que se interferem em seus ideais.
Visto hoje em dia, o filme tem um visual bastante irreverente, bem ao estilo Rock gótico da época, mas que talvez não encontre merecimento por parte das novas gerações. Isso porquê podem achar tudo muito cafona e trash. Mas é um excelente registro de uma era musical. De Palma, como não podia deixar de ser, se utiliza de cenas de filmes de Hithcock, sua inspiração eterna, para realizar várias cenas, principalmente, a do chuveiro, copiada totalmente de "Psicose". O elenco, formado por desconhecidos, entra totalmente na proposta inusitada do filme. De Palma arriscou bastante, apostando em um filme onde poderia ter sido rechaçado pela crítica e público, realizando algo totalmente diferente do que já havia feito até então. O filme pode não ter tido o merecimento na época, mas hoje ele é objeto de culto. A imagem do Fantasma virou um ícone pop. Uma curiosidade: Paul Willians, que interpreta o vilão Swan, é um famoso compositor, que compôs várias músicas dos The Carpenters, Barbra Streisand ( entre elas, "Evergreen") e outros artistas famosos.
O monstro
"The monster", de Bryan Bertino (2016)
Filme de terror americano de baixo orçamento, narra o drama de uma mãe jovem alcoólatra e sua filha que sofrem um acidente na estrada deserta após atropelarem um lobo. Elas estavam a caminho da casa do ex-marido da mulher, para deixar a filha lá. Porém, no acidente, que ocorre de noite em meio a um temporal, elas descobrem que existe um monstro que habita a floresta. E elas precisam tentar sobreviver antes que o monstro as ataque.
O filme demora mais da metade de sua duração para apresentar o monstro para a platéia. Até então, acompanhamos o drama da mãe e filha, que vivem às turras. Em meio a flashbacks, vemos o descontrole da mãe, as brigas com o ex-marido e a filha testemunhando todas as pequenas tragédias familiares.
O filme tem um lance curioso: por conta da voz off da jovem Lizzy, que interpreta a filha, o filme ganha um ar de metáfora: é como se todo o percalço que elas passam com o monstro, fosse uma alegoria do crescimento da jovem, em sua passagem para o mundo dos adultos, e também uma forma de punir os maus hábitos da mãe.
Para um filme de baixo orçamento, o filme quebra o galho, mas em determinado momento dá para perceber que havia um ator vestindo a "fantasia" do monstro. Fui checar no Imdb e confirmei que existia um ator no elenco para o personagem do monstro. O roteiro tem um monte de solução rasteira e decisões ridículas dos personagens, principalmente da dupla de enfermeiros que surgem em certo momento. Para quem fôr muito exigente, melhor nem assistir.
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
By Sidney Lumet
"By Sidney Lumet", de Nancy Buirski (2015)
Documentário exibido em Cannes 2016, que faz um Raio X de quem foi Sidney Lumet, e a sua importância para a cinematografia americana, tendo ganho inúmeros Oscar, Palmas de Ouro e outros prêmios com os seus 44 longas que dirigiu em 54 anos de profissão.
Sem jamais ter ganho um Oscar como Diretor ( somente um honorário em 2005), Lumet realizou, entre outras obras-primas, 'Um dia de cão", "12 homens e uma sentença" e "Antes que o diabo saiba que você está morto", somente para citar alguns de seus brilhantes filmes. Lumet nasceu em uma família pobre e começou sua carreira como ator infantil ( seu pai era ator de peças de teatro íidiches). Começou dirigindo na Tv e estreou nos cinemas com "12 homens e uma sentença". Para quem é cinéfilo e aficcionado por seu cinema, provavelmente já leu o seu livro essencial, "Fazendo filmes", que é o livro de cabeceira de muita gente que faz cinema. Esse documentário é uma espécie de complemento para o livro. Citando muitas cenas de seus filmes, Lumet narra didaticamente as dificuldades, as curiosidades e as muitas alegrias e tristezas de seus filme,s variando entre sucessos e fracassos. Um filme obrigatório para quem quer entender mais sobre o cinema, mesmo que o documentário tenha uma fórmula bem simplista de realização: depoimento e cenas dos filmes.
Siren
"Siren", de Gregg Bishop (2016)
Filme de terrir e ação que lembra bastante os últimos filmes de Kevin Smith, que mostram jovens bobões metidos com seitas diabólicas e seres bizarros. Jonah e seus 3 amigos vão até um clube que fica no interior, e descobrem que as atrações sexuais ali beiram a perversão. Jonah encontra um jovem acorrentada e acreditando que ali funciona uma espécie de tráfico de mulheres, a liberta. O que ele não sabe, e que a mulher é uma espécie de sereia assassina, que se apaixona por ele e mata todos os que estão em volta.
"Siren" é uma versão em longa-metragem de um dos episódios de "Vhs", um filme de terror de 2012 dividido em pequenos curtas. Infelizmente, o longa não é tão bom quanto o curta. O roteiro lembra o filme "Um drink no inferno", e por isso mesmo, a ambientação fica bastante deja vu. Mas para quem quer apenas se divertir sem compromisso algum, o filme quebra um galho. O vilão é patético e os rapazes, todos bobalhões. Um prato cheio para os fãs nerds de terrir. Os efeitos para a sereia até que são razoáveis, e a boca grande cheia de dentes lembra o vampiro de "A hora do espanto".
Michelle e Obama- O primeiro encontro
"Southside with you", de Richard Tanne (2016)
Filme de estreia do roteirista e Diretor Richard Tanne, de apenas 31 anos, narra um dia na vida de Michelle Robinson e Barack Obama em um verão de 1989, em Chicago. Michele trabalha como advogada de um escritório famoso, e Obama é o seu estagiário, estudante de direito em Harvard. O filme começa com Michele se preparando para sair com Obama, que a convidou para ir a uma reunião em uma igreja frequentado pela comunidade negra, para discutirem a criação de um centro comunitário no bairro. Michelle deixa claro que não quer nenhum tipo de envolvimento amoroso, mas Obama insiste em proporcionar a ela um dia memorável. Ele a leva até uma exposição de um artista negro no Museu, depois vão a' reunião, bebem e terminam o dia assistindo ao filme de Spike Lee, " Faça a coisa certa". Instigada pela figura carismática de Obama e de seus ideias humanitários, Michelle se sente balançada, mesmo temendo que o pessoal do seu trabalho a critique por conta do envolvimento com um estagiário.
O filme, como já comentado em qualquer crítica sobre o filme, segue a linha dos filmes de Richard Linklater: a trilogia " Antes do amanhecer". A estrutura é a mesma: duas pessoas que vai se conhecendo durante o período de um dia, e conversam sobre vários assuntos. Política, feminismo, segregação racial, questões familiares mal resolvidas e assédio, todos esses temas são elaborados com elegância no filme. O trabalho da dupla de atores, desconhecidos do grande público, é muito bom. Tika Sumpter e Parker Sawyers estão ótimos e são muito carismáticos. Eles carregam o filme todo nas costas. Para o espectador que for ver o filme esperando um enlace romântico pode não gostar tanto assim, pois é um filme verborrágico. Fala-se bastante no filme. Aos apaixonados pelo casal, vale assistir, pois é impossível não se afeiçoar a uma história que busca no idealismo de duas pessoas tão diferentes e que acabaram se conectando por conta da luta por um mundo melhor. A direção de Tanne é elegante e respeita bastante as personagens retratadas. Vamos combinar que não deve ser fácil fazer um filme sobre o presidente do país mais poderoso do mundo e não cair no endeusamento da sua personalidade. Tanne arriscou e fez um belo trabalho.
domingo, 11 de dezembro de 2016
Esse mundo é meu
"Esse mundo é meu", de Sergio Ricardo (1964)
Primeiro filme dirigido pelo músico Sergio Ricardo, foi lançado no dia 1o de abril de 1964, exatamente no dia do golpe militar no Brasil, e por conta disso, ficou muito tempo no esquecimento. O filme, com fotografia e câmera de Dib Luft ( irmão de Sergio Ricardo) é uma obra-prima, não somente como denúncia social e um registro importante do Rio de Janeiro na época, como pelo trabalho extraordinário da câmera de Dib Luft.
O filme, em preto e branco, acompanha 2 histórias paralelas de moradores do Morro da Catacumba ( favela carioca que pegou fogo em um incêndio criminoso): Toninho ( Antonio Pitanga, na época com 24 anos), é um engraxate e sonha em juntar dinheiro e comprar uma bicicleta para poder namorar com Luzia, o seu amor platônico. E temos Pedro ( Sergio Ricardo), um operário que namora uma jovem grávida, mas que, por péssimas condições trabalhistas e sem receber aumento, testemunha a sua namorada fazer um aborto, pois ela não quer que o filho passe fome e sofra humilhação em vida.
Com imagens pouco conhecidas do Rio de Janeiro da época, o filme traz referências estéticas do neo-realismo italiano e da Nouvelle Vague. A câmera na mão, a história de marginalizados, filmagem em locação e uma trilha sonora de arrebatar. A cena de Pitanga com ZIraldo é hilária, e acaba sutilmente fazendo uma critica ao poder da Igreja católica. O filme tem um olhar sobre os desfavorecidos no Brasil, e com esse olhar humanista, procura levantar a bandeira da igualdade social. Um filme repleto de cenas antológicas, entre elas, a do personagem de Toninho andando de bicicleta no final.
Os olhos de minha mãe
"The eyes of my mother", de Nicolas Pesce (2016)
Com apenas 26 anos, o americano Nicolas Pesce escreveu e dirigiu esse perverso filme de terror, que fez muito sucesso em Sundance e ganhou vários prêmios em festivais de cinema fantástico.
Rodado em um extraordinário preto e branco, o filme é dividido em 3 capítulos: "Mãe","Pai"e "Família". O que une os 3 segmentos é a protagonista, Francisca. Na primeira parte, Francisca é criança, e testemunha sua mãe ser barbaramente assassinada por um serial killer. Anos se passam e já grande, ela cresce com um enorme trauma, o que faz com que ela se torne uma pessoa solitária, mas que deseja companhia de qualquer jeito.
O roteiro é cruel. O desenrolar da história provoca mau estar, e o filme surpreende pela frieza com o qual trata os seus personagens. A narrativa, sêca, valorizada por planos longos onde testemunhamos as ações de Francisca, incomoda demais. É um filme que não é fácil de recomendar para quem não fôr fanático por filmes bizarros e brutais. É violento, porém, com uma brilhante direção, com planos e cenas muito bem marcados. É um filme de terror com cara de filme de arte. Para os apreciadores do puro terror que não curtam um filme com cara mais artística, irão se frustrar bastante. O filme é lento, sem preocupação alguma de tornar tudo mais dinâmico. Excelente trabalho da atriz portuguesa Kika Magalhães, que interpreta Francisca adulta.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Amer
"Amer", de Helene Catett e Bruno Forzani (2009)
Instigante filme de suspense baseado nos princípios do "Giallo", gênero italiano celebrado por mestres como Dario Argento e Mário Bava. Erotismo, mulheres nuas, violência explícita e suspense Hitchcokiano compõe o " Giallo". " Amer" é um filme diferente: quase não tem diálogos e pode ser visto como um projeto experimental. Dividido em 3 partes, todos com a mesma personagem em idades distintas. Começa com a protagonista criança, adolescente e adulta. Todas elas têm em comum a descoberta da sexualidade, o erotismo reprimido e o desejo pelo corpo masculino. Esse desejo torna-se tão forte que, metaforicamente, ela precisa ser destruída para poder saciar a sua ansiedade. E' difícil falar sobre a história, pois ela é apresentada de forma muito solta, sem amarras. O que de fato impressiona, é o visual totalmente estilizado, mega publicitário. Fiquei imaginando a preocupado dos diretores em conceber cada plano e enquadramento. O resultado pôde-se dizer ficou bastante frio e sem emoção. A homenagem ao " giallo" existe, mas meio sem propósito. O roteiro é incompreensível e aberto a muitas interpretações. Podemos dizer que seja a jornada de uma mulher em busca de sua sexualidade. Ou a mesma mulher seja uma ninfomaniaca, reprimida por sua mãe. Qualquer que seja a observação a respeito do filme, o querida são apenas o elemento visual e estético do filme, feito que fez com que recebesse muitos prêmios em festivais de filmes fantásticos.
Viva
"Viva", de Paddy Breathnach (2015)
Indicado pela Irlanda para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro em 2016, "Viva" foi todo rodado em Cuba e é um belíssimo filme sobre superação e aceitação. Construído como um melodrama, e por conta disso, é inevitável a reviravolta novelesca no final, com a súbita transformação de personagens antipáticos, o filme tem no elenco a grande força da natureza que um projeto desses necessita: Jorge Perugorria como Angel, o pai bêbado, violento e homofóbico; Hector Medina, como o adolescente Jesus, de 18 anos, cabeleireiro e que se transforma na drag queen Viva, e Jorge Luis Garcia, como a impagável Mama, a Rainha das Drag queen, algo meio Terence Stamp em "Piscilla".
Jesus mora sozinho e ganha a vida fazendo cabelos de senhoras, além de pentear as perucas das drag queens de uma casa noturna. Seu sonho é subir nos palcos, e esse sonho acaba sendo realizado por Mama, que acredita em seu potencial. Angel, pai de Jesus, retorna da prisão, e proíbe Jesus de atuar nos palcos. Para se sustentar, Jesus acaba se prostituindo.
Como se vê, a forte carga dramática do filme é toda calcada nos estereótipos. A fotografia exuberante, apresentando uma Havana totalmente poética, apesar de pobre, e a trilha sonora nostálgica, bem ao gosto dos filmes de Wong Kar Wai, conferem sofisticação ao filme. A trama do pai e filho acabou fiando longa demais e abafou a melhor parte da trama, que é o núcleo dos drag queens, hilários. esse é um grande dom do filme, alternar humor e drama. Pena que na parte final, pesou demais do drama. O desfecho, óbvio, provando que a arte imita a vida e que necessita dela para se sustentar.
Minha mãe é uma peça 2
"Minha mãe é uma peça 2", de Cesar Rodrigues (2016)
Com uma produção caprichadíssima, de alto nível técnico ( fotografia, edição, direção de arte, trilha sonora, maquiagem e figurino) , Dona Hermínia (Paulo Gustavo) retorna, dessa vez já totalmente em cima da carne seca: rica, bem-sucedida e com um programa de entrevistas bombando na tv. Porém, ela precisa lidar com com o desapego: a Tia Zélia ( Suely Franco) está com Alzheimer, Marcelina (Mariana Xavier) passou em um teste de elenco e vai se mudar com sua cia teatral para São Paulo e Juliano (Rodrigo Pandolfo) também está de mudanças para lá, numa tentativa de dar uma guinada na vida.
O roteiro, escrito com maestria por Fil Braz e o próprio Paulo Gustavo, diverte com situações que fizeram sucesso no primeiro filme: as relações de amor e ódio com os filhos, com a irmã Iesa (Alexandra Richter), com o marido Carlos Alberto ( Herson Capri) e agora, com a chegada da outra irmã, Lucia Helena ( Patrycia Travassos, impagável). As piadas são ótimas, o ritmo do filme é super dinâmico, sem tempo para dar chance a barrigas, e quando a gente menos percebe, o filme já acabou. A direção de Cesar Rodrigues confere sofisticação ao filme, com belas imagens aéreas e um ótimo trabalho de direção de elenco. As pessoas no cinema riam de rachar durante o filme todo. Paulo Gustavo prova de novo que é um dos maiores talentos no Brasil, um verdadeiro ás do timing e do improviso. Uma ótima pedida para desopilar pensamentos tristes.
domingo, 4 de dezembro de 2016
Feitiço do tempo
"The groundhog day", de Harold Ramis (1993)
Vencedor de vários prêmios, esse clássico cult amado por várias gerações é uma fábula sobre um homem de mal com a vida. Phil ( Bill Murray) é um repórter que anuncia o tempo em uma estação de tevê. Ele é enviado pela produção até a cidade de Punxsutawney, no interior da Pensilvânia, para cobrir o evento anual do Dia da marnota. Junto de Phil, seguem a produtora Rita ( Andie Macdowell) e o câmera Larry ( Chris Elliott). Phil reclama de tudo: do trabalho, do lugar, do evento, da vida. No dia seguinte, misteriosamente, tudo se repete exatamente igual como na véspera, e assim sucessivamente. Phil se v6e preso no tempo, onde todos os seus dias são iguais.
"Feitiço do tempo" é uma parábola sobre um homem que encontra uma oportunidade para se transformar. Com um espírito que lembra o de Natal, dado a dimensão do humanismo do filme, acaba lembrando bastante do conto do "Velho Scrooge", aquele milionário ranzinza que é visitado por três espíritos natalinos que o fazem repensar a sua vida. Até hoje, o filme é cultuado e em 2006, foi incluído no National Film Registry dos Estados Unidos, sendo considerado "culturalmente, historicamente ou esteticamente significante".
O roteiro, co-escrito por Harold Ramis ( o personagem de óculos de "Os caça-fantasmas") é um primor e recebeu vários prêmios. Acabou influenciando "A vida de Truman" e "No limite do amanhã", filme com Tom Cruise. A direção e a montagem são igualmente brilhantes, construindo uma narrativa que vai ficando cada vez mais insana. Poderia até dizer que Harold Ramis foi um pré - Spike Jonze, cineasta famosos por suas tramas surrealistas, como "Ela" e "Quem quer ser John Malkovich".
Mas o filme não seria o mesmo sem Bill Murray. Impossível pensar em outro ator fazendo esse papel que não ele. Cínico, divertido, arrogante, patético, é a síntese do personagem que vive na rotina e espera uma virada espetacular em sua vida. Que acaba quase nunca acontecendo. Essa persona ele carregou consigo em vários filmes, que vão de "Flores partidas" e "Encontros e desencontros".
O elenco de apoio do filme é um primor, cada personagem foi elaborado e interpretado com muito carinho. São personagens apaixonantes. Obrigatório.
Tootsie
"Tootsie", de Sidney Pollack (1982)
"Tootsie", de 1982, concorreu em 10 Oscars, mas levou apenas o de coadjuvante, para Jessica Lange. Por mais que Dustin Hoffman tenha perdido o prêmio para a atuação brilhante de Ben Kingsley por "Gandhi", a gente fica com a sensação de que ele deveria ter ganho o papel e que o resultado foi injusto, dada a performance verdadeiramente irrepreensível de Hoffman. Sidney Pollack foi um grande diretor americano que teve uma filmografia irregular, mas que realizou pelo menos 3 obras-primas: Além de "Tootsie", filmou "A noite dos desesperados" e "Entre dois amores".
"Tootsie" é daqueles filmes eternos, que mesmo 34 anos depois, continua atual, divertido, emocionante e contundente. Dois temas são apontados: o desemprego da classe artística e o machismo nas equipes de audiovisual. Dustin Hoffman interpreta Michael Dorsey, um ator desempregado a 2 anos, e que para levantar uma grana, promove cursos de atuação para jovens atores desencantados e trabalha de garçon. Ele divide seu apartamento com Jeff ( Bill Murray), outro ator que sonha um dia pisar os palcos. Sandy (Teri Gaar) é uma aluna e amiga de Michael, totalmente insegura e despreparada. Um dia , Sandy vai fazer uma audição e perde o papel por não trazer a força da personagem que a produção queria. Michael resolve se vestir de mulher e acaba ganhando o papel. De início assustado, Michael assume a identidade de Dorothy Michaels, e cada vez mais vai improvisando o seu texto, fazendo assim uma denúncia contra o assédio sexual dos atores. O que Michael não esperava, era se apaixonar pela namorada do Diretor: Julie (Jessica Lange), cujo pai, o viúvo Les ( Charles Durning), se apaixona por Dorothy.
Como se vê, "Tootsie" é uma comédia de erros, repleta de situações hilárias, conduzidas com maestria pela direção e pelo elenco, além do extraordinário roteiro, pleno de diálogos inteligentes. Grandes astros, ainda em início de carreira, dando o melhor de si, em composição que vai do humor ao dramático, sem apelações. A trilha sonora é outro trunfo do filme: além da trilha incidental, uma delícia, tem a música tema "It might be you", que até hoje é associada ao filme.
Para atores, é um filme obrigatório, não somente pelo trabalho do elenco, mas também pela dimensão nua e crua do universo artístico. Vence o mais ousado.
Curiosidade: quando assisti esse filme na época, ainda garoto, achava que a personagem se chamava Tootsie. Hoje, pesquisando, entendi que Tootsie é uma g;iria que significa "queridinha", pejorativamente ou carinhosamente, dependendo do contexto.
O roubo da taça
"O roubo da taca", de Caito Ortiz (2016)
Dirigido pelo mesmo Cineasta de "Estação Liberdade", "O roubo da taça" venceu 3 prêmios em Gramado 2016: Ator, fotografia e roteiro. Caito Ortiz é um diretor de publicidade que traz para os seus filmes esse olhar estilizado. A fotografia, em tons amarelados, carregados de filtro, trazem à tona os anos 80, realçando o tom nostálgico do filme. O filme se passa em 1983, o ano em que a Taça Jules Rimet foi roubada no Rio Janeiro. O filme ficcionaliza os rumos que desse roubo: Peralta ( Paulo Tiefenthaler) é um vendedor de seguros casado com Dolores ( Tais Araujo), cabeleireira de um salão. Peralta é viciado em jogo, e perde tudo nas apostas. Devendo 1 milhão, ele decide participar do roubo da Taça Jules Rimet e depois vender, para saldar as dívidas.
Com belo trabalho de elenco, o filme mostra todo o gingado e a malandragem carioca da classe média. Nesse universo de bandidos, loosers, agiotas e policiais, o diretor Caito Ortiz retira o melhor dos mundos para enfeitar o seu produto: fotografia, edição, trilha sonora, direção de arte, figurino, tudo de primeiríssima linha. Impossível assistir ao filme e não comentar a sua qualidade técnica. A comédia do filme é de humor negro, e podemos enxergar bastante referência do cinema dos Irmãos Coen na decupagem e nos enquadramentos, além de uma pitada do inevitável Tarantino. Uma comédia diferente, com estilo e um olhar abusado e estiloso sobre os cariocas. O elenco é um show, mesclando atores do porte de Milhem Cortaz, Stepan Nercessian, Thogun com uma galera nova no cinema.
A economia do amor
"L'économie du couple", de Joaquim Lafosse (2016)
Com um excelente texto que pode render uma ótima peça de teatro ( alô atores!), "A economia do amor" é um drama tragicômico sobre o fim de um relacionamento amoroso e o início de um tormento conjugal. Marie ( Berenice Bejo) e Boris ( Cédric Kahn) foram casados por 10 anos e pais de duas gêmeas. Hoje em dia, Marie não suporta mais olhar para a cara de Boris, muito menos estar de frente para ele. Boris é arquiteto desempregado, e não tem onde morar. A casa é de Marie, doada pelos seus pais. Boris acaba tendo que continuar morando na casa, por questões financeiras. Mas essa convivência trará consequências para as suas filhas.
Com um extraordinário trabalho de direção de atores, o que inclui as duas crianças, o filme tem uma ótima direção de Joaquim Lafosse, considerando que mais de 80% do filme se passa na casa. O filme não tem cara de peça teatral, muito pelo contrário, é bem dinâmico e com bela marcação de cena. Com um bom número de planos-sequências, que favorecem o trabalho dos atores, o filme tem pelo menos uma cena antológica: a dança da família em casa. Há quem diga que o personagem de Berenice Bejo exagera no mau humor, mas dentro da situação ao qual chegou o casal, é bem real. Imperdível. O filme foi exibido no Festival de Cannes 2016, na Mostra Quinzena dos realizadores.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
Estação Liberdade
"Estação Liberdade", de Caito Ortiz (2013)
Curioso drama que procura trazer a estética de Wong Kar Wai para o Brasil, ambientando Hong Kong no Bairro da Liberdade, e ao invés do chinês Tony Leung, temos o sansei Cauê Ito. Em uma trama meio "After Hours", de Scorsese, acompanhamos a história de Mario, um brasileiro da terceira geração de descendentes japoneses, que passa por um grande dilema: ele não se vê nem como japonês, nem como brasileiro. No entanto, aonde ele vai, ele é chamado de "Japonês", de forma pejorativa. Mario não segue a sua cultura oriental, adotando uma postura totalmente de brasileiro. Em crise no emprego e na vida amorosa ( ele mora com uma mulher descendente de italianos), Mario recebe misteriosamente uma carta remetida do Japão. Sem saber ler os ideogramas, Mario entra em colapso e perambula pelas ruas da Liberdade de noite, entre bares, karaokês e mafiosos japoneses.
Rodado em São Paulo e em Tokio, "Estaçao Liberdade" é um filme de sensações. Todo estilizado, em estética publicitária ( Caito Ortiz é um Diretor de publicidade e recentemente dirigiu o premiado "O roubo da taça"), ele é um projeto mais para cinéfilos que curtem uma aura cult. Bem produzido, mesmo que aparente ser um projeto de baixo orçamento, o filme tem uma bela fotografia e direção de arte, fazendo uma bela homenagem a um cinema noir paulistano, bem comum nos anos 80, com os cinemas de Guilherme de Almeida Prado e de Wilson Barros.
No elenco, o filme conta com a participação especial de Fabiula Nascimento.
Snowden- Herói ou traidor?
"Snowden", de Oliver Stone (2016)
Cinebiografia que romantiza a história de Edward Snowden, jovem americano que aos 29 anos, em 2013, expôs informações sigilosas da Cia para o mundo, revelando o maquiavélico plano do Governo dos Estados Unidos em monitorar toda e qualquer informação via internet ou celular, de qualquer cidadão da face da terra. Snowden, até então agente da Cia, entrava em enorme conflito moral ao se deparar com programas do Governo de alta espionagem que ia contra o direito de liberdade de um cidadão. Discretamente, fugiu dos Estados Unidos e foi até Hong Kong, onde deu uma longa entrevista a 2 jornalistas do jornal The Guardian, e gravado pela documentarista Laura Poitras ( Melissa Leo, excelente) , que mais arde, lançaria o premiado documentário "Citizenfour".
Oliver Stone, como sempre, tem perfeito domínio da narrativa, misturando ficção em linguagem documental e investigativa, adicionando elementos de suspense, como se fosse um "Jason Bourne" com menos adrenalina e câmera na mão. Stone reuniu um elenco poderoso, que vai de Tom Wilkinson, Zachary Quinto, Melissa Leo, Rhys Ifans, Nicholas Cage, Shailene Woodley ( de "A culpa é das estrelas", entre outros. O roteiro mantém o espectador sempre atento aos mínimos detalhes, e confesso que saí do cinema duvidando de alguns fatos apresentados ( tipo como ele conseguiu copiar dados de um computador dentro da Cia com um pen drive e nenhum sistema de segurança detectou essa cópia clandestina? Enfim, mesmo com essas questões, gostei do filme. No final, fiquei com a sensação de uns 20 minutos a mais, é um filme bem longo, como gosta Oliver Stone.
Minha irmã magra
"Min Lilla Syster", de Sanna Lenken (2015)
Escrito e dirigido pela sueca Sanna Lenken, "Minha irmã magra"venceu 2 prêmios no Festival de Berlin 2015"Melhor filme da Mostra geração e um prêmio especial dentro da mesma Mostra, dedicada a filmes com adolescentes como protagonistas.
O filme toca em um tema importante e muito comum entre as adolescentes: a anorexia. Stella e Katja são irmãs. Stella tem 12 anos, é gordinha e comilona. Katja é o orgulho dos pais: linda, magra e premiada em concursos de patinação artística no gelo. Stella tem inveja da irmã, mas ao descobrir que ela esconde a anorexia dos pais, passa a chantageá-la.
Com uma bela direção e atuação fulminante das duas atrizes principais "Minha irmã magra" faz rir e se emocionar. A primeira parte do filme é mais leve, e quando começa a parte final, o filme vai se tornando bastante denso e dramático. A cena dos pais forçando Katja a comer algo é brutal. Vale ser visto por conta do trabalho dos atores, apesar do ritmo do filme ser bastante lento, o que pode incomodar espectadores mais atentos a um cinema comercial.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Amor, palavra prostituta
"Amor, palavra prostituta", de Carlos Reichenbach (1982)
Considerado pelos críticos o seu melhor trabalho, o filme foi escrito por Carlão (apelido de Carlos Reichenbach) e Inácio Araújo, que na época também foi assistente de direção ( Inácio hoje em dia é colunista da Folha de São Paulo).
Lançado em 1982, "Amor, palavra prostituta" foi mutilado pela censura, pelo seu forte teor erótico e por ter como temas principais a questão do aborto ( um verdadeiro tabu na época), e uma referência às mortes na ditadura.
Fernando é um professor desempregado. Sem chances de conseguir emprego, ele é sustentado pela mulher, Rita, que trabalha como operária de uma fábrica de tecidos. O casal passa o final de semana com o amigo Luiz Carlos e sua namorada Lilita. Durante o passeio, eles descobrem um cadáver. Voltando para casa, Luis Carlos descobre que Lilita está grávida e a obriga a fazer um aborto. Rita, por sua vez, está sendo assediada por seu patrão.
Bastante controverso, o filme é repleto de cenas de sexo e de nudez, e por conta disso, foi lançado na época como sendo um filme pornográfico, o que é uma pena. Por conta desse marketing errôneo, o roteiro do filme, inteligente e bem construído, ficou em segundo plano. O filme se divide em segmentos, cada um acompanhando um personagem. Essa estrutura era inédita no Brasil ( hoje em dia é um recurso comum dividir o filme em capítulos, vide os filmes de Lars Von Triers). É um filme melancólico, desesperançoso, que já mostrava um Brasil com um futuro distante, quase impossível na busca da felicidade. As reflexões acerca dos 4 personagens, na qual o espectador é convidado a entender a psicologia de cada um deles, o aproxima do existencialismo. Carlão era um cineasta cinéfilo, que venerava todo tipo de cinema: de A a Z. Assim, ele homenageia grandes clássicos durante o filme, como por ex, "Psicose", que está passando na tv. Provavelmente Antonioni também foi uma grande referência, principalmente na cena final, de Lilita e Fernando na cama.
O filme tem sim defeitos: os atores são irregulares, tecnicamente é frágil ( fotografia principalmente). Mas esse era o charme de Carlão: seus filmes tinham essa estética "suja", marginal. Para quem não conhece sua obra, vale também assistir a "Os anjos do arrabalde" , "Falsa loira" e "Dois córregos".
domingo, 27 de novembro de 2016
E sua mãe também
"Y su mamam tambien", de Alfonso Cuarón (2001)
Escrito e dirigido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón, um dos mais prestigiados diretores latinos em atividade em Hollywood, "E sua mãe também" é um extraordinário filme que possibilita várias leituras. Temos o filme que narra a história de Tenoch (Diego Luna), Julio ( Gael Garcia Bernal) e Luisa ( Maribel Verdu). Eles, 2 adolescentes sedentos de sexo, filhos da burguesia, alheios a tudo o que acontece em seu País. Ela, uma mulher casada com o primo de Tenoch, mas por conta de traição dele, ela topa passar uns dias com os garotos em uma praia paradisíaca, chamada de "Boca do céu". Temos também um outro filme, que é o apresentado pelo narrador: ele conta histórias do passado e do futuro dos personagens e de anônimos que os cercam, de forma brilhante. E temos o filme que é visto em segundo plano: enquanto acompanhamos os 3 aventureiros por um road movie, vemos como pano de fundo as mazelas de um México que continua pobre e preso a muitas tradições, além de envolvimento com traficantes e policiais. Nada disso altera a rota dos nossos heróis, como se esse lado negro do País não fizesse parte de seu mundo.
A direção de Cuaron é brilhante: na marcação em cena, na direção dos atores, nos inúmeros planos-sequências que percorrem o filme em apresentação metódica. A fotografia e a câmera de Emanuel Lubezki, que contribui em todos os projetos de Cuaron, impressiona pelo vistuosismo, e isso não é nenhuma novidade, para quem ja o acompanha nos filmes de Inarritu e de Terrence Malick. Os 3 atores principais estão totalmente entregues aos personagens, fazendo uso dos corpos em cenas de nudez e sexo, quase explícitos. Um filme que quando acaba, continua martelando em nossas mentes, muito mais pela melancolia dos fatos narrados, mesmo que o humor constante do filme nos contagie em sua alegria e informalidade. Obrigatório.
O filme ganhou mais de 37 prêmios internacionais.
Departure
"Departure", de Andrew Steggall (2915)
Longa de estréia do cineasta inglês Andrew Steggall, também roteirista desse drama ambientado no Sul da França.
Tudo no filme remete ao universo de Xavier Dolan: grande apuro visual, conflitos familiares, mãe possessiva e neurótica, um adolescente descobrindo a sua homossexualidade, pai ausente e muitas cenas lúdicas que parecem chupadas do universo de Dolan: em determinada cena, folhas caem magicamente do céu, sobre um protagonista melancólico, filmado em câmera lenta.
Elliott e sua mãe Beatrice viajam para a casa de verão da família, localizada no sul da França. Entendemos que eles farão um inventário da casa, que será vendida. A verdade, é que os pais de Elliott estão se separando. Elliott deseja ser poeta e passa seu tempo andando pela floresta em volta da casa. Até que um dia, avista um jovem francês Clemente, e ambos se tornam amigos. No entanto, os sentimentos de Elliott por Clemente vão além da simples amizade.
Filmado com delicadeza e sensibilidade, o drama peca ao trazer uma narrativa essencialmente lenta, que se torna cansativa lá pelo meio. Os atores estão bem, mas sinto que o plot do relacionamento de Elliott e Clemente poderia ter sido mais bem elaborada e explorada, acabou ficando bem à parte da narrativa. A fotografia exalta a bela locação, fazendo um contraste entre a maravilha da natureza e a relação atormentada e agonizante da família.
Assinar:
Postagens (Atom)



















