sábado, 13 de junho de 2020
Madonna and The Breakfast Club
"Madonna and The Breakfast Club", de Guy Guido (2019)
Documentário obrigatório para fãs de Madonna, apresenta imagens de arquivo, fotos e também recria cenas com atores, cobrindo desde o seu nascimento em Detroit, 1958, até o lançamento de seu 2o álbum em 1984, “Like a virgin”. Eventualmente o filme cobre entrevistas de Madonna e eventos até o ano de 2008.
O filme apresenta Madonna através de depoimentos dos integrantes da primeira banda formada com Madonna, The Breakfast club. O grupo foi formado em 1979, e o perrengue era tão grande, que moravam em uma sinagoga abandonada no bairro do Queens. Os irmãos Dan e Ed Gilroy eram os mentores da banda. Madonna namorava Dan e ele a trouxe como vocalista. O grupo tinha uma pegada rock. Logo depois, o grupo se desfez e os irmãos, junto de Madonna e de um amigo dela que veio de Detroit, Steve, criaram “Emmy”. Após algumas apresentações, Madonna foi vista por uma agente que a contratou para fazer carreira solo. Após brigar com a agente Madonna seguiu sozinha e fi atrás de Djs com a demo de “Everybody”, em 1981, sendo que todos viravam a cara para ela. Apenas no final de 1982, um Dj, Mark Kamins resolveu investir em Madonna e reeditou ‘Everybody”. A música começou a estourar em boites mais antenadas do underground de Nova York, aé finalmente ganhar todos os Estados Unidos.
Madonna só aparece em imagens de arquivo. Todo o filme é com depoimentos frustrados dos ex-integrantes. A grande força do filme, e o que lhe dá credibilidade, já que Madonna não aparece, é a impressionante atriz Jamie Auld, uma sósia perfeita. Tem horas que você realmente acha que é Madonna. Com imagens raras do filme que Madonna fez para um estudante de NY no final dos anos 70, ‘A certain sacrifice”, as fotos nuas para ganhar dinheiro, o documentário traz humanidade para Madonna, apesar de deixarem claro a ambição da loira, e que foi justamente esse desejo de querer ser famosa que a levou ao lugar aonde ela está.
sexta-feira, 12 de junho de 2020
Um dia Um dia muito claro
"Hvítur, hvítur dagur", de Hlynur Palmason(2019)
Que filme extraordinário!! Indicado pela Islândia para concorrer à uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2020, “Um dia muito claro” participou de dezenas de Festivas, ganhando o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes na Mostra semana da crítica e um prêmio no prestigiado Rotterdan.
O filme mistura gêneros: drama e suspense em doses densas, defendida com brilho pelos 2 atores principais: Ingimundur, um policial aposentado (Ingvar Sigurdsson) e sua neta Salka (Ída Mekkín Hlynsdóttir). Ingimundor acaba de perder sua esposa em um acidente de carro. O seu luto é doloroso e ele frequenta um terapeuta. Sua grande paixão é sua neta Salka. Um ia, ao revirar as coisas da falecida, Ingimundir encontra uma filmadora. Ao assistir a fita, encontra imagens dela transando com um morador da cidade.
Tudo no filme é grande: a direção, o roteiro, a trilha sonora, a fotografia e as belas locações. O filme é composto de rigorosos planos estáticos e também de planos-sequências muito bem marcados em encenação. Logo na cena inicial, temos a impressionante cena do acidente de carro. Mais na frente, quando Ingimundur anda de carro com sua neta, ele bate em uma enorme pedra. AO jogar a pedra no mesmo desfiladeiro onde o carro da falecida caiu, a pedra faz exatamente o mesmo trajeto, só que dessa vez em detalhes. É um recurso narrativo brilhante para que o espectador perceba o quão violento foi o acidente. Do meio em diante, o filme avança para contornos mais de irmãos Cohen, com viradas na história e muita violência. E é impressionante como o diretor domina tão bem a narrativa, construindo uma tensão crescente, quase ao nível do insuportável. Imperdível.
Inimigo natural
"L'ennemi naturel ", de Pierre Erwan Guillaume (2004)
Amei esse drama policial LGBTQI+. O filme tem uma intensa carga erótica, repleta de nudez masculina explícita. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, é instigante e bastante obscuro, repleta de fetiche e perversões: incesto, ninfomania, voyeurismo.
O jovem tenente Luhel (Jalil Lespert), vem de Paris para investigar a morte de um adolescente na cidade da Bretanha, interior da França. Ao entrevistar a mãe do rapaz, ela diz que o pai é o suspeito crime. Ao entrevistar o pai do rapaz, Tanguy (Aurélien Recoing), o tenente Luhel passa a ter desejos eróticos com ele. Luhel é casado e tem um filho recém nascido, mas reprime os seus desejos sexuais homossexuais. À medida que Luhel vai investigando o caso e possíveis suspeitos, ele vem sendo rechaçado pela população local e pela polícia, que o consideram incapaz pela sua juventude.
O filme tem uma excelente performance do ator Jalil Lespert, no papel do reprimido tenente Luhel. É um personagem bastante complexo e cheio de camadas. A alta carga erótica do filme traduz os anseios do personagem, que vai enlouquecendo conforme os desejos vão aumentando.
É um filme com uma atmosfera estranham que às vezes beira o lúdico e o realismo fantástico.
10 Coisas que Deveríamos Fazer Antes de Nos Separar
"10 Things We Should Do Before We Break Up", de Galt Niederhoffer (2020)
Escrito e dirigido pela cineasta Galt Niederhoffer, "10 Coisas que Deveríamos Fazer Antes de Nos Separar" engana o seu público: tudo leva a crer que você vai assistir à uma comédia romântica, mas lá pelo terço final o filme dá uma guinada e vira um drama. E pior, um drama com um desfecho abrupto, como há muito eu não via.
Abigai lCristina Ricci) é uma mulher divorciada, mãe de 2 filhos. Ela trabalha como ilustradora de livros infantis e mal tem tempo para uma vida social. Uma noite, sua melhor amiga a chama para ir no bar, mas Abigail resiste, até que é convencida a ir. Ao chegar lá, descobre que foi uma armação da amiga, que marcou um encontro às escuras para ela. Benjamin (Hamish Linklater) surge e ambos conversam para se conhecer melhor. Benjamim propõe que se fossem casados, o que deveriam fazer antes de se separar. Na brincadeira, acabam transando. Um mês depois, Abigail descobre estar grávida. Benjamim surta, não quer assumir compromissos. Od dois propõem um acordo, antes de decidir se fazem aborto ou não: Benjamin deve frequentar a casa de Abigail, conhecer seus filhos e assim, Benjamim sentir se leva jeito para ser pai.
A melhor coisa do filme, disparado, é a presença de Cristina Ricci. Não me lembro de tê-la visto em filmes românticos, e é uma delícia ver o quanto ela se dá bem no gênero, se afastando das personagens bizarras que fazia com Tom Burton e na Família Addams. O que estraga o filme é o roteiro: excesso de diálogos e um personagem detestável. Benjamim é um personagem insuportável. O ator Hamish Linklater tenta defender o personagem da melhor forma possível, ma sé difícil.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Corrente do mal
"It follows", de David Robert Mitchell (2014)
Rever esse clássico do terror moderno 5 anos depois do seu lançamento é revelador: ele continua tão bom quanto da primeira vez que o vi, sem perder nada de seu charme. Único filme de terror a competir no Festival de Cannes na Mostra semana da crítica, fazendo um enorme sucesso, "Corrente do mal" foi o precursor da onda do neo-terror: um sub-gênero mais autoral, mais baseado em atmosferas e climas do que nos sustos, construindo toda uma narrativa enigmática até chegar em um desfecho catártico. Depois dele vieram "A bruxa", "Hereditário", "Midsommar", "A caba", para citar apenas alguns, que seguiram esse caminho de uma produção independente e mais experimental. O roteiro tem todos os elementos que amamos: nerds. a vida sexual ativa dos adolescentes, trilha sonora de sintetizadores e a homenagem aos anos 70 e 80. Tudo isso visto por uma metáfora do medo, da culpa, da paranóia, vistos recentemente na franquia "It, a coisa".
Na cidade do Michigan, uma estranha força malígna se apossa de uma pessoa, e para que ela não morra, a pessoa precisa fazer sexo e assim, passara corrente adiante. A próxima pessoa precisa passar a corrente pra frente, senão a pessoa anterior morre.
Com uma excelente fotografia de Mike Gioulakis e uma trilha sensacional do grupo Disasterpiece, o filme traz ainda ótimas performances do elenco, todos bastante talentosos, com destaque para Maika Monroe, no papel da protagonista Jay. Há quem veja no filme ecos de "Twin Peaks", de David Lynch.
Festa de Babete
“Babettes gæstebud”, de Gabriel Axel (1987)
Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1988, “A festa de Babette” certamente é o primeiro filme que vem à mente de todo cinéfilo quando se fala em gastronomia no cinema. 1871. Adaptação de um conto do livro ‘Ironias do destino”, da dinamarquesa Karen Blixen, o filme é de uma rara delicadeza, um requinte em detalhes da direção de arte, do figurino, da maquiagem e da fotografia. Ambientado no século XIX, o filme tem um prólogo que apresenta um vilarejo do norte da Dinamarca, onde moram alguns poucos moradores, todos devotos ao cristianismo e ao Pastor do local, pai de duas lindas jovens, Martine (Birgitte Federspiel) e Philippa (Bodil Kjer). Martine é uma ótima pianista, e Philippa, cantora. O pai impede que dois pretendentes se aproximem das filhas pois ele quer que elas tenham a vida devotada à Deus. Passados décadas, em 1971, e com o pai já falecido, as irmãs continuam solteiras e dvotas à palavra do pai e de Deus. Uma noite, uma francesa bate à porta delas: É Babette (Stephanie Audran, falecida em 2018). Ele é foragida da França e pede acolhimento na casa das irmãs solteironas. Sem ter como pagar uma governanta, as irmãs acabam aceitando a proposta de Babette: ela não quer dinheiro, só um lugar para ficar. Babette recebe a notícia de um amigo que ganhou a loteria em Paris. Com o dinheiro, ela decide agradecer às irmãs e oferece para elas um banquete para comemorar os 100 anos do Pastor, convidando todos do vilarejo.
O filme ficou famoso pelas requintadas cenas da preparação do jantar e também pela degustação dos convidados. A trilha sonora, de Per Nørgaard, ajuda a dar uma atmosfera intimista, lúdica e poética. O elenco inteiro, sem exceção, brilha em cena, e é incrível como cada personagem tem uma característica própria. Um filme impecável, uma aula de cinema.
Easy
"Easy", de Robert Guthrie (2018)
Exibido em mais de 40 Festivais de cinema, incluindo em Cannes, "Easy" é um curta de inacreditáveis 3 minutos,. escrito e dirigido pelo americano Robert Guthrie. A história é bem simples, assim como a sua realização. Dois adolescentes, David e Jonathan, são apaixonados um pelo outro. Os pais de David apoiam o namoro. E o mundo é colorido.
Robert Guthrie quiz fazer um filme onde o amor entre dois homens não trouxesse nenhuma informação sobre violência, homofobia, bullying, nada. Só amor, só paz, alegria e felicidade. Parece um grande comercial de gente bonita e feliz. E é fofo e simpático, e a cena final, revelando que Jonathan tem quase 2 metros de altura e David é bem mais baixo, é uma graça. O filme é prova de que às vezes a simplicidade é a melhor opção para se fazer um filme honesto.
quarta-feira, 10 de junho de 2020
Tape
"Tape", de Deborah Kampmeier (2020)
Drama dirigido, escrito, fotografado e produzido por mulheres, "Tape" é um aterrorizante filme sobre assédio sexual contra atrizes. O filme é produzido e protagonizado pela atriz Annarosa Mudd, e o filme é baseado em sua história. Annarosa se sentiu encorajada pelo movimento #metoo Rosa (Mudd) se prepara fazer fazer uma audição. Na sala de espera, ela observa as outras atrizes. Entre elas está Pearl (Isabelle Fuhrman, visceral). Nenhuma das duas passa na audição. Isabelle, no entanto, é abordada pelo diretor do test, Lux (Tarek Bishara, perfeito no papel de predador). Ele a convida para fazer uma audição, somente os dois, para um projeto que ainda está no papel. Vendo que essa será sua chance, Pearl aceita o convite. Mas na hora, descobre que o diretor quer que ela faça uma cena de sexo com ele na frente das câmeras, para ter certeza de que ela fará a cena de sexo nas filmagens. Rosa, sabendo da audição, coloca uma câmera escondida e grava tudo.
O famoso "teste do sofá" ganha um filme poderoso. Toda a sequência da audição de Pearl com o diretor dura pelo menos 50 minutos, em tempo real. O diretor faz de tudo para convencer a jovem a fazer sexo como uma prova do talento, e ela recusa o tempo todo. Os diálogos do predador provavelmente já foi ouvido por boa parte das atrizes do mercado. É um filme difícil de se assistir, pois é notório que o filme representa a história de muitos atores, seja homem ou mulher.
Com uma ótima direção e roteiro de Deborah Kampmeier, o filme traz uma catártica cena final, com várias mulheres relatando casos de estupro.
Um filme importante, que deveria ser visto por todos que lidam com esse constante assédio no audiovisual. Elenco excelente, com fortes interações em cena.
ChickenHawk
'Chickenhawk", de Adi Sideman (1994)
Polêmico documentário que fala sobre um criminoso grupo de ativismo LGBTQI+, o NAMBLA ( North American Man/Boy Love Association). O NAMBLA é um grupo de ativismo pedófilo, disfarçado como um grupo de homens mais velhos que são amantes de garotos na faixa de 12 a 14 anos, segundo eles, "a idade onde o garoto não é nem um menino nem um adolescente, com uma sexualidade indefinida. Eles se auto-proclamam de "Chilld lovers"e não de "child molesters". Alegam que são procurados pelos meninos, por curiosidade e porquê eles se sentem atraídos pelos homens mais velhos. O filme reúne depoimentos de ex-garotos, hoje já adultos, que dizem gostar dessa relação cm um homem mais velho pois sabem que eles têm o poder sobre os adultos, lhe dão tudo o que pedem. Os integrantes do NAMBLA aparecem no filme com suas imagens, dando depoimentos, e com seus nomes expostos. Inclusive o poeta e escritor Allan Ginsberg fazia parte do NAMBLA, e nunca escondeu sua paixão por meninos,. O filme inclusive mostra um trecho de uma palestra feita por Ginsberg no NAMBLA.
O filme procura mostrar o quanto a História aprovava a pedofilia como forma da criança se tornar um homem, através das relações com homens mais velhos. Foi assim na Grécia antiga, na época dos samurais ( com fotos), e em algumas tribos africanas, onde inclusive o sêmem dos meninos era um tesouro de grande valia para oa adultos.
Não sei como o diretor e o câmera conseguira, mas o filme mostra integrantes do NAMBLA se aproximando de meninos na rua, na escola,, descaradamente. Um dos integrantes é um professor que foi expulso do colégio onde dava aula. Outro é italiano e mora em um prédio, onde está havendo manifestação na rua contra a presença dele. Na sua secretária eletrônica, mensagens ameaçando ele de morte e chamando ele de "estuprador de bebês".
Durante uma passeata LGBTQI+ , eles foram expulsos pelos outros manifestantes, alegando que eles não são bem vindos. O NAMBLA foi criado em 1976. Pertenceu à Associação Internacional de Gays e Lésbicas de 1984 até 1994, quando foi expulsa.
Para quem está fazendo pesquisa sobre pedofilia, esse filme é essencial, pois dá voz aos pedófilos dando seus argumentos sobre o porquê amam os meninos.
A hora do amor
"Ernités", de Ingmar Bergman (1971)
Primeiro filme de Bergman falado em língua inglesa, e protagonizado por um ator não escandinavo, o americano Elliot Gould, "A hora do amor"foi considerado por boa parte da crítica e pelo próprio Bergman como o seu pior trabalho. É uma declaração cruel para um cineasta que tem em sua filmografia tantas obras-primas, e sempre aquela expectativa de que o próximo filme suplante o anterior. Vale aqui a mesma frase ditada pela filmografia de Woody Allen: "Um Bergman menor é melhor que muito filme".
Lançado em 1971, um ano antes de um de seus filmes mais famosos, 'Gritos e sussurros", "A hora do amor" é a história de uma mulher, Karin (Bibi Andersson, extraordinária) , casada com o médico Andreas (Max Von Sydow) e pais de dois adolescentes. Karin é dona de casa e cuida dos afazeres do lar. A rotina já faz parte da vida de Karin, que não tem grandes ambições na vida. Quando sua mãe morre, Karin fica emocionalmente destruída, e é confortada por um americano, David (Gould), que se encontra por ali. Coincidentemente, David conhece Andreas, que o indicou para um trabalho de restauração de estátuas de uma igreja. David confidencia para Karin que está apaixonado por ela, e sacudida, Karin se entrega. David no entanto revela ter um comportamento bipolar, para surpresa de Karin.
Acho injusto falarem mal desse filme dizendo que é um filme ruim. Só pelo trabalho magnífico de Bibi e de Von Sydown, em cenas de grande performance, já valeria a pena. Elliot Gould empresta beleza ao personagem, mas é de fato muito difícil entrar no universo tão complexo de Bergman de paraquedas. A cena de Karin no quarto do hospital, vendo sua mãe morta, e olhando ao redor, pela janela, vendo que a vida continua igual para todos, é um momento de grande cinema. Outro momento espetacular é a primeira transa de Karin e David, onde ela tem um monólogo doloroso sobre a sua insegurança com o seu corpo. A fotografia de Sven Nykvst é um assombro, alternando a luminosidade solar da casa de Karin com a sobriedade e depressão do apartamento de David.
Campo 731: Bactérias – A Maldade Human
"Man behind the sun", de Tun Fei Mou (1988)
Realizado em 1988 pela China, "Campo 731" é um filme que continua proibido em diversos países por conta de suas cenas chocantes e polêmicas. O filme retrata, de forma ficcionalizada, as atrocidades cometidas por soldados japoneses e por um médico, Shirô Ishi, no que era chamado de Unidade 731, uma divisão responsável pelo programa de guerra biológica do Japão. Localizada na cidade de Harbin,nordeste da China, operou durante a Segunda Guerra Mundial e durante a invasão japonesa na China. O filme retrata experimentos realizados com os prisioneiros chineses e russos: injeção de peste bubônica, congelamento dos presos e consequente mutilação de membros, dessecação com pessoas vivas, pressurização em câmeras de gás e muito mais barbaridades. O filme faz parte de um sub-gênero que tomou conta do cinema, chamado "exploitation", que produziu clássicos como "Faces da morte", "Canibal holocausto"e "Mondo cane". Em hipótese alguma esse filme deve ser visto por pessoas sensíveis ou cardíacas, somente para quem já assistiu aos filmes citados. Algumas cenas, vistas hoje em dia, ficaram bastante toscas, por conta dos efeitos, mas psicologicamente continuam fortes. Porém, duas cenas entraram no imaginário pela sua extrema violência: uma dissecação de um corpo ( reza a lenda que o Governo chinês cedeu cadáveres para o filme), e uma cena onde um gato é jogado em uma ala repleta de ratos famintos que o devoram. Somente para os fortes.
terça-feira, 9 de junho de 2020
Tese- A morte ao vivo
"Thesis", de Alejandro Amenábar (1996)
Filme de estréia do diretor espanhol Alejandro Amenábar, lançado em 1996 e que faturou 7 prêmios Goya, e ainda levou o Kikito de melhor atriz em Gramado para Ana Torrent. Para quem não se lembra, Ana Torrent foi protagonista, quando criança, de duas obras-primas do cinema: 'Cria Cuervos" e "O espírito da colméia". Amanábar na sequência filmaria 3 filmes de grande sucesso: "Abra seus olhos", "Os outros" e "Mar adentro".
Angela (Torrent) é uma estudante de audiovisual da faculdade de cinema. Ela está escrevendo uma tese sobre a violência na mídia. Quando seu orientador da tese morre aparentemente de crise de asma, Angela descobre uma fita VHS e a pega. Quando vai assistir em casa, leva um susto: na fita, uma jovem é assassinada, e para Angela, parece ser real. Angela conta com a ajuda de Chema (Fele Martinez), que trabalha na faculdade. Ambos passam a suspeitar de ume estudante de cinema, Bosco (Eduardo Noriega), que foi um dos namorados da jovem assassinada.
O maior mérito do roteiro do próprio Amenábar, é enganar o tempo todo cm o espectador, com possíveis suspeitos surgindo a todo o momento. Os atores estão todos ótimos e bem no clima do suspense que o filme propõe. Amanábar planta alguns Deus-ex machina para que o roteiro avance, mas a história é tão mirabolante que a gente deixa rolar. O tema principal do filme são os snuff movies, uma lenda urbana disseminada nos anos 70 nos Estados Unidos, sobre filmes onde os assassinatos são reais.
Basquiat- Downtown 81
"Downtown 81", de Edo Bertoglio (2000)
Único filme protagonizado pelo artista plástico Jean Michel Basquiat, "Downtown 81" é um doc ficção que retrata a vida do jovem Basuiat no início dos anos 80. Rodado entre os anos de 1980 a 1981, o filme foi abandonado em meados dos anos 80 por falta de financiamento, sendo recuperado no final dos anos 90, pelo produtor e roteirista do filme, Glenn O'Brien. Reeditado, o filme teve que ser dublado pelo ator Saul Willians, pois Basquiat morreu em 1988 e todo o aúdio foi destruído. O filme teve sua estréia no Festival de Cannes 2000.
O filme é um registro histórico e importante da Nova York efervescente do início dos anos 80, quando a cena musical independente apontava para a geração New Wave, de onde surgiram bandas como Blondie. O filme tem registros musicais de Arto Lindsay, Kid Creole e outros da cena nova yorquina. Basquiat interpreta a si mesmo: saindo de um hospital, ele segue para o seu apartamento, mas é expulso pelo locatário pela falta de pagamento do aluguel. Sem ter aonde morar, Basquiat é assediado por um bela modelo, que diz que quer casar e cuidar dele Eles combinam de se encontrar em um clube noturno, mas Basquiat perde o contato e segue de clube em clube atrás da jovem. No final, ele dá de cara com a fada madrinha, interpretada por Debbie Harry, vocalista do Blondie.
Com um roteiro bizarro que mistura ficção, documentário, musical e conto de fadas, o filme tem como qualidades justamente essa junção de elementos e um registro da cidade nos bairros menos turísticos, mais da periferia e decadente. As atuações são todas fracas, afinal ninguém ali é ator, mas tá valendo pelo valor histórico.
Baixo centro
"Baixo centro", de Ewerton Bélico e Samuel Marotta (2017)
"Baixo centro" venceu a Mostra Aurora do Festival de Tiradentes 2018, e é uma produção de baixíssimo orçamento, rodado nas noites de Belo Horizonte, tanto na capital quanto na periferia. O filme me lembrou em alguns pontos do excelente "Temporada", de André Novais Oliveira. A diferença é que "Temporada" é mais solar, mais diurno, enquanto 'Baixo centro"revela uma Belo Horizonte melancólica, triste e solitária nas noites. Mas em ambos os filmes os personagens lidam com desemprego, violência urbana, tráfico e relacionamentos mal resolvidos. "Baixo entro" tem na sua trilha raps cantados por mulheres e cantos africanos. O filme acompanha vários personagens, entre encontros e desencontros, que não escondem sua apatia, desesperança de uma vida sem rumo. Gu (Renan Rovida) e Luisa (Barbara Colen), Robert (Alexandre de Sena) e Teresa (Cris Moreira) e o fotógrafo Djamba (Marcelo Souza e Silva).
O filme traz situações episódicas dos personagens, que perambulam sem perspectiva. "Baixo centro" é um filme político, que faz um alerta sobre a violência contra a população negra, sobre um povo sem assistência e sem encanto para o lugar aonde moram. Um filme triste sobre um País sem cultura, sem educação e sem emprego. Os atores interpretam em registro naturalista, em um filme que lembra um olhar mais documental.
Ingmar Bergman
"Ingmar Bergman", de Stig Björkman (1971)
Documentario obrigatório para fãs do diretor sueco e que querem saber mais sobre seus métodos de trabalho, com cenas registradas durante as filmagens de "A hora do amor", de 1971.
Bergman dá depoimentos sobre como dirige seus atores e busca a essência deles, além do trabalho como o fotógrafo Sven Nykvist. Em cenas sensacionais e reveladoras do perfeccionismo de Bergman, como por ex, quando ele discute com a atriz Bibi Anderson sobre uma calça que a personagem usa. Tod o elenco e equipe dão depoimentos sobre Bergman e como ele trabalha. Max Von Sydow elogia Bergman e diz que ele dirige dando liberdade aos atores, e deixando claro que ele busca o ritmo de cada personagem, comparando a notas musicais. Com imagens raras mostrando as exigências de Bergman no set, o filme também traz imagens de seus filmes mais famosos, como "Persona", "O sétimo selo", "A paixão de Ana", entre outros. Um prazer e uma descoberta enormes ver Bergman falando sobre o Amor ao cinema e o Amor em fazer cinema. O diretor Stig Björkman dirigiu em 2015 o também xcelente documentário 'Eu sou Ingrid Bergman", obre a grande atriz sueca.
Pazucus: A Ilha do Desarreago
"Pazucus: A Ilha do Desarreago", de Gurcius Gewdner (2017)
Muito provável que esse filme do cineasta e roteirista Pazúcus: A Ilha do Desarreago, rodado em Florianópolis pelo diretor Gurcius Gewdner leve o título de pior filme trash do cinema brasileiro, e que isso não sôe como uma crítica, mas sim, um elogio. Se Pazúcus: A Ilha do Desarreago, rodado em Florianópolis pelo diretor Gurcius quiz atormentar seu público com tudo o que o sub-gênero propõe, acertou em tudo: gritarias insuportáveis do elenco, uma extensa duração de quase duas horas numa prova de ousadia do seu diretor , que também é editor e resolveu dar um foda-se pro espectador como se dissesse "Vocês verão o filme que eu quiz fazer , sem interferências de produtor pedindo para diminuir o filme". Os efeitos são os piores possíveis, com facas e machados feios de papel alumínio e isopor, muito cocô fake, vômitos verdes e pretos, um inacreditável tubarão humano e uma infinidade de situações que só vendo para acreditar.
Com o incrível feito de ter sido selecionado para Festivais de gênero na Europa e aqui no Brasil, exibido na Mostra de realizadores, que faz apostas na produção independente.
A história acontece em dois núcleos distinto que convergem no final: Carlos (Marcel Mars) está sofrendo de constipações fecais e procura o médico dr Roberto ( também Marcel Mars) para falar de seu problema. As fezes no intestino de Carlos promovem uma revolução, querendo dominar a Ilha do desarrego. É para lá que Carlos segue vomitando pelo caminho. Dr Roberto vai em sue encalço para matá-lo. Nessa mesma ilha, acompanhamos o casal Omar ( o diretor Gurcius Gewdner) e sua namorada Oréstia, em busca de paz no relacionamento. Mas a floresta se rebela e eles são possuídos.
É possível ver muitas referências ao cinema de terror, como "Evil dead", "O iluminado"( de onde o filme rouba a trilha), "It, a coisa"e mais louco ainda, do cinema marginal brasileiro, como "O rei do cagaço" e "Superoutro", de Edgar Navarro, com suas fezes e excreções proclamadas por um homem que perambula pelas ruas da cidade, vociferando frases e manifestos, além da linguagem de "O bandido da luz vermelha", de Sganzerla.
Nesse curioso caso de filme trash udigrudi e experimental, vale tudo, até explorar dezenas de clássicos da disco music, funk, soul e pop na trilha sonora, oriundos dos anos 70, como o grupo Voyage e Fleetwood Mac. As músicas tocam em momentos nada a ver, dando um tom surreal. As animações que abrem e fecham o filme, animadas por Christian Caselli são sensacionais, a melhor coisa do filme.
O cineasta e produtor Cavi Borges entrou como co-produtor, ajudando a dar ao filme uma maior visibilidade e levando o cinema trash para um público mais amplo.
Achei curioso que o ator Marcel Mars tem a fisionomia do cineasta Carlão Reichembach, misturado ao tipo e narração empostada e exagerada caricata do ex-candidato a presidente Enéas Franco.
Fiquei na dúvida se o título do filme é uma brincadeira em cima de "Pax no cú"
Link para ver o filme: https://vimeo.com/189240086
A pequena sereia
"Malá morská víla", de Karel Kachyna (1976)
A Disney quando lançou a animação "A pequena sereia" em 1989 enganou todo o mundo com aquele final feliz. Assistindo a essa belíssima versão com atores do cinema tcheko, lançada em 1976, eu fiquei chocado com o seu terço final, e no desfecho então, fiquei traumatizado. Fui pesquisar o conto original de Hans Christian Andersen e vi que esse filme é totalmente fiel à escrita do escritor dinamarquês. Fui pesquisar mais a fundo e descobri que Hans escreveu esse conto por causa de um amor não correspondido. Apaixonado por um outro homem, que acabou trocando Hans por uma mulher, com quem se casou.
Nessa adaptação, o filme se mistura ao famoso experimentalismo e vanguarda do cinema tcheco, mais uma encenação teatralizada dos cenários, figurinos e maquiagem, amplamente Kitsch. O filme foi rodado na costa litorânea de Kladruby, e em estúdios de Praga. Todo o cenário submarino foi montado no estúdio, e a concepção que o diretor deu é bem curiosa: para dar a sensação de fundo do mar, toda a parte submarina é rodada em camera lenta. O filme tem um visual que lembra muito o filme de Jacques Demy, "Pele de asno". O fundo do mar é totalmente azulado, assim como os figurinos da população marinha. Nessa história, o que difere do filme da Disney é seu final, trágico. Reza a lenda contada pela Bruxa do mar que a pequena sereia, ao tomar a opção, perde a voz e ganha pernas, mas ao colocar os pé sno chão, terá a sensação se estar pisando em pontas de facas e sentir dores homéricas. Quando a sereia pisa na areia, a areia fica com sangue. É uma imagem impressionante e chocante. Outros momentos antológicos: A Pequena serie,a já em forma humana, é obrigada a jantar no castelo do Rei, mas somente servem peixes e ostras, que são amigos da Sereia, que fica chocada, e o fundo do mar, após um naufrágio, com os corpos dos marinheiros mortos. O filme é uma pequena pérola, que provavelmente não trará nenhum atrativo para as novas gerações, que acharão o filme datado e teatral. As canções cantadas pelas sereias são muito lindas, assim como a fotografia.
segunda-feira, 8 de junho de 2020
O selvagem da motocicleta
"Rumble fish", de Francis Ford Coppola (1983)
Adaptação do livro homônimo de S. E. Hinton, publicado em 1975, "O selvagem da motocicleta" se tornou objeto de culto desde o seu lançamento em 1983. Coppola já havia adaptado outro livro do mesmo autor, "Vidas sem rumo", lançado no mesmo ano que "O Selvagem da motocicleta". O filme anterior de Coppola, "Do fundo do coração", custou uma fortuna e deu um mega prejuízo para a sua produtora, a Zoetrope. Coppola resolveu então investir em filmes menores, de baixo orçamento, mais artísticos e com um elenco que estava começando a despontar. A fotografia absolutamente extraordinária e mágica de Stephen H. Burum, fotógrafo de quase todos os filmes de Brian de Palma, é a grande estrela do filme. Com um preto e branco que traz elementos do cinema noir e do Expressionismo alemão, e uma atmosfera de filmes B, com direito a muita fumaça em cena. A trilha sonora é outro ponto cultuado do filme: o baterista do The Police, Stewart Copeland, compôs um arranjo que briga com a cena e por isso mesmo, interessante.
Os dois atores principais se tornaram por muito tempo, dois dos maiores galãs de Hollywood: Matt DIllon e Mickey Routke. Donos de um enorme carisma e fotogenia, ambos brilham em cena. Além deles, o elenco prima com a presença dos ícones de Coppola: Diane Lane, Tom Waits, Dennis Hopper e o sobrinho de Coppola ainda estreando, Nicolas Cage, Lawrence Fishburne e Chris Penn.
Em uma cidade pequena, Rusty James (Dillon) é um jovem rebelde que sonha um dia ser igual o seu irmão, uma lenda conhecida como "The motorcycvle boy"( Rourke). Rusty mora com seu pai (Dennis Hopper), um alcóolatra. Rusty passa seus dias matando aula, namorando a doce Patty (Diane Lane), cuja irmã pequena é interpretada por Sophia Coppola, filha do diretor. Rusty se junta à sua gangue e nas noitadas vive brigando com outras gangues. Quando seu irmão retorna, Rusty se surpreende que ele agora se tornou uma outra pessoa, mais pacífica.
A direção de Coppola procura montar enquadramentos em quadros fixos, alternando com belos travellings. Abusando da grande angular, Coppola investe em experimentação no visual do filme, e para as passagens de tempo, ele inclui planos deslumbrantes de time lapse. O filme é repleto de cenas antológicas, como o vôo do espírito de Rusty, a cena do aquário com os irmãos conversando sobre os peixes de briga, que são os elementos coloridos do filme e um travelling final que percorre todo os personagens do filme.
Alemanha, mãe pálida
"Deutschland bleiche Mutter ", de Helma Sanders-Brahms (1980)
Assisti a esse drama alemão há mais de 30 anos atrás e tinha na minha lembrança de que era um filme muito angustiante e triste. Revendo agora, fiquei arrasado com essa metáfora sobre a Alemanha de antes , durante e pós a 2a guerra mundial, na figura de uma mulher comum, mas extraordinária, Helene, protagonizado por uma visceral Eva Mattes, atriz fetiche de vários filmes de Fassbinder. Helena ama, sofre, é estuprada, é mãe, apanha do marido, fica doente, tenta o suicídio. Esse é o retrato da Alemanha, um País que amou o sue povo, sofreu durante e depois da 2a guerra e quer manter o espírito de esperança, apesar da destruição em massa e da baixa auto-estima da população, dilacerada pela fome, desemprego, sme moradia.
O filme é todo narrado em off por Hanne, filha de Helena e Hans (Ernst Jacobi), soldado alemão que se apaixona por Helena e se casam. Mas quando Hans volta do front, ele está mudado. Depois de ter matado civis, entre eles, mulheres com o mesmo rosto de Helena, ele perdeu a esperança em tudo e se torna um homem violento. Ao retornar ao front, helena é obrigada a sobreviver com Hanne, em uma Alemanha destruída pelas bombas.
O filme tem 150 minutos de duração,e logo no seu prólogo, a filha de Bertolt Brecht lê em offf o poema de onde originou o título do filme.
Um filme muito triste, com cenas chocantes, escrito e dirigido por uma mulher e protagonizado por mulheres.
Pavão
"Furiant", de Ondřej Hudeček (2016)
Chocado com a qualidade desse curta premiado em Sundance com o prêmio de melhor direção e exibido em dezenas de Festivais mundo afora. E o choque é maior ainda quando descobri que o diretor e roteirista é estudante de cinema na Film and TV School of the Academy of Performing Arts in Prague. O filme é uma cinebiografia do autor e dramaturgo tcheko Ladislav Stroupeznický, criador do teatro moderno na Tchekoslovaquia. O filme, uma comédia de humor negro com referências assumidas ao cinema de Stanley Kubrick e seu "Barry Lyndon", e ao cinema de Lars Von Triers e todas as suas obsessões por narração em off, catalogação, divisão em capítulos e muito sexo e violência.
O filme é dividido em 3 capítulos e um epílogo, e vai de 1853 até o final do século XIX. No ò ato, o filme apresenta Ladislav, um menino de família rica, mas um psicopata que tem prazer em torturar e matar animais. Adolescente, Ladislav conhece Jan, um estudante por quem se apaixona e se tornam amantes. Mas o excesso de ciúmes de Ladislav faz com que Jan cometa suicídio na frente de Ladislav, com um tiro. Passado o trauma, durante uma caça, Ladislav acerta o filho do guardião, e acreditando tê-lo matado, Ladislav comete suicídio, dando um tiro em seu queixo, mas ele não morre. Com a mandíbula e o nariz destruídos, e refeitos por cirurgia, Ladislav se dedica ao Teatro moderno de Praga, escrevendo peças que se tornaram famosas e referências até hoje.
Com uma fotografia deslumbrante do próprio diretor e atuação primorosa de Ladislav Stroupeznický no papel de Lzdislav adolescente e adulto, o filme prima pela beleza de seus enquadramentos, verdadeiras pinturas.
Assinar:
Postagens (Atom)



















