sábado, 16 de fevereiro de 2019

Eu sou a minha própria mulher

"Ich bin meine eigene Frau", de Rosa Von Praunheim (1992) O cineasta alemão Rosa Von Praunheim é a voz mais ativa do Cinema gay da Alemanha. Realizador de dezenas de filmes, entre ficção e documentários, a sua filmografia é importante pois ele apresenta personagens e fatos históricos em seus filmes que são verdadeiros registros de suas épocas. Em 'Eu sou minha própria mulher", Praunheim cria um interessante jogo que mistura ficção e documentário. A protagonista é Charlotte von Mahlsdorf, nascida Lothar Berflede. Lothar nasceu em 1928 na Alemanha, e viu o nazismo crescendo assustadoramente. Seu pai se filiou ao Partido e o obrigou a se alistar, mas Lothar se recusou. Lothar se vestia de mulher, escondido de seu pai. Seu pai era homofóbico, machista e racista, agredindo a mãe de Lothar, suas irmãs e a ele. Não aguentando mais a tensão de seu pai, que ameaçava matar a todos, Lothar mata seu pai e acaba indo para uma Instituição penal. Quando saiu, se assumiu como Charlotre Von Mahlsdorf. Charlotte nunca quiz mudar de sexo nem se maquiar, apenas se sentia uma mulher dentro do corpo errado de um homem. Se chamava de travesti, e não de transsexual. Logo depois, veio a divisão da Alemanha pelo Muro de Berlim, e Charlotte ficou presa no lado oriental, comunista. Charlotte começou a montar em sua casa todo tipo de arte relacionada ao homoerotismo, e inclusive seu espaço ficou famoso por promover encontros com a comunidade Lgbtq+. Mas logo ela foi perseguida pelo governo comunista. Com a queda do Muro, o lugar acabou sendo promovido como o Primeiro Museu Lgbtq+ da Alemanha oriental. Praunheim faz com que a verdadeira Charlotte narre todo o filme, intercalando e interagindo com os atores que a interpretam em diversas fases, e com os que interpretam outros personagens. É um recurso muito bem administrado, dando um tom realista a essa incrível história de resistência e de busca de identidade de gênero.

Bulldog na Casa Branca

"Bulldog in the White House", de Todd Verow (2016) Escrito, produzido, dirigido e protagonizado por Todd Verow, um dos mais atuantes Cineastas do universo Queer underground americano. É curioso assistir a esse filme depois de ter visto 'Vice", o filme sobre o vice-presidente Don Chaney, que é uma sátira política sobre o Governo Bush. Em "Bulldog na Casa Branca", Todd Verow se apropria do livro de Choderlos de Laclos, "Ligações perigosas", e apresenta uma rede de intrigas repleto de sede de Poder e de vingança. A diferença? é que Madame de Auteil, interpretado por Glenn Close no filme de Stephen Frears, aqui é interpretado por Verow, no papel do garoto de programa Bulldog. Ambicioso, ele deseja tomar posse das informações secretas do Governo Bush e assim, adquirir Poder. Ele seduz a todos, fazendo sexo e sempre fazendo o papel do ativo (metáfora de mandar todos tomarem no C..????). A idéia do filme é ótima, mas a sua realização, um pavor. Direção péssima, atores amadores no pior nível, direção de arte inexistente, diálogos pavorosos. Assistir ao filme é um suplício. Vale apenas para quem curte assistir cenas de sexo quase explícitas tendo pano de fundo a bandeira americana. Mesmo assim, são cenas destituídas de qualquer tipo de tesão. Mesmo assim, o filme ainda conseguiu ganhar o Prêmio de melhor filme no Festival de Chicago de cinema underground.

O Cristo cego

"El Cristo ciego", de Christopher Murray (2016) Escrito e dirigido pelo cineasta chileno Christopher Murray, "O cristo cego" foi exibido em diversos Festivais importantes. Misturando ficção e documentário, foi rodado no Norte do Chile, uma região árida. Na cidade de Pampa del Tamarugal, o diretor escalou todo o seu elenco de não atores. O único Ator profissional é o protagonista Michael, mesmo nome do ator Michael Silva. Desde criança, Michael, um garoto pobre, acredita ter recebido um chamado de Deus. Junto de seu amigo Mauricio, ele vai até o deserto, onde é crucificado pelo amigo e assim, acreditar que possa entrar em contato com Deus. Já adulto, Michael parte em busca de Mauricio, que foi embora sem destino. Michael acredita ser Cristo, e por isso, é motivo de chacota dos moradores do vilarejo. Porém, à medida que Michael vai avançando na parte mais pobre do Norte do Chile, ele vai encontrando uma população pobre, iletrada e que perdeu totalmente sua esperança em relação à saúde, emprego, assistência social. Todos acreditam que Michael é Cristo, e lhe pedem milagres. Através de um registro documental, o cineasta Christopher Murray faz um Raio X cruel e desolador do terceiro mundo, mostrando uma população crente em qualquer um que chega e lhe promete coisas. Metáfora sobre o Poder da religião e da Política, o filme deixa pistas em aberto. Será Michael Cristo ? Ou um lunático? Mas isso pouco importa. O que queremos ver, são os fiéis, que acreditam em qualquer coisa. Um retrato doloroso de um País que ao mesmo tempo que apresenta altos níveis de riqueza, na capital Santiago, pode ser tão pobre e tão atrasado. Michael Silva faz um belo trabalho. Pasolini teria orgulho desse filme.

O último retrato

"Final portrait", de Stanley Tucci (2017) Escrito e dirigido pelo Ator Stanley Tucci, "O último retrato" foi exibido no Festival de Berlin em 2017. O filme, uma autobiografia adaptada de um livro, retrata o encontro entre o famoso pintor suíço Alberto Giacometti (Geoffrey Rush) , e seu amigo, o crítico e escritor americano James Lord (Armie Hammer). Esse encontro aconteceu no ano de 1964 em Paris, 2 anos antes da morte de Giacometti. O pintor pediu que James posasse como modelo para uma pintura ( que acabou sendo sua última pintura) em seu atelier, e que levaria no máximo 3 horas. Conhecido por sua extrema obsessão em retratar figuras humanas, a pintura acabou levado 18 dias com Giacometti fazendo e refazendo a pintura inúmeras vezes, e obrigando James a remarcar sua viagem de volta igualmente várias vezes. No início, James fica impaciente, mas ao longo do processo criativo, vai compreendendo a mente do pintor. O filme, paralelamente, apresenta a complexa relação de Giacometti com sua esposa e com sua amante, uma prostituta. Fica claro que o filme não tinha muito orçamento. Com poucos atores, e confinado quase que 80% dentro do ateliê, o filme de Stanley Tucci mais parece uma peça de teatro. Como cinema, é uma experiência soporífera. Chato, sem ritmo, acaba sendo difícil acompanhar até o final. Para quem gosta da relação Artista X obra de arte e suas inúmeras discussões, pode ser que se interesse, ou aos fãs do pintor. Os atores fazem o que podem, Geoffrey Rush fazendo aquelas caras e bocas que ele adora fazer. Armie Hammer está apático, culpa do roteiro que torna os personagens tão sem vida.

Tito e os pássaros

“Tito e os pássaros”, de Gustavo Steinberg, André Catoto e Gabriel Bitar (2018) Exibido em diversos Festivais internacionais e pré selecionado para a categoria para o Oscar 2019, não tendo infelizmente sido selecionado para os 5 finalistas, “ Tito e os pássaros” tem traços belíssimos que se assemelham ao uso de aquarela, uma técnica muito semelhante ao do filme japonês “ O conto da Princesa Kaguya”, que levou anos para ser desenhado. O filme é uma alegoria sobre o medo, um sentimento muito apropriado e próximo da população brasileira. Nessa soma de todos os medos, surge um surto que se divide em 4 estágios, sendo que na final, o ser humano se transforma em pedra. Tito, um menino de 10 anos, sua amiga e Buiu se juntam para tentar descobrir a cura, usando uma máquina que o pai de Tito, o cientista Rufus, expulso de casa pela mãe de Tito criou. A máquina se utiliza do canto dos pombos, mas está faltando algo para fazer a máquina funcionar e tirar o medo das pessoas. Com um roteiro singelo mas eficiente, o filme tem nos traços, na fotografia e na extraordinária trilha sonora, de Gustavo Kurlatt e Rubem Feffer, os seus pontos altos. Talvez o filme assuste os pequeninos pela sua atmosfera sombria e escura e pelo clima de pesadelo, mas merece ser visto pelas suas altas qualidades técnicas. Ótima dublagem dos veteranos Denise Fraga, Mateus Solano, Matheus Nachtergaele e Otávio Augusto, junto das vozes infantis muito bem articuladas e expressivas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Horizonte perdido

"Lost Horizon", de Frank Capra (1937) Um dos maiores clássicos de Hollywood, dirigido por um Mestre, é a primeira adaptação do livro de James Hilton ( existe uma versão musical com trilha de Burt Bacharach e estrelado por Liv Ulmann de 1973). James Hilton baseou sua história em cima do fascismo crescente na Europa. e também na vida do alpinista George Leigh-Mallory, que escalou o Everest em 1924 e desapareceu. O filme se passa antes da 2a Guerra Mundial, na China já em guerra civil. O britânico diplomata e herói de guerra Robert Conway foge com um grupo de ingleses em um avião, mas não imaginam que o piloto foi atacado e agora está sendo pilotado por um chinês, que os levam em direção às montanhas do Himalaia. Ao sofrerem um acidente aéreo por conta de uma nevasca, são encontrados por moradores de Shagri-lá, uma mítica cidade onde acredita-se, as pessoas vivem eternamente e são felizes. Shangri-lá é a metáfora de um mundo utópico, longe dos ditadores que tentavam controlar o mundo através de guerras. Foi assim que o escritor James Hilton quiz contribuir para a mensagem de paz. Tanto o livro quanto o filme foram imenso sucesso na época. O filme mistura vários gêneros: drama, romance, aventura. Tem quem ache que o filme é precursor de aventuras clássicas como "Indiana Jones". O filme ganhou 2 Oscars: de melhor direção de arte e de edição. essa versão a que assisti é a restaurada, com 132 minutos. Nos anos 90 foram restaurados mais de 12 minutos do filme e áudio. No entanto, imagens foram perdidas, e para aproveitar o áudio, colocaram fotos no lugar. Bom, é fato que o filme é longo demais, e tem uma enorme barriga. Mas como se trata de um documento histórico, vale assistir a essa versão, mesmo que em vários momentos, ele te aborreça bastante.

O buraco no chão

"The hole in the ground", de Lee Cronin (2019) Sensação no Festival de Sundance 2019, "O buraco no chão" é um terror da Irlanda. O filme lembra bastante 2 filmes clássicos do gênero: "O iluminado", e o recente "Mr Babadook". Quando a presença do pai, mesmo que ausente, marca uma violência doméstica, mãe e filho precisam lutar para sobreviver contra os "Monstros"que os perseguem. Assim como em "Mr Babadook", a mãe entra em um colapso nervoso, e ela mesma entra em duvida se os visões que ela está tendo são reais ou não. Sarah, uma jovem mãe, sai da cidade com seu filho para fugir do marido abusivo. Eles se mudam para a área rural da Irlanda, e vão morar em uma casa isolada que fica do lado de uma floresta. Um dia, ao discutir com seu filho, ele foge para a floresta. Sarah vai atrás de Chris, e percebe que ele sumiu. ela encontra uma enorme cratera, e minutos depois, Chris aparece. A partir daí, o menino age de forma estranha, mas Sarah está em dúvida se ela está mentalmente perturbada. O filme tem um ritmo bastante lento, e bastante prejudicado na fotografia, escura demais nas cenas noturnas, quase não se vê nada. Mesmo assim, o roteiro é interessante, com uma virada de gênero no terço final. Seána Kerslake e James Quinn Markey, nos papéis de mãe e filho, praticamente carregam o filme nas costas, e estão ótimos nesse drama psicológico intimista e claustrofóbico.

A mula

"The mule", de Clint Eastwood (2018) O jornal New York Times publicou um artigo sobre um ex-veterano de guerra do Vietnã, desempregado aos 90 anos, Leo Sharp, que se tornou mula de um cartel mexicano e ficou conhecido como o homem mais velho a praticar a profissão de mula. No filme, o personagem se chama Earl Stone e mora na conservadora cidade de Illinois: negros e latinos são mal vistos pela população majoritariamente branca. Earl é um ex combatente que tem uma plantação de lírios, de onde ontem seu sustento e de sua família. Mas Earl é um homem das antigas, não se atualizou com a internet nem com os hábitos e costumes que mudaram com o tempo. Ao passar dos anos, Earl perde seu espaço e fica desempregado. Ele acaba sendo procurado por um cartel pelo simples fato de ter viajado por todos os Estados Unidos sem nunca ter recebido uma multa. Querendo ajudar sua família e seus amigos financeiramente, Earl aceita o trabalho. Mas o Fbi, comandado por Bradley Cooper, Michael Pena e Laurence Fishburne estão no encalço da Mula que tem transportado drogas pelo Pais, sem se darem conta de quem é essa pessoa. A crítica como um todo elogiou bastante o filme. É um filme de Clint Eastwood: correto, com protagonista forte que percorre um mundo injusto querendo conserta-lo ao seu modo. Não acho seu melhor filme, é um bom filme, com elenco de peso ( mais Dianne Wiest) mas com um ritmo burocrático. Toda a parte técnica é digna de nota. Algumas pessoas podem ficar incomodadas com esse olhar conservador do personagem em relação aos negros e latinos, mas essa é a América do Governo Trump.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Fronteira

Gran", de Ali Abbasi (2018) Prepare-se para assistir à cena de sexo mais bizarra que você terá visto em toda a sua vida. "Fronteira" é um filme corajoso, e por isso mesmo, merecedor do prêmio de melhor filme na Mostra Um certo olhar do festival de Cannes 2018, além de mais de 10 outros prêmios internacionais. O filme ainda conseguiu o grande feito, como produção sueca, de ter sido indicada ao Oscar de Maquiagem, junto de "Vice" e "A favorita". O diretor iraniano Ali Abbasi, radicado na Suécia, dirigiu anteriormente o filme de terror "Shelley". Agora, ele surge com uma curiosa mistura de gêneros: drama realista, terror, romance e fantasia. O filme é adaptado do conto do autor sueco John Ajvide Lindqvist , autor do consagrado filme de terror "Deixe ela entrar". Ambos os filmes retratam o amor e a paixão entre seres fantásticos. Em "deixe ela entrar", são vampiros. ( ATENÇÃO - SPOILER DAQUI EM DIANTE!!). Em "Fronteira", são Trolls adaptados à convivência com s humanos. O filme tem como protagonista Tina, uma guarda da alfândega que tem um dom: ela sente cheiro de medo, raiva, angústia. Por conta desse poder, ela prende traficantes, contrabandistas, pedófilos que querem atravessar a fronteira. Tina tem uma aparência monstruosa, de ogro, mas seu pai diz que é um problema de cromossomos que provocou essa aparência. Tina sempre sofreu bullying e por isso, mora em uma cabana na floresta, afastada, morando junto de um criador de cães. Um dia, um homem, Vore, com a mesma aparência de Tina, atravessa a fronteira. Imediatamente, Tina sente que existe uma conexão com esse estranho e arredio homem. ela o convida para morar em sua casa, ignorando o terrível segredo que se esconde entre eles. O trabalho dos 2 atores, Eva Melander e Eero Milonoff, é formidável digno de aplausos. não só pelas perfomances, arrebatadoras, mas pela total entrega, em interpretarem personagens tão complexos, tão fora do comum, e também com um trabalho físico e de voz brilhantes. Fico imaginando quantas horas por dia para os atores colocarem as próteses. Fora isso, o roteiro tem com pano de fundo uma pesada e aterrorizante história sobre pedofilia e um mercado que sequestra e usa bebês para pornografia. "Fronteira" não é um filme de fácil degustação. Além da óbvia resistência ao tema fantástico, existe esse tema da pornografia com bebês que irá revirar o estômago de muitos espectadores. Mais uma vez, parabéns à coragem dos realizadores e produtores de lançarem um filme tão difícil , complexo, e parabéns ao juri do Festival de Cannes por premiar esse filme de gênero. Fotografia e trilha sonora colaboram para o clima de pesadelo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Alexander: O outro lado de Dawn

"Alexander: the other side of Dawn", de John Erman (1977) Cult obscuro do cinema independente LGBTQ+, lançado em 1977, lembra bastante "Perdidos na noite", de onde provavelmente o filme retirou muitas referências. O mais curioso nesse filme, é que ele é a continuação do grande sucesso chamado "Dawn, retrato de uma adolescente", dirigido por Randal Kleiser, mesmo realizador de "Lagoa azul"e "Grease, nos tempos da brilhantina". Nesse filme, somos apresentados aos personagens Dawn e Alexander, namorados. Dawn veio do Arizona aos 15 anos, e sem conseguir trabalho, se prostitui nas ruas de Los Angeles. Alexander faz uma participação como seu namorado, e no final do filme, é esfaqueado enquanto protege a namorada. Em "Alexander: o outro lado de Dawn", o filme dá sequência direta com Alexander sendo levado ao hospital. A diferença é que aqui, ele é o protagonista e Dawn, a coadjuvante. Ficamos sabendo do background de Alexander: Ele veio de uma fazenda pobre de Oklahoma, expulso pelo seu pai que não gostava da idéia do filho querer ser um artista, Expulso e sem dinheiro, Alexander chega de ônibus em LA em busca de emprego e do sonho de ser artista. ele conhece um rapaz de quem fica amigo e dividem apartamento, e descobre que o rapaz é garoto de programa. Alexander tenta um emprego digno, mas como não tem escolaridade e é menor de idade, ninguém o contrata. ele acaba se prostituindo com mulheres e depois com um jogador de futebol famoso. Ao mesmo tempo, Alexander manda Dawn de volta para Arizona, para que ela saia do mundo da prostituição, e com a promessa de que ele enviará dinheiro para ela. O filme é podre tecnicamente: atores fracos, fotografia ruim, diálogos pobres. Mas ele é um importante documento de uma época: cenas filmadas em boites gays com frequentadores reais. tudo isso antes do advento da Aids. Interessante como esse filme conseguiu ser exibido nas televisões da época, sem censura e sem cortes.

Ovelha negra

"Black sheep", de Ed Perkins (2018) Super premiado curta inglês, está entre os 5 finalistas na categoria Curta documentário para o Oscar 2019. "Ovelha negra"é uma história real, contada pelo próprio Cornelius Walker. É um dos filmes com teor mais polêmico que assisti em anos. 27 de novembro de 2000. Quando tinha 10 anos de idade, Cornelius, filho de mãe nigeriana, moradores da periferia de Londres, assistem na tv o assassinato do jovem Damilola Taylor, 10 anos, filho de nigeriana, morador do mesmo bairro que Cornelius. A mãe de Cornelius só tem tempo de pensar que esse assassinato bárbaro, que ocorreu na escola, poderia ter acontecido com seu filho. ela resolve se mudar no mesmo dia para um bairro onde ela acredita, ele estará a salvo. O que ela não poderia imaginar, é que no bairro, eles são a única família negra, e os moradores são todos racistas. Cornenlius sofre bullying, apanha. Corbelius só quer ser amado e aceitado. Até que ele toma uma decisão radical: decide e tornar branco. Se pinta com maquiagem, alisa seu cabelo, coloca lentes de contato. Imediatamente ele é aceito pelo grupo, e age como tal: fala como branco, xinga os outros negros, bate em fracos. Incrível que essa história seja real. Dirigida com muita habilidade por Ed Perkins, que conduz a narrativa com bastante suspense e dinâmica, através de uma excelente fotografia e edição, o filme com certeza irá provocar a ira das comunidades negras, pelo fato do protagonista assumir o seu 'whitewashing". Tive que estudar a história desse Cornelius a fundo: hoje em dia, morando no Canadá, ele assumiu sua identidade negra. O problema foi que, aos 10 anos de idade, assustado, com medo, sem a figura do pai para lhe trazer segurança, ele quiz assumir a identidade do outro. É um filme excelente para debates, e discutir o tema da identidade.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Open Mic

"Open mic", de Adam Tyree (2019) Belo curta LGBTQ+ , lembra "A star is born" só que num nível mais realista. Mike é um jovem gay sem teto. ele mora em sua caminhonete. ele trabalha em uma padaria como padeiro, e rouba pães para distribuir para mendigos. Mike sempre sonhou em ser um músico, mas ele se tornou uma pessoa sem ambição e destrutivo. Até que conhece Nathan, um jovem sem teto como ele e que canta em um bar. Simples, bem conduzido, com boas performances, "Open Mic" é um bom exemplo de filme produzido com dinheiro próprio e que traz orgulho a todos que trabalharam nele: bela fotografia, trilha sonora, edição.

O Homem que matou Don Quixote

"The man who killed Don Quixote", de Terry Gillian (2018) Desde que assisti ao excelente documentário "Perdido em la Mancha", de 2000, um documentário que retratava o dia a dia da preparação do longa de Terry Gillian, que acabou não acontecendo por vários motivos, fiquei louco para assistir a esse filme. A espera durou 19 anos. Terry Gillian levou 25 anos para levar esse filme às telas, que acabou acontecendo no Festival de Cannes em 2018. O filme é considerado o filme mais problemático da História do Cinema. Gillian por 4 vezes tentou levar o filme às telas. Na cartela final, ele posta um IN MEMORIAN para Jean Rochefort e John Hurt, 2 atores cotados para viverem Don Quixote. O papel coube a Jonathan Pryce, de longe, a melhor coisa do filme. Com uma insana duração de quase 140 intermináveis minutos, distribuídos por um roteiro caótico escrito pelo próprio Gillian com Tony Grisoni, o filme tem como protagonista Toby ( Adam Driver), um mimado Diretor de comerciais que se encontra na Espanha para filmar um comercial financiado por um magnata russo, vivido por Stellan Skargard. Toby dá em cima da amante do magnata, vivida por Olga Kurylenko, e acaba fugindo, indo parar em um vilarejo onde há anos atrás, Toby filmou um filme amador com uma equipe da universidade. Lá, ele escalou moradores para viverem Don Quixote, sancho Pança, Dulcinéia e outros personagens da obra de Miguel de Cervantes. Para sua surpresa, o sapateiro humilde que ele escalou para viver Don Quixote realmente acredita ser o aventureiro, e quando vê Toby, acredita que ele é Sancho Pança. Toby, para fugir da polícia, embarca nessa fantasia de"Don Quixote". Nossa, há tempos eu não ficava tão desinteressado em um filme, e mais, rezando para o filme acabar logo. Tecnicamente, o filme é todo ótimo: fotografia, figurino, direção de arte. Mas o roteiro é muito confuso, chato. Essa mistura da realidade e ficção, Gillian já havia usado melhor em 'O pescador de ilusões". Confesso que gosto de alguns filmes de Gillian, como "Os 12 macacos", "Brazil, o filme", a sua co-direção em 'O sentida da vida", e mais ou menos "O pescador de ilusões" e "Medo e delírio". Mas acho muito chato "Dr Parnassus", "Teorema zero". Gillian é o tipo de Cineasta que dá mais valor às imagens às suas próprias loucuras descritas na tela, do que em um roteiro que o aproxime da platéia. Li que teve muito gente que adorou esse filme, outros odiaram. Não chego a odiar, mas para mim se tornou uma grande frustração. Prefiro mil vezes "Perdido em La Mancha".

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Educação sentimental

"Educação sentimental", de Julio Bressane (2013) Assistir a um filme de Julio Bressane não seria a melhor opção para um domingo de tarde de calor de quase 50 graus. Mas como surgiu a oportunidade de ver a esse filme de 2013, que eu perdi no circuito, e tendo em vista que ele ganhou um Prêmio no prestigiado Festival de Locarno, me rendi a esse programa cinéfilo. A última experiência que eu tive de um filme dele, "Cleópatra", não foi das mais satisfatórias. Aqui, a linguagem continua a mesma: fotografia de Walter Carvalho enaltecendo os belos enquadramentos, linguagem teatral, discurso empostado e declamado dos personagens, como se estivessem em um palco de teatro. Cinema, dança, encenação teatral se misturam na linguagem Bressoniana, aqui ainda adicionada da metalinguagem do fazer o Cinema: durante o filme, imagens de refletores, booms aparecem, deixando claro que estamos assistindo a uma farsa a uma encenação para uma platéia. No final, ainda tem quase 8 minutos de imagens de bastidores, erros de gravação, um extra que funciona sempre muito bem em comédias, mas aqui ficou estranho. Não acho engraçado ver a atriz Josie Antello cair num mato enquanto encena uma dança, amparada pelo ator Bernardo Marinho. Áurea é uma mulher por volta dos 50 anos, que certo dia observa o jovem Áureo tomando banho em uma piscina de um condomínio de luxo e se sente atraída pela juventude do rapaz. Da mesma forma, o rapaz fica excitado ao perceber que a mulher o observa, e fica segundo ele, "de pau duro". Pois essa é a metáfora desse filme: a sedução que pessoas mais velhas mais literatas, cultas, sobre os jovens iletrados, sem cultura, "burros". A sedução é intelectual, mais do que física. A "professora"leva o rapaz para a sua casa, e ali, ela declama, encena. dança textos e monólogos filosóficos que o conquistam, o deixam assoberbado. Até que a mãe de Áureo surge na casa da mulher, enciumada da relação do filho com uma mulher de sua idade. O filme é todo experimental, digamos, um ensaio poético e filosófico. A cena que mais gostei, é do embate da mãe com Áurea: os diálogos, repletos da perversão, falam da relação incestuosa de Áureo e sua irmã suicida, e do provável incesto da mãe com o filho. excelentes performances de Josie Antello e Debora Olivieri.

As damas de ferro

"Satree lek", de Yongyoot Thongkongtoon (2000) Divertida e emocionante comédia dramática da Tailândia, vencedora de mais de 10 Prêmios internacionais em importantes Festivais, como o Festival de Berlin, é baseada em fatos reais. Em 1996, um time masculino formado por gays, trans e travestis ganhou o Campeonato de Volley nacional. Foi um grande feito, considerando o universo machista e homofóbico que envolve dirigentes, presidentes de clube, atletas e empresários. Jung, Mon, Chai, Wit, Pia se unem para mostrar ao mundo que elas são capazes. Treinados pela Coach lésbica Bee, elas lutam contra a homofobia dentro de casa, com familiares e times rivais. O mais divertido do filme, é ele se aceitar 100% Queer, ou seja, todos os personagens são afeminados. Como o filme é baseado em história real, essa afetação dos atores acaba sendo assimilada pelos espectadores. Se fosse 100% ficção, aí o filme hoje em dia teria problemas, sendo acusado de reiterar o estereótipo gay. O final, quando surge o verdadeiro time das "Irons ladies", é emocionante. Uma bela lição de humanidade e aceitação social.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Prospect

"Prospect", de Christopher Caldwell e Zeek Earl (2018) "Prospect", escrito e dirigido pela dupla Christopher Caldwell e Zeek Earl, é uma ficção científica independente americana, vencedora de vários prêmios, entre eles, o prestigiado SXSW. O filme, de poucos personagens apresenta Damon e Cee (Sophie Tatcher, que menina excelente!), pai e filha adolescente. Damon viaja pelo espaço em busca de tesouros, e dessa vez, o alvo é uma Lua alienígena. Ao descerem na lua, ambos vão em busca de objetos valiosos, até que se deparam com Ezra (Pablo Paschal, de "Game of thrones"), um outro mercenário cuja nave apresenta defeito e não tem como sair de lá. Logo, todos precisam sair da Lua, uma vez que o reservatório e oxigênio está acabando, mas dão de cara com mais mercenários que se encontram na região. O filme parece até uma versão espacial da obra prima de John Houston, "O tesouro de Sierra Madre", um filme que fala sobre ambição e cobiça trazendo infortúnios para todos. O filme impressiona pelo seu visual e pela bela fotografia. Limitados em termos de orçamento, o filme se passa quase todo em uma floresta em ambientação onírica, repleta de dentes de leão sobrevoando o ar. O filme tem um ritmo lento, e o que se sobressai mesmo é o trabalho da jovem Sophie e de Pablo Pascal, um ator com bastante carisma.

Escape room

"Escape room", de Adam Robitel (2019) Juro, não achei o filme ruim. Até os últimos 10 minutos, a gente assiste o filme como um pipocão decente, mas claro, deixando o cérebro em casa. Até que os roteiristas Bragi F. Schut e Maria Melnik decidiram ter um toque de Shayamalan e fuderam com o filme, logo quando ele já estava acabando. "Escape room" é uma mistura de "Corpo fechado", "Jogos mortais", "Jogos vorazes"e "O albergue". Sim, tem elementos de todos esses filmes aqui. Mas como "Escape room" tem como público alvo os adolescentes, esqueça que você vai ver "torture porn". Isso aqui está longe de acontecer. A gente não v6e as mortes, nem mesmo o resultado delas. Pode levar as crianças. Aé porquê, os 2 protagonistas, Zoey (Taylor Russell , a Judy do seriado "Perdidos no espaço" e Ben ( Logan Miller, de "Love, Simon") são bem carismáticos. O filme conta a história de 6 desconhecidos que se encontram em um "Escape room", espécie de reality show onde os participantes disputam o prêmio de 10 mil dólares. Só que as armadilhas das salas são reais, e eles podem morrer caso não encontrem respostas para os quebra-cabeças de cada sala. Mais tarde, irão descobrir o porquê deles estarem ali. O filme entretém e é até soft para o tipo de narrativa. A gente sempre espera sangue e vísceras, por causa de "Jogos mortais". O desfecho de verdade é uma loucura, uma insanidade sem qualquer tipo de explicação. Um gancho direto para uma franquia, que pelo sucesso de bilheteria, chegará logo.

A cidade dos desiludidos

"A cidade dos desiludidos", de Vicente Minelli. 10 anos depois de lançar "Assim estava escrito", uma de suas maiores obras primas que mostrava as relações de amor e ódio entre crias de Hollywood, Vincent Minelli adapta o best seller de Irwin Shaw, "A cidade dos desiludidos", também sobre os bastidores do cinema. Lirl Douglas está nos 2 filmes: em "Assim estava escrito", ele é um produtor de cinema ambicioso que passa por cima de todos para atingir seus objetivos. Em "A cidade dos desiludidos", ele é um Ator oscarizado que está em decadência após se tornar um alcóolatra por conta da traição de sua esposa, interpretada por Cyd Charisse. No primeiro filme, Hollywood estava no auge. Na adaptação de Irwin Shaw, Hollywood está dando seu último suspiro. Kirk Douglas é Jack, um Ator internado em uma clínica de recuperação. Ele é convidado pelo seu amigo Cineasta Maurice ( Edward G Robinson) para participar de uma ponta como ator em um longa que ele está rodando em Roma. Maurice também está decadente e aceita rodar um filme B de um produtor italiano que somente visa o dinheiro e está cagando pra qualidade do filme. Ao chegar em Roma, Jack se depara com todo o tipo de sordidez, e procura se levantar novamente como profissional. Uma pena que o filme não esteja na altura de "Assim estava escrito". Os diálogos, o excesso de dramas amorosos, e algumas marcações de cena pavorosas prejudicam bastante o filme ( a sequência final, com Cyd Charisse e kirk Douglas no carro desgovernado é risível, pode ser que na época tenha sido um grande evento, mas visto hoje em dia a cena não resiste). O que o filme tem de melhor, é a atuação de Douglas e Robinson, dois atores vibrantes. A crítica que se faz ao cinema realizado na época e o esquema de produção europeu diferenciado do americano também são bem pertinentes e corajosos. Mas ficou faltando carisma aos personagens, algo que "Assim estava escrito" tinha de sobra. Outro ponto alto são as locações em Roma: O estúdio de Cinecittá, onde Fellini dirigiu boa parte de seus filmes, é u marco do cinema e uma das locações do filme.

Os pequenos gigantes

"Giant little ones", de Keith Behrman (2018) Premiado drama canadense LGBTQ+ adolescente, exibido no Festival de Toronto 2018. A Atriz Maria Bello produziu o filme e interpreta a mãe de Franky um adolescente carismático que namora uma garota da escola e tem como melhor amigo Ballas, que também namora uma menina. Os dois amigos são muito populares e fazem parte do time de campeonato de natação da escola. O pai da Franky, Ray (Kyle MacLachlan) largou sua mãe, Carly (Maria Bello) para viver com um homem. Carly e sua mãe aceitaram a decisão do pai e marido, menos Franky, que tem postura homofóbica. Durante a comemoração de aniversário dos 16 anos de Franky, Ballas passa a noite dormindo na casa do amigo. Bebados, eles acabam se beijando. Franky se assusta e larga o quarto. No dia seguinte, ele descobre que toda a escola suspeita de que ele é gay: Ballas disse a todos que Franky o agarrou. Franky precisa lidar a partir de agora com homofobia e bullyling, fatos até então estranhos na sua vida. Repleto de lugar comum, o filme tem todas as boas intenções, e acredito que possa ser bastante útil e informativo ao público jovem, fazendo com que entendam que cada indivíduo tem direito de escolher a sua sexualidade. Com bons atores, todos bonitos, o filme explora a repressão sexual, a questão da identidade de gênero e a falta de comunicação entre pais e filhos. As cenas de sexo são todas escuras, parece totalmente proposital.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Enchente

Enchente", de Julio Pecly e Paulo Silva (2011) 13 fevereiro 1996. Assitir a esse documentário, dirigido por Julio Pecly e Paulo Silva em 2011, no Brasil de 2018, é muito triste. Triste saber que no dia 8 de fevereiro de 2019, 6 pessoas morreram durante um temporal que devastou a cidade do Rio de Janeiro. Mortes que poderiam ter sido evitadas. O filme apresenta imagens inéditas e chocantes dos dilúvios no Rio de Janeiro de 1966 e 1996. O filme foca mais nessa enchente do dia 13 de fevereiro de 1996, que matou quase 70 pessoas na região da Cidade de Deus. Segundo moradores, essas mortes podem ter ultrapassado mais de 100 pessoas. Aonde a linguagem do cinema entra aqui nesse excelente documentário? Julio Pecly e Paulo Silva, moradores de comunidade, são considerados pioneiros como realizadores do primeiro longa 100% de periferia com esse documentário. Eles ficaram sabendo que um morador da Cidade de Deus havia comprado uma filmadora para gravar o aniversário de sua filha. Só que como imediatamente veio o temporal, ele acabou registrando imagens fortes do dilúvio que sacudiu a Cidade de Deus. Foram 4 fitas de imagens. Julio e Paulo localizaram o morador e usam as suas imagens, aliadas à imagens do acervo da Globo, para falar sobre descaso de autoridades e também, o desleixo da população que joga lixo nos valões. O que mais me chamou atenção, foi entender o Poder da câmera e de uma pessoa anônima gravar as imagens, sem apuros técnicos, apenas porque estava na hora certa e no lugar certo para fazer os registros. E isso em 1996, quando não existiam celulares que gravavam com câmeras, algo mais do que corriqueiro hoje em dia. Esse filme me lembrou um documentário extraordinário chamado ‘Cinco câmeras quebradas”, que apresenta o palestino Emad Burnat, um pequeno proprietário de terras em Bilin, que ganhou uma filmadora meia-boca em 2005, quando nasceu seu quarto filho, Gibreel. Naquele mesmo ano, colonos israelenses começaram a construir assentamentos nas redondezas de sua casa, erguendo uma cerca. Os invasores tentaram expulsar os moradores. Emad registrou tudo: as bombas de gás lacrimogêneo, tiros de balas de borracha, prisões, ameaças. No meio tempo, filmava o crescimento de Gibreel e suas reações diante daquele mundo hostil. Outra situação narrada no filme “Enchente” que mostra bastante o contraste social e a fatalidade da vida: na mesma semana da enchente em 1996, Michael Jackson gravou seu famoso video-clip na comunidade Dona Marta, dirigido por Spike Lee. O nome da música? “They don’t care about us”. Esse grito de guerra vitou o Mantra eterno de todas as comunidades da cidade, onde moradores reclamam que autoridades abandonam os lugares toda vez que acontece uma tragédia, e quando aparecem, é somente para se promover. Tem gente que culpa autoridade, outros culpam os próprios moradores por jogarem lixo, outros dizem que é fatalidade e não é culpa de ninguém Uma das últimas imagens mostra bem o espírito do carioca: mesmo tendo sido palco de muitas mortes, vários garotos aproveitam para surfar no “Mar” de lama que se formou na Cidade de Deus, e os próprios garotos se auto-intitulam de “Surfistas da favela”. O grande mérito desse documentário é expor as feridas de uma sociedade massacrada, através de imagens contundentes e depoimentos emocionados. A produção é do Cavi Borges, da produtora Cavideo.

Piercing

"Piercing", de Nicolas Pesce (2018) Exibido no Festival de Sundance "Piercing" é uma adaptação de um livro do japonês Ryû Murakami , mesmo autor de "Audição", clássico do terror psicológico adaptado por Takashi Miike em 1994. O diretor Nicolas Pesce realiza seu segundo filme, após o sucesso em Festivais do cult de terror "Os olhos de minha mãe", "Piercing" e "Audição" têm muito em comum, ainda mais nos dias de #Metoo. São filme sonde as protagonistas femininas dão uma reviravolta na trama contra o machismo e se tornam donas da situação. O curioso é que ambas as adaptações foram dirigidas por homens. Em "Piercing", um homem, Reed (Christopher Abbott) começa o filme querendo matar sua bebê recém-nascida com um picador de gelo. Sua mulher o interrompe, sem entender o que está acontecendo, e ele se irrita. Reed resolve armar um plano: inventa uma viagem de trabalho, para se hospedar em um hotel e assassinar friamente uma prostituta. Ao chegar no quarto de hotel, ele liga para o serviço de escort girl e logo aparece em sua porta Jackie (Mia Wasikowska). O que ele não poderia imaginar, era que Jackie não é a mocinha ingênua que ele esperava. Para quem assistiu "Audition", sabe o banho de sangue aflitivo que o autor Ryû Murakami adora mostrar em seus textos. é violência gore, mas em um tom mais para humor negro do que para o terror. O filme é uma produção independente, com poucos atores em cena, quase uma peça teatral de gato e rato. O diretor Nicholas Pesce é bom em estilização, e o seu filme se passa nos anos 70, repleto de clássicos pop. Mas a mistura nem sempre fica boa. Difícil pensar em um público alvo: não é terror, não é comédia, não é romance. É uma história bizarra e surreal sobre 2 almas perdidas que não têm nada a perder, apenas sangue e vísceras. Os atores se entregam a esse jogo muito doido. Pena que o resultado não ficou muito convidativo.

Stay

"Stay", de Brandon Zuck (2013) Premiado curta LGBTQ+, que traz um universo de filme noir para uma história de amor que termina em crime. Ash está fudido de grana. Ele aceita transportar uma mala de conteúdo desconhecido até a Flórida e entregar a um estranho. O que ele não pode fazer: abrir a mala, e fugir. Ash resolve convidar seu ex-namorado Jacks para a viagem, sem contar para ele sobre a mala. Mas como a ambição e a ganância falam mais alto que o amor... A trama poderia ter sido muito melhor elaborada, assim como a escalação do elenco. Os 3 atores são todos bonitos e musculosos, e pelo visto, foi esse o critério de escalação. Tivesse atores melhores, teria feito um belo filme no estilo de "Corpos ardentes", de Lawrence Kasdan.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Sereia: lago dos mortos

"Rusalka: Ozero myortvykh ", de Svyatoslav Podgaevskiy (2018) Depois de assistir ao filme, descobri que o único elemento de terror desse suspense russo é a dublagem em inglês. não tem quem consiga sentir medo ouvindo os atores russos dublados em inglês sem sinc. O roteiro é aquela coisa mega batida: como no recente "A múmia", com Tom Cruise, uma entidade, no caso a Sereia, se apaixona pelo protagonista e quer ele de qualquer jeito, nem que para isso tenha que matar todos a quem ele ama. O mais divertido nessas convenções de filmes de terror B, é que as pessoas próximas vão morrendo, mas é como se nada tivesse acontecido aos protagonistas, ninguém sente a perda. Roma e Marina irão se casar. Às vésperas do noivado, os amigos decidem fazer uma festa de solteiro com o noivo Roma e o levam até a antiga casa que pertenceu ao pai dele, à beira de um lago. Quando Roma vai mergulhar, a Sereia surge e diz que o ama, mas quer que ele retribua o amor. Como ele não faz isso, ela o atormenta e a todos quem ele ama. O filme não é de todo ruim, dá para se divertir com os amigos zoando o roteiro sem pé nem cabeça e as loucuras que os personagens decidem fazer, totalmente sem cabimento. Efeitos ok para uma produção russa, obviamente calcada nas produções americanas.

Ka bodyscapers

"Ka bodyscapers", de Jayan Cherian (2016) Jayan Cherian é um Cineasta hindu que mora em Nova York. Ele escreveu e dirigiu esse drama ambientado em uma cidade rural da Índia, e faz um relato denunciando a homofobia e o machismo da sociedade indiana, que não da voz a homossexuais e mulheres que lutam pelos seus direitos. "Ka bodyscapers" sofreu bastante para ser liberado pela Censura do País, que queria que ele cortasse várias cenas do filme para poder ter a sua exibição aprovada. Queriam que cortassem a cena da masturbação da personagem Sia, e outras do artista plástico Haris pintando retratos eróticos de seu namorado Vishnu. Como cinema, "ka bodyscapers" tem problemas; os atores são amadores, o roteiro parece uma cartilha sobre questões de gênero. O filme é longo, não tem ritmo. Mesmo assim, a mensagem é mais do que válida, e o desfecho, como não poderia deixar de ser, é bastante trágico. O filme narra a amizade entre 3 amigos que moram na Índia rural: Haris, jovem artista plástico, endividado e que espera vender suas pinturas eróticas em uma exposição. Vishnu, jogador de futebol e obrigado pelo tio a trabalhar na gráfica. Quando o tio descobre a "amizade" entre Vischnu e Haris, o proíbe de continuar frequentando a casa do pintor. E Sia, uma jovem feminista, que luta contra o conservadorismo das mulheres muçulmanas de sua família, e as péssimas condições de emprego na fábrica, onde as mulheres são proibidas de usarem absorventes.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Mirai

\\ "Mirai", de Mamoru Hosoda. Vencedor de vários prêmios em Festivais internacionais, entre eles os prestigiados Annie e Stiges, "Mirai" é um longa de animação japonês que está entre os cinco finalistas da categoria para concorrer ao Oscar 2019. O filme narra a história do pequeno Kun, um menino de 4 anos que mora feliz com seus pais e seu cachorro em uma casa arquitetada pelo pai, e um belo jardim. Quando sua mãe retorna com a sua irmãzinha Mirai que acabou de nascer, cresce em Kun um sentimento de medo e de cíúmes que ele nunca havia sentido antes. A partir daí, vários medos surgem para Kun, que faz com que ele se torne um menino irritadiço e chorão, maltratando seus pais que segundo ele, dão mais assistência para a irmã do que para ele. Quando Kun vai afogar sua frustração no jardim, ele é transportado para um outro universo: ele tem o poder de viajar no tempo, passado e futuro, e conhecer Mirai já adolescente, sua mãe no passado criança, seu pai adolescente e ainda, seu bisavô no pós guerra. Todos esses eventos farão Kun se transformar emocionalmente. Apesar do irritante personagem de Kun tirar qualquer espectador do sério, dá para entender as suas reações. Quem nunca fez manha na vida? Ser pai ou mãe definitivamente não é para qualquer um, e o filme deixa isso bem claro, é praticamente uma dádiva. Com visual belíssimo e uma trilha sonora envolvente, o filme nos faz lembrar de vários filmes, desde "Divertida mente", "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Fico imaginando o que Michel Gondry não faria com esse roteiro em uma versão live action. é um filme com um roteiro complexo, acho bem difícil ele atingir a criançada.

Uma rua chamada Pecado

"A streetcar named desire", de Elia Kazan (1951) Rever de tempos em tempos essa obra-prima do cinema é obrigação de todo Cinéfilo. Primeiro, por ser adaptação da peça de sucesso escrita por Tenesse Willians, vencedora do prêmio Pullitzer. Depois, por ter sido dirigida por um dos maiores Cineastas de todos os tempos, Elia Kazan, um dos fundadores do Actor's Studio. Foi lá que Kazan descobriu Marlon Brando e o escalou para a adaptação teatral do texto "Um bonde chamado desejo", e posteriormente, a transcreveu para o Cinema. E terceiro, pelo fato do filme conter um time de atores de Ouro, tendo ganho 3 Oscars de interpretação ( Vivian Leigh, no papel de Blanche Dubois, Kim Hunter no papel de sua irmã Stella e Karl Malden no papel de Mitch, um pretendente de Blanche). Vivian também ganhou o Prêmio de melhor Atriz em Veneza e no Bafta. Elia Kazan escalou 6 atores da adaptação teatral, incluindo Brando, Hunter e Malden. Jessica Tandy, que interpretou Blanche, foi preterida pelo Estúdio por achá-la um nome não comercial, e convidaram Vivian Leigh. A escolha não poderia ser mais feliz. Leigh já havia interpretado a personagem em Londres. A sua interpretação contrasta com a dos outros atores que chegam trazendo O método", e acabou provocando uma enorme revolução na forma de interpretação, trazendo um naturalismo para as cenas. Mesmo que Leigh traga uma performance diferente dos colegas, ela exala tragédia da personagem, algo que comove o espectador. Impossível não chorar no final arrebatador. Blanche chega em New Orleans para se hospedar na casa de sua irmã, Stella, casada com o bruto Stanley Kowalsky, descendente de poloneses. Blanche se assusta com o baixo nível do bairro e da casa, mas como depende agora da ajuda da irmã se mantém discreta. Stanley cisma com Blanche pois acredita que ela está escondendo algo de sua irmã. Blanche conhece Mitch, colega de fábrica de Stanley, que vê nele uma oportunidade de poder ter uma casa de novo ( Blanche era casada com um jovem gay que se suicidou). O título original, "Um bonde chamado desejo", é por conta de um Bonde que tem como destino o bairro 'Desejo". Para chegar ao endereço de Stella tem que se pegar o bonde "Desejo" e depois um outro chamado 'cemitério". Uma metáfora brilhante de Tennesse Willians para os sentimentos de luxúria e fim da vida para Blanche. Elia Kazan conseguiu soberbamente desafiar a censura dos anos 50 nos Estados Unidos, trazendo um filme que exala sensualidade e erotismo. Marlon Brando é o protótipo do macho sexualizado, vestindo camisetas grudadas no corpo e constantemente suadas. A cena de Stella descendo a escada e indo de encontro a Stanley com camisa rasgada, é um absurdo de tesão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O que ocorre em Cap Vermell

"Lo que ocurre en Cap Vermell", de Roberto Perez Toledo. Drama romântico espanhol, totalmente rodado no Cap Vermell Park Hyatt Mallorca, um Beach Club para endinheirados. Bancado pelo Resort, o filme narra a história de um homem frustrado com seu noivado que vai passar 1 semana em Cap Vermell. Chegando lá, ele é assediado por um casal gay, é bem recebido pelos funcionários do lugar, flerta com a professora de Yoga e tenta ajudar um jovem hóspede a conquistar uma gringa. O roteiro é muito simples, e as situações, corriqueiras. Como o filme foi bancado pelo Resort, todos são lindos, sorridentes. Os funcionários são exemplares ajudam a todos os hóspedes e vivem eternamente felizes. O hóspede flerta com a professora, mas como ela é funcionária, precisa dar bom exemplo e se limitar ao sue trabalho. Os mais abusados são mesmo o casa; gay, que assedia o homem de todas as formas possíveis. O que vale aqui nesse filme, é a beleza do elenco, a locação do resort que é acachapante e a fotografia, que valoriza cada espaço do local.

Vergel

"Vergel", de Kris Niklison (2017) A ficha técnica dessa co-produção Argentina/Brasil dá bem o tom do filme que iremos assistir. A cineasta argentina Kris Niklison escreveu, produziu, dirigiu, fotografou, fez a direção de arte e co-editou esse projeto que invade a alma feminina de uma mulher no alto dos seus 40 anos, interpretado com garra e visceralidade por Camila Morgado. Kris Niklison morou em Armsterdam, onde fundou um grupo de teatro, tendo trabalhado com Peter Greenaway e Dario Fo. Um feito e tanto, sem dúvida! Um casal brasileiro viaja de férias para Buenos Aires. Mas o homem morre em um acidente. esse prólogo nós não vemos, pois o filme se passa 98% dentro do apartamento alugado pelo casal em Buenos Aires, repleto de plantas no jardim ( a essa decoração de plantas dá se o nome de "Vergel". O filme começa com a mulher já de luto. Desesperada, ela tenta enviar o corpo para o Brasil, mas a burocracia local dificulta tudo, e ela é obrigada a ficar no País até tudo se resolver (lembra até um episódio de "Relatos selvagens". A mulher grita, se masturba, entra em crise, conhece um vizinha extrovertida com quem ela irá viver experiências novas, relembra do seu marido morto. O filme é bastante sensorial, a câmera vai até o rosto de Camila, invade tudo. Na cena da masturbação, bela e dolorosa, o trabalho da atriz é feroz. Não é um filme para espectadores comuns. É artístico, quase experimental, íntimo. A fotografia e os enquadramentos, parecem pinturas. A trilha sonora, energizante e melancólia ao mesmo tempo, é de Arrigo Barnabé.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Fim de tarde

"Late afternoon", de Louise Bagnall (2017) Avassalador curta de animação irlandês, finalista do Oscar 2019 da categoria. O filme ganhou vários prêmios, entre ele,s o de melhor curta de animação no Festival de Tribeca em 2018. O roteiro do filme é simples: Emily, uma idosa com Alzheimer, relembra de toda a sua vida passada. Para quem assistiu aos 5 minutos antológicos da animação "Up- Altas aventuras", saberá do que estou falando. Aqui é igual, só que em um formato experimental. A trilha sonora comovente, as fusões trazendo sentimentos e sensações. Os traços da animação, em alguns momentos parecendo aquarela, é tudo uma maravilha. A roteirista e diretora Louise Bagnall foi muito feliz nesse seu filme. Não sei se ele é baseado em história pessoal de alguma parente dela, mas é tratado com extremo carinho e muito amor. Imperdível.

O mercador de almas

"Long hot summer, de Martin Ritt (1958) Clássico adaptado de livro de Willian Faulkner, "O mercador de almas" foi dirigido por um dos maiores Cineastas americanos mas que pouca gente conhece, Martin Ritt, que tinha fama de ser excelente Diretor de atores. entre seus filmes contemporâneos, tem "Norma Rae" com Sally Fields, pelo qual ela ganhou o Oscar, e "Querem me enlouquecer", com Barbra Streisand. "O mercador de almas" foi lançado em 1958, e possui um Elenco de ouro: Paul Newman, Joanne Woordward ( os dois vieram a se casar 1 mês depois das filmagens), Lee Remick, Angela Lansbury e ninguém mais, ninguém menos, que Orson Welles, no papel do patriarca sulista, machista, homofóbico e autoritário Will Varner. Ben Quick (Newman) é expulso de sua cidade, após ser acusado de incendiar um celeiro. Ele vai de balsa atravessando o Rio Mississipi e chega em uma pequena cidade onde Will Verner é dono de tudo. Ele acaba indo trabalhar na fazenda de Will, que simpatiza com ele, pois Ben é o protótipo do macho, ao passo que seu filho Jody e seu futuro genro Alan ele considera frouxos. Will quer que sua filha Clara (Joanne Woodward) se case com Ben, mas ela se recusa. Ela é professora e quer ser dona de suas decisões, algo que seu pai não concorda. Com excelentes cenas de monólogos e embate entre atores muito fodas, o filme levou a Palma de Ouro de melhor ator para Paul Newman no Festival de Cannes. O filme envelheceu, ficou pesado, teatral, sem ritmo, mas isso não impede que percebamos as altas qualidades do drama. essas qualidades vêm quase todas das performances. Li que Orson Welles vivia discutindo com o elenco jovem, pois odiava o método do Actor's studio , de onde boa parte veio. Visto com os olhos de hoje, esse filme praticamente não resistiria. Machista, racista, homofóbico, todos esses quesitos seriam dados para colocar o filme no ostracismo. Mas é importante entender que é um filme de época, e por isso mesmo, um registro e um documento do que já fomos e continuamos sendo.

Cuchicho

"Susotázs", de Barnabás Tóth (2018) Premiado curta húngaro, chegou a ficar entre os finalistas para uma vaga ao Oscar da categoria mas não entrou entre os cinco, infelizmente. Divertido e com diálogos primorosos, recheados de frases que alternam romantismo à antiga e machismo, o filme apresenta os dois amigos Pal e András, tradutores húngaros/ingleses que viajam o mundo traduzindo o discurso dos palestrantes para a platéia. Agora, eles descobrem que apenas 1 pessoa da platéia e húngara, e é para ela que eles devem traduzir. Entre os amigos, fica uma brincadeira de gato e rato para tentar descobrir quem é o húngaro, até que descobrem que é uma linda mulher. encantados, os amigos fazem uma aposta: durante a tradução, quem a fizer sorrir, irá cortejá-la no intervalo. Surpreendente e de verdade, muito divertido, o filme é muito bem produzido, com uma figuração repleta de tipos étnicos, o que dá bastante credibilidade. Direção perfeita, fotografia elegante, trilha sonora idem. Um filme imperdível, com dois atores provando que não precisa ser famoso para conquistar o espectador.

A noiva do deserto

"La novia del deserto", de Cecilia Atán e Valeria Pivato (2017) O curioso para mim em relação a esse premiado filme, que também concorreu em Cannes na Mostra Um Certo Olhar, foi ter assistido depois de "Roma", de Alfonso Cuarón. São dois filmes muito próximos, guardadas as devidas proporções estilísticas e narrativas. Ambos os filmes têm como protagonista uma empregada, que trabalha há anos para uma mesma família, se dedicando de corpo e alma e realizando todas as tarefas domésticas, sem reclamar de nada. Teresa (Paulina Garcia, atriz chilena premiada em Berlin pelo seu trabalho excepcional em "Gloria") dá vida à Teresa, empregada que trabalha há 34 anos para essa família. Vinda do Chile, após a morte de seus pais pelo terremoto, Teresa vai morar em Buenos Aires. Com o casamento do filho do casal, Teresa é dispensada e realocada para trabalhar para os pais da noiva, na cidade de San Juan, há 600 kilômetros de distância. Frustrada por não prestar mais serviços à família e principalmente para o filho do casal, Teresa pega um ônibus. No caminho, o mesmo quebra. Teresa para em uma cidadezinha católica, enquanto espera outro ônibus, mas acaba perdendo sua bolsa pessoal dentro do trailer de um vendedor de santas, gringo (Claudio Rissi). Ao encontrá-lo, ele diz que largou sua bola em algum lugar, que ele não lembra. Ele topa levar Teresa para os lugares onde supostamente teria deixado a bolsa. No caminho, os dois vão se tornando mais próximos. Como todo road movie, o filme é uma metáfora sobre uma alma solitária em busca de sua redenção. Primeiro filme dirigido pela dupla de cineastas argentinas Cecilia Atán e Valeria Pivato, que também escreveram o roteiro, " A noiva do deserto"é um filme minimalista, de poucos diálogos e muitas imagens bonitas e poéticas. Paulina Garcia carrega em seu rosto todo o sofrimento e tristeza do mundo, e impressiona pela naturalidade com que interpreta. De ritmo lento, é um filme que pode irritar espectadores mais impacientes, mas quem se deixar levar pela narrativa, vai encontrar um filme muito sensível e que fala à alma feminina. O filme é muito próximo de "Gloria", e talvez Paulina tenha sido escalada por causa disso. São personagens já entrando na terceira idade, mas que descobrem que a vida continua, apesar disso.

A doença do garoto surdo

"The deaf boy's desease", de Ohm Phanphiroj (2018) O Cineasta tailandês Ohm Phanphiroj mora nos Estados Unidos, e é um premiado fotógrafo de moda, tendo trabalhado nas Revistas Esquire e QR. Em todos os seus trabalhos, ele explora a beleza do nú masculino, além de levantar discussões acerca da diversidade de gênero, aceitação da homossexualidade e homofobia. O filme apresenta 3 adolescentes, na faixa dos 16 anos. Belos, exalando sensualidade. Reprimidos sexualmente, os 3 se descobrem em seus momentos mais íntimos. Com o rapaz surdo, Ant, o jovem Termor descobre o seu desejo por rapazes. Essa descoberta lhe dá um impulso para que ele se abra com o seu amigo Early, por quem ele é apaixonado. O filme tem um roteiro bem singelo, mas filmado com uma estilização que prima pelas cores fortes e pela luz publicitária, enaltecendo cada fotograma, como uma moldura. Com a câmera lenta, as imagens evocam uma sensualidade absurda. Amantes da filmografia homoerótica de Larry Clark e dos primeiros trabalhos de Gus Van Sant, irão se esbaldar.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Querido ex

"Dear Ex", de Hsu Chih-Yen e Mag Hsu (2018) Premiado Drama LGBTQ+ de Taiwan, fez um enorme sucesso comercial nos cinemas e acabou sendo comprado imediatamente pela Netflix da Ásia. O filme discute temas como homofobia, aceitação, casamento gay e partilha de bens. O cinema asiático, assim como o mexicano, é hábil em lidar com o Melodrama. Com uma trilha sonora que evoca tintas melancólicas e uma fotografia que lembra os primeiros filmes de Wong Kar Wai, "Querido Ex" apresenta 4 personagens, apresentados na narrativa em tempo presente e em flashbacks. Liu Sanlian leva seu filho adolescente Song Chengxi para o apto kitschnett de Jay. Descobrimos que Liu é uma esposa abandonada pelo marido, Song Zhengyuan que resolveu abandonar a família para viver com seu grande amor, o diretor e ator de teatro Jay. Irritada porquê o dinheiro do seguro de morte foi para Jay e não para seu filho, Liu ameaça Jay. O que ela não podia esperar, era que seu filho Chengxi tomasse partido por Jay, irritado com a postura mercenária da mãe.O rapaz resolve morar com Jay, que fica sem saber o que fazer. Com atuações exemplares de todo o elenco, os personagens são repletos de nuances e camadas. O ator que interpreta Jay, Roy Chiu, consegue trazer carisma para o seu conturbado personagem, que vive uma grande perda emocional desde a morte de seu amado e agora, ameaçado pela viúva. Mas o papel mais complexo e provocativo é o de Liu. A atriz Ying-Xuan Hsieh consegue de verdade entrar na persona de Liu e irritar o espectador. Intensa, ela só fala gritando, é a própria mulher traída e abandonada. Mas é possível entender a sua dor e as suas atitudes destemperadas. Ela protagoniza uma cena, que lembra muito da cena de Miranda Richardson e Jeremy irons em "Perdas e danos", quando a mulher tenta fazer de tudo para manter o casamento com seu marido. É uma cena muito pungente. Idem a cena de Liu querendo agradar seu amado, morrendo de câncer, e cortando seu próprio cabelo para provar que nada mudou. Para amantes de melodrama, é um filme imperdível. e o desfecho, repleto de redenção, do jeito que a gente gosta. O que não gosto é das intervenções nas imagens, feitas em pós produção: desenhos e rabiscos que surgem nas telas, como se fossem pensamento do filho. Achei demodé.

Cidade invisível

"Cidade invisível", de Terêncio Porto (2018) Documentário realizado com a seguinte proposta: Em 2007, a prefeitura do Rio de Janeiro decretou que todos os filmes patrocinados pelo poder municipal, deveram tratar de um único tema: a vinda da família portuguesa. A partir do fato histórico da vinda da família Real portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808, o filme apresenta lindas imagens de Cartão da cidade do Rio de Janeiro, alternando com o que se chama de "Cidade invisível": aquilo que não se vê nessas paisagens feitas para turista ver. Para isso, o filme inunda a tela com imagens de esgotos, mendigos, favelas, lixo, enfim, nada muito diferente de qualquer grande metrópole. Mas então, qual a questão com o Rio de Janeiro? A resposta? A sua alcunha: Cidade Maravilhosa. Quando uma cidade ganha esse status, supõem-se que tudo nela tenha que ser deslumbrante. Só o que o filme de Terêncio Porto quer propor, é que esse deslumbramento pode ser para os dois lados da moeda: as maravilhas, e as mazelas. Várias vezes, a tela é marcada com uma "máscara"que reproduz um POV de um binóculo. Terencio brinca com essa linguagem, como se fosse um português chegando na cidade, virgem, e se surpreendendo com tudo o que vê nela nos dias de hoje. Essa lente aponta para todos os lados, como uma ardilosa metralhadora: entrevista tudo quanto é tipo de gente: anônimos e famosos, pobres e ricos, intelectuais ou não. Tem invasores de propriedade, escritores, apresentadores de tv, biólogos, historiadores. De todos, o que mais me divertiu foi o surfista e apresentador Daniel Sabbá. Além de contar a sua história pessoal, ele fala sobre a dicotomia entre pobres e ricos, entre anônimos e Vips, Diz que VIP não é ser rico, é ter entrada nos lugares, mas ele só cita milionários. No final de seu depoimento, ele comenta da vontade de se candidatar para a política, para poder cuidar melhor do Rio de Janeiro, que ele diz, deveria ter um tratamento diferenciado do restante do País, um tratamento VIP. Quase todas as pessoas entrevistas procuram elucidar essa alcunha de "Cidade maravilhosa". Obviamente que quase todo mundo fala mal, mas também ninguém abandona a cidade. O Carioca é Malandro? A cidade está violenta? Suja? Corrupção? Nada que uma boa cervejinha ou praia não consiga refrescar a cabeça do carioca. Na ultima cena, 2 cariocas do subúrbio são entrevistados na entrada de um estádio onde está acontecendo o evento do Pan 2007. Provavelmente, desde que começaram a realizar o documentário, há anos atrás até os dias de hoje, a cidade deve ter mudado quase nada. Qem sabe a segunda parte do projeto não vá se chamar 'Cidade Fantasmagórica"? A Cavídeo é uma das co-produtoras do filme e também a distribui. Cariocas não deixem de se ver nesse documentário divertido e ao mesmo tempo, trágico.

Herbácea

"Misumisô", de Eisuke Naitô (2018) Adaptação do violento Mangá “Misumisou” de Rensuke Oshikiri, "Herbácea" segue a tradição dos dramas de vingança japoneses, como o clássico "Ladysnow", posteriormente homenageado por Tarantino com "Kill Bill". Protagonizados por mulheres, esses filmes primam pela extrema violência e gore exagerados, com litros de sangue jorrando pelas vísceras cortadas. Os personagens normalmente são caricatos, para fácil identificação da platéia. Haruka Nozaki (Anna Yamada) é uma adolescente que vem de Tokio com sua família (pais e irmã pequena) para uma cidade pequena, por conta do ovo trabalho do pai. Ao chegar na escola nova, Haruka sofre bullying de todos. Seus pais pedem que ela não vá mais a escola. O que ela não esperava, é que os estudantes tocassem fogo na sua casa e matassem seus pais queimados, e sua irmã mais nova à beira da morte. Haruka decide se vingar. Para quem curte filmes japoneses de vingança, esse filme é obrigatório. Tem todos os elementos que a gente adora, e ver Haruka matando esses estudantes idiotas dá um prazer enorme, afinal, esses filmes são feitos para isso, os produtores e roteiristas japoneses entendem que a platéia é sádica e por isso exageram ao máximo na caricatura dos malvados para que a gente não sofra com a morte deles. Bem dirigido, com ótimo elenco juvenil e efeitos toscos mas divertidos. Preparem-se para as mortes! E claro, como todo filme oriental, esse termina com uma música melosa pop. O título do filme, "Herbácea", se deve ao fato que essas flores desabrocham assim que cai a neve.

Além da visão

"Beyond plain sight", de Joseph A. Adesunloye (2014) Premiado curta LGBTQ+ inglês, polêmico até dizer chega. Ryan é um jovem nigeriano. Ele é simpático, ajuda a todo mundo de seu bairro. Todos o amam. Ryan mora sozinho. Mas em seu apartamento, ele esconde um rapaz que ele sequestrou. Ele o estupra repetidas vezes. Ele o maltrata. Ele o mata a marteladas. Como narrativa, o filme é muito bom, e ótima atuação de Denver Isaac, seco, frio, amável. Um contraste assustador. A direção de Joseph A. Adesunloye é elegante, ao mesmo tempo, fria, neutra, deixando o espectador aflito. Sem diálogos, apenas com imagens em câmera lenta, verdadeiros portraits, lindamente enquadrados e fotografados. A polêmica? Ryan é negro e bissexual. Ele estupra e mata um jovem branco. Sôa como revanchismo. Mas o cineasta Joseph A. Adesunloye., que é negro e inglês de descendência nigeriana, sabendo provavelmente que isso lhe traria dores de cabeça eternas, muda logo de perspectiva. A próxima vítima de Ryan é mulher, negra. Quem quiser que tire suas conclusões sobre o filme que acabou de assistir.

Velvet Buzzsaw

"Velvet Buzzsaw", de Dan Gilroy (2019) O roteirista e Cineasta Dan Gilroy foi uma das grandes sensações de 2014 quando lançou "O abutre", um excelente suspense sobre um homem ganancioso que faz de tudo para obter a fama como repórter de Tv, em papel vibrante de Jake Gyllenhaal, que muitos achavam que seria indicado ao Oscar, feto que infelizmente não aconteceu. Em 2017, Dan Gilroy lança seu 2o filme, um drama com Denzel Washington, que interpreta um homem ingênuo e honesto, totalmente o oposto do personagem de "O abutre". Agora, ele lança seu terceiro filme no Festival de Sundance 2019, mesclando 2 gêneros ainda inéditos para ele: comédia e terror. Mas será que "Velvet Buzzsaw" funciona? O filme tem qualidades, mas também defeitos, o que o torna o filme mais fraco de sua filmografia. "Velvet Buzzsaw" poderia ter sido alguma versão esticada de algum episódio de "Twilight zone". Dan Gilroy teve a idéia para o filme ao visitar uma exposição e ficar chocado com com a relação entre o conceito de "Arte" e os profissionais envolvidos no meio, como críticos, agentes, consultores, pintores e etc. Morf (Jake Gyllenhaal) é um prestigiado crítico de arte, que se faz passar por gay para ter maior conceito no meio e também er como amante Josefina, a assistente da poderosa Agente Rhodora Haze (Rene Russo, quase repetindo seu personagem de "O abutre"). Tem também a consultora Gretchen (Toni Colette), o pintor Piers (John Malkovich), entre outros personagens importantes. O que os une, é que todos esses personagens lidam com o Mercado de Arte e são todos extremamente gananciosos, com exceção de Piers. Josefina encontra no apartamento do vizinho morto quadros pintados por ele, e resolve apresentá-los na galera de Haze. Logo todos lucram com a sobras, mas estranhamente, um por um vai morrendo. "Velvet Buzzsaw"é uma expressão que significa sexo oral na mulher cunilíngua. Essa é a metáfora das pessoas que buscam saciar os desejos dos outros para seu proveito próprio. Mas o que não funciona? A mistura de sátira e terror não combina. A gente não sente medo nem nas cenas da mortes, desenvolvidas nos clichês do 'Who's next", Dan Gilroy brinca com esse artifício dos filmes de terror. O filme é longo, sem ritmo, e acho difícil conquistar fãs de terror, que não têm essa percepção da crítica que Gilroy faz a esse universo milionário. As qualidades: o elenco, incrível; os efeitos especiais, absolutamente geniais. Uma pena que o filme não seja aquele terror que a gente esperava, pois até tem elementos que poderiam nos deixar bastante tensos. Mas ao tornar esse projeto em algo mais cerebral, o filme se perde e não encontra o seu público alvo. A cena de Toni Collette lembra "Hellraiser" e a de Jon (Tom Sturridge) é roubada de "It, a coisa".

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Anos perdidos

"Lost years", de Alejandro Beltrán (2016) Curta espanhol LGBTQ+, que narra de forma a mais didática possível o tema sobre abusos sexuais contra jovens rapazes na Inglaterra. Segundo o filme, é baseado em história real. Mas é um história tão genérica e clichê, que nem precisava dessa informação. Feliz acaba de perder sua mãe. Desconsolado, seu pai o manda para um internato masculino. á, Felix divide quarto com Leo, um jovem rebelde. Entre eles, nasce uma história de amor, e Felix sai do armário. Na primeira noite de amor, Feliz fica nervoso e desiste de transar. No dia seguinte, no vestiário, ele é estuprado por 2 estudantes. Felix fica recluso e não comenta com ninguém o ocorrido, inclusive se afastando de Leo, que nada entende. Filme correto, bons atores, diálogos e situações rotineiras. O filme acaba valendo mais pelas intenções de fazer uma denúncia ( na cartela final, existe uma informação de que 1 milhão e meio de jovens rapazes foram abusados sexualmente na Inglaterra).

The dark

"The dark", de Justin P. Lange (2018) Premiado filme de terror Austríaco-Canadense, foi exibido no Festival de Tribeca e no Fantasporto, de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro. O filme mescla drama e terror, tendo como pano de fundo o abuso contra jovens. Um homem foge pela estrada até chegar em uma parte da floresta chamada de "Covil do Diabo". Ali, ele acaba sendo morto por Mina, uma zumbi diferente dos tradicionais: ela pensa e age como uma adolescente, mas necessita de carne humana para sobreviver. Quando ela segue até o carro do homem que acabou de matar, ela descobre um adolescente ali escondido, Alex, que foi cegado pelo homem. Alex foi sequestrado e acabou adquirindo a Síndrome de Estocolmo, se apegando ao seu raptor. Alex e Mina unem forças contra uma quadrilha que surge para resgatar Alex e pegar o dinheiro da recompensa. Com produção independente, o filme poderia perfeitamente ter sido um drama sem os elementos do terror. A história em si, sobre os abusos, é bem pesada, com direito a uma cena bem violenta. Mas o diretor e roteirista Justin P. Lange resolveu contar aqui uma parábola macabra sobre humanismo, e por isso, todos os elementos de horror surgem como uma forma de tornar Mina uma heroína e buscar sua redenção. Os 2 jovens atores são bons, a maquiagem de zumbi é bem feita, parecendo uma máscara. O premiado roteiro tem falhas, a gente fica sem saber as motivações do personagens e pontas ficam soltas, principalmente o desfecho. Para quem curte terror, vai ficar decepcionado com a carga dramática do filme, e o ritmo bastante lento.