quinta-feira, 27 de setembro de 2018
O homem perfeito
"O homem perfeito", de Marcus Baldini (2018)
Divertida comédia romântica que realmente faz rir com situações e diálogos ácidos e totalmente antenados com os novos tempos de combate ao machismo e empoderamento feminino. Tudo bem que as 2 personagens femininas, Diana ( Luana Piovani) e Mel ( Juliana Paiva) não conseguem viver sozinhas e estão em busca de seus parceiros ideais. Mas se não fosse isso, acabariam de vez as comédias românticas, não? Dinâmico, atores espertíssimos e em bons momentos, com bela fotografia de Marcelo Brasil. Um passatempo muito digno de muitas sessões da tarde.
Diana (Piovani) namora há anos com o nerd Rodrigo (Marco Luque). Chega uma hora que ela cansa da falta de ambição do namorado e o bota para fora de casa. Sozinha, ela percebe que sua vida era melhor com ele, mas aí, ao visualizar uma rede social, descobre que ele namora uma menina mais jovem, Mel, aspirante a bailarina profissional. Diana acaba sendo convocada pelo seu editor para escrever a biografia de um sertanejo mimado, Caique (Sergio Guizé). Os dois não se bicam, mas Diana acaba tendo uma idéia: se aproveitar de Caíque para usara rede social e provocar Mel, criando um perfil falso onde o avatar se diz apaixonado por ela. Mas os planos dão errado para todos os lados.
Com uma leve pitada de "Cyrano de Berjerac", o filme cumpre o que promete: diversão, risos, tudo de forma despretenciosa. Vale assistir!
terça-feira, 25 de setembro de 2018
Rosa Morena
"Rosa Morena", de Carlos Augusto de Oliveira (2010)
Primeira co-produção Brasil e Dinamarca, "Rosa Morena" pega emprestado a música de Dorival Caymmi e batiza uma história que fala sobre adoção aqui no Brasil.
Thomas ( Anders W. Berthelsen, em ótima atuação), é um engenheiro bem sucedido dinamarquês, que vem para São Paulo para visitar um amigo dinamarquês que se casou com uma brasileira (Viviane Pasmanter), que trabalha para uma Ong. Thomas revela que veio para tentar adotar uma criança brasileira, já que em sue País, ser gay e solteiro, dificulta bastante as possibilidades. Thomas conhece um advogado que oferece um serviço sujo de adoção, e ele recusa. Ao conhecer Maria (Barbara Garcia), uma jovem de comunidade, desempregada e alcóolatra, que está grávida, Thomas enxerga a possibilidade de negociar o bebê que está para nascer.
Finalizado em 2009, o filme nem chegou a ser lançado comercialmente no Brasil, tendo sido exibido na Mostra Internacional de cinema de SP. O que é uma pena: é um filme bastante decente, tecnicamente muito bom, que reúne um time de grandes profissionais do Brasil, e que fala em temas muito atuais. O filme fez muito sucesso em Festivais estrangeiros tendo ganho vários filmes. O filme carrega na dose do melodrama, mas para quem gosta de sentimentos extremados, é uma boa pedida.
O diretor e co-roteirista Carlos Augusto de Oliveira mora há mais de uma década na Dinamarca, e foi o mentor do projeto
Técnica de um delator
"Les doulos", de Jean Pierre Melville (1963)
Filme de gangster preferido de Martin Scorsese e de Quentin Tarantino, "Técnica de um delator" é uma obra-prima policial que tem um trabalho formidável de Direção, Roteiro e elenco, aliados à uma trilha sonora poderosa de Paul Misraki e de uma fotografia em preto e branco de Nicolas Hayer, que homenageia o CInema noir americano.
Acredito que esse roteiro tenha sido uma referência para que Scorsese realizasse o seu "Os infiltrados", por sua vez, remake de um filme chinês. O tema da fidelidade entre bandidos e a possível traição de um deles como informante da polícia, é a matéria prima desse filme complexo, que engana o espectador o tempo todo.
Maurice ( Serge Reggiani) é um bandido que sai da prisão após 6 anos de cadeia. Ele vai procurar um amigo que intercepta jóias roubadas e o mata, roubando dinheiro e as jóias. Em seu caminho, ele cruza com Sillein ( Jean Paul Belmondo), um parceiro do crime, mas que Maurice acredita ser informante da polícia.
A cena inicial do filme, com Maurice em longo plano-sequência caminhando por uma travessa, com certeza inspirou Tarantino no início de "Jackie Brown", com a protagonista andando em uma esteira rolante. Muitos virtuosismos de câmera, como a famosa cena de 360o dentro de uma delegacia, ou a bela cena final, debaixo da chuva, com uma fotografia incrível. O filme é essencialmente masculino, e às mulheres são relegados papéis secundários. existe uma cena que provavelmente, se o filme tivesse sido lançado hoje em dia, teria sido massacrada pela galera do politicamente correto: uma das mulheres sendo torturada. É uma cena forte, comandada por um Jean Paul Belmondo arrasador, 3 anos depois do seu mega sucesso em Acossado", de Godard.
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Sem data, sem assinatura
'No Date, No Sign", de Vahid Jalilvand (2017)
Absolutamente atordoado após a sessão desse filme multi premiado em diversos Festivais, incluindo os prêmios de melhor Diretor e Ator (Navid Mohammadzadeh, que interpreta o pai) na Mostra Horizonte do Festival de Veneza 2017.
O filme lembra bastante a filmografia de Asghar Farhadi, aclamado Diretor de "O apartamento"e "A separação;". São muitos pontos em comum: o cinema iraniano urbano, mostrando a classe média e a classe baixa lutando no dia a dia de uma cultura conservadora, religiosa e machista. A questão da culpa permeia totalmente o filme: pesa na consciência dos 2 protagonistas masculinos, e cabe às mulheres a serenidade para tentar refletir sobre os atos de seus companheiros.
Fiquei surpreso com a forma como o filme apresenta as personagens femininas: fortes, cheias de personalidade e lutando pelo seu espaço e sua voz.
Dr Kaveh é um médico legista de um Hospital Iml. Ao sair do trabalho, de noite, ele é fechado por um carro e acaba atropelando uma família que estava na moto. O menino de 8 anos se machuca, o medico pede pro pai levá-lo ao hospital. O pai quer chamar a polícia, mas o médico pede para que não, pois seu seguro está vencido e indeniza o homem com dinheiro. No dia seguinte, o menino aparece morto no hospital, e a autópsia diz que ele morreu de botulismo. Com o peso na consciência,a crente que o menino morreu por conta do acidente, o médico se mantém em silêncio. Porém essa sua atitude acarretará consequências trágicas para todos.
Com um roteiro primoroso, que vai levando o filme a um redemoinho de reviravoltas na trama, o filme se favorece também da Direção, do elenco fenomenal ( todos os 4 protagonistas estão formidáveis!) e da fotografia. existe um plano, visto pelo retrovisor, que é uma obra prima de concepção.
Outro momento inesquecível, é a cena do pai urrando do lado de fora, em luto pela morte do filho. Uma porrada no estômago, comparável ao grito em silêncio de Al Pacino em "O poderoso chefão 3".
Vermelho, branco e azul
"Red, white and blue", de Simon Rumley (2010)
Um dos filmes mais violentos e brutais a que eu assisti, não recomendo a ninguém ver, a não ser que não se incomode em ver uma menina de 10 anos ser torturada e esfaqueada, um rapaz ser escalpelado vivo e uma mulher ser mutilada e decapitada.
Esse filme inglês venceu vários prêmios em festivais de cinema de gênero, como o Fantasia, e é uma produção inglesa.
OS 3 atores principais dão um show de visceralidade, mas deve ter sido um pesadelo para todos eles terem feito o filme.
Erica é uma mulher que perambula pelas noites de bar em bar, flertando com homens e transando com eles, sem uso de camisinha. Nate é um ex-veterano da guerra do Iraque, e procura um emprego na cidade. Franki é um jovem guitarrista de uma banda de rock, e cuida de sua mãe, que está com câncer. Essas 3 histórias se cruzam de forma aterrorizante.
As histórias se entrecruzam, até chegar ao terço final, quando tudo converge. Atenção: somente assista se você tiver visto "Martyrs", um filme com cenas de violência semelhantes. é um filme realista, não é como "Jogos mortais", que é tudo fantasioso.
Para fazer perder noites de sono.
domingo, 23 de setembro de 2018
O samurai
"Le samourai", de Jean Pierre Melville (1967)
Um dos filmes preferidos de Tarantino, essa obra-prima de 1967 é uma adaptação do livro de Joan Mcleod. Primoroso em todos os seus quesitos técnicos: roteiro, fotografia em tons acizentados de Henri Decaë, trilha sonora jazzística de François de Roubaix , montagem vigorosa de Monique Bonnot e Yolande Maurette e o talento magnético de Alain Delon , em mais um de seus personagens antológicos, depois de "O sol por testemunha" e de dois clássicos de Visconti, "Rocco e seus irmãos"e O leopardo".
Jean Pierre Melville era um grande apaixonado pelo cinema americano e sua linguagem, especialmente o cinema noir, que ele homenageia espetacularmente aqui. Melville foi contra a corrente dos cineastas da Nouvelle Vague, que estavam em busca de novas linguagens e o movimento estava tomando conta da França.
Alain Delon interpreta Jef Costello, um assassino de aluguel que mora sozinho em um cafofo, junto de seu passarinho, preso em uma gaiola. Jef segue a regra dos samurais, sempre de forma meticulosa e solitária. No entanto, ao cometer seu próximo assassinato, ele é visto por uma testemunha, uma pianista de um bar. Jef é preso como suspeito, mas logo em seguida, solto. Tanto a polícia quanto os criminosos que o contrataram estão em sue encalço.
O filme é repleto de cenas antológicas, entre elas, 2 de destaque: a perseguição no metrô, ao final; e a brilhante cena de 2 policiais grampeando o seu apartamento. essa cena é uma aula de montagem e edição de som: silenciosa, apenas com o pio do passarinho como fundo sonoro, é uma cena bastante tensa.
Alain Delon representa aquele assassino elegante, bem vestido, frio e meticuloso, que apaixona as mulheres.
Confesso que eu jamais havia ouvido falar desse filme, e somente tomei conhecimento após assistir ao documentário de Bertrand Tavernier, onde ele homenageia o cinema francês: "O cinema através do cinema francês".
Obrigatório!
Dogman
"Dogman", de Matteo Garrone (2018)
Realizador dos premiados "Gomorra" e "Reality", Matteo Garrone ganhou inúmeros prêmios por "Dogman", incluindo Melhor ator em Cannes ( para Marcello Fonte) e Palma de ouro para o elenco canino.
O filme narra a história de Marcello, dono de uma pet shop em um bairro pobre de periferia. Sem amigos, Marcello vive da companhia dos cães que ele toma conta. Separado de sua esposa, Marcello recebe constantemente visitas de sua filha, a quem ele promete uma viagem. Sem dinheiro para cumprir sua promessa, Marcello se deixa seduzir por Simone, um marginal brutamontes da região, temido por todos. Marcello vende pequenas quantidades de cocaína para ganhar dinheiro extra, e Simone é grande consumidor. Simone convida Marcello para um roubo, mas as coisas terminam mal.
Brutal, é um filme extremamente violento, lembrando os primeiros filmes de Tarantino, como "Cães de aluguel"., com longas cenas de tortura. Marcello Fontes interpreta de forma genial o protagonista, alternando momentos de delicadeza com brutalidade. Edoardo Pesce, no papel de Simone, também está antológico, com um personagem bastante complexo, baseado muito em sua extrema forma física, mas também em seu silêncio e olhar carrancudo.
Bela fotografia de Nicolai Brüel, em tons escuros, trazendo uma atmosfera de pesadelo para as cenas noturnas.
A cena de Marcello tentando reavivar um cachorro congelado pelos bandidos é antológica e angustiante.
Viagem através do Cinema francês
"Voyage à travers le cinéma français", de Bertrand Tavernier (2016)
Exibido em importantes Festivais internacionais, como Cannes e San Sebastian, "Viagem através do Cinema francês" é um ambicioso documentário de 3:30 horas de duração, dirigido por um dos Cineastas franceses mais premiados do mundo, Bertrand Tavernier. Tavernier dirigiu alguns clássicos, como "Por volta da meia noite" e "Um sonho de domingo". Nesse documentário roteirizado por ele, ele passa a limpo Cineastas, compositores e atores que fizeram a sua formação cinematográfica. Não esperem o Cinema francês passado a limpo. Tavernier foi bem meticuloso, e citou apenas poucos profissionais da filmografia francesa.
Os Cineastas Jacques Becker, Jean Renoir, Marcel Carné, Jean Pierre Melville, Claude Sautet, François Truffaut, Jean Luc Godard, Jean Vigo, Jean Sacha; o compositor Maurice Jaubert, e os Atores Jean Gabin e Eddie Constantine, famoso com o detetive Lemmy Caution, depois homenageado em "Alphaville", de Godard.
O filme , diferente de documentários de cinema, como o de Scorsese, tem um ponto de vista extremamente pessoal. Tavernier fala da importância desses técnicos, e também cita relatos curiosos, como a péssima fama de Melville, que destratava equipe e elenco, ou o estrelismo de Jean Gabin, considerado um Ator de caracterização.
O filme obviamente será melhor apreciado por Cinéfilos apaixonados pelo Cinema francês. Eu mesmo conheço muito pouco da quase centena de filmes citados aqui, principalmente os da década de 30 a 50.
Tavernier conta como o cinema foi importante na sua infância, para fugir do sofrimento da 2a Guerra mundial. e por conta da falta de alimentos, ele acabou contraindo desnutrição e teve um problema de visão.
O documentário foi criticado por algumas pessoas por somente apresentar filmografia de Cineastas homens, deixando um espaço ínfimo para Agnes Varda. O próprio Tavernier prometeu que caso realize outro documentário sobre o cinema francês reservará mais espaço para as Cineastas.
sábado, 22 de setembro de 2018
Noite de Terror
"Black Christmas", de Bob Clark (1974)
Clássico cult de terror de 1974, considerado como o precursor do "Slasher"nos Estados Unidos. "Halloween", de John Carpenter havia sido concebido para ser uma continuação desse filme, mas logo depois o próprio Carpenter desistiu da idéia.
O elenco do filme conta com as participações de Olivia Hussey
( "Romeu e Julieta", de Zefirelli), Kir Dullea ( "2001, uma odisséia no espaço") e Margot Kidder ( Lois Lane de "Superman").
Totalmente rodado no Canadá, o filme foi dirigido por Bob Clark, que uma década depois, ficaria famosos por rodar a comédia erótica "Porky's".
Em uma casa, moram várias estudantes da Universidade. Elas comemoram o Natal, enquanto um serial killer se instala na casa delas. Uma a uma vai sendo assassinada, e o corpo, escondido. As garotas pensam que as colegas desaparecidas foram embora, mas logo a polícia procura investigar o sumiço, mas ninguém se dá conta de que o assassino está na própria casa.
Diferente dos outros slashers, "Noite de terror' investe na dramaturgia. As protagonistas são independentes, e a protagonista, Jess, discute com o seu namorado porquê ela quer abortar.
As cenas de morte não são gráifcas como os filmes que vieram a seguir. Mas é um filme bastante curioso, pois seus diálogos são bastante explícitos, quando o assassino faz ligações telefônicas, ela cita coisas que fariam Hilda Hildst ficar com vergonha.
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
Halloween- A noite do terror
"Halloween", de John Carpenter (1978)
O maior sucesso comercial de toda a filmografia do Mestre do terror John Carpenter ( custou 300 mil dólares e rendeu 70 milhões), é também considerado um dos melhores filmes do gênero em toda a história do cinema.
Tem críticos que o consideram o precursor do "Slasher", enquanto outros creditam a "Noite do Terror"(Black Christmas), de 1974, como o filme que deu origem aos filmes com Serial Killers em cenas de assassinatos explícitos, com requintes de crueldade. No Cinema italiano, desde os anos 60 já existia o "Giallio", graças aos filmes de Mario Bava, Dario Argento, que exageravam nas mortes e ainda traziam doses fartas de erotismo. Os americanos censuravam o sexo, tanto que virou cartilha que todo casal que faz sexo, morria na sequência.
Não tem como negar que uma das grandes referências de "Halloween" vem de "Psicose": a casa assustadora, a facada no início do filme que remete à cena do chuveiro e também a escadaria. A atriz Jamie Lee Curtis é filha de Janet Leigh, protagonista de Psicose". A máscara do assassino Michael Meyers, lembra muito o semblante de Norman Bates no final, aquele olhar totalmente sem emoção e frio.
Em 1963, na cidade de Haddonfield, na noite de Natal, o então garoto Michael Meyers assassina sua irmã mais velha, sem motivo aparente. 15 anos depois, ele escapa do sanatório, e retorna à cidade, dessa vez para aterrorizar os habitantes, entre eles, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), babá de Tommy, e que na noite de Halloween precisa cuidar do menino. O psiquiatra Dr Loomis ( Donald Pleasence) , que cuidava de Michael, vai ao seu encalço, para evitar que ele mate mas pessoas.
"Halloween" é uma verdadeira cartilha de como criar tensão e suspense. Todos os filmes posteriores copiaram as suas formulas, inclusive duas que odeio, mas que entendo que faz parte: o assassino que anda a passos lentos, ao invés de correr; e quando a heroína acha que matou o vilão e fica ali, plantada sem fazer nada.
Não dá para falar do filme sem citar a excelente trilha sonora , composta pelo próprio John Carpenter, que compôs um tema absolutamente assustador.
Sempre revejo o filme, que teve 7 continuações, incluindo um reboot dirigido por Rob Zombie. Em 2018, foi lançado um novo filme, produzido por John Carpenter, que ignora totalmente as continuações e segue do filme original.
Takara- A noite em que eu nadei
"Takara - La nuit où j'ai nagé", de Kohei Igarashi e Damien Manivel (2017)
Há tempos eu não assistia um filme tão minimalista como esse aqui, talvez apenas em filmes iranianos, como "O balão branco". A premissa do filme pode ser contada em apenas uma linha, e durante os quase 80 minutos do filme, sem diálogos, acompanhamos um menino de 6 anos que, saudoso do pai, vai em sua busca, fugindo da escola e tentando encontrar o local do trabalho dele.
Takara ( o personagem e o ator mirim têm o mesmo nome) todo dia acorda com o barulho do carro do seu pai, que sai de madrugada pro trabalho, no mercado de peixe. Ao sair de casa com sua irmã para a escola, ele decide sair pelas estradas repletas de neve e perambular pela cidade. O filme é repleto de pequenos momentos , quase um documentário. Bastante melancólico, o filme faz um retrato de certa forma fria e cruel da sociedade japonesa, da falta de compaixão e de comunicação entre as pessoas. O menino de 6 anos vaga pelas ruas o dia todo, e simplesmente nenhum adulto estranha a solidão do menino.
Como uma fábula, o filme começa com "As quatro estações de Vivaldi", fazendo a junção entre as culturas ocidental e oriental
(assim como a dupla de cineastas, um japonês e um francês). O ritmo é bastante lento, e pode aborrecer espectadores menos acostumados com um cinema mais contemplativo. Linda fotografia e o pequeno Takara é um colírio para os olhos, uma fofura total.
O filme foi exibido no Festival de Veneza 2017.
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
7 dias em Entebbe
"Entebbe", de José Padilha (2018)
A história real do sequestro de um avião no ano de 1976, que partiu de Telaviv com destino a Paris, rendeu vários filmes, sendo o mais famoso com Charles Bronson. O Cineasta José Padilha, que realizou os sucessos "Tropa de elite" e "Robocop", investe em mais uma versão da história, com um elenco internacional, encabeçado pelo alemão Daniel Brühl e pela inglesa Rosamund Pike, interpretando 2 dos 4 terroristas favoráveis à libertação da Palestina após a criação do estado de Israel em 14 de maio de 1948.
Esses 4 terroristas ( 2 alemães e 2 palestinos) sequestraram o avião e o levaram até Entebbe, na Uganda, dominada pelo ditador Idi Amin. Israel se recusou a negociar com os terroristas e acabou invadindo o local.
Padilha chamou seu parceiro da fotografia, Lula Carvalho, e na trilha sonora convocou Rodrigo Amarante, ex-integrante do grupo Los Hermanos. O filme tem mais drama do que ação, e seu ritmo é dado mais pela trilha do que pela montagem em si
(a montagem é de Daniel Rezende). O filme não me empolgou, talvez porque eu estivesse esperando mais ação, algo como "Munique", de Spielberg. Também não curti as inserções de dança contemporânea, uma metáfora da relação dos soldados e do conflito em si. O que valeu a pena no filme, foi botar os 2 lados da mesma moeda como vilões e mocinhos. Num jogo onde a Paz é o prêmio, todos saem perdendo pela intolerância.
Venus
"Venus", de Eisha Marjara (2018)
Longa de estréia da documentarista e curta-metragista canadense Eisha Marjara, que também escreveu o roteiro.
Essa comédia dramática conta a história de Sid, uma transgênero que está a um passo de fazer a cirurgia de mudança de sexo. De família repressora indiana, Sid descobre que tem um filho de 14 anos, fruto de sua relação com Kirsten, sua ex-colega de faculdade com quem teve um casal antes de decidir virar uma mulher. Em princípio Sid renega o menino, mas aos poucos vai se encantando com a sagacidade do menino. Sid também precisa lidar com o medo de seu namorado, Daniel (Pierre-Yves Cardinal, que interpretou um homofóbico em "Tom na fazenda") de assumir o romance deles em público.
Delicado, realizado com muito carinho ( é visível o amor com que a diretora Eisha Mariara lida com seus protagonistas), "Venus) diverte e emociona, em uma comédia de costumes com mais momentos dramáticos do que cômicos. O filme apresenta bem o drama de Sid, que sofre de todos os lados: seus pais, o namorado, o filho, a ex-mulher, todos a pressionam, deixando Sid totalmente desbaratado. Com excelente performance de Debargo Sanyal, no papel de Sid, é um filme antenado com os novos tempos de família nuclear, discutindo temas tabus.
Bela fotografia e muitos momentos emocionantes.
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
Gente de bem
"The land of steady habits", de Nicole Holofcener (2018)
Adaptação do romance de Ted Thompson, "Gente de bem" foi adaptado pelo próprio e também pela Diretora Nicole Holofcener. O filme é um drama familiar, e tem como protagonista Anders (Ben Mendelsohn), um homem que acabou de completar 60 anos e por conta disso, resolveu pedir divórcio, sair de casa, abandonando mulher e filho. Anders também pediu demissão do trabalho e passa o dia tentando decorar a sua casa, na verdade, uma forma de ocupar o seu tempo ocioso. Carente emocionalmente, ele transa com diversas mulheres, mas não se esquece de sua ex-esposa, que está namorando. O filho de Anders, Preston, tem um péssimo relacionamento com seus pais e com a vida. Anders resolve tentar reatar com a ex e com o filho.
Com algumas pitadas mínimas de humor, "Gente de bem' procura fazer um retrato da família americana de classe média suburbana totalmente looser, um tema muito comum ao drama independente americano. Mas aqui acho que faltou carisma aos personagens. Achei todos sem sal, apáticos, não me envolvi com nenhum deles. A gente assiste ao filme, quebra o galho, mas não emociona. "A pequena Miss Sunshine" ou o filme "Amizades improváveis' tratam do mesmo tema de forma absolutamente encantadora.
Limites
"Boundaries", de Shana Feste (2018)
Sensível e simpática comédia dramática do gênero Road Movie", o famoso "feel good movie". onde o espectador ri, se emociona e chora um pouquinho no final da sessão.
O Road movie é uma espécie de muleta para o roteirista criar situações de reconciliação entre parentes, uma estrutura já bem manjada, mas que particularmente, eu gosto muito.
Vera Farmiga, protagonista da franquia "A invocação do mal", interpreta Laura, uma mulher abandonada pelo marido e vice com seu filho problemático, Henry ( Lewis MacDougall, de "Sete minutos depois da meia noite"). Carente, ela recolhe animais na rua e traz para casa. Precisando de dinheiro para pagar uma escola especial para Henry, Laura liga para o seu Pai, Jack (Christopher Plummer), internado em uma asilo para idosos e que acabou de ser expulso de lá porque plantava maconha para revender. Há anos sem se falarem, ele topa dar o dinheiro, com a condição de levar levá-lo até San Francisco. Laura topa, e leva seu filho junto, mas ignora o real motivo de seu pai fazer a viagem.
Todo o elenco está bastante carismático: Farmiga, Plummer, o menino, e também o ótimo elenco de apoio, composto dos veteranos Christopher Lloyd e Peter Fonda. O roteiro e a direção de Shane Feste funciona a contento: nada inovador, mas cumpre sua missão de contar uma boa história com emoção.
terça-feira, 18 de setembro de 2018
A primeira noite do crime
“The first purge”, de Gerard McMurray (2018)
Prequel do grande sucesso de 2013, “ A Noite do crime”, com Ethan Hawke, e que depois gerou mais 2 continuações, foi também escrito pelo mesmo Diretor dos outros filmes, James DeMonaco, porém a função da Direção coube a Gerard McMurray.
Esse filme veio repleto de postura anti-Trump: diferente dos filmes anteriores, onde os assassinatos podiam ocorrer com qualquer indivíduo, sem distinção de raça, sexo ou classe social, em “ A primeira noite do crime”, o alvo são os negros e os latinos. Os brancos, em sua totalidade, são os vilões da história, incluindo um grupo da Klu Klux Khan.
O mais curioso e ousado do roteiro, é que ele é politicamente incorreto: o mocinho do filme é um traficante de drogas. A gente acaba torcendo para que ele e sua gangue de mal encarados e traficantes matem todos os homens brancos que surgem na frente deles, afinal, os caucasianos são muito, muito malvados.
O filme fala sobre a decadência do Governo americano: desemprego em massa, muitas dívidas, população violenta, crescimento de imigrantes e da população pobre, basicamente negros e latinos. O governo decide fazer um experimento, restrito apenas à região de State Island, em Nova York, uma área notoriamente pobre: a população, durante 12 horas, poderá matar quem ela quiser, sem sofrer qualquer tipo de punição. Tem gente que é contra e outros não entendem direito, então o governo decide dar 5 mil dólares a cada cidadão que permanecer no local durante essa noite.
O filme é até bem dirigido, com boas cenas de ação e efeitos, além de um ótimo elenco de atores negros. Mas para quem é fã da franquia, esse filme vai ser considerado dos mais fracos, justamente porquê ele sai da premissa do filme original, e acabou se transformando mais em uma crítica social do que um filme de terror, que era a base do original. Aqui prevalece as cenas de ação, dos justiceiros à la Bruce Willis e Stallone, que resolvem se armar e sair pipocando tiros para salvar seus entes queridos.
Li que agora a franquia vai se transformar em seriado. Vão ter que tirar leite de pedra para sustentar um mote que já está mega batido.
Uma criatura gentil
"Krotkaya", de Sergey Loznitsa (2017)
Pegando emprestado o título de uma obra do escritor russo Fiódor Dostoiévski, o filme "Uma criatura gentil" não é adaptação do conto. Concorrendo no Festival de Cannes em 2017, o filme é uma metáfora contra o Governo do Presidente Putin. Eu poderia até dizer que é quase que uma versão russa do clássico "Brazil, o filme", de Terry Gillian. Uma forte crítica ao Governo, à burocracia do estado, às tentativas fracassadas do Herói de poder cumprir a sua missão.
Uma mulher ( a protagonista não tem nome, e é creditada como "Uma criatura gentil") mora no interior sozinha, pois seu marido foi acusado de um assassinato e está preso em uma penitenciária na Grande cidade. Pobre, ela manda pelos correios constantemente, uma caixa com roupas e comida para ela. Um dia, ela recebe de volta a última remessa de caixa. Intrigada pela devolução, e sem notícias de seu marido, ela decide juntar dinheiro e ir até a penitenciária. Ao chegar lá, ela é confrontada com uma máfia de todo tipo de gente, que tenta lhe extorquir dinheiro para entrar na prisão, para poder dormir uma noite em uma pensão, que tenta lhe roubar a caixa de provisões do marido. Funcionários burocratas e mal humorados, uma legião de prostitutas que moram na cidade para atender aos visitantes do presídio, cafetões, bandidos, etc. A mulher tenta, em vão, lutar contra todo esse sistema.
Com inacreditáveis 150 minutos de duração, o que torna a experiência de assisti-lo um ato praticamente heróico do espectador, e também com um ritmo extremamente lento, "Uma criatura gentil' tem uma performance vigorosa da protagonista e também um ótimo time de atores fazendo os inúmeros personagens secundários. O diretor Sergey Loznitsa se apropria de planos longos para contar a sua história, que tem um ato final alegórico, quase uma encenação do cineasta Emir Kusturica, com os seus excessos e ambiente quase carnavalesco e bufônico. O que mais gostei no filme, foi que em muitas cenas, a narrativa começa com personagens que não fazem parte da história, fazendo algum tipo de comentário social e político, e daí, a câmera vai até a protagonista, mostrando que ela é testemunha desses registros, como se ela fosse o espectador. Um recurso bem interessante.
Luna
"Luna", de Cris Azzi (2018)
Após o grande sucesso de crítica de "Ferrugem", de Aly Muritiba, mais um filme nacional expõe o mesmo tema do bullying e do vazamento de vídeo íntimo de uma jovem estudante trazendo consequências trágicas para os envolvidos.
Produção mineira, o Cineasta e roteirista Cris Azzi realiza o seu primeiro longa de ficção, após ter realizado documentários e de ter trabalhado em mais de 20 Longas como Assistente de direção, entre eles, dos diretores Karin Ainouz e Sergio Rezende.
Luana é uma jovem de classe média baixa, que mora na periferia junto de sua mãe. Ela vai começar um novo ano letivo, e no primeiro dia de aula, ela conhece Emília, uma jovem de família rica. As duas criam forte laço de amizade. Um dia, elas brincam na internet, e se expõem uma para outra, nuas (Luana usa o nick "Luna" na web). Esse vídeo acaba sendo roubado e é espalhado por todos na escola.
Minimalista, o filme traz performance naturalista do elenco. Eduarda Fernandes e Ana Clara Ligeiro, Luana e Emília no filme, são estudantes de interpretação que acabaram ganhando os papéis. O filme tem um ritmo lento, e uma cena que correu o risco de parecer tosca ( a cena do delírio de Luana). Mas os temas propostos por Cris no filme acabam superando eventuais deslizes: a sororidade, o emponderamento feminino, o machismo, o bullying, a ausência de um núcleo familiar, o assédio sexual e moral. Na sessão que eu fui, a platéia aplaudiu em êxtase a cena final.
O fotógrafo Luis Abramo traz uma bela luz ao filme, melancólica, e sua câmera em alguns momentos faz lembrar "Elefante", de us Van Sant, explorando o ambiente da escola através do personagem, com a câmera colada em seu ombro.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Seu amor ferve a água do banho
"Yu wo wakasuhodo no atsui ai", de Ryôta Nakano (2016)
Nossa, chorei cem mil litros assistindo a esse fabuloso drama japonês, indicado pelo Japão para concorrer à uma das vagas dos finalistas ao Oscar de filme estrangeiro em 2018.
O filme é representante de um gênero japonês chamado "Hahamono", ou filmes de mães. Assim como "A partida", filme japonês que ganhou o Oscar em 2009, o drama fala sobre morte, desapego, abandono familiar, casa de banhos e redenção. Temas caros ao cinema japonês, que sempre abraçou o melodrama e o sentimentalismo, sem medo de aparentar pieguice.
Futaba (Rie Miyazawa) vice com sua filha adolescente Azumi em um bairro classe média de Tokyo. Ela trabalha como vendedora, e possui uma casa de banhos da família, que está desativada desde que seu marido foi embora. Futaba é uma mulher que ajuda a todos, e quer que sua filha saiba lutar com as adversidades da vida, principalmente contra o bullying que ela sofre na escola. Um dia, ao fazer exames, Futaba descobre estar com câncer terminal. Ela decide então que antes de morrer, ela precisa fazer algumas coisas: tornar Azumi uma mulher independente; descobrir o paradeiro de seu ex-marido, para que ele cuide de Azumi; reabrir a casa de banhos; e por último, um segredo que poderá mudar o rumo de sua vida.
Lindo, com excelente e delicada direção de Ryota Nakano, o filme atinge níveis de encantamento e melancolia que farão o espectador se debulhar em lágrimas tal a beleza dos diálogos, das imagens e principalmente, do talento de todos os atores envolvidos. É um filme de alma feminina, com protagonistas mulheres cativantes, de várias gerações. O diretor evita a pieguice apresentando um trabalho sutil, e os atores, em pleno estágio de naturalismo. Que beleza as duas atrizes principais, Rie, no papel de Futaba, e Hana Sugisaki, no papel de Azumi. Destaque também para a pequena Aoi Itô, no papel de Ayuki, a outra filha do ex-marido, e Joe Odagiri, no papel de Kazuhiro, o ex-marido, sempre aparentemente apático, mas de uma profunda tristeza interna.
domingo, 16 de setembro de 2018
O confeiteiro
"The cakemaker", de Ofir Raul Graizer (2018)
Filme de estréia do roteirista e cineasta israelense Ofir Raul Graizer, foi o filme selecionado para representar Israel como uma das finalistas para o Oscar de filme estrangeiro em 2019.
Filmado com extrema delicadeza, esse drama poderoso fala sobre Perda e depressão. Thomas, alemão, e Anat, Judia, estão de luto pela mesma pessoa. Oren era ao mesmo tempo amante de Thomas, e marido de Anat. Durante um ano, Oren ia para Berlin à negócios, e numa das idas até um CAfé, conhece o confeiteiro de lá, Thomas, por quem se apaixona e tornam-se amantes por 1 ano. Um dia, Oren volta para Jerusalém e não retorna mais. Preocupado, Thomas vai procurar saber o que aconteceu e descobre que Oren morreu em um acidente de carro. Desolado e sem sentido para continuar vivendo, Thomas resolve ir até Jersusalém, para descobrir um pouco mais sobre Oren. Ele vai até o café de Anat e se oferece para trabalhar lá de confeiteiro. O cunhado de Anat e outros judeus olham Thomas com preconceito, pelo fato de ele ser alemão e preparar doces na cozinha Kosher do café de Anat. Mas aos poucos, os 2 universos se aproximam, amparados pelo luto e pelo significado do amor, independente de gênero e cultura.
A culinária geralmente é utilizada nos filmes para aproximar pessoas que de certa forma, possuem diferenças. Comida=Amor = tolerância. foi assim em "Como água para chocolate", "A festa de Babette", "Chocolate". Todo o filme é bastante bonito, o diretor conduz tudo com bastante elegância. Os 2 atores principais, Kalkhof e Sara Adler, estão sublimes, e nos momentos de silêncio de seus personagens, contundentes.
O filme reserva uma surpresa no roteiro no terceiro ato, o que comove ainda mais o espectador.
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