sexta-feira, 17 de julho de 2020

Quarto 212

“Chambre 212”, de  Christophe Honoré (2019) Vencedora da Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes 2019, na mostra Um certo olhar, a atriz Chiara Mastroiani é uma habitueé dos filmes do cineasta romântico  Christophe Honoré, um apaixonado por musicais e histórias de personagens que ilustram amores desencantados. Foi assim em vários de seus filmes: “Canções de amor”, “Em Paris”, Bem amada”, Conquistar, beber, viver”. Em “Quarto 212”, Honoré traz ao cinema a magia e a ilusão do”E se...”, uma possibilidade dramatúrgica que faz referências a clássicos como “A felicidade não se compra”, “Peggy Sue”, O Fundo do coração” e até mesmo “La La Land”, e o seu famoso final, onde os personagens refletem numa possibilidade de uma vida que poderia ter sido. Maria (Chiara) é uma professora casada desde os 20 anos com Richard ( Benjamin Biolay, o sósia de Benio del Toro francês). Richard sabe que sua esposa o trai desde que se casaram, mas agora ele dá um ponto final. Após uma discussão, Maria resolve sair de casa, e se muda para o hotel que fica em frente, no quarto 212, que dá de frente para o apartamento onde mora. A sua chegada no quarto irá lhe trazer memórias e magicamente, os personagens de sua vida surgem, para fazer com que ele reflita os seus passos, do passado e do futuro: Richard aos 20 anos (Vincent Lacoste), a amante de Richard desde que ele ra adolescente, e com quem ele poderia ter se casado, Irene (Camila Contin, e mais velha, Carole Bourqet), a professora de piano. Fico imaginando que peça teatral maravilhosa esse filme não daria. O filme basicamente e uma peça encenada em 2 cenários, e a forma como os personagens vêm e vão, é deliciosamente mágica. Honoré sabe dirigir seus atores, e traz sutilezas e bom gosto em tudo. A cena final, ao som de “Could it be magic”, de Barry Manilow, é maravilhosa. O filme tem momentos de pura música, inclusive “Eu sei que eu vou te amar”, em versão francesa. Os atores estão todos ótimos, e eu sou muito fã de Vincent Lacoste um dos melhores atores da nova geração.

Herança

“Inheritance”, de Vaughn Stein (2020) Um drama de suspense, ambientado nos altos escalões da advocacia de Nova York, protagonizado pelos ótimos atores Lilly Collins e Simon Pegg, e que competiu no prestigiado Festival de Tribeca em 2020, certamente vai render um bom filme. Mas infelizmente, essa afirmação não se concretizou. Com uma trama fraca, repleta de incoerências e de personagens propositadamente dúbios, cheios de segredos para serem revelados nos últimos 20 minutos, “Herança” busca referências em sucessos como “O silêncio dos inocentes” e “O segredo dos seus olhos”, exemplos máximos de suspense sobre pessoas encarceiradas. Mas a química do elenco não funcionou, o roteiro não constrói bem os seus personagens e o pior de tudo, a edição confusa, que mais complica que traz informações. Laureen (Lilly Collins) é uma super advogada de Nova York. Seu pai, um homem poderoso, morre subitamente do coração. Quando o advogado lê o testamento da família, Laureen recebe um envelope que contém um pen drive com informações de seu pai acerca de um misterioso alçapão que fica nos fundos da mansão onde mora com sua mãe, Catherine (Connie Nielsen). Ao brir o alçapão, Laureen se assusta: ali, preso e maltratado, está Morgan (Simon Pegg), que diz que o pai dela o prendeu ali para colocar a culpa nele em um crime acontecido há quase 30 anos atrás. O primeiro minuto em que aparece o personagem de Simon Pegg, eu já queria mudar de filme: a peruca pavorosa e falsa que colocaram nele, é para destruir qualquer performance de qualquer ator. Parece uma ratazana na cabeça dele. A partir dai, é só ladeira abaixo. Uma pena, pensando no elenco que tenta fazer o que pode, mas o roteiro, e a peruca, não ajudam.

We are Freestyle love supreme

‘We are Freestyle love supreme”, de  Andrew Fried (2020) Documentário que concorreu no Festival de Sundance 2020, é uma bela e comovente homenagem à atores que começam de forma improvisada, juntando amigos para poder exercitar e juntos, criarem sonhos que se tornem realidade. Freestyle love supreme é um grupo de improviso que une performance teatral, comédia e hip hop, formada por um grupo eclético de 6 amigos americanos, cada um com particularidade cultural: Lin Manuel Miranda, o atual mega astro da Broadway e da Disney, é porto riqueho. Seus amigos são formados por negros, latinos, americanos. Quando o grupo se formou, no início dos anos 2000, em Nova York, com o nome de Freestyle love supreme, foi justamente para dar voz ao talento do grupo, que improvisava na rua e em qualquer lugar. Quando começaram a se apresentar em pequenos pacos, chamaram atenção de um produtor, que os chamou para fazer show em Edinburgh, Escócia. O grupo praticamente criou um estilo que logo depois foi copiado por espetáculos de improviso e de stand up: os integrantes perguntam ao público uma palavra chave para que eles componham na hora um rap e texto com a palavra. O grupo parou de performar em 2004, pois cada integrante teve que seguir seu caminho, principalmente Luis Manuel Miranda e Thomas Kalil, que estavam começando a estourar na Broadway com o musical “In the Heights”, e em 2015, explodiram de vez com “Hamilton”. Em 2019, o grupo resolveu se juntar novamente, para um encontro onde pudessem se despedir definitivamente de seus fãs. Agora na faixa dos 40 anos, o grupo entende que não têm mais a juventude para ficar cantando rap. O filme traz imagens do grupo em 2004./2005, e é lindo ver como todos eles se amam, é uma amizade que perdurou pela vida, e a paixão pelo teatro, pelo improviso, os une de forma admirável.

A casa da praia

“The beach house”, de Jeffrey A. Brown (2020) Filme de estréia de Jeffrey A. Brown , que escreveu o roteiro e dirigiu esse interessante filme de terror que remete a clássicos dos anos 80, como “Invasores de corpos” e “O nevoeiro”. O filme poderia ter sido escrito por Stephen King, e provavelmente foi a referência do diretor. Produção independente e com apenas 4 atores em cena “A casa da praia” apresenta um jovem casal de namorados, Emily (Liana Liberato) e Randall (Noah Le Gros). Logo eles descobrem que um casal, amigo do pai de Randall, também está por lá. Mitch e Jane. Os quatro jantam juntos na casa, mas algo estranho acontece: um estranho nevoeiro encobre a região, proveniente de algas que soltaram gases, por conta do aquecimento global. Ess egás faz com que as pessoas se transformem em figuras disformes. Os efeitos são simples , mas efetivos. Os 4 atores estão bem, mas com destaque para Liana Liberato, que é quem carrega o filme nas costas. É um filme de ritmo lento, que não deve agradar quem quer algo mais dinâmico. Para quem curte um filme que vai se construindo aos poucos, é uma boa pedida. O curioso é o filme ser lançado em período de pandemia, pois o que está acontecendo é que muita gente comenta que a natureza está agindo contra as atrocidades do homem.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Um crime entre nós

“Um crime entre nós”, de Adriana Yañez. Com depoimentos de Drauzio Varela, Luciano Huck, a jornalista e youtuber Jout Jout, a socióloga Adriana Araújo e um tanto de meninas e adolescentes espalhadas pelo Brasil, “Um crime entre nós” faz um relato trágico e cruel sobre a prostituição e exploração sexual infantil. Segundo dados, 4 entre 10 meninas até 13 anos são estupradas por hora no País!!!!!!!! Jout Jout diz que a palavra mais procura em sites de pornografia é “novinha”, associada à sexo, pornografia, prostituição. Drauzio Varela dá depoimento contundente sobre a permissividade do brasileiro em relação à prostituição infantil, quando todos ficam calados. Jout Jout alerta que como importantes políticos estão envolvidos com a pornografia, não é do interesse deles derrubar os sites. Meninas dão depoimentos sobre seus sonhos, seus desejos materiais e profissionais, e todas dizem que já foram assediadas. A exploração sexual já não precisa se mostrar nas ruas, através de whastap, redes sociais oferecendo. A prostituição já não precisa das ruas: crianças são oferecidas em conversas de whatspp, redes sociais, evitando assim, se expor. É muito triste assistir ao filme. Ainda mais que se entende que a exploração sexual infantil não tem classe social: ricos, pobres, todos têm desejo pelas novinhas, que cedem pela pressão, ou pelo desejo de ganhar presentes, ou por serem ameaçadas.

Me rotule

“Label me”, de Kai Kreuser (2019) Drama visceral alemão LGBTQIA+, exibido em dezenas de Festivais, escrito e dirigido por de Kai Kreuser, narra a complexa relação entre o garoto de programa sírio Wasseen (Renato Schuch) e o seu cliente, o alemão Lars (Nikolaus Benda). Lars é jovem, rico, mora em um enorme Loft no centro de Berlin. Wasseen é um refugiado sírio, que fugiu de Aleppo, abandonando a faculdade de música. Wassen mora em um acampamento para refugiados, na periferia de Berlin, e ali, os gays são estuprados pelos outros refugiados. Temendo ser descoberto em sua profissão, Wasseen tem as suas regras quando vai atender um cliente: não beija e não faz passivo, acreditando, que dessa forma, ele poderá manter a sua masculinidade hetera. Mas Lars, que cria um estranha fixação de desejo e amor por Wasseen, aos poucos tenta quebrar esse padrão de Wasseen. O melhor do filme são as performances dos dois atores principais, em cenas intensas de sexo e cm complexa camada de emoções. O roteiro é ouco improvável: difícil acreditar que alguém como Lars, podendo ter quem ele quiser, vá se apaixonar por Wassseen, só se for fetiche, o que não é o caso. Talvez uma metáfora do primeiro mundo querendo abraçar o terceiro mundo, uma atitude generosa e altruísta dele.

Mestres do amor

“Masters of love”, de Matt Roberts (2011) m 2003, quando a comédia romântica inglesa “Simplesmente amor” surgiu, imediatamente se tornou um dos filmes preferidos de muita gente: lindas histórias de amor entrecruzadas com personagens que surgem entre várias histórias. O elenco era formado pela nata do cinema inglês. “Mestres do amor”, comédia romântica inglesa, aposta nessa fórmula, mas com outra pegada: totalmente indie, com elenco desconhecido e dosando com toques de drama. São 5 personagens que entrecruzam as histórias, repletas de amor, melancolia e desafeto. Os personagens estão todos na faixa dos 30 anos, naquela idade onde o peso da carreira e da estabilidade profissional e pessoal se abate sobre todos. Com essa estrutura, acompanhamos Emmy, que se sente pressionada pelo entusiasmo de sua namorada Samantha em se casar às pressas; O irmão de Emmy, Josh, descobre que sua namorada está transando com outros; Nial, um comediante de stand up decadente, divide o apartamento com Josh, e também sofre por estar solteiro. Todos esses personagens s entrecruzam em suas investidas fracassadas no amor e na tentativa de se firmarem em um emprego que os faça feliz. Com excelente time de atores, o filme tem o charme do sotaque inglês e repleto de realismo e carisma de seus personagens.

Nós estávamos aqui

“We were here”, de David Weissman (2011) Premiado documentário LGBTQIA+, concorreu no Festival de Sundance e ganhou vários prêmios em importantes festivais. O filme traz relatos de sobreviventes do surgimento da Aids no início dos anos 80 em San Francisco, e de que forma as suas vidas foram destruídas pela perda de incontáveis amigos, familiares e alguns ate convivendo com o vírus. Ed, o desajustado que encontrou seu lugar na comunidade gay ao se voluntariar com pessoas com AIDS no início da epidemia; Daniel, o artista judeu que sentiu que havia encontrado sua verdadeira família entre os gays de São Francisco e depois os perdeu em poucos anos; Paul, o ativista políticol; Guy, o grande e filosófico vendedor de flores; e Eileen, a enfermeira lésbica que serviu no marco zero da epidemia. Todos eles trazem relatos dolorosos sobre perdas e como conseguiram se manter emocionalmente até os dias de hoje. Com imagens raras de San Francisco dos anos 80, o filme explora o preconceito contra os homossexuais, as saunas gays como disseminadores do vírus e a ajuda da comunidade lésbica para apoio de doação de sangue para a comunidade gay. É um filme importante, um documentário histórico, repleto de imagens e depoimentos contundentes e esclarecedores sobre como a Ainda mudou a história de uma cidade e de seus moradores para todo o sempre.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Zona sul

“Zona sur”, de Juan Carlos Valdivia (2009) Drama boliviano premiado no Festival de Sundance em 2010 com os prêmios de melhor Direção e melhor roteiro, ‘Zona sul” é um impressionante e notável exercício de estilo: absolutamente todos os seus planos são formados por movimentos circulares, sendo a maioria, quando o cenário permite, planos de 360o. Não há um único plano fixo, um tour de force da direção, fotografia e marcação de atores em cena. O filme é ambientado na Bolívia de 2008, durante o primeiro governo de Evo Morales. O filme lembra bastante “O pântano”, de Lucrécia Martel” e “Roma”, de Afonso Cuarón. O foco é uma família de classe média alta decadente, e de que forma os empregados de origem indígena, se relacionam com a matriarca e seus 3 filhos. O pequeno Andrés adora estar perto do faz tudo Wilson: ele é cozinheiro, motorista, faxineiro. André se relaciona bem com os empregados. A filha do meio é lésbica e está influenciada pelos ideais socialistas de seus amigos, e por isso, constantemente entra em conflito com o ideal burguês de sua mãe, divorciada. O filho mais velho, Patrício, é típico playboy, só quer farra com os amigos, e traz sua namorada para transar com ela o dia todo. Wilson é tratado quase que como um escravo, e quando ele toma banho, usa os cremes importados da patrôa. Mas o país está mudando, e o governo socialista de Evo Morales aos poucos vai acabando com o previlégio da burguesia. Misturando atores e não atores, o filme une discurso político e social a um forte estilo narrativo. Me faz pensar até se Afonso Cuarón não se inspirou nesse filme para filmar ‘Roma”, que também tinha vários planos com movimentos de travellings laterais que vão e voltam.

Rialto

“Rialto”, de Peter Mackie Burns (2019) Excelente drama visceral irlandês LGBTQIA+, “Rialto” concorreu no Festival de Veneza em 2019. O filme é baseado na peça teatral de mesmo nome, e adaptado para o cinema pelo próprio autor. O tema já é bastante comum, sobre a relação entre um homem casado de meia idade e com filhos com um jovem garoto de programa. Mas o que faz a diferença, aliás, uma enorme e gigante diferença, é a performance brilhante dos dois atores principais: Colm (Tom Vaughan-Lawlor), um funcionário exemplar das docas de Dublin, por volta de 45 anos, casado com a esposa dedicada e suportiva, Claire (Monica Dolan, ótima), e pai de dois adolescentes, o conservador e machista Shane, e Kerry, filha íntegra e compreensiva. E o ator Tom Glynn-Carney), que interpreta o garoto de programa Jay. Ambos são personagens bastante complexos em seu desenvolvimento. Colm acaba de perder sue pai, abusivo e alcóolatra, que a vida toda maltratou Colm. Quando este vai ao banheiro de um shopping, é seduzido por Jay, que o chama para entrar na cabine. Jay tem um caráter possessivo e violento, que relembra o pai de Colm, e que acaba cedendo. Na cabine, Jay seduz, mas logo mostra a sua faceta: ele rouba Colm, e foge com o dinheiro. No dia seguinte, Jay surge no trabalho de Colm, que se assusta, e pede mais dinheiro. A partir dái, Colm e Jay mantêm uma relação abusiva, onde os papéis se invertem ao longo da trajetória, em uma virada surpreendente do roteiro. Dois desejos que eu adoraria: refilmar esse filme, e vê-lo encenada no palco, com atores que mereçam dar vida a esses personagens contundentes e trágicos em seus dramas e fantasmas internos.

terça-feira, 14 de julho de 2020

As irmãs Panti

“The Panti sisters”, de Jun Lana (2019) Um enorme sucesso de bilheteria nas Filipinas em 2019, “As irmãs Panti’ é uma comédia LGBTQI+ que funciona para um país como as Filipinas, que não tem questões com os estereótipos de representatividade gay em seus filmes. O filme é repleto de todos os clichês do universo gay que se possa imaginar, incluindo aqueles bem infames tipo o gay vomitando quando uma mulher se insinua para ele. Repleto de homens fazendo poses eróticas e sensuais, o filme tem uma história que é praticamente a mesma da comédia brasileira ‘O casamento de Gorette”, de Paulo Vespúcio, com Rodrigo Santanna. Um pai rico, Don Emílio, deserda seus três filhos quando descobre que são gays. Anos depois, descobrindo que tem um câncer, Don Emílio chama os 3 de volta, para lhes propor um acordo: o primeiro deles que lhes der um neto, receberá uma enorme soma em dinheiro. Os três irmãos, que são drag queens, começam a disputar entre eles qual deles conseguirá engravidar uma mulher, o que se torna um enorme conflito moral entre eles. O mais bacana do filme é a caracterização das drags, bem divertida. Mas o roteiro é tosco, as situações beirando o trash e o desfecho querendo do nada, ser dramático, através de uma tragédia.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

The old guard

“The old guard”, de Gina Prince-Bythewood (2020) Filme de ação e Aventura, lançada pela Netflix, baseada em graphic novel de Greg Rucka, também autor do roteiro. Muita gente tá falando mal do filme, mas como não tenho referência dos quadrinhos, confesso que adorei. Charlize Theron é das melhores bad ass girl que tem atualmente no cinema, e sua persona de “Furiosa”, celebrizada em “Mad Max”, já deu crias: Ätômica” e agora esse “The old guard”, que certamente terá continuação. O elenco é formado por um elenco globalizado mega bombado: o belga Matthias Schoenaerts ( de “Ferrugem e ossos”) , o italiano Luca Marinelli ( de “Martin Eden”), o holandês Marwan Kenzari ( o Jafar de “Aladim”), KiKi Layne ( de “Se a rua Beale falasse”), Chiwetel Ejiofor ( de “12 anos de escravidão”) e Harry Melling ( de “Harry Potter”), no papel do vilão Merreck. Os 5 primeiros fazem parte de um grupo de mercenários importais, tipo Highlanders. Nos dias de hoje, lelés são contratados por um ex-agente da CIA< mas tudo não passa de uma emboscada para comprovar que eles são imortais. Dirigido com bastante competência pela cineasta Gina Prince-Bythewood., do belo drama “A vida secreta das abelhas”, “The old guard” não inova no gênero, mas também não faz feio. É um ótimo passatempo, pipocão, repleto de inclusão na equipe, elenco e personagens, além de trazer uma sub-trama lésbica.

Palm Springs

"Palm Springs", de Max Barbakow (2020) Exibido com sucesso no Festival de Sundance 2020, “Palm Spring” foi elogiado pela crítica e tem aquele delicioso ar de filme independente americano, o “feel good movie”. Os dois atores principais, Andy Samberg e Cristin Milioti ( para quem viu a série “Modern love”, é a protagonista do episódio do porteiro), estão sensacionais e bastante carismáticos, e a gente torce pela felicidade deles, dois losers que não têm absolutamente nada a perder. O tema do filme já foi visto tantas vezes no cinema e em séries de tv, que quando a gente achava que iriam dar um tempo, surge um novo filme falando do “time loop”, aquela idéia que surgiu no filme com Bill Murray, “Feitiço do tempo”, e que foi copiada tantas vezes que já até enjoou. Acordar sempre no mesmo dia e repetindo a mesma ação já foi visto em comédias, filmes de terror, ficção científica, suspense e até em uma série da Netflix, “Bonecas russas”. E é justamente da série que “Palm spring” mais se aproxima. Quando uma das personagens envolvidas em time looping fica de saco cheio de acordar e repetir as mesmas ações do dia, ela resolve dar um fim em tudo, e se matar. Assim é Sarah (Cristin Milotti), a irmã loser de de Tala (Camila Alves, a atriz brasileira de “Mentiras perigosas”, que após conhecer Nyles (Samberg), se vê em um loop eterno com ele. Pois Sarah remete praticamente o mesmo passo da protagonista da série “Bonecas russas”. E é essa falta de originalidade que mata o prazer de se assistir a “Palm springs”. É tudo bastante previsível. O que lhe traz um sabor a mais, é o elenco, excelente, assim como os coadjuvantes ( J.K. Simmons e Peter Galagher estão divertidos) e várias piadas envolvendo Andy Semberg, que é excelente comediante. Cristin faz a porção pé no chão e a quem o filme reserva momentos de drama e emoção.

domingo, 12 de julho de 2020

O beijo no crepúsculo

"Suk Suk", de Ray Yeung (2019) Drama LGBTQIA+ em competição no Festival de Berlin 2019, "O beijo do crepúsculo" é um raro fllme sobre a homossexualidade na terceira idade. Pak (Tai-Bo) é um taxista de 60 anos, pai de dois filhos já adultos e casado. Um da, Pak conhece em uma praça o aposentado Hoi (Ben Yuen), pai solteiro. Os dois imediatamente se sentem atraídos e passam a ser amantes. No entanto, ambos vivem dentro do armário com suas famílias. Hoi leva Pak a frequentar um grupo de assistência a gays de terceira idade. A organização precisa que eles mostrem suas caras para defender os direitos dos gays de terceira idade, mas eles temem a exposição. Com ótimas performances de todo o elenco, o filme é dirigido com bastante sensibilidade e trata de temas bastante tabus, ainda mais em uma sociedade tão conservadora como chinesa. O filme é de Hong Kong, mesmo assim é algo bem ousado. As cenas de sexo são belamente filmadas.

Gabriela

“Gabriela", de Bruno Barreto (1983) Lançado em 1983, "Gabriela" é uma reunião de Monstros do cinema: a atriz Sonia Braga, no auge de sua beleza e talento, levando às telas a mesma personagem que ela celebrizou na tv, na novela “Gabriela, cravo e canela”, em 1976; o ator italiano Marcello Mastroiani interpretando o turco Seu Nacif; o fotógrafo italiano Carlo di Palma, que fotografou para Antonioni, Woody Allen, Mario Monicelli e outros mestres; o compositor Tom Jobim e a cantora Gal Costa, que eternizaram a trilha e a música tema; Helio Eichbauer , um dos maiores cenógrafos e diretores de arte do Brasile Bruno Barreto, que veio do maior sucesso de bilheteria até então, ‘Dona Flor e seus dois maridos”, também com Sonia Braga. O filme se passa no sertão da Bahia, 1925, mais precisamente, Ilhéus. Gabriela é uma retirante que chega na cidade e é contratada por Nacif para trabalhar em seu bar restaurante. Logo se tornam amantes e depois, se casam. Contexto político, em uma região dominada pelos coronéis, e sociedade machista e patriarcal são postas em cheque com a sensualidade e liberdade de Gabriela, que muda a opinião de todos. Gabriela simboliza a mulher que tem total domínio de seu corpo, fazendo sexo com quem ela quer. Liberal, sem preconceitos, é uma mulher à frente de seu tempo. O elenco é estelar, com participações de quase todo o elenco de cinema dos anos 80 na tela, como Jofre Soares, Mauricio do Valle, Tania Boscolli, Antonio Pedro, Paulo Guarniei, Nelson Xavier, Ricardo Petraglia, Ivan Candido, Lutero Luiz, Nicole Puzzi e Nilton Parente. A curiosidade vem da participação de Fernando Ramos da Silva, que há dois anos atrás, protagonizou o grande sucesso ‘Pixote”. O filme é belíssimo visualmente, e foi todo rodado em Paraty. Apesar da estranheza em ver Mastroiani interpretar um turco, a sua presença em cena é tão magnética que a gente acaba relevando. Sonia Braga é um petardo, a sua presença cênica não dá espaço ara mais ninguém.

A síndrome de Stendhal

"La sindrome di Stendhal", de Dario Argento (1996) Sou fã confesso de Dario Argento, Mestre do terror e do giallio, Amo os seus clássicos, mas reconheço quando ele faz um filme mediano. "A síndrome de Stendhal" é um filme fraco, mas que parte de uma premissa muito boa, inclusive usando 'Um corpo que cai", de Hitchcock, como referência. Assim como James Stewart, Asia Argento também interpreta uma policial. O personagem de Hictchcock tem agorafobia. A policial Anna tem síndrome de Stendhal: quando ela fica diante de uma obra de arte, ela passa mal e tem alucinações. A cena do museu se assemelha à cena do museu de "Um corpo que cai", e Argento se utiliza do mesmo recurso narrativo de Hitch: no meio do filme, reinicia a história, com uma mudança de personalidade de um personagem. A policial Anna é enviada para Florença para identificar um serial killer que anda matando mulheres. Mas ela própria acaba como vítima do estuprador. A cena do estupro é bem violenta, bem ao gosto de Argento: obrigada a mastigar uma gilette durante o estupro, a vítima rasga os lábios, língua e cospe sangue, fetiche do assassino. Argento se apropria de efeitos especiais, algo que ele experimentou desde "Terror na ópera": um tiro atravessa uma bochecha à outra; quando Anna toma um comprimido, temos um plano detalhe do remédio descendo garganta abaixo. O que o filme tem de melhor, é sua ficha técnica: a trilha sonora é do Mestre Ennio Morricone, e a fotografia de outro Mestre: Giuseppe Rotundo, que fotografou filmes de Visconti, Fellini e inclusive "All that jazz", de Bob Fosse. O trabalho do elenco é bem pobre e estão todos bem canastrões, bem ao gosto do cinema de Argento.

sábado, 11 de julho de 2020

The kill team

"The kill team", de Dan Krauss (2019) Duas vezes indicado ao Oscar, o documentarista Dan Krauss estréia na ficção com a adaptação de um documentário que ele dirigiu em 2013, "The kill team". O filme se baseia na história real de um pelotão de soldados americanos, liderados por um sargento psicopata, que matava civis friamente no Afeganistão, em 2009. O pelotão se auto-intitulava de The kill team. Um dos soldados, em crise moral, denunciou os atos para o seu pai e todos acabaram presos. O soldado pegou 3 anos de prisão, e o sargento, prisão perpétua. O soldado jovem é interpretado por Nat Wolff, de "Cidades de papel", e o sargento por Alexander Skarsgård, que se popularizou como vilão em 'TRue blood" e "Big little lies". O filme é bem dirigido e foca no drama do jovem soldado, em registro intimista. O filme lembra bastante "Pecados de guerra", de Brian de Palma também baseado em história real, mas no Vietnã, sobre um jovem soldado, Michael J. Fox, em crise pelos atos selvagens de seu sargento, interpretado por Sean Penn.

True north

"True north", de Eiji Han Shimizu (2020) Que filme triste, meu Deus do céu! "True north" é uma animação japonesa que competiu no prestigiado Festival de animação Annecy. O filme é uma denúncia sobre os campos de concentração na Coréia do Norte, existentes desde os anos 50, mas negado pelo Governo de sua existência. O filme teve o roteiro desenvolvido através de relatos de fugitivos que conseguiram driblar a morte e escapar para fora do país, Estima-se que mais de 120 mil pessoas encontram-se atualmente nos campos de concentração. Nos dias de hoje, um homem dá uma palestra em Vancouver, e ele relata o drama que ele e sua família passaram em um dos campos de concentração, no ano de 1995, quando foram presos após o pai ser acusado de conspirar contra o governo do então líder Kiim Jong II. Um menino, sua irmã menor e sua mãe são levados ao campo. Presos são mortos, torturados, assassinados. Mulheres são estupradas. Os homens, independente de suas idades, trabalham em minas, e as mulheres, no campo. Quem tenta fugir é fuzilado. Todos passam fome e alguns morrem de inanição. Os anos se passam, e a tragédia parece abater em todos. Se em animação o filme já é chocante, bárbaro e contundente, sem suas inomináveis atrocidades, fico imaginando se fosse com atores. É brutal, e proibido para menores de assistir. Um relato triste de um governo violento, desenvolvido com coragem pelo cineasta Eiji Han Shimizu, japonês de nascença mas atualmente morando na Coréia do Sul.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Relíquia

"Relic", de Natalie Erika James (2020) Terror psicológico australiano, exibido no Festival de Sundance 2020, "Relíquia" é um filme dirigido, escrito e protagonizado por mulheres. A lembrança do filme "Hereditário" em logo à mente, através da história de 3 mulheres de uma mesma família, de 3 gerações diferentes: Edna ( Robyn Nevin), a avó; Kay (Emily Mortimer), a filha, e Sam ( Bella Heathcote), a neta. Edna mora sozinha em uma velha casa no meio de uma floresta, fora da cidade. Quando Edna desaparece, sua filha e neta seguem até à casa, para tentar descobrir o que aconteceu. A polícia faz buscas, mas nada de Edna. Até que um dia, ela retorna, como se nada tivesse acontecido. Mas ela retorna estranha, violenta e Kay e Sam começam a se preocupar com a segurança de ambas. Com boa direção de Natalie Erika James, o filme foi elogiado por boa parte da crítica, nessa grande metáfora sobre envelhecimento. O filme tem um desfecho ambíguo, mas entendendo como metáfora, é muito triste e melancólico. O trabalho das 3 atrizes é excelente, e tecnicamente, o filme tem excelente fotografia, que intensifica a dramaticidade e o ambiente soturno da casa, e uma direção de arte bem realista.

First cow

"First cow", de Kelly Reichardt (2019) A cineasta americana Kelly Reichardt faz parte do movimento em prol do cinema independente. Vencedora de diversos prêmios com seus filmes anteriores, como "Wendy & Lucy", "Night moves"e "Old joy", ela concorreu no Festival de Berlin com "First cow". O filme recebeu muitas críticas favoráveis, e entrou em várias listas como um dos melhores filmes de 2019. Eu particularmente não curti muito o filme. Com mais de duas horas de duração e um ritmo extremamente longo e lento, o filme, que foi rodado em 16MM, lembra um pouco a narrativa dos filmes dos irmãos Coen, mas sem a preocupação de dar uma dinâmica, trazendo um ritmo mais no estilo de um Tarkovsky: planos longos, apresentando a natureza, e descrevendo a ação do tempo sobre a vida das pessoas. No prólogo inicial, ambientado nos dias de hoje, uma jovem passeia com o seu cachorro às margens do rio Oregon. Súbito, ela encontra dois esqueletos. O filme volta ao tempo, para o 'século XIX. Somos apresentados a um cozinheiro, Cookie, que segue até o Norte do País, para se juntar a um grupo de caçadores de peles. Depois de discutir com o grupo, ele vai embora. No caminho, ele encontra um chinês que fala bem o inglês., King Lu. Ambos, famintos e sem dinheiro, se unem em um novo negócio: fazer bolinhos para vender para os moradores. Só que o bolinho precisa ter leite em sua receita. Eles descobrem que um rico fazendeiro tem a única vaca da região, e toda noite, seguem até lá para roubar o leite. Os bolinhos fazem um enorme sucesso,e acabam chamando a atenção do fazendeiro. As cenas noturnas são tão escuras que mal dá para enxergar o que está acontecendo. Os dois atores principais estão bem. O roteiro tem uma história simples, mas filmada de forma bastante contemplativa pela cineasta.

Greyhound- Na mira do inimigo

“Greyhound", de Aaron Schneider (2020) Quem é fã de Tom Hanks, não deixa de assistir a nenhum filme dele. “Greyhound- Na mira do inimigo”, é adaptado do livro escrito por C.S. Forester, “The good shepard”, e foi o próprio Tom Hanks quem escreveu o roteiro ara o filme. O filme parte de uma premissa interessante: Comboios de navios eram enviados para a Grã Bretanha, saindo dos Estados Unidos, para levar mantimentos para os aliados. Durante a 2a guerra mundial, mais de 3550 navios foram derrubados pelos submarinos alemães durante a travessia no Atlântico Norte, matando mais de 70 mil soldados. Greyhound é o navio que lidera o comboio de 32 navios com mantimentos. O capitão de Greyhound é nosso heróis, Tom Hanks, no papel do Capitão Krause. O filme inteiro, com excessão do prólogo, consiste em uma batalha naval com torpedos, míssies, explosões, etc. Lembram do jogo batalha naval? É ee transportado para o cinema. A dramaturgia inexiste, e o único conflito resiste no prólogo: Krauser quer se casar com Evelyn (Elisabeth Shue), mas ela fica chateada porque ele vai liderar um comboio e decide não aceitar. Ele promete que voltará vico para procura-la. O resto, são os efeitos especiais intermináveis que preenchem todo o tempo da tela. Tom Hanks é o único personagem com alguma história. Os marinheiros e oficiais do navio são coadjuvantes sem presença, sem conflito, sem nome, inclusive. Só servem para ficarem com cara de pavor. Na escalação do elenco, vergonhoso, o único ator negro é o cozinheiro. O filme se torna monótono pela falta de uma história bem contada. Nem sequer vemos as caras dos alemães, que são representados pelos submarinos impessoais. “Greyhound” iria estrear nos cinemas, mas com a pandemia, acabou sendo lançado na Apple +, causando frustração em Tom Hanks. Aliás, Hanks, que é um excelente e carismático ator, praticamente repete seus personagens em "Capitão Philips"e "Sully".

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Ligue Djá: o legado de Walter Mercado

"Mucho, mucho amor", de Cristina Costantini e Kareem Tabsch (2020) Exibido com grande sucesso no Festival de Sundance 2020, e adquirido pela Netflix, “Ligue djá” é um delicioso e extravagante filme sobre uma das personagens mais icônicas da televisão mundial: Walter Mercado, o mais famoso astrólogo da mídia, que em tempos áureos, atingiu 120 milhões de espectadores na comunidade hispânica. O astro mexicano Eugenio Derbez define quem foi Walter Mercado: “Quando o vi pela primeira vez, levei um choque: ele era homem, mulher, uma espécie de feiticeiro? Nascido em Porto Rico em 1932, no berço de uma família pobre de plantadores de cana, Walter desde criança já se via diferente de seus irmãos. Sua mãe percebeu e disse que o apoiava no que ele quisesse ser. Quando um dia, ainda criança, um pássaro caiu em sua frente, quase morto, Walter o pegou, assoprou e assim, o pássaro ressuscitou e voou. Uma vizinha viu e avisou a todos, e logo, uma longa fila se fez na sua casa, de pessoas querendo sua benção. Walter trabalhou como ator em telenovelas. Quando entrou no elenco de uma peça, foi chamado para gravar uma prono em uma rede de televisão. O produtor pediu para que Walter apresentasse um programa de astrologia, pois o viu pegando a mão de toda a equipe e lendo a sorte de todos. A partir daí, surgiu o astrólogo Walter Mercado, famoso pelo bordão “Mucho, mucho amor”. Em 2019, ano de sua morte, aos 87 anos, de insuficiência renal, Walter teve uma exposição em Miami, comemorando seus 50 anos de televisão. No Brasil, o seu ex-agente, Bill Bakula, diz que ele era conhecido pelo bordão ”Ligue djá”, rendendo até uma entrevista com Marilia Gabriela. Suas famosas capas e cristais começaram a ser confeccionados por estilistas famosos, como Versace, e as pedras, da Swarowsky. O filme se atém a vários aspectos de sua vida: a briga judicial com o ex-agente Bill Bakula, acusado de roubar milhões e tê-lo enganado; a forma como a mídia e programas de humor começara a ridicularizar a sua figura, com trejeitos afeminados e questionando a sua sexualidade; a sua vanguarda, que inspirou muitos da comunidade LGBTQIA+, sendo um pioneiro no não binarismo e assexuado; os memes da geração Millenium, que o reverenciam e perpetuam sua imagem. Celebridades como o ator porto riquinho Lin Manuel Miranda, que interpreta o musical “Hamilton” na Broadway, se enche de amores e carinho quando encontra Walter. Para quem ficou apaixonado pelo documentário da Netflix, “Tiger King”, que fala de um universo Kistch, brega e bizarro, não pode perder ‘Ligue djá”. Uma aula de extravagância e de criação de uma persona que revolucionou a cultura pop.

Não pense que eu vou gritar

“Ne croyez surtout pas que je hurle ”, de Frank Beauvais (2019) Premiado documentário dirigido pelo ator, diretor e compositor francês Frank Beauvais, “Não pense que eu vou gritar”é uma experiência radical no que podemos chamar de cinema terapêudico: o diretor e personagem que narra em primeira pessoa, Frank Beauvais, em 75 minutos, narra como se estivesse em uma sessão de análise, onde no lugar do terapeuta, existem cenas de filmes. No ano de 2016, Frank Beauvais rompeu um namoro de anos com seu namorado; Paris, onde morava, tinha acabado de sofrer o atentado que matou dezenas de pessoas. Desempregado, sem lar, sem carro, Frank Beauvais entrou em processo de profunda depressão. Resolveu passar um tempo em uma vila na Alsácia, interior da França. Lá, mora sua mãe e seu padrasto. Trancado em casa, sem sair e sem falar com ninguém, Frank decidiu se entregar a ver filmes. Durante 3 meses, viu 5 filmes por dia, sem distinção de gênero, nacionalidade, nada. Viu 400 filmes entre abril e agosto. A narração em off foi registrada durante o seu período de exílio, de depressão, onde relata suas relações com o ex-, com amantes, com a complicada homofobia de seu pai, que morreu doente pedindo perdão, com a vila onde estava ( sem banco, praticamente sem comércio, e a população falando um dialeto que mistura francês e alemão). O filme é composto dos 400 filmes, em cenas rápidas. É um filme bastante interessante, pelo conceito e pela realização. No início, me incomodou o tom da narração, monocórdico, mas depois entendi que era a narração de uma pessoa desgostosa da vida. Mesmo assim, é cansativo, quando chega no meio, já dá uma monotonia. Mas é um excelente trabalho de edição e de pesquisa de imagens.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Fantasma

"Phantasm", de Don Coscarelli (1979) Lançado no Brasil em 1979 com o título de "Noite macabra", "Fantasma" é um dos títulos mais cultuados pelos fãs de terror, se tornando um clássico do gênero, e rendendo 4 continuações, sendo o último lançado em 2016. Realizado de forma independente pelo próprio diretor Don Coscarelli, que escreveu, dirigiu, produziu e editou, o filme celebrizou a figura do vilão The Tall man, personificado pelo ator Angus Crimm, falecido em 216, e das esferas metálicas voadoras que drenam o sangue da vítima. Quando um amigo morre com o laudo de suicídio, Jody acompanha o velório no cemitério Morningside. O irmão adolescente de Jody, Mike, acompanha tudo à distância, e suspeita que ao invés de enterrar o caixão, o coveiro, The tall man, coloca o caixão para dentro da funerária. Querendo descobrir os segredos dentro da funerária, Mike convence o irmão Jody e seu amigo Reggie, um sorveteiro, a entrarem na funerária. O filme causou surpresa e estranhamento por inserir elementos de ficção científica à uma trama que mais parecia ser um slasher à la "Sexta feira 13" ou "O massacre da serra elétrica". Uma grande curiosidade é que os assistentes de Tha tall man, os anões, têm a caraterização exatamente igual aos Jawas de 'Star wars", mas segundo o diretor, foram concebidos antes do lançamento do filme de George Lucas. Realizado com paixão por Coscarelli, o filme é incrível, um exemplo máximo de produção feita por amigos e com amigos, tanto na equipe quanto no elenco. Coscarelli bancou tudo, e o filme foi rodado nos finais de semana, pois na locações de equipamentos, poderiam pagar como sendo uma única diária. Excelente atmosfera de elementos surrealistas e bizarros.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Mansão do inferno

"Inferno", de Dario Argento (1980) Clássico do Mestre do terror italiano Dario Argento, é precedido de duas de suas maiores obras-primas, 'Prelúdio para matar"e 'Suspiria", e seguido de "Tenebra", outro filme sensacional. Argento é famoso pelas suas cenas orquestradas de morte, exageradas e bastante violentas. A direção de arte de "A mansão do inferno" é belíssima, com estilo barroco e a fotografia intensifica a atmosfera de sonho e pesadelo com intensas cores vermelhas e azuis. O roteiro, como sempre, oferece elementos que no desenrolar da trama, são mal explicadas. Mas isso não interessa no cinema de Argento: atores canastrões, histórias mirabolantes e mortes abstratas fazem parte do repertório que seduz os fãs. Tem quem ame, tem que odeie Argento e seu estilo. O filme se passa em Nova York e Roma. Em Nova York, Rose é uma poeta que mora em um prédio antigo. Ela compra um livro de um antiquário, chamado "As três mães". Impressionada com o conteúdo, ela escreve para seu irmão que estuda em Roma, dizendo que o livro narra a existência de três bruxas: Mãe dos suspiros, mãe das lágrimas e mãe das sombras. Mortes começam a acontecer em Roma e em Nova York. "Suspiria" foi a primeira [arte da trilogia das bruxas, seguido de "Mansão do inferno"e em 2007, "A mãe das lágrimas". "Mansão do inferno" é considerado um filem menor de Argento, mas eu acho ele incrível, com um trabalho técnico sensacional e onde talvez Argento tenha trabalhado mais intensamente a direção de arte e a fotografia. Todas as mortes são espetaculares, mas a da janela, com o vidro sendo jogado na garganta de uma das vítimas, como guilhotina, é poderosa.

Olhos de gato

"Nakitai watashi wa neko wo kaburu", de .Jun'ichi Satô e Tomotaka Shibayama (2020) Adorei essa fantasia romântica japonesa, que tem como tema o medo das pessoas de assumirem as suas crenças, os seus desejos e ambições para os outros. E para isso, fogem de seus compromissos. Myio é uma jovem estudante apaixonada por Hinode, mas ela não consegue expressar seus sentimentos, e Hinode, por sua vez, também não consegue dizer o que sente, nem para ela, nem para a sua família. Myio rejeita a sua madrasta, desde que seu pai se separou de sua mãe para ficar com ela. Hinode é órfão de pai e seu sonho é assumir a cerâmica da família, mas tem medo de dizer para sua mãe e seu avô. PAra se aproximar de Hinode e saber de sua vida e seus sentimentos, Myio aceita o pacto com um gato mágico: ele lhe dá uma máscara mágica, que permite que ela se transforme em uma gata e assim, poder estar com Hinode. Mas Hinode se apaixona pela gata e conta todos os seus segredos para ela. Myio sente ciúmes de sua versão felina, pois sabe que não pode dizer para Hinode os segredos que ela descobriu. Frustrada, Myio aceita virar felina para sempre, mas depois, se arrepende, e precisa procurar o mundo dos gatos para reverter a situação. Produzido pelo Studio Colorido, "Olhos de gato" é uma preciosidade, um filme para quem ama fantasia, gatos e romance. Não deixem de ver os créditos finais, que conta parte da história.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Pablo

"Pablo", de Richard Goldgewicht (2012) Excelente documentário obrigatório para diretores, cinéfilos, diretores de arte e designers, mostra a história de Pablo ferro, nascido em Cuba em 1935, exilado nos Estados Unidos em 1947 e que se tornou um dos maiores diretores de arte americanos, criando aberturas e trailers para cinema que se tornaram obras-primas e copiados ad nauseum até os dias de hoje. O filme mescla animação e documentário, trazendo depoimento de diretores, como Jonathan Demme, Hal Ashby, Norman Jewison, como atores, como Anjelica Houston, Andy Garcia, Beau BRidges, além de diretores de arte, que o veneram. Quando chegou nos Estados Unidos, seu pai abandonou a família dois anos depois. Pablo teve que sustentar a família: mãe e 4 irmãos. Trabalhou em uma sala de cinema, desenhando propagandas que eram colocadas na entrada. Trabalhou para Stan Lee, e logo depois, foi convidado por Stanley Kubrick a fazer o trailer e a abertura de "Dr Fantástico". O trailer foi considerado o primeiro contemporâneo da história. Depois faria os clássicos trailers de "Thomas Crown", Os russos estão chegando", entre outros. Dirigiu comerciais, trouxe a linguagem dos quadrinhos para a tv. A visa pessoal de Pablo virou um caos; se encantou com o movimento hippie. passou a fumar maconha, fazer parte de orgias. Acabou se separando da esposa. Pablo sofreu um atentado, levando um tiro no pescoço. Esse acidente deu uma virada em sua carreira: as pessoas não o chamavam mais para trabalhar, achavam que ele era muito rebelde. Quem o tirou do fundo do poço foi seu amigo Hal Ashby, que se tornou diretor e o chamou para fazer abertura de todos os seus filmes: "Muito além do jardim", "Amargo regresso", "Ensina-me a viver", etc. Kubrick o procurou novamente para fazer a clássica abertura de "A laranja mecânica", além do famoso trailer. Pablo chegou a fazer muitos trailers famosos: para Jonathan Demme, fez 'Stop making sense', 'De caso com a máfia", e vários outros. Fez também para Midnight cowboy", "Men in black", 'Beetlejuice", "Philadelphia", "A família Addams". Pablo faleceu em 2018, de pneumonia.

Hamilton

"Hamilton", de Thomas Kail (2020) Versão filmada dos palcos da Broadway de um dos Musicais mais aclamados e premiados da história. A Disney comprou os direitos e filmou por 3 dias, em 2016, a peça aberta ao público, com inúmeras câmeras cobrindo absolutamente todos os detalhes. Essa versão conta com a presença do ator Jonathan Groff, no papel do Rei George, e roubando literalmente a cena todas as vezes que entra, com uma performance hilariante e carismática. A peça conta a história de Alexander Hamilton, que empresta seu rosto nas notas de 10 dólares. Adaptada da biografia escrita em 2004 por Ron Chernow, o ator e produtor Lin-Manuel Miranda comprou os direitos e ele mesmo protagoniza no papel título. A peça estreou no dia 6 de agosto de 2015, e desde então, tem lotado todas as suas concorridas sessões. A ousadia da adaptação é a escalação de atores negros e latinos em papéis de personagens históricos brancos. A trilha e músicas do espetáculo são compostas por canções em ritmo de hip hop, rap, blues e soul. Alexander Hamilton, nascido na Inglaterra, mas enviado aos Estados Unidos aos 16 anos de idade. É um dos fundadores dos Estados Unidos, e considerado o ai da industrialização do País. Foi o primeiro secretário de tesouro dos Estados Unidos, no Governo de George Washington. Foi morto em um duelo em 1804, pelo vice-presidente Aaron Buur. O Musical tem números espetaculares e músicas que grudam, principalmente as cantadas pelo Rei George. O espetáculo ganhou 11 Prêmios Tony em 2016, inclindo melhor espetáculo musical, ator, coreografia, trilha .

domingo, 5 de julho de 2020

Instinto

"Instinct", de Halina Reijn (2019) Drama holandês indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2019 pelo país, é protagonizado pelos dois maiores astros holandeses internacionais: Carice van Houten, a Melisandre de "Game of thrones", e Marwan Kenzari, o Jafar na versão live action de "Alladin". Nicoline é uma psiquiatra de prestígio, que vai trabalhar em uma instituição penal. Ela é encarregada de cuidar do interno Idris, há cinco anos detento por abuso sexual e estupro contra mulheres. Prestes a ser solto, Nicoline é contra a sua soltura. Mas Idris é um manipulador, e aos poucos, consegue seduzir Nicoline, que se mostra vulnerável aos seus ataques. Confesso que não gostei muito do filme. O jogo de gato e rato e sedução proposto pela cineasta e co-roteirista Halina Reijn, que é atriz e estréia aqui na direção, ficou ambíguo. Nicoline se mostra uma mulher frágil, sexualmente ativa, que contraditoriamente, também manipula Idris. A relação de interesse de ambos lembra, a grosso modo, a relação de Jodie Foster e Anthony Hopkins em "O silêncio dos inocentes", mas aqui a provocação é maior, em um filme escrito, dirigido e protagonizado por mulheres. Um filme instigado a provocar polêmica.

A testemunha

"Mok-gyeok-ja", de Kyu-Jang Cho (2018) O atual cinema de suspense pertence aos sul coreanos e aos espanhóis, que têm realizado o melhor do gênero em filmes incríveis com roteiros instigantes e boas performances. "A testemunha" acompanha Sang-hoon, um homem comum, casado e pai de uma filha pequena. Quando se mudam para um novo condomínio, Sang-hoon percebe que a vizinhança é egoísta e ninguém ajuda ninguém. Uma noite, enquanto sua esposa e filha dorme, Sang-hoon testemunha um assassinato pela janela, mas temendo represálias, nada faz. Ele evita dar informações para a família e assim como os vizinhos, prefere ficar calado e não se comprometer. Mas quando vinhos que testemunharam desaparecem, Sang-hoon entende que ele está na lista do assassino. Com ótima direção, atores carismáticos e um roteiro que, mesmo que cheio de situações inverossímeis, seduz pela tensão. A história traz um monte de pistas falsas, como manda o figurino, e o desfecho é épico. Vale super assistir. Agora, eu queria entender esse fascínio por martelos, ferramenta comum em vários filmes sul coreanos.

Marco

"Marco", de Saleem Haddad (2019) Contundente drama LGBTQIA+ inglês, dirigido e escrito pelo cineasta Kuwaitiano Saleem Haddad. O filme te como protagonista Omar, um jovem executivo de classe média alta libanês, que mora em um chique apartamento em área nobre de Londres. Omar evita falar com sua mãe, que liga constantemente para ele, mas ele não atende. Cansado e estressado, Omar chama um garoto de programa espanhol, Marco, para que venha em sua casa. Quando Marco chega, Omar relaxa em suas mãos, mas logo percebe que Marco não é quem ele diz ser. Ele na verdade é sírio, um refugiado que fugiu do conflito em seu país, e se manteve por muito tempo em abrigo de refugiados de Londres. Marco é Ahmed, e conta para Omar toda a sua triste trajetória como gay, tendo que se esconder de sua família, e de sua fuga para não morrer. Uma triste história que fala sobre homofobia e sobre preconceitos contra refugiados, além de redescobrir a sua própria cultura, negada pela vergonha de se considerar um refugiado. Com duas belas performances, o filme instiga a refletir sobre os tema propostos.

Vejo você em breve

"See you soon", de Tyler Rabinowitz (2020) Premiado curta LGBTQIA+, um drama realista sobre dois homens que passam meses trocando mensagens românticas por um aplicativo de relacionamentos e decidem que agora é a hora de se conhecerem pessoalmente. Vincent mora em Los Angeles. Atony mora em Nova York. Vincent viaja de avião para NY, e de cara, rola uma química entre os dois. O filme mostra similaridades em comum, e apenas no sexo, destôam: ambos são ativos, mas ambos se conectam de forma tão intensa que se permitem serem passivos. Mas o dia do retorno de viagem chega e ambos precisam decidir se existe um futuro nesse relacionamento. Como deve ter acontecido na vida de qualquer ser humano, a distância mata qualquer relacionamento. Quem deverá ceder e tentar se mudar para agradar o outro? Com belas performances, cenas de sexo filmadas com sensibilidade e sem vulgaridade e um olhar naturalista, o filme seduz pelo espelhamento da vida de todos.

sábado, 4 de julho de 2020

Phenomena

"Phenomena", de Dario Argento (1985) Um dos menos conhecidos trabalhos do Mestre do terror Dario Argento, “Phenomena” certamente fará a alegria dos fãs do cineasta italiano, famoso pelo exagero na direção, pela ambientação bizarra e sureralista de suas mortes, muito sangue, performances canastronas mas divertidas e claro, a trilha sonora impecável da banda Goblin. Aqui, o filme ainda conta com músicas da banda Iron Maiden, reforçando as cenas tensas. Dario Argento lançou o filme em 1985, antes e depois de dois de seus maiores clássicos: “Tenebra” e “terror na ópera”. Jennifer Connelly, na época com 14 anos, protagoniza esse filme, após sua estréia nos cinemas em ‘Era uma vez na America”, de Sergio Leone. A primeira parte do filme lembra bastante “Suspíria”: uma jovem estudante americana, Jennifer (Connelly) vai estudar em um colégio de meninas, em um local isolado. Aqui, ela vai até os Alpes Suíços. Ela descobre que meninas de sua idade foram assassinadas. O roteiro, como não poderia deixar de ser, é uma maluquice tão ensandecida, que se torna uma delícia: Jennifer é sonâmbula, e tem um dom: se comunica com insetos.. Dessa forma, ela acaba conhecendo o entomólogo John (Donald Pleasence, o Dr Loomis da franquia ‘Halloween”), que a ajuda a esclarecer as mortes e ambos procuram identificar o assassino. Dr John, que é paraplégico, tem como enfermeira uma chimpanzé!!!!!!, resonsável pelos momentos mais incríveis do filme. O desfecho do filme, os últimos 20 minutos, são uma verdadeira obra-prima. Li que Jennifer Connelly se recusa a falar do filme e de Dario Argento. Ela se irritu com as filmagens, com a cena da piscina, que lembra ‘Poltergeist”, e na cena final, ela teve o dedo decepado pelo chimpanzé, sendo reconstituído na cirurgia.

Finalmente livres

"En liberté!", de Pierre Salvadori (2018) Vencedor do prêmio de melhor direção na Quinzena dos realizadores do Festival de Cannes 2018, "Finalmente livres" é uma divertida comédia devastadora, que mescla drama, romance e policial. wu gargalhei tanto, mas tanto, com tantas situações bizarras e malucas que o excelente roteiro de Benjamin Charbit e Benoît Graffin propõe. Politicamente incorreto, o filme não tem o mínimo pudor em fazer humor de situações repletas de violência e humor negro. A tenente Yonne ( Adèle Haenel, ótima), é viuva do policial Santi, morto em combate. O ex-colega de Santi, Louis (Damien Bonnard, do drama "Os miseráveis"), é apaixonado por Yvonne. Yvonne passa as noites contando histórias heróicas do falecido marido para o filho pequeno. Mas quando ela descobre que o marido, na verdade, era um policial corrupto, e roubou e extorquiu dinheiro, e pior, prendeu injustamente um inocente para que ele levasse a culpa, Yvonne desmorona. Antoine (Pio Marmaï, de "Beijei uma garota") dai da prisão, e volta para casa, para sua esposa devota, Agnes (Audrey Tautou). Mas Antonine mudou: se tornou uma pessoa violenta e com raiva do mundo. Para se redimir, Yvonne, secretamente, vai encobrindo todas as ações criminosas de Antoine. É fantástico ver 4 dos melhores atores franceses em um mesmo filme, atuando em cenas de drama e alta comédia maluca, chegando às raias do nonsense. O clip de Yvonne observando tudo o que o marido roubou, ou a sequência do parque de diversões, ou a do assalto à joalheria, são exemplos da perfeição de acting e de direção, rendendo dinâmica e muita interação. Imperdível.

Benvindo à Chechênia

"Welcome to Chechnya", de David France (2020) Indicado ao Oscar em 2012 pelo documentário "How to Survive a Plague", sobre a causa da AIDS, o documentarista David France é ativista de inúmeras causas, e agora em "Benvindo à Chechênia", ele relata a luta de ativistas russos da causa LGBTQIA+, a ONG LGBTQ+ RUSSIAN NETWORK, formado por pessoas que colocam a sua vida em risco, ajudando gays e lésbicas chechênios a fugir de seu País, trazê-los para um abrigo e Moscou e dali, tentar levá-los para outros países, sem correrem o risco de serem encontrados e mortos. Em 2017, a Chechênia iniciou um combate ao tráfico,e ao prender um poderoso traficante, encontrou em seu celular fotos gays pornográficas e contatos de pessoas Lgbtqia+. Assim, deu-se início à uma campanha implementada pelo governo muçulmano de Ramzan Kadyrov , um ex-rebelde checheno e atual presidente da Chechénia.. Kadyrov resolveu eliminar qualquer vestígio de gays e lésbicas em seu País, iniciando uma caçada onde uma vez presas, as pessoas eram torturadas e depois, caso não morressem, eram enviados aos seus pais, para que os matassem, única forma da família não cair em desgraça. Mediante tamanha brutalidade o filme ainda apresenta vídeos caseiros mostrando cenas brutais de torturas, incluindo espancamento, cortes de cabelo com faca e um relato aterrorizante de uma testemunha que viu um gay ser morto por um rato que comeu suas costas. A última parte do filme relata a fuga de um fugitivo, que teve que fugir com sua família, que foi ameaçada de morte. Rodado de 2017 a 2019, o filme finaliza com um dos ativistas dizendo que vários parceiros estão deixando de financiar a Ong, e para isso, faltará dinheiro para a viagens e a manutenção do abrigo. Até hoje, a ONG já ajudou mais de 160 civis gays a sairem da Chechênia, e encontrar um refúgio. Um filme tenso, cruel, mas necessário.

Babyteeth- Dente de leite

"Babyteeth", de Shannon Murphy (2019) Drama extraordinário, com toques de humor finíssimo, esse premiado filme da cineasta australiana Shannon Murphy vai arrebatar corações pela forma delicada e realista com que toca temas como amor juvenil, amor na maturidade, drogas e morte. Premiado em Veneza, na Mostra de São Paulo e em diversos outros importantes Festivais, "Dente de leite" tem 4 performances arrebatadoras; o casal jovem, Milla ( Eliza Scanlen) e Moses (Toby Wallace), e os pais de Milla, o psicólogo Henry (Ben Mendelsohn), e sua esposa Anna (Essie Davis, de "Mr Babadook"). Mas a performance de Toby Wallace foi a que mais me emocionou, pela construção complexa e rica de camadas de seu personagem, um jovem traficante de drogas, expulso de casa pela sua mãe e obrigado a se virar roubando remédios das casas que invade. Quando ele conhece Milla, os dois travam uma improvável amizade, que se transforma em paixão. Mas quando Toby descobre que Milla é portadora de câncer terminal, ele precisa rever o seu papel no mundo. A música tem função primordial no filme, através da aula de violino de Milla, ou da dança que Toby adoram ou das festinhas da garotada. O roteiro toca em assuntos já explorados por tantos romances juvenis, como "A culpa é das estrelas', mas aqui a diretora Shnnon Murphy"traz um olhar e uma narrativa mais autoral e independente, dividindo o filme em segmentos com títulos, onde um deles, "Love", homenageia o filme de Michael Haneke.

O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy

"Anchorman: The Legend of Ron Burgundy", de Adam McKay (2004) O roteirista, produtor e Cineasta Adam McKay tem uma invejável carreira onde ele alia comédias devastadoras, como O âncora", ou comédias ácidas como "Vice"e "A grande aposta". O que mais chama atenção, em todos os seus filmes, é o impressionante elenco que ele consegue escalar em suas produções. Saca o casting monstruoso de "O âncora": Will Ferrell, Paul Rudd, Steve Carell, Tim Robins, Christina Applegate, David Koechner, Seth Rogen, Danny Trejo, Luke Wilson, Ben Stiller e Vince Vaughn. O filme é uma sátira mordaz e totalmente maluca e nonsense, sobre um famoso âncora"de San Diego dos anos 70, Ron Burgundy (Ferrell). O filme apresenta a história como baseada em fatos reais, mas de cara já se vê que é tudo invenção, mas de concreto, era o ambiente machista dos grandes canais de Tv. Ron e sua equipe Brian (Rudd), brick (Carell) e Champ (David Koechner) formam m time campeão no canal líder de audiência. Quando uma nova jornalista entra no canal, Veronica (Aplegate), o time se sente ameaçado e fazem de tudo para derrubá-la. Mas Ron acaba se apaixonando por ela. O filme apresenta cenas que puxam gargalhadas homéricas: a cena da batalha das equipes de Tv, usando armas mortais, ou a conversa do cachorro de Ron com os ursos no zoo, ou a animação que mostra a transa entre Ron e Veronica...é muito bom ver uma comédia onde todo o elenco se joga na maluquice proposta pelo roteiro e pela direção. O filme de verdade, tem um casting invejável de comediantes, cada um com pelo menos um momento de estrelato em cena. A piada do jornalista de Luke Wilson e seus braços é de rachar de rir.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Anna dos 6 aos 18

"Anna ot 6 do 18", de Nikita Mikhalkov (1994) Documentário obrigatório a todos que desejam entender o processo de transição da União Soviética para a Rússia que conhecemos hoje em dia. Tudo isso através das lentes do premiado cineasta russo Nikita Mikhalkov, vencedor da Palma de Ouro por “Olhos negros”. Nikita tem como elemento narrativo que conduz o espectador à história da transição comunismo para a social democracia a sua filha Anna. Nikita resolveu, em 1980, a entrevistar sua filha Anna, então com 6 anos de idade. Durante 13 anos, lhe foram feitas as mesmas cinco perguntas: o que mais a amedrontava, o que mais ela desejava, o que ela mais odiava, o que mais amava e o que ela mais queria naquele momento. O mais extraordinário, e isso vale como construção de personagens para o processo de trabalho de atores, é ver como a pessoa, ao longo dos anos e dar circunstâncias que a rodeiam, vai mudando o seu ponto de vista sobre as suas respostas. Aos 11 anos, Anna , questionada por seu pai sobre as suas respostas, diz que quando se é criança, se responde sem pensar. E que agora, já crescida, ela precisa pensar antes de responder. O filme poderia ter sido uma inspiração para Richard Linklater e seu premiado “Boyhood”. Mas em ‘Anna dos 6 aos 18”, as circunstâncias eram bem diferentes. Quando Nikita começou a filmar, não tinha idéia que filme queria fazer. A União Sovitética tinha controle sobre tudo, e não permitia filmagens clandestinas ou domésticas. Nikita se permitiu ter um rolo de filme por ano para s entrevistas, e convocou amigos leais para ajudarem na filmagem, tomando todo o cuidado para não serem delatados. Observar o amadurecimento físico e psicológico de Anna é extraordinário. Além da parte de entrevistas, Nikita consegue editar imagens famosas e outras inéditas de momentos chaves na história da União Soviética e da recém Russia: os enterros de chefes de Estado Stalin, Breznev; o fracasso da missão espacial Challenger; o fundamentalismo iraniano; a guerra do Afeganistão, Chernobyl, a dissociação da União Soviética; a entrada de grifes e marcas estrangeiras com a Perestroika; o golpe de estado contra Gorbachev; protestos contra Gorbachev acusado de ser um traidor da União Soviética. Imagens das primeiras festas democráticas, a queda do muro de Berlin. “Anna dos 6 aos 18” é um filme obrigatório, imprescindível, narrado em tom de melancolia e poesia, retratando a memória e o tempo, e principalmente, pelo ponto d evista de Nikita, uma crítica ao sistema socialista, depois uma crítica ao social democracia com a invasão da cultura estrangeira e por fim, um hino à Terra natal.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O affair

"En affaere", de Henrik Martin Dahlsbakken (2018) Drama norueguês bastante denso e catártico sobre uma professora de educação física que se envolve nos seus 50 anos que se envolve com o seu aluno de 16 anos. A mulher se torna uma predadora sexual, obrigando o rapaz a fazer sexo com ela o tempo todo, e sentindo ciúmesE das relações dele com a namorada mais nova. Ela se torna uma psicopata, e não consegue esconder as duas emoções, fazendo seu marido e alunos desconfiarem do que passa em sua vida. O filme tem uma atuação poderosa da atriz Andrea Bræin Hovig, e em muito, lembra o filme dinamarquês "Rainha de copas", que possui uma performance visceral da super atriz Trine Dyrholm em cenas de sexo explícito, como a madrasta que obriga o enteado menor de idade afazer sexo com ela. É difícil, no entanto, deixar passar despercebido o olhar machista sobre a produção: escrito e dirigido por um homem, que pune a sua protagonista, tornando-a quase que uma Glenn Close em "Atração fatal", sem esquecer que quem seduziu a professora pela primeira vez foi o menino. Ele insistiu, e ela entrou no jogo. Um drama cruel, provocador, polêmico.

Um amante francês

"Just a gigolo", de Olivier Baroux (2019) Que delícia de comédia maluca! Refilmagem da excelente comédia mexicana "Como se tornar um conquistador", com os super astros Eugenio Derbez e Selma Hayek, "Um amante francês" conta com o carisma e talento de Kad Merad, ator argelino, totalmente à vontade e hilário como Alex, um gigolô decadente que deixou a vida passar e quando se dá conta, está sem dinheiro, com o físico caído e sem o charme de outrora. Sem ter aonde morar, ele recorre à irmã Sarah, que ele abandonou desde que começou a boa vida. Reticente, ela deixa ele ficar até arrumar um emprego. Alex não desiste e resolve investir em uma milionária, cuja neta o seu sobrinho, Hugo, está apaixonado. O filme tem cenas muito engraçadas, envolvendo justamente a decadência de Alex, que não se dá conta de que a idade chegou. O elenco é todo hilário, e o meme da música “Illusion”, de Imaginattion, é sensacional.

O sol de Riccione

"Sotto il sole di Riccione", de Younuts (2020) Longa de estréia do diretor de video-clips italiano Younuts, "O sol de Riccione" é uma homenagem aos filmes adolescentes que inundaram os cinema, com histórias ambientadas em praias ensolaradas e paradisíacas. O elenco formado pelos jovens mais lindos que se possa escalar, cujo único conflito é: quem eu vou namorar?O filme sôa anacrônico ao trazer em pauta dos anos 2020, temas comuns aos filmes dos anos 80: sexismo, machismo, piadas sobre deficiências ( no caso, cegos), gerontofobia (bullying aos mais velhos), exposição de corpos femininos em bikinis. O filme acompanha um número enorme de personagens, talvez uns 12 principais, cada um com a sua sub-trama e pouco espaço de tela para ter um maior desenvolvimento. Os tipos são todos já conhecidos. Mas o filme é ruim? Bom, eu me diverti, apesar de tantos senões do politicamente incorreto, mas se pensar que é um filme com um olhar nostálgico, passa. Quem quer apenas um passatempo olhando paisagens deslumbrantes, fotografia muito foda valorizando o elenco e as locações na linda praia de Riccione, e se deliciar com uma trilha sonora pop italiana, tá mega valendo. Se quiserem ver um filme com estofo ou algo para divagar depois, melhor passar adiante.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Yummi

"Yummi", de Lars Damoiseaux (2019) Comédia de terror belga de zumbis, "Yummi" foi exibida em diversos Festivais de filmes de gênero. Imaginem assistir a um filme de zumbis toda ambientada em uma clínica de cirurgia plástica no Leste Europeu? O filme é uma homenagem aos clássicos zumbis dos anos 80, como "A volta dos mortos-vivos", "O amanhecer dos mortos", e tem toda a anarquia do clássico inglês "Todo mundo quase morto". Um casal, Allison e Michael ( na mesma persona do casal de "Rocky Horror picture show", viajam de carro até uma clínica de cirurgia plástica no Leste europeu, junto da mãe da noiva, Allison. Allison quer reduzir seus seios, que são enormes e motivo de chacota. Chegando na clínica, eles estranham que o local tem um ambiente sinistro e decadente. Não custa muito, eles percebem que o local está infestado de zumbis, e lutam para sobreviver e saírem de lá. Os efeitos de maquiagem são muito bons, bem exagerados, como era nos filmes dos anos 80, com muita tripa e vísceras. Os personagens são super caricatos, e o filme é repleto de politicamente incorreto, principalmente no referente ao sexismo. Quem está a fim de um passatempo desmiolado, vai se divertir. Caso contrário, melhor se afastar, que vai odiar tanto besteirol.

Encontrando Gorbachev

'Meeting Gorbachev", de Werner Herzog e André Singer (2018) Brilhante documentário dirigido por Werner Herzog, é uma aula de história da União Soviética dos anos 80 ao início dos anos 90, focando na figura de Mikhail Gorbachev, desde sua infância, sua chegada em Moscou e a posse como Presidente da União Soviética de 1985 a 1991. A sua popularidade se tornou tão gigante no mundo inteiro, que se tornou um icone pop, e a sua mancha na testa virou meme em charges de todos os cartunistas. Gorbachev é odiado e amado na mesma proporção. Muitos o acusam de ter provocado o colapso na União Soviética, fazendo-a perder o posto de grande potência. Herzog entrevista Gorbachev, cara a cara, e edita imagens de arquivo e de Gorbachev em vida pessoal. As imagens da ainda União Soviética são impressionantes, principalmente durante o armamento nuclear, e os velórios de Leonid Brezhnev, Yuri Andropov e Konstantin Chernenko. Gorbachev foi o responsável pelos programas Perestroika (reestruturação) e Glasnost (Abertura), responsáveis pela social democracia e abertura econômica, fatos impensáveis em um regime comunista vigente até então. A cortina de ferro e o muro de Berlin caíram sob sua administração, assim como a tragédia de Chernobyl, onde o seu governo foi acusado de esconder os fatos reais. Gorbachev também foi responsável pelo fim da Guerra fria, pelo início do desarmamento e a aproximação com os Estados Unidos. Um golpe de estado ocorreu em 91, com militares descontentes com os caminhos do País e exigindo o retorno do comunismo, mas foram derrubados. Gorbachev cedeu 3 entrevistas à Herzog, que narra o filme com um inglês excelente. Gorbachev passa seus últimos anos em profunda solidão, após a morte da esposa Raísa. É um filme comovente, importante e preciso em seus reltaos históricos.

Buñuel no labirinto das tartarugas

"Buñuel en el laberinto de las tortugas", de Salvador Simó (2019) Animação primorosa, um filme obrigatório para quem ama o Cinema. Vencedor de dezenas de prêmios em festivais internacionais, "Buñuel no labirinto das tartarugas" é uma ode ao amor ao cinema e à amizade. O filme é adaptação da Grapich novel de Fermin Solis, lançada em 2009. Após lançar "O cão andaluz"e "A idade do ouro", Buñuel, que é de família aristocrata, resolve realizar um próximo filme. Mas com o fracasso de "A idade do ouro" e as críticas da Igreja e do público, que o chamou de blasfemo, Buñuel não consegue apoio financeiro, nem de sua mãe, que financiou "Um cão andaluz". Quando visita seu amigo espanhol Ramón Acin, conhecido anarquista, Buñuel lhe conta seu desejo de fazer um documentário sobre a região de Las Hurdes, no Norte da Espanha, o lugar mais pobre da Espanha, segundo o livro etnográfico de Maurice Legendre intitulado Las Jurdes: Étude de Géographie Humaine (1927). Ramón aposta na loteria e diz à Buñuel que se ganhar vai investir no filme. Para surpresa de todos, Ramón ganha e parte para Las Hurdes com Buñuel e o fotógrafo francês Eli Lotar e o assistente de direção Pierre Unik. O filme mistura animação e o próprio filme, chamado "Terra sem pão", considerado o primeiro "mockmentary" do cinema: Buñuel falseou vários takes, para trazer mais veracidade às cenas. Matou animais, exigiu interpretação dos moradores., explorou a pobreza da região, as doenças, as mortes das crianças e as deformidades de moradores, devido ao incesto comum entre eles. O título "Labirinto das tartarugas" é porquê ao chegarem na região, olharam para os barracos de favelas pelo ponto de vista, se assemelhava ao caso de tartarugas. No final, o filme apresenta cartelas relatando o que ocorreu com o amigo Ramón Acin: com a Guerra Civil espanhola, que se iniciou em 1936, Ramón e sua esposa foram fuzilados. O Governo somente liberou a exibição do filme anos depois, sem o nome de Ramón nas cartelas. Em 1960, Buñuel relançou o filme, colocando o nome do amigo, e com o dinheiro arrecadado, doou às duas filhas dele. Os traços da animação são belíssimos e a trilha sonora, de , é comovente.