terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
Exposed
"Exposed", de Declan Dale (2016)
Dar o título de "Exposed" para um filme pode ser mau agouro. Em 1983, foi lançado o filme com esse mesmo título, protagonizado por Nastassja Kinsky e Rudolf Nureyev, que misturava romance e filme policial. Agora, em 2016, outro filme é lançado, e misturando drama sobrenatural com policial. Essas misturas de gêneros em ambos os filmes não deram certo.
"Exposed" tem no elenco Ana de Armas e Keanu Reeves. Sim, o nome dela vem antes, porquê na verdade ela é a protagonista da história. Keanu Reeves é um mero acessório, um chamariz para o público. A história gira em torno da personagem de Isabel ( Armas), jovem religiosa que certa noite, voltando de uma balada, aguardando o trem do metrô, vê uma revelação: um anjo. a partir daí, ela passa a ver anos em sua vida. Paralelo, e costurando a história, temos o personagem de Keanu Reeves, Detetive Galban, que tenta descobrir o paradeiro do assassino de seu colega na mesma estação de metrô que Isabel pegou, na mesma noite. A víúva do colega morto, interpretado por Mira Sorvino, pressiona o detetive Galban para descobrir o assassino.
O filme é praticamente falado em espanhol, uma vez que toda a história de Isabel é protagonizado por hispânicos, envolvidos com religião e tráfico de drogas. A história é mal costurada, e toda a vez que entra Keanu Reeves, parece que foi enxertado. Li que o Diretor e roteirista do filme, Gee Malik Linton , ficou tão irritado pelo fato dos produtores terem re-editado todo o filme ( dizem que os produtores se sentiram enganados ao verem que Keanu Reeves não era o protagonista, e incluíram cenas para dar essa impressão) , que exigiu que seu nome verdadeiro fosse retirado dos créditos e se deu o pseudônimo de Declan Dale.
O roteiro trabalha com uma linha meio Shayamalan: no desfecho, o espectador descobre a reviravolta da historia. Até lá, tudo parece gratuito e mal ajambrado. Uma pena, fosse a penas a história de Isabel, o filme teria mais potencial. Aliás, vê-se uma referência forte ao filme "Irreversível", no início, com a mesma cena do túnel onde a menina anda. Alíás, praticamente chupado.
E triste constatar, mas Keanu Reeves está muito canastrão no filme. A cena onde ele, ao telefone, dá um ataque de piti após conversar com seu filho, dando-se tapas e gritando, é risível. Framboesa urgente!
Suíte francesa
"Suíte française", de Saul Dibb (2015)
Para apreciadores de novelão sobre amores impossíveis durante a 2a Guerra mundial, como eu, irão ficar felizes com esse filme. Mas atenção, quem tiver hojeriza a histórias repletas de reviravoltas, traições e amores fugazes, passem longe do filme. ele é açucarado, feito para se apaixonar mesmo pelo casal central, e o espectador tem que estar indiferente a inverossimilhanças da história. Por ex, o coração bondoso do Tenente alemão Bruno von Falk (Matthias Schoenaerts), você não terá visto em nenhum outro filme retratando oficiais nazistas. Não há quem resista aos encantos dele diante da beleza e sensibilidade de Lucile Angellier (Michelle Williams). O filme é baseado no livro homônimo, escrito pela judia ucraniana Irène Némirovsky em 1942, antes dela ser presa e levada para Auschwitz, onde acabou falecendo. Somente em 2002 os manuscritos foram encontrados e lançados.
O filme se passa na França, em 1940. Soldados franceses retornam para casa, derrotados, enquanto tropas alemães invadem a França. Na cidade de Bussy, vilarejo rural, Lucille mora em uma mansão com sua sogra, Madame Angellier ( Kristin Scott Thomas). Severa, o filho dela foi dado como prisioneiro de guerra em campo inimigo. Ela trata Lucille a ferro, e faz dela sua empregada, cobrando aluguel de suas terras. Quando chega a tropa comandada pelo Tenente Bruno, imediatamente rola um clima entre eles. O que os une também é a paixão pelo piano.
O elenco, repleto de famosos, inclui Sam Riley, no papel do fazendeiro revolucionário Benoit. Todos os personagens passam por transformações, e mesmo em tom de novela das seis, o filme tem seus méritos. Sensivel, bela trilha sonora co-escrita por Alexandre Desplat e fotografia do espanhol Eduard Grau, o filme é daquele tipo de narrativa onde a gente torce sempre pelos mocinhos, e ond eos vilões, de tão maus, passam a ser carismáticos. Como resistir ao encanto e talento de Kristin Scott Thomas?
O desfecho é sensacional, e de tão mirabolante, chega a ser divertido. Mas a gente curte, assim como curte "Casablanca" e seus excessos. Os detratores falam mal do fato do filme ser falado em inglês. Bom, em tempos de globalização, isso nem incomoda mais.
Sessão da tarde premium.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Pessoas, lugares e coisas
"People places things", de James C. Strouse (2015)
O diretor e roteirista James C. Strouse é mais conhecido por ter escrito as transições no filme "Nova York, eu te amo". "People places things" foi exibido em Sundance 2015 e desde já, é uma das minhas comédias românticas favoritas. O sucesso claro, vem da combinação roteiro inteligente + direção sensível e divertida + elenco sintonizado. O protagonista, o neo-zelandês Jemaine Clement, é realmente carismático. Diretor, ator e roteirista do cult de vampiros "O que vemos nas sombras", e dublador da cacatua Nigel no filme "rio", Jermaine incorpora aqui um cartunista depressivo, Will, que passa os seus dias dando aula de cartoon e desenhando seus comics. Will é muito gente boa, o tipo de amigo que você quer pra vida. Mas na vida amorosa, é um desastre. Sem ambições, um típico looser. Porém, amoroso. Impossível não se apaixonar pela sua simplicidade e o seu olhar pedindo abraço. A composição de corpo, de mãos, olhares, tudo é bem construído por Jermaine. Ao lado dele, um elenco muito cheio de timing e encantamento. As meninas gêmeas são um amor, espontâneas.
O filme narra a história de um casal amoroso, mas cuja esposa resolve, no dia de aniversário de 5 anos das filhas, se separar. Ela argumenta que precisa se reinventar e que ele, Will, não a ajuda. Will passa então a dividir o seu espaço entre aulas, desenhos e a convivência com as filhas, que ele ama demais. Até que uma aluna pede para que Will conheça sua mãe.
O filme é uma aula de comédia, diálogos inteligentes e de trilha sonora que se comunica com os sentimentos dos personagens. É o supra sumo do "feel good movie".
Sim, todo mundo vai pensar em Woody Allen vendo ao filme. As locações no Brooklyn são demais, a fotografia muito viva. O filme é recheado de stock shots da cidade, intensificando o amor do realizador pela sua cidade.
Queria muito que o filme merecesse um sucesso avassalador.
Pra frente Brasil
"Pra frente Brasil", de Roberto Farias (1982)
Clássico filme de Roberto Farias, lançado em 1982, ainda sob a vigência da Ditadura no país, ainda que em processo de redemocratização, que só veio a acontecer por completo em 85. O lançamento do filme na época foi bem controverso, sofrendo represálias da censura. Baseado em livro escrito por Roberto Farias, 'Sala escura", através de um fato que aconteceu com o ator Reginaldo Faria quando em um aeroporto, brincando com a aeromoça que portava uma arma, ele foi encaminhado para interrogatório. "Pra frente Brasil" tem um elenco All star, que se fosse lançado hoje, ganharia o adjetivo de "Global". Houve um tempo em que atores famosos conferiam status a um filme, o que foi o caso desse projeto: Reginaldo Faria, Antonio Fagundes, Natalia do Valle, Elisabeth Savalla ( em rara aparição no Cinema, excelente), Luiz Armando Queiroz, Carlos Zara, Claudio Marzo.
Ambientado em 1970, antes da decisão final da Copa do Mundo no México, o país está mergulhado de cabeça no futebol. Porém, a ditadura saía caçando guerrilheiros e pessoas que eles achavam subversivas. Jofre ( Faria) , um trabalhador pacato, casado com Marta ( do Valle), sai do aeroporto e pega carina com um homem que acabou de conhecer ( Marzo). eles são perseguidos, pois o homem faz parte da guerrilha de esquerda. Jofre vai preso e é torturado, sem nem saber o porquê. Marta procura Miguel (Fagundes), que vem a ser irmão de Jofre, também apolítico, e tentam descobrir o paradeiro dele. Logo, entendem que a Ditadura está mais perto deles do que imaginam.
Ainda hoje é um belo filme de ação política. talvez prejudicado apenas pela irregularidade do elenco e pelo excesso de música, composta por Egberto Gismonti. Lembro que assisti em uma sessão de cinema ainda nos anos 80 e o filme provocou uma comoção grande na platéia, tendo gente inclusive que se exaltou nas cenas finais. Cinema é isso mesmo, participação da platéia.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Um filme francês
Um filme francês", de Cavi Borges (2015)
Ah o Cinefilo, esse Ser tão estranho que dentro e fora das telas exala paixão por filmes que fizeram a sua cabeça. Quando essa paixão se materializa de Cinefilo para Cineasta, a vontade de querer homenagear todos os que mudaram a sua percepção do mundo se faz quase que como uma obrigação. Nouvelle vague, Truffaut, Godard, Agnes Varda ( Será que o nome da personagem Cleo não vem do filme " Cleo de 5 as 7"? )... A música também tem lugar certo nesse filme de memórias: Jim Morrison, Jorge Benjor, Jards Macale... E já que falamos de memória e nostalgia, está valendo imortalizar a Cinemateca do Mam, o cine Santa, o Odeon, a Cavideo ( locadora do diretor Cavi Borges, especializada em filmes cults). O filme brinca com referências a vários filmes clássicos, inclusive com os atores reproduzindo as cenas ( como a corrida em " Jules e Jim", ou a dança em trio de " Bande a parte".). Na metalinguagem de atores interpretando atores, vale até divulgar a peça que uma das atrizes está ensaiando, " Sarau das putas". Erom Cordeiro, Juliana Terra e Patrícia Niedemeier dão vida a um casal de atores e a uma diretora de filme independente que passam o filme todo ensaiando para um filme que irão rodar. O filme discute o processo criativo de todos, e foi nessa parte que me diverti mais. É notório que na Nouvelle Vague era permitido aos atores improvisar, e isso é nítido no filme. Mas a personagem da diretora, inconscientemente, exige que seus atores hajam como ela quer. Ela fala muito, é ansiosa. É divertido ver e refletir o quanto o Diretor muitas vezes atrapalha o processo criativo do Ator e faz comentários inapropriados na hora errada.
Rodado em preto e branco ( Raoul Cottard, fotografo mor do cinema francês, sinta-se homenageado), o filme transita entre enquadramentos clássicos e câmera na mão, marca da liberdade técnica da Nouvelle Vague.
Os atores se divertem em papéis espontâneos, brincando de Ana Karina, Jean Paul Belmondo, Jean Seberg, Jeanne Moureau. Triângulo amoroso, esse é o símbolo do amor francês.
A quem interessa um filme nacional que se chama " Um filme francês"? Nessa mistura tresloucada entre a malícia carioca e a sofisticação francesa, ganha o espectador que está em busca de Amor. Amor ao Cinema, amor aos filmes, amor ao ofício de atuar, dirigir, viver a Sétima arte.
O presente
"The gift", de Louise Hogarth (2003) . Assisti a esse polêmico documentário em 2003, e agora, revendo quase 20 anos depois, infelizmente percebo que pouca coisa mudou. Quando foi lançado em 2003 no Festival de Sundance, 'The gift" chocou a todos ao trazer à tona um tema bastante controverso: os barebackers e as festas barebacks. Nessas festas, o sexo rola sem proteção, ou seja, sem camisinha. Acompanhamos depoimentos de "bug chasers" e de "Gift givers". "Bug chaser" é o soronegativo que deseja ser contaminado com o vírus HIV. Ele quer e necessita ser um HIV soropositivo. "Gift giver" é o soropositivo que nas festas bareback, contamina os soronegativos. Ele é o objeto de desejo dos "bug chasers". O filme foi atacado pela platéia gay presente que o assistiu no Festival de Berlin, acusando-o de sensacionalista. Para os gays, a platéia teria um olhar totalmente preconceituoso e desconfortável para a comunidade homossexual, vista como doentes mentais e depravados. O fio condutor do filme são depoimentos de 2 "bug chasers", um médico que escreveu um livro sobre "soronegativos" e um conselho de 4 gays de meia idade soropositivos. Os "bug chasers". Kenboy e Doug Hitzel são jovens na faixa dos 20 anos. Kenboy diz que passou toda a juventude temeroso de ser contaminado pelo vírus e que ficava deprimido com essa possibilidade. Para terminar de uma vez por todas com o temor, ele resolveu se contaminar. Ele promove festas barebacking e as difunde no mundo todo. Doug Hitzel passou boa parte da vida tentando arrumar um namoro, sem sucesso. Ele mora em São Francisco. Convencido de que a comunidade gay soropositiva é cool e faz sucesso, ele resolveu fazer parte dela: se deixou contaminar em uma festa bareback. A partir daí, ele passou a ser convidado para as festas e se sentir mais popular. Ao final do filme, ele se arrepende. Em uma festa promovida por Kenboy, ele será a atração de uma festa gang bang, aonde mais de 100 soropositivos irão transar com ele sem camisinha. Para os gays de meia idade, as campanhas contra o HIV não fazem nenhum efeito, visto que pelas estatísticas da época. a cada hora 2 adolescentes são contaminados nos Estados Unidos. Eles culpam a campanha da mídia, que coloca modelos musculosos e lindos como portadores do HIV, o que seduz a juventude a querer se contaminar. Em 2017, Doug e Kenboy morreram em decorrência de sintomas do HIV.
A montanha dos sete abutres
"Ace in the hole", de Billy Wilder (1951)
Clássico filme dirigido e co-escrito por Billy Wilder, tem como tema a ética no jornalismo. Na época do seu lançamento, em 1951, o filme foi um fracasso de crítica e público. É fácil dizer o porquê: o protagonista é um vilão que se aproveita de uma tragédia para fazer seu nome e ganhar popularidade em cima do sofrimento dos outros. A imprensa é desmascarada em sua falsidade e ânsia em querer vender. "Uma tragédia de um homem vende notícia, a de 83 homens ou mil não vendem. As pessoas querem ler a tragédia de um indivíduo". Segundo essa frase, o personagem de Kirk Douglas, Charles Tatum, já se apresenta para o espectador como um homem inescrupuloso. Vindo de cidade grande, de onde foi demitido de todos os importantes jornais, ele vai procurar emprego em um pequeno jornal de uma cidade em Novo México, Albuquerque. Um ano depois, já acostumado a pascameira local, onde nada acontece, ele vai cobrir uma matéria sobre caçadores de serpente. No caminho, ele descobre que um homem ficou preso em uma mina, ao tentar encontrar tesouro indígena. Chegando no local, ele conversa com a esposa e o pai da vítima e fica sabendo sobre a história: A montanha é conhecida como "A dos 7 abutres", e segundo a lenda indígena, ali foram enterrados índios, e os seus espíritos é que provocaram o acidente,, impedindo Leo, a vítima, de sair de lá vivo. Charles desce o túnel e conversa com Leo, que está preso sobre escombros. Percebendo que ali está sua chance de fazer uma grande matéria, Chales faz de tudo para segurar Leo ali no local do acidente. Logo, o local é visitado por milhares de curiosos, um circo é montado, feira, etc.
Todo o circo montado do lado de fora do local pode ser visto como uma metáfora da mídia e da população que anseia por histórias sensacionalistas. Incrível como, mais de 50 anos depois, toda essa história se mantém extremamente atual ( basta ver o acidente no deserto de Atacama, no Chile, onde dezenas de mineiros ficaram presos. Pouco tempo depois, a história foi vendida e virou filme).
É incrível o trabalho de direção de arte no filme, em uma época onde não havia computação gráfica. Centenas de carros, roda gigante, milhares de figurantes. O valor de produção do filme é enorme. Impressiona.
Kirk Douglas está excelente, econômico, e suas feições mudam de uma hora para outra de forma brilhante. Jan Sterling, como Lorraine Mimosa,a esposa da vítima, também cria um personagem complexo, alternando momentos de luxuria com desespero.
Um filme soberbo, obrigatório para estudantes de jornalismo e cinéfilos.
Garotas-O filme
"Garotas- O filme", de Alex Medeiros (2015)
Talvez para diferenciar do filme francês dirigido por Céline Sciamma, "Garotas", o filme nacional dirigido e escrito por Alex Medeiros ganhou o complemento de "O filme". Tal decisão artística talvez tenha provocado uma expectativa maior em relação ao filme, que na verdade, é pouco ambicioso em termos de roteiro. De baixo orçamento, o que é nítido, o flme se apoia na estilização para poder camuflar problemas de orçamento. Muita luz, planos fechados, câmera na mão nervosa, edição frenética e granulação, claramente inspirados no filme de Harmony Korine, "Spring breakers". Assim como no excelente filme de Korine, as meninas são avançadas, modernas, falam muito palavrão, desbocadas e dominam os homens no quesito sexo. Elas sabem o que elas querem, e não é pouco. Em pleno Séx XXI, elas querem dizer que são elas, as mulheres, que dizem o que elas querem fazer. O filme se passa em 2 épocas: o reveillon do ano anterior, e o tempo presente, 1 ano depois. Beth, Milena e Carina (Giovana Echeverria, Barbara França e Jeyce Valente, respectivamente), amigas inseparáveis, fazem muita merda e só quere saber de sexo, drogas e música eletrônica. Um ano se passa, e Beth volta de Nova York mais séria. as amigas estranham, mas resolvem aprontar uma festa surpresa na casa de Beth, para desconforto dela. Até o final do filme, saberemos o porquê dessa mudança de comportamento.
O cartaz do filme não me pareceu vender o filme certo para o seu público, majoritariamente adolescente. se eu não soubesse nada do filme, acharia que estaria vendo um filme sobre jovens prostitutas. E o filme não tem nada disso. ele vai na linha dos filmes juvenis americanos, que é o da loucura adolescente, promovendo inclusive a famigerada festa na casa de uma delas e torcendo para que os pais não cheguem naquela noite. Nesse cenário de destruição, acompanhamos o drama das amigas, cada uma com um problema a resolver: baixa auto-estima, narcisismo e excesso de sexualidade. Uma pena que para poder trazer humor ao filme, alguns personagens se tornem caricatos e só servem para fazer piadas sobre sexo. Parece que estamos vendo 2 filmes diferentes, ainda mais porquê o desfecho vai fundo no drama. O destaque vai para o trabalho das meninas, que fazem o que podem, com diálogos onde 70% elas falam palavrão. Será que a adolescência está assim tão liberal como no filme?
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Irmãs
"Sisters", de Jason Moore (2015)
Sempre duvidei de comédias que possuem duas horas de duração ou mais. Afinal, comédia e' ritmo e timing, e chega uma hora que até mesmo as piadas se tornam cansativas. Dirigido pelo mesmo diretor da comédia " A escolha perfeita", Jason Moore, a comédia " Irmãs" aposta no humor e no talento das comediantes Tina Fey e Amy Poehler, ambas remanescentes do " Saturday night live". Elas são divertidas e ótimas em improvisação. Mas o filme tem justamente aquilo que eu mais temia: falta de ritmo. As piadas sujas e escatológicas se acumulam em escalada catastrófica, mas o espaco entre cada piada e' muito grande. Fica sempre aquela sensação de coito interrompido. O filme usa como tema o já batido " galera enlouquece e destrói uma casa numa festa de arromba". Já vimos isso em dezenas de filmes. Aqui o que diferencia e' que ao invés de adolescentes e jovens adultos, os responsáveis por tanta destruição são adultos na faixa dos 40 e tantos anos. Usando a máxima que a vida e' curta e que devemos fazer o que tiver em mente, e não deixar o vazio e o tédio tomar conta da meia idade, a galera joga tudo pro alto e se fartam de sexo, drogas e rock"n roll. Sim, era para ser engraçado. Até tem uns momentos bem escrotos que para quem busca uma comédia escatológico vai se esbaldar. O filme quer ser " Um convidado bem trapalhão" para adultos. Até a gag da casa inundada de espuma e' usada. Mas infelizmente ficou faltando injeção de ânimo e criatividade. Para sessão pipoca sem grandes expectativas, tá valendo. Pelo menos para ver o elenco se divertindo, incluindo as ótimas Dianne Weist e Maya Rudolph.
Violento e profano
"Nil by mouth", de Gary Oldman (1997)
"Violento e profano" é um filme obrigatório, uma mistura de "Transpotting" e "Zona de conflito", esse também dirigido por um ator, Tim Roth. Os 3 filmes estão entre os melhores filmes ingleses dos anos 90, e falam sobre viciados em drogas e violência doméstica. Gary Oldman, ator mundialmente conhecido por tantas performances antológicas ( "Sid and Nancy", "Batman"), dedicou esse filme ao seu pai. Sabe-se que Oldman teve uma infância difícil, e cresceu na periferia de Londres. Seu pai era violento, e ele procura mostrar no filme toda a memória emotiva que ele guardou dentro de si.
Raymond ( Ray Winstone) é um trabalhador alcóolatra. Ele mora com sua esposa grávida, Valerie ( Kathy Burke, melhor atriz em Cannes 2008) e uma filha pequena. Seu cunhado, Billy, é um viciado em drogas e vive roubando coisas para alimentar o seu vício. A mãe de Valerie e Billy, Janet ( Laila Morse, irmã de Gary Oldman) é uma operária e precisa lidar com a violência vivida pelos seus filhos. Raymond é ciumento,e constantemente espanca sua esposa. Valerie decide sair de casa, mas Raymond vai atrás dela.
A performance dos 4 atores principais é digna de nota e obrigatório para todos os atores assistirem. Nunca foi fácil interpretar bêbado, mas Ray Winstone faz com uma verdade impressionante. Kathy Burke comove com o seu silêncio doloroso, e suas cenas são fenomenais. A trilha sonora, de Eric Clapton, envolve o filme com muita melancolia, e a fotografia, em tons azulados, não dá nenhuma concessão a um momento de felicidade. Aliás, só lá pelo desfecho existe um momento de cor, em um pub karaokê. Só isso. A direção de Oldman é precisa, econômica, com a câmera sempre no lugar certo. Incrível como que, após realizar esse filme, ele não tenha dirigido mais nada. É um trabalho de profissional, ser Ator com certeza o ajudou na realização desse filme primoroso.
Para os Atores, o filme é recheado de bons monólogos.
Retorno à Itaca
"Rethour à Ithaque", de Laurent Cantet (2014)
Pegue um Cineasta premiado em Cannes ( Laurent Cantet, vencedor da Palma de Ouro de melhor filme em 2008 por "Entre os muros da escola'"), uma locação deslumbrante ( um terraço em Havana, de onde se vê toda a Ilha em seu esplendor) e 5 Atores cubanos extraordinários, e acrescente aquela pitada nostálgica de obras-primas como"Nós que nos amávamos tanto", de Ettore Scola. O Resultado é um filme melancólico, que nos faz reavaliar a nossa vida e as decisões que tomamos, principalmente quando, como os personagens, você está na meia idade. É um filme sobre derrotas, sem nenhuma vitória, nem nenhum momento de alegria ( sorrisos se escondem sob falsas promessas e debaixo de muita hipocrisia). Amadeo, escritor e integrante de um grupo de teatro, retorna à Havana, após 16 anos de exílio em Madri. Seus melhores amigos se reencontra e juntos, os 5 passam uma tarde juntos. No entanto, o que era para ser um reencontro feliz, acaba se tornando uma verdadeira lavação de roupa suja, onde o que parecia ser amizade, era na verdade, um jogo de mentiras.
Laurent Cantet já havia filmado em Cuba, ele foi o autor de um dos episódios de "7 dias em Havana", filme em episódios ambientados em Havana. Cantet escreveu essa história sobre a desilusão. Através de 5 personagens na faixa dos 50 anos: Tania ( Isabel Santos), oftamologista que mal consegue sobreviver com o seu salário, e que vive de doação de comida de seus pacientes, e cujo marido e filhos figuram para Miami e nunca mais se comunicaram com ela; Aldo (Pedro Julio Diaz), mec&anico que conserta baterias roubadas; Eddie (Jorge Perugorria), dono de uma empresa que vende produtos no mercado negro e prestes a ser preso; Amadeo ( Nestor Jimenes), escritor que retorna para Havana após 16 anos em Madri, e cuja esposa faleceu de câncer sozinha em Cuba; e Rafa ( Fernando Hachaverria), pintor de sucesso que teve que ceder a pressões do governo e deixar de ser um artista para pintar qualquer coisa. Todos eles, possuem dentro de si um fracasso pessoal e profissional. A metáfora de uma Cuba que talvez não tenha dado certo na sua revolução socialista, perpassa pela vida desses anti-heróis, que acreditaram nos ideais revolucionários. A direção de Cantet tenta, mas é difícil não ter a sensação de estarmos vendo teatro filmado, afinal, o filme é totalmente dialogado. Mas as imagens belíssimas do terraço, com vida própria ( acompanhamos os moradores que vivem ao redor) e uma fotografia exuberante constantemente nos fazem lembrar que estamos vendo cinema. O trabalho excepcional dos atores, todos cubanos e portanto, trazendo na memória dos personagens a memória pessoal de cada um, faz com que olhares e sorrisos amargos se tornem tristemente reais.
Para quem gosta de um filme apreciando um ótimo texto e atores talentosos, não podem deixar de assistir a esse belo filme. Que com certeza, os fará pensar muitas das decisões de sua vida.
Que estranho chamar-se Federico
"Che strano chiamarsi Federico", de Ettore Scola (2013)
Com o falecimento recente do Cineasta italiano Ettore Scola, em janeiro de 2016, resolvi assistir a esse filme que eu havia perdido na época da exibição em circuito. Em primeiro lugar, e' preciso dizer que a filmografia de Scola foi fundamental para a minha formação como cinéfilo. Filmes como " Nós que nos amávamos tanto", " O baile", " A viagem do Capitão Tornado" , " Um dia muito especial" e " Splendor" fizeram a minha cabeça e suas imagens custam a sair da minha mente. Quando isso acontece, a gente sabe que está diante de um Artista. Esse e' o mesmo pensamento que Scola tinha ao rever nesse filme as imagens e cenas antológicas da obra do amigo Fellini. E " Que estranho chamar-se Federico" e' isso. Uma declaração de amor de um amigo e fã. Scola e Fellini foram amigos por mais de 50 anos. Começaram juntos em um jornal, desenharam caricaturas, fizeram filmes juntos e dai cada um começou a seguir o seu caminho, porém jamais se separando. Um visitava o set do outro, e juntos do ator e amigo inseparável, Marcello Mastroianni, formavam um trio de ouro. O último elo dessa tríade se foi, mas a obra incalculável de ambos amigos cineastas permanecerá para sempre na memória dos Cinefilos. O filme mistura imagens de arquivo, entrevistas de época, ficcionalização da história de Fellini e Scola usando atores e trechos de filmes. Mas o mais interessante como recurso de linguagem, e' Scola se apropriar da máxima de Fellini e fazer assim a sua viagem emocional: Cinema e' tudo mentira. Assim, quase todo o filme é rodado no Estúdio 5 de Cinecitta, local aonde Fellini rodou boa parte de seus filmes. Ali, Scola montou cenários e com a ajuda de telões e projetores, aplica imagens de uma Roma Felliniana e nostálgica. A trilha sonora evoca as famosas músicas de Nino Rota, parceiro habitual de Fellini. E que interessante sabermos que a inspiração dos roteiros de Fellini vinham da rua, de pessoas comuns ( como a inspiração de Cabiria). O desfecho do filme e' belíssimo, com um pout pourri de cenas de filmes de Fellini e Scola ao som de Nino Rota e seu " 8 e 1/2".
Lindo e obrigatório para Cinefilos.
Studies on hysteria
"Studies on hysteria", de Gabriel Borgetto, Matthias Bäuerle e Bernd Faaß (2012)
Premiadíssimo curta alemão, que brinca com a narrativa dos comerciais de jeans. Co-patrocinado pela Colorado Denin, o filme narra a história de Adam, um jovem que mora em uma comunidade em algum lugar perdido no tempo. O que há de diferente nessa comunidade? Bom, todos vivem totalmente nus. Não existe vestimenta, ninguém nunca viu ou usou peças de roupa. E assim são felizes vivendo sem pudor. Um dia Adam, caminhando na floresta, encontra uma calça jeans, algo que ele nunca havia visto antes. Como uma pessoa iletrada, ele não faz idéia do que é um jeans e qual a sua serventia: ele usa como coador, etc, até descobrir que é para vestir. E fica feliz, e se sente realizado. Mas ao andar pelas ruas com o jeans, Adam provoca fúria e temor entre os populares, que resolvem enforcá-lo.
Criativo, super ousado ( todo o elenco está totalmente nu, sem bolas pretas cobrindo as partes íntimas), o filme diverte e me lembrou até o filme "O show de Truman", que é essa brincadeira com outra linguagem, no caso, da publicidade. Bela direção, e uma edição enxuta e precisa em 8 minutos de filme. O título brinca com o nome do livro de Sigmund Freud, também 'Studies on hysteria".
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Body
"Cialo", de Malgorzata Szumowska (2015)
E o filme espirita ganha status de filme de arte. Vencedor do Urso de prata de Melhor direção em Berlin 2015, "Body" é dirigido pela polonesa Malgorzata Szumowska., que realizou, entre outros , "Elles", com Juliette Binoche como uma jornalista da revista Elle fazendo matéria com duas jovens prostitutas, e "In the name of..", sobre um padre que alimenta desejos sexuais por um rapaz. Em quase todos os filmes, o que vemos é o tema do desejo como elemento chave nas histórias de seus personagens. Em "Body", temos o oposto: o anti-desejo, a falta de. Olga é anoréxica e não quer comer. Ela tem uma péssima relação com o seu pai, perito policial, e ambos sofrem pela morte da esposa/mãe. Anna é uma terapeuta, deprimida pela perda do seu filho, e cuida na clínica psiquiátrica de pacientes com bulimia, entre elas, Olga. Mas Anna tem um dom: o de ver mortos, desde que seu filho faleceu. Olga e Anna se conectam, e o cético perito impede que sua filha torne a fazer terapias com Anna.
A curiosidade do filme é a menção a Chico Xavier e de que aqui no Brasil existem milhões de espíritas. O filme, no entanto, tem uma narrativa extremamente fria. Ele é vendido como uma comédia dramática, mas sinceramente não encontrei nenhum elemento de humor. Talvez um ou outro momento que possa aparentar um certo olhar patético sobre a vida, mas é tudo tão cru e sem vida que fica difícil rir. As histórias se desenrolam em pequenos sketches, cenas soltas, cenas de terapia ( a melhor parte), mas a total falta de empata e carisma dos personagens me afastou do filme.
O melhor do filme para mim é a estética, os planos fixos, bem compostos elegantemente.
Pai em dose dupla
"Daddy's home", de Sean Anders (2015)
Comédia maluca protagonizada por Will Ferrel e Mark Wahlberg, que já haviam trabalhado juntos no também divertido "Os outros caras". Aqui, Will Ferrel interpreta Brad, um empresário de uma Estação de rádio, casado com Sara. Ele é padrasto dos 2 filhos que sara teve com Dusty ( Mark Wahlberg). O sonho de Brad é ser chamado de pai pelas crianças, mas isso nunca acontece. Um dia, Dusty resolve retornar, e Brad aceita, achando que as crianças iriam preferir a sua presença. O que ele não esperava é que Dusty viesse na figura de um pai jovial, aventureiro e marombeiro. Dusty faz de tudo para conseguir de volta o amor das crianças, e consequentemente de Sara, e Brad precisa defender o seu amor por eles. Inicia-se então uma guerra para provar quem é o melhor pai das crianças.
Com gagas daquelas de soltar gargalhadas, o filme se baseia 100 % no carisma já comprovado dos 2 atores. Mark Wahlberg tem uma filmografia muito interessante, pois ao mesmo tempo que faz filmes sérios, como "Boogie nights", interpreta personagens à beira da loucura como em "Ted"e aqui em "Pai em dose dupla". Will Ferrel, que infelizmente aqui no Brasil não tem a popularidade que merecia, tem aquele tipo impagável que nem precisa se esforçar tanto para sôar engraçado. O filme é para toda a família, e garantia de boas risadas.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
O filho de Saul
"Saul fia", de László Nemes (2015)
Vencedor de vários prêmios internacionais, entre eles o Grande prêmio do juri em Cannes de melhor filme e o Globo de Ouro, "O filho de Saul"é o longa de estréia do húngaro László Nemes, ex-assistente de direção de Bela Taar. Narrativamente e estilisticamente ousado, o filme é filmado 100% com a lente colada no personagem, ou de frente ou por trás. Tudo ao redor está desfocado ( com raras exceções, avistamos em foco algumas situações chave) porém Lazlo Nemes parte do pressuposto de que o espectador já conhece o que acontece, portanto, não precisa focar. O som dos gritos, e mesmo tudo desfocado, intensifica ainda mais o horror dos judeus massacrados em Auschwitz. Tudo é pelo ponto de vista de Saul, um Sonderkommando ( judeus que fazem parte de um grupo de "funcionários" da Gestapo, executando funções que os oficiais não fazem. Eles são poupados monetaneamente de serem mortos, podendo acontecer a qualquer momento). Saul ( o ator e poeta Géza Röhrig, radicado em Nova York) tem como missão enterrar corpos de judeus mortos na câmera de gás. Um dia, ele presencia um menino que sobreviveu ao gás, mas que é imediatamente morto pelo médico. Essa luta do menino pela vida faz com que Saul acredite que é seu filho que ele desprezou em vida, e decide sequestar sue corpo e procurar um rabino para rezar em sua cova. Saul passa então a procurar entre os judeus que irão morrer, algum rabino para rezar pelo morto. Paralelo, um levante está sendo promovido pelos prisioneiros, que quere, atacar os soldados.
O filme todo acontece em um período de 2 dias. A direção mantém uma linguagem angustiante e claustrofóbica somente usando esse recurso d alente colada ao personagem. A câmera na mão é bem tremida, e por conta disso, não recomendo o filme a quem sente vertigem.
O trabalho de som também impressiona, fazendo escutarmos um outro filme que não é o que está sendo visto.
Nota: 9
Para minha amada morta
"Para minha amada morta", de Aly Muritiba (2015)
Drama de suspense psicológico dirigido pelo cineasta Aly Muritiba, baiano de nascença mas paranaense de formação cinematográfica. Diretor de vários curtas premiadíssimos, Aly realiza aqui um filme sobre memória e sobre a tentação da vingança. Inconscientemente, " Teorema" de Pasolini permeia a história de um fotógrafo policial, Fernando ( Fernando Alves Pinto) que, ao descobrir a traição da falecida esposa, a quem tanto venerava, resolve descobrir o paradeiro do amante. Esse amante vem na figura de Salvador, um evangélico recém convertido, casado e pai de duas filhas. Fernando aluga uma casa dos fundos e passa a seduzir e atormentar todos que ali habitam, planejando a sua vingança. Um filme de planos longos, alguns com mais de 8 minutos, e um trabalho extraordinário de atores. Além de Fernando Alves, o filme lança Lourinelson Vladmir, ator paranaense que com certeza terá uma bem vinda carreira bem sucedida pela frente, e uma Mayana Neiva reinventada, ótima no papel da evangélica e dedicada dona de casa. A fotografia de Pablo Baião traz a dureza das locações, da casa, de uma Curitiba sem identidade, das emoções veladas dos personagens. Um filme que instiga, e jamais traz o óbvio. Parabéns ao Cineasta Aly Muritiba, que vem enriquecer a filmografia nacional.
Diário de uma busca
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"Diário de uma busca", de Flavia Castro (2010)
Celso Afonso Gay de Castro, jornalista, 41 anos, ex-militante político e comunista, exilado em vários países, foi encontrado morto em 4 de outubro de 1984. Segundo o noticiário da época, ele teria invadido um apartamento de um alemão suspeito de ser nazista, ex-consul no Paraguai. Celso , acuado, teria assassinado seu colega e se suicidado. Com essa história mirabolante, a Cineasta e roteirista Flavia Castro ( co- escreveu o roteiro de "Nise", com Gloria Pires) realizou esse documentário sobre o seu pai. Investigativo, permeado por memória dela, do irmão Joca, de sua mãe e amigos da família, o filme mescla imagens de arquivo e entrevistas que Flavia fez, traçando o itinerário que sua familia fez na época do exílio, nos anos 60 até final dos anos 70, quando em 79, com a anistia política, resolveram voltar ao Brasil. Usando a memória e a ajuda de parentes e amigos, Flavia narra a sua epopéia ainda criança, indo de país a país, se escondendo com seus pais e irmão. Impossibilitada de ir para a escola, e sendo um estorvo ( na palavra da própria mãe), ela e o irmão eram totalmente um enfado para a guerrilha. Ainda na escola, uma colega perguntou o que os pais dela faziam, e ela respondeu: "eles só fazem reuniões". Foram para Santiago, Buenos Aires, Bélgica. Em todos esses lugares, se refugiaram em casas de amigos, embaixadas. Pulando de galho em galho, Flavia se sentia sem rumo. O filme, além de tentar entender o caso do suicídio de seu pai, para ela, supostamente assassinado por questões políticas, ainda faz esse relato melancólico sobre criancas sem identidade, que deixaram de viver a infância para desde pequenos, enfrentarem a duar realidade dos adultos. O filme venceu vários prêmios, entre eles, melhor documentário no Festival do rio e Prêmio da crítica em Gramado.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Som guia
"Som guia", de Felipe Rocha (2015)
O Ator, Diretor e músico Felipe Rocha realizou esse curta metragem que é uma verdadeira delícia para Cinéfilos. Subversivo e apaixonado pela linguagem da 7a Arte, Felipe Rocha é um estudioso dos recursos que o CInema pode proporcionar para provocar sensações. Talvez inspirado na liberdade criativa da Nouvelle vague e de clássicos de Godard, como "Pierrot le Fou", "Som guia" narra uma história de amor com começo, meio e fim. O que o diferencia dos outros romances tragicômicos, onde amor e tédio moram na mesma casa? A brincadeira com o termo "lip sync", a sincronia labial. E assim que o tédio ganha forma, a fotografia, o enquadramento, tudo ganha proporções catastróficas. Enrique Diaz e Mariana Lima se divertem nessa metalinguagem, que ao mesmo tempo que homenageia o Cinema, faz a sua condolência ao trabalho do Ator. Um filme genial. Não deixem de assistir se estiver passando em algum Festival. Fotografia incrível de Mauro Pinheiro Jr.
Essa pequena é uma parada
"What's up, Doc?", de Peter Bogdanovich (1972)
Uma das comédias mais devastadoras do Cinema, divide com "Um convidado bem trapalhão" e "Top secret" os meus tops de comédia de todos os tempos. Com argumento do próprio Bogdanovich, o filme é inspirado no desenho do Pernalonga e isso explica o seu título em original, "What's up, doc?", que é o grito de guerra do personagem.
Com um elenco estelar e hilário, a grande surpresa é Ryan O'neil, que tinha acabado de vir do mega sucesso lacrimogêneo "Love story" e se mostrou ótimo comediante, com uma dupla fabulosa ao lado de uma impagável Barbra Streisand.
O filme é uma comédia de erros romântica. Barbra interpreta Judy, uma maluquete que se apaixona por Howard (Ryan Oneil), noivo de Eunice ( Madaleine Kahn), uma histérica. Howard veio para uma conferência onde ele irá apresentar seu mestrado sobre pedras vulcânicas. No hotel onde se hospedam, também se encontram um espião, um bandido e uma milionária. O que os une? Uma valise exatamente igual. E a troca das valises ira desembocar em algumas das maiores gags que você já viu em comédias. O filme é hilário, cheio de ritmo, e totalmente non sense. A idéia é a de que estamos realmente assistindo a um desenho animado.
É um filme para se rever sempre, uma aula de como fazer comédias.
Nota: 9
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