quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Mulheres armadas, homens na lata
"Rebelles”, de Allan Mauduit (2019)
Com esse título divertido em português, nenhum cinéfilo tem dúvida de que o Distribuidor quer seduzir o fã clube de Tarantino Guy Ritchie, e com toda a razão. O filme reúne todo o estilo narrativo, personagens bizarros dos 2 cineastas, ainda trazendo elementos icônicos da filmografia de ambos: hiper violência, trilha sonora que faz referência ao universo pop e do faroeste de Sergio Leone, e a indefectível cena onde todos os personagens apontam as armas um para o outro, cena que Tarantino criou em “Cães de aluguel” mas que já havia roubado de cults de Hong Kong.
A diferença agora é que houve inversão dos protagonistas: as mulheres é que comandam a história. Elas são totalmente “Bad asses”: dão porrada, apanham, dão tiros e não têm dúvidas sobre que decisão devem tomar, além de cuidar dos afazeres do lar e do trabalho. Os homens aqui são todos escórias: ladrões, trapaceiros, assediadores.
Sandra, Nadine e Marilyn trabalham em uma fábrica que produz latas de pescados. Apáticas com a vida que levam, repletas de problemas pessoais, elas não sabem como sair dessa fim de poço. Ao tentar evitar um assédio de um traficante, Sandra acaba provocando um acidente, e o traficante morre. Elas descobrem uma mala repleta de dinheiro, decidem mandar o corpo do traficante para o triturador e enlatar tudo e ficarem com a grana. O que elas não esperavam, é que os donos do dinheiro sujo fossem aparecer e fazer de tudo para reaver.
A grande força do filme é o carisma das personagens e o talento das atrizes, que se divertem nessa fábula de humor negro. Cecile de France, Yolande Moreau e Audrey Lamy estão sensacionais. São anti-heroínas que o espectador irá amar torcer a favor, por mais merda que elas façam para si mesmas e para os outros. A sequência final, do tiroteio na casa, é um primor de direção e de non sense.
Piranhas
“La paranza dei bambini”, de Claudio Giovannesi (2019)
Esse filme é uma porrada! Nada muito diferente da situação que vivemos aqui no Brasil ou qualquer país do terceiro mundo: a escalada da violência nas periferias das grandes cidades, tendo agora como mentores do crime, adolescentes totalmente desprovidos de família, educação ou assistência social. É uma geração com pressa de acontecer, de ficar rico, de dizerem ao mundo que existem e saírem do anonimato.
“Piranhas” é a gíria que se dá aos jovens sedentos de Poder que entram na Máfia italiana. Mais precisamente, na Máfia de Nápoles. O adolescente Nicola ( em sua estréia no cinema, um não ator, impressionante) mora com sua mãe e sue irmão pequeno em um pequeno sobrado. Cansado de ver a máfia local cobrando impostos da lavanderia decadente de sua mãe Nicola resolve tomar satisfação com o mafioso do bairro. Nicola acaba apanhando, mas repleto de Poder, se oferece para trabalhar para o chefão, cobrando impostos de comerciantes. Logo, Nicola e sua gangue passam a ganhar dinheiro, cheirar pó, circular com mulheres, tudo aquilo que a vida de luxo da cartilha do traficante demanda. Mas Nicola se apaixona por Letizia, que mora em um bairro comandado por outra Máfia, e assim, se inciia a sua derrocada.
Escrito por Francesco Di Napoli, um dos roteiristas da série de sucesso “Gomorra”, de onde também vem o diretor Claudio Giovannesi, “Piranhas”tem ingredientes de todos os clássicos da Máfia “Era uma vez na América”, “Scarface”, “Os bons companheiros. Amizade, amor, traição são os temas comuns a esses filmes. O que difere esse filme dos outros, é o olhar realista sobre esse mundo sem perspectiva, sem glamour, sem piedade. No elenco, impressionantes jovens não atores dando vida a seus personagens raivosos, aliados à estética da câmera na mão que segue seus personagens, como nos filmes dos irmãos Dardenne. Mesmo não trazendo nada de novo na dramaturgia ( e mesmo assim, levando o Urso de Ouro de melhor roteiro no Festival de Berlin 2019), o filme comove pela dura realidade que destrói gerações. Aqui como lá na Itália, os sonhos estão sendo dizimados desde o berço.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Os mortos não morrem
“The dead don't die”, de Jim Jarmusch (2019)
Filme que abriu o Festival de Cannes 2019, “Os mortos não morrem” é a incursão de Jim Jarmusch no universo dos zumbis. Jarmusch já havia trabalhado com o gênero terror em “Amantes eternos”, com vampiros como protagonistas. Mas todo mundo que adora os mortos-vivos sabe que eles são uma metáfora contra o capitalismo, fascismo e que os zumbis representam uma sociedade morta e apática. Aqui não seria diferente. Jarmusch joga o seu petardo na América de Donald Trump, com direito a um monólogo existencialista de um eremita mendigo representado por Tom Waits, dando um tom sombrio e melancólico a um mundo que caminha para o Apocalipse.
Jarmusch traz um elenco fabuloso para dar vida a essa paródia/manifesto: Adam Driver, Bill Murray, Tilda Swinton, Danny Glover, Selena Gomez, Chloë Sevigny, Steve Buscemi ( fazendo aquele tipo rabugento que só ele sabe fazer) e para fechar a chave de ouro das participações estelares, Iggy Pop no papel de um zumbi viciado em café.
Aliás, os zumbis desse filme agem como seres humanos e têm desejos mundanos como qualquer um teria: querem wi-fi, vinho, roupas da moda. Em Cleverland, cidade com menos de mil habitantes, a pacata e monótona rotina é quebrada quando a noite demora a se pôr. Celulares não funcionam mais, relógios param, tudo causado pela extração de petróleo nos polos sul e norte que mexeram com o eixo da rotação terrestre. Essa ação do homem contra a natureza provoca o reavivamento dos mortos, e os zumbis passam a atacar os moradores da cidade. Entre eles, os policiais Cliff, Ronni e Mindy (Murray, Driver e Sevigny). Tilda Swinton interpreta uma médica legista meio dublê de Mestre Yoda, com direito a quimono e espada e sabedoria oriental para matar os zumbis.
A brincadeira de Jarmusch é provocar o espectador: quem são os zumbis? Os mortos-vivos, ou os vivos apáticos que agem como pessoas mortas? Ë divertido rever Bill Murray, Adam Driver e toda essa galera interpretando naquele estilo bem de Jarmusch, totalmente apáticos, sem vida, dando falas pausadas. Os zumbis são caracterizados como os seres dos anos 80 de George Romero, totalmente trash, sem o apelo computadorizado de “The walking dead”. Inclusive quando um é morto, sai fumaça preta de seu corpo.
Divertido no início, o filme vai perdendo graça quando se torna repetitivo. Se fosse um curta, seria uma obra-prima. Como longa, fica valendo a brincadeira de um dos grandes cineastas americanos, que decidiu fazer uma crítica à sua maneira do mundo em que vivemos.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
Sugar
“Sugar”, de John Palmer (2004)
Drama independente LGBTQ+ Canadense, ‘Sugar” lembra muito aquela estética suja e autoral dos primeiros filmes de Gus Van Sant, como “Mala noche”, ‘Drugstore cowboy” e “My own private Idaho”.
Adaptado de crônicas escritas pelo Cineasta queer Bruce la Bruce, ‘Sugar” é ousado na forma e no conteúdo, apresentando ousadas cenas de sexo e nudez, repletas de fetiches.
Cliff acaba de fazer 18 anos. Gay enrustido, ele mora com sua mãe e sua irmã de 10 anos. A mãe lhe dá de presente um skate. A irmã é mais direta a assunto: dá ao irmão uma garrafa de vodka e um mapa da cidade onde existe um gueto gay, e recomenda ao irmão que perca a virgindade nessa noite. Ele segue o conselho da irmã e vai parar em uma rua de prostituição masculina. Ele conhece Butch, um michê por quem fica apaixonado, e o segue pelas ruas e baladas. Os dois ficam amigos, mas Cliff insiste em querer algo mais de Butch, que evita um relacionamento.
O filme tem divertidas cenas envolvendo os clientes de Butch: masoquistas, uma mulher obesa, voyeurs, etc. Os atores que interpretam os clientes são muito realistas, e acredito que são não atores. A fotografia granulada, a direção de arte, o ambiente underground, tudo dá um tom de decadência ao filme, que é ambientado nos anos 80. Sexo, drogas e rock’n roll protagonizados por 2 jovens atores que embarcam na visceralidade: Andre Noble como Cliff, e Brendan Fehr como Butch.
Fassbinder
“Fassbinder”, de Annekatrin Hendel (2015)
Sou apaixonado pela filmografia do Cineasta alemão Werner Reiner Fassbinder, morto aos 37 anos em 1982, de overdose. Fassbinder viveu uma vida de excessos: álcool, drogas, amantes. Bissexual, Fassbinder começou sua carreira nos anos 60 como Ator, e foi ali que ele descobriu sua paixão por cinema. O documentário, dirigido e escrito pela Cineasta Annekatrin Hendel apresenta imagens raras de entrevistas com Fassbinder e de cenas dele ainda jovem atuando nos palcos. Depoimentos de atrizes que trabalharam com Fassbinder, como Hannah Schygulla, Margit Carstensen, Irm Hermann além de produtores, assistentes de direção, editores e colaboradores, ajudam a criar um perfil sobre quem foi esse polêmico e apaixonante homem que colocava o trabalho na frente de tudo em sua vida. Fassbinder dirigiu 43 longas em poucos anos, além de ter dirigido a série de tv mais cara na Alemanha até o ano de 1980, “Berlin Alexandreplatz”, com quase 16 horas de duração.
Logo no seu primeiro filme, “O Amor é mais frio que a morte” em 1967, foi selecionado para o Fetsival de Berlin, recebendo enormes vaias. No ano seguinte, com “O Machão”, ele novamente foi para o Festival. Fassbinder montou uma comunidade cinematográfica em um apartamento: ali vivia a equipe técnica e atores que trabalhavam com ele, realizando filmes com baixo custo. Ele alternava a direção com trabalhos como ator em produções de importantes cineastas, como Volker Schloendorff, com quem protagonizou “Baal”. Fassbinder odiava pagar impostos, e acabou devendo mais de 200 mil marcos em impostos. Sua mãe acabou assumindo a função de Diretora de produção seu seus filmes para administrar as finanças. O filme traz depoimento das atrizes que trabalharam com ele em “Lágrimas amargas de Petra Von Kant”, e elas denunciam o quanto Fassbinder era cruel: dizia segredos íntimos das atrizes para a equipe técnica, as obrigava a decorar textos enormes de uma hora para outra, tudo para fazê-las entrar no estado emocional das personagens. Fassbinder era conhecido pelo seu terrível gênio, e constantemente maltratava equipe e elenco, além de seus amantes, que ele costumava escalar para os filmes. Tinha total desprezo pelo método de Stanislawsky e não gostava de trabalhar com atores amadores. Experimentou o sucesso comercial com “O casamento de Maria Braun”, que ficou 54 semanas em cartaz no cinema Lincoln Center em Nova York. Após a morte de um de seus amantes, Armin Meier
, que morreu de Overdose, Fassbinder se afastou de algumas pessoas, se sentindo culpado pela morte dele. O filme termina com depoimentos das pessoas falando sobre o legado dele para o cinema alemão.
Para quem é fã de Fassbinder, é um documentário fundamental, mesmo que tenha um formato careta. As raras cenas de filmes e depoimento do próprio Cineasta já vale a sessão.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
Cities of last things
"Cities of last things", de Wi Ding Ho (2019)
Premiado drama Taiwanês dirigido e escrito por Wi Ding Ho, lembra bastante o visual de “2046”, filme ambicioso e futurista de Wong Kar Wai, e narrativamente remete a “Amnésia”, filme de Christopher Nolan que vai voltando ao tempo durante a sua narrativa.
“Cities of last things” se passa em 3 épocas distintas com o mesmo personagem em idades variadas, ambientadas na cidade de Taipei, capital de Taiwan.
No futuro, Zhang Dong Ling é um policial obcecado pela esposa, seu chefe Subtenente e pela filha já adulta. Após um ato de violência, o filme volta ao tempo, e mostra o mesmo personagem, agora jovem, acabando de entrar na polícia e lutando contra a corrupção dentro do departamento. Zhang Dong Ling se envolve com uma prostituta ocidental, mas novamente termina em ato de violência. Na última parte, vemos Zhang Dong Ling adolescente, praticando um roubo. Ao ser preso, ele descobre que sua mãe, que o abandonou, também está presa e está ao seu lado.
Com uma fotografia que valoriza os neons coloridos da noite cosmopolita, o filme arrebata pelo roteiro complexo mas sempre sedutor, mesclando ação, romance e melodrama. Todas as histórias possuem como tema de fundo amores frustrados. A trilha sonora impecável, de Robin Coudert, traz tintas melancólicas que ecoam por um tempo na nossa mente. Ótimo trabalho de todo o numeroso elenco. O filme ganhou inúmeros prêmios, entre eles, um especial no Festival de Toronto. O filme foi todo rodado em 35 MM.
No coração do Mundo
“No coração do mundo”, de Gabriel Martins e Maurílio Martins (2019)
A mais nova produção do Coletivo mineiro “Filmes de plástico”, que já recebeu uma centena de prêmios em Festivais mundo afora, além de terem filmes exibidos nos prestigiados Festivais de Cannes e Rotterdam, prima pela qualidade em todas as categorias. Mais uma vez, o Coletivo apresenta o cotidiano sofrido e pesado de moradores da periferia de Belo Horizonte, mais precisamente, na comunidade de Contagem. Essas figuras anônimas suam a camisa para conseguir sustentar suas casas e familiares: são motoristas e trocadores de ônibus, cabeleireiras, traficantes, motoristas de Uber, vendedores de desinfetante, lojistas. Até que um desses personagens resolve assaltar uma redidência, e para isso, conta com a ajuda de um casal de amigos.
O roteiro já vimos em centenas de outras produções, e de certa forma, nos filmes dos irmãos Coen, especialistas em protagonistas loosers. Mas no filme dos sócios e roteiristas Gabriel e Maurilio Martins, o olhar sobre os personagens não é nada apaixonado: happy end só existe no cinema. Na vida real, que o filme faz questão de retratar, a dificuldade é extrema. O filme traz um olhar documental sobre o dia a dia dessa comunidade. São muitos os personagens, mas as atenções são voltadas para 3: Ana e Selma, o casal apaixonado e batalhador, e Selma. Todos os 3 buscam “O coração do mundo”: um lugar idílico, para onde querem fugir e sair dessa periferia.
Grace Passô, que interpreta Selma, já é habitueé de Festivais e todo cinéfilo já conhece. O seu personagem parece até uma extensão da que ela interpretava em ‘Temporada”, também do Coletivo. Mas e Leo Pyrata, Kelly Crifer, Barbara Colen Robert Frank e mais uma dezena de atores com nomes curiosos? Todos são mineiros, e possuem um talento formidável. O filme mescla atores profissionais com não-atores. Entre as participações especiais, tem a de Karine Teles e Romulo Braga. Karine alíás, protagoniza uma das cenas mais divertidas do filme, a do prólogo, que tem como música de fundo “Love by Grace”, um clássico pop romântico de novela da Globo.
O filme privilegia planos-sequências muito bem armados, em especial, o da cena de Grace Passô na escola, sendo enquadrada por uma filmadora.
Front cover
“Front cover”, de Ray Yeung (2015)
Drama romântico LGBTQ+, “Front cover” ganhou diversos prêmios em Festivais internacionais, e foi escrito e dirigido pelo Cineasta de Hong Kong Ray Yeung. O Cineasta colocou no filme um pouco da sua experi6encia pessoal: ambientado em Nova York, o protagonista Ryan é um jovem chinês nascido nos Estados Unidos, Figurinista de sucesso de uma empresa de publicidade, ele produz capas de importantes revistas. Ryan é assumidamente gay, mas renega a sua ascendência cultural chinesa. Ele se vê como um ocidental, e somente se relaciona com ocidentais. Desde que se assumiu gay, se distanciou de seus pais, que não aceitaram a sua homossexualidade. Um dia, Ryan descobre que terá que produzir uma campanha para um famoso Ator chinês, Ning, que quer abrir mercado como ator no ocidente. Ning é arrogante, cercado de mulheres. Ning é gay enrustido e por conta disso, não aceita Ryan logo de cara. Ning também provoca Ryan por ele renegar a sua cultura chinesa. Aos poucos, as diferenças entre os dois vão ganhando contorno de romance.
“Front cover” é um belo romance que tem como título uma metáfora da vida dos dois personagens: ambos vivem sob fachadas, mentindo para todo mundo a verdade sobre a sua identidade. Com ótima interpretação dos atores principais e uma direção que traz sutilezas e narrativa elegante, o filme seduz ainda pela fotografia e trilha sonora.
domingo, 4 de agosto de 2019
The jealous sea
“The jealous sea”, de Reid Waterer (2018)
Um dos curtas LGBTQ+ mais cafonas que já assisti na vida, e por isso mesmo, delicioso. Lembra daquela autora de romances de bolso, vendidos no mundo inteiro e que fazia a alegria de mulheres de todas as idades, Barbara Cartland? Imagina um romance daqueles repletos de paixão, sexo, ciúmes? Interpretado por 3 modelos lindos, mas que não são atores? Sem diálogos, como se fosse um filme mudo? Com uma trilha sonora mais épica do que a de “E o vento levou”? E claro, com muita câmera lenta e espelhos refletindo os corpos torneados dos rapazes?
“The jealous sea” parece o prólogo primoroso da animação ‘Up-Altas aventuras”: o filme conta toda uma história em flashes. 2 homens se conhecem em um parque. Eles namoram firme, apaixonados. Um deles é fotógrafo de modelos nús, e claro que o namorado vai ficar enciumado, achando que ele está namorando um dos modelos.
A direção é calcada em todos os estereótipos de romance e de filmes gays, com a lente totalmente apaixonada pelos corpos. Vale assistir.
Sinônimos
“Synonyms”, de Nadav Lapid (2019)
Vencedor do Urso de Ouro em Berlin 2019 de Melhor filme e também do Fipresci, “Sinônimos” é dirigido pelo cineasta israelense Nadav Lapid, realizador do também provocador e incômodo “A professora do jardim de infância”, que ganhou remake americano com Maggie Gyllenhall no papel da professora obcecada e psicótica.
Os protagonistas dos filmes de Nadav Lapid são assim: frutos de uma sociedade paranóica, competitiva, fria e doente. “Sinônimos” lembra bastante a estrutura narrativa de vencedor de Cannes “The square: a Arte da discórdia”. Ambos narram o filme em estrutura de sketches independentes, falam de nacionalismo, orgulho, Arte e também, abuso de Poder. São relacionamentos onde um tenta tirar proveito do outro, e usam o sexo como forma de empoderamento e dominação.
O Ator israelense Tom Mercier, na sua estréia no cinema, impressiona pela sua visceralidade e entrega ao papel de Yoav, um ex-soldado israelense que abandona o seu País e sua Cultura para se aventurar em Paris. Yoav renega a sua língua hebraica e sua cultura israelense, e quer se apropriar da cultura francesa. Ele não se vê como israelense. Yoav constantemente é passado para trás ou é abusado por outras pessoas. Ele é ajudado por um jovem casal francês, Emile e Caroline: ele querendo ser escritor, ela musicista. Emile se aproveita das histórias e Yoav, quando soldado, para escrever o seu livro. Caroline abusa do corpo de Yoav, que é uma máquina sexual.
O filme é uma espécie de autobiografia do próprio Cineasta, que assim como Yoav, migrou para a França numa tentativa de ignorar sua herança israelense. Nadav acreditava ter nascido por engano em Israel, até entender que todos os países, de certa forma, possuem seus defeitos e qualidades.
O filme abusa de câmera na mão, com cenas com imagens bastante tremidas. O título se refere à tentativa de Yoav decorar o dicionário Hebraico-francês. Com uma mistura de gêneros, que aposta no drama e no humor negro, o filme achincalha o exército israelense, assim como no ótimo “Foxtrote”, mostrando soldados em atividades como canto e violência extremada.
O filme fez muito sucesso junto ao público LGBTQ+, inclusive o filme concorreu ao Prêmio Teddy ( dedicado a filmes com temática gay) no Festival de Berlin, devido às cenas homoeróticas envolvendo Yoav e Emile. Mas sucesso mesmo é o ator Tom Mercier, que fica totalmente nú em quase 10% de suas cenas viscerais: em uma cena se masturba, e em outra cena, ao posar nú como modelo vivo para ganhar dinheiro, é obrigado pelo fotógrafo sádico a enfiar os dedos no ânus para dar “verdade” ao personagem que está interpretando. Sem contar o tamanho avantajado de sua genitália.
sábado, 3 de agosto de 2019
Mangue-Bangue
“Mangue-Bangue”, de Neville D’almeida (1971)
Filmado em 1971, “Mangue-Bangue” é um filme de contestação de Neville D’almeida, cansado de ter seus filmes censurados pela ditadura militar vigente na época. Revoltado, ele se juntou ao amigo artista plástico Helio Oiticica e juntos, criaram um “roteiro” onde descreviam várias ações, sem diálogos: travestis na Zona do Mangue, área de prostituição; hippies experimentando drogas; galos de briga se engolfinhando, em uma metáfora da tensão e da pulsão animalesca que habita em cada um de nós. E é através desse sentido animalesco que se apresenta a história que costura toda a narrativa: um homem da bolsa de valores ( Paulo Villaça, brutal) começa a passar mal e vomita dentro do prédio da Bolsa. Aos poucos, ele se joga na rua, no esgoto, e acaba como um andarilho na rua. Ele se despe das ruas e vaga nú, defecando e praticando atos escatológicos próprios do animal. No final, ele entra numa floresta, voltando ao estágio do animal antes da evolução humana.
Uma crítica cruel e violenta a todo o sistema vigente na época, e que perdura ainda nos dias de hoje, “Mangue-bangue” apresenta, além de Villaça, Maria Gladys, antológica e visceral, e o próprio Neville, em cenas vibrantes. Um filme experimental, documento da contracultura brasileira e prova viva de que o Cinema já teve seu momento de libertação.
Durante 40 anos, o filme esteve perdido, e jamais exibido no Brasil. A cópia única foi encontrada no Moma de NY, quando foi exibido lá. Restaurado e exibido em 2008, eaocntinua sme cópia existente no País.
Luz del fuego
"Luz del Fuego", de David Neves (1982)
Revendo o filme nos dias de hoje, impressiona a sua atualidade em relação a temas como censura, conservadorismo e corrupção policial e na Política.
Lançado ainda na época da ditadura, em 1982, o filme sofreu forte censura por conta de suas cenas de sexo e nudez. Dificilmente teria sido realizado nos dias de hoje: atores famosos da época, como Lucélia Santos, Walmor Chagas, Joel Barcellos, Helber Rangel totalmente nus, em uma história que celebra a nudez e que tem como motes as frases ”Toda nudez será bem recompensada” e “Todo mundo nu”.
O filme apresenta a história de Luz del Fuego pelo olhar do senador João Chagas (Walmor Chagas). Já idoso, ele conta para a sua enfermeira quem foi Luz del Fuego, durante um passeio em direção à Ilha do Sol, refúgio naturalista da personagem interpretada por Lucélia Santos. Na Ilha, ela fundou o Clube do naturismo e o Parido naturalista do Brasil, que não obteve reconhecimento. O nome Luz del Fuego foi uma inspiração de uma das cores de um batom. Ela foi vedete de Teatro de revista, e foi lá que ela conhecer o Senador. Casado, a sua carreira política foi colocada em crise por conta de seu caso com a vedete, que costumava se apresentar envolta com cobras. Luz foi assassinada na Ilha em 1967, tendo seu corpo sido encontrado no mar dias depois. Não se sabe quem foi o mandante do crime, mas muitas suspeitas foram levantadas: o próprio senador, pescadores conservadores da região, políticos ou religiosos incomodados com a sua postura.
David Neves foi um grande cronista carioca e soube como poucos colocar em seus filmes o od de viver carioca, em filmes como ‘Fulaninha”, “Jardim de Alah”, “Lucia Maccartney”. “Luz del Fuego” foi um filme bastante escandaloso na época, muito por conta de closes em genitais masculinos eretos, que até hoje viraram referência do filme dentro do imaginário popular. O filme venceu 4 Kikitos no Festival de Gramado: Atriz, Ator, fotografia e direção de arte.
A grande delícia de se rever o filme é ver a ficha técnica: a cineasta Sandra Werneck foi a assistente de direção.
Como lidar com a Morte
"How to cope with death", de Ignacio Ferreira (2002)
Premiado curta de animação do Cineasta espanhol Ignacio Ferreira, famoso pelo longa "Rugas", que também lida om temas sobre velhice, solidão e morte.
Uma idosa mora sozinha em um pequeno apartamento. Ela passa dia todo assistindo televisão. Um dia, a Morte surge para buscá-la. Mas a Morte não esperava uma reação da mulher.
Com menos de 4 minutos, o filme arrebata pela simplicidade e pela idéia absolutamente divertida, provavelmente inspirada em ‘O Sétimo selo”, de Bergman.
O final é maravilhoso, esperem até o final do crédito.
Link para assistir ao filme.
https://www.youtube.com/watch?v=UTWRZppYyzo
Síndrome de Estocolmo
”Stockholm, de Robert Budreau (2018)
Adaptação de um dos maiores casos reais de assalto a banco da história, e que deu origem ao termo ‘Síndrome de Estocolmo”, quando uma das vítimas se afeiçoa ao algoz por conta do longo período em que permanecem juntos em situação limite.
O Assalto ocorreu em Estocolmo no dia 23 de agosto de 1973, último dia de verão. O assaltante Janne Olsson, no filme chamado de Lars Nystrom (Ethan Hawke), invade um banco com uma metralhadora e anuncia o assalto. Ele mantém alguns reféns e liberta a maioria. Entre os reféns, está Bianca (Noomi Rapace), dedicada esposa e mãe de 2 crianças. Lars pede, além do dinheiro, que libertem seu companheiro de assaltos, que está preso, Gunnar (Mark Strong). Só não contavam com o método frio do chefe de polícia, que insiste em não atender aos pedidos de fuga dos assaltantes.
Impossível não se lembrar da obra-prima de Sidney Lumet, "Um dia de cão". O filme tem as mesmas características: humor negro para atenuar o drama, chefe de polícia durão, rivalidade entre os 2 assaltantes. A grande força do filme se reside no trabalho do elenco, com um time de primeira qualidade capitaneado por Ethan Hawke, Mark Strong, Noomi Rapace e Christopher Heyerdahl como o chefe de polícia. Uma pena que o filme não tenha sido rodado com atores suecos, apesar do talento dos americanos, para dar mais veracidade. A única sueca do elenco é Noomi Rapace, mesmo assim, falando em inglês
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
O homem que amava as mulheres
"L'homme qui aimait les femmes", de François Truffaut (1977)
Lançado em 1977 (Truffaut viria a falecer em 1984), "O homem que amava as mulheres" poderia até ser visto como uma livre biografia de Truffaut, conhecido mundialmente pela sua paixão por Mulheres, livros e filmes. No filme, o protagonista é Bertrand Morane (Charles Denner), um homem na faixa dos 40 anos, totalmente obcecado por pernas femininas. Bertrand é tão fascinado pelas mulheres, independente de sua idade, beleza ou profissão, que as persegue como stalker, inventa histórias, tudo para poder se aproximar delas. Bertrand não é bonito, nem rico. Apenas galanteador, romântico, e conquista as mulheres com muita lábia. O filme começa com o seu enterro, onde apenas mulheres estão no cortejo. O filme é narrado por uma dessas mulheres, Genevieve, uma editora de livros, que resolve publicar o livro de memórias de Bertrand, de título homônimo, onde ele narra as várias mulheres de sua vida.
Fico curioso em pensar o olhar de parte dos cinéfilos em relação a esse belo filme de Truffaut, nos dias de hoje. Um filme onde o protagonista tem verdadeira obsessão pelas mulheres, a um passo da psicopatia, inclusive mentindo para ter acesso a elas. Como sempre, em todos os filmes de Truffaut, o filme tem bela direção de atores, ótima fotografia, a cargo do Mestre Nestor Almendros e trilha sonora de Maurice Jaubert. O roteiro tem verdadeiros diálogos que são pérolas, frases feitas proferidas pelo protagonista que trazem o sabor da paixão.
A última noite de Caire Darling
"La dernière folie de Claire Darling", de Julie Bertuccelli (2018)
A cineasta e roteirista francesa Julie Bertuccelli, que em 2003 lançou o seu primeiro filme, o comovente "Desde que Otar partiu", buscou em Ingmar Bergman e a sua obra-prima "Morangos silvestres"a base para o seu novo filme, "A última noite de Claire Darling". Reunindo na ficção e na vida real a relação mãe e filha, através da dupla Catherine Deneuve e sua filha Chiara Mastroianni, ou Claire e Marie. Assim como no filme de Bergman, uma idosa , Claire, começa a sofrer delírios que a remetem ao seu passado, através de flashbacks que ocorrem pelo olhar dos personagens, rebuscando memórias traumáticas de seu passado, envolvendo uma tragédia familiar e o fantasma eterno da Morte, que cisma em rondar a protagonista. Mesclando realidade e fantasia, Claire imagina estar diante do seu último dia de vida. Por isso, ela abre a sua mansão, onde mora solitária e de onde não sai há 20 anos, para vender todas as relíquias que fazem parte do acervo da casa. Vendendo a preço de banana, esse tumulto acaba atraindo o retorno de sua filha Marie, que saiu de casa há 20 anos, após ter sofrido distanciamento emocional por parte de sua mãe desde a morte do irmão e do pai de Marie.
O filme é ambientado em Verderonne, um pequeno vilarejo francês, e a fotografia faz questão de trazer uma atmosfera de eterno sonho, através dos olhares dos personagens. É um filme que lembra muito "Desde que Otar partiu", por falar de relação silenciosa entre familiares, dando ao ritmo do filme um espaçamento mais largo que filmes tradicionais. As atrizes estão excelentes, e é comovente ver Deneuve e sua filha Chiara em cena, com muita emoção.
A Batalha do Passinho - O Filme
"A Batalha do Passinho - O Filme", de Emílio Domingos (2012)
"As meninas das favelas gostam de quem tem Poder. Hoje em dia, quem tem Poder é Dançarino ou Traficante".
É com essa frase emblemática que o roteirista e cineasta Emílio Domingos dá o tom de seu segundo documentário ( o primeiro, "L.A.P.A", ele co-dirigiu com Cavi Borges.
O Passinho é uma dança que surgiu nas comunidades cariocas desde 2001, mas somente em 2008, com o vídeo do Youtube chamado 'Passinho foda" que o movimento explodiu com mais de 4 milhões e meio de visualizações. A partir desse vídeo, os dançarinos competiam via Youtube ou nos próprios bailes. Em 2011, o escritor Julio Ludemir e o músico Rafael Nike promoveram a primeira Batalha do Passinho entre Comunidades, no morro do Borel. O filme pega depoimento de dançarinos que ficaram famosos, como Cebolinha, Yuri Passista, Beiçola, Brayan Dancy, João Pedro, Pablinho, TK e Gambá. O Passinho tem predomínio dos homens, mas algumas mulheres se destacam, como Leandra Perfects.
Ver as cenas das Batalhas, com crianças pequenas competindo em pé de igualdade com veteranos, é emocionante. É nítida a felicidade dos concorrentes quando expressam na dança o desejo de querer ser alguém na vida e expor seu talento. Os dançarinos são vistos como vaidosos, vestindo grifes e cortes de cabelo estilosos. Alguns deles chegaram a ir no Programa do Xuxa na Globo. Muitos desejam fazer sucesso no Mundo, cientes do grande sucesso de seus vídeos que são consumidos na Internet. Nos depoimentos, os rapazes dizem que o assédio feminino é intenso.
O dançarino Gambá foi assassinado em 201 ao voltar de um Baile de reveillon. O Passinho é um momento de Alegria na vida desses moradores de comunidade que continuam vivendo sua rotina de violência de forma contundente.
O filme ganhou o Prêmio de melhor filme na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio em 2012.
quarta-feira, 31 de julho de 2019
Pequeno bosque
"Liteul poreseuteu", de Yim Soon-rye (2018)
Refilmagem de um longa japonês de 2 partes, que por sua vez, é uma adaptação de um mangá escrito por Daisuke Igarashi. A versão japonesa tinha quase 4 horas e se passava nas 4 estações. Nessa versão sul coreana, a protagonista, a jovem Hye-won (Kim Tae Ry, protagonista do drama "A criada") resolve voltar para a sua cidade natal, após um período de frustrações na Capital Seul: ela não passou para a faculdade e não está feliz com o trabalho, como atendente de uma loja de conveniência. Hye resolve passar o inverno em sua casa natal, e se reconecta com amigos, entre eles, a amiga Eun Sook e o amigo Jae Ha. Eun Sook está a fim de Jae Ha, mas acha que a amiga Hye Won está a fim dele também. Hye Won, por sua vez, está mais interessada em voltar às suas raízes e para isso, relembra de sua mãe, que está ausente. Quando criança , a mãe de Hye preparava comidas gostosas e enquanto comiam, conversavam sobre uma infinidade de coisas.
Belo drama light, "feel good movie", onde a preparação de comida e sua degustação são fatores determinantes para a pessoa ser feliz. Boa comida é sinônimo de felicidade. Bem dirigido, com linda fotografia e detlahes apetitosos da comida sendo preparada, o filme ainda tem o carisma do trio principal de atores.
Todos contra Léo
"Tout contre Léo", de Christophe Honoré (2002)
O Cineasta francês Christophe Honoré tem em sua filmografia, dramas com temáticas LGBTQ+, como "As canções de amor", "Conquistar, amar e viver intensamente", "Em Paris" e "Todos contra Léo", escrito pelo próprio Honoré, "Todos contra Léo" mostra uma adorável familia que mora na Bretânia, França. Um casal, donos de uma loja fotográfica, são pais de 4 filhos. Léo, o mais velho, tem 21 anos. Marcel, o mais jovem, tem 12 anos. Um dia, durante o café da manhã, Léo conta à sua família, com exceção de Marcel, que está com HIV. A maior preocupação de todos é que devem esconder de Marcel que Léo está doente. Mas Marcel escutou escondido. Quando Léo resolve ir à Paris para reencontrar seu ex, Marcel pede para ir junto. É a chance dos 2 irmãos aproximarem sua relação.
Sensível drama com ótimas interpretações, em destaque o pequeno Yaniss Lespert no papel de Marcel. O filme é visto pelo PV do menino, e por isso, o ritmo é contemplativo, lento. É um filme bastante delicado por conta de seu tema polêmico.
segunda-feira, 29 de julho de 2019
O ano em que eu perdi a cabeça
“Jahr des Tigers ”, de Tor Iben (2017)
Escrito e dirigido pelo Cineasta alemão Tor Iben, “O ano em que eu perdi a cabeça” é um drama erótico LGBTQ+ repleto de fetiches. Tom é um jovem introspectivo e rebelde, que junto de um amigo, vive assaltando residências. Tom coleciona máscaras e sempre as usa durante os assaltos e quando vai para encontros sexuais de aplicativos ou saunas gays. Durante um dos assaltos, ele conhece Lars, um professor boa pinta. Lars está dormindo, e Tom o observa. A partir desse evento, Tom passa a “stalkear” Lars, seu objeto de desejo.
Com muitos simbolismos, o filme é aperitivo para espectadores voyeurs, mas como dramaturgia é bem fraco. O desfecho é totalmente inverossímil e irritante. O protagonista não tem nenhum carisma e em nenhum momento a gente torce por ele.
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