quarta-feira, 18 de setembro de 2019
The Strange Thing About the Johnsons
"The Strange Thing About the Johnsons", de Ari Aster (2011)
Aos 24 anos de idade, o Cineasta Ari Aster, mais conhecido como o diretor de dois clássicos do moderno cinema de terror, "Hereditário" e "Midsommar", realizou o seu filme de formatura da American Film Institute da California. Em 2011, "The Strange Thing About the Johnsons" viralizou e se tornou um filme amado e odiado, e quem não gostou, exigiu o seu banimento.
é muito fácil observar elementos no filme que futuramente, Ari Aster iria se aprofundar em seus dois longas: o tema da família desestabilizada psicologicamente, o terror que vai consumindo dessa relação familiar e principalmente, um tema complexo e que renderia muitas sessões de terapia- O incesto entre pai e filho.
Uma família de classe média alta afro americana vive em uma bela mansão no subúrbio. O filme começa com um prólogo: o famoso poeta Sidney Johnson (Billy Mayo) entra no quarto de seu filho de 12 anos, Isaiah (Brandon Greenhouse), e o flagra se masturbando. Sidney conversa sobre essa fase d avida de um adolescente e vai embora. Isaiah retira uma foto que tinha em suas mãos: ele se masturbava olhando a foto de seu pai, sem camisa. 14 anos se passam: Isaiah agora está casado, mas continua obrigando o seu pai a manter relações sexuais com ele, inclusive o espancando quando ele não quer. Joan (Angela Bullock), esposa de Sidney flagra os 2 tendo relações sexuais e fica chocada, mas prefere se manter calada. O filme tem um desfecho sanguinolento, como na sobras de Ari Aster. Ele desenvolve toda a estrutura dramática nos 2 primeiros atos e no final, explode em sangue e violência.
Para pessoas sensíveis, não é fácil assistir ao filme. É perturbador, doentio. Os 3 atores estão soberbos, e a direção de Ari evoca "Hereditário": tudo acontece ali nos interiores da mansão, com traveliings lentos desvendando os segredos da casa.
Ari prova de que um bom Cineasta precisa ter um bom roteiro para poder construir a sua carreira, sem medo de ser feliz.
Chucuarotes
"Chicuarotes", de Gael García Bernal (2019)
O Ator mexicano Gael García Bernal dispensa apresentações: o mundo inteiro o conhece de filmes de Almodovar, Inarritu, Babenco e tantos outros Cineastas consagrados.
Como Cineasta, 'Chicuarotes" é o seu segundo longa, exibido em importantes Festivais, como Cannes, Shanghai e San Sebastian. É inegável que as obras que ele filmou como ator tiveram influência nas suas colhas como realizador: seus filmes falam em conflitos sociais e econômicos, e de que forma influenciam a população da periferia.
Chicuarotes é o nome dado aos moradores de San Gregorio Atlapulco, bairro na região de Xochimilco, periferia da grande Cidade do México. Ali moram milicianos, vagabundos, favelados, desempregados. Nesse ambiente de extrema pobreza, moram os amigos adolescentes Cagalera (Benny Emmanuel) e El Moloteco (Gabriel Carbajal), que tentam ganhar a vida se apresentando em ônibus como Palhaços. Revoltados com o povo que não lhes dá trocado, resolvem assaltar os passageiros. O sonho de Cagalera é ter dinheiro o suficiente para fugir da cidade com a sua namorada Sugahelli. Em casa, o ambiente é o pior possível: sua mãe vive apanhando do seu pai, um miliciano bêbado. A irmã não tem ambições na vida e eu irmão é um gay enrustido. Após uma tentativa frustrada de assalto a uma loja, Cagalera faz seu ultimato: sequestra o filho do açougueiro da cidade. Mas o açougueiro bota todos os milicianos em busca do filho.
Com roteiro escrito por , "Chucuarotes" exagera em todas as suas doses, concentrando em um único filme praticamente todas as mazelas do mundo. São tantas as sub-tramas e personagens que mal dá para desenvolver uma que é muito importante, a do irmão gay enrustido. Fica tudo meio jogado pro alto, um carrossel de lugares comuns já apresentados em filmes com o italiano "La ciambra", os brasileiros "Pixote" e "Cidade de Deus", o mexicano "Os esquecidos" e tantos outros exemplares.
De excelente, o ótimo trabalho do elenco, em especial a de Dolores Heredia, que interpreta a mãe de Cagalera, e a trilha sonora pop vintage.
O Grande Ditador
"The great Dictator", de Charles Chaplin (1940)
Difícil citar a maior das obras-primas de Chaplin, mas "O Grande Ditador" certamente está entre os seus 3 melhores trabalhos. Chaplin escreveu, dirigiu, protagonizou, produziu e compôs a trilha sonora do filme, até hoje a sua maior bilheteria.
O Mais impressionante, revendo o filme, é confirmar a genialidade de Chaplin, que escreveu o roteiro ainda no ano de 1939, quando a 2a Guerra Mundial tinha acabada se dar início, e os Estados Unidos ainda nem haviam entrado na Guerra. Uma sátira impiedosa contra o Fascismo e Nazismo, Chaplin debocha de Hitler e Mussolini, que na época eram os grande Ditadores do Mundo. "O Grande Ditador" foi banido de exibição em todos os países nazistas. Recebeu 5 indicações ao Oscar, incluindo Melhor filme e ator, e perdeu todas.
Muitos Cinéfilos nunca assistiram ao filme, mas certamente duas cenas devem ter visto em antologias de melhores filmes de todos os tempos: a cena de Chaplin brincando com o Globo flutuante, uma metáfora aterrorizante sobre o Poder, e a cena final, com o seu discurso anti-belicista, considerado por muitos estudiosos como um discurso à favor do Comunismo ( Chaplin foi comunista e perseguido pelo Governo americano).
O filme começa durante a 1a Guerra Mundial. Chaplin é Carlitos, um soldado e durante a batalha, ele salva a vida de um soldado aliado, Schultz. Ao pilotar o avião, Carlitos acaba batendo e perde sua memória, enquanto Schultz é condecorado. Quase 20 anos depois, Chaplin retoma a memória e volta à sua barbearia, no gueto judeu da Tomania (uma alusão à Alemanha). O País cedeu ao nazismo, liderado pelo Ditador Adenoid Hynkel ( também Chaplin, uma alusão à Hitler). Schultz agora é Comandante e trabalha para Hynkel, apesar de ser contra os seus ideais de Poder. Após ser esnobado por um banqueiro judeu, Hynkel decide destruir o gueto judeu. Chaplin, agora dono de barbearia, se apaixona pela filha do vizinho, a jovem Hannah (Paulette Godard, esposa de Chaplin na época). Schultz é preso e foge, e vai parar no gueto, sendo ajudado por Carlitos.
"O Grande Ditador" é o primeiro filme falado de Chaplin, que levou muitos anos para ceder ao uso do som. Ele temia que seus fãs fossem se assustar com Carlitos falando, mas felizmente esse temor não aconteceu. Até hoje, o filme é considerado uma das melhores comédias da história do cinema, tendo uma cópia preservada no American Film Institute.
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Alemanha no Outono
"Deutschland im Herbst", de Werner Rainer Fassbinder, Volker Schlöndorff e mais 9 Cineastas (1978)
Poderoso drama documentário dirigido pelos mais importantes Cineastas alemães dos anos 70, todos ativistas políticos. Assistir a esse filme nos dias de hoje, do Brasil de 2019, é algo aterrorizante. É fácil perceber os paralelos entre os discursos polarizados Direita X Esquerda, e o que o filme propõe é uma ampla discussão sobre verdades, valores , a importância do Estado e de grupos combatentes do Governo. O filme provocou muita polêmica na época pela posição extremamente radical tomada por Fassbinder, que defende no filme a posição de ataques terroristas, validando os seus atos. Volker Schlöndorff se desentendeu na época com Fassbinder por não concordar com o seu pensamento radical.
“Quando se chega a um determinado grau de crueldade pouco importa quem a cometeu: ela simplesmente tem de parar”. Identificada como a frase Frau Wilker, mãe de cinco filhos em 8 de abril de 1945, logo após o término da 2a Guerra, essa frase simboliza a proposta do filme.
Dividida em pequenos curtas, cenas documentais e vinhetas animadas, o filme é um primor de realização. É um filme complexo, de difícil assimilação, pois existe uma discussão política e intelectualizada intensa durante toda a projeção, merecendo até ser convertida em peça de teatro.
O ponto de partida para o filme, são os terríveis acontecimentos políticos e sociais que afloraram na Alemanha de 1977, conhecido como "Alemanha no Outono: o clímax, após o sequestro de um avião, foi o sequestro e assassinato do empresário alemão Hanns Martin Schleyer, considerado um fascista pelos integrantes da Facção Exército Vermelho (RAF) e sequestrado pelos militantes Gudrun Ensslin, Andreas Baader e Jan-Carl Jaspe - que são encontrados mortos em sua cela na prisão de Stammheim depois de serem presos. O Estado diz que eles se suicidaram, mas o Movimento diz que foram assassinados. Esse evento inspirou o excelente "Edukators".
O filme é todo costurado pelo velório e enterro do empresário, em imagens reais, tendo o clímax no cemitério com manifestantes se desentendendo com políticos e policiais. Um momento brilhante, é quando o entrevistador pergunta a um garçon que está preparando um coquetel de recepção para os 1000 convidados do velório quem bancou o buffet: o garçon diz que foi o estado.
O episódio de Fssbinder é o mais polêmico, sem dúvida: ele mesmo interpreta um ativista de esquerda radica;l, casado com um homem mais conservador. Fassbinder atua totalmente nu, cheira cocaína. Tem uma cena espetacular dele discutindo com a sua própria mãe na cozinha: ela conservadora, defendendo o Estado, e ele, defendendo os radicais. Semelhanças com o Brasil de hoje mais clara, impossível.
Tem um outro episódio também contundente: uma professora de história começa a ter dúvidas sobre qual história ela deve contar aos seus alunos. Ela começa a rever momentos marcantes contados por livros oficiais já com olhar mais politizado.
Outro momento brilhante é quando uma produtora resolve filmar "Antígona" para um canal de Tv usando como referência, filmes de resistência dos anos 20 , como os de Eisenteisn. Mas os diretores da Tv proíbem, achando que os jovens espectadores se deixarão influenciar pela ideologia do projeto.
É de fato difícil assistir ao filme pensando como entretenimento. existem segmentos onde militantes são entrevistados e ficam meia hora dando seu ponto de vista sobre o País, a população e o caminho da sociedade. Esse filme é uma jóia, filmada na época dos acontecimentos, um Ato revolucionário de seus realizadores, que quiseram manter o mais verdadeiro possível, o que estava acontecendo no País em 1977.
Segurança Nacional
"Segurança Nacional", de Roberto Carminati (2010)
Co-escrito e dirigido por Roberto Carminati, "Segurança Nacional" é uma verdadeira pérola do Cinema Filme Z nacional. Tendo o auxílio da Força Aérea Brasileira, que colocou à disposição da produção do filme soldados para fazerem figuração, bases militares, aviões, helicópteros, além de toda uma assistência estratégica e de assessoramento técnico, o filme diverte mais pelo humor involuntário provocado pelos diálogos duros, situações bizarras de roteiro e pelos efeitos especiais toscos, produzidos em pós.
Realizado com a intenção de ser um filme de ação e aventura patriótico, repleto de ufanismo pela Bandeira Brasileira verde e amarela, somos apresentados a agentes da Polícia Federal super treinados, a traficantes mexicanos bigodudos, a bombas atômicas que querem acabar com a Floresta Amazônica!!!!, e claro, políticos corruptos. Tudo isso emoldurado por canções românticas da cantora Marina Elali, que ainda aparece ao vivo cantando o Hino Nacional durante uma visita do Presidente da República ( Milton Gonçalves) à uma Escola Pública,
O elenco all star, que inclui Thiago Fragoso, Ailton Graça, Angela Vieira e Gracindo Jr, fazem o que podem.
Um cult absoluto, uma diversão deliciosa para se assistir com os amigos e rir do início ao fim.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
A carruagem Fantasma
"Körkarlen", de Victor Sjöström (1921)
Uma das maiores obras-primas do cinema, esse clássico do cinema mudo sueco simplesmente foi o responsável por influenciar 4 dos maiores Cineastas de todos os tempos em suas grandes obras inesquecíveis e eternas.
1) Stanley Kubrick em "O iluminado": Kubrick copiou a cena em que Jack Nicholson arrebenta uma porta com um machado, ante os gritos da mulher que está do outro lado, e bota sua cara pelo buraco que ele abriu com as machadadas
2) Ingmar Bergman em "O sétimo selo"e "Morangos silvestres": a cena da Morte vindo buscar a pessoa que está para morrer, e em "Morangos silvestres", o protagonista revendo toda a sua história em flashbacks
3) Frank Capra em 'A felicidade não se compra": o protagonista, às vésperas do Natal ( em "A carruagem Fantasma", estamos às vésperas do Ano Novo) está a um passo de se suicidar. Mas um espírito lhe diz que ele foi importante para a vida de várias pessoas, e lhe faz um retrospecto de sua vida
4) Steven Spielberg em "Além da eternidade": Um homem morre. Seu espírito sai de seu corpo, e se junta à outra Entidade. Juntos, observam as pessoas circundando o corpo e avaliam a importância do morto
Realizado em 1921, esse inacreditável filme foi adaptado do livro homônimo da escritora sueca Selma Lagerlöf, primeira Mulher a ganhar um Nobel da literatura.
O Cineasta Victor Sjostrom fez a adaptação para o cinema e também protagoniza o filme, no papel de David Holm. O filme é complexo em sua narrativa: dividida em 5 capítulos, e utilizando flashbacks para entendermos melhor a história e entender como todos os personagens que surgem na história, se relacionam com o protagonista. Repleto de reviravoltas, é um filme que fala sobre Culpa, redenção e Fé cristã, temas fundamentais na Filmografia de Bergman. O próprio Bergman dizia que todo ano ele revia "A carruagem Fantasma", considerado por ele, "O filme dos filmes".
A história começa com a Irmã Edit em seu leito de Morte na casa do Exército da Salvação. Estamos na véspera do Ano Novo. Ela pede para que chamem David Holm para que ela possa morrer em Paz. Quando encontra David, ele se recusa a visitar a Irmã. David está no cemitério, rodeado de outros dois amigos bêbados. David conta uma lenda narrada por um amigo dele , George, no ano passado, também às vésperas do Ano Novo: que a última pessoa pecadora que morrer nas badaladas finais da virada do ano, terá como punição que guiar uma carroça durante todo o ano seguinte recolhendo as almas que acabaram de falecer. Durante uma briga com os bêbados, que o obrigam a visitar a irmã Edit, David acaba levando uma garrafa na cabeça e desfalece. Seu espírito sai do corpo, e presencia a chegada de uma charrete, guiada pelo espírito de George. George então traz David consigo para testemunhar as próximas mortes, entre elas, a da Edit e da esposa de David com seus filhos, prestes a se suicidarem. É a hora de David se arrepender de seus atos e impedir que a família se mate, mas como, se ele é um espírito?
Unindo brilhantemente Drama, terror, fantasia, romance, aventura, "A carruagem Fantasma" impressiona até hoje pela sua narrativa coesa, tensa, que prende a atenção do espectador do início ao fim. O desfecho é emocionante, e as atuações do elenco são incríveis, sem aqueles exageros do cinema mudo americano de caras e bocas, aqui menos pantomina. Um filme obrigatório para todos os amantes do cinema, inclusive para entender como em pleno ano de 1921, foram realizados os complexo efeitos de fusão para apresentar o Mundo dos espíritos. A mais bizarra delas, com a carruagem andando por sobre o mar e resgatando a alma de um afogado!!!!!
Who's that man inside my house?
"Who's that man inside my house?", de Lucas Reis (2019)
Premiado no Festival de Gramado 2019 com os troféus de Melhor montagem e melhor direção de arte em curtas gaúchos, "Who's that man inside my house" venceu também o Prêmio de Melhor filme da Mostra horror do Festival Internacional Cinefantasy 2019, além de ter participado de importantes Festivais de gênero, como o Fantaspoa.
O filme é um excelente exercício do gênero Terror, e segundo seu diretor, é uma metáfora da situação política do Brasil de hoje.
Todo narrado em off por um adolescente, o filme mistura fotos, polaroids e uma fotografia escura. O filme se passa nas noites da casa de um adolescente. Deitado na sua cama, ele vê todas as noites, um homem sinistro postado ali na sua frente, ameaçador. O rapaz não sabe o que fazer para afugentar a aparição. Só sabe que se ele não fizer nada, a aparição não mexerá com ele.
Uma analogia da população que se acomoda e que não mexe um dedo para mudar as coisas, o filme assusta de verdade. É uma aula de cinema e de filme de gênero, surpreendente para um filme realizado com uma galera do sul, totalmente dominando a linguagem e a atmosfera de um filme de horror.
Nota especial para a maquiagem da criatura, assustadora, e para o trabalho da Direção de arte.
Colidiremos
"Colidiremos", de George Pedrosa (2019)
O Cineasta George Pedrosa é uma das raras vozes LGBTQI+ no Estado do Maranhão. Realizador de Mostras de cinema independentes no Estado, George Pedrosa também escreveu o roteiro de "Colidiremos", uma história de gays canibais que devoram carne humana enquanto transam.
O filme me lembrou bastante o cult de terror de Julia Ducournau, "Grave", que escandalizou Cannes em 2016 com suas cenas gráficas de canibalismo.
Dois rapazes transam e ao mesmo tempo, se mordem até sangrar, tudo com bastante tesão. Um deles segue até a cozinha e prepara uma vitamina de carne para beber. Mais tarde, um terceiro homem chega para transar com o casal gay. Ele mal imagina que ele será o jantar.
Bizarro, repulsivo e também repleto de tesão e voyeurismo, "Colidiremos" é um filme sobre fetiches gays. Um filme para adultos que buscam um filme diferente, violento, cruel, obscuro. Com direção instigante e criativa, trabalhando os enquadramentos e fotografia de forma estilosa, o filme traz interpretações viscerais do elenco que se entregam em cenas de erotismo pulsante e muito gore.
Filme exibido no Festival Internacional Cinefantasy 2019.
Charlie
"Charlie", de Paolo Casarolli (2019)
Divertida comédia de humor negro LGBTQI+ apocalíptica de zumbis!!!!!!!, "Charlie"participou de inúmeros Festivais Internacionais, incluindo o Festival Internacional Cinefantasy 2019.
Em um futuro apocalíptico, o mundo sucumbe à praga dos zumbis. Em Roma, um casal gay permanece dentro do apartamento. Matteo e Marco se preparam para pegar carona com Antonio, um vizinho, para seguir até a Suiça, País onde teoricamente a praga inda não se alastrou. Mas existe um problema: Matteo não quer deixar o seu pai ali, sozinho. Problema: o pai de Matteo virou um zumbi.
Engraçado e repleto de humor negro, o filme ainda faz homenagem ao cinema de Charles Chaplin: em um determinado momento, Matteo sossega seu pai mostrando para ele uma cena clássica do filme de Chaplin. Realizado com baixo orçamento, o filme foi rodado nas suas externas provavelmente em horários onde não circulavam passantes. O próprio Cineasta Paolo Casarolli dirige, roteiriza e protagoniza o filme.
Amor precoce
"L'amour debout", de Michaël Dacheux (2018)
Concorrendo no Festival de Cannes 2018 na Mostra Queer Palm, dedicados a filmes com temática LGBTQI+, "Amor precoce" é um filme de interpretações naturalistas, em cima de um roteiro que explora o amor após a fase adolescente.
Ambientada em Paris, cidade homenageada no filme com belas paisagens, somos apresentados a Marton e Léa: ambos tiveram seu primeiro amor anos atrás, quando se conheceram em Toulouse. Agora em Paris, já separados, eles se reencontram, mais velhos e com outras perspectivas na vida. Ela é guia turística, levando os turistas a caminhar a pé por Paris e apresentar a sua arquitetura. Ele, estudante de cinema e que sonha em realizar seu primeiro filme. Tanto Léa quanto Martin descobrem novas possibilidades no amor: ela descobre estar apaixonada por um homem com o dobro de sua idade, e Martin se descobre apaixonado por seu amigo de colégio, com quem passa a dividir um apartamento.
O filme, com 1:30 de duração, tem um registro minimalista. Nada de grande impacto acontece na vida dos protagonistas. Acompanhamos a rotina, como se fossemos testemunhas de uma câmera voyeur. O filme é bonito, mas não empolga. Vale pelas lindas locações de Paris e pela evidente paixão ao Cinema.
domingo, 15 de setembro de 2019
Estigma
"Estigma", de David Velduque (2019)
Serofobia é o preconceito, medo, rejeição e discriminação contra as pessoas que vivem com HIV. A discriminação é uma manifestação de estigma social.
O roteirista e Cineasta espanhol David Velduque faz da serofobia o protagonista de sua pequena obra-prima "Estigma". Através dessa metáfora do medo e do terror social, David elabora um instigante filme de terror, trazendo referência ao clássico "A mosca", de David Cronemberg, para mostrar o processo psicológico pelo qual passa Alex, um adolescente como outro qualquer, mas soropositivo.
Alex está de noite em sua casa, sozinho. Dani, seu amigo, está no whatsapp e diz estar por perto da casa de Alex e quer lhe fazer uma visita. Dani chega e vai para o quarto de Alex. Entre um papo e outro, os dois acabam sentindo tesão e vão para a cama. Durante o sexo, um estranho inseto surge e pica Alex. Sentindo muita dor, Alex pede para Dani ir embora. AO se ver no espelho, Alex percebe que o seu corpo está em decomposição e vai se transformando em um aterrorizante monstro.
O filme , sob a excelente direção de David Velduque, tem 3 grandes méritos: fazer um filme de terror LGBTQI+, algo raro no gênero; as cenas de sexo entre os adolescentes é de extremo bom gosto e ainda assim, repletas de tesão, com um trabalho visceral dos atores que se entregaram aos personagens; e o ótimo nível da maquiagem e efeitos especiais.
O filme participou de diversos Festivais de filmes de Gênero e venceu o Prêmio de Melhor Filme da Mostra Diversidade Fantástica no Festival Internacional Cinefantasy 2019.
Raimundo Quintela, o caçador de Vira Porco
"Raimundo Quintela, o caçador de Vira Porco", de Robson Fonseca (2018)
Premiado curta paraense, vencedor do Prêmio de melhor curta na Mostra Brasil Fantástico do Festival Internacional Cinefantasy 2019, e também de melhor ator coadjuvante para Francisco Gaspar e melhor direção de arte no Festival Maranhão na tela 2018.
Vira Porco é o Lobisomem tupiniquim. Reza a lenda, que nas noites de sexta feira, um homem ou mulher pode se transformar num enorme porco humanóide e atacar as pessoas na floresta.
Para dar conta dele e de outras seres fantásticos, é acionado o Caçador Raimundo Quintela (Paulo Marat, divertido) e seu fiel assistente, o taxista atrapalhado e sacana Nairton (Francisco Gaspar, antológico). A dupla é chamada para resolver o caso de galinhas mortas no quintal do dono de um sítio. Ao começarem as investigações, descobrem estar diante do caso de um Vira porco. As suspeitas recaem sobre uma senhora, Matinta (natal Silva, excelente).
Raimundo Quintela é descendente de uma linhagem que tem o dom de matar os seres fantásticos. Logo no início do filme, ele te o corpo fechado por um Pajé, em um divertido ritual que emula a obra-prima de Nelson Pereira dos Santos, "O Amuleto de Ogum". O Cineasta e roteirista Robson Fonseca bebeu também de outras fontes cinematográficas pop, como "A invocação do mal", de onde ele pega a referência do casal de investigadores paranormais que é acionado para resolver casos de entidades malígnas, e também da fanfarronice e aventura de "Indiana Jones".
"Raimundo Quintela" é um produto 100% realizado com Equipe e elenco do Pará, formando assim mais um bem-vindo Pólo cinematográfico, divulgando a cultura local para o restante do País.
O Bem Aventurado
"O Bem aventurado", de Tulio Viaro (2018)
Livre adaptação do conto russo "A conversão do Diabo", de Leonid Andreyev, "O Bem aventurado" é um filme escrito e dirigido pelo cineasta curitibano Tulio Viaro. O filme apresenta 3 técnicas de animação: bonecos de espuma em tamanho natural, manipulados por atores; teatro de sombras e marionete com fios.
O filme se passa em uma pequena cidade de um interior. Com poucos moradores, a cidade possui uma pequena igreja, comandada por um padre idoso e muito ranzinza. Um dia, um dos poucos fiéis que ainda restam na Igreja vem procurar pelo Padre pedindo ajuda. Para a surpresa do Padre, o fiel é um enviado do Inferno: um demônio. No entanto, esse Demônio não quer mais praticar o Mal, e pede ajuda para o Padre. Relutante no início, o Padre concorda em ajudar o demônio. O Padre escreve um livro com todas as boas ações que o demônio deverá fazer, mas tudo da errado.
Com vozes e manipulação dos bonecos pelos atores Duda Paiva, André de Campos Mello, Abmael Henrique, "O Bem aventurado" tem 2 problemas: 1) não se define a qual público o filme se destina, infantil ou adulto. Complexo e arrastado para as crianças, infantil e ingênuo para os adultos. Outro problema é a longa duração, 1:45 hora. Como o ritmo do filme é lento, tem se a impressão de que o filme tem mais tempo de duração. Uma questão técnica me incomodou: já no final, os atores que manipulam os bonecos surgem em cena, e isso me quebrou totalmente o encanto lúdico que os n me proporcionavam.
Ressalto no entanto a excelência da execução dos bonecos, do teatro de sombras e as marionetes, confirmando o grande talento desses artistas brasileiros. As vozes dublando os bonecos são incríveis e divertidas.
A história em si é uma delícia, lembrando bastante a atmosfera de filmes como "O Auto da compadecida", sem o mesmo humor, mas com o mesmo talento nas áreas técnicas.
Desabafo
"Desabafo", de Marcio Venturi (2017)
Adaptação para o cinema da premiada peça de Wilson Sayão, 'Extravagância brasileira", também conhecida como "Uma casa brasileira com certeza" e montada pelo Diretor teatral Amir Haddad em 1989, com o seu grupo "Tá na rua".
O filme segue a tradição dos filmes italianos dos anos 60 e 70, dos cineastas Vittorio de Sica, Dino Risi e Mario Monicelli: são filmes em episódios, sempre com o mesmo elenco, interpretando papéis diferentes. Era uma forma de chamar a atenção do público e mostrar a versatilidade dos atores, geralmente grandes estrelas. Mas diferente dos italianos, que investiam em comédias de costumes, o universo do texto de Wilson Sayão é sombria, claustrofóbica, investindo na violência física e emocional.
Na primeira cena do filme, vemos imagens documentais da explosão da Perimetral, famoso viaduto do rio de Janeiro. Essa cena trará todo o contexto da violência que veremos nos 3 episódios a seguir, mais precisamente, nos 2 últimos contos. No filme de Bruno Safadi, "O Prefeito", as obras intermináveis da cidade do Rio de Janeiro, que transforma o vai e vem dos cidadãos em caos, é usada de forma simbólica, com os personagens transitando entre os escombros. Aqui em 'Dasabafo", todo esse caos emocional é internalizado através da falta de comunicação de seus personagens, que abruptamente, irrompem em fúria e não medem consequências de seus atos.
O filme retrata o descaso de 3 casais, cada uma pertencente a uma classe social: temos os personagens Dário ( Fernando Alves Pinto) e Tannia (Inez Viegas) transitando no 1o episódio no universo da classe média alta falida, que vice de renda. Morando em uma enorme mansão, o casal vive sob o signo do tédio. Bebendo sem parar, os dois falam futilidades e a mulher chega a comentar que gostaria de adotar o primeiro garoto de rua que quisesse assaltá-la. Esse olhar debochado dos ricos diante os desassistidos é apresentado com mais leveza do que os dois próximos episódios, que investem em trágicos desfechos.
No 2o episódio, casal mora na cidade de pedra chamada Barra da Tijuca. Casados, com 2 filhos, a história parece ter sido inspirada em recente história de um homem que decidiu matar sua família e depois cometer o suicídio. Uma terrível crônica carioca que inspirou esse embate de atores, e uma violenta cena talvez desnecessária, melhor tivesse sido sugerida do que apresentada como está no filme. Mas provável que o Diretor quisesse chocar a platéia com uma cena forte de violência doméstica. Ficou pesado, ainda mais com a fotografia densa e a trilha sonora pungente.
O último episódio, ambientado em um barraco da favela, repete o mesmo arco final. Novamente a inspiração parece ter vindo de tantas histórias do cotidiano: fome, desemprego, frustração.
"Desabafo" é um filme de baixíssimo orçamento. Fosse nos Estados Unidos, teria recebido a classificação de "Mumblecore". Inicialmente um projeto de crowdunding, depois complementado pela idealizadora do projeto e atriz Inez Viegas, o filme teve um custo final, segundo o Imdb, de 70 mil reais, valor muito baixo para um longa. O Cineasta Marcio Venturi fez milagre com o dinheiro que tinha em mãos: seu filme tem qualidades técnicas, uma variada gama de locações e investimento em fotografia, trilha sonora, som e edição. Sinto, como espectador, que o filme ficou carregado demais no drama realista. Um pouco de humor do cotidiano poderia ter ajudado no tom do filme, fazendo os personagens contrastarem mais a gritaria que se instala em determinado momento do filme, que não esconde a sua origem do Teatro. Principalmente no 1o episódio, com frases carregadas em efeitos e pouco naturalistas. Mas no cômputo geral, um filme digno, de atores.
sábado, 14 de setembro de 2019
Capri Revolution
"Capri revolution", de Mario Martone (2018)
Vencedor de mais de 11 prêmios internacionais, "Capri Revolution" concorreu no Festival de Veneza 2018.
O filme se baseia em uma história real: Antes da explosão da 1a Guerra mundial, em 1914, na Ilha de Capri instalou-se uma Comunidade de naturistas, formado por artistas e pensadores vindos do Norte da Europa. Entre eles, o pintor alemão Karl Willem Diefenbach, aqui no filme com o nome fictício de Seybu
(Reinout Scholten van Aschat). Uma jovem analfabeta, criadora de cabras, Lucia ( Marianna Fontana, excelente), torturada por seus irmãos abusivos e machistas, se encanta com a comunidade quando os vê totalmente nus, pegando sol no rochedo. Escondida da família, aos poucos Lucia vai se envolvendo com a comunidade, e ao mesmo tempo, estudando, aprendendo inglês e tendo auto-afirmação como mulher e seus direitos. Mas a sua família planeja casá-la com um homem mais velho e rico, contra a sua vontade.
Com uma estonteante fotografia de Michele D'Attanasio , que valoriza a luz natural da região e a pele nua de seus atores, tanto em cenas diurnas quanto noturnas, o filme remete a filmes como "Midsommar" e "O homem de palha", ambos de terror. Na cena noturna, com todos nus e dançando em torno de uma figueira, parece até que veremos um momento de iniciação como bruxa, visto no cult "A bruxa". É um filme belo, mas lento e com muitos sub-plots, que arrastam o filme mais ainda e tiram o foco do protagonismo de Lucia. existe um plot de um jovem médico, que cuida do pai doente de Lucia, e que faz um embate ideológico com Seybu, numa discussão enfadonha entre Arte X Ciência.
O desfecho é cruel com a trajetória de Lucia, provavelmente uma metáfora sobre os novos tempos de censura e de sufocamento ideológico pelo qual passa a Europa, consumida pela extrema direita.
As cenas de nudez , coreografadas com muito esmero por Raffaella Giordano, são de uma beleza impressionante.
Fakir
"Fakir", de Helena Ignez (2019)
Grande vencedor do Prêmio do público de melhor filme no Festival Internacional Cinefantasy 2019, "Fakir" é um instigante e sempre assustador documentário que fala do Universo do Faquirismo. eu mesmo pouco sabia da existência desses artistas que faziam a alegria de uma platéia afeita a sensacionalismos, que tiveram o auge nos anos 40 e 50 e atingiram o seu declínio com o advento da chegada da televisão, que lhe roubou praticamente todo o público.
O universo desses artistas circenses era bem amplo: tinham os faquires e faquiresas que se deitavam sobre uma cama de pregos; outros que engoliam espadas; outros que passavam meses dentro de uma redoma de vidro, junto de cobras e cama de pregos, se alimentando somente de água; os que caminham sobre cacos de vidro e pregos. Com um extenso e minucioso trabalho de pesquisa, a roteirista e diretora Helena Ignez, musa do cinema marginal, evoca a falta de memória do Brasil com os seus artistas, que entram na obscuridade e decadência. Helena também traz um discurso atual, sobre o olhar feminista em relação às mulheres que foram objeto de desejo, erótico e fetichista, de toda uma platéia masculina, que viam nessas mulheres, além dos desafios da profissão, apenas corpos esculturais e provocantes em suas roupas mínimas. O filme apresenta a disputa que havia entre faquires do Brasil, países da América Latina e França, onde a competição era tão grande que muitos viravam celebridades, sendo convidados a viajar para outros países. Muitos desses artistas estão expostos em suas vidas pessoas: suicídios, traições, assassinatos foram alguns casos ocorridos com alguns dos artistas.
É muito triste ver ao filme e entender o quanto um Artista aqui no Brasil sofre com o desemprego, o preconceito da sociedade conservadora que viam muitas dessas faquiresas como prostitutas, e o declínio, em função da idade e do corpo que já não suporta mais tanta violência. Helena Ignez traz depoimentos de alguns sobreviventes, e faz linda homenagem conceitual, criando um universo de cabaret, onde elas se apresentam com outros artistas contemporâneos, deixando claro a importância da Arte do Fakir para a Cultura moderna.
Narrado pela voz sedutora e inconfundível de Helena Ignez, o filme ainda reserva um capítulo à parte à Luz del Fuego, talvez a mais famosa vedete do Brasil, famosa pela sua apresentação em shows totalmente nua, envolta em cobras.
O último pôr do sol
"Zui hao de ri chu ", de Wen Ren (2019)
Grande vencedor do Festival Fantasporto de 2019, de onde saiu com o prêmio de melhor filme, "O último pôr do sol" já ganhou diversos outros prêmios internacionais, entre eles, melhor filme e roteiro no Festival Internacional Cinefantasy 2019.
O filme é uma mistura de drama, ficção científica, ação e romance, dosados de forma orgânica, puxados pela excelência da interpretação de seus dois protagonistas.
De baixo orçamento, o roteirista e diretor Wen Ren fez a melhor escolha: optou por focar no drama dos protagonistas, e deixando a parte dos efeitos especiais como pano de fundo. Trazendo referências a filmes como "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e "Procura-se um amigo para o Fim do mundo" , "O último pôr do sol" é um filme que vai emocionando à medida que o filme avança.
Em um futuro onde o Sol se apaga, a população do mundo tenta encontrar uma forma de sobreviver à última semana de vida, uma vez que a previsão é que a temperatura caia drasticamente e mate todos congelados. Um jovem astrônomo, Sun Yang (Juen Zhang) tenta chegar até o Distrito 4, um lugar onde ele acredita, terá a solução para evitar o fim do mundo. Ele se une à sua vizinha, a maluquete Chen Mu ( Yue Zhang), que tem um carro mas não sabe dirigir, para seguir até a região. mas no caminho, eles precisam lidar com o medo, fome, frio e pessoas que querem matá-los para pegarem o carro.
Além do elenco excelente, a fotografia é outro ponto alto do filme: a cargo de Matthias Delvaux, os enquadramentos, estilosos, primam por trazer melancolia e drama ao destino fatal dos personagens, além de driblar questões de orçamento, resolvendo através de iluminação boa parte da dramaturgia futurista, trazendo credibilidade ao projeto. O casal traz um carisma enorme, e de fato, torcemos por eles. O desfecho é de fazer o espectador sair soluçando dos cinemas.
Você não sai da minha cabeça
"You go to my head", de Dimitri de Clercq (2017)
Vencedor de quase 40 prêmios internacionais, "Você não sai da minha cabeça"é uma co-produção Alemanha/ Bélgica e França, escrita e dirigida por Dimitri de Clercq.
O roteiro é bastante polêmico, e por isso mesmo, instigante e aterrador. Jake (Svetozar Cvetkovic) é um antropólogo que mora no deserto do Marrocos, em uma linda e suntuosa mansão. Um dia, ao seguir de jipe até a cidade, ele encontra um carro acidentado. Dentro do carro, um casal: o homem morto, a mulher, ferida e desmaiada. Jake leva a mulher até sua casa para cuidar dela. Ao recobrar os sentidos, Jake percebe que ela está desmemoriada, sem saber quem é e de onde veio. A mulher é linda, sensual. Jake resolve se aproveitar da situação: diz à misteriosa mulher que ele é seu marido, que são casados. A partir daí eles convivem como casal, transam. A mulher está muito feliz. Mas Jake não poderia imaginar que a memória dela, aos poucos, vai retornando.
O filme poderia facilmente ser alvo de militantes por conta da história pesada de assédio sexual. Mas essa questão passa longe, a partir do momento que a gente vai entendendo quem é essa mulher. Com interpretação fabulosa dos 2 atores ( o filme é praticamente eles dois), uma fotografia estonteante do deserto de Marrocos, filmado todo em luz natural e uma direção segura e conduzindo com estilo as cenas de sexo e nudez, "Você não sai da minha cabeça" é um delírio estilístico de ótima qualidade. Um filme para adultos, envolvente, lento mas sublime.
Cine Pesadelo
"Nightmare cinema", de Alejandro Brugués, Joe Dante, Mick Garris, Ryûhei Kitamura, David Slade (2019)
É aquela velha história: Filme de terror dividido em episódios, diretores convidados, e claro, alguns episódios melhores que os outros.
Aqui não seria diferente: São cinco contos, colados com uma história que acontece em uma sala de cinema chamada Rialto, e onde o projecionista é Mickey Rourke, com a cara mais monstruosa devido às plásticas que qualquer outro monstro que aparece em algum dos episódios.
- O 1o ep é sobre um acampamento adolescente. Uma nave alienígena pousa e dele saem milhares de aranhas que querem matar geral. Cada um tenta salvar a si próprio, e além das aranhas, são ameaçados por um soldados serial killer. Razoável.
- O 2o ep é sobre um casal. A mulher tem uma cicatriz no rosto e quer fazer uma plástica. Ela vai até uma clínica, comandada por Richard Chamberlain, e ela descobre que o lugar na verdade deixa as pessoas com aparência monstruosa. Fraco.
- O 3o ep é de uma escola católica, onde as crianças são possuídas pelo demônio e o padre e a freira, que são amantes, precisam matar todas as crianças. O melhor de todos, pelo politicamente incorreto: as crianças são mutiladas, decapitadas!
- O 4o ep se passa em um futuro distópico: filmado em preto e branco, uma mulher supostamente paranóica procura ajuda: ela vê todo mundo com aparência monstruosa. Estranho, não curti,
- O 5o ep é sobre um garoto que leva um tiro e fica entre a vida e a morte. Quando ele sai do coma, tem o poder de ver os mortos, até ser perseguido por um serial killer
O filme de uma forma geral é muito fraco, uma frustração enorme. Ver nomes como Joe Dante fazer um curta tão longe de tudo o que ele já fez de bom nos anos 80, é desolador. Um desperdício incrível de Mickey Roruke, que praticamente faz figuração.
Quando ladram os cães
"Quando ladram os cães", de Rafael Farina (2014)
Curta realizado por alunos da FAAP, "Quando ladram os cães" já participou de diversos Festivais e traz um mosaico interessante sobre a escalada da violência nas grandes cidades, no caso, São Paulo. O filme, realizado em 2014, remete bastante ao drama de Walter Salles, "Linha de passe", que mostra a mesma tensão da Metrópole, inclusive tendo como protagonista o mesmo Ator, Vinícius de Oliveira. Ele interpreta um motoboy, que precisa fazer uma entrega urgente em uma casa. Paralelo, temos um casal de classe média alta, que mora nessa casa onde será feita a entrega. Eles estão paranóicos com a questão da violência e armam a casa com todos os tipos de equipamento de segurança.
Uma visão caótica de São Paulo e um olhar melancólico e sombrio sobre a vida das pessoas que moram na cidade, "Quando ladram os cães" é um ótimo exemplo de filme universitário realizado com esmero técnico e qualidade.
Participação dos atores Milton Aires, Renan Bleastè, Yazbek e Tatiana Rehder, além de Vinícius.
Link para assistir ao filme:
https://vimeo.com/162855303
Teenagers
"Teenagers", de Paul Verhoeven (2011)
Considerado por vários Críticos como o pior filme já exibido na história do Festival de Cannes, "Teenagers" é provavelmente, o filme mais bizarro que qualquer cinéfilo terá visto em sua vida.
A começar pelo nome do Cineasta e roteirista Paul Verhoeven: francês, Paul Verhoeven é homônimo de seu famoso primo holandês, diretor de "Robocop", "Elle", "Conquista sangrenta" e outros cults do cinema.
"Teenagers" tem uma estética de videos caseiros realizados nos anos 80, aqueles típicos vídeos de casamento, gravados em VHS: edição com powerpoints, corte de cena com efeitos de corte com estrelinhas, corações, fades, etc.
A trilha sonora é toda de música sacra, e o filme tem um tom doutrinário, religioso.
Os atores são os piores que você possa imaginar: todos os atores interpretam seus textos como se tivessem acabado de decorar, declamando as palavras de forma extremamente falsa e sem emoção. O elenco infantil e adolescente falam seu texto complexo, repleto de elementos mitológicos, religiosos, políticos, metafísicos, e é claro pela expressão dos atores, que eles não fazem idéia do que estão falando.
Mas o mais absurdo e chocante está por vir: os personagens são garotos e adolescentes, em idade entre 12 a 15 anos, totalmente nús, em situações implícitas de sexo. Um desses garotos pratica bullying em outro, chicoteando-o, cuspindo, piando obrigando-o a lamber seus pés, ou seja, todos os tipos de fetiche que se possa imaginar acontecem aqui.
O filme, de inacreditáveis 156 minutos!!!!!, é dividido em 3 atos:
O protagonista é Lucas, que no 1o ato, tem 12 anos e se passa e 1983: ele vai morar com um amigo de sua família. O rapaz pratica todo tipo de bullying em Lucas, fazendo-o sangra, sem dó nem piedade, e obrigando-o a ficar totalmente nú, e trabalhando para ele como um escravo. Mas o amor de Lucas pelo rapaz é tão intenso, que ele releva todos os sofrimentos.
No 2o ato, já adolescente, Lucas acolhe um garoto de 12 anos, Said. Logo se descobre que Said é um terrorista mirim, com a missão de assassinar Lucas, por conta de letras de música que ele compõem e que vai contra os preceitos do grupo terrorista. Mas Said se apaixona perdidamente por Lucas.
No 3o Ato, Lucas conhece Alexis, um garoto que deseja praticar o bem. Lucas é apresentado aos pais de Alexis e juntos, procuram evitar que um amigo de Alexei se mate.
De verdade, tudo o que se vê no filme é inacreditável,e acada minuto, a gente fica se perguntando como alguém conseguiu conceber esse filme. A coisa é tão surreal, que tem uma enorme cena onde Said e Lucas conversam, falando sobre vários assuntos, e por cima da imagem dos dois, vão aparecendo fotos congeladas de animais, objetos, etc, como se fosse um powerpoint mal-feito de um trabalho escolar, com uma narração eletrônica de uma espécie de Siri do Iphone.
O filme, pasmem, ganhou alguns prêmios internacionais, não faço idéia em cima de qual critério.
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Cyrano, meu amor
"Cyrano, mon amour", de Alexis Michalik (2018)
Excelente comédia francesa, um hino de amor ao Teatro e às Artes de uma forma geral ( Cinema, escrita). O filme me remeteu o tempo todo à obra-prima de Ettore Scola, "A viagem do Capitão Tornado", que fala sobre uma trupe mambembe de Teatro se apresentando para pessoas desinteressadas por Cultura.
O roteiro de "Cyrano, meu amor", é um primor, escrito pelo próprio Diretor, Alexis Michalik. Dentro da estrutura, ele brinca em vários níveis com a história de Edmond Rostand, o escritor que escreveu o clássico "Cyrano de Berjerac" em 1897.
Edmond (Thomas Solivérès, excelente) é um jovem poeta que escreveu uma peça para a famosa Atriz Sarah Bernardt. Mas a peça é um fracasso. Edmond fica 2 anos sem escrever nada, em crise de criatividade. Casado e com dois filhos, afundado em dívidas, ele é apresentado por Sarah ao famoso ator Constant Coquelin (Olivier Gourmet, fabuloso). Coquelin está em desgraça: ao sair da famosa Companhia Comedia Française, ele foi proibido de se apresentar em qualquer teatro de Paris. Mas ele topa a empreitada de Edmond e aceita protagonizar sua próxima peça, que ainda nem está escrita. Se inspirando na história do seu melhor amigo, um ator bonito mas sem talento para a escrita, apaixonado por uma mulher que adora ouvir poesias, Edmond passa a escrever a famosa peça.
Com um talento impecável de todo o elenco ( o próprio Diretor Alexis Michalik interpreta Georges Feydeau, o maior autor da época) e uma parte técnica de primeira linha ) Direção de arte, maquiagem, figurinos, fotografia, trilha sonora), "Cyrano , meu amor" é um filme que prima pela sua paixão ao universo Teatral. O espectador acompanha todo o processo de criação de uma obra, com todos os seus revezes, de forma genial, divertida e apaixonante. Costurado como uma comédia romântica, o filme traz todos os elementos para agradar a platéia, em uma junção feliz entre Arte e entretenimento.
A música da minha vida
"Blinded by the light", de Gurinder Chadha (2019)
Adaptação do livro autobiográfico do jornalista Paquistanês Sarfraz Manzoor, que cresceu na Inglaterra, "A música da minha vida" é dirigido pela Cineasta Gurinder Chadna, que também fez a adaptação do livro para as telas.
O filme se passa em Luton, município distante de Londres, no ano de 1987. Pressionado pelo alto desemprego e pela crescente xenofobia, o jovem estudante paquistanês Javed (Viveik Kalra, ótimo) tem um sonho: poder sair de sua cidade e ganhar a vida como escritor. Mas o seu pai, Malik (Kulvinder Ghir, excelente) quer que o filho siga a tradição de sua cultura: cuidar de sua família e ficar com ela. Em conflito, Javed tem um melhor amigo, Matt, roqueiro e amante de música pop de sintetizadores. Um dia, Javed é apresentado à música de Bruce Springsteen por um outro estudante paquistanês, Roops, e fica encantado com as letras das músicas, que falam da classe operária e a constante luta do dia a dia.
"A música da minha vida" é um bom filme, mas que perde em comparação "Yesterday", que tem temas muito semelhantes: culto à uma celebridade da música ( em 'Yesterday", são os "The Beatles"), a paixão de um jovem paquistanês por uma inglesa nativa ( em 'Yesterday", é um hindu"), a frustração profissional e a busca por reconhecimento. Tem também que não sou um fã de Bruce Springsteen, então assistir por duas horas um filme repleto de canções do "The Boss" requer um desprendimento muito grande. O que me fez gostar do filme é o belo trabalho do elenco, e também, as músicas pop apresentadas no filme, que vão de Pet Shop Bpys, Tifanny e outros clássicos.
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Estranho mas real
"Strange but real", de Rowan Athale (2019)
Baseado em uma novela de John Searles, "Estranho mas real"é um ótimo exercício de suspense, repleto de camadas, que vai do drama, ao romance e ao sobrenatural.
Melissa ( Margaret Qualley) é uma jovem que, cinco anos após a morte de seu namorado, vai na casa da família dele, dizendo estar grávida dele. A morte do filho abalou Charlene (Amy Ryan) , a mãe, que acabou se separando do marido, Richard (Greg Kinnear).
Seu filho mais jovem, Philip (Nick Robinson , de “Love, Simon”) sofre com a morte do irmão igualmente. Melissa foi adotada por um casal de idosos, Bill e Gail (Blythe Dennar). Nesse ambiente de personagens ambíguos, não se pode confiar em ninguém.
Com uma ótima direção e um elenco em estado de graça, o filme conduz o espectador até um desfecho tenso, passando por referências a “Bebê de Rosemary” e filmes de serial Keller.
Ótima atmosfera em um filme que recupera de certa forma o suspense noir, repleto de texturas.
Divaldo- o mensageiro da Paz
"Divaldo- o mensageiro da Paz", de Clóvis Mello (2019)
Atualmente com 92 anos, Divaldo Franco nasceu em 1927 em Feira de Santana. Desde criança, ele descobriu ter poderes mediúnicos e assessorada por seu espírito amigo (Regiane Alves, interpretando o espírito de uma Freira) ele reconhece a capacidade de poder falar com os mortos. O filme acompanha os mais de 50 anos dedicados por Divaldo à mediunidade, desde a descoberta, a aceitação e a criação de uma Associação, futuramente chamada de Mansão do Caminho, que hoje em dia, atende mais de 6 mil pessoas em Salvador. Na mansão, Divaldo abriga milhares de pessoas necessitadas.
O que diferencia o filme espírita de outras produções do gênero, é que ele procura informar o espectador, mesmo que de forma didática, sem aquela aura pomposa e monótona. Os personagens agem como pessoas normais. Divaldo é muito bem defendido por 3 atores, com destaque para Ghilherme Lobo, que representa a fase mais complexa de Divaldo, que é a da aceitação e os conflitos de um jovem que tinha um sonho na vida e que acabou se dedicando a algo que jamais havia imaginado acontecer em sua vida. Ghilherme traz um humor delicioso ao personagem, defendido depois por Bruno Garcia.
O elenco é o ponto forte do filme, com boa direção de Clovis Mello: Laila Garin, interpretando a mãe de Divaldo; Marcus Veras em um papel bizarro de um espírito de um padre meio sacana que tenta seduzir Divaldo para fora do espiritismo; além de um time de excelentes atores baianos que dão dignidade ao filme.
A morte e a vida de John F. Donovan
"The death and life of John F Donovan", de Xavier Dolan (2019)
Destruído pela crítica, "A morte e vida de John F. Donovan" pode não ser o melhor filme de Xavier Dolan, mas tem muitas qualidades. Talvez os críticos tenham se cansado do tema recorrente das mães que vivem constantemente infernizando a vida de seus filhos ( e aqui são 2 mães, interpretadas por Susan Sarandon e Nathalie Portman). Ou de saco cheio dos maneirismos estilísticos de Dolan, sempre usando câmeras lentas e trilha sonora pop. Ou quem sabe, mais uma vez criticando o que eles chamam de futilidades pós-adolescentes, ou o tema da saída do armário e homofobia, presentes em quase todas as suas obras.
Inegável é o Poder de seu elenco: Kit Harrington ( John Snow de "Game of Thrones), Nathalie Portman, Susan Sarandon, Kathy Bates, Jacob Tremblay ( o menino de "Extraordinário"), Thandie Newton. O filme se passa em 2 épocas, separadas por 10 anos:Nos anos 90, uma estrela de uma série de tv, John (Karrington) se corresponde por cartas com um menino de 11 anos, Rupert (Tremblay), sem que ninguém saiba. Em quase 100 cartas, John relata a sua vida real, um desabafo contra a sua vida falsa de artista. Dez anos depois de sua morte, Rupert, já adulto, resolve publicar um livro com o conteúdo das cartas. Entrevistado por uma jornalista (Newton), Rupert finalmente conta a história de John: gay enrustido, vivendo uma vida de mentiras, e constantemente brigando com sua mãe (Sarandon). O próprio Rupert, quando criança, também sofria bullying homofóbico na escola, e também discutia com sua mãe (Portman), que deposita em Rupert todas as suas frustrações: o abandono do marido e da vida de atriz.
Belamente dirigido, repleto de maneirismos, Dolan ainda inclui uma trilha recheada de clássicos pop, como Adele, "Bitter simphony", entre outros. Jacob como sempre impressiona em suas cenas dramáticas, e Portman e Sarandon compõem as mães de Dolan com muita precisão. Kit Harrington foi bastante criticado, sendo acusado de estar mecânico e sem emoção, o que é uma mentira, além de magnetizar a tela toda as vezes em que aparece em cena. Kathy Bates tem uma linda cena com Kit Harrington, onde ela faz um discurso sobre as escolhas que ela tomou na vida artística.
"A morte e vida de John F. Donovan" é um libelo a favor da liberdade do artista de se expôr como quiser pro mundo, além de uma ode ao amor da Mãe. Esse é o primeiro filme falado em língua inglesa de Xavier Dolan.
Legalidade
"Legalidade", de Zeca Brito (2019)
Lançar um filme como "Legalidade", que tem como pano de fundo o levante comandado por Leonel Brizola em 1961, então Governador do rio Grande do Sul para assegurar que o Presidente Jango Goulart assuma a presidência, evitando o golpe militar, parece ser um bom motivo para se discutir os caminhos da política brasileira nos dias de hoje.
"Legalidade" é um épico político, e também é um melodrama. Tendo claras referências à "Casablanca" e "O destino de uma nação"( no discurso final de Leonel Brizola), o roteiro é bem ambicioso, abraçando várias sub-tramas: um triângulo amoroso entre uma jornalista brasileira entreguista e que depois se arrepende, Cecília ( Cleo) e a relação com os irmãos Luiz Carlos (Fernando Alves Pinto) e o jornalista Tonho (José Henrique Ligabue). Tem também a trama de Leonel Brizola (Leonardo Machado, falecido), e em 2004, a trama da filha de Cecília, interpretada por Leticia Sabatella, tentando descobrir o que aconteceu com a sua mãe.
O filme alterna muitas imagens de documentário para poder atenuar as questões de orçamento, visível em cenas que exigiria uma produção maior. Durante a narrativa, perde-se o foco de quem é o protagonista, mas de uma forma geral, é um filme que merece ser visto, por trazer de volta um tema esquecido pelos brasileiros, e pelo trabalho de atores como Cleo, Leonardo Machado e Fernando Alves Pinto, dando dignidade ao projeto.
O filme competiu no Festival de Gramado 2019.
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Voyage
"Voyage", de Scud (2013)
Drama LGBTQI+ de Hong Kong, dirigido por um dos cineastas mais autorais da China. Scud, nascido em Hong Kong, já lançou outros filmes gays que viraram cults, como "Anfetamina" e "Adonis". O que une os três filmes, é a profusão de homens totalmente nús, modelos com pouco talento de interpretação mas que enchem a tela com corpos esculturais e beleza homoerótica.
Os filmes de Scud são obrigatórios para espectadores voyeurs que não se importam com a falta de roteiro. Em "Voyage", o diretor reúne alguns dos homens asiáticos mais belos que existem.
O filme tem como protagonista um jovem psiquiatra, que faz estudos sobre depressão e suicídio entre jovens. Ele passa a relatar várias histórias, acontecidas em diversos países, onde os protagonistas se mataram. O filme se compõe de pelo menos 10 episódios, cada um filmado em um País diferente.
O episódio que abre, ambientado na Mongólia, é o que mais choca em termos de violência gráfica. Na China comunista de Mao Tsé Tung, os chineses que precisavam passar por uma reforma educacional eram enviados à Mongólia para aprenderem a trabalhar e a seguir as normas do comunismo. Quem não seguisse a norma, era obrigado a se matar.
As outras histórias são ambientadas na Malásia, Armsterdam, Austrália, Hong Kong, Alemanha. A fotografia é um ponto alto do filme, valorizando as locações e a beleza dos modelos em histórias que falam sobre espíritos e amor platônico.
O desfecho é das coisas mais bizarras e grotescas que já assisti: um caçador, de chapéu e binóculo, mais caricato impossível, como se estivesse em um safari, observa dois gays brincando nús na praia e atira na cabeça deles. Fim.
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Ninjas
"Ninjas", de Dennison Ramalho (2010)
Obra-prima do cinema de horror brasileiro, "Ninjas" levou 2 Kikitos em Gramado no ano de 2019: Melhor ator para Flavio Bauraqui e melhor edição para Paulo Sacramento. O filme foi rodado em película 35 MM e é uma prova de que nada substitui a granulação do negativo.
Adaptado de conto de Marco de Castro (autor do livro que originou o primeiro longa de Dennison Ramalho, "Morto não fala", "Ninjas" faz uma incursão assustadora no universo da esquadrão da morte na periferia de São Paulo.
Jailton (Bauraqui) é um policial militar novato na corporação. Durante uma operação noturna em uma comunidade, ele acaba assassinando sem querer um garoto. Atormentado pelo espírito desse rapaz, Jailton decide entrar para a Igreja Evangélica, de onde tem visões de um Cristo que lhe entrega uma arma (uma cena antológica que remete a "Videodrome", de Cronemberg.
O Chefe de Jailton resolve incorporá-lo aos Ninjas, um grupo especial que usa touca de ninjas e contratados para exterminar ladrões e prostitutas.
"Ninjas" tem efeitos de maquiagem de Kapel Furman, sumidade no Brasil. A fotografia primorosa, explorando os horrores da realidade brutal da periferia, é de José Roberto Eliezer, um Mestre. O filme é assustador, e rigorosamente proibido para pessoas sensíveis. Em uma cena acachapante, um ladrão é obrigado a caminhar com pregos presos nas solas dos pés, uma tortura chamada de "Saltos altos". No elenco, Flavio Bauraqui está formidável, passando na tela toda a tormenta existencial de seu personagem, e que encontra a redenção através da violência, em um batizado de sangue, literalmente.
Segue o link para assistir ao filme.
https://vimeo.com/28896287
A bruxa de Blair
“The Blair witch project”, de Eduardo Sanchez e Daniel Myrick (1999)
“A bruxa de Blair” é, até hoje, um dos filmes mais rentáveis da história do cinema. Com um orçamento de 60 mil dólares, o filme arrecadou quase 250 milhões de dólares no mundo. Um grande feito para uma produção independente de horror, que não tem uma única cena de violência e nem uma gota de sangue. O filme é todo composto de tensão psicológica sobre aquilo que não vemos, estando apenas sugerido.
Foi alardeado pela mídia de que o filme inaugurou a narrativa do “Found footage”, mas isso não procede. O feito fica com o clássico de Ruggero Deodato, “Canibal Holocausto”, de 1977. O “Found footage” é aquela narrativa onde são encontrado material filmado de personagens que desapareceram e assim explicar o que aconteceu com eles. Depois da revisitação de “ A bruxa de Blair”, centenas de filmes de terror foram feitos no mundo inteiro copiando o seu estilo de câmera tremida e personagens gravando imagens sem parar.
O filme é composto de apenas três personagens: são três estudantes de cinema que resolvem investigar a lenda da Bruxa de Blair em uma floresta em Maryland. Ao entrarem na floresta, eles acham se perdendo e percebem que existe algo de estranho na floresta.
Os Diretores e produtores foram pioneiros no uso do fake news na internet para divulgar o filme. Assim como “Canibal Holocausto”, que também divulgou que os atores haviam sido devorados pelos canibais, foi divulgado que os atores sumiram de verdade na floresta. Houve um enorme rebuliço e isso foi responsável pelo enorme sucesso do filme.
“A bruxa de Blair” não é uma unanimidade entre os fãs de horror. Tem gente que acha tudo ruim, sem roteiro, sem sangue, sem
Violência, a câmera tremida demais, personagens chatos demais. Independente disso tudo, é inegável a força que o filme teve para recolocar o filme de terror de novo na pauta dos espectadores.
Kramer Vs Kramer
"Kramer Vs Kramer", de Robert Benton (1979)
Essa obra-prima do Cinema acaba de completar 40 anos. Lançado em 1979, o filme abocanhou 5 merecidos Oscar: Melhor filme, diretor, ator (Dustin Hoffman), Atriz coadjuvante (Meryl Streep) e roteiro. Uma pena que o filme não tenha ganho os Oscars de ator coadjuvante, para a impressionante performance de Justin Henry, no papel do filho Henry, de apenas 7 anos de idade, e de fotografia, de Nestor Almendros.
O filme aborda o processo de divórcio de um casal aparentemente feliz, e como essa separação se torna devastadora para o filho do casal, que sofre mais do que os próprios pais. Ted (Hoffman) é um bem sucedido Diretor de arte de uma agência de publicidade, e ao chegar em casa para dar as boas novas de sua promoção, descobre que sua esposa, Joanna (Streap) está indo embora, abandonando ele e o filho. Joanna se tornou uma mulher infeliz : Ted passa mais tempo se dedicando ao trabalho do que à ela e ao filho. Ted precisa aprender a conhecer seu filho e a cuidar dele. No início desastroso, aos poucos ele vai processando a relação com o menino. Quando tudo parece estar indo bem, Joanna surge querendo a guarda do filho.
Centenas de dramas surgiram depois do filme copiando esse formato de drama de tribunal. Mas os diálogos, primorosos, fortalecem os podres do relacionamento e da interação com advogados que não pensam no emocional, e sim, em ganhar a causa, nem que para isso precisem destruir a outra pessoa. Todo o elenco de apoio é brilhante. Mas de fato, o filme pertence a Hoffman, Streap e ao pequeno Justin, um talento impressionante para alguém com apenas 7 anos de idade. Suas cenas, principalmente a do hospital e a cena final na cozinha, são de cortar o coração.
domingo, 8 de setembro de 2019
As lágrimas da Aids
"Les larmes du Sida", de Paul Vecchiali (1996)
Um daqueles filmes obscuros do cinema que você descobre totalmente ao caso ao fuçar a internet. Cult bizarro Lgbtqi+ dos anos 90, o filme francês "As lágrimas da Aids" narra a história de um homem negro casado com uma mulher. Todas as tardes, esse homem vai até a praia. Sedutor e musculoso, o homem negro atrai as atenções de todos que passam por ali, mesmo porquê ele fica totalmente nu na praia. Um dia, ele se apaixona por um homem. Eles vão até uma área escondida da praia e fazem sexo. Eles mantém relações dias seguidos, até que o outro homem revela estar com HIV. O homem negro ( o personagem não tem nome) aceita a condição do outro ser soropositivo e convive com ele até a sua morte.
Repleto de cenas de nudez e homoerotismo explícito, o filme é filmado de forma a valorizar o corpo masculino, um deleite para espectadores voyeurs. Repleto de tensão sexual, é um filme estranhíssimo na sua narrativa, todo narrado em off pelo homem negro. Pode-se dizer que é um filme misógeno, pois não cabe nenhuma dramaturgia para a esposa traída.
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
It- Capítulo 2
"It- Chapter 2", de Andy Muschietti (2019)
Todo mundo já sabe que a garotada do filme anterior, ambientada em 1989, já cresceu e agora precisam retornar à cidade de Derry, 27 anos depois, para acabar de vez com It, que retornou para apavorar geral as novas crianças e o Clube dos Otários.
A expectativa sobre esse filme era gigantesca, principalmente por conta dos atores adultos que iriam interpretar os geniais atores jovens do filme anterior. Como os produtores não são bobos nem nada, e sabem do carisma do elenco jovem, criaram um roteiro onde os dois tempos, e consequentemente os 2 elencos, estão presentes.
Todos fazem bonito, com destaque para Bill Hader e James Ransone, nos papéis de Richie e Eddie, que possuem as cenas mais emotivas, daquelas de fazer chorar.
A eles, se juntam Jessica Chainstain (Beverly), James McAvoy ( Bill), Isaiah Mustafa (Mike), Jay Ryan (Ben) e Andy Bean (Stanley). O filme tem cenas primorosas, como a do parque de diversões na sala dos espelhos, a da aranha que homenageia "O enigma do outro mundo" e a linda cena do banho de rio. como no anterior, o filme, além de terror, investe bastante no drama e no melodrama.
Muita gente anda criticando o filme, esperando mais sangue, mais violência, um filme com menos duração ( são quase 3 horas de filme). Sim, o filme é longo e sim, poderia ter meia hora a menos, principalmente quando reaparece um personagem do filme anterior que quer vingança. Mas a parte emotiva é tão linda e encantadora, que não teve como eu não ficar apaixonado. Chorei bastante.
E Bill Skarsgård, como Pennywise, é simplesmente arrasador!
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
The souvenir
"The souvenir", de Joanna Hogg. Vencedor do Grande Prêmio do Juri em Sundance 2019 na categoria "World Cinema Dramatic", e também concorrendo em importantes Festivais como Sidney, Berlim e Edimburg, "The souvenir" é uma autobiografia da escritora e diretora Joanna Hogg, durante o período em que ela estudou Cinema e teve um relacionamento tóxico com um viciado em heroína.
Ambientado nos anos 80, o filme conta a história de Julie (Honor Swinton Byrne, filha real de Tilda Swinton), uma jovem
estudante de Cinema, bancada por sua mãe interpretada por Tilda Swinton. Julie mora sozinha e escreve o roteiro de um longa-metragem, onde ela quer contar a vida de operários de um cais do porto. Estudiosa de Cinema e auto-didata, Julie conhece Anthony (Tom Burke), que diz trabalhar para o Governo. Ela se apaixona por ele, e o convida para morar com ela em sua casa. Aos poucos, Anthony vai se revelando como um homem possessivo, que menospreza os ideais de Julie como Cineasta e autora e para desespero de Julie, um viciado em heroína. Anthony passa a pedir dinheiro emprestado a Julie, que não consegue deixar de amar Anthony.
Nossa, confesso que achei o filme chatíssimo. Arrastado, com cenas aleatórias, e um roteiro que pouco seduz o espectador, mesmo para os apaixonados por Cinema. Para piorar a situação, fica difícil aturar esse relacionamento entre Julie e Anthony, e mesmo que baseado em história real, é irritante observar uma mulher inteligente e acadêmica como Julie se sujeitar a um homem totalmente desprezível. O que salva o filme são as atuações de Honor e de Tilda, que foi envelhecida para aparentar mais idade. Tom Burke está bem, mas seu personagem é tão chato que ficava desejando que ele morresse ou fosse preso imediatamente, em menos de 5 minutos de cena.
Chocado ao saber que o filme terá uma continuação.
Até os cowboys choram
"Cowboys janken ook", de Mees Peijnenburg (2013)
Premiado curta holandês, narra a amizade de dois adolescentes, Sven e Gijs em Armsterdam. Ambos mulherengos, mas Sven é inconsequente e acaba se envolvendo em uma briga ao paquerar a garota de outro rapaz. Gijs surge para separar a briga e acaba levando uma pedrada na cabeça, o que o faz entrar em coma.
Sven se sente culpado, e visita Gijs todos os dias no hospital. Quando Gijs finalmente sai do coma, a amizade dos dois é desafiada.
Bem dirigido e com ótimas interpretações dos dois jovens atores, "Até os cowboys choram" é uma ode à amizade, com aquele ar de nostalgia de "Conta comigo". Bela reflexão sobre a finitude e fragilidade da vida.
2 + 2
"2+2", de Diego Kaplan (2012)
Divertida comédia dramática argentina, repleta de malícia e picardia, "2 + 2" foi indicada a diversos prêmios em Festivais de cinema.
O filme brinca com o tema do desgaste no casamento, e de que forma dar uma apimentada na relação. Ao invés de recorrerem aos tradicionais sex shops, os dois casais protagonistas do filme sugerem uma relação de Swing entre eles.
Diogo e Ricardo são amigos na faixa dos 40 anos, Sócios de um conceituado hospital, ambos são médicos cirurgiões bem sucedidos. Emília é esposa de Diogo, e Betinna, de Ricardo.
Diogo e Emília tem um filho adolescente, Lucas. Diante da aparência de um casal feliz, entre quatro paredes o casal revela ser infeliz sexualmente. Diogo é careta, e evita as investidas sexuais da esposa. Durante um jantar entre os amigos, ricardo e Bettina fazem uma revelação: Frequentam encontros de swings entre casais e concluem que após essa experiência, a vida do casal melhorou bastante. Diogo e Emília ficam chocados, mas Emília aos poucos vai se seduzindo pela idéia de fazer parte de um swing, principalmente depois que Ricardo e Bettina convidam os dois para fazerem parte. e mais: querem que Diogo e Emília tenham sua primeira experiência...com eles.
Com muitas gags e situações envolvendo todos os tipos de atividades sexuais, o filme diverte bastante, com pelo menos uma sequência antológica: a festa de casais de swings. A direção dribla bem as cenas de sexo e nudez com bastante inteligência. Os 4 atores são incríveis, cada um com uma personalidade bem distinta. O filme é uma comédia para adultos, que muito provavelmente irá fazer a platéia refletir sobre o tema. A fotografia é do Mestre argentino Felix Monti.
Conversando com a minha mãe
"Talking to my mother", de Leon Le (2014)
Premiado em diversos Festivais LGBTQI+, "Conversando com a minha mãe" é escrito e dirigido pelo Cineasta vietnamita Leon Le, atualmente morando em Nova York. Leon desejou filmar essa história no Vietnã, mas por causa da censura contra os filmes de temática gay, ele resolveu filmar nos Estados Unidos, escalando atores chineses para os papéis principais.
Michael é um jovem chinês que visita a sua mãe. Michael é filho único e sua mãe é viúva. Há anos sem visitá-la, Michael e sua mãe conversam cobre o casamento de Michael. A mãe pergunta sobre Julianne, a noiva. Até que Michael confessa que ele não está mais com Julianne, e sim, resolveu assumir o seu namoro com um outro rapaz chinês. A mãe, compreensiva, apoia o filho em suas escolhas. O filme então revela que toda a conversa de Michael e sua mãe na verdade é imaginário do filho: a mãe está morta, e Michael veio para o funeral dela.
Com uma narrativa e estética totalmente referenciada no cinema de Won Kar Wai, o cineasta Leon Le não faz questão de esconder que seu filme é uma homenagem ao diretor de Hong Kong. O melodrama, a música pomposa, a câmera lenta, os planos estilizados e a fotografia desenhada, com direção de arte vintage. Tudo no filme é sofisticado e pomposo. "Conversando com a minha mãe" é um belíssimo filme, emocionante, com os atores interpretando de forma rebuscada e nostálgica.
domingo, 1 de setembro de 2019
Confissões em um jantar
"Chin Mi Kao Pai", de Lin Chih-Jen (2015)
Lindo curta LGBTQI+ de Taiwan, realizado com baixíssimo orçamento. Na cartela final, o filme avisa que todas as falas foram improvisadas, e é possível observar esse total naturalismo dos 3 atores em cena.
Che é um adolescente que janta com sua mãe solteira. Durante o jantar, ela diz que encontrou uma revista com nus masculinos no quarto dele. Che fica pasmo, sem saber o que responder. Nesse momento, chega Chun Hao, namorado de Che e que resolve anunciar para a mãe de Che que eles são namorados.
O filme depende totalmente dos atores e dos diálogos para trazer emoção, e mesmo com problemas técnicos ( som direto chiado) o filme funciona belamente. É emocionante observar os silêncios, os olhares entre os 3 personagens, lindamente interpretados.
O filme é uma aula de interpretação naturalista, dirigida com sensibilidade e que cumpre o que promete.
Kiss me softly
"Kus me zachtjes", de Anthony Schatteman (2012)
Premiado curta belga LGBTQI+, "Kiss me softly" narra a história de um adolescente, Jasper, que sofre com a sua homossexualidade. Humilhado na escola, ele prefere viver uma vida enrustida dentro de casa, com seu pai conservador, Luke, um cantor cafona para a terceira idade, e sua mãe, uma mulher frustrada que passa o dia todo fazendo apostas em loterias.
Um filme simpático, com atores carismáticos, mas com um roteiro muito mal desenvolvido no seu final, que prefere apostar em um mundo cor de rosa ao invés de enfrentar a dura realidade entre filhos gays e pais moralistas.
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