sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Minha verdade: O estupro dos 2 Coreys


 "My truth: The rape of two Coreys", de Brian Herzlinger (2020)

Polêmico documentário produzido pelo ator Corey Feldman e dirigido pelo seu amigo Brian Herzlinger e que narra o suposto estupro que os dois dos maiores astros juvenis de Hollywood dos anos 80, Corey Haim e Corey Feldman sofreram na mão de abusadores que faziam parte do entretenimento de Hollywood. Corey Feldman, hoje com 48 anos, por anos prometia fazer um documentário onde finalmente expusesse os nomes desses grandes predadores, e na esteira do movimento #metoo, acabou finalmente fazendo, com a finalidade de assim, evitar que novos atores mirins ficassem em suas mãos e relatassem o que de fato rola nos bastidores. Corey Haim e Corey Feldman foram melhores amigos e juntos, protagonizaram 9 filmes juntos nos anos 80: "Os garotos perdidos", "Sem licença para dirigir", "Um sonho diferente", entre outros. Feldman ainda protagonizou dois dos maiores clássicos juvenis da época: 'Conta comigo" e "Os Goonies".

O filme narra a longa jornada do ator para conscientizar a situação dos atores mirins que, segundo ele, sofrem abuso nas mãos do indústria do entretenimento. É também é uma chance de honrar uma promessa que fez ao seu melhor amigo, Corey Haim , de “contar sua história”. Haim faleceu em 2010, aos 38 anos, de pneumonia. Muitos alegam, entre eles Feldman, que ele estava bastante enfraquecido psicologicamente devido a circunstâncias que teriam acontecido em sua vida, além de não estar mais trabalhando. A mãe de Haim, Judy, é acusada por Corey Feldman de querer se promover em cima da morte de seu filho e de inventar histórias. Mas Feldman bota a boca no trombone e dá nomes que todos queriam ouvir: seu ex-empresário, Marty Weiss, Alphy Hoffman, proprietário do Alphy's Soda Pop Club, uma espécie de Clube para crianças que foi popular no final da década de 1980. e frequentado por astros mirins. Feldman também acusa seu ex-assistente John Grissom de molestá-lo sexualmente e Dominick Brascia, um ator que fez amizade com Haim e Feldman nos anos oitenta. Mas o nome que Feldman acusa e que provocou burburinho em Hollywood é o do ator Charlie Sheen: segundo ele, Sheen estuprou Corey Haim dentro de um trailer, durante as filmagens do filme "Lucas", quando Haim tinha 13 anos de idade. Haim não teria tido coragem de contar para ninguém, somente para Feldman.
O filme é contundente, mas faltam depoimentos de algumas pessoas acusadas. Ainda assim, é certamente um alerta para todos sobre tantos casos de assédio tanto sexual e moral com atores e atrizes que ficam na berlinda entre querer continuar trabalhando, ou ameaçados de nunca mais trabalharem novamente.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

South Park : The 25Th anniversary concert


 "South Park : The 25Th anniversary concert", de Alex Coletti (2022)

Celebração dos 25 anos da série 'South Park", criada em 1997 e famosa pelo politicamente incorreto e pela escatologia. Seus protagonistas Cartman, Kenny, Stan e Kyle, crianças amadas e totalmente sem noção, se tornaram ícones da cultura pop, tendo o bordão "Os my God, they killed Killed" se tornado um meme antes mesmo desse termo se tornar famoso.

Nos dias 9 e 10 de agosto de 2022, os criadores do programa, Matt Stone e Trey Parker, subirem ao palco em sua cidade natal, Denver, Colorado, e tocarem uma seleção dos números musicais mais memoráveis ​​de South Park com o apoio das bandas de rock Primus e Ween. O setlist trouxe 32 músicas tocadas nos episódios, mas muita gente sentiu falta de “Chocolate Salty Balls” cantada pelo Chef (Isaac Hayes), mas parece que o imbroglio entre os criadores e o cantor impediu que fosse cantada.
Para fãs, obviamente, é uma festa. Ver as cenas antológicas sendo exibidas no telão, e o público fandom vestido a caráter na platéia é uma diversão à parte.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

A vingança dos camarões brilhantes


 "La revanche des crevettes pailletés", de Maxime Govare e Cédric Le Gallo (2022)

Em 2019, o filme francês 'Os camarões brilhantes" fez um enorme sucesso no mundo inteiro, com um misto de 'Priscila, a rainha do deserto" em ambiente de pólo aquático Lgbtqiap+. Agora, dois anos depois, os roteiristas e cineastas Maxime Govare e Cédric Le Gallo retornam com os mesmos personagens, a equipe de pólo aquático gay "Os camarões brilhantes" e seu treinador hetero. Eles irão participar de uma competição em Tokyo, e todos se reencontram no aeroporto para embarcar, com escala na Rússia. Um novo integrante se une ao grupo, o hetero Selim, que desconhece que o grupo é gay. Ao chegarem na escala na Rússia, descobrem que as passagens foram compradas em data errada, e que devem permanecer um dia na Rússica. Mas logo eles testemunham a homofobia do governo e da população, através de centros de conversão e da polícia homofóbica.

Mais dramático do que o filme anterior, com cenas até bastante distantes do humor habitual, "A vingança dos camarões brilhantes" é um grande alerta contra países cuja política de segregação e de violência contra a comunidade Lgbtqiap+ é exposta. Os atores são todos estereotipados dentro do universo queer, mas defendidos com brio pelo ótimo elenco. A sequência final com todos cantando "Heroes", de David Bowie, é bem emocionante.

Atrofia


 "Atrophy", de Nick Hartanto e Sam Roden (2021)

Premiado curta de terror psicológico, baseado em história real de um dos cineastas, o descendente de indonésios Nicj Hartanto. Sua mãe sofreu um derrame e ficou com metade do corpo paralisado, sem poder falar. O pai dele teve que cuidar da esposa. A mãe procurava fazer de tudo para se sentir viva, presente, útil, mas seu corpo impedia que ela fizesse qualquer tentativa de independência. O marido, por sua vez, procurava lidar com o stress da situação ficando sozinho em uma sala escura, cantando karaokê e vendo o vídeo com uma cantora indonésia que parecia querer seduzi-lo. Os cineastas contaram exatamente essa história, trazendo ao gênero terror: o marido vai ficando seduzido pela cantora e acaba tendo instintos violentos para com sua esposa. Irene Tsu interpreta a senhora Sugita e Bert Matias o marido, em performances poderosas que renderam prêmios em importantes Festivais de cinema de gênero.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Um outro mundo


 "Un autre monde", de Stéphane Brizé (2021)

Drama escrito e dirigido pelo francês Stéphane Brizé , protagonizado pelos astros Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, que já trabalharam em outros filmes do mesmo realizador, entre eles, o primoroso 'Mademoiselle Chambom". Lindon e Kiberlain já foram casados e é curioso que novamente, interpretem um casal em vias de um divórcio conturbado. Vincent Lindon é Philippe Lemesle, um homem casado com Anne (Sandrine Kiberlain), mas que, ao aceitar um emprego em uma grande empresa, foi gradativamente se afastando dos assuntos familiares e se envolvendo quase que em tempo integral ao trabalho. Anne decide pedir o divórcio, alegando que os últimos 7 anos foram infernais, com a ausência de Philippe na vida familiar e que teria piorado o distúrbio mental do filho adolescente Lucas (Anthony Bajon). Philippe precisa lidar com a pressão profissional e a familiar e decidir o que quer da vida.

Com excelentes performances do elenco, "Um outro mundo", diferente de "Mademoiselle Chambom", aposta em uma narrativa mais fria , quase documental, do esgotamento mental dos protagonistas, que sucumbem em stress emocional. Um filme de atores, intensos, em narrativa lenta e intimamente explosiva.

A fera

"Beast", de Baltasar Kormákur (2022)
Drama de suspense e ação que resgata os filmes típicos dos anos 80 e 90 sobre a natureza se voltando contra o ser humano. No caso, o prólogo do filme começa com caçadores impiedosos massacrando família de leões, matando filhotes e leoas. Um leão sobrevive, e a partir daí, ele quer vingança. "Orca, a baleia assassina" é um desses exemplos de animal que quer se vingar do homem que matou sua cria. Aqui, como protagonistas, a família do médico Nate (Idris Elba) e suas duas filhas, a adolescente Meredith e a pequena e esperta Norah. Nate está em conflito familiar com Meredith, que culpa o pai por não ter salvo sua mãe na doença dela. Eles vão para a África para visitar o local que a mãe amava. Para recepcioná-los o melhor amigo de Nate, o protetor da reserva Martin (Sharlto Copley). Durante um passeio, eles testemunham uma vila inteira dizimada, e descobrem que um leão feroz está matando todos que encontra pela frente. Eles precisam se refugiar para sobreviver.
A trama é genérica e repleta de clichês, mas a direção do islandês Baltasar Kormákur faz a diferença ao apostar em longos planos sequência, trazendo uma narrativa diferenciada. No mais, todo mundo sabe como o filme irá acabar, e me peguei me questionando sobre a mensagem do filme: o coitado do leão se tornou feroz e assassino por querer se vingar de sua família massacrada. Confesso que me peguei torcendo por ele.

 

Yuni


 "Yuni", de Kamila Andini (2021)

Belo drama da Indonésia, vencedor de diversos prêmios internacionais, escrito e dirigido pela cineasta Kamila Andini e que fala sobre o feminino em um país muçulmano e repleto de tradições patriarcais e conservadoras em relação ao papel da mulher na sociedade.

Yuni ( Arawinda Kirana, excelente) é uma adolescente de 16 anos que mora com sua avó. Seus pais trabalham longe, em Jacarta. que. Yuni é estudiosa e tira notas boas na escola, e sonha em se formar. Mas as tradições mandam que ela se case e abandone o estudo. Um dia um homem que ela mal conhece a pede em casamento. Yuni rejeita a proposta e se torna o foco das atenções do lugar onde mora. Logo, chega um segundo pedido. Porém, existe uma questão dessa vez: um mito local diz que se você rejeitar mais de duas propostas, nunca se casará. Enfrentando toda essa pressão, Yuni encontra refúgio no relacionamento com Yoga, um menino tímido de sua escola, e num poema da aula de literatura contado por seu professor favorito, Pak Damar. Até que Pak se torna o terceiro a lhe propor casamento. Yuni se vê com duas opções nas mãos: fugir com Yoga ou se casar com Pak Damar.
Com um tom naturalista e um olhar documental sobre o dia a dia dos personagens, "Yuni" traz um discurso já visto em dezenas de produções, mas onde ele se destaca é ma beleza da retratação da cultura da indonésia, raramente visto, e no contraste entre o universo pop e o arcaico. Linda fotografia.

sábado, 13 de agosto de 2022

Corpo pequeno


 '"Piccolo corpo", de Laura Samani (2021)

Drama italiano poderoso e intenso, vencedor de diversos prêmios internacionais e concorrente no Festival de Cannes 2021. Com uma das cinematografias mais exuberantes e belas que assisti recentemente, 'Corpo pequeno" é co-escrito e dirigido pela cineasta italiana Laura Samani.

No nordeste da Itália no início do século 20, uma jovem chamada Agata (Celeste Cescutti) está em choque após a morte de seu primeiro filho natimorto. O padre diz a ela que a criança agora está condenada a vagar pelo Limbo na eternidade porque o bebê morreu antes de ser batizado. Agata ouve que há uma igreja em algum lugar ao norte cujo padre tem o poder sobrenatural de trazer uma criança morta de volta à vida por uma única respiração, o suficiente para um batismo e para elevar sua alma imortal. Então Agata desenterra o bebê sob o manto da escuridão e sai com o pequeno caixão amarrado às costas, como uma peregrina; ela faz amizade na floresta com uma jovem selvagem (Ondina Quadri), em uma jornada perigosa e que coloca sua religiosidade em cheque.
Com fotografia esplêndida de Mitja Licen e trilha sonora de Fredrika Stahl, "Corpo pequeno" tem um ritmo lento, mas suas imagens são tão belas, poéticas, tristes e contemplativas que fica difícil para um cinéfilo não se encantar com a produção. As duas atrizes protagonistas são excelentes, trabalhando as emoções de forma naturalista, contida, sofrida internamente. O desfecho do filme é belíssimo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Por um punhado de fritas


 "Poulet frites', de Yves Hinant e Jean Libon (2021)

Os documentaristas franceses Yves Hinant e Jean Libon se tornaram cult no início dos anos 2000 por conta da série documental televisiva 'Striptease", que revelava o mundo obscuro e cru da polícia. Eles retornam agora com o curioso, absurdo e divertido documentário "Por um punhado de fritas", que confesso, desde o início acreditei ser um mockmentary, mas todas as matérias que busquei sobre o filme alegam ser um documentário real.

Kalima Sissou, prostituta, foi assassinada em seu apartamento, localizado num bairro violento de Bruxelas. Todas as evidências apontam para Alain, antigo açougueiro e ex-namorado da vítima, exceto pelo fato do investigado não se lembrar de nada do que aconteceu naquela noite. A partir daí, o investigador Jean-Michel Lemoine e sua equipe fazem busca no apartamento da mulher para tentar descobrir evidências de quem poderia ter cometido o crime, até chegarem no açougueiro.
O mais curioso do filme é que os policiais parecem estar interpretando, tal a bizarrice e situações insólitas em várias passagens. O preto e branco ajuda a intensificar a atmosfera de "caso verdade", e a ambientação do início dos anos 2000 dá um tom vintage à produção.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Minha noite


 "Ma nuit", de Antoinette Boulat (2021)

Longa de estréia da diretora de casting francesa Antoinette Boulat, que tem um currículo de casting de mais de 100 produções, e que agora estréia como co-roteirista e diretora desse drama intimista sobre luto e perda.

Marion (Lou Lampros) tem 18 anos. Ela sente uma tristeza profunda desde a morte da irmã e, ao mesmo tempo, tem uma necessidade urgente de liberdade. No aniversário da morte de sua irmã, sua mãe convida as amigas da irmã falecida, para que ela não seja esquecida. Sentindo-se sufocada e sem querer participar do evento, Marion discute com sua mãe e decide sair para as ruas. Ela sai com amigas, bebe, dança, até que decide seguir sozinha pela noite, até chegar em casa. Mas Marion conhece Alex (Tom Mercier, protagonista do excelente 'Sinônimos"), um jovem solitário e impulsivo que a salva de ser assediada por dois rapazes. . Ambos caminham pelas noites até chegarem na casa de Alex, onde conversam.
Um filme que procura entrar na mente de adolescentes em crise, vagando solitários, que não conseguem conversar e se comunicar com os adultos. O filme é totalmente em tom naturalista, quase documental, e tem um quê de "Antes do entardecer", de Richard Linklater, com a sua proposta de quase tempo real com longas caminhadas. Ótima dupla de atores, com muito carisma, em filme melancólico.

The odd job men

"Sis dies corrents", de Neus Ballús (2021)
Premiada comédia dramática espanhola, vencedor entre outros do prêmio de melhor ator no Festival de Locarno, dividido entre os dois protagonistas: Mohamed Mellali e Valero Escolar.
Mohamed (Mohamed Mellali), um imigrante marroquino que está trabalhando em uma pequena empresa de encanamento e reparos elétricos. Ele precisa assumir o lugar de Pep (Pep Sarrà), que está ansioso para se aposentar depois de décadas no emprego. Para isso, Mohamed precisa provar a Valero, que faz dupla com Prep, de que ele é bom o suficiente para substituí-lo. Acontece que Valero é racista e xenófobo, mas aos poucos ele irá mudando sua forma de pensar as minorias, através de histórias que ambos vivenciam com os clientes.
O filme usa a metáfora de apartamento e moradores enclausurados para poder falar de machismo, misoginia, racismo, xenofobia e outros temas que são explorados de acordo com cada cliente. Protagonizado por não atores, "The odd job men" acontece no período de uma semana, e a narrativa é dividida em capítulos separados por dia. Curioso, com um humor bem típico dos europeus.

 

Está tudo bem


 'Tout s'est bien passé", de François Ozon (2021)

Drama melancólico que concorreu no Festival de Cannes 2021, adaptado do livro de Emmanuèle Bernheim. Ozon é dos cineastas mais ativos na França e extrai as melhores atuações de seu elenco, composto pelas estrelas Sophie Marceau, André Dussollier, Charlotte Rampling, Géraldine Pailhas e Hanna Schygulla, musa de Fassbinder, em papel digno e presença forte.

André Bernheim (André Dussolier) ,85 anos, industrial, acaba de sofrer um AVC que imobiliza parte de seu corpo e desfigura seu rosto. Ele tem duas filhas, Emannuele (Marceau) e Geraldine (Pailhas). Sua ex-esposa, Claude, sofre de Parkinson e depressão. André assumiu sua homossexualidade há uns 20 anos e seu ex-amante, Gregory, quer visitá-lo no hospital, mas André não quer que ele o veja doente. André toma uma decisão: suicídio assistido, autorizado na Suíça. Suas filhas tentam demovê-lo da idéia, mas André é determinado.
Hannah Schygulla interpreta a representante da clínica na Suíça que permite a eutanásia, em papel semelhante à de Carmen Maura em "A vaidade". Apesar do tema tão sofrido e da forma naturalista com que Ozon apresenta a sua história, o filme se permite ter pequenos rompantes de fino humor, graças ao talento do astro Dussolier, um dos maiores atores franceses de todos os tempos. Comovente e emocionante.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Camila sairá esta noite


 "Camila saldrá esta noche", de Inês Maria Barrionuevo (2021) Delicado drama intimista, pre miado em Festivais , co-escrito e dirigido pela argentina Inês Maria Barrionuevo. O filme é totalmente focado no universo feminino e todas as questões contemporâneas que vivem as mulheres de várias gerações, principalmente depois do #metoo e do mote "Meu corpo, minhas regras".

"Não são minhas regras. São regras de uma velha moribunda." Essa frase, dita pela protagonista Camila (Nina Dziembrowski), 17 anos à sua mãe, traz também o tema da falta de comunicação entre as gerações. Aborto, assédio, estupro, bullying, morte, coming of age, descoberta da sexualidade, da bissexualidade, da neutralidade política, da religiosidade, do movimento feminino, todos esses são assuntos abordados nesse filme que não deixa barato o que se passa na geração das adolescentes, cada vez mais alertas e atentas no que passa aos er redor.
Com a avó muito doente, Camila se vê forçada a mudar para Buenos Aires e deixar para trás suas amigas. Trocar uma escola pública liberal por uma instituição privada tradicional só fará o temperamento forte da garota se tornar mais evidente. Dentro das turbulentas transformações da adolescência, ela acaba descobrindo seus sentimentos por Clara, uma colega de classe que guarda um segredo.
Com ótimas atuações de todo o elenco, em tom naturalista, o filme acompanha a protagonista em descobertas sobre política, seu corpo, sexo, tabus. Um drama intenso, ousado, verdadeiro sobre toda uma geração que abriu os olhos para o mundo e decidiu colocar para fora as suas inquietações.

A primeira estação de Tabajara Ruas


 "A primeira estação de Tabajara Ruas", de Boca Migotto (2022) Documentário dirigido pelo cineasta gaúcho Boca Migotto, comemorando os 80 anos de idade do cineasta Tabajara Ruas, que também está em fase de preparação de seu novo longa, "Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez", a ser rodado em setembro de 2022. Tabajara estudou arquitetura, foi escritor desde jovem e com a ditadura militar se exilou no Chile, Argentina e depois Dinamarca e África, até retornar ao país com a anistia. Decidiu começar a dirigir já quase aos 60 anos de idade, com o longa "Neto perde a sua alma", de 2000. Depois ele ainda realiza "A cabeça de Gumercindo Saraiva", 'Os senhores da guerra", entre outros.

O cinema de Tabajaras é focado na história e cultura do Rio Grande do SUl, com histórias épicas que se ambientam durante as Revoluções Farroupilha, Federalista e Guerra civil de 1924. Buscando referências em grandes faroestes americanos, Tabajaras privilegia os planos gerais, as cenas de batalha migrações, em imagens que certamente farão parte do imaginário do cinema brasileiro.

13 vidas- o resgate


 "Thirteen lives", de Ron Howard (2022)

Dramatização ficcionalizada do evento que parou o mundo em 2018: o resgate de 12 crianças e um técnico de futebol da caverna Tham Luang, na Tailândia. O fato real já rendeu um ótimo documentário da Discovery, "O resgate". Agora, o prestigiado cineasta Ron Howard, que tem em sua vasta filmografia filmes ecléticos como "Rush", 'Apolo 13", 'Willow, na terra da magia", 'Splash, uma sereia na minha vida", "Cocoon", "Everest", entre outros, faz uso de um orçamento gigantesco e de um elenco internacional para dar vida à uma história que terminou de forma trágica, com a morte de dois mergulhadores.

O filme começa em ordem cronológica, sendo dividida em capítulos diários: No dia 1, dia 23 de junho de 2018, o filme apresenta o time de futebol e como eles entram na caverna Tham Luang para comemorar o aniversário de um deles. Acabam ficando presos quando um temporal começa subitamente. Mergulhadores renomados mundialmente são convocados, entre eles, personagens interpretados por Viggo Mortensen, Colin Farrel, Joel Edgerton, Paul Gleeson, Tom Bateman. O resgate envolveu mais de 6000 pessoas de 17 continentes, sendo considerado um evento que uniu o mundo.Foram 17 dias até o resgate do último menino.
Durante esse período, Saman Gunan, um dos mergulhadores voluntários, ficou inconsciente após ficar sem ar e acabou morrendo afogado. Ele é considerado um herói e uma estátua foi erguida em sua homenagem. Outro mergulhador acabou morrendo posteriormente por infecção. O filme lida com a religião do povo tailandês, e a crença dos voluntários, se arriscando com as próprias vidas, para resgatar a garotada.
O filme é muito bem dirigido, com cenas impressionantes debaixo d'água. Mas mesmo com toda a mega estrutura de grande orçamento, o filme corre longo ( são 150 minutos), arrastado. São muitos os personagens e é difícil se prender dramaturgicamente a alguém, já que o roteiro atira para todos os lados e personagens. Para quem for assistir ao filme querendo saber mais da história e de como tudo aconteceu, talvez vá gostar bastante. ara quem quer ver um filme catástrofe, acabou faltando emoção, que nem o bom trabalho dos atores sustenta.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Os caminhos do Homem


 "Tots els camins de céu", de Gemma Ferraté (2014)

Drama experimental LGBTQIAP+ realizado e escrito pela cineasta catalã Gemma Ferraté, "Os caminhos do Homem" traz uma visão contemporânea da traição de Judas Iscariote, trazida para os dias de hoje. o filme começa com um prólogo onde vemos Judas (Marc Garcia Coté) beijando jesus Cristo e recebendo em troca pela traição 30 moedas de prata. Logo depois, pelo período de 3 dias de angústia, culpa e solidão, Judas se encontra sozinho em uma floresta, e vê um jovem rapaz (Oriol Pla), sua consciência. que decide caminhar com ele.

Um filme ousado e controverso, realizado com baixo orçamento, "O caminho do Homem" não foi feito para um público cristão, aé por conta do olhar artístico, lento, arrastado da trama de dois homens vagando em silêncio pela floresta. Na sequência mais linda e poética do filme, os dois tomam banho nús no lago, em cenas de belo homoerotismo. No mais, um filme chato e pretensioso.

Hipocondríaco


 "Hypochondriac", de Addison Heimann (2021)

Premiado drama psicológico LGBTQIAP+, uma produção independente americana escrita e dirigida por Addison Heimann em seu filme de estréia, O filme traz ecos de "Donnie Darko" e "Repulsa ao sexo", mas com uma narrativa queer. Will (Zach Villa) trabalha como ceramista em um pequeno ateliê. Feliz com suas amigas de trabalho e com o seu namorado Luke (Devon Graye), súbito Will passa a ter alucinações, quando recebe chamada de sua mãe, que esteve ausente por anos. O filme segue para flashbacks mostrando a relação abusiva e tortuosa que sua mãe lhe pregava, deixando-o com traumas físicos e mentais. Will já não sabe distinguie o que é real ou não.

Lidando com o complexo tema de distúrbios mentais, "Hipocondríaco" flerta às vezes com elementos de terror, mas no fundo é um drama sobre uma mente confusa. O filme é razoável, o efeitos são bons para um projeto de baixo orçamento. Os atores estão Ok, e o que se vale discutir aqui é sobre o tema do abuso doméstico e familiar, o que provavelmente muita gente irá se identificar.

Mrs Harris vai à Paris


 "Mrs Harris goes to Paris", de Anthony Fabian (2022)

Nenhum filme com as fantásticas atrizes Leslie Manville ( indicada ao Oscar de coadjuvante por "A trama fantasma") e Isabelle Huppert passa incólume ao espectador. Ainda mais se o filme co-escrito e dirigido por Anthony Fabian e fizer sonhar, se emocionar e chorar várias vezes ao longo do filme. O filme não tem vergonha de se afirmar como uma fábula, um conto de fadas romântico repleto de clichês do gênero, que o aproxima dos clássicos "Sabrina", "O diabo veste Prada" ou até mesmo "Amelie Poulain". Com um excelente time de atores ingleses e franceses, e uma equipe técnica impecável na direção de arte, figurino, fotografia e trilha sonora, o filme certamente encantará quem busca um passatempo prazeroso e açucarado, mas jamais banal.

Ada Harris (Lesley Manville) e uma faxineira em Londres que aguarda a volta de seu marido no final da 2a guerra. Um dia, ao limpar o apartamento de uma cliente arrogante, ela vê um vestido Dior que a encanta. A partir daí, Ada economiza dinheiro para que possa bancar um vestido Dior. Após muitas peripécias, ela junta o dinheiro e segue até Paris para comprar o vestido, sem saber que na Alta costura ala deve encomendar e ele não fica pronto em menos de suas semanas. Sendo obrigada a aguardar o vestido, ela se envolve com os funcionários da Dior, entre eles, a vilanesca Claudine (Isabelle Huppert), que a esnoba por ser pobre, o contador André (Lucas Bravo) e a modelo Natascha (Alba Baptista) e Marquês (Lambert Wilson), um cliente viúvo que s encanta com a simplicidade de Ada.
Um filme delicioso que me emocionou bastante , não traz nada de novo, mas chamará atenção pela qualidade técnica e pela performance.

Carter


"Carter", de Jung Byung-gil (2022)
Extravagante filme de ação dirigido pelo sul coreano Jung Byung-gil, um esteta que tem revolucionado a forma de filmar cenas. Em 'A vilã", de 2017, seu filme aclamado mundialmente e exibido em Cannes, a cena da perseguição de moto chocou todo mundo e acabou sendo copiada em "John Wick 3". Agora em "Carter", o cineasta traz referências no cult "Harware missão extrema", com Sharlto Copley, em ininterrupto plano sequência que traz toda a liberdade na condução dos movimentos de câmera. Não tem como não ficar de boca aberta o filme inteiro vendo cada cena de açao superando a outra, não pela porrada e coreografia, mas pelo movimento de câmera que desafia qualquer fotógrafo e operador de câmera de como foi posicionada e como foi filmada. É espetacular. mas da mesma forma que encanta, o filme também cansa pela ação ininterrupta, pois não dá tempo nem do espectador processar o que viu e lá vem outra cena, ainda mais foda, e isso acaba cansando. Fora que a história de um agente que acorda sem memória e ao longo da trajetória descobre a sua missão já está bem batida. E não bastasse as centenas de agentes americanos, da Coréia do Sul e do Norte atrás do nosso herói, ainda tem uma horda de zumbis!!!!!! Sim, o filme se passa num período onde um vírus torna as pessoas raivosas e o antídoto está sendo disputado por todos.

Vale, e muito, como passatempo pipoca, e se encantar com o início de uma nova era de se contar histórias. 

sábado, 6 de agosto de 2022

Speak no evil


 "Gasterne", de Christian Tafdrup (2022)

Drama de terror psicológico co-produzido por Dinamarca e Holanda. O filme traz o pior pesadelo de cineastas como Michael Haneke, Lars Von Triers e Michel Franco, 3 dos cineastas que amam trabalhar com a angústia e tortura psicológica de seus personagens a níveis insuportáveis de tensão e masoquismo.

Dois casais com filhos pequenos se conhecem em uma viagem de férias na Toscana: Bjørn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch) são um casal dinamarquês com sua filha Agnes (Liva Forsberg). O casal holandês Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders) têm um filho pequeno e mudo, Abel (Marius Damslev). Os dois casais se dão bem. O casal holandês convida o casal dinamarquês para passarem um final de semana em sua casa na Holanda. Convite aceito, o casal dinamarquês logo descobre que o outro casal não é o que parece ser,
esse é um filme para ser apreciado aos poucos, o espectador deve se deixar fluir conforme a narrativa vai se encaminhando. É claro que em algum momento vai dar uma merda enorme, até porquê a trilha sonora aterrorizante não esconde uma virada a qualquer momento. Se preparem para os quinze minutos finais mais angustiantes que terão visto recentemente. Sim, dá raiva, mas enfim, é apenas um filme, que traz um alerta: saiba quem são as outras pessoas antes de aceitarem um convite.

Predador- A caçada


 "Prey", de Dan Trachtenberg (2022)

Excelente prequel de "O predador", franquia iniciada em 1987 com Arnold Schwarzenegger. O diretor de "Rua 10 Cloverfield" dirige o filme com identidade própria, trazendo ao mesmo tempo um filme de terror e também, um drama sobre o amadurecimento de uma jovem indígena Apache em se tornar uma caçadora respeitada por todos, algo como "Mulan" e 'Valente", trazendo protagonismo feminino. Outro ponto excepcional é escalar um elenco de atores indígenas representando personagens comanches no século XVIII.

Naru (Amber Midthunder) ora com o seu irmão Taabe (Dakota Beavers) em uma tribo comanche. Enquanto ele é glorificado, Naru é menosprezada como caçadora por ser mulher. Mas logo Naru percebe que algo estranho acontece na região, e decide ir atrás do inimigo, cuja tribo acredita ser um leão selvagem. Além do Predador, invasores franceses também ameaçam a tribo.
Com bela fotografia, locações exuberantes e efeitos especiais requintados, o filme traz uma ótima performance da protagonista. O roteiro traz novidades, ao invés de ser apenas uma aventura de caça. Super recomendado.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

They/Them


 "They/Them", de John Logan (2022)

A pergunta que não quer calar: O que Kevin Bacon e Anna Chlumsky estão fazendo em um filme tão trash e podre como esse "They/Them"? Não pode ser por dinheiro, pois Kevin tem trabalhado bastante. O filme se indefine entre querer ser um drama LGBTQIAP+, uma paródia a filmes de terror, um slasher que homenageia "Sexta feira 13"( por um acaso, 1o trabalho de Kevin Bacon no cinema) ou até mesmo um romance queer.

Pronunciado como "They-Slash-Them", o filme traz um tema até interessante e atual: um campo de conversão de pessoas LGBTQIAP+ em um lugar isolado ao lago de um lago. Ali, monitores homofóbicos fazem treinamento tortuoso para que os jovens queer entendem a heteronormatividade. Mas um serial killer vestido de máscara passa a matar pessoas do acampamento, principalmente os monitores.
Assistir ao filme só existe um propósito: querer ver um slasher com protagonismo gay, mesmo as cenas de morte serem poucas e bastante sem criatividade. No mais, nada que sirva como passatempo para quem gosta de terror.

O verão eterno

"L eté léternité", de Emilie Aussel (2021)
Quando um adolescente morre, é um choque, pois é a idade onde os jovens acreditam que jamais morrerão. Em "O verão eterno", vencedor do prêmio de melhor filme de estréia no prestigiado Locarno, duas amigas, Lola (Marcia Guedj-Feugeas) e Lise, curtem férias em Marselha junto de um grupo de amigos. Quando um trágico acidente ocorre, Lise (Agathe Talrich)se encontra num buraco sem fundo: como conseguir seguir seus dias sem a presença de sua melhor amiga?
Belamente filmado e fotografado, para explorar o máximo da beleza da juventude em sua plenitude, "O verão eterno" é um filme melancólico, onde a morte perambula em todo o tempo do filme, deixando todos os jovens com um sentimento de finitude. Os atores, em sua maioria não atores, exalam naturalismo e espontaneidade, em um exercício de cinema com olhar lúdico e documental.

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Dylan


 "Dylan", de Elizabeth Rohrbaug h (2014)

Premiado curta LGBTQIAP+ , "Dylan" é um documentário que escrito e dirigido pela diretora nova-iorquina Elisabetta Rohrbaugh baseado em uma entrevista com Dylan Winn Garner, um amigo de infância, que já foi uma garota chamada Emily. O filme acompanha Dylan, um jovem trans, do metrô até a praia de Coney island, em belíssima fotografia enaltecendo a icônica locação de tantos filmes clássicos. Com muita franqueza e honestidade, Dylan conta a sua história, desde que se chamava Emily: seus relacionamentos antes da transição, a dificuldade de comunicação com família e amigos.

No final, Dylan tira a roupa e mergulha no mar, uma metáfora clara sobre a libertação de pudores e tabus. Como tantos outros filmes que retratam personagens trans, 'Dylan" não traz novidades em seu discurso de busca de voz e aceitação. Mas onde difere é na narrativa, bela e simples, com imagens cartão postal.

Trem bala


 "Bulllet train", de David Leitch (2022)

Adaptado da novela japonesa escrita por Kotaro Isaka, "Trem bala", dirigida pelo mesmo realizador de "Deadpool 2" e "Atômica" sofreu críticas pelo que a mídia e público considerou ser um "whitewashing": os personagens originais são todos asiáticos, e no filme, mesmo ambientado em Tokyo, apenas 2 protagonistas são japoneses, os outros são todas estrelas ocidentais. Mas ainda assim com toda essa polêmica, 'Trem bala" é um filmaço mega divertido, repleto de adrenalina e que mais parece um desenho animado do Pernalonga, repleto de cenas hiper mega violentas e nada indicado para menores.

A história é simples e lembra o prólogo de "Relatos selvagens": vários assassinos se encontram em um trem bala que sai de Tokyo com destino a Kyoto, em uma viagem que dura cerca de 2 horas e 15 minutos. O propósito é um só, mas somente no final saberemos o porquê. Entre os assassinos, temos Joaninha (Brad Pitt), Príncipe (Joey King), Tangerina (Aaron Taylor Johnson),Limão (Brian Tyree Henry), Morte branca (Michael Shannon), o filho (Logan Lerman), e as participações de Maria (Sandra Bullock), Carvalho (Ryan Reynolds) e uma tiração de sarro com Channing Tatum, como um passageiro gay. Entre as curiosidades, é o reencontro de Pitt/Bullock e Tatum, os 3 protagonistas de "A cidade perdida", com o mesmo fotógrafo, Jonathan Sela, que aqui adiciona muito tempero pop, repleto de cores e neons. A direção de David Leith é incrível, em ritmo mega dinâmico, e com uma narrativa que vai se tornando cada vez mais maluca e nonsense. Para quem busca uma diversão porra louca, o filme é uma grande pedida.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Mar infinito


 "Mar infinito", de Carlos Amaral (2021)

Totalmente rodado em Porto, Portugal, esse premiado drama independente de ficção científica com doses de romance é uma confusa trama que deixa espectador desalinhado com a história.

Tudo o que sabemos é que no futuro, a civilização migrou para outro planeta. os que ficaram na Terra, encontraram algum tipo de critério que impediu que eles fossem selecionados. Entre eles, está Miguel (nuno Nolasco), um jovem que por não saber nadar, foi desclassificado. Ele passa seus dias em um quarto de hotel com os seus computadores, encontrando uma forma de fazer a migração, e na piscina comunitária, onde conhece Eva (Maria Leite), uma misteriosa mulher com que passa a se relacionar.
Escrito e dirigido por Carlos Amaral, não há muito mais a ser dito sobre o filme. O ponto alto de fato é a fotografia, de Jorge Quintela, se adaptando ao baixo orçamento com belas tomadas e enquadramentos, e a trilha sonora minimalista e bastante melancólica, de Miguel Santos. Mas é um filme arrastado, sem emoção, frio.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

George Michael Freedom uncut


 "George Michael Freedom uncut", de David Austin e George Michael (2022)

Anteriormente lançado na tv em 2017, "Freedom uncut" é relançado com 20 minutos a mais. Para quem é fã ou apenas curioso, o documentário traz um painel bastante amplo sobre quem foi George Michael, nascido em Londres, 25 de junho de 1963 e morto em Goring-on-Thames no dia 25 de dezembro de 2016, de coração, e causando uma comoção mundial.

O filme traz a origem de George Michael com a banda 'Wham!", criada em 1980 com seu amigo Andrew Ridgeley. Juntos lançaram 2 álbuns que explodiram com vários hits, entre eles, "Wake me up before you go". Em 1987, Michael lança seu primeiro álbum solo, "Faith", que foi sucesso mundial. A partir daí, o filme apresenta vários sucessos de Michael, e fala também da briga judicial dele com a Sony Music, que o travava criativamente. Fala tambem do seu show no Rio de Janeiro em 1991, onde conheceu seu grande amor, o brasileiro Anselmo Fillippa, que estava na platéia. Viveram felizes por vários anos até que Filippa morreu de decorrência da Aids. O luto e o próximo álbum que trazia letras inspiradas em Anselmo. Em 1998, George Michael foi preso por atentado ao pudor dentro de um banheiro público de um parque de Beverly Hills, onde ele caiu numa armadilha armada por um policial à paisana. Esse fato repercutiu mundialmente, e Michael decidiu oficialmente se declarar gay. Vários artistas, como Elton John, Mary J Blidge, Stevie Wonder, e empresários, compositores dão depoimentos emocionados. isso sem alar na criação do antológico video clip de "Freedom", que revolucionou a linguagem dos clips na MTV, ao trazer 5 super modelos no lugar de George Michael, que nem aparece no vídeo. O filme peca por não trazer matéria nem imagem do falecimento de George e a comoção que foi em todo o mundo, ignorando totalmente.

Quando explode a vingança


 "Giú la testa", de Sergio Leone (1971)

Obra prima de Sergio Leone, seu penúltimo filme, lançado em 1971. Tendo como pano de fundo a Revolução mexicana e a resistência irlandesa do IRA, o filme tem música tema espetacular de Ennio Morricone, 'Giu la testa", das canções mais lindas que ele já compôs, que chega a dar arrepios de tão emocionante.

Ambientado no México de 1910, o filme começa com Juan Montalba (Rod Steiger), um homem maltrapilho, pegando uma diligência repleta de pessoas ricas, um padre e autoridades. Execrado pela alta classe, logo ele anuncia um assalto junto de sua quadrilha. (Essa cena viria a ser homenageada por Tarantino em "Os oito odiados"). Ele cruza seu caminho com o irlandês John Mallory (James Coburn), que veio da Irlanda após uma traição de seu amigo, que delatou todos os companheiros do Ira e com quem mantinha um trisal amoroso ( ousadia total para a época!!). Logo, os dois se unem em cenas espetaculares, com milhares de figurantes, explosões e massacres de civis.
Um filme irrepreensível, um dos menos conhecidos do mestre italiano, mas certamente, um primor , uma aula de cinema com um desfecho emocionante e que fará todos chorarem por dois homens que fazem com que a amizade seja algo acima de qualquer coisa.

Bruno Reidel - Confissões de um assassino


 "Bruno Reidel", de Vincent Le Port (2021)

Um dos filmes mais brutais que você irá assistir, e baseado em uma aterrorizante história real. O filme todo é narrado em 1a pessoa pelo assassino Bruno Reidal, que degolou um menino de 13 anos. Em seus depoimentos, ele narra a sua história desde os 6 anos de idade, até a idade de 17 anos, quando assassinou o pequeno François. O filme começa com a explícita cena da degola da cabeça, mas mostrando o rosto de Bruno. No ato final, vemos o contra-plano, da cabeça sendo degolada de forma gráfica.

O filme se assemelha à obra prima de René Allio, 'Eu, Jacques Riviere, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão". São filmes apresentados com extrema frieza narrativa, quase documental, sem emoção, apresentando a angústia e desolação do ser humano em seus instintos mais animalescos.
Em 1905, o seminarista francês Bruno Reidel é considerado culpado pelo assassinato de uma criança. A pedido dos médicos que o observam, ele escreve suas memórias para explicar sua ação. O filme mostra a relação abusiva da mãe de Bruno e o estupro que ele sofre quando tinha 6 anos, por um pastor. Depois, quando Bruno presencia um porco sendo morto, ele fica com os gritos ecoando e sente prazer. A partir daí, ele sente desejos por outros garotos, e se imagina matando os colegas de classe, e enquanto isso, se masturba. Já crescido, bruno vai estudar numa escola para seminaristas e sente atração por um colega, Blondel, que ele deseja ardentemente assassinar. "Apenas pensamentos de assassinato me excitam", diz Reidal. Bruno se masturba várias vezes ao dia, imaginando-se matando seus colegas, e é isso o que o motiva a matar o menino François, quando Blondel lhe escapa.
As atuações de Dimitri Doré, aos 17 anos, e Roman Villedie, aos 6 a 10 anos, são espetaculares. Um personagem tão complexo , que deve ter sido um desafio exasperador e doloroso para seus intérpretes. A cena do assassinato é brutal, e por isso, fica difícil indicar esse filme, mas ao final, se torna um primor de narrativa psicológica.

Pegando a estrada


 "Jaddeh kaki", de Panah Panahi (2021)

Filho do celebrado cineasta iraniano Jafar Panahi, preso pelo regime do seu país, Panah Panahi estréía nos cinemas com esse primoroso drama que traz ecos de comédia e musical, sendo comparado por muitos críticos à "A pequena Miss Sunshine". O filme concorreu no Festival de Cannes 2021 e recebeu diversos prêmios internacionais, merecidamente.

Um road movie por excelência, que traz uma expectativa sobre o motivo da viagem da família composta pelo Pai (Hasan Majuni), Mãe (Pantea Panahiha), Filho Caçula (Rayan Sarlak) e o mais Velho (Amin Simiar), que dirige o carro. A mãe, pai ( que está com a perna engessada) e o filho seguem a viagem toda falando, enquanto o filho mais velho está sempre calado e preocupado.
No caminho, comentam sobre estarem sendo seguidos, de terem vendido a casa e o carro ( o que estão é emprestado), mas o espectador somente saberá o motivo da viagem quase no terceiro ato. Tem um plano geral onde ocorre a revelação que é simplesmente genial, comovente, lírico. Os atores são todos excelentes, mas é Pantea Panahiha, como a mãe, que traz o conforto para todas as cenas como uma mãe leoa e protetora. E o pequeno Rayan Sralak, de apenas 6 anos, um pequeno gênio, absurdamente encantador e repleto de magia e esplendor. Uma pequena obra prima.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Petit nature


 'Petit nature", de Samuel Theis (2021)

Drama francês de tema explosivo e polêmico, concorreu no Festival de Canes 2021. O filme fala dos desejos sexuais de um garoto de 10 anos, Johnny (Aliocha Reinert) pelo seu professor Jean Adamski (Antoine Reinartz). Em determinado momento, o filme parece que irá se encaminhar para algo parecido com "A caça", de Thomas Vintemberg, mas ele tem narrativa própria, dolorosa.

Jonnhy, sua mãe Sonia (Melissa Olexa), a filha pequena e o filho adolescente saem da casa do amante abusivo da mãe e vão morar em um alojamento público. Jonnhy cuida da casa e da irmã, enquanto sua mãe trabalha fora como atendente de uma lanchonete. Seu irmão adolescente é um vagabundo e traz a namorada para fazer sexo em casa na ausência da mãe. Depois de uma discussão onde apanha da mãe, Jonhy vai buscar refúgio na casa do professor, que mora com sua namorada Nora. O menino passa a confundir seus sentimentos com o carinho do casal e acredita que o professor é mútuo nos desejos.
Uma cena desconcertante certamente faria metade do público sair da sala de cinema: o menino seduzindo o professor, uma cena corajosa que não teria vez em filmes brasileiros, até porque o juizado de menores daqui jamais permitiria. Outra cena memorável é a final, com Jonnhy dançando ao som de “Child in Time” do Deep Purple, lembrando o final de Beau Travail de Claire Denis, apresentando a catarse do personagem.
Mas nada seria memorável sem o trabalho absolutamente primoroso e espetacular do pequeno Aliocha Reinert, que para meu choque, é um não ator. Representando todas as camadas emocionais e com cenas complexas, seu trabalho é impressionante. A atriz que interpreta sua mãe também chama a atenção e também é não atriz.

Sacco e Vanzetti


 'Sacco e Vanzetti", de Giuliano Montaldo (1971)

Obra prima do cinema político da Itália, com trillha sonora de Ennio Morricone que compôs as famosas músicas que Joan Baez canta, "A balada de Saco e Vanzetti". O filme recebeu inúmeros prêmios, incluindo melhor ator no Festival de Cannes 1971 para Riccardo Cucciola, no papel de Niccola Sacco (achei injusto não dividirem o prêmio com Gian Maria Volonté que tem o mesmo tempo em cena e igualmente fantástico).

Boston, Estados Unidos, início dos anos 1920. Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, dois imigrantes italianos anarquistas, são detidos pela polícia, acusados pelos assassinatos de um contador e de um guarda durante um assalto à uma fábrica de sapatos. O julgamento foi político e não considerou a justiça, pois ambos eram estrangeiros e seguiam uma doutrina política oposta ao conservadorismo que detinha as rédeas do poder no país. Não foram absolvidos nem mesmo quando, cinco anos depois, um outro homem admitiu a autoria dos crimes. Acabaram condenados à pena capital e executados por eletrocução em 23 de agosto de 1927.
O filme é comparado à grandes clássicos políticos , como "Z", de Costa Gavras, e "O caso Mattei", de Elio Petri. Um filme potente, que mistura ficção, dramatização de cenas e estilo documental, ainda hoje atual e provavelmente, tendo inspirado muitos filmes de tribunal.

A guerra de Miguel


 "Miguel's war", de Eliane Raheb (2021)

Grande vencedor do prêmio Teddy no Festival de Berlim 2021, dedicado a filmes com temática LGBTQIAP+, "A guerra de Miguel" tem como protagonista o libanês Michel Jelelaty, que ao fugir para a Espanha nos anos 80, mudou seu nome para Miguel Alonso, uma forma de esquecer o seu passado traumático.

Teddy Berlim 2021
A cineasta libanesa Raheb conheceu Jelelaty por acaso, através de seu trabalho como tradutor na Espanha, onde vive desde 1985. Miguel tinha esperança, ao mudar de nome, de que uma mudança de identidade ajudasse a afastar as memórias difíceis de crescer gay no Líbano, sendo filho de família conservadora. Tinha também o confronto direto com seu irmão mais velho, exemplo de masculinidade para a família, e por isso, Miguel decidiu se alistar no exército libanês e lutar contra a Síria. A experiência o traumatiza ainda mais, no entanto, ao testemunhar uma infinidade de horrores, incluindo violência sexual, étnica e armada. Ele decide migrar para a Espanha para finalmente ter uma chance de liberdade. Agora se sentindo envelhecido, Miguel decide lutar contra seus fantasmas e retorna para o Líbano junto da cineasta.
O filme mistura depoimentos, animação com formatos diferentes e o mais curioso: testes de elenco onde Miguel e Rehab entrevistam atores que irão reconstituir cenas da vida de Miguel. O filme é interessante, mas a sua longa duração torna tudo bem arrastado e cansativo.

Morte de um Virgem e o pecado de não Viver


 "Death of a virgin and the sin of not living", de George Peter Barbari (2021)

Espetacular filme libanês, premiado em diversos festivais e que traz uma forma bastante original e inusitada de contar uma história. O filme concorreu no Festival de Berlim 2021 na Mostra panorama e é uma mistura de drama, documentário, comédia e poesia existencialista. Lembra "Noivo neurótico , noiva nervosa"de Woody Allen , quando o cineasta colocava pensamentos nos personagens, compartilhando com o espectador o que o personagem realmente sentia internamente.

A história é comum e já vista em muitas produções: 4 amigos jovens seguem até um bordel para transarem com prostitutas, sendo que um deles, Etienne (Etienne Assal), irá perder sua virgindade. O filme acompanha o trajeto deles de suas casas até o bordel. Durante todo esse percurso, todos que aparecem n filme, tanto os protagonistas, quanto os figurantes, terão momentos solos de solilóquios existencialistas, divagando sobre suas vidas, seu destino pessoal e profissional e falando sobre suas mortes futuras e de como morrerão.
É justamente nessa narrativa de trazer para a câmera os rotos de pessoas invisíveis que o filme ganha seu brilho. É comovente, é poético, é trágico nas narrativas. Através da história banal, o filme apresenta o contexto social, econômico do Libano, um país patriarcal, misógeno e onde os jovens não encontram oportunidades para seguir seus sonhos e mudar as suas vidas. Brilhante, ainda mais considerando que todos no filme são não atores. O ato final, com Ethienne no quarto com a jovem prostituta, é de cortar os pulsos de tão melancólico e emocionante na dor de ambos.

Tarsilinha


 "Tarsilinha", de Celia Catunda e Kiko Mistrorigo. Dirigida pelos realizadores de "Peixonauta", "Tarsilinha" é uma simpática animação brasileira recheada de personagens do folclore nacional, como a Cuca e o Saci, e inspirado no conjunto da obra de Tarsila do Amaral, uma das mais importantes artistas plásticas do modernismo brasileiro. Lindamente animado e com um visual que retrata cores e traços de Tarsila, o filme tem trilha de Zeca Baleiro e Zezinho Mutarell, com belas canções regionalizadas que embalam a aventura de crescimento e descoberta de Tarsilinha, menina de 8 anos que enfrenta muitos desafios para recuperar as memórias roubadas de sua mãe. Tarsilinha e sua mãe passam férias no sítio, e após uma ventania provocada pela invejosa lagarta (Marisa Orth), a mãe perde a memória após ter sua caixinha de lembranças roubada. Cade à Tarsilinha seguir pela floresta em busca das memórias, antes que seja tarde demais.

Lindo filme que não encontrou receptividade do público no cinema como deveria, trazendo aos pequenos uma introdução importante à cultura genuinamente brasileira. Torço muito para que o filme encontre espaço no streaming para que se torne um projeto reverenciado por pais e filhos e educadores.