domingo, 10 de janeiro de 2021

Mama weedLa


"La daronne", de Jean-Paul Salomé (2020)
Um grande sucesso de bilheteria na França durante a pandemia, com mais de 400 mil espectadores, 'Mama weed" é adaptação de um livro de Hannelore Cayre e protagonizado por uma das maiores estrelas francesas, Isabelle Huppert. O filme merece uma refilmagem em qualquer país, pois a trama gira em torno de crise econômica, conflitos de terceira idade e corrupção, tudo em formato de comédia dramática policial.
Isabelle é Patience Portefeux, uma mulher que trabalha para tradutora de língua árabe para uma divisão de narcóticos, liderada pelo delegado Philippe (Hippolyte Girardot). Patience traduz e participa das ações. Ela passa por problemas financeiros: sua mãe, com Alzheimer, está em uma clínica com contas atrasadas. Durante uma escuta, Patience descobre que o filho da enfermeira de sua mãe está trazendo um carregamento de maconha, e ela decide então usar seus privilégios como policial para ela mesma recolher essa maconha e vender, se tornando uma poderosa traficante, enganando a polícia para a qual trabalha.
O filme funciona boa parte, mas no meio ele dá uma barrigada e fica arrastado, se recuperando depois no final. Transitando entre comédia, drama e policial, o filme tem uma ótima personagem em Isabelle, como sempre, formidável.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Orgasmo fake


"Fake orgasm", de Jo Sol (2010)
Vencedor de diversos prêmios em Festivais de gênero, "Orgasmo fake" é um curioso documentário espanhol, e tem como tema a questão do porquê as pessoas falseiam o orgasmo.
Lazlo Pearlman é um performer erótico e um artista conceitual em Barcelona. Lazlo é um homem trans. Ele realiza um concurso de quem consegue falsear o melhor orgasmo nos palcos de uma boite. Depois de um início onde homens e mulheres simulam orgasmo, Lazlo entrevista os convidados e os questiona sobre em que circunstâncias fingiram um orgasmo. O filme então muda de foco e apresenta Lazlo totalmente nú, um corpo trans sem a presença do pênis e de forma se chega a um prazer sexual com a sua parceira.
O filme em si é bem monótono, mas alguns momentos são divertidos, como o concurso de orgasmos, a simulação de ato sexual fake num palco e o desfecho, com Lazlo andando totalmente nú pelas ruas, para espanto das pessoa,s uma provocação das pessoas não acostumadas a ver um corpo em transição.

O Amor de Sylvie


"Sylvie's love", de Eugene Ashe (2020)
Para quem curte romances à moda antiga, 'O Amor de Sylvie" é imperdível. O filme traz toda uma nostalgia de um filme dos anos 50, época retratada no filme, com muita elegância na direção, direção de arte, fotografia, trilha sonora.
Tessa Thompson é Sylvie, uma mulher que trabalha na loja de discos de seu pai só para ficar perto dele, na NY do bairro de Harlen. Robert (Nnamdi Asomugha) é um saxofonista de um quarteto. Ao passar em frente da loja de discos e olhar para Sylvie, ele se apaixona de cara. Aproveitando que tem um anúncio para um balconista, ele se oferece. Sylvie de início não dá muita atenção a Robert, mas quando ela vai para um show e o vê tocando sax ela fica apaixonada. Mas acontece que ela já está noiva/
A história, escrita pelo próprio cineasta, traz um romance proibido bem aos moldes dos grandes dramalhões. Os protagonistas possuem carisma o suficiente para o espectador torcer por eles. Fiquei imaginando se "La La Land" tivesse uma continuação 5 anos depois da separação deles, e a resposta é esse filme aqui.

Shoujyo: uma adolescente


"Shoujyo", de Eiji Okuda (2001)
Polêmico drama erótico japonês, longa de estréia como diretor do ator Eiji Okuda.
Pegando referência em "Lolita", Okuda conta a história de um policial corrupto, Tomokawa (Okuda), que rouba os cães da vizinhança para depois devolver para suas donas que, em retribuição, fazem sexo com ele. Um dia, uma adolescente de 15 anos, Yoko (Mayu Ozawa), surge para Tomokawa e se oferece para fazer sexo com ele. Logo, Tomokawa fica seduzido pela menina e se tornam amantes. Mas ele percebe que a jovem tem conexão com uma antiga amante, com quem tatuou nas costas a sua história.
Um avô com desejos incestuosos pela neta, um homem de 40 anos fazendo sexo com uma menina de 15 anos. Proibido e chocante, "Shoyjyo: uma adolescente" ganhou diversos prêmios em Festivais internacionais, e tem recebido status de cullt. Nas adaptações de "Lolita", tanto de Kubrick quanto de Adrian Lyne, não havia cenas de sexo, diferente desse filme japonês, que não tem pudores sobre o tema. No próprio filme, ficamos sabendo que uma mulher de 16 anos já pode casar. A atriz Mayu Ozawa tinha 20 anos quando realizou o filme. De qualquer forma, a polêmica existe e o aviso para cinéfilos incautos é que saibam dos temas aqui retratados para evitar dores de cabeça desnecessárias.

Uma noite em Miam


"One night in Miami", de Regina King (2020)
Primeiro longa dirigido pela atriz Regina King, exibido com sucesso no Festival de Veneza, onde foi celebrado como o primeiro filme em competição dirigido por uma mulher afro-americana. O filme é uma adaptação de uma peça teatral escrita por Kemp Powers , e parte de uma situação fictícia: em fevereiro de 1964, 4 figuras públicas negras se encontraram em um quarto de hotel em Miami, e esse encontro mudou o rumo de suas vidas. Malcom X (Kingsley Ben-Adir), o lutador Muhammad Ali/Cassius Clay (Eli Goree), o jogador de futenol Jim Brown (Aldis Hodge) e o cantor Sam Cooke ( Leslie Odom Jr) conversam sobre a importância da comunidade negra levantar suas vozes e lutar pelos seus direitos, não se deixando sufocar pela sociedade branca em termos políticos, culturais e sociais.
O filme lembra bastante o tema de "Infiltrado na Klan", de Spike Lee, que é o de reeducação cultural e de entendimento da importância das raízes negras de quem já estava acostumado com o desprezo dos brancos. Sam Cooke cantava para brancos, Cassius Clay lutava para brancos, Jim Brown adorava seu fã clube branco. Malcolm X com seu discurso, os convenceu da importância de valorizarem a sua ancestralidade.
O poderoso texto não esconde a base teatral, quase 80% do filme acontece dentro de um quarto de hotel. Para isso, Regina King extrai o melhor de seu excelente elenco e realiza um filme importante e necessário.

O santo desconhecido


"Le miracle du saint inconnu", de Alaa Eddine Aljem (2019)
Filme marroquino selecionado pelo seu país para representá-lo no Oscar de filme estrangeiro de 2021, "O Santo desconhecido" é uma comédia dramática que concorreu em diversos Festivais, entre eles, Cannes, na Semana da crítica.
O filme lembra o tipo de humor do cineasta Elia Suleiman, onde enquadramentos trazem um tipo de monotonia ou alguma representação do patético da vida.
Younes Bouab interpreta um ladrão que esconde o dinheiro roubado no alto de um morro, cavando uma sepultura. Ele vai preso e tempos depois, ao sair, descobre que a sepultura virou lugar de peregrinação religiosa, e do lado, foi construído uma pequena igreja em louvor desse santo sem nome. O ladrão tenta descobrir formas de recuperar o dinheiro. Enquanto isso, outros personagens surgem, entre moradores do vilarejo que se formou e estranhos que chegam ali.
Longa de estréia do cineasta, o filme tem um humor visual que também lembra um pouco o cinema de Jacques Tati, variando entre silêncios e falas. No geral, achei o filme repetitivo, mas a crítica que o filme faz a essa louvação exagerada dos seguidores da fé vale a empreitada, um filme que suscita discussão sobre os poderes da fé, sendo capazes até, na forma crítica do filme, provocar milagres.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Pieces of a woman


"Pieces of a woman", de Kornél Mundruczó (2020)
Vencedor do prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza para Vanessa Kirby, "Pieces of a woman" é dirigido pelo cineasta húngaro Kornél Mundruczó,realizador dos excelentes "O Deus branco" e" Lua em Júpiter".
"Pieces of a woman" já merecia ser visto pela sua meia hora inicial, um tour de force de técnica e atuações que envolvem um plano sequência de 25 minutos, com a personagem Martha (Kirby) dando à luz em casa, acompanhada de seu marido Sean (Shia Labeouf) e a parteira Eva (Molly Parker). Os três estão absolutamente brilhantes e avassaladores. Logo depois, imerso em tragédia, o filme acompanha o luto e a depressão de Martha, após a perda do bebê, e a sua relação deteriorada com seu marido, amigos do trabalho e sua mãe, a possessiva Elisabeth (Ellen Burstyn, maravilhosa).
"Pieces of a woman" não é um filme fácil de se ver. Triste, depressivo, é o fundo de poço emocional de uma mulher devastada pela morte da filha. Para quem quiser ver performances brilhantes, é obrigatório
Curtir
Comentar
Compartilhar

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Anatomia do Fauno


"Anatomia do fauno", de Marcello D'avilla e Marcelo Denny (2015)
Assistir a um espetáculo ao vivo com 23 homens totalmente nús, em cenas de sexo e orgia, simulados, parece coisa do passado e impensável nos dias de hoje. Para a nossa alegria, amantes do teatro experimental e performático, esse espetáculo que provocou verdadeira revolução e polêmica em são Palo, no ano de 2015, foi lançado em formato audiovisual. Matar saudades do palco e de uma encenação provocativa, proibida e repleta de perversões e fetiches. é uma enorme alegria.
A peça, exibida na SP Escola de Teatro, é o primeiro projeto em conjunto do Laboratório de Práticas Performativas da ECA-USP com o Teatro da Pomba Gira – Coletivo de Criadores. Nos palcos, sem diálogos, é vista de forma livre e poética a chegada do Fauno, que sai da floresta para a capital paulistana, e lá, ele observa a comunidade gay em festas, pegação, aplicativos de sexo, e se envolve com todos.
O espetáculo é dividido em 2 atos, onde o primeiro é esse olhar do Fauno sobre a cena gay paulistana , da grande metrópole, e o que parece ser uma crítica ao modo de vida mundano e hedonista. O segundo ato é um olhar sobre as possibilidades que a humanidade pode caminhar.
Tudo na peça é bastante abstrato, então é difícil tentar entender o que se passa, já que quase tudo são percepções. O que se deve exaltar, é a coragem e desbravamento de um elenco visceral, que se dispôs a fazer performances sem amarras ou pudores.

Sangue


"Sangre", de Juan Schnitman (2020)
Drama escrito e dirigido pelo argentino Juan Schnitman, "Sangue"é uma co-produção Argentina, Espanha e Brasil, e inclui a brasileira Bella Camero no elenco.
Fernando (Juan Barberini) trabalha em um petroleiro. Ele conhece a brasileira Melissa (Camero) e se tornam amantes. Acontece que Fernando também é amante de Gabriela (Natalia Tena, de "Game of thrones"), que por sua vez, é casada com o alemão Ulrich. Ambas as mulheres engravidam, e Fernando acredita que e;e é o pai do filho de Gabriela.
Um roteiro que remete a filmes bem cafonas dos anos 70 e 80, como "Sangue e areia" e outros melodramas regados a sexo, traições e rompantes. A história não seduz o espectador, pela total falta de carisma dos personagens, difícil torcer por alguém ali.

O barco


"O barco", de Petrus Cariry (2018)
Adaptação do conto de Carlos Emílio Corrêa Lima, "Barco" ganhou diversos prêmios em importantes Festivais, como Cine Ceará e Cinefantasy. A estrutura de dramaturgia lembra "O estranho que nós amamos": uma mulher naufraga em um litoral, e a sua presença atiça os moradores da pequena comunidade de pescadores, entre eles, Esmerina (Veronica Cavalcanti), uma mulher com 26 filhos. Cada filho tem o nome de uma letra do alfabeto. A (Romulo Braga) passa a questionar a presença daquela mulher, Ana (Samya de Lavor). Diferente dos outros irmãos, que não possuem ambição nem desejos de descobrirem coisas novas, A vai instigando o seu apetite por sabedoria.
Everaldo Pontes, grande ator paraibano, faz uma participação como um cego sábio. A fotografia, toda estilizada, é do próprio Petrus Cariry. O filme, assim como outros filmes de Petrus, possui uma narrativa mais arrojada, experimental, autoral: ritmo mais lento, contemplativo.

Shirley


"Shirley", de Josephine Decker (2020)
Vencedor do prêmio do juri no Festival de Sundance 2020, e concorrendo no Festival de Berlin, "Shirley" é uma adaptação do livro de Susan Scarf Merrell , sobre a escritora de livros de terror, Shirley Jackson, falecida em 1965. Produzido por Martin Scorsese, o filme se apropria da linguagem do filme de terror psicológico para retratar um fato ocorrido com Shirley em meados dos anos 50, antes da publicação de seu livro "The hangsman": casada com o crítico literário Stanley (Michael Stuhlbarg), que dá aula em faculdade, o casal hospeda um jovem casal em sua casa por um período: Rose (Odessa Young) e Fred (Logan Lorman). Stanley quer que Frd fique um tempo para poder ser seu mentor na faculdade. Rose, fã dos livros de Shirley, fica entusiasmada por estar ali, mas logo vê a cruel realidade. Shirley é depressiva e tem agorafobia, não sai de casa. Stanley discretamente recrimina a esposa, pratica bullying e assédio moral, inconformado por ela fazer mais sucesso do que ele e exigindo que ela escreva os livros, pois é o ganha pão do casal. Shirley está em crise criativa e não se sente bem com o outro casal mais jovem em casa, maltratando principalmente Rose. Mas logo ela tira proveito de Rose para escrever seu novo livro, sem se dar conta de que a aproximação das duas mulheres transformarão o rumo de ambas.
Impossível não se lembrar do clássico "Quem tem medo de Virginia Wollf", ao assistir ao filme. O filme, dirigido, escrito, fotografado e produzido por mulheres, é uma denúncia contundente ao machismo que existe na sociedade. O marido de Rose, aparentemente acolhedor, no fundo quer que a mulher engravide para poder ficar em casa e cuidar de tarefas domésticas, abafando qualquer pretensão artística ou criativa dela. É um filme muito cruel, sobre pessoas más e insensíveis. O elenco é primoroso, com destaque absoluto para as duas grandes atrizes em cena soberbas de interpretação. É um filme autoral, com ritmo bastante lento e por isso, pode desagradar muita gente.

14 dias 12 noites


"14 jours 12 nuits", de Jean-Philippe Duval (2020)
Drama canadense indicado pelo seu país para concorrer à uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2021, "14 noites e 12 dias"é um filme muito doloroso. Duas mães unidas pelo luto e pela tragédia: Isabelle e Thuy. A primeira é mãe adotiva, a segunda é a mãe biológica da adolescente Clara, morta aos 17 anos de idade em acidente.
Thuy é vietnamita e logo após a independência do Vietnã, após as colonizações francesas e americana, ela se apaixona por um homem branco. Sua mãe é contra, tem pavor de ocidentais que ela alega destruíram o país. Thuy fica grávida, e sua mãe entrega o bebê à um orfanato, que o entrega à Isabelle, canadense que veio com seu marido adotar uma criança. 17 anos se passam, e Clara morre em acidente. Devastada pelo sentimento de luto, Isabelle resolve ir até Hanoi e tentar encontrar a mãe biológica para lhe avisar do falecimento da filha.
Com interpretações viscerais e comoventes de Anne Dorval e Leanna Chea, o filme tem uma montagem complexa, que vai e volta em épocas distintas É um dramalhão disfarçado com tintas autorais, com um ritmo bastante lento. As paisagens são deslumbrantes.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Evidência invisível


 "Bang chung vo hinh, de Trinh Dinh Le Minh (2020)

Ótimo suspense vietnamita, "Evidência invisível" traz vários elementos de "O silêncio dos inocentes": protagonismo feminino, um serial killer que sequestra mulheres e as mutila.

Thu é uma ex-policial que devido a um acidente de carro que culminou com a morte de seu irmão, ficou cega. Três anos depos, ela deseja voltar à corporação, mas sem sucesso. De noite, quando chama um Uber para voltar para casal, ela escapa de ser mais uma das vítimas do serial killer. Thu vai até a polícia, mas todos desconfiam de que ela, cega, possa ter reconhecido o assassino. Só quem acredita nela é a policial Hoah, que vai ajuda-la.
Bem dirigido e com uma ótima atriz liderando o filme, o filme peca por alguns deslizes de roteiro, que facilitam a protagonista cega a se livrar de vários ataques. Fora isso, é um bom passatempo, com muitas boas cenas de suspense.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Equação para um desconhecido


"Equation à un unconnu", de Francis Savel (1980)
Clássico do cinema erótico LGBTQIA+ francês de 1980, 'Equação para um desconhecido" foi dado como perdido, até que, em 2018, um cineasta, Yann Gonzalez, encontrou uma cópia em 16mmm perdida em má qualidade em uma cinemateca. Ele bancou a restauração, incluindo dcp, e o filme foi lançado em vários festivais, alçado à categoria de obra-prima do cinema queer.
Rodado em 16 MM, o filme é considerado pela crítica mundial como o filme pornográfico mais melancólico da história. Em Paris, um jovem motoqueiro vaga por vestiários de time de futebol, por banheiros de bares, por postos de gasolina e outros locais para ir em busca de sexo com desconhecidos. Ousado, o filme apresenta um elenco de homens em cenas de orgias, golden shower, cum shots e outros fetiches e perversões, mas filmados com apuro estético de um filme de arte.
O mais curioso é que os créditos inciiais do filme são escritos pelos próprios protagonistas com giz em uma parede, e o desfecho, nos créditos finais, são narrados pelo cineasta, um a um, assim como Orson Welles em "O processo".

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A volta do parafuso


"Otra vuelta de tuerca", de Eloy de la Iglesia (1985)
Os anos 80 produziram filmes que jamais teriam condições de serem filmados hoje em dia. De todas as adaptações cinematográficas do clássico "A volta do parafuso", de Henry James ( que rendeu a obra-prima 'Os inocentes", com Deborah Keer"), a de Eloy de la Iglesia certamente é a mais ousada e pervertida: ebofilia (atração sexual de adultos por adolescentes), incesto, desejo sexual de crianças por adultos. E mais ousadia ainda: substituir o gênero da governanta, agora um homem, um homossexual enrustido. O Sacerdote Roberto (Pedro Mari Sánchez) desiste de sua vocação religiosa por não suportar a angústia e o desejo por outros homens, e acaba indo trabalhar de governante em uma mansão, tomando conta de uma menina de 10 anos, Flora, e de um adolescente, Mikel (Asier Hernández, no mesmo nível de sedução arrebatadora do menino de "Morte em Veneza", de Visconti.)
Roberto fica atraído sexualmente por Mikel, e se pune por sentir tais desejos. Flora deseja ver Roberto nu, tomando banho. Os irmãos tomam banho juntos, pelados. Mikel seduz Roberto, colocando as mãos do governante sobre o seu corpo desnudo.
O filme é repleto de cenas fetichistas, impensáveis em filmes atuais. Um filme obscuro, esquecido, mas que reserva um olhar sobre a repressão sexual e as metáforas sobre desejo homossexual embutido em diálogos.

Mogul Mowgli


"Mogul Mowgli", de Bassam Tariq (2020)
Vencedor do Prêmio Fipresci no Festival de Berlin 2020, "Mogul Mowgli" traz Riz Ahmed, protagonista do excelente "O som do silêncio", praticamente repetindo o mesmo papel: aqui, ele é um rapper que descobre ter uma doença degenerativa auto-imune que vai fazendo o seu corpo perder os movimentos. Ele está às vésperas de um tour pela Europa e entra em crise pessoal e profissional. Porém, o trabalho de Riz Ahmed é tão poderoso, extraordinário e avassalador, que ele faz o mesmo personagem em cores e tons totalmente diferentes nos dois filmes. E a relação dele com o seu pai paquistanês, Bashir (Alyy Khan, memorável e cativante) é de fazer qualquer espectador chorar sem parar.
Zed (Ahmed) é o nome artístico do rapper inglês/paquistanês Zaaed. Morando em Nova York junto de sua namorada Bina, ele se prepara para uma tour na Europa, que será muito importante para a sua carreira. Em Londres, ele visita seus pais, que ele não v6e há dois anos. Tanto os pais quanto os amigos comentam que Zaaed inclusive renegou o seu nome de batismo e a sua cultura, em prol de um estilo de vida americanizado. Quando Zaaed passa a sentir sintomas de uma doença, logo descobre que não consegue mais usar seu corpo e que irá perder a tour. Seu pai fica o tempo todo cuidando dele, e enquanto isso, fantasmas do passado assolam Zaaed, em busca de sua reintegração cultural.
Eu nem sabia, mas Riz Ahmed é um Rapper já estabelecido, chamado de Riz Mc. O roteiro foi escrito junto do diretor, o também inglês/paquistanês Bassam Tariq. É um filme muito emotivo, realista, que comove pelos diversos temas que propõe, sendo o da reconciliação pai e filho a mais emocionante A cena final é antológica, além da cena do telefonema de Zaaed com sua namorada Bina por telefone, foda foda foda, show de atuação.

domingo, 3 de janeiro de 2021

PD


"PD", de Olivier Lallart (2019)
"Pédé" é o termo pejorativo que os franceses chamam os gays. Exibido no Festival de Cannes, "PD" é um drama romântico LGBTQIA_ sobre adolescentes em busca de sua sexualidade e a difícil saída do armário. O filme é belamente filmado e um alento para a comunidade gay que quer ver um final feliz, um filme que exalta a aceitação, mesmo que com ressalvas. É uma sociedade em evolução.
Thomas (Paul Gomerieux ) é um rapaz de 17 anos que sai com os amigos para baladas. Na festa sua atenção vai para
Esteban (Jacques Lepesqueur), o bad boy da escola. Durante a festa, na brincadeira do verdade ou conequência, ambos são obrigados a se beijar. Esse beijo irá transformar a vida dos dois, que se descobrem apaixonados um pelo outro, mas que precisam se manter no armário para evitar o bullying dos colegas.
O filme, escrito e dirigido por Olivier Lallart, busca inspiração nos primeiros filmes de Xavier Dollan: muitas cores, trilha sonora pop e estilização das imagens. O elenco jovem é todo bom, naturalistas na composição dos adolescentes. A última imagem do filme é provocadora: ambos os rapazes quebrando a quarta parede e instigando o espectador sobre serem homofóbicos ou não.

Bikram: Yogi, guru, predador


"Bikram: Yogi, guru, predator", de Eva Orner (2020)
Documentário dirigido pela vencedora do Oscar de melhor documentário em 2008, "Um táxi para a escuridão". O filme faz um raio X da figura mítica do indiano Bikram Choudhury, um guru que chegou aos Esdos Unidos nos anos 70 e imediatamente ganhou fama ao dar aula para Shirley Maclaine, Elvis Presley, Nixon, Barbra Streisand, Quincy Jones, Frank Sinatra, entre outras celebridades. Brikam se gabava de ter ganho por 3 vezes um campeonato de Yoga na Índia (feitods jamais comprovados). Ele se dizia autor de uma série de exercícios de Yoga de 26 posições, capazes de curar qualquer doença. Ele promovia essas sessões de yoga em salas na temperatura de 41 graus, o que fazia muitos alunos passarem mal e desmaiar. Apelidado de Hot Yoga, essa prática acabou ganhando fama e várias filiais da Bikram Yoga foram abertas nos Estados Unidos. Bikram gaha muito dinheiro tambem promovendo aulas para formação de professores no mundo inteiro. E é através dessas aulas que ele recebeu 6 acusações de assédio sexual e estupro de alunas, no ano de 2015. Bikram acabou fugindo sem pagar nenhum dos processos, e atualmente está foragido. Nas imagens finais, vemos Bikram promovendo aulas na Espanha. O mais cruel é que os Estados Unidos não fizeram nenhum pedido de extradição.
Vários alunos entrevistados alegam que tiveram a vida mudada após conhecer Bikram, e acusam as mulheres que o processaram de oportunistas. É o caso de se assistir ao filme, fazer pesquisas e tirar as conclusões. Bikram é uma figura exótica e bizarra: dá aulas apenas de sunga, e costuma provocar bullying nos alunos para que eles dêem o máximo de si.

The forty year old version


"The forty year old version", de Radha Blank (2020)
Grande vencedor do prêmio de melhor direção para Radha Blank no Festival de Sundance 2020, "The 40 year old version" é um relato semi-autobiográfico da dramaturga, rapper, atriz e professora Radha Blank. O filme é todo rodado em preto e branco e é uma comédia dramática intimista sobre a busca da verdade e do caminho profissional de uma mulher negra, classe média, plus size e órfã, morando sozinha em um pequeno apartamento e sobrevivendo dando aulas de dramaturgia para alunos negros e latinos de uma escola pública. Radha está chegando aos 40 anos, e está em crise: quando ela tinha 30 anos, ganhou um prêmio de revelação por uma peça, e depois disso, não conseguiu produzir e escrever mais nada. Até que seu amigo Archie (Peter Kim, ótimo), que é seu agente, consegue que ela venda a peça dela, 'Av Harlen", para um poderoso produtor da Broadway, mas com as seguintes condições: adaptar tudo o que ela escreveu para as necessidades comerciais dele, sem qualquer relação com a cultura negra. Radha descobre em si um talento para ser rapper, mas precisa que um Dj e produtor musical, D, componha as batidas para ela.
Radha é um talento incrível: estreante na direção, já arrebatou diversos prêmios, além de ter escrito um roteiro motivador e muito comovente. os personagens de apoio, além de Archie, são ótimos: o mendigo, o produtor, os alunos e o irmão, que divide com ela a venda do apartamento dos pais deles. Apesar do humor ácido, o que predomina no filme é a melancolia que abrange a todos os que sonham com a carreira artística, e a infelicidade de se deparar com pessoas que nos colocam para baixo e nos querem fazer desacreditar de nosso potencial.

Aprendendo


"Learning", de Marcelo Briem Stamm (2015)
O cineasta argentino Marcelo Briem Stamm , de pseudônimo Monaco, é assumidamente gay, e assim como Marco Berger, são as maiores vozes do cinema LGBTQIA+ argentino, com filme repletos de sexo explícito, filmados com um elenco de atores modelos.
Daniel (River Taylor) é um desempregado e sem teto, que encontra abrigo na casa modesta de seu mentor, um operário mais velho. Daniel, que nunca fez sexo com outro homem, passa a nutrir pelo sue mentor um enorme desejo sexual, mas acredita que ele só faz sexo com homens experientes. Daniel resolve dar início `sua educação sexual, passando por etapas para a conquista do prazer com alguém do mesmo sexo.

Com cenas hardcore de bareback, orgias e estupro, o filme sai do olhar romantizado do mundo LGBTQIA+ e vai direto ao universo fetichista e hedonista do prazer e do sexo em todas as suas possibilidades. Filmado com alta qualidade técnica, incluindo drones, e rodado no cais do porto de Buenos Aires e em áreas decadentes, essa produção de baixo orçamento rompe com a fronteira da ficção e do pornográfico. 

Eu, adolescente


"Yo, adolescente", de Lucas Santa Ana (2020) "Se você briga com a vida, você faz amigos com a Morte". O que leva um adolescente ao suicídio? Partindo dessa premissa, o diretor Lucas Santa Ana adapta o livro de Nicolas Zamorano e realiza um drama arrebatador e comovente."O filme se passa entre 2004 e 2006, no auge dos blogs. Em 2004, no ano em que muitos jovens morreram em um incêndio na boite Cromanón, e em que seu melhor amigo Pól se suicidou, o protagonista Zabo (Renato Quattordio, excelente), de 16 anos, vive sob o signo da morte. Sem conseguir ser compreendido por seus pais, indeciso entre o amor de Ramiro, seu colega de escola, e de Tina, uma garota que ele curte, Zabo resolve colocar todas as suas inseguranças em um blog. Sem coragem de falar sobre o que pensa, o que sente para seus melhores amigos e seus pais, Zabo usa o blog como o local para desabafos. Dirigido com um olhar realista pelo cineasta, o filme alterna momentos de humor, drama e romance, mas o que mais me encantou na história foi a forma como tudo é pelo olhar do protagonista, um adolescente. Todas as questões que o deixam inseguro, certamente todo mundo já passou na vida. É um drama com uma forte mensagem e alerta de que pais e pessoas próximas precisam conversar com os jovens e entender as suas aflições.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Crônica de um menino só


 "Crônica de un niño solo", de Leonardo Favio (1965)

Considerado por críticos e estudiosos em uma pesquisa no ano de 2000 como o melhor filme argentino produzido no país, "Crônica de um menino só" é um drama realizado em 1965 e apresenta uma infância destruída pela falta de assistencialismo do governo. É impossível não comparar o filme ao "Pixote", de Hector Babenco, até porquê existem muitas cenas similares. Rodado em preto e branco, o filme acompanha o protagonista Polin (Diego Puente, impressionante), um menino de 10 anos, levado até um reformatório para delinquentes infantis. Na instituição, Polin passa por maus tratos e o rigor de um padre e de um diretor, que tratam as crianças de forma violenta. Polin acaba fugindo, e volta para a sua casa, na favela, evitando ser visto pela polícia. Mas um incidente em um lago envolvendo um amigo coloca à prova a passividade de Polin perante a violência que rodeia o mundo.

Assim como "Pixote", todo o elenco infantil é formado por não atores. Leonardo Favio escreveu o roteiro baseado em sua própria vivência: quando criança, foi levado pelo pai ao reformatório, por prática de pequenos roubos. Hoje em dia, se o filme fosse feito, sofreria muitos problemas de realização, principalmente na longa sequência do lago: todos os meninos totalmente nus, e logo depois, uma cena de estupro. É chocante e muito bem dirigida a cena. Leonardo Favio provavelmente busca referências em 'Os incompreendidos", de Truffaut, principalmente na cena que o menino corre, e na busca da poesia em momentos de dureza e crueldade.

Em busca de Summerland


"Summerland", de Jessica Swale (2020)
Para quem gosta de melodramas, esse filme é imperdível. Ambientado em 2 épocas, o ano de 1975 e a 2a guerra mundial no Reino Unido, o filme conta a história de Alice (Gemma Arteton, e Penelope Wilton, na fase atual). Escritora, Alice é mal humorada e se irrita com as crianças que fazem bagunça na sua porta. Quando o filme volta ao tempo, descobrimos Alice, uma mulher solitária, moradora da Costa de Kent. Os moradores da região acreditam que ela é uma espiã nazista, tal a sua estranheza. Alice acaba se apaixonando por Vera, e ambas escondem um amor mal visto pelos moradores. Vera tem um desejo de ter um filho, e acaba abandonando Alice. Anos depois, uma das assistentes sociais da costa pede para que Alice tome conta do menino Frank (Lucas Bond), um hábito comum no local, enquanto os pais estão em ação na guerra. Alice se recusa a tomar conta do menino, mas diante da obrigação, acaba aceitando. No início, Alice e Frank se estranham, mas com o tempo criam afinidades.
Bem dirigido pela roteirista e diretora Jessica Swale, o filme tem uma produção grandiosa e em especial um plano sequência rodado em Londres durante o bombardeio muito bem executado. Gemma Arteton está especialmente maravilhosa, variando em todas as emoções de sua personagem. O menino Lucas Bond também é muito bom. Para quem não curte filmes lacrimogêneos, melhor se manter bem distante.

Collective


"Collective", de Alexander Nanau (2020)
Incluso na lista do ex Presidente Barack Obama entre os melhores filmes de 2020, "Collective" é um documentário romeno indicado pelo País à uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2021. O tema é muito íntimo aos brasileiros: em 31 de outubro de 2015, na boite Collective, em Bucareste, um grupo de heavy metal se apresentava nos palcos. Ao final de uma apresentação, fogos de artifício foram lançados. O teto imediatamente pegou fogo. 27 pessoas morreram no local, com 180 feridos. Meses depois, 37 feridos morreram nos hospitais. Jornalistas do jornal Gazette sportiv, entre eles, Catalin Tolontan e Mirela Neag resolveram ir à fundo nas investigações e descobriram uma máfia no sistema de saúde que envolvia políticos, hospitais e médicos, além de uma empresa que fabricava desinfetante para os hospitais. Os desinfetantes eram diluídos e nos exames laboratoriais relataram que não eliminavam bactérias. Todos os feridos que morreram, tiveram infecção hospitalar por cont das bactérias. O povo se rebelou, foram às ruas, e esse manifesto influenciou nas eleições seguintes.
"Collective" é um filme audacioso, investigativo, que apresenta o mundo cruel das instituições corruptas interessadas apenas em dinheiro. Muito triste testemunhar que as vidas humanas não importam quando se tem dinheiro em jogo. Fiquei abismado como foram coletadas as imagens dos depoimentos, das reuniões. Mas a imagem mais impactante é definidamente, a que mostra o show na boite, os fogos e depois, o incêndio consumindo tudo. Impossível não se lembrar da Boite Kiss aqui no Brasil.
O filme fez enorme sucesso em Sundance, Veneza e outros importantes festivais.

O pássaro sangrento


"Deliria", de Michael Soavi (1987)
Um grande clássico slasher de 1987 italiano, é confundido por muitos como um exemplar de "giallio". A fórmula aqui é simples: um serial killer foge de uma instituição psiquiátrica e se aloja dentro de um teatro, onde um grupo de atores está encenando um musical sobre um serial killer com cabeça de coruja. Um a um, os atores e integrantes da equipe técnica vão morrendo de maneiras violentas.
O que difere esse filme de outros é a direção estilizada de Michael Soavi. Com mortes violentas, usando furadeiras, machados picaretas e outros instrumentos, o serial killer não poupa ninguém, até mesmo serrado uma pessoa ao meio. Para quem curte gore, o filme é super recomendado. A trilha sonora repleta de rock, a direção de arte , os atores canastrões, tudo é uma delícia. O grande acerto do filme é a caracterização da cabeça de coruja, bastante assustadora.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Os segredos do armário


"Todos tenemos un muerto en el placard o un hijo en el closet", de Nicolás Teté (2020)
Em determinando momento do filme, o protagonista do filme, o jovem Manuel (Facundo Gambandé) pede desculpas para os seus pais "por ser bicha", e cai aos prantos.
Em pleno ano de 2020, esse drama LGBTQIA+ argentino parece fazer um desserviço pela mensagem de inclusão e aceitação familiar. Durante todo o filme, Manuel, um estudante de arquitetura se vê às voltas com o namorado que foi estudar na Dinamarca e em ter que rever a sua família que se mostrou muito chocada quando ele revelou seu gay anos atrás, um dos motivos de ter saído da cidade pequena e ter ido estudar sozinho em Buenos Aires. Agora, Manuel precisa aprender a conviver com a sua família inteira, que está para comemorar os 25 anos de casamento dos pais.
Apesar de bons atores, esse drama argentino parece querer trazer ao protagonista dissabores amorosos, o que acaba meio que sendo o estopim de sua tristeza e frustração. Adoraria que o filme tivesse mais humor, algo que o título original parece querer apresentar, "Todos temos um morto no guarda-roupas e um filho no armário", mas o roteirista e diretor resolveu apostar mais no melodrama, mas faltou emoção.

AK contra AK


"AK vs AK", de Vikramaditya Motwane (2020)
Excelente comédia de humor negro, repleta de cenas de ação satirizando a indústria do cinema, sacaneando Bollywood e fazendo uma crítica aos reallitis shows. Essa produção indiana parte de uma premissa muito original: pega duas figuras públicas, dois astros de Bollywood, o cineasta Anurag Kashyap e o super astro Anil Kapoor e os coloca como protagonistas de uma intrincada trama de ação.
Anurag e Anil têm uma rusga profissional jamais assimilada pelo cineasta: há 12 anos atrás, chamou o ator para protagonizar seu filme, tendo sido recusado. Agora, ele decide se vingar: ele sequestra a filha de Anil, Sonam, e registar em câmera todos os movimentos de Anil para ir em busca da filha. Tudo sendo apresentado em live, e o público delirando, mesmo a filha tendo sua vida posta em risco.
Usando personalidades reais da indústria, o filme tem uma trama maravilhosa, bastante criativa, que certamente será refilmada em Hollywood. Toda as cenas são bem elaboradas e críveis. O filme apresenta a glória e o fracasso de quem vive no audiovisual, e a forma suja como muitos fazem para se manterem de pé. O desfecho é um plot twist sublime e surpreendente. Um alto investimento no orçamento, com ótima direção de arte e fotografia/câmera.

Sombra na nuvem


"Shadow in the cloud", de Roseanne Liang (2020)
Um filme de ação feminista, ambientado na 2a guerra mundial e com Gremlins? Pois esse Filme B neo-zelandês, dirigido e escrito pela cineasta Roseanne Liang é uma deliciosa e surreal aventura baseada no mais famoso episódio de "Twilight zone", aquele em que o passageiro de um avião cisma que viu um monstro na asa do avião.
Chloë Grace Moretz é Maude, uma piloto de avião da 2a guerra que entra em um avião com a tripulação totalmente masculina. Ela traz uma carga que ela diz não poder avisar sobre o conteúdo. Durante todo o vôo, Maude é agredida com discursos machistas de toda a tripulação. Mas quando começa um ataque de aviões japoneses e pior, de Gremlins, mais do que nuca Maude precisa proteger a sua carga.
Não dá para falar muito do filme pois entrega logo um baita spoiler.
O filme pode ser dividido em 3 atos: o 1o, um quase monólogo de Chloe, uma ótima atriz, onde ela atua praticamente sozinha por quase 40 minutos. Depois, os ataques e por fim...o filme se transforma numa quase animação em desenho animado, tal o surreal e bizarrice das situações. Mulher Maravilha perde e muito.

Colegas


"Colegas", de Eloy de la Iglesia (1982)
Clássico drama social LGBTQIA_ espanhol, um retrato cru e realista da juventude de Madri no início dos anos 80, Pelo menos 3 cenas figuram entre as mais polêmicas de sua filmografia:
1) dois irmãos menores de idade se masturbam em um quarto e após gozarem, dividem a mesma meia para limpar o gozo
2) Os dois amigos protagonistas, Antonio e José, inserindo sacolés de cocaína em seus ânus
3) Em uma sauna gay, Antonio e José tentam conseguir dinheiro de dois gays que fazem boquetes neles
Eloy de la Iglesia nasceu em família burguesa, mas se tornou socialista e gay assumido. Namorou vários garotos de programa e fez de um deles, José Luiz Manzano, o protagonista de vários de seus filmes. Tanto Eloy quanto os seus atores, todos amadores, eram viciados em heroína. José Luiz Manzano morreu de overdose aos 28 anos.
Em um cabeção de porco da periferia de Madri, moram os amigos Antonio e José, José namora a irmã de Antonio, e acaba engravidando ela. Sem trabalho, nem dinheiro, e com medo de falar com os seus familiares, o trio decide conseguir dinheiro para o aborto. Os rapazes se prostituem, e depois passar a traficar drogas.
O filme lembra muito a narrativa neo-realista, com locações reais, temas sociais e atores amadores. As cenas são muito realistas e sem nenhuma concessão à fantasias ou cenas felizes. Repleto de homoerotismo, cenas de sexo e nudez total de seu elenco adolescente, o filme foi proibido em diversos países. Hoje em dia seria impossível filmar com um elenco tão jovem cenas tão cruas

Meu namorado perdido


"My missing valentine”, de Chen Yu-Hsun (2020)
Um enorme sucesso de crítica e público em Taiwan, vencedor de diversos prêmios em festivais asiáticos, “Meu namorado perdido”é uma ótima comédia romântica repleta de drama e melancolia.
O filme mistura também elementos de fantasia e realismo fantástico de forma bem apropriada. Hsiao-chi (Patty Pei-Yu Lee, encantadora), é uma mulher de 30 anos que nunca namorou na vida. Ela trabalha em uma agência ds correios e sonha um dia poder arrumar um namorado. Às vésperas do dia dos namorados, ela conhece acidentalmente um professor de educação física, que a convida para sair no Dia dos namorados. Hsiao chi se anima toda, mas quando acorda no dia seguinte, percebeu que o dia dos namorados desapareceu e ela não o vivenciou.
O filme é dividido em 2 capítulos: o primeiro apresentando Hsiao Chi, e a 2a parte, apresentando um personagem inusitado, Ah Tai (Liu Kuan Ting), um motorista de ônibus. O filme tem trilha sonora pop e a fotografia é realista, em tons dramáticos.

O fuzileiro


"The rifleman- blizzard of souls”, de Dzintars Dreibergs (2019)
Durante a 1a guerra mundial, a população diminuiu em 1 milhão e 200 mil moradores. “O fuzileiro”, comovente e dramático drama de guerra foi indicado pelo país para concorrer à uma vaga ao Oscar 2021.
O filme se passa em 1916, e acompanha Arturs ( Oto Brantevics, excelente), um rapaz de 16 anos, que se alista para lutar contra os alemães, junto de seu irmão, Edgar, e seu pai, Vagnars. Sua mãe foi assassinada pelos alemães, e o sentimento de vingança no rapaz é muito grande. Arturs precisa deixar para trás Marta, sua grande paixão adolescente. Durante a guerra, Arturs vai perdendo toda a sua inocência.
Baseado no livro de Aleksandrs Grins, “O fuzileiro” tem excelente qualidade técnica: as cenas de ação, a fotografia, a direção de arte, os efeitos. Toda hora eu ficava comparando o filme à obra-prima russa “Vá e veja”, que também fala sobre um rapaz que luta na 2a guerra mundial e aos poucos, vai entendendo o real sentido da guerra. Um filme porrada, doloroso, com cenas chocantes ( a cena dele tentando desenterrar uma pessoa próxima é de doer a alma). A cena final é de estraçalhar corações.