sábado, 14 de setembro de 2019
Você não sai da minha cabeça
"You go to my head", de Dimitri de Clercq (2017)
Vencedor de quase 40 prêmios internacionais, "Você não sai da minha cabeça"é uma co-produção Alemanha/ Bélgica e França, escrita e dirigida por Dimitri de Clercq.
O roteiro é bastante polêmico, e por isso mesmo, instigante e aterrador. Jake (Svetozar Cvetkovic) é um antropólogo que mora no deserto do Marrocos, em uma linda e suntuosa mansão. Um dia, ao seguir de jipe até a cidade, ele encontra um carro acidentado. Dentro do carro, um casal: o homem morto, a mulher, ferida e desmaiada. Jake leva a mulher até sua casa para cuidar dela. Ao recobrar os sentidos, Jake percebe que ela está desmemoriada, sem saber quem é e de onde veio. A mulher é linda, sensual. Jake resolve se aproveitar da situação: diz à misteriosa mulher que ele é seu marido, que são casados. A partir daí eles convivem como casal, transam. A mulher está muito feliz. Mas Jake não poderia imaginar que a memória dela, aos poucos, vai retornando.
O filme poderia facilmente ser alvo de militantes por conta da história pesada de assédio sexual. Mas essa questão passa longe, a partir do momento que a gente vai entendendo quem é essa mulher. Com interpretação fabulosa dos 2 atores ( o filme é praticamente eles dois), uma fotografia estonteante do deserto de Marrocos, filmado todo em luz natural e uma direção segura e conduzindo com estilo as cenas de sexo e nudez, "Você não sai da minha cabeça" é um delírio estilístico de ótima qualidade. Um filme para adultos, envolvente, lento mas sublime.
Cine Pesadelo
"Nightmare cinema", de Alejandro Brugués, Joe Dante, Mick Garris, Ryûhei Kitamura, David Slade (2019)
É aquela velha história: Filme de terror dividido em episódios, diretores convidados, e claro, alguns episódios melhores que os outros.
Aqui não seria diferente: São cinco contos, colados com uma história que acontece em uma sala de cinema chamada Rialto, e onde o projecionista é Mickey Rourke, com a cara mais monstruosa devido às plásticas que qualquer outro monstro que aparece em algum dos episódios.
- O 1o ep é sobre um acampamento adolescente. Uma nave alienígena pousa e dele saem milhares de aranhas que querem matar geral. Cada um tenta salvar a si próprio, e além das aranhas, são ameaçados por um soldados serial killer. Razoável.
- O 2o ep é sobre um casal. A mulher tem uma cicatriz no rosto e quer fazer uma plástica. Ela vai até uma clínica, comandada por Richard Chamberlain, e ela descobre que o lugar na verdade deixa as pessoas com aparência monstruosa. Fraco.
- O 3o ep é de uma escola católica, onde as crianças são possuídas pelo demônio e o padre e a freira, que são amantes, precisam matar todas as crianças. O melhor de todos, pelo politicamente incorreto: as crianças são mutiladas, decapitadas!
- O 4o ep se passa em um futuro distópico: filmado em preto e branco, uma mulher supostamente paranóica procura ajuda: ela vê todo mundo com aparência monstruosa. Estranho, não curti,
- O 5o ep é sobre um garoto que leva um tiro e fica entre a vida e a morte. Quando ele sai do coma, tem o poder de ver os mortos, até ser perseguido por um serial killer
O filme de uma forma geral é muito fraco, uma frustração enorme. Ver nomes como Joe Dante fazer um curta tão longe de tudo o que ele já fez de bom nos anos 80, é desolador. Um desperdício incrível de Mickey Roruke, que praticamente faz figuração.
Quando ladram os cães
"Quando ladram os cães", de Rafael Farina (2014)
Curta realizado por alunos da FAAP, "Quando ladram os cães" já participou de diversos Festivais e traz um mosaico interessante sobre a escalada da violência nas grandes cidades, no caso, São Paulo. O filme, realizado em 2014, remete bastante ao drama de Walter Salles, "Linha de passe", que mostra a mesma tensão da Metrópole, inclusive tendo como protagonista o mesmo Ator, Vinícius de Oliveira. Ele interpreta um motoboy, que precisa fazer uma entrega urgente em uma casa. Paralelo, temos um casal de classe média alta, que mora nessa casa onde será feita a entrega. Eles estão paranóicos com a questão da violência e armam a casa com todos os tipos de equipamento de segurança.
Uma visão caótica de São Paulo e um olhar melancólico e sombrio sobre a vida das pessoas que moram na cidade, "Quando ladram os cães" é um ótimo exemplo de filme universitário realizado com esmero técnico e qualidade.
Participação dos atores Milton Aires, Renan Bleastè, Yazbek e Tatiana Rehder, além de Vinícius.
Link para assistir ao filme:
https://vimeo.com/162855303
Teenagers
"Teenagers", de Paul Verhoeven (2011)
Considerado por vários Críticos como o pior filme já exibido na história do Festival de Cannes, "Teenagers" é provavelmente, o filme mais bizarro que qualquer cinéfilo terá visto em sua vida.
A começar pelo nome do Cineasta e roteirista Paul Verhoeven: francês, Paul Verhoeven é homônimo de seu famoso primo holandês, diretor de "Robocop", "Elle", "Conquista sangrenta" e outros cults do cinema.
"Teenagers" tem uma estética de videos caseiros realizados nos anos 80, aqueles típicos vídeos de casamento, gravados em VHS: edição com powerpoints, corte de cena com efeitos de corte com estrelinhas, corações, fades, etc.
A trilha sonora é toda de música sacra, e o filme tem um tom doutrinário, religioso.
Os atores são os piores que você possa imaginar: todos os atores interpretam seus textos como se tivessem acabado de decorar, declamando as palavras de forma extremamente falsa e sem emoção. O elenco infantil e adolescente falam seu texto complexo, repleto de elementos mitológicos, religiosos, políticos, metafísicos, e é claro pela expressão dos atores, que eles não fazem idéia do que estão falando.
Mas o mais absurdo e chocante está por vir: os personagens são garotos e adolescentes, em idade entre 12 a 15 anos, totalmente nús, em situações implícitas de sexo. Um desses garotos pratica bullying em outro, chicoteando-o, cuspindo, piando obrigando-o a lamber seus pés, ou seja, todos os tipos de fetiche que se possa imaginar acontecem aqui.
O filme, de inacreditáveis 156 minutos!!!!!, é dividido em 3 atos:
O protagonista é Lucas, que no 1o ato, tem 12 anos e se passa e 1983: ele vai morar com um amigo de sua família. O rapaz pratica todo tipo de bullying em Lucas, fazendo-o sangra, sem dó nem piedade, e obrigando-o a ficar totalmente nú, e trabalhando para ele como um escravo. Mas o amor de Lucas pelo rapaz é tão intenso, que ele releva todos os sofrimentos.
No 2o ato, já adolescente, Lucas acolhe um garoto de 12 anos, Said. Logo se descobre que Said é um terrorista mirim, com a missão de assassinar Lucas, por conta de letras de música que ele compõem e que vai contra os preceitos do grupo terrorista. Mas Said se apaixona perdidamente por Lucas.
No 3o Ato, Lucas conhece Alexis, um garoto que deseja praticar o bem. Lucas é apresentado aos pais de Alexis e juntos, procuram evitar que um amigo de Alexei se mate.
De verdade, tudo o que se vê no filme é inacreditável,e acada minuto, a gente fica se perguntando como alguém conseguiu conceber esse filme. A coisa é tão surreal, que tem uma enorme cena onde Said e Lucas conversam, falando sobre vários assuntos, e por cima da imagem dos dois, vão aparecendo fotos congeladas de animais, objetos, etc, como se fosse um powerpoint mal-feito de um trabalho escolar, com uma narração eletrônica de uma espécie de Siri do Iphone.
O filme, pasmem, ganhou alguns prêmios internacionais, não faço idéia em cima de qual critério.
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Cyrano, meu amor
"Cyrano, mon amour", de Alexis Michalik (2018)
Excelente comédia francesa, um hino de amor ao Teatro e às Artes de uma forma geral ( Cinema, escrita). O filme me remeteu o tempo todo à obra-prima de Ettore Scola, "A viagem do Capitão Tornado", que fala sobre uma trupe mambembe de Teatro se apresentando para pessoas desinteressadas por Cultura.
O roteiro de "Cyrano, meu amor", é um primor, escrito pelo próprio Diretor, Alexis Michalik. Dentro da estrutura, ele brinca em vários níveis com a história de Edmond Rostand, o escritor que escreveu o clássico "Cyrano de Berjerac" em 1897.
Edmond (Thomas Solivérès, excelente) é um jovem poeta que escreveu uma peça para a famosa Atriz Sarah Bernardt. Mas a peça é um fracasso. Edmond fica 2 anos sem escrever nada, em crise de criatividade. Casado e com dois filhos, afundado em dívidas, ele é apresentado por Sarah ao famoso ator Constant Coquelin (Olivier Gourmet, fabuloso). Coquelin está em desgraça: ao sair da famosa Companhia Comedia Française, ele foi proibido de se apresentar em qualquer teatro de Paris. Mas ele topa a empreitada de Edmond e aceita protagonizar sua próxima peça, que ainda nem está escrita. Se inspirando na história do seu melhor amigo, um ator bonito mas sem talento para a escrita, apaixonado por uma mulher que adora ouvir poesias, Edmond passa a escrever a famosa peça.
Com um talento impecável de todo o elenco ( o próprio Diretor Alexis Michalik interpreta Georges Feydeau, o maior autor da época) e uma parte técnica de primeira linha ) Direção de arte, maquiagem, figurinos, fotografia, trilha sonora), "Cyrano , meu amor" é um filme que prima pela sua paixão ao universo Teatral. O espectador acompanha todo o processo de criação de uma obra, com todos os seus revezes, de forma genial, divertida e apaixonante. Costurado como uma comédia romântica, o filme traz todos os elementos para agradar a platéia, em uma junção feliz entre Arte e entretenimento.
A música da minha vida
"Blinded by the light", de Gurinder Chadha (2019)
Adaptação do livro autobiográfico do jornalista Paquistanês Sarfraz Manzoor, que cresceu na Inglaterra, "A música da minha vida" é dirigido pela Cineasta Gurinder Chadna, que também fez a adaptação do livro para as telas.
O filme se passa em Luton, município distante de Londres, no ano de 1987. Pressionado pelo alto desemprego e pela crescente xenofobia, o jovem estudante paquistanês Javed (Viveik Kalra, ótimo) tem um sonho: poder sair de sua cidade e ganhar a vida como escritor. Mas o seu pai, Malik (Kulvinder Ghir, excelente) quer que o filho siga a tradição de sua cultura: cuidar de sua família e ficar com ela. Em conflito, Javed tem um melhor amigo, Matt, roqueiro e amante de música pop de sintetizadores. Um dia, Javed é apresentado à música de Bruce Springsteen por um outro estudante paquistanês, Roops, e fica encantado com as letras das músicas, que falam da classe operária e a constante luta do dia a dia.
"A música da minha vida" é um bom filme, mas que perde em comparação "Yesterday", que tem temas muito semelhantes: culto à uma celebridade da música ( em 'Yesterday", são os "The Beatles"), a paixão de um jovem paquistanês por uma inglesa nativa ( em 'Yesterday", é um hindu"), a frustração profissional e a busca por reconhecimento. Tem também que não sou um fã de Bruce Springsteen, então assistir por duas horas um filme repleto de canções do "The Boss" requer um desprendimento muito grande. O que me fez gostar do filme é o belo trabalho do elenco, e também, as músicas pop apresentadas no filme, que vão de Pet Shop Bpys, Tifanny e outros clássicos.
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Estranho mas real
"Strange but real", de Rowan Athale (2019)
Baseado em uma novela de John Searles, "Estranho mas real"é um ótimo exercício de suspense, repleto de camadas, que vai do drama, ao romance e ao sobrenatural.
Melissa ( Margaret Qualley) é uma jovem que, cinco anos após a morte de seu namorado, vai na casa da família dele, dizendo estar grávida dele. A morte do filho abalou Charlene (Amy Ryan) , a mãe, que acabou se separando do marido, Richard (Greg Kinnear).
Seu filho mais jovem, Philip (Nick Robinson , de “Love, Simon”) sofre com a morte do irmão igualmente. Melissa foi adotada por um casal de idosos, Bill e Gail (Blythe Dennar). Nesse ambiente de personagens ambíguos, não se pode confiar em ninguém.
Com uma ótima direção e um elenco em estado de graça, o filme conduz o espectador até um desfecho tenso, passando por referências a “Bebê de Rosemary” e filmes de serial Keller.
Ótima atmosfera em um filme que recupera de certa forma o suspense noir, repleto de texturas.
Divaldo- o mensageiro da Paz
"Divaldo- o mensageiro da Paz", de Clóvis Mello (2019)
Atualmente com 92 anos, Divaldo Franco nasceu em 1927 em Feira de Santana. Desde criança, ele descobriu ter poderes mediúnicos e assessorada por seu espírito amigo (Regiane Alves, interpretando o espírito de uma Freira) ele reconhece a capacidade de poder falar com os mortos. O filme acompanha os mais de 50 anos dedicados por Divaldo à mediunidade, desde a descoberta, a aceitação e a criação de uma Associação, futuramente chamada de Mansão do Caminho, que hoje em dia, atende mais de 6 mil pessoas em Salvador. Na mansão, Divaldo abriga milhares de pessoas necessitadas.
O que diferencia o filme espírita de outras produções do gênero, é que ele procura informar o espectador, mesmo que de forma didática, sem aquela aura pomposa e monótona. Os personagens agem como pessoas normais. Divaldo é muito bem defendido por 3 atores, com destaque para Ghilherme Lobo, que representa a fase mais complexa de Divaldo, que é a da aceitação e os conflitos de um jovem que tinha um sonho na vida e que acabou se dedicando a algo que jamais havia imaginado acontecer em sua vida. Ghilherme traz um humor delicioso ao personagem, defendido depois por Bruno Garcia.
O elenco é o ponto forte do filme, com boa direção de Clovis Mello: Laila Garin, interpretando a mãe de Divaldo; Marcus Veras em um papel bizarro de um espírito de um padre meio sacana que tenta seduzir Divaldo para fora do espiritismo; além de um time de excelentes atores baianos que dão dignidade ao filme.
A morte e a vida de John F. Donovan
"The death and life of John F Donovan", de Xavier Dolan (2019)
Destruído pela crítica, "A morte e vida de John F. Donovan" pode não ser o melhor filme de Xavier Dolan, mas tem muitas qualidades. Talvez os críticos tenham se cansado do tema recorrente das mães que vivem constantemente infernizando a vida de seus filhos ( e aqui são 2 mães, interpretadas por Susan Sarandon e Nathalie Portman). Ou de saco cheio dos maneirismos estilísticos de Dolan, sempre usando câmeras lentas e trilha sonora pop. Ou quem sabe, mais uma vez criticando o que eles chamam de futilidades pós-adolescentes, ou o tema da saída do armário e homofobia, presentes em quase todas as suas obras.
Inegável é o Poder de seu elenco: Kit Harrington ( John Snow de "Game of Thrones), Nathalie Portman, Susan Sarandon, Kathy Bates, Jacob Tremblay ( o menino de "Extraordinário"), Thandie Newton. O filme se passa em 2 épocas, separadas por 10 anos:Nos anos 90, uma estrela de uma série de tv, John (Karrington) se corresponde por cartas com um menino de 11 anos, Rupert (Tremblay), sem que ninguém saiba. Em quase 100 cartas, John relata a sua vida real, um desabafo contra a sua vida falsa de artista. Dez anos depois de sua morte, Rupert, já adulto, resolve publicar um livro com o conteúdo das cartas. Entrevistado por uma jornalista (Newton), Rupert finalmente conta a história de John: gay enrustido, vivendo uma vida de mentiras, e constantemente brigando com sua mãe (Sarandon). O próprio Rupert, quando criança, também sofria bullying homofóbico na escola, e também discutia com sua mãe (Portman), que deposita em Rupert todas as suas frustrações: o abandono do marido e da vida de atriz.
Belamente dirigido, repleto de maneirismos, Dolan ainda inclui uma trilha recheada de clássicos pop, como Adele, "Bitter simphony", entre outros. Jacob como sempre impressiona em suas cenas dramáticas, e Portman e Sarandon compõem as mães de Dolan com muita precisão. Kit Harrington foi bastante criticado, sendo acusado de estar mecânico e sem emoção, o que é uma mentira, além de magnetizar a tela toda as vezes em que aparece em cena. Kathy Bates tem uma linda cena com Kit Harrington, onde ela faz um discurso sobre as escolhas que ela tomou na vida artística.
"A morte e vida de John F. Donovan" é um libelo a favor da liberdade do artista de se expôr como quiser pro mundo, além de uma ode ao amor da Mãe. Esse é o primeiro filme falado em língua inglesa de Xavier Dolan.
Legalidade
"Legalidade", de Zeca Brito (2019)
Lançar um filme como "Legalidade", que tem como pano de fundo o levante comandado por Leonel Brizola em 1961, então Governador do rio Grande do Sul para assegurar que o Presidente Jango Goulart assuma a presidência, evitando o golpe militar, parece ser um bom motivo para se discutir os caminhos da política brasileira nos dias de hoje.
"Legalidade" é um épico político, e também é um melodrama. Tendo claras referências à "Casablanca" e "O destino de uma nação"( no discurso final de Leonel Brizola), o roteiro é bem ambicioso, abraçando várias sub-tramas: um triângulo amoroso entre uma jornalista brasileira entreguista e que depois se arrepende, Cecília ( Cleo) e a relação com os irmãos Luiz Carlos (Fernando Alves Pinto) e o jornalista Tonho (José Henrique Ligabue). Tem também a trama de Leonel Brizola (Leonardo Machado, falecido), e em 2004, a trama da filha de Cecília, interpretada por Leticia Sabatella, tentando descobrir o que aconteceu com a sua mãe.
O filme alterna muitas imagens de documentário para poder atenuar as questões de orçamento, visível em cenas que exigiria uma produção maior. Durante a narrativa, perde-se o foco de quem é o protagonista, mas de uma forma geral, é um filme que merece ser visto, por trazer de volta um tema esquecido pelos brasileiros, e pelo trabalho de atores como Cleo, Leonardo Machado e Fernando Alves Pinto, dando dignidade ao projeto.
O filme competiu no Festival de Gramado 2019.
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Voyage
"Voyage", de Scud (2013)
Drama LGBTQI+ de Hong Kong, dirigido por um dos cineastas mais autorais da China. Scud, nascido em Hong Kong, já lançou outros filmes gays que viraram cults, como "Anfetamina" e "Adonis". O que une os três filmes, é a profusão de homens totalmente nús, modelos com pouco talento de interpretação mas que enchem a tela com corpos esculturais e beleza homoerótica.
Os filmes de Scud são obrigatórios para espectadores voyeurs que não se importam com a falta de roteiro. Em "Voyage", o diretor reúne alguns dos homens asiáticos mais belos que existem.
O filme tem como protagonista um jovem psiquiatra, que faz estudos sobre depressão e suicídio entre jovens. Ele passa a relatar várias histórias, acontecidas em diversos países, onde os protagonistas se mataram. O filme se compõe de pelo menos 10 episódios, cada um filmado em um País diferente.
O episódio que abre, ambientado na Mongólia, é o que mais choca em termos de violência gráfica. Na China comunista de Mao Tsé Tung, os chineses que precisavam passar por uma reforma educacional eram enviados à Mongólia para aprenderem a trabalhar e a seguir as normas do comunismo. Quem não seguisse a norma, era obrigado a se matar.
As outras histórias são ambientadas na Malásia, Armsterdam, Austrália, Hong Kong, Alemanha. A fotografia é um ponto alto do filme, valorizando as locações e a beleza dos modelos em histórias que falam sobre espíritos e amor platônico.
O desfecho é das coisas mais bizarras e grotescas que já assisti: um caçador, de chapéu e binóculo, mais caricato impossível, como se estivesse em um safari, observa dois gays brincando nús na praia e atira na cabeça deles. Fim.
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Ninjas
"Ninjas", de Dennison Ramalho (2010)
Obra-prima do cinema de horror brasileiro, "Ninjas" levou 2 Kikitos em Gramado no ano de 2019: Melhor ator para Flavio Bauraqui e melhor edição para Paulo Sacramento. O filme foi rodado em película 35 MM e é uma prova de que nada substitui a granulação do negativo.
Adaptado de conto de Marco de Castro (autor do livro que originou o primeiro longa de Dennison Ramalho, "Morto não fala", "Ninjas" faz uma incursão assustadora no universo da esquadrão da morte na periferia de São Paulo.
Jailton (Bauraqui) é um policial militar novato na corporação. Durante uma operação noturna em uma comunidade, ele acaba assassinando sem querer um garoto. Atormentado pelo espírito desse rapaz, Jailton decide entrar para a Igreja Evangélica, de onde tem visões de um Cristo que lhe entrega uma arma (uma cena antológica que remete a "Videodrome", de Cronemberg.
O Chefe de Jailton resolve incorporá-lo aos Ninjas, um grupo especial que usa touca de ninjas e contratados para exterminar ladrões e prostitutas.
"Ninjas" tem efeitos de maquiagem de Kapel Furman, sumidade no Brasil. A fotografia primorosa, explorando os horrores da realidade brutal da periferia, é de José Roberto Eliezer, um Mestre. O filme é assustador, e rigorosamente proibido para pessoas sensíveis. Em uma cena acachapante, um ladrão é obrigado a caminhar com pregos presos nas solas dos pés, uma tortura chamada de "Saltos altos". No elenco, Flavio Bauraqui está formidável, passando na tela toda a tormenta existencial de seu personagem, e que encontra a redenção através da violência, em um batizado de sangue, literalmente.
Segue o link para assistir ao filme.
https://vimeo.com/28896287
A bruxa de Blair
“The Blair witch project”, de Eduardo Sanchez e Daniel Myrick (1999)
“A bruxa de Blair” é, até hoje, um dos filmes mais rentáveis da história do cinema. Com um orçamento de 60 mil dólares, o filme arrecadou quase 250 milhões de dólares no mundo. Um grande feito para uma produção independente de horror, que não tem uma única cena de violência e nem uma gota de sangue. O filme é todo composto de tensão psicológica sobre aquilo que não vemos, estando apenas sugerido.
Foi alardeado pela mídia de que o filme inaugurou a narrativa do “Found footage”, mas isso não procede. O feito fica com o clássico de Ruggero Deodato, “Canibal Holocausto”, de 1977. O “Found footage” é aquela narrativa onde são encontrado material filmado de personagens que desapareceram e assim explicar o que aconteceu com eles. Depois da revisitação de “ A bruxa de Blair”, centenas de filmes de terror foram feitos no mundo inteiro copiando o seu estilo de câmera tremida e personagens gravando imagens sem parar.
O filme é composto de apenas três personagens: são três estudantes de cinema que resolvem investigar a lenda da Bruxa de Blair em uma floresta em Maryland. Ao entrarem na floresta, eles acham se perdendo e percebem que existe algo de estranho na floresta.
Os Diretores e produtores foram pioneiros no uso do fake news na internet para divulgar o filme. Assim como “Canibal Holocausto”, que também divulgou que os atores haviam sido devorados pelos canibais, foi divulgado que os atores sumiram de verdade na floresta. Houve um enorme rebuliço e isso foi responsável pelo enorme sucesso do filme.
“A bruxa de Blair” não é uma unanimidade entre os fãs de horror. Tem gente que acha tudo ruim, sem roteiro, sem sangue, sem
Violência, a câmera tremida demais, personagens chatos demais. Independente disso tudo, é inegável a força que o filme teve para recolocar o filme de terror de novo na pauta dos espectadores.
Kramer Vs Kramer
"Kramer Vs Kramer", de Robert Benton (1979)
Essa obra-prima do Cinema acaba de completar 40 anos. Lançado em 1979, o filme abocanhou 5 merecidos Oscar: Melhor filme, diretor, ator (Dustin Hoffman), Atriz coadjuvante (Meryl Streep) e roteiro. Uma pena que o filme não tenha ganho os Oscars de ator coadjuvante, para a impressionante performance de Justin Henry, no papel do filho Henry, de apenas 7 anos de idade, e de fotografia, de Nestor Almendros.
O filme aborda o processo de divórcio de um casal aparentemente feliz, e como essa separação se torna devastadora para o filho do casal, que sofre mais do que os próprios pais. Ted (Hoffman) é um bem sucedido Diretor de arte de uma agência de publicidade, e ao chegar em casa para dar as boas novas de sua promoção, descobre que sua esposa, Joanna (Streap) está indo embora, abandonando ele e o filho. Joanna se tornou uma mulher infeliz : Ted passa mais tempo se dedicando ao trabalho do que à ela e ao filho. Ted precisa aprender a conhecer seu filho e a cuidar dele. No início desastroso, aos poucos ele vai processando a relação com o menino. Quando tudo parece estar indo bem, Joanna surge querendo a guarda do filho.
Centenas de dramas surgiram depois do filme copiando esse formato de drama de tribunal. Mas os diálogos, primorosos, fortalecem os podres do relacionamento e da interação com advogados que não pensam no emocional, e sim, em ganhar a causa, nem que para isso precisem destruir a outra pessoa. Todo o elenco de apoio é brilhante. Mas de fato, o filme pertence a Hoffman, Streap e ao pequeno Justin, um talento impressionante para alguém com apenas 7 anos de idade. Suas cenas, principalmente a do hospital e a cena final na cozinha, são de cortar o coração.
domingo, 8 de setembro de 2019
As lágrimas da Aids
"Les larmes du Sida", de Paul Vecchiali (1996)
Um daqueles filmes obscuros do cinema que você descobre totalmente ao caso ao fuçar a internet. Cult bizarro Lgbtqi+ dos anos 90, o filme francês "As lágrimas da Aids" narra a história de um homem negro casado com uma mulher. Todas as tardes, esse homem vai até a praia. Sedutor e musculoso, o homem negro atrai as atenções de todos que passam por ali, mesmo porquê ele fica totalmente nu na praia. Um dia, ele se apaixona por um homem. Eles vão até uma área escondida da praia e fazem sexo. Eles mantém relações dias seguidos, até que o outro homem revela estar com HIV. O homem negro ( o personagem não tem nome) aceita a condição do outro ser soropositivo e convive com ele até a sua morte.
Repleto de cenas de nudez e homoerotismo explícito, o filme é filmado de forma a valorizar o corpo masculino, um deleite para espectadores voyeurs. Repleto de tensão sexual, é um filme estranhíssimo na sua narrativa, todo narrado em off pelo homem negro. Pode-se dizer que é um filme misógeno, pois não cabe nenhuma dramaturgia para a esposa traída.
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
It- Capítulo 2
"It- Chapter 2", de Andy Muschietti (2019)
Todo mundo já sabe que a garotada do filme anterior, ambientada em 1989, já cresceu e agora precisam retornar à cidade de Derry, 27 anos depois, para acabar de vez com It, que retornou para apavorar geral as novas crianças e o Clube dos Otários.
A expectativa sobre esse filme era gigantesca, principalmente por conta dos atores adultos que iriam interpretar os geniais atores jovens do filme anterior. Como os produtores não são bobos nem nada, e sabem do carisma do elenco jovem, criaram um roteiro onde os dois tempos, e consequentemente os 2 elencos, estão presentes.
Todos fazem bonito, com destaque para Bill Hader e James Ransone, nos papéis de Richie e Eddie, que possuem as cenas mais emotivas, daquelas de fazer chorar.
A eles, se juntam Jessica Chainstain (Beverly), James McAvoy ( Bill), Isaiah Mustafa (Mike), Jay Ryan (Ben) e Andy Bean (Stanley). O filme tem cenas primorosas, como a do parque de diversões na sala dos espelhos, a da aranha que homenageia "O enigma do outro mundo" e a linda cena do banho de rio. como no anterior, o filme, além de terror, investe bastante no drama e no melodrama.
Muita gente anda criticando o filme, esperando mais sangue, mais violência, um filme com menos duração ( são quase 3 horas de filme). Sim, o filme é longo e sim, poderia ter meia hora a menos, principalmente quando reaparece um personagem do filme anterior que quer vingança. Mas a parte emotiva é tão linda e encantadora, que não teve como eu não ficar apaixonado. Chorei bastante.
E Bill Skarsgård, como Pennywise, é simplesmente arrasador!
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
The souvenir
"The souvenir", de Joanna Hogg. Vencedor do Grande Prêmio do Juri em Sundance 2019 na categoria "World Cinema Dramatic", e também concorrendo em importantes Festivais como Sidney, Berlim e Edimburg, "The souvenir" é uma autobiografia da escritora e diretora Joanna Hogg, durante o período em que ela estudou Cinema e teve um relacionamento tóxico com um viciado em heroína.
Ambientado nos anos 80, o filme conta a história de Julie (Honor Swinton Byrne, filha real de Tilda Swinton), uma jovem
estudante de Cinema, bancada por sua mãe interpretada por Tilda Swinton. Julie mora sozinha e escreve o roteiro de um longa-metragem, onde ela quer contar a vida de operários de um cais do porto. Estudiosa de Cinema e auto-didata, Julie conhece Anthony (Tom Burke), que diz trabalhar para o Governo. Ela se apaixona por ele, e o convida para morar com ela em sua casa. Aos poucos, Anthony vai se revelando como um homem possessivo, que menospreza os ideais de Julie como Cineasta e autora e para desespero de Julie, um viciado em heroína. Anthony passa a pedir dinheiro emprestado a Julie, que não consegue deixar de amar Anthony.
Nossa, confesso que achei o filme chatíssimo. Arrastado, com cenas aleatórias, e um roteiro que pouco seduz o espectador, mesmo para os apaixonados por Cinema. Para piorar a situação, fica difícil aturar esse relacionamento entre Julie e Anthony, e mesmo que baseado em história real, é irritante observar uma mulher inteligente e acadêmica como Julie se sujeitar a um homem totalmente desprezível. O que salva o filme são as atuações de Honor e de Tilda, que foi envelhecida para aparentar mais idade. Tom Burke está bem, mas seu personagem é tão chato que ficava desejando que ele morresse ou fosse preso imediatamente, em menos de 5 minutos de cena.
Chocado ao saber que o filme terá uma continuação.
Até os cowboys choram
"Cowboys janken ook", de Mees Peijnenburg (2013)
Premiado curta holandês, narra a amizade de dois adolescentes, Sven e Gijs em Armsterdam. Ambos mulherengos, mas Sven é inconsequente e acaba se envolvendo em uma briga ao paquerar a garota de outro rapaz. Gijs surge para separar a briga e acaba levando uma pedrada na cabeça, o que o faz entrar em coma.
Sven se sente culpado, e visita Gijs todos os dias no hospital. Quando Gijs finalmente sai do coma, a amizade dos dois é desafiada.
Bem dirigido e com ótimas interpretações dos dois jovens atores, "Até os cowboys choram" é uma ode à amizade, com aquele ar de nostalgia de "Conta comigo". Bela reflexão sobre a finitude e fragilidade da vida.
2 + 2
"2+2", de Diego Kaplan (2012)
Divertida comédia dramática argentina, repleta de malícia e picardia, "2 + 2" foi indicada a diversos prêmios em Festivais de cinema.
O filme brinca com o tema do desgaste no casamento, e de que forma dar uma apimentada na relação. Ao invés de recorrerem aos tradicionais sex shops, os dois casais protagonistas do filme sugerem uma relação de Swing entre eles.
Diogo e Ricardo são amigos na faixa dos 40 anos, Sócios de um conceituado hospital, ambos são médicos cirurgiões bem sucedidos. Emília é esposa de Diogo, e Betinna, de Ricardo.
Diogo e Emília tem um filho adolescente, Lucas. Diante da aparência de um casal feliz, entre quatro paredes o casal revela ser infeliz sexualmente. Diogo é careta, e evita as investidas sexuais da esposa. Durante um jantar entre os amigos, ricardo e Bettina fazem uma revelação: Frequentam encontros de swings entre casais e concluem que após essa experiência, a vida do casal melhorou bastante. Diogo e Emília ficam chocados, mas Emília aos poucos vai se seduzindo pela idéia de fazer parte de um swing, principalmente depois que Ricardo e Bettina convidam os dois para fazerem parte. e mais: querem que Diogo e Emília tenham sua primeira experiência...com eles.
Com muitas gags e situações envolvendo todos os tipos de atividades sexuais, o filme diverte bastante, com pelo menos uma sequência antológica: a festa de casais de swings. A direção dribla bem as cenas de sexo e nudez com bastante inteligência. Os 4 atores são incríveis, cada um com uma personalidade bem distinta. O filme é uma comédia para adultos, que muito provavelmente irá fazer a platéia refletir sobre o tema. A fotografia é do Mestre argentino Felix Monti.
Conversando com a minha mãe
"Talking to my mother", de Leon Le (2014)
Premiado em diversos Festivais LGBTQI+, "Conversando com a minha mãe" é escrito e dirigido pelo Cineasta vietnamita Leon Le, atualmente morando em Nova York. Leon desejou filmar essa história no Vietnã, mas por causa da censura contra os filmes de temática gay, ele resolveu filmar nos Estados Unidos, escalando atores chineses para os papéis principais.
Michael é um jovem chinês que visita a sua mãe. Michael é filho único e sua mãe é viúva. Há anos sem visitá-la, Michael e sua mãe conversam cobre o casamento de Michael. A mãe pergunta sobre Julianne, a noiva. Até que Michael confessa que ele não está mais com Julianne, e sim, resolveu assumir o seu namoro com um outro rapaz chinês. A mãe, compreensiva, apoia o filho em suas escolhas. O filme então revela que toda a conversa de Michael e sua mãe na verdade é imaginário do filho: a mãe está morta, e Michael veio para o funeral dela.
Com uma narrativa e estética totalmente referenciada no cinema de Won Kar Wai, o cineasta Leon Le não faz questão de esconder que seu filme é uma homenagem ao diretor de Hong Kong. O melodrama, a música pomposa, a câmera lenta, os planos estilizados e a fotografia desenhada, com direção de arte vintage. Tudo no filme é sofisticado e pomposo. "Conversando com a minha mãe" é um belíssimo filme, emocionante, com os atores interpretando de forma rebuscada e nostálgica.
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