sexta-feira, 18 de março de 2022

Master


"Master", de Mariama Diallo (2022)
Concorrendo no Festival de Sundance, "Master", escrito e dirigido por Mariama Diallo, vem na tradição do cinema de Jordan Peele, que discute o racismo dentro do gênero terror. Na Universidade Ancaster college, New England, a professora Gail Bisho (Regina Hall) é efetivada dentro da política que a universidade quer promover, de diversidade em todas as áreas. A caloura Jasmine (Zoe Renee) também chega repleta de disposição, se dispondo a querer estudar bastante e de fazer amizades. Mas para a surpresa de ambas, são poucas as negras ali existentes, e as que estão ali, incorporaram uma forma de lidar com os brancos de quase serventia e de querer agradá-los.
O quarto onde Jasmine fica hospedada já foi palco para vários suicídios de alunas negras, sendo a primeira, em 1968. Tanto Jasmine quando Gail passam a ser assombradas pelo passado racista e de escravidão existente ali no local.
Com ótimas performances, "Master" é um filem sombrio, trágico e pessimista, que deixa claro que o racismo está presente na vida da comunidade negra, mesmo quando a sociedade branca alega não ser racista. Um filme que incomoda o espectador porque o cutuca, o provoca e o faz refletir sobre os seus atos diários.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Emboscada


 "Lured", de Douglas Sirk. Remake do francês "Pieges", de Robert Siodmak, de 1939, 'Emboscada" é um clássico noir dirigido pelo mestre Douglas Sirk, famoso pelos melodramas como "Imitação da vida" e "Sublime obsessão", mas cuja carreira inicial misturava gêneros. O filme é estrelado pelos astros Lucille Ball ( em papel dramático), George Sanders e Boris Karloff. Em Londres, um serial killer mata jovens mulheres seduzindo-as através de anúncios amorosos em jornais. Depois de matá-las, ele manda cartas misteriosas para a polícia. Sandra (Ball) é uma dançarina americana que veio para trabalhar em Londres. Quando sua colega de trabalho Lucy desaparece, Sandra decide procurá-la com a ajuda do inspetor Harley (Charles Coburn), que pede para Sandra ser uma isca do serial killer. Sandra acaba conhecendo vários possíveis suspeitos, entre eles, Robert ( Sanders), por quem ela se apaixona. Um filme mais curioso do que bom, comandado por mestres como Douglas Sirk e um time de atores notáveis. A trama é boa, mas falta uma dose maior de suspense. 

Ghost tropic


"Ghost tropic", de Bas Devos (2019)
Concorrendo no Festival de Cannes 2019, "Ghst tropic" é um premiado drama de Bruxelas, trazendo um olhar ao mesmo tempo melancólico e esperançoso em relação à humanidade.
Khadija (Saadia Bentaïeb) é uma mulher de 58 anos que trabalha como faxineira em uma empresa durante o dia. Ao cair da noite, ela se despede dos colegas e pega o metrô. Cansada, Khadija acaba dormindo e ao acordar, se dá conta que está do outro lado da cidade. Está tarde e não existe mais metrô, e para piorar, ela não tem o dinheiro o suficiente para pegar um táxi. Khadija decide caminhar horas até sua casa, e no caminho, irá se deparar com um segurança de shopping, com um homem que passa mal na rua e com um atendente de uma loja de conveniência. Mas o que a perturbará é quando encontra a sua filha vagando pela madrugada com um rapaz.
De ritmo extremamente lento, com longos planos, o filme oferece contemplação sobre a noite na cidade, com o vazio, os silêncios e as observações sobre trabalhadores noturnos. Sobra espaço para se debater sobre a observação do trabalho sub-emprego para mulheres de terceira idade e a expectativa de novas gerações que têm outros desejos sobre suas vidas e sue futuro. Linda performance da atriz Saadia Bentaïeb em registro minimalista e contundente.

terça-feira, 15 de março de 2022

Entre festas


 "Hiacynt", de Piotr Domalewski. Premiado drama polonês baseado em fatos reais. Com conteúdo LGBTQIAP+, o filme flerta com o policial e o suspense para narrar o período de 1985 a 1987 no país, ainda sob o domínio do comunismo e com forte presença da polícia que vigia toda a população em uma sociedade conservadora. A operação Jacinto foi criada para cadastrar homossexuais e vigiá-los o tempo todo. Os homossexuais eram considerados pelo governo como criminosos, e estima-se que o caderno rosa teve mais de 11 mil cadastrados. O que se diz é que a operação teve início para manter o controle da Aids que estava surgindo no país, e também, pela alegada desvio de conduta. O jovem policial Robert (Tomsz Zietek) trabalha com o seu pai, um chefe d apolícia. Robert namora a oficial Halinka, e aparentemente em uma vida normal e feliz. Quando a polícia decide encerrar o caso de assassinatos de homossexuais, robert secretamente decide ir atrás do serial killer. Ele decide investigar um jovem

estudante, Arek,  que supostamente estava na festa frequentada por gays e de onde estão sendo sendo assasinadas as pessoas. 

O filme lembra demais o clássico "Parceiros da noite", com Al Pacino fazendo um policial que se infiltra na comunidade gay e se faz passar por um lgbt, até que ao conhecer um rapaz, começa a se envolver. "Entre festas" é um ótimo drama, com uma trama envolvente, bons atores e um visual que apresenta a frieza do mundo comunista europeu. 

Carlito se va para siempre


 "Carlito se va para siempre", de Quentin Lazzarotto (2018)

Belíssimo curta LGBTQIAP+ peruano, resultado de um workshop de direção ministrado por Werner Herzog e que resultou em inúmeros prêmios em festivais.

No vilarejo indígena de Palma Real à beira do Rio Amazônia no lado peruano, vive Carlito. Ele é silencioso e bastante observador. A sua comunidade foi quase toda evangelizada, e Carlito se sente um peixe fora d'água. Mas esse dia, será um dia diferente. Ele pega sua mochila, e decide ir embora, sem se despedir de ninguém. Quando se aproxima de uma canoa, sua avó surge e se despede dele. Carlito segue seu caminho, e se encontra com um outro rapaz. E fica feliz.
Mais do que o simples roteiro, a força do filme se reside na construção das imagens, filmadas em locações paradisíacas, e apresentando a vida pacata de um povo esquecido. A descoberta da sexualidade e o entendimento da busca pela felicidade e por um caminho que seria impensável em uma sociedade regida por tradição e preconceito.

Os últimos românticos



"Os últimos românticos", de João Cândido Zacharias (2019)
Excitante curta LGBTQIAP+ onde três rapazes fazem relatos de pegação, em 2 monólogos excelentes e sem cortes, mostrando um naturalismo e espontaneidade vibrantes de 3 jovens atores muito interessantes e talentosos.
No primeiro monólogo, um rapaz relata uma experiência sexual que ele teve em um cinema lotado assistindo "Blade runner 2049" e sentado ao lado de um rapaz, encosta sem querer a mão no genital do outro.
Na 2 cena, dois rapazes na cama relatam suas experiências com pegação: o primeiro rapaz é o cara que estava no cinema com o primeiro depoimento. O 2o rapaz relata sua experiência em um ônibus.
Filmado com extrema simplicidade mas deixando claro que com um ótimo texto, bons atores e muita criatividade, é possível fazer um filme muito bom.

A história de Dirk Diggler


"A história de Dirk Diggler", de Paul Thomas Anderson (1988) Estréia na direção do cultuado cineasta Paul Thomas Anderson, "A história de Dirk Diggler" foi rodado como um curta de estudante do então estudante de cinema, que na época, em 1988, tinha 17 anos.
O filme, todo rodado e editado em VHS, tem uma textura suja, condizente com o olhar vintage sobre o filme. Narrado em off por um narrador em tom sensacionalista, o filme mostra a ascenção e queda de Diggler: seu sucesso com os filmes pornôs, a sua relação bissexual com seu amigo e parceiro de cena Reed e a pressão do Diretor e produtor Jack Horner. O uso de drogas, a tentativa de ser cantor de rock e astro de uma fracassada série de tv até sua morte ainda jovem. E um desfecho delicioso e cafona, com um clip mostrando momentos da vida de Diggler, ao som de


 


segunda-feira, 14 de março de 2022

The souvenir- Parte 2


“The souvenir- Part 2”, de Joanna Hogg (2021)
Um raro caso de filme independente que tem uma continuação, “The souvenir- parte 2” é sequência direta do filme homônimo de 2019, e ambos bastante premiados e produzidos por Martin Scorsese, fã do trabalho da cineasta e roteirista Joanna Hogg.
O filme é autobiográfico da cineasta e conta a sua vivência com seus pais e a faculdade de cinema que ela está graduando. Julie (Honor Swinton Byrne, filha de Tilda Swinton) é o alter ego de Joanna. No filme anterior, ela vivia um relacionamento tóxico com Anthony, um homem mais velho que a ssediava moralmente e tinha grande influência sobre Julie. Nessa parte 2, o filme começa com Julie passando um tempo na casa de seus pais, Rosalind (Tilda Swinton) e Willian (James Spencer Ashworth). Julie vive um luto pela morte inesperada de Anthony por overdose. Julie decide retornar para a faculdade e fazer seu curta de graduação. Ela muda o roteiro e decide exorcizar sua história com Anthony no roteiro, mas é criticada pela bancada de professores ( todos homens. Mas Julie insiste e monta uma equipe de filmagem. No entanto, devido à sua pouca experiência, parte da equipe, principalmente o produtor e o fotógrafo, a pressionam, deixando claro que Julie não sabe o que quer, além dos próprios atores, que questionam o método de Julie de dirigir.

Um filme com foco no olhar feminino, sobre mulheres que passam seus dias sufocadas pela presença masculina, tóxica e ameaçadora, seja no âmbito profissional ou pessoal. Para quem trabalha com audiovisual, é um filme que apresenta o dia a dia que estamos acostumados a ver, com muita pressão. Um ótimo time de atores desconhecidos, abrilhantados pela jóia da Tilda Swinton. E como é lindo ver mãe e filha na ficção e na vida real trabalhando juntas!!

Huda's salon


“Huda’s salon”, de Hany Abu-Assad (2021)
Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro com “Paradise now”, o palestino Hany Abu-Assad lança mais um polêmico drama, mostrando o conflito entre palestinos e israelenses em terras ocupadas. Dessa vez, ele traz a história para Belém, ocupada pelos israelenses e com um muro dividindo as terras. A relação entre palestinos e israelenses é bastante tensa, e para as mulheres, resta pouca chance de sobreviver com liberdade, pois tem o agravante da sociedade patriarcal e machista.
“Em ‘Huda’s salon”, a narrativa é bastante tensa e vai num crescendo de suspense quase insuportável e angustiante.
Reem (Maisa Abd Elhadi)é uma jovem mãe de um bebê de dois meses, e casada com o ciumento Yousef (Jalal Masarwa). Em um dia como outro qualquer, ela vai até o salão de Huda (Manal Awad), lugar que ela frequenta a tempos, para fazer o cabelo. Mas para sua surpresa, ela é drogada por Huda e tem fotos comprometedoras feitas por Huda, que a obriga a trazer informações para os israelenses, caso contrário, as fotos dela serão divulgadas. Reem se desespera e tem medo de contar ao marido o ocorrido. Huda, por sua vez, é presa pela polícia secreta palestina e é interrogada pelo policial Hasan (Ali Suliman), que quer saber quem são as mulheres que estão nas polaróides encontradas na casa dela, acusadas de traição.
Com apenas 4 atores e uma direção impecável, “Huda’s salon” jamais é óbvio, e faz com que o espectador torça pelas protagonistas, assim como procura dar voz e razão para todos os personagens. Um filme corajoso, denso, que certamente provocará a ira de palestinos e israelenses pela forma ousada e visceral como mostra algumas cenas.

sábado, 12 de março de 2022

Ascenção


  ‘Ascension”, de Jessica Kingdon (2021)

Excepcional documentário que remete aos filmes dirigidos por Godfrey Reggio nos anos 80: “Koyanisqatsi”, “Powaqatsi”, que são imagens lúdicas, poéticas e reveladoras mostrando a sociedade industrial , a população e o meio ambiente conectados ao processo da modernidade e da inevitável universo do consumismo e do capitalismo.

A cineasta Jssica Kingdon e seu fotógrafo Nathan Truesdell viajaram por 51 locais distintos na China e divide seu filme em 3 blocos: classe trabalhadora, classe média e a elite chinesa, enriquecida com a entrada da China ao mundo capitalista. São imagens impressionantes, algumas parecendo obras de arte. Os melhores segmentos são o de uma fabrica que fabrica bonecas sexuais, absolutamente bizarro. No 3o ato, mostrando os ricos, todos em situações impensáveis na China de anos atrás. E o que dizer da aula de etiqueta, onde as pessoas precisam aprender a abraçar e a sorrir, hábitos complexos de um oriental, mas necessário na união com o capital ocidental. Para sorrir, mostre 8 dentes, diz o professor. O filme venceu mais de 10 prêmios internacionais, entre eles, melhor documentário em Tribeca 2021.

Red- Crescer é uma fera


“Turning red”, de Domee Shi (2022)
Primeiro filme da Disney Pixar dirigido por uma mulher, “Red- Crescer é uma fera” é realizado pela mesma cineasta do curta “Bao”, premiado com o Oscar de melhor curta de animação em 2019.
O filme traz referências de sua cineasta, Domme Shi: fala sobre uma comunidade de chineses que moram em um bairro do Canadá. O ano é 2002, o auge das Boy Bands. Meili(Rosalie Chiang),13 anos, é uma excelente estudante e tudo na sua vida é bastante regrado e eficiente, ganhando elogios de todos, principalmente de sua mãe, Ming (Sandra Oh). Meilin e seus pais gerenciam um tempo frequentado por turistas. A idade de 13 anos no Canadá já é considerado entrada para a vida adulta, e esse fato faz com que Meilin se sinta pressionada pela entrada na puberdade, além de desejar ter mais liberdade. Ela sente atração por meninos e principalmente, apaixonada pela boy band 4-Town, que irá fazer um show na cidade. Sua mãe proíbe que ela vá, e isso faz com que Meilin se transforme em um gigante panda vermelho, resultado d etensão e stress.

O filme é bastante simpático e traz traços mais próximos ao anime, com os olhos amendoados e inserção de reações nas imagens. É um filme que lida com temas importantes como sororidade, feminismo, primeiro amor e mudanças corporais, metaforicamente ilustrados através do panda.

Exorcismo sagrado


"The exorcism of God", de Alejandro Hidalgo (2021)
Terror em co-produção México, Venezuela e Estados Unidos, "Exorcismo sagrado" busca o tempo todo pegar referências de "O Exorcista", de Willian Friedkin, inclusive copiando as mesmas cenas, como a chegada do padre na casa da possuída. Mas curiosamente, o filme tem elementos visuais e de narrativa que lembram outros clássicos do terror, como "A profecia" e "Demons, os filhos das trevas", de Lamberto Bava, com sua maquiagem trash e zumbis tosqueiras.
"Que lugar é esse, Padre?- Uma prisão do terceiro mundo- Eu não sei se devo espalhar água benta ou alvejante.". Essa frase proferida por um dos padres denota o tipo de humor ácido que surge espontaneamente no filme, fazendo graça aonde não deveria ter. A história é interessante: O padre Peter Williams (Will Beinbrink) está no México em uma região pobre. Ele luta pela causa dos pobres. e é bastante ativo entre a população. Ele é acionado para um exorcismo, no entanto, ele ainda não está preparado para tal missão. Temendo pela morte da possuída, ele aceita fazer o exorcismo, mas a sedução do demônio Balban acarreta uma ação violenta que culminará em uma brecha de tempo de 18 anos depois. O padre agora trabalha no campo com os sem terra mas é chamado para um novo exorcismo: uma jovem de 18 anos está na prisão e necessita da ajuda dele. É a sua chance de se redimir de seus atos passados.
O filme é corajoso quando fala metaforicamente sobre os abusos sexuais dos padres, só que aqui, o demônio é literal, mas fica fácil entender a simbologia. O final também lembra bastante "A profecia". O filme muitas vezes parece um filme bastante tosco, um filme B trash, e para o meu gosto, acho até divertido. O que atrapalha são os excessos de diálogos e ritmo. A cena de Cristo crucificado virando um demônio é realmente polêmica e corajosa, pois rompe de vez com um simbolo católico de forma bizarra.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Dog


‘Dog”, de Channing Tatum e Reid Carolin (2022)
Drama feel good movie que marca a estréia do ator Channing Tatum na direção. Aqui, ele co-dirige com o seu amigo roteirista Reid Carolin. Channing interpreta Briggs, um ex-Ranger, que é uma divisão de elite do exército americano. Por problemas de TDSA, Briggs é obrigado a sair da corporação, mas seu sonho é poder retornar. Essa oportunidade surge quando lhe passam uma missão especial: levar a cadela Lulu, uma ex-ranger que durante anos acompanhou um outro ranger, e que foi morto em combate. Briggs deve levar Lulu até o velório do soldado, sendo esse seu último pedido. Mas Lulu está irritadiça e por isso será sacrificada após o velório. Briggs aceita, mas impedido de viajar de avião pelas condições do animal, ele precisa viajar de carro até o Arizona. Durante a viagem, muita coisa irá acontecer, mudando definitivamente a vida tanto de Briggs, quanto de Lulu.
Como roteiro, o filme é super óbvio e todo mundo sabe como o filem irá terminar. O que vale no filme é que as cenas com a cadela são emocionantes, e ela sim, é a grande atração do filme. O filme aposta mais no drama do que numa tentativa de humor, que é pouco. E também fala de temas mais densos, como a cena onde Lulu ataca um homem vestido como alguém do oriente médio, pois ela foi treinada para essa ação.

Laços de afeto


"Il filo invisible", de Marco Simon Puccioni (2022)
Melodrama LGBTQIAP+ italiano sobre dois pais gays que fizeram inseminação artificial, engravidaram uma amiga e tiveram um filho, Leone. Simone e Paolo, os pais,e Anna, a amiga, amam o adolescente Leone, agora com 20 anos de idade. Aplicado estudante, ele tem paixão platônica por uma garota, mas todos acham que Leone é gay por ser filho de dois pais. Para piorar a situação, um dos pais de Leone trai o marido e acabam se separando, o que faz com que a justiça queira provar a paternidade deles.
"Laços de afeto" é um filme correto, com bons atores e boa trama. O ritmo é lento, mas a discussão de temas importantes faz valer a pena assistir ao filme, que tem momentos de emoção.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Aline


"Aline", de Valérie Lemercier (2021)
Cinebiografia não autorizada da cantora Celine Dion, "Aline" estreou em Cannes e recebeu cinco minutos de aplausos ao final da sessão. O filme ganhou também o Cezar de melhor atriz para a atriz Valérie Lemercier, também diretora e roteirista do filme.
Aqui no filme, Celine Dion ganha o nome de Aline Dieu, e mostra a sua história dos 4 anos de idade, de uma família pobre em Quebec, Canadá, e seus atributos de cantora já desde pequena. Depois o encontro com o produtor musical René Angélil, 26 anos mais velho e quem a ajudou a deslanchar a carreira até o mega-estrelato, ganhando o Oscar pela canção título de "Titanic".
O filme, com quase 130 minutos de duração, é correto, chapa branca, e bastante careta, convencional. Não que isso seja mal, mas não arrebata. Para quem for fã de Celine, certamente verá a vida da estrela ali documentada em todos os detalhes. Mas o momento mais surreal do filme é que a atriz Valérie Lemercier decidiu interpretar Aline dos 4!!!!!!!!! anos, 12 e 14 anos!! Como? ela filmou com atrizes mirins e colocou o seu rosto nelas!!!! Parecia a "Samara"de 'O chamado", sinistro mesmo. Uma decisão muito bizarra!

A espera de Liz


"A espera de Liz", de Bruno Torres (2020)
Na estréia da direção de seu primeiro longa-metragem, o ator, músico, diretor, roteirista e produtor Bruno Torres não esconde a sua formação cinéfila. Referências ao cinema de Tarkovsky, Inarritu e até a um cinema documental etnográfico embasam uma narrativa que fala sobre amor, melancolia, perda e renascimento. O filme poderia se chamar também de "A espera da Luz", um trocadilho para a protagonista Liz (Simone Iliescu), uma mulher que está em uma fase cinza de sua vida: seu companheiro Miguel (Bruno Torres ) desapareceu, e ela busca o apoio de sua família ao visitá-los na festa de boda dos 25 anos. Liz chega em Gramado, no sul do país, na fazenda dos pais, interpretados por ZéCarlos Machado e Ingra Lyberato. Sua irmã mais nova, Lara (Rosane Mulholand) evita contatos com Liz. Nessa falta de amparo, Liz se fecha em um mundo de angústia e depressão.
Com uma fotografia que exalta as belezas das locações do Monte Roraima e de Gramado, André Lavenere aposta em quadros cartões postais que lembram a beleza de "Diários da motocicleta", de Walter Salles, aquele olhar poético sobre a América Latina. Os três protagonistas estão firmes, mas o destaque vai para ZéCarlos Machado e Murilo Grossi, dois atores veteranos que trazem brilho para as cenas e personagens.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Pornô e liberdade


"Porno y libertá", de Carmine Amoroso (2016)

Ótimo documentário italiano que apresenta o nascimento da pornografia no início dos anos 70 no mundo, e principalmente, dentro da Itália. O filme apresenta uma geração que viveu a contra cultura e que buscou na liberdade sexual a luta contra o conservadorismo, o governo e o sistema. Entrevistando cineastas, atores e apresentando um excelente material de arquivo dos primeiros pornôs, tanto em publicações quanto na indústria cinematográfica, o filme traz muitas cenas sem censura de filmes e de manifestações públicas nas ruas de Roma que acabaram em orgias. É importante também por dimensionar a importância do cinema pornô para cineastas e filmes clássicos da época, que investiram em nudez frontal masculina e em cenas de sexo até então tabus, como Pasolini, Bertrand Blier e Bertolucci. A parte mais curiosa é quando falam de Cicciolina, sua infancia, seus shows eróticos, a entrafa na pornografia e depois na politica.

Lingui


"Lingui", de Mahamat-Saleh Haroun (2021)
Pungente drama vindo de Chade, país africano que indicou o filme para representá-lo no Oscar de filme estrangeiro. O filme concorreu em importantes Festivais, incluindo a competição oficial do Festival de Cannes 2021. O que impressiona é o filme falar sobre o feminino de forma tão intima e cativante, e ter sido escrito pelo cineasta e roteirista Mahamat-Saleh Haroun, me fazendo lembrar da alma feminina de Almodovar que também escreve para mulheres.
Com linda fotografia, o filme conta a história de Amina (Achouackh Abakar Souley), uma mulher que sobrevive fazendo artesanato com o ferro de pneus velhos, vendendo na feira a sua arte. Amina tem uma filha, Maria (Rihane Khalil Alio), de 15 anos. Amina encontra a sua filha triste e pergunta o que aconteceu. Maria diz que foi expulsa da escola e está grávida. E mais: que quer abortar. Amina fica tensa, pois como muçulmana, ela sabe que a prática do aborto e ilegal e proibida no país, mas dá força para que sua filha faça o aborto.
Um lindo filme etnográfico que apresenta duas belas performances das atrizes principais, mas também, um olhar sobre uma sociedade milenar, e uma religião que não permitem a liberdade de escolha das mulheres sobre o seu corpo.

terça-feira, 8 de março de 2022

Lockdown


"Lockdown", de Joel Lamangan (2021)
Drama LGBTQIAP+ filipino, é um filme visceral e contundente sobre um rapaz, Danny (Paulo Gumabao) que passa por um processo de degradação humana durante o lockdown da covid.
Danny retorna para Manilla, capital das Filipinas, após trabalhar dois meses em um hotel de Dubai. Por contenção de despesas, ele é demitido e retorna à sua cidade. Ao chegar, ele precisa fazer uma quarentena de 14 dias, mas preocupado com seu pai que se acidentou e precisa de sua ajuda, ele foge ao cerco policial. Sua mãe está desempregada, assim como sua irmã, e Danny faz de tudo para poder trabalhar e bancar as despesas médicas. Sem sucesso, ele aceita trabalhar como Cam-boy em um cyber café, se expondo junto de outros rapazes para clientes do mundo todo. Mas a polícia chega e prendem a todos. Danny é levado por um coronel, que o estupra.
O filme é bastante cruel e não tem a mínima compaixão por seus personagens. É sofrimento atrás de sofrimento. "Lockdown" expõe os primeiros meses da pandemia de forma trágica, e deixando claro que a classe pobre foi a quem mais sofreu com falta de alimentos e manutenção. Para os espectadores voyeurs, o filme é repleto de cenas de nudez e sexo.

segunda-feira, 7 de março de 2022

A dose


""La dosis", de Martin Kraut (2021)
Drama de suspense psicológico argentino, escrito e dirigido por Martin Kraut, em seu filme de estréia. O filme acompanha a rotina do enfermeiro de meia idade
Marcos ( Carlos Portaluppi ), um solitário e corpulento que trabalha no turno da noite na sombria unidade de terapia intensiva de uma clínica particular. Por misericórdia, ele provoca eutanásia em pacientes que não têm mais esperanças, sem que ninguém saiba.
Quando chega um novo funcionário jovem e bonito Gabriel (Ignacio Rogers ), Marcos se sente atraído per ele. Gabriel seduz a todos, funcionários e pacientes com sua simpatia e beleza. Mas pacientes começam a morrer, e Marcos estranha, pois não foi ele o responsável pelas mortes. E passa a suspeitar de Gabriel.
Suspense com toques de humor ácido, o filme ainda traz elementos de homoerotismo, como a atração que Marcos sente por Gabriel, que se aproveita dessa paixão platônica para seduzir e chantagear Marcos. Com bons atores, o filme é interessante e apesar de ter um desfecho insatisfatório, o filme é um gênero ainda pouco conhecido do cinema argentino.

Se organizar direitinho..


"Donde caben dos", de Paco Caballero (2021)
Comédia erótica espanhola que mistura elementos do americano "Shortbus", do brasileiro "Ninguém entra ninguém sai" e do argentino "2 + 2".
O filme se passa em uma única noite em Barcelona. Cinco histórias se entrecruzam numa noite disposta a mudar a vida de todos.
1) 1 casal de meia idade convida o outro para a sua casa, para propôr um swing e ver se a relação dois dois casais esquentam. Mas um dos maridos passa a sentir ciúmes do amigo, famoso por seu um amante inesquecível
2) Um casal jovem vai até o Paradise club, famosa casa de swing para fazer sexo com outro casal, até que a mulher reconhece que o marido da outra é seu ex-namorado
3) Um jovem gay traumatizado pelo abandono, decide ir até o Paradise club e vai até o glory hole, e fica conversando com outro rapaz que ele só escuta a voz
4) Duas igas acordam após uma despedida de solteira de uma delas. Desmemoriadas, elas vão até o paradise club, local onde elas fizeram a despedida e entender o que aconteceu, até porque a noiva perdeu o anel de noivado
5) Uma jovem recebe seu primo com quem ela tinha fantasias, mas descobre que agora se se tornou um workhaholick chato, e decide levá-lo até o paradise clube, meso que ele não queira ir
O filme é longo, quase duas horas, e são muitas as histórias, algumas até dispensáveis. E as histórias nem são assim tão originais. O humor é muitas vezes escatológico e as cenas de sexo repleta de sacanagem, apesar de a nudez ser bem discreta, mas ao linguajar picante é comum nos diálogos. O Desfecho é totalmente "Shortbus", com direito até a bandinha de músicos. E o título em português foi retirado da fala de um personagem de "Ninguém entra ninguém sai".

Minha vida incomoda muita gente


"Meskina", de Daria Bukvic (2022)
Comédia dramática holandesa que traz um tema mega batido sem originalidade: uma mulher de 30 anos, Leyla (Maryam Hassouni), de família marroquina, é forçada pela mãe, irmã e familiares a se casar, correndo o risco de ser chamada de "Meskina": um caso perdido. A mãe diz logo de cara: 'você tá ficando velha e ninguém vai te querer". Ou seja, a velha história da família tradicional e de cultura machista que quer que a filha se case para servir ao marido e ter filhos. A protagonista Leyla até tenta trazer traços de independência feminina, mas é pouco: de uma hora para outra, ela tem 3 proponentes: um artista de música famoso com quem ela chega a se casar mas se separa após descobrir a traição; um holandês que deseja viajar para outro país; e um outro rapaz de família marroquina. Todos os 3 se apaixonam por Leyla, e claro, ela ficará em dúvida de qual deles ela irá ficar. E ganha um chocolate quem descobrir o que ela decidiu finalmente.
É um filme razoável, previsível do início ao fim, e que pelo menos conta com um bom time de atores que procuram defender suas personagens.

domingo, 6 de março de 2022

Coração de fogo


"Fireheart", de Theodore Ty e Laurent Zeitoun (2021)
Animação repleta de ação, aventura e mensagens edificantes, "Coração de fogo" é uma co-produção França/Canadá que se apropria de um triste histórico real: as mulheres somente foram aceitas como parte integrante do corpo de bombeiros no ano de 1982. O filme é dedicado a todos e todas as bombeiras e bombeiros do mundo todo, independente do gênero. A grande mensagem do filme é sobre a igualdade de direitos ao trabalho e às jornadas profissionais e sociais entre homens e mulheres. E não somente isso: o filme traz diversidade nos personagens: tem negros, judeus, asiáticos, latinos, além de lidar com luta feminista e sororidade.
No ano de 1930, Giorgia, de 16 anos, mora em Nova York com seu pai, Shawn. Ele é um oficial dos bombeiros aposentado, após uma grande tragédia. O sonho de Giorgia é ser bombeira, mas o pai diz que a corporação não permite a entrada de mulheres, dando desculpas misógenas para convencer a filha. Mas quando um incendiário ataca na cidade, e os bombeiros desapareceram, Shawn é obrigado a voltar a trabalhar como bombeiro pelo prefeito. Giorgia decide que agora é a hora de agir e se caracteriza d ehomem, sem seu pai saber, para fazer parte do batalhão dele.
Em determinando momento, o filme lembra "Os incríveis", e fiquei pensando o quanto o filme teria sido mais emocionante se tivesse apostado numa narrativa realista, até porque nos créditos finais ele homenageia diversas mulheres bombeiras. Mas o filme é destinado principalmente ao público infantil, e aí entendo a necessidade de apostar em aventura e fantasia. Mas é um filme divertido e com bela mensagem, importante para a criançada.

Junior


"Junior", de Julia Ducournau (2011)
Primeiro trabalho dirigido pela francesa Julia Ducournau, realizadora dos premiados e polêmicos "Grave" e "Titane". Julia venceu em Cannes em todos esses trabalhos, e tem a atriz Garance Marillier como atriz fetiche de seus projetos, sempre chamada de "Justine".
Com o apelido de Junior, Justine é uma Tomboy de 13 anos que anda com os meninos machistas e misógenos da escola. Mas ela é contaminada por um vírus e seu corpo passa por intensa transformação.
Julia Ducournau. ama o tema do "body horror", muito comum em filmes de David Cronemberg. Mas aqui a fantasia e o horror se tornam claramente uma metáfora sobre a passagem pra mudança de corpo, ação dos hormônios e a puberdade. É um filme curioso, bem na vibe de "Carrie, a estranha", mostrando bullying nas escolas. Ótimos efeitos de maquiagem.

sábado, 5 de março de 2022

Candida


"Candida", de Guillermo Fesser (2006)
Linda e emocionante comédia dramática escrita pelos irmos espanhóis Guillermo e Javier Fesser Premiado, o filme é a estréia de Gullermo. Seu irmão Javier já havia dirigido Mortadela e Salaminho"e o excelente drama "Campeões". O filme foi concebido para homenagear Candida Villar e a todas as assistentes e secretárias do mundo. Candida trabalhou anos como assistente de Guillermo Fesser, e ele ficou impressionado com os comentários simples mas efetivos dela sobre filmes, e decidiu criar um programa de rádio onde ela fazia comentários de filmes. O filme se apropria desse carinho materno de Candida e aqui ela interpreta a sua homonima, estreando como atriz. Candida é diarista, viuva e mora em um bairro pobre na periferia de Madri. Para piorar a situação, ela tem dois filhos adultos: Julian, um drogado e desempregado, e Javi, esquizofrênico e igualmente desempregado. Candido se envolve na vida de seus patrões, até encontrar o apresentador de tv Pablo (Jorge Bosch), que está deprimido pelo término da relação com a mulher que ama. Candida entra na vida dele para sacudir-la, mesmo ela tendo uma vida de muitos sofrimentos, mas jamais deixa a peteca cair.
Um filme que traz humor e muito drama, 'Candida" tem uma atuação contida mas emocionante de Candida, naquele tipo papel que se ela fosse negra ou da comunidade lgbt, teria sido criticada por ser o tipo de personagem que está ali para levantar brancos e ricos.

Moneyboys


"Moneyboys", de C.B.Yi (2021)
Concorrendo em importantes Festivais, como Cannes, Faro e Brussels, "Moneyboys" é escrito e dirigido pelo chinês C.B.Yi, cineasta independente elogiado por mestres como Michael Haneke. Para quem gosta de "Felizes juntos"de Wong Kar Wai, o filme é imperdível, fazendo também referências ao cult LGBTQIAP+ "Garotos de programa", de Gus Van Sant.
No sul da China, o jovem Fei se prostitui como garoto de programa de homens ricos. Fei saiu de um vilarejo rural em busca de uma vida melhor, deixando para trás uma vida de pobreza. Ele conhece Xiaoli, também garoto de programa e se apaixonam. Mas ao salvar fei de um cliente, Xiaoli se acidente e fica manco da perna, o que o impede de trabalhar. Fei decide atender seus clientes em um apto que ele aluga, mas é preso pela polícia e obrigado a retornar ao seu vilarejo, sendo repreendido pela família, que sabe de suas atividades e o expulsam. Fei decide retornar à cidade grande, só que dessa vez acompanhado de Long, um amigo de infância e platonicamente apaixonado por Fei, que também quer ser um garoto de programa.
Com ótimos atores e muita sensualidade e homoerotismo embalados por uma estética belíssima, Moneyboys" é um filme bastante melancólico, que mais do que a vida dos michês, traz um olhar pessimista sobre uma geração chinesa que não encontra perspectiva de um futuro melhor. O filme foi rodado em Taiwan simulando ser na China, país onde obviamente o tema da prostituição é censurado.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Fresh


"Fresh", de Mimi Carver (2021)
Grande sucesso em Sundance, 'Fresh" é um terror com humor ácido, dirigido e escrito por mulheres (a roteirista é Lauryn khan) e protagonizado por três ótimos atores: a inglesa Dayse Edgar Jones, da série "Normal people", Sebastian Stan , o 'Soldado invernal" e Jojo T. Gibbs.
Curioso como o tema do canibalismo voltou com força total: tem o italiano "Não me mate", o retorno de O massacre da serra elétrica" e agora esse "Fresh", que traz elementos da família de Leatherface mas sem a serra elétrica, e pasmem, do brasileiro "O clube dos canibais", de Guto Parente.
Noa (Jones) é uma mulher que não tem sorte nos apps de relacionamento. Sua melhor amiga, Mollie (Gibbs) tenta dar ânimo na amiga, mas nada dá certo e ela só conhece homens que não prestam. Quando Noa vai ao mercado, ela esbarra com o médico Steve (Stan), um homem sedutor, romântico e educado. Noa no início fia meio cabreira, mas logo se apaixona pelo ele. Mas quando ele a convida para jantar na casa dele, ela não podia contar com o paladar tão refinado do novo namorado.
O filme não traz surpresas no roteiro, é bem previsível, mas o que interessa aqui é o olhar feminino sobre s homens heteros top que prometem muito e depois vêem com surpresinhas desagradáveis, vide "O golpista do Tinder". Um grande atrativo é o trio de atores, e também, o gore do filme, que não poupa violência. E claro, fica a crítica aos apps.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Sisid


"Sisid", de Brillante Mendoza (2022)
Sou um grande fã da filmografia do cineasta filipino Brillante Mendoza, que se arrisca em seus filmes, muitas vezes trazendo cenas bastante violentas ou de grande impacto visual, com ótimo trabalho dos atores. Muitos de seus filmes envolve temática Lgbt, ou no caso de "Kinatay", que lhe deu a Palma de ouro de melhor direção em Cannes, um violento drama urbano sobre o assassinato de uma prostituta. Atrizes consagradas como Isabelle Huppert pediram para trabalhar com ele ( ela trabalhou em "Captive").
Mendoza retorna em 2022 com o drama romântico Lgbtqiap+ 'Sisid", que envolve um triângulo amoroso.
Jason (Paolo Gumabao) é um biólogo marinho, casado com Abby (Kylie Versoza). Eles tentam ter um filho, mas Abby tem uma doença que impede que ela engravide. Quando eles viajam até Pola, em Mindoro, uma reserva marítima, Jason é apresentado ao seu assistente, Dennis (Vince Rillon). A atração é imediata entre ambos. Dennis é casado e sua esposa está grávida. NA tensão sexual entre os dois homens e o trabalho na reserva, uma tragédia fará com que os três decidam o destino a seguir.
Para quem ganhou diversos prêmios em Cannes, incluindo para melhor atriz em "Ma'Rose", Mendoza aqui perdeu bastante a mão. O roteiro é óbvio de um melodrama barato e sem surpresas; os atores são bastante medianos; e a direção também não sustenta as duas horas de projeção. Um filme que poderia se resolver facilmente em 70 minutos no máximo, "Sisid" só trará interesse pelas suas lindas locações, e pela beleza de seus dois atores principais.

Ao cair do sol


"Sundown", de Michel Franco (2021)
Eu sou apaixonado pelos filmes do mexicano Michel Franco, mas tenho plena convicção de que seus filmes sao pesados, angustiantes e que ele não tem a mínima compaixão pelos seus protagonistas. Em absolutamente todos os seus filmes "Nova ordem", "Depois de Lucia", Crônica", etc, o espectador sofre muito com o sadismo de Franco em relação ao destino cruel e trágico das personagens.
A milionária família inglesa Bennet está de férias no Acapulco: Neil (Tom Roth), sua irmã Alice (Charlotte Gainsbourg) e os dois filhos dela, Alexa e Colin. Quando Alice recebe a ligação de que a mãe dela e de Niel passou mal, ele decidem retornar logo para casa, mas a caminho do aeroporto, recebem outra ligação que ela morreu. Neil no aeroporto diz que esqueceu o passaporte no hotel, mas ao retornar, decide ficar em Acapulco e levar uma vida de classe média, morando em hotel mediano e se relacionando com uma vendedora de loja, Berenice.
O 1o ato do filme traz questionamentos pro espectador, mas a partir do 2o ato, o filme torna-se violento e trágico. Eu mesmo não iria para Acapulco após ver esse filme, mas Franco gosta de mostrar essa violência de classes e que surge de um rompante.
Um filme brutal, triste, e que traz o tema da morte como algo imponderável. O elenco está soberbo, e Tom Roth, que já havia trabalhado com Franco em "Crônica", está poderoso em seu silêncio.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Contra o gelo

“Against the ice”, de Peter Flinth (2021)
‘Contra o gelo” é mais um drama de sobrevivência, mas dessa vez baseado em história real. O filme é adaptação do livro de memórias do explorador do Ártico dinamarquês Ejnar Mikkelsen , Two Against the Ice. O ator Nicolaj Coster-Waldau, o Jammie Lennister de “Game of thrones”, adaptou e protagoniza o filme no papel de Mikkelsen. O filme é a primeira produção original da Dinamarca e da Islândia, que co-produziram o filme. Em 1910, uma expedição dinamarquesa liderada pelo capitão Ejnar Mikkelsen estava tentando refutar a reivindicação dos Estados Unidos ao nordeste da Groenlândia, uma reivindicação que estava enraizada na idéia de que a Groenlândia foi dividida em dois pedaços diferentes de terra. Deixando sua tripulação para trás com o navio, Mikkelsen atravessa o gelo com seu inexperiente membro da tripulação, Iver Iversen )Joe Derrick), que se voluntaria para seguir pelas terras inexploradas junto de trenós de cães. Os dois passam fome, frio, lutam contra urso polar e Mikkelsen passa a ter delírios.

Com ótima produção, o filme não traz novidades para quem já viu tantos filmes sobre sobrevivência no ártico. O filme foi rodado na Islândia e na Groenlândia ( a esposa de Nicolaj nasceu no país). Agora, para quem não gosta de ver cenas de maus tratos a animais, um aviso: morri de pena dos cães dos trenós, maldade. Mas é a lei da sobrevivência.

Minha vida perfeita


"Moje wspaniale zycie", de Lukasz Grzegorzek (2021)
Ah, como eu adoraria refilmar esse ótimo drama acri-doce polonês, premiado em diversos Festivais. O filme apresenta Joanna (Angela Buzek, formidável), uma mulher de meia idade, que sozinha, gerencia toda a sua família desestruturada: o mario que também é diretor da escola onde ela dá aula de inglês, mas que perdeu tesão pela vida; a mãe com Alzheimer, o filho mais jovem que é aluno de sua turma e que está começando a namorar; o filho mais velho de 23 anos, desempregado e pai de uma criança, e que ainda traz a esposa para morar na casa deles. Joanna tenta na medida do possível dar conta de tudo sozinha, tanto de casa, da família quanto dos alunos, que também têm seus problemas. Mas ela tem o apartamento de sua mãe, que ela mantém tanto para dar aulas particulares, quanto para encontros com seu amante, um professor da escola. Mas Joanna começa a receber mensagens a chantageando, de alguém que sabe de seu caso.
Com um excelente elenco, o filme lembra o tom de “A pequena Miss Sunshine”, naquele vibrante mundo de losers e personagens sme motivação para nada. A história de “Minha vida perfeita” lembra vários clássicos da mulher que decide se emancipar, como “Shirley Valentine”, entre outros. Um filme que varia no tom, mas que termina numa cena muito emocionante.

terça-feira, 1 de março de 2022

Piggy


"Cerdita", de Carlota Pereda (2018)
Super premiado filme de terror espanhol, com mais de 30 prêmios internacionais em importantes Festivais. "Cerdita" em espanhol significa "piggy, ou porquinha", O sucesso do filme foi tamanho, que ele foi transformado em um longa-metragem, lançado em 2022.
A premissa do filme lembra bastante "Carrie,a estranha", clássico de Brian de Palma. Só que agora, o motivo do bullying é o corpo obeso de uma jovem, Sara (Laura Galán, excelente). Sara caminha no campo e decide tomar banho em uma piscina pública, que está deserta. Para sua supresa, um homem surge do fundo da piscina e vai embora. Sem que Sara veja, existe um corpo debaixo d'água. Três garotas surgem e começam a provocar Sara, inclusive roubando suas roupas. Sara é obrigada a ir embora somente de bikini, até que reencontra o homem na estrada.
Com elementos de humor ácido, 'Piggy" é um delicioso filme de vingança, politicamente incorreto e amoral. Uma pequena pérola do cinema espanhol.

Batman


"The Batman", de Matt Reeves (2022)
A DC anda vasculhando clássicos doa anos 80 e 90 para reapresentar novos projetos e assim resgatar a alma nostálgica e estética vintage. Em 'Coringa", Todd Philips buscou "Taxi driver" como referência. Matt Reeves, excelente diretor da franquia "Planeta dos macacos", Cloverfield" e "Deixe ela entrar" suga de 'Seven", de David Fincher, boa parte de sua cinematografia, junto de elementos noir de "Blade Runner", e uma puxadinha nos anos 200 com "V de Vingança" e "Jogos mortais". Nessa salada cinéfila, o filme pesa na atmosfera, quase que em um filme de terror psicológico, mas ainda guardando espaço para umas piadas auto-referenciais. Aqui, diferente dos filmes da Marvel, a busca é pela dramaturgia , quase realista, contrastando com a fantasia de monstro, vilões e naves espaciais de Homem aranha e cia. O filme poderia ser perfeitamente um filme de ação realista, bastava tirar o uniforme do Homem morcego.
Mais uma vez, o elenco é o grande chamariz do filme, além da fotografia brilhante de Greig Fraser ( o mesmo de 'Duna", de Villeneuve"). Robert Pattinson, Zoe Kravitz, Colin Farrel, Paul Dano, Peter Saasgard, John Turturro, Jeffrey Wright e um bem -vindo Andy Serkis como Alfred. O melhor dos filmes da Dc é que não tem cena de crédito final e tudo se resolve antes do filme acabar, inclusive o gancho pro próximo.

Toby Ross & the 70's


"Toby Ross & the 70's", de Joe Rubin (2010)

Documentário LGBTQIAP+ que descreve a indústria pornográfica gay dos anos 70 dirigidos por Toby Ross, considerado um cineasta com olhar mais autoral para as obras que ele dirigiu. O documentário, dirigido pelo ator, produtor e diretor Joe Rubin ( que inclusive atuou em alguns filmes de Toby Ross dos anos 80) faz um relevo da importância da filmografia de Ross para a cultura queer e como ele registra o cotidiano da comunidade gay em San Francisco dos anos 70, antes da Aids e antes do moralismo. Segundo Ross, quando ele chegou no final dos anos 60 em San francisco, vindo da Alemanha, foi para estudar de manhã uma faculdade mais conservadora, mas de noite, ele estudava cinema. Ele estava atraído pela vida sexual da cidade, e decidiu filmar seus amigos e pessoas que ele escalava nas ruas para seus projetos, rodados em 16 mm. O filme tem depoimentos do próprio Ross, de Joe Ruin falando da importância dos filmes para a sua formação e também exibidores, que elogiavam o elenco dos filmes, que eram diferenciados dos outros diretores, pois Ross escalava rapazes de 18 a 20 anos com caras e corpos de colegiais twinks. Ross é considerado hoje em dia o Cineasta pornô que introduziu o olhar da estética Abercrombie and Fitch já nos anos 70. O mais divertido é ouvir Ross falando como escalava os rapazes. Joe Rubin elogia o olhar estético dos filmes, que Ross confessa ter trazido dos filmes de Antonioni, Fellini, Pasolini: jovens representados em realismo, como sem tetos, mendigos, viciados, e usando luz natural.

A colméia


"A colméia", de Gilson Vargas (2021)
Impactante drama de suspense psicológico realizado por equipe e elenco do sul do Brasil, merecidamente vencedor no Festival de Gramado 2021 na Mostra competitiva gaúcha de melhor fotografia para Bruno Polidoro, que já havia realizado fotografia exemplares em "A pequena morte de Joana" e 'A nuvem rosa".
O filme se apropria de uma atmosfera de filme de terror mas sem que propriamente seja um filme de gênero. É um filme de clima, de sensações, de expectativas. O roteiro chega a ser confuso e hermético às vezes, e o ritmo bastante lento, mas vale bastante a empreitada de assistir a esse filme estanho, belo, fantasmagórico. Além da fotografia, o elenco, formado por descendentes de alemães, e a linda cena final, ao som de "Creep", do Radioheads, cantada em alemão.
O filme é uma adaptação de peca teatral de Diones Camargo, adaptado pelo mesmo e seu diretor. A história se ambienta na ditadura de Vargas, na 2a guerra mundial, em uma cidade rural do interior do Sul. Ali, uma família alemã, com 8 integrantes ( 3 homens e 5 mulheres) se isolam, sem qualquer contato com a civilização. Por serem alemães, são malvistos pela população, e decidem se isolar. O governo proíbe que se fale outra língua que não o português. Eles precisam também se adaptar à cultura higienista e cortar os cabelos, deixando-os curtos, tanto homens como mulheres. E para piorar, os "Bugres", descendentes de indígenas que moram na região, são caçados e vistos como malandros.
São muitos sub-plots, focado principalmente nos irmãos gêmeos. Um filme com ótima direção e desenho de produção. Pena que demora a dialogar com o espectador, poderia expandir mais o seu escopo de público.