quinta-feira, 11 de março de 2021

O pequeno Raul


"la Raulito", de Lautaro Murúa (1975)
Considerado um dos melhores filmes argentinos dos anos 70, "O pequeno Raul" é um drama baseado na história real de María Esther Duffau , que durante toda a sua infância e adolescência viveu em manicômios, reformatórios femininos e nas ruas. Apaixonada pelo time Boca Juniors, Maria se disfarçava de homem, pois como mulher ela não encontrava forças contra um sistema social, jurídico e penitenciário que privilegia os homens, e também para escapar das constantes investidas de assédio sexual. Vivida nas telas por uma impressionante e visceral Marilina Ross, que exala energia e força em todas as cenas, o filme é vivido por não atores.
Impossível não pensar que "Pixote" não tenha tido inspiração nesse filme, ainda mais sendo Babenco um cineasta argentino. Lautaro Murua é um cineasta chileno e também ator. O desfecho lembra bastante "Os incompreendidos", de Truffaut.

Um caso de amor estrangeiro


"Ikoku Ikokoi romantan", de Hajime Ootani (2007)
Adaptação do mangá Yaoi escrito e desenhado por Yamano Ayane em 2004. O filme foi lançado em 2007. Yaoi é o sub-gênero do mangá cm temática voltada ao público gay. O filho de um chefe da Yakuza, Ranmaru, vai se casar com a filha de outro mafioso, Kaoru. O casamento será em um cruzeiro na Itália desejo de Kaoru. No entanto, o casamento de tradiçao japonês chama a atenção de todos na viagem, incluindo o capitão, o italiano Alberto. Quando Kaoru briga com Ranmaru na noite d enúpcias, ela o expulsa do quarto. Ranmaru vai afogar as mágoas no bar do cruzeiro,e ali esbarra com Alberto. Os dois acabam na cabine de Alberto e transam.
Um divertido romance LGBTQIA+ misturado à uma trama de sucessão na Yakuza, o filme tem cenas de sexo que envolvem estupro e abuso sexual, prática bastante comum em histórias Yaoi.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Glen ou Glenda


"Glen or Glenda", de Ed Wood (1953)
Considerado um dos piores filmes de todos os tempos, "Glen ou Glenda" tem um grande mérito indiscutível: foi um filme que trouxe dois temas muito à frente de seu tempo à pauta: Cross dresser, e o ser intersexual. Até há pouco tempo, e rotulado no filme, o primeiro caso se chamava de travestismo, e o segundo caso, de hermafrodita.
Quando uma travesti se suicida, o Inspetor Warren decide ir até o psicólogo para entender mais sobre esse universo pouco conhecido. O Dr relata dois casos: o de Glen, que gosta de se vestir de Glenda, e pega casacos femininos de sua namorada para se vestir; e o de Alan, nascido homem mas que nasceu com os dois sexos e optou pelo feminino, se chamando agora de Anne.
O que tornou o filme muito conhecido, além das histórias e narração curiosas, foi o enxerto de cenas de documentário aleatórios, como batalha em guerra, manada de búfalos, ataques aéreos, etc, com cenas de Bela Lugosi falando um texto mais apropriado a filmes de terror, cujos diálogos não t6em nada a ver com o filme em si.
Tudo isso tornou o filme um evento imperdível, do tipo "quanto pior melhor". O próprio diretor Ed Wood interpreta Glen, e é divertido ver a sua figura masculina e forte vestindo roupas femininas. Uma cafonice desastrada mas bastante saborosa.

Os Estados Unidos Versus Bille Holliday


"The United States Vs Bille Holliday", de Lee Daniels (2020)
Falecida aos 44 anos no dia 17 de julho de 1959, em Nova York, Bille Holliday é considerada uma das maiores cantoras de jazz da história. Em sua carreira, Billie teve problemas com álcool e drogas, e acabou falecendo de cirrose hepática e edema pulmonar. Mas o filme foca em um fragmento do final de sua carreira: Billie resolveu cantar a sua versão do poema "Strange fruits", cuja letra relatava o racismo contra negros do sul dos Estados Unidos, com descrição de atos violentos praticados contra a comunidade. O Governo estava nesse período focado na luta contra o narcotráfico e resolveram usar Billie Holliday (Andra Day) como bode expiatório. Quando ela começou a cantar 'Strange fruits", o governo temia que a música fosse usada como hino, e decidiu colocar o agente Jimmy Flecther (Trevante Rhodes) para vigiar a ligaçao de Billie com as droga. Acabou que Jimmy se tornou amante de Billie, e a todo custo tentava negar o envolvimento dela com as drogas.
A história do filme lembra bastante a de "Judas e o Messias negro", onde também um agente infiltrado do FBI buscava passar informações para a agência. Tecnicamente o filme é impecável: Fotografia, direção de arte, figurino e maquiagem. Andra Day ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz de drama 2021. O roteiro é que trata de tantos temas que acaba esticando demais a história e fica dando um ritmo arrastado. Lee Daniels é um diretor que curto, principalmente em 'Preciosa" e "Obsessão", mas aqui é bem conservador na narrativa, cinemão. Nada contra, mas faltou alma ao jazz e à história.

terça-feira, 9 de março de 2021

Wolfwalkers


"Wolfwalkers", de Tomm Moore e Ross Stewart (2020)
Filme que encerra a trilogia do folclore celta-irlandesa de Tomm Moore, iniciada com
"Viagem ao mundo das fabula" e depois com, "A canção do oceano". AMbientado na Irlanda de 1650, o filme apresenta Robyn, uma menina de 10 anos, e seu pai Bill (Sean Bean). Ele é um caçador que e trazido para a cidade para matar lobos que estão atacando na região. Robyn é sua aprendiz. Mas quando ela vai na floresta em busca de seu pássaro que fugiu, ela se depara com lobos. Ao fugir, ela fica presa em uma armadilha, e é salva por uma pequena loba, que logo depois de revela ser uma menina, Meebh, pertencente à última raça de Wolfwalkers, lobos que adquirem forma humana.
Tecnicamente impecável, o desenho em 2D tem dublagem perfeita nas vozes de atores ingleses, e uma direção de arte que reproduz com detalhes a cenografia e artefatos da época. A história é linda e o filme tem ritmo e ação suficientes para segurar a atenção do espectador. Talvez as crianças não embarquem tanto na história, que é dramática e sem humor, e claro, sem músicas cantadas por personagens.

Xiao Wu- Um artista batedor de carteiras


"Xiao Wu", de Jia Zhengke (1998) Primeiro longa dirigido pelo Mestre chinês Jia ZhengKe, lançado em 1997 e vencedor de diversos prêmios internacionais, entre eles, Berlin. Inteiramente rodado em 16MM e com câmera na mão, "Xiao Wu" é a homenagem de ZhengKe ao cineasta Robert Bresson e sua obra-prima "Pickpocket- o batedor de carteiras". O filme foi rodado em sua cidade natal, Fenyan. Zhengke apresenta seus temas que vieram a ser recorrentes: A china em transformação: de uma China comunista à uma nova China modernizada. O filme é todo formado por não atores, a maioria amigos do cineasta, seguindo uma tradição do neo realismo italiano, com locações reais e personagens interpretados por amadores. Xiao Wu (Wang HongWei, ator de seu próximo filme, a obra-prima "A plataforma") é um batedor de carteiras. Seus antigos comparsas abandonaram o roubo de carteiras e partiram para outras atividades lícitas. Quando um deles anuncia seu casamento e não convida Xiao Wu, esse decide se convidar e descobre que é persona non grata. Xiao Wu se envolve com a garota de programa Wei Wei, por quem se apaixona. O filme tem uma atmosfera repleta de frescor, de filme de cineasta iniciante, mas com um fundo político e social bastante forte. O tema da alienação juvenil se inicia aqui, dando sequência em seus filmes posteriores. O filme é repleto de cenas memoráveis: as caminhadas de Xiao Wu pelas ruas decadentes da cidade; as cantorias de karaokê com Wei Wei no bordel com cores vermelhas saturadas; a cena da casa de banho, e a cena final, a humilhação pública do anti-herói.

Terra


"Land", de Robin Wright (2021)
Filme de estréia da atriz Robin Wright, que até então havia dirigido episódios de "House of cards", "Terra" foi exibido com enorme sucesso em Sundance 2021 pela expectativa do trabalho da atriz como diretora, atriz e produtora.
"Terra" é um filme que remete imediatamente a "NA natureza selvagem"e "Livre", com Reese Winterspoon, filmes onde os protagonistas buscam seu refúgio espiritual na natureza inóspita.
Após uma grande tragédia acometida contra seu marido e filho, Edee (Robin Wright) resolve se isolar do mundo e ficar morando em uma cabana na floresta, sem carro e qualquer tipo de conforto material. Edee se prepara para um suicídio, mas é salva por um caçador e uma enfermeira que estavam caçando por ali, ambos descendentes de indígenas, Miguel (Demián Bichir) e Alawa, uma enfermeira. Edee se irrita por terem salvo ela, mas aos poucos vai entendendo o seu papel no mundo.
Com uma fotografia deslumbrante de Bobby Bukowsky, captando lindamente a região de Albarta, no Canadá, e a trilha sublime de Ben Solee, Robin Wright faz um filme que diz muito nesses tempos de isolamento da pandemia, deixando claro a importância do que de fato nos faz a diferença. É um filme triste, depressivo, mas que abre portas a novas perspectivas sobre a vida. Belo.

Meu assédio sexual


"My sexual harassment", de Sakura Momo (1994)
Adaptação do anime escrito e desenhado por Sakura Momo e dirigido por Kazuma Kodaka, "Meu assédio sexual" é um típico Yaoi, animes LGBTQIA+ com temas BL (Boy lovers).
O protagonista é Junya Mochizuki, um jovem ambicioso que sonha em crescer em uma grande empresa. Ao conhecer o seu chefe Mr Honma, Junya descobre uma forma mais fácil de escalar ao topo da empresa: Honma o estupra e diz que se eles forem amantes e ele fazer sexo com presidentes de outras empresas para favorecer a corporação, ele logo obterá o que sempre sonhou. Mas para isso, terá que se submeter a todos os tipos de fectiches sexuais, que envolvem dominação e Bondage.
Lançado em 1994, esse anime possui inúmeras cenas de sexo e virou cult entre a comunidade gay. A dublagem das cenas de sexo ficaram clássicas: o personagem Junya gritando e gemendo durante o ato sexual é hilário. Mas é também uma boa oportunidade de se avaliar o gênero japonês: na maioria dos filmes, o tema é submissão e assédio sexual. Li em uma matéria que isso é o olhar sob a sociedade japonesa, onde a opressão é constante, e para muitos subirem na vida, dependem de favores sexuais.

segunda-feira, 8 de março de 2021

My Pico


"Boku no Pico", de Katsuyoshi Yatabe (2006)
Um dos filmes mais perturbadores da história do cinema, "My Pico" é um anime realizado em 2006, e desde então, proibido em vários países. Um vídeo no Youtube chamado 'Don't watch a anime called Boku" viralizou, com o narrador implorando para ninguém assistir ao doentio filme.
O filme é um Yaoi, ou seja, anime para BL (Boy lovers). Mas também é considerado o primeiro Shotacon do cinema: Shota é um gênero onde um homem mais velho tem relacionamento sexual com um adolescente masculino. O filme é dividido em 3 episódios/
Ep 1- Pico é um garoto que trabalha como atendente no restaurante de seu avô. Piko tem trejeitos femininos, e isso confunde Tamotsu, um turista na cidade que fica seduzido pela imagem de Piko,. acreditando ser uma menina. Um dia, em um passeio, Tamotsu seduz Piko no carro e fazem sexo. Ao descobrir que Piko é um rapaz, Tamotsu se excita e pratica todo o tipo de fetiche com o menino, inclusive tirando sua virgindade.
Ep 2- Piko, agora experiente mas ainda um adolescente, conhece Chico, um órfão da cidade, que mora com a irmã mais velha. Ao verem a irmã de Chico se masturbar, Piko excita Chico e transam.
Ep 3- Piko e Chico agora são amantes e conhecem Coco, um menino travesti, com quem acabam fazendo uma orgia.
Sim, o filme é perturbador, doentio, repleto de todos os tipos de taras que você possa imaginar, muito mais devassos que boa parte dos filmes pornôs existentes. Um filme obscuro, cultuado e certamente, banido e impossível de ser indicado para qualquer um assistir.

Shotacon - Garotos irreais


"Unreal boys", de Karl Andersson (2020)
Polêmico documentário alemão LGBTQIA+ que fala dos "Shotacons": anime ou mangá que mostra garotos na puberdade ou na pré-puberdade ao lado de personagens mais velhos que tenham atração por crianças. Confundido pela sociedade ocidental como uma forma de propagar a pedofilia e a pornografia infantil, o filme apresenta o cineasta alemão viajando para Tokyo e entrevistando 3 artistas Shota: Tsukomo Go, Yosuke Hatta e Tilshi. Casa um deles explana o porquê desse gênero específico, qual a relação das histórias e do desejo por corpos infanto juvenis erotizados. Um dos artistas defende o gênero alegando que nada tem de pedofilia ou pornografia infantil: alerta que e um dado cultural, que no Japão, a nudez pública não é uma questão, dando exemplo das casas de banho onde homens de toda as idades circulam nús.
Um filme instigante, provocativo e que traz depoimentos curiosos e reveladores de uma parte da sociedade japonesa que foge de conservadorismo e opinião pública.

Caros camaradas!


"Dorogie Tovarischchi!", de Andrey Konchalovskiy (2020)
Puta que o pariu, que obra prima esse drama russo indicado a uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2021, e vencedor do Prêmio especial do juri de Veneza 2020. Dirigido por Andrey Konchalovskiy, irmão de Nikita Mikhalkov e que teve uma extensa carreira nos Estados Unidos, O filme é baseado em uma tragédia ocorrida durante o regime comunista pós Stalin, sob a presidência de krushov: no dia 1 de junho de 1962, na cidade de Novotcherkassk, ao sul da Rússia, 5 mil operários caminharam até o parlamento para reclamar pelo aumento de preços da comida e da redução salarial. O governo os recebeu à balas: 27 mortos, 7 executados e dezenas de feridos, além de 200 presos. Essa história foi abafada pelo governo, e somente veio à tona com a queda do comunismo em 1980.
A protagonista é Lyusa (uliya Vysotskaya, esposa do cineasta), uma funcionária exemplar do Governo e do regime comunista. Stalinista, ela lamenta a morte do grande presidente mas segue fiel ao partido. Sua filha, a adolescente Sveta (Yuliya Burova), trabalha em uma fábrica e se junta aos grevistas. Sua mãe a proibe de participar. Quando Luyda presencia o massacre e a sua filha desaparece, ela repensa seus conceitos políticos e vai em busca da filha.
Konchalovsky realiza um poderoso drama, protagonizado por duas atrizes vibrantes, vigorosas e comoventes em suas performances. Filmado em dramático preto e branco, "Caros camaradas!" parece uma versão russa de "Desaparecido-um grande mistério", de Costa Gavras. Ao invés de Jack Lemmon que vai até o Chile da ditadura militar em busca do filho desaparecido, temos uma mãe que fará de tudo para descobrir o paradeiro da filha.
Para quem gosta de dramas densos históricos, baseados em triste página da história russa, o filme é obrigatório.

domingo, 7 de março de 2021

As sete colinas de Roma


"Arrivederci Roma", de Roy Rowland (1957)
Musical romântico protagonizado pelo Astro e tenor Mario Lanza, que viria a falecer dois anos depois, aos 38 anos de idade. Mario Lanza teve uma vida conturbada. descendente de italianos, Lanza nasceu na Filadélfia. Começou como cantor A MGM, fascinada pelo seu potencial, o contratou para protagonizar vários longas, a maioria de rande sucesso, entre eles, "O grande Caruso". Mas em 1952, Lanza foi demitido das filmagens de "O príncipe estudante": o diretor alegou que Lanza engordou muito e não poderia mais fazer o papel. Lanza entrou em depressão, passou a se tornar alc
oolatra. Decidiu então se mudar para a Europa, junto de sua família, e morar lá. Ele filmou mais dois longas, entre eles, "As sete colinas de Roma". O filme é um musical com uma história bem simples, mas a grande força do filme é promover as paisagens incríveis de Roma, captadas magistralmente por Tonino Delli Colli, que fotografou várias obras primas de Sergio Leoni.
Lanza é Marc, um famoso cantor de tv que namora a fútil Carol. Quando ela o abandona para ir com um rapaz até a Itália, ele decide ir atrás tentar reconquistar o amor dela. No trem, ele conhece Rafaella (Marisa Allasio), uma jovem pobre que pretende morar na casa de um tio em Roma e trabalhar. Marc paga passagem dela e a leva até o local da casa do tio, mas descobrem que ele se mudou. Marc decide convidá-la a morar com ele e o primo, que também é cantor. Todos fica felizes, mas ambos acabam se apaixonando por ela.
O filme, como falei antes, vale pelas locações belamente filmadas.
A história é simples. Marc Lanza, para quem não conhece seu trabalho, está bem no filme, bastante carismático e cantando brilhantemente. Uma sessão da tarde bem agradável e ingênua.

Mulher oceano


"Mulher oceano", de Djin Sganzerla (2020)
Filha dos cultuados cineastas Helena Ignez e Rogério Sganzerla, a atriz Djin Sganzerla agora estréia na direção em um provocativo e poético longa, acumulando as funções de co-roteirista, produtora e protagonista em papel duplo. Ousado, o filme foi rodado no Japão e no Rio de Janeiro.
De imediato, assistindo ao filme, me lembrei dos clássicos "A dupla vida de Veronique", de Kieslowski, e "Encontros e desencontros", de Sofia Coppola. No primeiro, a questão do Dopleganger, e no segundo, a solidão em um país onde a língua e a cultura são muito distantes e traduzem em existencialismo. A fotografia, bela e traduzindo em imagens as questões filosóficas de ambas as personagens em belo registro das locações e principalmente, as cenas aquáticas, captadas por André Guerreiro Lopes.
Hannah (Djin) é uma escritora que se refugia em Tokyo para escrever um livro. Recém separada de Rafael (Gustavo Falcão), Hannah, em seu último momento no Rio, se impressionou com a imagem de uma mulher que atravessa a praia da Urca, Ana. Ana (também Djin), é uma mulher que trabalha em um banco, e está se preparando para um torneio de natação. Essas duas histórias, sem jamais se entrelaçarem, se tornam uma o espelho da outra, assim como no filme de Kieslowski. A presença do mar, a sensação de insatisfação pessoal e profissional, o vaio, a calmaria que o mar trás. É um filme com muitas inflexões espirituais e metafísicas bem apropriadas ao cinema de Kieslowski, que tanto faz falta. Djin faz um cinema bem particular, bem diferente dos filmes que seus famosos pais fazem. Uma grande revelação.

sábado, 6 de março de 2021

A van


"The van", de Erenik Beqiri (2019)
Um dos filmes mais avassaladores que assisti em tempos, "A van" é um super premiado curta Albanês, que concorreu no Festival de Cannes e é um dos finalistas ao Oscar de melhor curta 2021.
Na Albânia, um rapaz (Phénix Brossard) participa de uma luta clandestina que acontece dentro de uma van, onde apenas uma pessoa sairá viva. O rapaz quer juntar dinheiro para levar seu pai junto, apesar desse insistir que o filho não deva continuar lutando e apanhando para levá-lo junto.
Com atuação comovente e visceral de Phénix Brossard e de Arben Bajraktaraj como o pai, "A van" é um retrato cruel da desumanidade, da falta de compaixão para com o outro. Amor só entre familiares, lutando por um mesmo ideal. O desfecho é arrebatador.

Raya e o último dragão


"Raya and the last dragon", de Don Hall e Carlos López Estrada (2021)
Extraordinária animação da Disney, o primeiro com uma Princesa do Sudeste asiático, e com um elenco original protagonizado pela vietnamita Kelly Marie Tran, a oficial Rose de "Star wars". Além dela, o filme tem o mais que luxuoso e brilhante auxílio de Awkwafina, dublando a dragão Sisu, uma das melhores personagens recentes da Disney, repleta de carisma e diversão. Sandra Oh dubla a Rainha Virana, mãe da vilã Namaari (Gemma Chan). O visual do filme é estonteante, perfeito em seus detalhes, fotografia, direção de arte, certamente das mais belas já surgidas noa estúdios Disney.
Em um lugar chamado Kumandra, o mundo é comandado por 5 regiões distintas, auxiliados por dragões que ajudam a proteger a jóia que traz harmonia a todos. Quando uma forca misteriosa surge, os dragões acabam endo eliminados. O povo acaba brigando entre si, e a jóia acaba sendo dividida em 5 partes. Cabe à Princesa Raya a missão de recuperar as cinco partes e uni-las, com a ajuda de Sisu, o último dragão.
O filme é emocionante e traz mensagens positivas sobre união e harmonia. Mesmo sendo da Disney, o filem traz temas um pouco mais adultos e deixa de lado o estilo infantil. Com cores vibrantes, personagens encantadores, "Raya e 'último dragão" lembra diversos filmes da Disney, mas ainda assim consegue ter a sua individualidade, com personagens femininas fortes e a possibilidade de uma grande virada de caráter.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Ten-Love


"Ten-Love", de Bruno de Oliveira. Concorrente no Festival de Gramado 2020 na Mostra de longas gaúchos, o drama romântico "Ten-love" foi produzido, escrito, dirigido, protagonizado e editado por Bruno de Oliveira. O filme é uma produção de mega baixo orçamento, mas a grande provocação de Bruno de Oliveira é mostrar e falar todas as marcas gigantes que em qualquer outro filme teria sido eliminado ou camuflado: Netflix, Domino's Pizza, Sony, Gatorade, Master Chef, Band, Big Brother. A referência de Bruno para seu filme certamente veio de dois filmes cults: o clássico argentino "Medianeiras", e "Closer-mais perto". É desse último que ele pega a referência e constrói o seu prólogo, na cena onde o casal Bruno (Bruno de Oliveira) e Georgia (Rejane Martins) irá se conhecer. O filme faz questão de frisar a solidão na metrópole. a luta dos losers, e o mais divertido e auto0-referencial, a vida cinéfila de Bruno, que não encontra ninguém para conversar sobre os filmes.
Outro filme que traz referência explícita é de Xavier Dolan, "Amores imaginários", na cena da festa com luzes estrobos.

Um fllme cinéfilo realizado por um cinéfilo que mescla gêneros: drama, romance, policial. Fiquei na dúvida se as performances foram alguma homenagem aos "atores-modelos" de Robert Bresson onde ninguém exprime emoção, ou se os atores são fracos. Um filme fofo, que começa e termina no clima de romance, mas com um miolo desvirtuado em trama policial.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Olhe pra mim, querido


"Here's looking at you", de André Schäfer (2007)

Documentário LGBTQIA+ alemão, que explora o cinema queer a partir dos anos 70, que é quando o autor acredita que a figura do homossexual é vista com olhos mais realistas e menos demonizadores. Até então, os gays eram fadados a morrerem no final ou viverem tragédias. O filme entrevista grandes cineasta associados ao cinema queer, sejam eles gays ou heteros, mas que rebatem dizendo que por serem gays assumidos ou heteros, não querem ser rotulados como cineastas de um tipo de filme,e querem poder filmar de tudo. John Waters, Gus Van Sant, Derek Jarman, Stephen Frears, Rosa Von Praunheim, e atrizes com Tilda Swintonm divagam sobre os trabalhos famosos que fizeram e de que forma participaram de obras que levantavam a moral da causa gay. O filme apresenta cenas de filmes, mas no final das contas, é uma grande bagunça, pois não existe uma lina narrativa, sendo tudo muito aleatório e sem emoção.

Terra e luz


"Terra e luz", de Renné França. Curioso filme de terror goiano, realizado ao custo de 6 mil reais, é uma trama distópica que mistura Vampirismo e canibalismo. Escrito, produzido e dirigido pelo professor de cinema Renné França, "Terra e luz"concorreu no Festival de Tiiradentes e de Fantaspoa, dedicado a filmes de gênero.
No sertão, os seres humanos estão em extermínio, sendo caçados pro vampiros à noite. Dois amigos se protegem passando lama ao dormir, dessa forma passando despercebidos pelas criaturas. Quando um dos amigos sofre um acidente, o outro segue caminho. Ele acaba encontrando uma menina, Lúcia. Ao invés de devorá-la, ele resolve ser o protetor dela.
É possível ver muitas referências ao filme: desde a série "The walking dead" , "Eu seu a lenda", A estrada", "Um lugar silencioso", entre outros. Mas o grande barato de "Terra e luz' é usar o sertão, ambiente absorvido pelo cinema novo e pelo cinema pernambucano, para uma rama metafórica aonde os vampiros representam todo o mal que assola a classe menos favorecida. O filme tem excelente trilha sonora e fotografia, apesar da pouca grana investida pelo próprio cineasta.

Querência


"Querência", de Helvécio Marins Jr. (2019)
O Cineasta Helvécio Marins Jr. ganhou o mundo quando em 2011 lançou o filme "Girimunho", dirigido em conjunto com Clarissa Campolina. O filme participou de diversos Festivais internacionais. Agora com "Querência", seu filme solo, que foi exibido no Festival de Berlin em 2019, Helvécio parte para um cinema antropológico. Livremente adaptado da vida do narrador de rodeios Marcelo di Souza, que protagoniza o filme, Helvécio escla um elenco de não atores para registrar o dia a dia de vaqueiros que trabalham em fazendas de gado, no interior de Minas. O filme poderia ser facilmente confundido com um documentário: não existem conflitos, e sim, vidas expositivas. O desejo de Marcelo é trabalhar e rodeios. Enquanto esse dia não vem, ele cuida do gado da fazenda aonde trabalha. Uma noite, bandidos assaltam a fazenda e levam 130 cabeças de gado. Marcelo entra em depressão, mas é auxiliado pelos amigos, que tenta a todo custo fazer com que Marcelo não perca as esperanças.
"Querência" não é um filme para ser viso como passatempo. É um Brasil pouco visto nas telas, filmado com distanciamento emocional. Os não atores não comprometem, mas não estão no lugar de excelência do elenco de "Arábia", um filme de certa forma com registro semelhante. A destacar, a belíssima fotografia de Arauco Hernández Holz

Um garoto na multidão


"En enfant dans la foule", de Gerard Blain (1976)
Drama clássico e esquecido francês LGBTQIA+, concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 1976, e é um relato semi-autobiográfico de seu diretor, Gerard Blain, um dos expoentes da Nouvelle vague francesa.
O filme se passa em 1944, durante a ocupação alemã na França. O menino Paul (César Chauveau), de 12 anos é abandonado por seu pai. Sua mãe o despreza. O único alento de Paul são as ruas, onde ele encontra furtivamente com soldados alemães e franceses, fazendo sexo com eles, bebendo e fumando. Em troca, Paul recebe carinho e comida para distribuir na sua casa.
Polemico e controverso, o tema principal do filme é a pedofilia e o desejo sexual de um menino por adultos, supostamente em troca de comida. O jovem ator César Chauveau faz um trabalho bastante ousado e visceral, e certamente nos dias de hoje seria mais complexo faezr um filme com um tema tão explosivo. Gerard Blain mostra no final do filme Paul sendo convocado para fazer figuração em "O Boulevard do crime", obra-prima de Marcel Carné, e a partir daí, sua vida muda. O filme lembra "Os incompreendidos", de Truffaut, porém com uma história muito mais corajosa.

Kapana


"Kapana", de Philippe Talavera (2021)
Filme histórico por ser a primeira produção da Namibia a focar na história de um casal gay, o título "Kapana" significa o vendedor de churrasquinho nas ruas.
O filme tem um crédito que anuncia que na Namíbia, ser homossexual é crime, e a prática é passível de prisão. Ser um portador de HIV é duplamente um preconceito enorme pelo ponto de vista da população.
Semeon (Simon Hanga) trabalha e de noite gosta de curtir com seus amigos. Semeon é enrustido. Ele troca olharem uma noite com George ( Adriano Visagie), um gay assumido. Após incertezas, Semeon acaba transando com George e os dois se tornam amantes. Quando Semeon descobre que George é portador de HIV, fica revoltado com ele. George pede desculpas, e diz que sempre se preocupou com a segurança dele, usando camisinha. Mas Semeon não consegue admitir que o outro mentiu.
Com excelentes atuações de todo o elenco, "Kapana" é um filme de produção bastante simples. Mas isso não tira a forca de sua história e da mensagem sobre superação e aceitação. É um filme corajoso, pelas questões políticas e sociais na Namíbia, e também, carinhoso e cuidadoso com os personagens, sem torná-los pesados demais. O filme foi muito bem recebido em diversos Festivais mundo afora.
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Eu me importo


"I care a lot", de J. Blakeson (2020)
Depois de ter dirigido o bom filme catástrofe "A quinta onda", o roteirista e cineasta J Blakeson muda totalmente o seu foco e realiza o ótimo trhiller "Eu me importo", filme que rendeu à sua protagonista, Rosemund Pike, o Globo de Ouro de melhor atriz de comédia em 2021.
Ambição e malandragem são a razão de ser de todos os personagens do filme. Inescrupulosos, sem medir consequências de seus atos, "Eu me importo" tem como pano de fundo a máfia dos curadores de idosos, uma indústria que rende centenas de milhares associados a planos de saúde, hospitais, enfermeiros, médicos e advogados corruptos. Marla (Rosemund Pike) é uma curadora que se associa à uma médica, um juiz e um gerente de uma casa de saúde para idosos e os internam à força, alegando ordem judicial de que não estão sadios para conviver com a sociedade. Sua namorada, Fran (Elza Gonzalez) é a sua parceira no crime. Quando elas internam a força Jennifer (Diane Wiest), uma senhora milionária, Marla e Fran vendem todas as posses dela, acreditando que ela não tem amigos nem parentes. Mas quando seu filho Roman (Peter Dinklage), da máfia russa descobre que ela está internada contra a vontade dela, ele resolve entrar em ação.
Bem dirigido e com um excelente elenco, filme lembra bastante os filmes dos irmãos Coen e de Guy Ritchie, tanto no perfil dos personagens, totalmente anti-heróis, quanto pela violência e estilização de suas imagens. O filem peca um pouco ao tornar pessoas comuns como quase que heróis de filmes de ação, mas no final das contas, é uma deliciosa diversão que infelizmente traz um desfecho moralista.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Entropic


"Entropic", de Robert W Gray (2019)
Drama erótico LGBTQIA+ canadense, "Entropic" parte de uma premissa que parece ter saído de um episódio de "Black mirror": M (Stephen Huszar) é considerado o homem mais bonito do mundo. Cansado de se objetificado como objeto de desejo, M parte para uma proposta radical: convoca o seu amigo Aaron (halid Klein"e se submete a experimentos para ganharem dinheiro: em um galpão isolado, e completamente nú, qualquer pessoa pode pagar um valor pelo período de 40 minutos e fazer o que quiser com o corpo de M. As pessoas exploram o lado mais fetichista de seus desejos: homens e mulheres se permitem realizar desejos que nunca tiveram coragem de expôr para ninguém.
Robert W Gray perdeu uma boa chance de fazer um excelente curta. Como longa, o filme de torna repetitivo em suas cenas, variando apenas os fetiches. É um filme bonito, com linda fotografia e uma atmosfera futurista. Mas como roteiro explora pouco as várias dimensões de seus personagens.

terça-feira, 2 de março de 2021

Guigo offline


"Guigo offline", de René Guerra (2917)
Drama LGBTQIA+ nacional, com argumento de Cássio Pereira dos Santos e dirigido pro René Guerra, mais conhecido pelo seu longa "Serial; Kelly", protagonizado por Gaby Amarantos.
"Guigo offline" tem como protagonista o menino Guigo( Antonio Haddad Aguerre), um menino mimado de 12 anos, que flerta com sua colega de escola Sabrina. Os pais de Guigo são separados e ele precisa passar o final de semana no rancho com pai, Roberto (Alexandre Cioletti) e um amigo dele, Paulo (Roberto Rezende). Para não se sentir sozinho, Tulio, o melhor amigo de Guigo, viaja com ele. Guigo se irrita porquê no local não tem internet para ele manter contatos com Sabrina. Numa noite, acampados, ele descobre que seu pai e Paulo são namorados.
Filmado de forma naturalista, o elenco do filme é o que a produção tem de melhor. as crianças são ótimas, bem espontênas e sem vícios de interpretação. Os adultos são discretos e cumprem bem seu papel/ O filme trata de temas como amizade, falta de comunicação entre gerações e principalmente, a aceitação sobre o desejo e desejos dos outros em relação a sua sexualidade. O filme tem uma produção modesta, de baixo orçamento, tecnicamente tem questões, mas sua simplicidade é o seu grande chamariz.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Seus olhos sobre mim


"Your eyes on me", de Sergei Alexander (2020)
Polêmico drama LGBTQIA+ inglês, premiado no London independent Film Festival como melhor filme. O filme trata sobre uma relação incestuosa entre pai e filho.
Gloria (Paul Stone) é uma Drag Queen que se apresenta em um cabaré. Um dia, ela é procura por uma outra Drag Queen mais jovem, que quer que ela a ajude a se preparar melhor. Elas acabam transando. Mais tarde, Gloria descobre que Alex, a drag queen, é seu filho. Alex namora uma jovem, mas querendo descobrir o paradeiro de seu pai, chega em Gloria. Mesmo sabendo da relação familiar entre ambos, eles mantém o relacionamento.
Esse tema em mãos erradas daria muito ruim. O diretor Sergei Alexander filma com delicadeza um tema tão provocativo. Não é, no entanto, um filme perfeito: os atores são bons, mas o roteiro vai descantando para uma trama novelesca lá pelo ato final. Fosse um Almodovar, ele daria conta de lidar com essa história cabeluda. Do jeito que está, é aceitável, mas ficou faltando algo mais controverso e uma coragem maior para enfrentar os desafios da trama.