domingo, 14 de fevereiro de 2021

Agnes Joy


"Agnes Joy", de Silja Hauksdóttir (2019)
Indicado pela Islândia a uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro 2021, 'Agnes Joy" é um dramalhão escrito e dirigido pela cineasta Silja Hauksdóttir.
O filme tem como tema a forma como duas mulheres da mesma família, mãe e fila, lidam com o stress, a depressão e a vontade de serem livres e se libertarem de amarras impostas pela instituição familiar.
Rannveig, uma mulher de meia idade e trabalhando em uma empresa de cargas, é casada com Einer e mãe de Agnes, adolescente de 16 anos. Rannveig está estressada com o trabalho, cansada do casamento e pior, discute o tempo todo com Agnes, que tem vontades próprias e não quer mais fazer coisas que seis pais lhe impõem. Quando um vizinho se muda para a casa da frente, Hreinn, ambas as mulheres se envolvem emocionalmente e intimamente com ele, destruindo de vez a relação que tinham entre si.
O filme tem boas performances de Katla M. Þorgeirsdóttir e Donna Cruz, mãe e filha, mas é um filme que não traz nenhum frescor ao tema de mãe e filha disputando o mesmo homem. Vale pelas belas imagens da Islândia, e pela cena de teste de elenco entre Hreinn e Agnes, muito boa.

O dia em que me perdi


"El dia que me perdi", de Michel Zurita (2019)
Drama mexicano angustiante, sobre uma mulher, Carmen, casada com Javier e mãe de duas filhas pequenas, Xochil e Twinky.
Carmen sofre violência doméstica provocado pelo excesso de ciúmes de seu marido, que a espanca constantemente, diante de suas filhas. Carmen resolve fugir com elas. Javier descobre o paradeiro delas e sequestra as meninas. Carmen dá uma cartada final, que pode resultar em tragédia.
O filme mistura passado e presente e confunde as trajetórias de Carmen e de sua filha Xochil, já adulta. Não é um filme fácil de se ver, devido as muitas cenas de espancamento que Carmen sofre. Não recomendo esse filme para pessoas sensíveis, pois a angústia e a sensação de impotência são enormes, dá raiva. Fiquei revoltado.
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Notre Dame


"Notre Dame", de Valérie Donzelli (2019)
A atriz e cineasta francesa Valérie Donzelli explodiu em 2009 com o drama visceral 'A guerra está declarada", que competiu em Cannes e outros importantes Festivais. Depois de vários filmes, ela retorna com a comédia romântica musical 'Notre Dame", que conseguiu a grande proeza de concorrer no prestigiado e experimental festival de Locarno.
A crítica detonou o filme, chamando de "ignóbil, insosso", e outros adjetivos desqualificando o filme. Li várias críticas, e nenhum citou as diversas referências cinéfilas que ela traz ao filme: o cinema da nouvelle vague e sua liberdade criativa, principalmente na figura de Agnes Varda; e no cinema de Jacques Tati. Temos cenas de musical, teatro, pantomina, animação, mágica ( algumas cenas me lembraram do lúdico de "Milagre em MIlão", de Vittorio de Sica.
Maud Crayon (Valérie Donzelli) é uma arquiteta que é explorada por seu patrão no escritório de design. Ela é separada de Martial, desempregado, pai de seus dois filhos adolescentes. Maud descobre que, acidentalmente, ganhou o concurso de restauração da fachada da Catedral de Notre Dame, e essa reviravolta faz voltar à sua vida o jornalista Bachhus, seu ex-namorado (Pierre Deladonchamps). Dividida entre o ex marido e o ex namorado, Maud precisa lidar com a revolta da população que considera sua obra uma blasfêmia.
O filme é repleto de referências ao cinema da Nouvelle Vague, e possui pelo menos duas cenas antológicas: o musical da chegada dos turistas no apartamento, e o musical melancólico final na sala de cinema. O elenco esta confortável dentro da proposta ousada de Valérie Donzelli, que em mãos menos habilidosas deixariam as cenas com gosto duvidoso.

Duas tias loucas de férias


"Barb and Star goes to Vista del Mar", de Josh Greenbaum (2021)
Meu Deus, há quanto tempo eu não gargalhava tanto em gritos histéricos. Uma homenagem às comédias malucas dos anos 80 como "Corra que a polícia vem aí", "Top gang" e "Apertem os cintos, o piloto sumiu", "Duas tias loucas de férias"é protagonizado e escrito pelas duas das maiores comediantes americanas: Annie Mumolo e Kristen Wiig. Eu particularmente sou muito fã de Kristen Wiig, e a química das duas é fantástica: amigas na vida real, elas interpretam as solteironas de meia idade Barb e Star (Wiig). Quando elas são demitidas do emprego e expulsas do único clube que elas fazem parte, elas decidem tomar uma decisão: fazer a primeira viagem da vida delas. Ambas saem então de Nebraska para a ensolarada Flórida. Só que, além de tudo dar errado, elas se apaixonam por Edgar (Jamir Dorman, de "Cinquenta tons de cinza", hilário) , sócio de Sharon, uma cientista que deseja explodir a cidade por vingança.
Mesclando números musicais nonsense com muita gag maluca, o filme é de rachar de rir, com um elenco divertido com fisionomia caricata mas que funciona muito para que as piadas funcionem. Não tentem encontrar qualquer tipo de veracidade ou realismo, é desenho animado em carne e osso, muita doideira, a maioria bizarra e surreal. Colorido, animado, exculhambado, "Duas tias loucas de férias" é um respiro para o mundo real que estamos vivendo. Deixe-se levar pela proposta ousada e politicamente incorreta do filme.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Bliss- em busca da felicidade


"Bliss", de Mike Cahill (2020)
Escrito e dirigido por Mike Cahill, "Bliss- em busca da felicidade" um subtítulo em português que já entrega o filme. Impossível não pensar em Michel Gondry dirigindo esse filme, com roteiro escrito por Charlie Kauffman. Mike Cahill certamente buscou referências do escritor e diretor de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e faz uma visão lisérgica da mesma história.
Greg (Owen Wilson) trabalha em uma empresa de atendimento ao consumidor. Ele é divorciado e tem 2 filhos, Emily e Arthur, mas sua relação com todos é péssima. Quando Greg é demitido, surge um gatilho que o deixa transtornado. Acidentalmente, ele empurra o chefe que bate a cabeça e morre. Greg foge e conhece Isabel (Salma Hayek), uma mulher que diz que ambos estão vivendo em um mundo simulado. Greg se une à Isabel e ele procura entender o mundo de Isabel, que a fez entender que tudo é um simulacro e nada existe, nem mesmo sua filha Emily, que insiste em buscá-lo.
O filme tem um roteiro que no primeiro ato deixa o espectador bastante confuso. Mas se pensarmos em Gondry, tudo começa a fazer sentido. É um filme sobre sensações de quem usa rogas sintéticas e sai de si. No final das contas, é um filme melancólico que fala sobre duas pessoas losers, ela uma sem teto, ele demitido e uma família destruída. O filme poderia ter tido mais emoção, mas o diretor aposta na narrativa fria. É sem dúvida um filme ousado, um risco considerando os dois astros que ele tem no elenco e que pode enganar o espectador, em busca talvez de assistir à uma comédia. É um filme repleto de filosofia.

Aos olhos de Ernesto


"Aos olhos de Ernesto", de Ana Luiza Azevedo (2019)
Escrito por Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, esse delicado e comovente drama traz elementos de "Ensina-me a viver", mas ao contrário: uma jovem cuidadora de cães, Bia (Gabriela Poester) é vizinha de um idoso mal humorado e solitário, Ernesto ( o ator uruguaio Jorge Bolani, de "Whisky"). Ramiro (Julio Aadrade) tenta levar seu pai para morar com ele para são Paulo, mas Ernesto insiste em ficar em Porto Alegre. Ernesto está ficado cego, e pede para Bia ler as cartas que ele recebe de uma mulher por quem ele foi muito apaixonado no Uruguai. Bia tenta da forças para Ernesto ir encontrá-la, mas ele teme ser rejeitado.
Ana Luiza Azevedo já tinha realizado em 2009 o excelente drama juvenil "Antes que o mundo acabe". Seus filmes primam pela delicadeza e cuidado que ela tem em lidar com pequenos conflitos dos personagens. Vários temas são levantados: velhice, solidão, sororidade, falta de comunicação entre gerações. Com um excelente trabalho dos atores Gabriela Poester e Jorge Bolani, "Aos olhos de Ernesto" certamente irá deixar o público encantado. O único porém é sua longa duração, 123 minutos.

Atlantis


"Atlantis", de Valentyn Vasyanovych (2019)
Vencedor de diversos prêmios internacionais, incluindo melhor filme em Mostra paralela no Festival de Veneza, "Atlantis" foi indicado pela Ucrânia para concorrer à uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2021.
Composto de 28 rígidos e longos planos, o filme é ambientado em 2025, um ano após uma guerra entre a Rússica e Ucrânia que devastou ambos os paises: a água está contaminada, a floresta devastada. A população sobrevivente possui tensão pós traumática e muitos estão deprimidos e se suicidam. O jovem Sirhyi trabalha em uma siderúrgica, mas quando decidem fechá-la, Sirhyi vai trabalhar como exumador de cadáveres de soldados ucranianos. Ele conhece Kathya, uma esperança de um amor em um mundo onde as pessoas não sabem mais esse sentimento.
"Atlantis", apesar de tanta pompa, é um filme difícil de se assistir. Extremamente lento, de ritmo arrastado, com longos planos onde quase nada acontece, o filme tem um visual estonteante, com usinas siderúrgicas e maquinários instalados em grandes desertos. Mas fora o visual e a ousadia do diretor em contar uma história de narrativa tão fria, "Atlantis" é um olhar pessimista e desolador do futuro da humanidade.

Pânico na floresta: a Fundação


"Wrong turn", de Mike P. Nelson (2021)
A franquia "Pânico na floresta"deu início em 2003, e de lá para cá, vieram mais 5 filmes. Agora em 2021, foi lançado um reboot que muitos fãs e críticos detonaram dizendo não ter nada a ver com os filmes originais, pelo simples fato de não existir a família de canibais cegos da floresta. Como todo mundo sabe, em todos os filmes, um grupo de jovens se perde em uma floresta de Virgínia, aqui substituída pela Trilha dos Apalaches, e lá, são feitos reféns pelos canibais. O que muda aqui, é que ao invés dos canibais, temos uma civilização de hábitos primitivos, que moram na cidade mas também possuem moradia na floresta, que sequestram jovens e os matam. O filme começa com Scott (Matthew Modine), um pai em busca de sua filha desaparecida após fazer a trilha com um grupo de amigos na trilha dos Apalaches. O filme então corta para um flashback e apresenta o que aconteceu com Jennifer (Charlotte Vega) e seus amigos.
Misturando elementos de "A bruxa de Blair", "Midsommar" e "A vila", "o filme tem um ritmo arrastado, muito por culpa de suas quase duas horas de duração. Curiosamente, esse reboot não mostra as cenas de violência, fazendo quase sempre um corte na edição e mostrando o depois. O filme não é ruim, tem bons momentos, mas a duração excessiva e personagens ridículos e caricatos tiram o sabor de novidade. Modine e Charlotte Vega trazem boas performances a despeito do restante do elenco, que está razoável.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Willy's wonderland


"Willy's wonderland", de Kevin Lewis (2020)
Não sei exatamente em que filme Nicholas Cage se tornou o Rei dos filmes B, mas "Willy's wonderland" certamente é um dos filmes mais trash dessa safra. Mas um trash repleto de humor negro, de efeitos toscos, de roteiro ruim e atores amadores. Uma mistura de "Boneco assassino", "Pague para entrar, reze para sair" e principalmente "Banana split, o filme", a história mega batida mostra um homem, Nicholas Cage, sem nome de personagem, que tem o pneu estourado em uma estrada de uma cidade estranha. Ao pedir ajuda a um homem que passa em uma caminhonete, Cage descobre que para consertar o pneu precisa pagar em cash. Sem dinheiro, ele aceita trabalhar no parque de diversões Willy's wonderland por uma noite. O que ele não sabe, é que os bonecos do local foram possuídos por espíritos de serial killers, doidos para matar a próxima vítima.
Nem tem o que falar do filme: tudo é ruim, Cage passa o filme inteiro sem falar uma única palavra. Ruim, ruim, ruim, com bonecos vestidos por homens, mas se você estiver numa vibe de assistir filme trash e curte Nicholas CAge em seu momento canastra, assista sem medo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Rompecabezas


"Rompecabezas", de Dellani Lima e João Mostazo (2020)
Adaptação para o cinema da peça teatral "Roda Morta - Uma Farsa Psicótica by João Mostazo", o filme utiliza a mesma Cia teatral para compôr os personagens do filme.
Repleto de influências do cinema marginal dos anos 60 e 70, como "Bang bang" de Andrea Tonacci e filmes de Rogério Sganzerla, "Rompecabezas" é definido pelo próprio autor como uma farsesca visão sobre o fantasma da ditadura militar no Brasil, que veio à tona com o Governo de extrema direita e conservador de Bolsonaro. Um grupo de terroristas sequestram um ex-torturador que está em coma em um festival, e isso é pretexto para se discutir inúmeros temas recorrentes à vida artística e cultural no Brasil, em situação de penúria.
O filme teve pré-estréia no Festival Latino americano em SP 2020, e foi realizado com parcos recursos. De linguagem experimental e bastante teatral, não é filme para qualquer espectador. Eu mesmo não curti o filme, achei sua proposta narrativa bastante datada. Mas como possibilidade de se fazer um cinema e manter a cinematografia nacional funcionando, é uma proposta super válida.

Uma mulher extraordinária


"Nur eine frau", de Sherry Hormann (2019)
Hatun Aynur Surucu nasceu em 1982 e foi assassinada em 2005, pelo seu irmão caçula, Nuri, em Berlin. Aynuur (Almila Bagriacik, ótima) nasceu na Alemanha, mas a sua família migrou da Turquia para morar lá. Com 9 irmãos, Ayrun sofreu a vida toda nas mãos dos pais e irmãos rigorosamente religiosos, que seguiam todos os preceitos de costumes e hábitos dos muçulmanos. Obrigada a abandonar a escola na Alemanha e se casar com um primo aos 18 anos, Aynur, um ano depois, fugiu para Berlin para morar com sua família, acusando o marido de maus tratos. Ninguém de sua família acredita, Aynur dá a luz, e por falta de espaço em casa, ela diz que vai morar em um albergue para jovens mãos solteiras. Sua família a vê como prostituta, e a acusam de desonrar o sobrenome da família. Em 2005, seu irmão assassinou com tiros., em nome dos preceitos morais, acobertado pela justiça de sue país.
A cineasta Sherry Hormann já dirigiu filme sonde relata casos de abusos e crimes contra a mulher. Em 2009, lançou o "Flor do deserto", sobre uma jovem somaliana que pede refúgio em uma embaixada de Londres, após relatar crimes em seu país, como todas as meninas terem seu clitóris arrancados.
"Uma mulher extraordinária" já começa com Aynur narrando em off seu assassinato,e a partir daí, faz um relato de toda a sua existência. É um filme cruel, angustiante, violento, incômodo. Não é fácil de se ver o draa de Aynur que não encontra apoio nem com os familiares, mesmo sendo mulheres. Concorrendo em vários festivais, inclusive Tribeca, o filme é barra pesada, triste, um soco no estômago.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Branco de verão


"Branco de verano", de Rodrigo Ruiz Patterson (2020)
Drama mexicano que concorreu em importantes Festivais, como Sundance, traz o tema de um adolescente que mora sozinho com sua mãe e mantém um relacionamento de amor e ciúmes com ela. O pai depois que se divorciou nunca mais apareceu. Quando a mãe surge com um novo namorado, Fernando (Fabián Corres, excelente) faz de tudo para destruir a relação da mãe com o novo padrasto.
Dramas sobre adolescentes problemáticos existem aos montes, e "Branco de verão" é mais um a fazer um raio x de uma geração sme freio, que vai até às últimas consequências para conseguirem o seu intento. Violento, impulsivos, Fernando é puro ódio, provocado pela cegueira de ter o espaço do coração materno ocupado por um estranho. Confesso que esse tipo de personagem me irrita, ainda mais quando atuam de forma vilanesca. Valeu pelas performances, mas o roteiro me irritou profndamnete.

Nós duas


"Deux", de Filippo Meneghetti (2019)
Drama LGBTQIA+ francês indicado à uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2021.
Angustiante, o filme lembra "Amor", de Michael Haneke, e apresenta uma história de homofobia e intolerância contra duas mulheres de terceira idade, a alemã Nina (Barbara Sukowa, musa de Fassbinder) e Mado (Martine Chevallier). As duas mulheres durante décadas escondeu de todos uma relação homossexual. Dispostas a assumirem a relação, elas economizam dinheiro para viajarem para Roma. No entanto, quando Nina cobra de Mado que ela se assuma para os seus filhos, Mado acaba sofrendo um AVC e fica paralisada e sem falar. Nina faz de tudo para poder visitar Mado, se dizendo de melhor amiga para a cuidadora e para os filhos. Mas quando sente que os filhos querem afastá-la da mulher que ama, Nina resolve toma uma atitude radical.
Um melodrama denso, com atuações formidáveis de Martine Chevallier e Barbara Sukowa, o filme recebeu diversos prêmios internacionais. De ritmo lento, o que me incomodou foi o roteiro que parece punir o tempo todo as mulheres de seu amor, chega a ser irritante como a cada momento a história caminha para um final trágico, com todos os personagens de apoio de tornando vilões.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O que ela disse: as críticas de Pauline Kael


"What she said: the art of Pauline Kael", de Rob Garver (2018)
Falecida em 2001 aos 82 anos, Pauline Kael foi uma das mais famosas e controversas críticas de cinema americanas, atuando fortemente nas décadas de 70 a 90. Pauline escreveu suas críticas no The New Yorker e constantemente, recebia réplica de cineastas enfurecidos com suas críticas destrutivas. Famosa por ter detonado obras-primas de cineastas como Kubrick ( ela criticou 'A laranja mecânica" e "2001"). Pauline também ajudou a levantar e construir carreiras de atores e cineastas através de suas críticas.
Acusada de homofóbica em seus comentários, ela claramente odeia filmes com mensagens positivas como "Luzes da ribalta", de Chaplin, e "A felicidade não se compra", de Frank Capra. Apaixonada pela Nouvelle Vague e pelos cineastas americanos surgidos em Hollywood no final dos anos 60, Kael tinha uma língua afiada, sem qualquer tipo de rabo preso com nada nem ninguém, a ponto de romper com várias amizades por conta de suas críticas.
Um filme delicioso e obrigatório para cinéfilos.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Lara


"Lara", de Jan-Ole Gerster (2019)
Com uma extraordinária performance da atriz Corinna Harfouch, "Lara" é um drama alemão vencedor de dezenas de prêmios internacionais. Intenso e que lida com personagens depressivas e ansiosas por um elogio, "Lara" apresenta uma relação conturbada entre mãe e filho, ela ex-pianista que abandonou a carreira após um comentário abusivo do seu professor na época. Frustrada, Lara ( Corinna Harfouch) repassa esse mesmo comportamento opressor e abusivo no seu filho. Ela passa a vida toda reprimindo Viktor (Tom Schilling) durante as aulas de piano. Adulto, Viktor rompe relações com a mãe. No dia da estréia de seu concerto, coincidentemente, é o dia do 6o aniversário dela, e ele não a convida com medo dos comentários que ela possa fazer, pois ele sabe que ela ira dizer a verdade e não irá bajulá-lo. Lara está a um passo de se suicidar, mas um chamado policial acaba frustrando seus planos, e assim, ela decide ir ao concerto.
O filme lembra bastante o assédio moral de "Whiplash" e "A professora de piano". Lara é uma personagem complexa, facilmente vista como arrogante e má, mas dentro de si ela guarda mágoas. Um excelente estudo de personagens, mas também um filme difícil de se assistir pela sua forma como apresenta pessoas frágeis e por outro lado, pessoas com o dom do Poder que destróem carreiras.
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Nighthawks


"Nighthawks", de Ron Peck (1978)
Clássico obscuro do cinema Queer inglês, "Nighthawks" é considerado o primeiro filme produzido com protagonistas homossexuais e que retratam a sua vida. Lançado em 1978, o filme gerou verdadeiro escândalo, por mostrar a rotina noturna de homossexuais em boites e guetos, além de apresentar cenas de sexo com nudez frontal masculina, algo impensável e inédito para a época.
Jim (Ken Robertson) é um professor de geografia para criança sem uma escola. De noite frequenta boites gays, faz pegação e faz sexo indiscriminadamente com estranhos. Quando os alunos descobrem a sua homossexualidade, Jim resolve se assumir para todos.
O filme é um importante registro histórico da época, mostrando uma Londres efervescente com músicas disco e mais importante, uma ativa vida sexual gays nas boites em período pré-Aids. É possível notar que a sboites eram locais para sexo, com dark rooms e muita azaração.
O filme tem um olhar e uma narrativa totalmente documental, com uma câmera fria que faz questão de tornar tudo bastante apático e sem emoção.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Donas de alegria


Donas de alegria", de Frédéric Fonteyne e Anne Paulicevich (2019)
Filme indicado pela Bélgica à uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro 2021, 'Donas de alegria" é um drama relista sobre 3 mulheres que atravessam a fronteira da França com a Bélgica para viverem vidas duplas como prostitutas. Seus familiares ignoram a realidade da vida dessas mulheres batalhadoras da classe média baixa e moradoras da periferia parisiense. Axelle (Sara Forestier), 20 anos, é uma mãe que mora com 3 crianças pequenas e a sua mãe abusiva. Seu ex marido e pai das crianças continua infernizando a sua vida. Dominique (Noémie Lvovsky) é uma mulher de 50 anos, mãe de dois adolescentes problemáticos e que vivem pedindo dinheiro. Conso (Annabelle Lengronne) é uma imigrante africana que acredita que um de seus clientes irá se casar com ela. Para sobreviverem no mundo cão, elas contam com a sororidade entre elas.
Um filme que apresenta o pior do ser humano, onde os familiares são tão detestáveis quanto os clientes do bordel. Um filme que apresenta os homens todos como escroques e violentos, e onde as mulheres precisam se dar as mãos para poderem sobreviver. O filme traz uma mensagem pessimista sobre o fardo familiar, e apresenta uma realidade francesa muito distante do glamour da cidade Luz. Interessante, mas ao mesmo tempo, falta emoção e carisma às personagens.

Supernova


"Supernova", de Harry Macqueen (2020)
Grande sucesso no Festival de San Sebastian, "Supernova"é um drama LGBTQIA+ protagonizado por Colin Firth e Stanley Tucci. Ambos os atores são amigos de mais de 20 anos, e essa amizade permitiu que seus personagens ganhassem intimidade e uma interação únicas. O filme daria uma peça de teatro extraordinária com apenas 2 atores na faixa dos 50 anos de idade.
Sam (Firth), pianista consagrado, e Tusker (Tucci), um escritor igualmente elogiado, são casados há 20 anos e se amam. Quando Tusker mostra sinais de demência, ele procura se afastar de Sam para que esse siga uma vida nova. Mas Sam não quer, quer continuar com Tusker até o fim de seus dias. Sam é convidado para um concerto de piano, e ambos resolvem seguir de trailer até a cidade, e no caminho, o casal discute e reafirma seu amor.
Lindo, bem dirigido com sensibilidade e com apelo a um melodrama delicado, o filme ainda tem o reforço de ótimos atores ingleses. Mas é a elegância e o alto poder de atuação dos dois atores que permite que esse filme seja degustado com muita inteligência, e com diálogos saborosos e contundentes. Preparem os lenços.
Supernova é uma estrela que está prestes a explodir, e é a metáfora da condição de Tusker.

O mensageiro do último dia


"The empty man", de David Prior (2020)
Um drama de terror original e bastante interessante, "O mensageiro do último dia" só é prejudicado pela sua inacreditável longa duração: 144 minutos!!!!!! Algo incomum para um filme de gênero, mas essa coragem do diretor e roteirista David Prior, aqui estreando na direção de longa, em lançar um filme conforme ele concebeu, e não abrindo concessões, é digno de aplausos.
O prólogo do filme é praticamente um curta-metragem independente, e só ele já vale assistir ao filme. São 20 minutos, e só depois disso é que surge os créditos iniciais do filme e aí partimos para o protagonista da história. No prólogo, ambientado no Butão de 1995, 4 amigos fazem uma caminhada nas montanhas do Butão, até que um dele ouve uma voz e cai em um buraco, dando de cara com um esqueleto. A partir desse momento, o homem, Paul, fica catatônico. O destino reserva um desfecho trágico para os quatro amigos.
Em 2018, seguimos os passos de James Lasombra, um investigador atormentado pela morte de sua esposa e seu filho, em um acidente de carro. James reencontra um amiga, Nora, que lhe pede ajuda: sua filha Amanda desapareceu. Os caminhos de James e de Paul se juntarão através de uma seita que venera The Empty man, uma entidade que surge no terceiro dia da pessoa que o convoca.
O filme tem ótimas cenas de suspense e um belo trabalho de fotografia. Os atores são bons e ajudam a dar o tom realista que a história precisa, mesmo tendo elementos fantásticos. O filme se torna imprevisível, e o espectador fica curioso em saber como termina, e é aconselhável prestar bastante atenção, pois o último ato pode soar confuso. O filme é baseado em HQ homônima.
Obs: O filme foi filmado em 2017, e com a venda da Fox pela Disney, o filme foi engavetado e só agora em 2021 foi colocado para ser exibido. O que é mais bizarro, é que a Disney distribui o filme nos cinema, e o filme é super violento, com cenas gore que não tem nada a ver com o que prega a casa do Mickey.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Saudade


"Senhshut, de Jürgen Brüning (2003)
"When you jerk of, think of me.". Essa frase é dita pelo ator Aldri Anunciação para o seu amante, um jovem alemão, Erik, que veio para o Rio de Janeiro com dois outros amigos para curtir Paraty e Copacabana, além de conhecer homens. Essa frase deixa bem claro que filme vamos assistir: uma verdadeira salada que mistura lives de sexo gay ao vivo, umbanda, boites gays, drag queens doidas para fazer pegação, governanta brasileira que fala alemão, nativos que falam inglês e claro, aquele olhar estrangeiro exótico sobre o Rio de Janeiro. Esse samba do crioulo doido gerou um cult instantâneo, ruim demais e tosco até o último nível, mas por isso mesmo, hilário e imperdível para quem busca pérolas trash.
Além de Aldri, o filme conta com outros atores brasileiros consagrados, como Zezé Motta e Sergio Menezes. Mas o protagonismo é de 3 jovens rapazes alemães, Erik, Cyrus e Tim. Amigos de escola e integrantes de uma banda, cada um veio ao Rio com uma missão: Cyrus quer descobrir novos sons; Tim quer encontrar sua mãe brasileira; e Erik quer conhecer homens brasileiros. Eles alugam uma casa onde a governante fala alemão, e para financiarem a viagem e tudo o mais, eles gravam lives de sexo se pegando para homens ricos e tarados.
Tecnicamente o filme é pavoroso: fotografia que parece ter sido captada de câmera VHS, som inaudível, atores brasileiros falando um inglês sofrível, elenco de apoio amador, edição sem ritmo. Uma pérola deliciosa e imperdivel, com cenas homoeróticas de alta voltagem.