sábado, 23 de maio de 2020
Blá blá blá
"Blá blá blá", de Andrea Tonacci (1968)
Listado entre os 100 melhores filmes brasileiros pela Abraccine, o filme foi escrito e dirigido pelo cineasta italiano radicado no Brasil Andrea Tonacci. Lançado em 1968 imediatamente foi censurado pela ditadura, por conta do seu forte teor revolucionário e por clara alusão ao governo militar vigente no País. Três anos depois, Tonacci viria a lançar o seu filme mais famoso, "Bang bang". Mas é aqui em "Blá blá blá"que a semente do Cinema marginal, do qual Tonacci foi forte representante, se faz presente. Com uma linguagem ousada e uma narrativa que entrelaça várias histórias que acontecem paralelamente, o filme traça o perfil de um ditador de um país desconhecido frente `à sua população que sai às ruas contra o sue governo. O ditador é represnetado por um atacado Paulo Gracindo, formidável. Usando o discurso ao vivo de um pronunciamento de tv, o ditador fala e seu discurso é rebatido pelo que se vê nas ruas: revolucionários e populares descontentes, apanhando de militares. É impressionante o quanto esse filme é visionário, poderia ter sido lançado hoje em dia que a mensagem soaria super atual. No elenco, também temos Nelson Xavier e Irma Alvarez, A equipe técnica é formada por toda a turma do cinema marginal: Neville D'almeida, Silvio Lanna e outros.
As imagens da equipe preparando a transmissão ao vivo são incríveis, um belo registro histórico.
M.O.M. Mães de monstros
"M.O.M. Mothers of monsters", de Tucia Lyman (2020)
Escrito e dirigido pela cineasta Tucia Lyman, o filme é um suspense de baixíssimo orçamento, rodado quase todo em uma casa e com uma narrativa bem semelhante ao sucesso de bilheteria 'Procurando..". São filmes 100% vistos por câmeras, seja de celular, de segurança ou de filmadora.
Abbey é mãe solteira de Jacob, que acaba de fazer 16 anos. Ela encontra evidências em casa de que ele irá cometer um assassinato na escola. Ela resolve rever s vídeos que ela grava do filho desde que ele era criança e já tinha tendências assassinas, para pode provar para os psiquiatras. Sem que o filho saiba, ela espalha câmeras pela casa e continua a registrar tudo, até um dia, ele descobrir a existência dos vídeos.
O filme é todo em narrativa "found footagr" e basicamente só tem dois atores, apesar de algumas participações. O roteiro fica toda hora pregando peças no espectador, trazendo novas informações principalmente no terceiro ato. É um filme curioso pela forma como foi realizado com pouca grana, se valendo de um bom roteiro. Poderia ter uns 20 minutos a menos, para dar mais ritmo.
Lillian
"Lillian", de Andreas Horvath (2019)
Angustiante e melancólico drama austríaco que concorreu no Festival de Cannes 2019 na Mostra Quinzena dos realizadores, é uma produção do cineasta austríaco Ulrich Seild, de quem sou grande fã.
O filme se baseia na trágica história real de Lillian Ailling, ocorrido no ano de 1926: sem dinheiro e sem ter a quem pedir ajuda, a polonesa Lillian caminhou de Nova York até o Alaska, na esperança de poder retornar para o seu País à pé. Ela desapareceu durante a sua jornada.
O documentarista austríaco Andreas Horvath estréia em ficção com esse filme arrebatador, que me lembrou um pouco "Na natureza selvagem", de Sean Penn, mais pela proposta do filme do que pela história, que não tem nada a ver. O filme é um road movie impressionante, realizado com olhar totalmente documental e uma equipe apenas do diretor que também fez a câmera e um produtor. A video artista polonesa Patrycja Planik estréia como atriz em uma performance arrebatadora, sem dizer uma única palavra ao longo do filme de 130 minutos de duração. O filme foi adaptado para os dias de hoje. Lillian é uma imigrante russa que está com o Visa expirado e sem documentos. Ela tenta trabalhar como atriz pornô, mas por conta da documentação, o produtor não aceita e diz que ela deveria retornar para a Rússia. Lillian leva o recado ao pé da letra e decide caminhar até a Russia. No seu caminho, ela rouba roupas, comida, é assediada, passa frio, calor.
Fiquei de boca aberta com a produção do filme: filmaram de verdade durante toda a trajetória que vai de NY até o Rio Yukon, que divide os Estados Unidos e Canadá. A fotografia do filme é impressionate, com paisagens magistralmente captadas. A cena final, com Lillian deitada observando a aurora boreal é arrebatadora. O filme reserva um capítulo à parte, que mostra uma caça de baleias, uma metáfora à vida de Lillian.
É um filme porrada, triste, que mostra um Estados Unidos do interior, conservador, branco, vazio.
As grandes aventuras de Pee Wee
"Pee Wee's big adventure", de Tim Burton (1985)
Por puro preconceito, eu nunca tinha visto esse primeiro filme dirigido por Tim Burton em 1985. Agora posso dizer que fechei toda a filmografia dele, e mais, que adorei o filme. "As grandes aventuras de Pee Wee" reúne todos os elementos que fariam a fama de Tim Burton: personagens excêntricos e bizarros, monstros, pesadelos góticos, um retrato kitsch e vintage do subúrbio americano e um olhar crítico ao american way of life.
Pee Wee foi um personagem criado pelo ator Paul Reuben em 1981 e fez grande sucesso. Em sua primeira aventura no cinema, Pee Wee vai atrás de sua bicicleta repleta de efeitos, que foi roubada. O filme se torna um road movie, com Pee Wee se envolvendo com tipos tão bizarros quanto ele, e tudo termina em uma alucinada aventura dentro de um estúdio de tv onde estão sendo rodados simultaneamente vãrios projetos.
O filme é pura adrenalina e vai num ritmo frenético, com uma excelente edição e uma primeira parceria de Tim Burton com Daany Elffman, seu grande colaborador em trilhas. A direção de arte e os figurinos também são exemplares, isso sem falar na fotografia super colorida e que d;a o tom de fantasia que Burton adora.
Paul Reuben é um ator bastante versátil, e Pee Wee, criação sua, é uma mistura insana entre Jacques Tati e Mr Bean. Em 1991, Paul Reuben foi pêgo se masturbando em um cinema pornô na Flórida e esse caso praticamente enterrou sua carreira, que só foi retomada anos depois.
Em 1988, Tim Burton lançaria o seu segundo longa, "Os fantasmas se divertem", que o alçou ao posto de grande cineasta no mundo inteiro.
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Limite
"Limite", de Mario Peixoto (1930)
Listado como No 1 na relação dos melhores filmes brasileiros pela Abraccine, "Limite" é uma lenda do cinema brasileiro. O que mais me espanta é que esse único filme rodado por Mario Peixoto foi escrito e realizado por ele aos 22 anos de idade, em 1930. Um dos poucos exemplares do cinema experimental da fase muda do cinema nacional, o filme foi rodado em Mangaratiba, Estado do rio de Janeiro. Adoro a história que Peixoto ofereceu o roteiro a Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, dois dois diretores mais influentes do período, eles recusaram o projeto. Mas o encorajaram a realizar ele mesmo o filme, e ainda indicaram o fotógrafo alemão Edgar Brazil. Mario Peixoto bancou o filme sozinho, e junto da genialidade da câmera de Edgar Brazil, que concebeu ângulos de câmera complexos para a proposta do filme. O filme é mundialmente reconhecido como um tesouro da humanidade pela Unesco, por Martin Scorsese e por David Bowie, entre outros artistas. A sua história é totalmente fragmentada e sem uma linha narrativa fluente: no início, vemos 3 pessoas em um barco à deriva. são duas mulheres e um homem. A edição mostra imagens de urubus comendo carniça, já um prenúncio do destino dos personagens. Em flashbacks, vamos aos poucos conhecendo cada um deles, e a razão de tanta angústia e tristeza. Uma das mulheres resolve abandonar o marido opressor. A outra mulher sai da prisão, libertada pelo carcereiro. Ela via trabalhar de costureira, mas aquele ambiente a reprime. O homem se apaixona por uma mulher casada. O mar é um importante personagem, que sela o destino de todos e ainda com a sua suavidade ou seu momento de fúria, ilustra a emoção de todos. Não é um filme fácil de se assistir. É lento, longo ( 2 horas). O melhor é tentar não ser racional com a história e se deixar levar pela beleza das imagens.
O rancoroso
“The strange ones”, de Jack Garfein (1957)
Clássico obscuro de 1957, famoso por ser anunciado como o primeiro filme americano a trabalhar com a técnica do Actor’s Studio, com o diretor e todo o elenco vindo da famosa escola de formação de atuação naturalista. Fora isso, o filme ataca o código Hayes, vigente nos Estados Unidos de 1930 a 1968, onde todos os filmes americanos tinham eram submetidos a uma avaliação sobre se seu conteúdo era aceitável ou não-aceitável. Temas como drogas, perversões, sexo, palavres eram totalmente proibidos. O filme traz o tema da homossexualidade de uma forma velada, mas hoje em dia é impossível não perceber todos os detalhes trazidos pelo Diretor Jack Garfein. O filme é baseado em obra autobiográfica do escritor Carlder Willingham, “End as a man”, e adaptada para os palcos. Bez Gazarra e George Peppard estrearam no cinema com esse filme, e desde então, não pararam mais de trabalhar.
Na escola de cadetes no Sul dos Estados Unidos, o cadete superior Jocko de Paris (Gazarra) tem o hábito de pregar trotes em cadetes calouros, humilhando-os e deixando clara a sua superioridade. O próximo alvo de Jocko é o Major Avery, filho do Tenente da academia. Junto de outros cadetes, a quem Jocko os obriga a participar, o Major Avery apanha e é expulso da Academia, sendo acusado de estar bêbado. Jocko obriga a todos os envolvidos ficarem calados, ameaçando-os de expulsão.
Um filme bastante ousado, lidando com temas atuais como bullling, assédio moral, e principalmente, homofobia. Jocko é chantageado por um cadete homossexual, a quem apelidam de “barata”, que afirma ter testemunhado toda a sua ação. Como a presença de homossexuais era proibida nos filmes, o diretor espertamente plantou alguns elementos que o identificam: na cena do banho coletivo, ele é o único a usar uma touca. Na famosa e sensual cena entre Jocko e “barata”, esse lê uma obra de sua autoria, enquanto Jocko, brinca com a sua espada.
A carga teatral no filme é bem forte, toda calcada em diálogos e ambientes claustrofóbicos. Valeria uma versão atualizada com um forte elenco masculino.
Naz & Maalik
"Naz & Maalik", de Jay Dockendorf (2015)
Premiado drama de baixíssimo orçamento americano, "Naz & Maalik" apresenta um dia na vida de Naz e seu amigo e namorado Maalik. Eles são negros, pobres, adolescentes, muçulmanos e gays enrustidos, moradores do Brooklyn. O filme começa com Maalik sendo chantageado por sua irmã, que encontra uma camisinha usada no lixo de casa. Ela exige 25 dólares para não contar aos pais. Maalik sai para trabalhar na rua com Naz: eles vendem bilhetes de loteria e perfumes fabricados por muçulmanos. Por conta da paranóis do pós 11 de setembro, eles são vigiados por agentes do FBI após terem sido achacados por um ex policial que queria vender uma arma para eles.
"Naz & Maalik" é um filme interessante, com boas performances do elenco , mas o excesso de temas que o filme propõe acaba atrapalhando a sua narrativa: tem a relação de Maalik com sua família, tem a culpa dos dois por serem gays e muçulmanos, tem o FBI investigando a vida dos dois, tem um homem abordado na rua e que assedia Naz, provocando ciúmes em Maalik e pior: tem uma boa parte do filme dedicada à uma cena onde Maalik precisa matar uma galinha para o aniversário da irmã. O melhor do filme é ele ser quase um documental registrado nas ruas do Brooklyn, com a efervescência e o realismo de um documentário, com pessoas reais participando da filmagem.
quinta-feira, 21 de maio de 2020
Quero ser grande
“Big”, de Penny Marshall (1988)
Com o enorme sucesso comercial e de crítica desse verdadeiro clássico do cinema de entretenimento, a diretora Penny Marshall se tornou a primeira Diretora a ultrapassar 100 milhões de dólares em bilheteria. Acabei assistindo a versão estendida do filme, com 10 minutos de duração. De fato, são poucas as comédias que resistem à essa duração, e “Quero ser grande” não seria diferente. Entraram quase meia hora de filme, e a maioria das cenas são momentos dramaáticos do personagem de Josh (Tom Hanks). Então quem quiser rever o filme, sugiro a versão original de 1:44 horas.
“Quero ser grande” rendeu a Tom Hanks a sua primeira indicação ao Oscar de melhor ator, em uma performance genial e difícil de compor uma criança de 12 anos de idade, sem cair em caricaturas e totalmente crível como um adulto feliz e carismático. Hanks viria a ganhar o Oscar em dois anos consecutivos, 94 e 95, por “FIladéfia” e “Forrest Gump”. E pensar que Robert de Niro ou Harrison Ford eram as opções ao papel de Josh. O jovem ator Jared Rushton, no papel do melhor amigo Billy também está sensacional.
O mais chocante de rever o filme, é perceber que o cinema família dos anos 80 continha muitas cenas politicamente incorretas. Quando Billy leva Josh para Times Square para ele se hospedar em um hotel, acabam caindo em um hotel de prostituição. As ruas de Times Square na época eram mega decadentes, e só tinham lojas de sexo, prostitutas e traficantes na rua, e isso o filme manteve. Para os dias de hoje, fica impensável que um hotel deixe um adulto entrar com uma criança para se hospedarem em um quarto sem checar as informações do menor, mas aqui isso nem é uma questão. A cineasta Penny Marshall, falecida em 2018, dirigiu grandes sucessos. Antes de “Quero ser grande”, dirigiu a comédia policial “Salve-me quem puder”, com Whoopi Goldberg, e depois, dirigiu ‘Tempo de despertar”, drama com Robert de Niro e Robbie Willians.
Todo mundo só se lembra do filme por causa da famosa cena de om Hanks e Robert Loggia dançando em cima de um teclado de um piano. Mas existem outros momentos muito bacanas: quando Susan vai passar a primeira noite no quarto de Josh, e ela crente que vai rolar sexo, acaba passando a noite jogando games com ele. O filme, uma fantasia, traz uma linda mensagem: temos que aproveitar bastante a infância e a adolescência, porquê a fase adulta é um tédio, sem momentos para sonhos e fantasias. Tom Hanks retornou a essa tema na franquia “Toy Story”, dublando a voz de Woody. “Quero ser grande” também foi indicado a melhor roteiro, e merecidamente: é inteligente, lida com temas complexos de forma carinhosa e jamais perde o encantamento pelos seus personagens.
Sonhos rebeldes
'Sonhos rebeldes", de Rachel Lee Goldenberg. Refilmagem do clássico adolescente de 1983, dirigido por Martha Coolidge e que ficou famoso por ter sido o primeiro filme de Nicholas Cage. Esse remake ganha um plus: é um musical, na linha de "La La Land" e inclusive com a mesma coreógrafa, Mandy Moore. O filme tem um olhar feminino não so pela direção, mas também pela roteirista Amy Talkington, que falam sobre empoderamento feminino no início dos anos 80, através de imagens da primeira astronauta que vai ao espaço. O filme tem a clássica história da menina rica e patriicinha que se apaixona por um punk pobre e sem família. A história é contada por Julie aos 40 anos ( Alicia SIlverstone), que narra para a sua filha sobre a sua adolescência nos anos 80. Julie (Jessica Rothe, da franquia "A mote lhe manda parabéns") namora Mickey (Logan Paul), um machista sme noção rico. Mas durante uma festa, Julie conhece o punk Randy (Josh Whitehouse) e ambos se apaixonam. Julie precisa lidar com o preconceito de suas amigas e sua família para seguir adiante com o seu amor por Randy.
O filme é perfeito para uma sessão da tarde: bobinho, previsível mas uma delícia de se assistir. Eu sou suspeito: amo anos 80, esse visual mega cafona e kitsch e a rilha sonora é muito foda com o melhor da época: "Tainted love", 'Boys don't cry", "Crazy for you", 'Girls just wanna have fun", "Take on me", "I just can get enough", "Under pressure" e muito mais. Para quem amou a série "Glee", vai dar nostalgia. Quem odeia romance adolescente, musical, melhor assar batido. Alicia SIlverstone dá um charme à mais ao filme. O filme era para ter sido lançado em 2018, mas um de seus protagonistas, Logan Paul, famoso Youtuber, se meteu em uma controvérsis no final de 2017, ao debochar de um suicida no Japão. A produção do filme resolveu adiar para baixar a bola.
O Padre e a moça
“O padre e a moça”, de Joaquim Pedro de Andrade (1966)
Listado entre os 100 melhores filmes brasileiros pela Abraccine, “O padre e a moça” concorreu no Festival de Berlin em 1966, e venceu no mesmo ano dois prêmios no Festival de Brasília: melhor atriz para Helena Ignez, e melhor fotografia para o Mestre Mario Carneiro. O filme é uma livre adaptação d conto de Carlos Drummond de Andrade, “O padre e a moça” publicada no livro “Lição de coisas”, de 1962. O filme é a estréia em longas de Joaquim Pedro de Andrade, e também a estréia de Paulo José, ator de teatro que assumiu o protagonista após o ator original cair doente há duas semanas da filmagem. Paulo José nunca havia feito cinema antes. Rodado em Minas Gerais, no município de São Gonçalo do Rio das Pedras, tendo a população local ajudado na produção e trabalhado como elenco de apoio. A trilha sonora é de Carlos Lyra.
Numa região do garimpo, o idoso padre local está doente e um padre jovem (Paulo José) chega para rezar a extrema unção. O Padre conhece alguns moradores locais: Vitorino (Fauzi Arap), o farmacêutico local, amante de Mariana (Helena Ignez). A mesma Mariana é afilhada de Fortunato (Mario Lago), o rei do garimpo local, e que pretende se casar com ela. Mas assim que o Padre e Mariana se conhecem, surge um amor platônico que atormenta o pároco.
O filme me lembrou “O crime do padre Amaro”, de Eça de Queirós. Com bela direção naturalista de Joaquim Pedro de Andrade, o filme é enriquecido pela linda fotografia em preto e branco de Mario Carneiro, que enaltece o figurino preto do padre e a renda branca de Mariana. Quando do sue lançamento, o filme foi atacado pela Igreja católica, que o acusou de imoral, e detonado pela crítica, que o achou aristocrático. Hoje revisto, o filme é considerado um dos grandes filme brasileiros, que teve a ousadia de apresentar um Padre moralmente em contradição diante da sedução de Mariana e de não encontrar as palavras de Deus para explicar o que estava acontecendo com a sua mente. No mesmo ano, Paulo José lançaria o seu segundo filme, que o catapultaria ao sucesso : “Todas as mulheres do mundo”, de Domingos Oliveira.
Primitivo: contos da selvageria
“Primal: Tales of savagery”, de Genndy Tartakovsky (2019)
Animação para adultos, com violência extrema, “Primitivo: contos da selvageria” é uma criação de Genndy Tartakovsky, um dos midas da animação americana. Criador e diretor dos grandes sucessos “O laboratório de Dexter”, “As meninas super poderosas”, ‘Samurai Jack”, “Star Wars: Guerra dos clones” e da franquia de sucesso “Hotel Transilvânia”, Genndy Tartakovsky realizou agora uma animação para adultos ambientada na era pré-histórica que inicialmente, seria uma série de 10 episódios. Ao realizarem até o 5o episódio, os produtores resolveram juntar tudo num único longa para que pudesse competir para uma vaga ao Oscar de animação em 2020.
O longa é todo sem diálogos, apenas grunhidos e trilha sonora. Spears é um homem pré-histórico que ao chegar em casa após uma pescaria para alimentar sua família, testemunha vários tiranossauros devorando sua esposa e seus dois filhos pequenos ( sim, é mostrado os dinossauros devorando cada integrante com bastante sadismo). Desconsalo, Spears tenta se suicidar, mas desiste. Ao seguir um rumo sem destino, ele encontra uma fêmea velociraptor, Krog, aninhando seus dois filhotes. Os mesmos tiranossauros vêem e devoram os filhotes de Krog. Spears e Krog se unem e matam os tiranossauros. Agora, os dois precisam se unir para lidar com o mundo selvagem que os circunda.
Com uma excelente animação, de traços simples mas marcantes, “primitivo” não economiza na violência. É sangue e carne rasgada o tempo todo. No final, ainda tem uma referência à “Alies, o resgate”, com vários casulos repletos de vítimas. Dinâmico, cheio de adrenalina, é uma ótima pedida para quem curte um filme violento e ao mesmo tempo, que fale da amizade incomum entre um homem e um dinossauro.
quarta-feira, 20 de maio de 2020
Chaplin
"Chaplin", de Richard Attenborough (1992)
Ambiciosa cinebiografia de Charles Chaplin, dirigida pelo inglês Richard Attenborough, realizador do mastodôntico "Gandhi". Robert Downey Jr não era a primeira opção dos produtores, que preferiam um nome mais forte, como Dustin Hoffman ou Billy Crystal, mas o diretor Attenborough se recusou e bateu pé em Robert. Acabou que o filme foi a virada na carreira de Robert, aos 27 anos de idade, numa arriscada performance do artista mais famoso da história do entretenimento. Robert foi indicado ao Oscar, o que lhe deu um grande prestígio para em seguida trabalhar com Robert Altman em 'Short cuts" e em "Assassinos por natureza", com Oliver Stone.
O filme é uma bela e correta adaptação da autobiografia de Chaplin, "Minha vida', cobrindo a sua infância ao lado de sua mãe Hannah ( Geraldine Chaplin, neta de Charles Chaplin) e de seu irmão Syd na virada do século XX. Hannah acabou sendo internada como louca em um manicômio. Após tentativas de se tornar um artista de variedades, Chaplin acabou conseguindo com a ajuda de seu irmão Syd. Com o sucesso dos palcos, veio o convite para ir até Hollywood trabalhar com o famoso diretor de comédia Mack Seyneth (Dan Aykroyd). Com o seu talento reconhecido, Chaplin cresce e monta o sue próprio estúdio, onde dirige os seus próprios filmes. O filme mostra a sua relação com as 4 mulheres com quem se casou, a caça às bruxas do Machartismo que o acusa de se filiar ao comunismo e a expulsão dos Estados Unidos, indo morar na Suíça.
Sinto falta desses filmes épicos e grandiosos onde não existiam efeitos especiais e toda a figuração é real. A sensação de estar assistindo algo absurdamente escalafobético dá um empoderamento enorme a esses filmes. O elenco é grandioso, e além dos citados, tem Anthony Hopkins como o escritor que escreve a autobiografia, Milla Jojovich, como a primeira espoa, Marisa Tomei, Kevin Kline, Diane Lane, James Woods e muito mais. A fotografia é do Mestre sueco Sven Nykvist, que fotografou para Bergman e Woody Allen. O único pecado do filme é nÃo terem trocado os atores que envelhecem, como Robert Downey Jr e Moira Kelly que faz Oona, sua última esposa: a maquiagem ficou pavorosa. Mas tudo se torna extraordinário na cena final, na entrega do Oscar, com o clip apresentado no telão, com as cenas antológicas dos filmes de Chaplin.
Esse sou eu
"This is me", de Oakley Fugate (2019)
Curta documentário dirigido pelo jovem cineasta gay Oakley Fugate, de apenas 20 anos de idade. Oakley nasceu em Kentucky e lá ele conheceu a história de Dominik Spangler, um transgênero de 19 anos de idade que está em processo de transição de garota para um rapaz. O filme traz depoimento de Dominik falando de todo o seu doloroso processo de bullying desde a infância até os dias de hoje, tanto em casa, com sua família, quanto na escola, desde o momento que descobriu que estava em um corpo que não lhe pertencia. Domink foi chamada de sapatona e de tudo quanto era nome. Hoje Domink está ainda em processo de transição, e espera uma vida normal para si. O mais interessante do filme é usar imagens de Dominik antes da transição e fazendo uma espécie de timeline de todo o processo.
A margem
“A margem”, de Ozualdo Candeias (1967)
Fiquei tão impactado com esse filme, listado entre os 100 melhores filmes brasileiros pela Abraccine, que tive que pesquisar quem era Ozualdo Candeias, de quem eu quase nada tinha ouvido falar. “Nascido no Mato Groso, abandonou a escola ainda no primário e trabalhou no campo, foi militar, caminhoneiro, chofer de táxi, office-boy, lustrador de móveis, metalúrgico, operário e funcionário público.” Começou a trabalhar em cinema realizando curtas e foi assistente de direção do Zé do Caixão em “À meia noite levarei sua alma”, em 64. Ozualdo realizou um filme que de forma sublime, traz referências do cinema neo-realista italiano, do cinema mudo (o personagem do louco com uma flor é Chaplin puro), do realismo fantástico e ouso até dizer do cinema de Misogushi, “Contos da lua vaga”, com a embarcação fantasma que busca os seus mortos.
Tudo isso embalado por uma sensacional trilha sonora composta pelo Zimbo Trio. Filmado em preto e branco e com baixíssimo orçamento, Ozualdo narra a história de personagens marginalizados que moram nas margens do Rio Tietê, no ano de 1967. O Tietê ainda era coberto por vegetação e tinha uma favela no seu entorno. Ali Ozualdo conta 2 histórias de amor, em uma estrutura narrativa que logo depois seria celebrado por Robert Altman, que é o filme painel, com personagens se cruzando pelo caminho. Temos um desempregado de terno e gravata que se relaciona com uma prostituta, e um louco que traz consigo uma flor e o oferece para uma jovem que de dia trabalha como vendedora de café, e de noite se prostitui. O filme praticamente não tem diálogos, e os poucos que tem, parecem ter sido dublados depois. O elenco é todo formado por não-atores. Críticos consideram o filme um dos precursores do cinema marginal, que surgiu forte no ano seguinte com Rogerio Sganzerla e “O bandido da luz vermelha”. O nome do movimento veio do título do filme de Ozualdo, batizando um dos mais revolucionários momentos do cinema brasileiro.
A good woman is hard to find
“A good woman is hard to find”, de Abner Pastoll (2020)
Vencedor de diversos prêmios em Festivais de filmes de gênero terror e suspense, ‘A good woman is hard to find” é uma produção inglesa filmada na Irlanda do norte. É uma mistura alucinada do drama social de Ken Loach, da psicopatia de “Cova rasa”, de Danny Boyle e da ultra violência estilizada de Nicholas Windng Refn, diretor de “Drive”. Com uma atmosfera dos filmes independentes dos anos 80, politicamente incorretos, o filme tem como protagonista Sarh (Sarah Bolger, excelente), uma viúva cujo marido morreu assassinado. Sarah passa por dificuldades para criar seus dois filhos pequenos e constantemente é visitada por uma assistente social para saber se está cuidando bem das crianças. Uma noite, um traficante de nome Tito surge no seu apartamento e exige que ela guarde a droga roubada de um mafioso em seu apartamento. Assustada e ameaçada, Sarah obedece. Mas ela não esperava que tod anoite ele aparecesse ali. Cansada de ser menosprezada por um mundo dominado pelo machismo e pelo assédio sexual, Sarah resolve pegar um machado e um martelo e seguir as suas novas regras.
Eu adoro esses filme sonde uma mãe faz absolutamente de tudo para defender seus filhos. Em excelente performance, a atriz Sarah Bolger sai da mais completa apatia de sua personagem para uma leoa disposta a tudo, até mutilar. Com bela fotografia hiper-realista, o filme tem um tom time de atores ingleses e uma direção que traz angústia e tensão à medida que o filme avança.
terça-feira, 19 de maio de 2020
Vidas cinzas
"Vidas cinzas", de Leonardo Martinelli (2017)
Impressionante como rever esse super premiado curta do talentoso Cineasta Leonardo Martinelli ganha dimensões mais catastróficas do que a apresentada aqui no filme, rodado no ano de 2017, no pós impeachment de Dilma e portanto, durante o Governo de Michel Temer. "Vidas cinzas" é um mockmentary ( Falso documentário) apresentando um Rio de Janeiro que teve as suas cores cortadas pelo Governo. O governo já não tinha mais aonde fazer cortes no orçamento e decidiu tirar o que a cidade tinha de mais exuberante: as cores do carnaval, da paisagem, do sorris das pessoas. Leonardo pegou depoimento de artistas, políticos e populares que dão sua opinião sobre o corte nas cores. Uma clara alusão ao corte no orçamento da Cultura, da assistência social, educação e tudo o que é mais prioritário na vida da população, o filme conta com um elenco eclético: Wagner Moura, Gregorio Duvivier, os políticos Marcelo Freixo, Lindbergh Farias, Flávio Bolsonaro e num depoimento bastante comovente, menos de um ano antes de seu assassinato, Marielle Franco. Tem também o jornalista Glenn Greenwald e a cineasta Petra Costa, além do ator Roney Vilella interpretando um popular.
Muito triste ver esse filme agora em 2020, no meio de tanta tristeza política, de quase morte do audiovisual, do teatro, da cultura em geral. Que o filme tenha sido um alerta e que em breve, Leonardo Leonardo Martinelli possa fazer uma parte 2 desse filme intitulada, obviamente, 'vidas coloridas".
Link para ver o filme:
https://www.youtube.com/watch?v=2Z98U429r38
Te pego lá fora
“Three o çlock high”, de Phil Joanou (1987)
Giga clássico dos adolescentes, “Te pego lá fora’ é um dos melhores exemplares do cinema de entretenimento dos anos 80. Na época o filme foi um fracasso de crítica e público, mas com o tempo o filme foi ganhando um status de cult. É uma pena que o filme não tenha estourado quando foi lançado, pois terá sido uma ótima chance de catapultar a carreira do jovem ator Casey Siemaszko, que até então, só tinha feito participações em filme de sucesso como “De volta para o futuro”, “Conta comigo” e “Admiradora secreta”.
O filme pega como referência para a sua história dois clássicos do cinema: “Matar ou morrer”, de Fred Zinemann, e “o exterminador do futuro”, de James Cameron. A atuação do rebelde Buddy Ravell (Richard Tyson) é toda baseada no exterminador de Schwarzenneger: mecânizada, sem expresser emoções, caminhar duro e os passos com edição de som acentuando o efeito. O filme ainda faz uma piada com o filme: em uma cena, um capacete com uma cabeça do exterminador cai ao lado de Jerry. De “Matar ou morre”, o filme pegou o mote: um duelo com hora marcada, criando toda a expectativa do filme.
Uma coisa interessante é perceber como o cinema dos anos 80 era repleto de merchandising: aqui tem Coca-Cola, caneta Bic. A direção de Phil Joanou é excelente: famoso por dirigir clips de grupos famosos, como a banda U2, Joanou cria movimentos de câmera sensacionais, e o ritmo que ele impime ao filme, junto d abrilhante edição, é de bater palmas. O filme não tem um minuto de respiro, totalmente frenético. Joanou se utiliza de clich6es de filmes de terror para criar expectativas em algumas cenas, por exemplo, na cena do banheiro, vemos os pés chutando cada cabine, recurso clássico de filmes slasher. A trilha sonora é da banda eletrônica “Tangerine dream”, e compõe um score sampleando a trilha de “O exterminador do futuro”. O que eu mais adorei na direção de atores de Phil Jeanou, é que boa parte de seus personagens, como o reitor, o delegado, atuam seriamente, como se fosse um filme dramático. Esse contraste com outros personagens mais caricatos é que faz a diferença. Também, Jeanou concebeu um excelente plano-sequência logo no início: alunos comentando sobre a chegada de Buddy na escola, falando de todas as suas ações violentas na outra escola, seus atos violentos e principalmente, que ele odeia ser tocado. Essa câmera percorre vários alunos até chegar em Jerry. Não posso deixar de falar na performance e no carisma de Casey Siemaszko como o protagonista Jerry Mitchell. É de fato uma pena que ele não tenha estourado, ele seria um ótimo perfil para competir com tipos como Michael J Fox. Casey equilibra bem os momentos cômicos e os dramáticos, e é impossível ninguém sentir pena dele, mas ele faz isso de forma minimalista sem exageros. Para ver e rever.
Meteorango Kid: herói intergalático
"Meteorango Kid: herói intergalático", de André Luiz Oliveira (1969)
Listado entre os 100 melhores filmes brasileiros pela Abraccine, "Meteorango Kid: Herói intergalático" foi escrito e dirigido pelo cineasta baiano André Luiz Oliveira, seu filme de estréia. O filme é um dos representantes seminais do movimento do Cinema marginal, iniciado em 1968 com Rogério Sganzerla e seu "Bandido da Luz vermelha". O filme conta a história de Lula (Antônio Luiz Martins) , um estudante de classe média. O filme todo se passa nesse dia, e Lula se envolve com manifestantes na universidade, com seus pais com quem ele não tem boa relação, no velório de um amigo, fuma maconha com uma roda de amigos, transa e perambula pelas ruas. A narrativa se didivd entre o real e o fantástico: Lula se imagina personagem de vários filmes de super herói: Tarzan, Batman, piratas. Nessa luta pela justiça, o filme faz uma contestação ao governo, à opressão familiar, às regras da Universidaide.
O filme visto hoje em dia provavelmente seria acusado pro alguns de racista e homofóbico. Na delirante cena de Tarzan e Jane, quando comemoram, surge um negro dublado com os chamado da macaca Chita. Esse recurso narrativo da dublagem foi o que mais gostei do filme, onde evidentemente a dublagem vira uma contestação à narrativa tradicional do cinema. O filme começa e termina com a imagem de Lula crucificado em uma Cruz que faz parte do paisagismo de Salvador.
De volta para o futuro 3
“Back to the future 3”, de Robert Zemeckis (1990)
Quando assisti a essa terceira parte no ano do lançamento, em 1990, eu não tinha gostado. A impressão que tu tive é que ele não era tão divertido quanto os outros 2 primeiros, e que por se ambientar no Velho Oeste, os efeitos não estavam presentes e perdeu aquela atmosfera de ficção científica e de fantasia. Mas agora revendo, entendi que o filme é uma broncadeira com o próprio cinema. Zemeckis e Bob Gale, os roteiristas, se divertem fazendo referências a clássicos da sétima arte, uma pegada que eu não tinha sacado na época. A começar por nomear o personagem de Marty Macfly (Michael J Fox) de Clint Eastwood, inclusive vestindo ele com aquele famoso poncho que o celebrizou nos filmes de Sergio Leone. “Matar ou morrer” também é outro filme citado, além de, gozação das gozações, “Taxi driver”, na cena em que Martly se olha no espelho e aponta uma arma dizendo: “Are you talking to me?”
A história acontece em 1885, ano em que Marty volta ao tempo para resgatar Doc (Christopher Lloyd). O impagável; Biff (Thomas F. Wilson) volta no papel de Bufford Tannem, um marginal que assalta dligências. O reforço romântico vem com a atriz Mary Steenburgen, no papel da professora Clara, por quem Doc se apaixona. Michael j Fox novamente representa parentes, e dessa vez, é um tataravô. Lea Thompson está igualmente no papel da tararavó, e dessa vez a maquiagem não pesou tanto quanto nos anteriores.
Confesso que quando o filme termina e surge a tela “THE END”, eu fiquei emocionando. Essa trilogia clássica por muitos cinéfilos é considerada a melhor trilogia da história do cinema, e é fácil entender o porquê. Mesmo essa parte 3 sendo a mais fraca dos 3, ainda assim mantém uma deliciosa nostalgia, saudades desses personagens brilhantes e seus atores formidáveis.
Vou nadar até você
“Vou nadar até você”, de Klaus Mitteldorf (2020)
Filme visto na plataforma www.filmefilme.br .“Vou nadar até você” concorreu no prestigiado Festival de Gramado em 2019. O filme é a estréia em longas do fotógrafo e cineasta Klaus Mitteldorf, e também o primeiro longa como protagonista de Bruna Marquezine. O filme é uma livre adaptação de “Hamlet”, traduzido para os dias de hoje. As referências à Ofélia, personagem trágica da obra de Shakespeare, surgem tanto nos personagens quanto na famosa pintura de John Everett Millais, retatando a morte de Ofélia por afogamento, ao lado de flores. Road movie por gênero, apresenta Ofélia (Bruna Marquezine), uma jovem fotógrafa que mora com sua mãe, Talia, em Santos. Ao descobrir que seu pai, a quem ela nunca conheceu, está no Brasil para uma exposição de fotos em Ubatuba, Ofélia resolve ir até ele e tentar descobrir porquê ele nunca quis entrar em contato com ela. Pelo caminho, ela tenta descobrir quem é seu pai através dos amigos dele, personagens que Ofélia vai buscando em sua trajetória. O filme é uma homenagem de Klaus ao universo da fotografia: a começar pelos personagens: tanto Ofélia, quanto Tedecso (Peter Ketnath, de “Cinema, aspirinas e urubus”), seu pai, e Smutter , seu assistente (Fernando Alves Pinto) são fotógrafos. O filme tem imagens em Super 8 registrados pelo próprio Klaus em sua adolescência, e em determinado momento do filme discute-se o conceito da fotografia analógica e digital. A fotografia do filme, belíssima, é de Alexandre Ermell. O filme é composto de enquadramentos estilizados, como se cada frame fosse uma moldura. A trilha sonora, melódica e melancólica, parecem uma segunda voz narrando o filme, de tão simbiótica da narração em off de Ofélia. É clara a referência de Hamlet/Tedesco e Smutter/Claudio, personagens de “Hamlet”. Um filme que tem como tema o Amor, seja pela Arte ou pelas pessoas, mas com um tom bastante pessimista: o ser humano é egoísta e vil, a fotografia perde sua essência quando não queremos saber quem são as pessoas que queremos fotografar. A alma que Ofélia tanto busca, provavelmente só existe dentro dela.
Com um excelente elenco de coadjuvantes: Cristina Prochaska, Fabio Audi, Dan Stulbach, Ondina Clais, “Vou nadar até você” é um filme que não deixará o espectador indiferente aos caminhos de seus personagens. E tem uma cena digna de nota: o pulo que Oféilia dá na ponte de Santos, um primor de realização na direção e na fotografia. Bruna Marquezine mostra bastante talento em um personagem complexo e cheio de camadas. Uma corajosa escolha para a sua estréia nas telas.
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