domingo, 3 de setembro de 2017
Saberá o que fazer
"Sabrás o que hacer", de Katina Medina Mora (2015)
Que lindo e ao mesmo tempo drama mexicano, todo realizado por mulheres na Direção e no roteiro. A cineasta Katina Medina Mora resolveu realizar esse filme para homenagear um amigo dela epiléptico.
O filme é dividido em 3 capítulos, os 2 primeiros por pontos de vista diferentes, e o 3o une as historias.
Nicola é um fotógrafo que sofre de epilepsia. Um dia, após sofrer uma convulsão, ele conhece Isabel, que veio visitar a sua mãe depressiva e suicida. Os 2 escondem os seus segredos, e se apaixonam. Mas quando a verdade vem `a tona, eles lutam para entender os dramas de cada um e respeitar as suas escolhas.
Belamente dirigido, com muita sensibilidade, o filme tem uma linda performance do casal principal, os mexicanos Pablo Derqui e Ilse Salas. E' um filme muito melancólico, sofrido e que no seu final, faz uma linda redenção para que as pessoas possam abrir as suas vidas para novas possibilidades.
Recomendado.
Tempestade de areia
"Sufat Chol", de Elite Zexer (2016)
Escrito e dirigido pela Cineasta israelense Elite Zexer, "Tempestade de areia" ganhou mais de 15 prêmios internacionais, entre eles, o Grande Premio do Juri em Sundance 2016.
O tema do filme já foi visto em muitos filmes: a mulher reprimida dentro de uma sociedade machista, arcaica e patriarcal, na Cultura do Oriente médio. Recentemente tivemos o excelente "A garota ocidental", muito semelhante.
Laya é uma jovem que mora com suas 3 irmãs menores, sua mãe Jailia e seu pai Suliman em uma comunidade de beduínos que habitam o deserto no sul de Israel. Nessa cultura, é permitido ao marido casar com outras esposas. O filme começa com Suliman casando com uma segunda esposa, e abandonando Jalila e as filhas na sua casa antiga. Para piorar, Layla se apaixona por um colega de faculdade, mas seus pais proíbem esse namoro, pois as mulheres devem se casar com homens da mesma casta.
Muito bem dirigido por Elite Zexer, que comanda um time de excelentes atores, o filme revela para o espectador um mundo onde a repressão comanda as vidas das pessoas. As mulheres não podem ter vontades próprias, elas agem de acordo com o que os outros querem. O interessante é apresentar a mãe Jalila não só como vitima, mas também como algoz dessa mesma educação, repetindo todas as atitudes castradoras das outras gerações.
O desfecho me deixou bastante desapontado, irritado até, mas entendo que os filmes iranianos ou israelenses não fazem a mínima concessão para agradar o espectador.
Bela direção de arte, mostrando um vilarejo perdido no meio de um deserto.
sábado, 2 de setembro de 2017
Amor eterno
"Eternité", de Tran Anh Hung (2016)
Nenhum filme que tenha 4 dos maiores astros franceses da atualidade (Audrey Tautou, Berenice Bejo, Melanie Laurent e Jeremie Renier), que tenha sido dirigido pelo Cineasta vietnamita mais famoso do mundo ( realizador de "O cheio da papaya verde") e fotografado pelo celebrado fotografo chinês Lee Ping Bin, de "Amor `a flor da pele', de Wong Kar Wai, pode passar incólume. Adaptado da novela de Alice Ferney, o filme é um álbum de família aberto ao espectador. O filme engloba 3 gerações de uma família de aristocratas na Franca, começando no Séc XVIII. O roteiro do filme é bastante singelo, e muito do filme é narrado em voz off. Senti muita influencia do Cinema de Terrence Malick, com exceção da câmera virtuosa do fotografo Emmanuel Lubezky. Uma narração que enaltece a beleza da vida, da natureza, dos fantasmas do passado, da morte sempre presente. O filme basicamente é isso: As pessoas nascem, crescem, morrem. A única personagem que vai do início ao fim é o de Valentine (Audrey Tautou), que vai de uma jovem de 17 anos até uma idosa (e com aquela pesada maquiagem de envelhecimento, que eu tenho pavor!!).
O próprio poster do filme já pega referencia no Pôster de "Arvore da vida", de Malick.
Tran Anh Hung filma com muita sensibilidade e delicadeza essa história de mulheres, e é inegável a força da Mulher para a trajetória dessa família. Os atores quase não tem fala, pois mais de 80% do filme é narrado em Off por uma voz off feminina. Parece até um filme mudo, ao som de Bach e Debussy.
Curiosidade: o titulo nacional, "Amor eterno", é muito semelhante a "Eterno Amor", de Jean Pierre Jeunet, também com Audrey Tautou.
Predadores do Amor
"Hounds of love", de Ben Young (2016)
Premiadíssimo Filme de terror australiano, Venceu Premio de Melhor atriz e para Ashleigh Cummings no Festival de Veneza 2016, e Melhor Diretor e atriz para Emma Booth em Munique, além de outros premios em outros festivais internacionais.
O se filme se passa em uma cidade do interior da Australia nos anos 80. Um casal de serial killers sequestram, torturam, estupram e matam garotas. A última vítima, Vicky(Ashleigh Cummings, excelente), é filha de pais separados e estea passando uns dias com sua mãe, a quem ela culpa pelo fracasso do casamento dos pais. Ao sair para uma festa escondida, contra a vontade de sua mãe, Vicky aceita uma carona do casal Evelyn (Emma Booth) e John ( Stephen Curry), em performances aterrorizantes. A mãe de Vicky, Maggie, passa a procurar pela filha, pois não acredita na versão da policia de que ela fugiu para c idade grande.
O que mais assusta nesse filme, é uma lição dada por Theo Angelopoulos na sua obra-prima "Paisagem na neblina": Menos é mais. Quanto menos violência explicita mostrar mais aterradora ela será. O que acontece fora de tela, acaba sendo mais angustiante.
Ben Young filma com silêncios, tempos lentos, câmera lenta, tudo com muita sobriedade e elegância. Seus atores são fabulosos, e esse é o maior sucesso do seu filme. Cru, brutal, visceral. Um filme chocante, que não deve ser recomendado para pessoas que sofrem com cenas de torturas.
No final, o filme acaba sendo um libelo feminista, sobre a independência das mulheres nos anos 80, sobre a vontade de serem livres e donas de si. Fiquei totalmente sem fôlego, angustiado, tenso, foda, muito foda!
O Cinema Australiano está matando a pau com os filmes de terror: "Snowtown", "Mr Babadook", " O acampamento".
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Emoji, O Filme
"Emoji, the Movie", de Tony Leondis (2017)
Um filme de animação que toca "Wake me up before You go" e " Take on me" do Aha em versão remix não pode ser de todo ruim. E se usar os clássicos "Tron" e "Blade Runner" em sua concepção visual também não. As críticas do mundo inteiro destruíram o filme, e o pior é que nem achei tão ruim assim. É assistivel, tem uma história bobinha, mas não sei se tem apelo para crianças. O vocabulário é todo em cima de nomes de aplicativos, anti vírus, firewall e afins e pode ser que eu esteja enganado. Pode ser que toda essa geração cibernética já entenda tudo o que é dito e mencionado no filme e talvez por isso eu ache esse filme um destruidor do universo lúdico dos contos de fada. Aqui não tem espaço pra fantasia. Tudo é seco, céu, objetivo e imediato como tem que ser as mensagens enviadas por aplicativos de troca de texto. A emoção vem a conta gotas. Os personagens são simpáticos, mas bem longe dos que nos apaixonamos em filmes clássicos. São funcionais, mas não emocionantes. Talvez fosse melhor usar esse filme em aulas de computação para crianças. Seria mais didático. O que valeu mesmo a pena? As cenas de dança ao som de hits dos anos 80! Amei!
O acampamento
"Killing grounds", de Damien Power (2016)
Antes mesmo da estrutura narrativa em vários tempos não cronológicos de "Dunkirk", de Christopher Nolan, o cineasta e roteirista Daniel Power havia usado esse recurso nesse seu premiado filme de terror," O acampamento". Fácil fácil, ele engana o espectador. O filme foi exibido em Sundance, Toronto e vários outros Festivais, e fez um enorme burburinho, muito por conta de sua violência extrema, que lembra clássicos do gênero como " A quadrilha de sádicos", de Wes Craven.
A história é simples: 2 casais distintos resolvem acampar em um lugar isolado em uma floresta. Uma família com dois filhos e um casal solteiro, na véspera do ano novo. O que eles não poderiam imaginar, era a presença de dois tipos psicopatas que moram na região.
Esse tema de inocentes nas mãos de assassinos, já vimos aos montes no cinema. O que difere aqui, é o extremo realismo das cenas, e a construção narrativa que engana o espectador.
Os atores são ótimos e morri de pena de boa parte dos personagens.
É um filme proibido ao extremo para quem gosta de acampar em lugares isolados. Com certeza ficarão psicóticos.
O diretor e roteirista Damien Power disse que escreveu essa história diante da possibilidade de ver uma cabana abandonada em um camping, sobre o que teria acontecido aos donos. Ele apenas abusou do sadismo e da angústia para explicitar o seu pensamento.
Rigorosamente proibido para pessoas sensíveis e que não conseguem assistir a cenas de tortura física e psicológica. Aqui tem que ter coragem para assistir, ainda mais envolvendo um bebê. Fiquei mega tenso do meio pro final do filme.
Os garotos nas árvores
"Boys in the trees", de Nicholas Verso (2016)
Escrito e dirigido por Nicholas Verso, um ex-Dj australiano que resolver se aventurar por trás das câmeras. "Os garotos nas arvores" lembra bastante de outro filme australiano, de 1 ano antes: "O sonho de Greta". Ambos os filmes lidam com o tema do adolescente que teme virar adulto, e por isso, criam um mundo de fantasia aonde se refugam.
Em uma cidade no interior da Austrália, na noite do Halloween de 1997, Corey sai com seus amigos, Os Wolf, para se divertirem e tocar o terror na cidade. Será a última noite de Corey na cidade, pois ele seguirá para Nova York para estudar fotografia. Ele no entanto, resolve procurar Jonah, seu ex melhor amigo, que se encontra isolado, sem amigo, e é motivo de Bullying de todos na escola. Nessa noite, Corey e Jonah colocam todos os seus sonhos, frustrações e sentimentos para fora, como uma grande despedida.
O filme discute temas próprios para a geração adolescente, que são o desapego, o bullying e a depressão. Lembra muito a série “13 reasons why”, pois todas as questões levantadas no seriado estão ali. O jovem elenco é muito bom, e as cenas de fantasia são bem realizadas, dentro do orçamento apertado. O filme tem uma atmosfera de filme de terror, mas é uma grande metáfora sobre o medo de enfrentar a vida, principalmente nessa idade e na situação pelo qual passa o protagonista, que ´´o de abandonar toda a sua infância e amigos para partir para uma nova empreitada.
O filme ainda aposta na questão da homossexualidade. Provavelmente Jonah foi apaixonado por Corey, e isso explica também o afastamento entre eles.
Um lindo filme, premiado em vários Festivais e inclusive concorrendo no Festival de Veneza.
Belas fotografia e rilha sonora, evocando mistério e fantasia. Amei a homenagem feita a “Et”, através da caracterização de Jonah, vestido como Henry Thomas no filme de Spielberg, de jaqueta vermelha, olhos pretos e rosto branco.
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Você eu amo
"Ya lyublyu tebya ", de Olga Stolpovskaja e Dmitriy Troitskiy (2004)
Drama romanceado russo, realizado em 2004 e que trata de um tema polemico até mesmo para os padrões da cinematografia russa: a descoberta do homossexualismo, e mais, a formação de um triângulo amoroso. Conservadores e rígidos na educação de uma família patriarcal e machista, o filme provocou polemica.
Para quem está acostumado com filmes de temática Lgbts, esse aqui é bastante singelo, nem mesmo tem cenas de nudez ou sexo. Mas a provocação do trema já foi o suficiente para tornea-lo de certa forma um representante da filmografia gay em seu Pais, sendo considerado até o filme gay mais erótico do ano na Russia (imaginenm!!!)
Tim ´´um bem sucedido publicitário. Ele conhece por um acaso Vera, uma bela ancora de um telejornal. Os dois se apaixonam, e possuem uma forma inusitada e bizarra de expressarem amor um ao outro, através de comida e jogos eróticos. Um dia, por acidente, Tim atropela sem querer Uloomji, um jovem mongol que veio para Moscou tentar a sorte. Como Uloomji não tem aonde ficar, Tim o traz para casa. O inevitável acontece: os 2 se apaixonam. Vera ao descobrir o caso se deprime, mas depois tenta entender o amor dos 2, e acaba interagindo como em um menagem.
O filme, simbolicamente, pode ser visto como uma metáfora do capitalismo seduzindo a população pobre: Tim e Vera representam o supra sumo do capitalismo, e Uloomji, representa o povo, que se sente atraído por esse mundo rico e poderoso, chique, requintado. Mas o contrario acaba acontecendo: Tim percebe que poder não é tudo, e sim , o amor, e vai se desfazendo das coisas materiais em sua vida.
O filme em si é repleto de problemas; de edição, de ritmo, de roteiro ( cheio de sub-plots, incluindo os pais de Uloomji que querem fazer ele desistir de ser gay). A direção também peca em efeitos bobos e toscos, mas no final, o trabalho dos 3 atores é o que prevalece, alem da ousadia der abordar um tema tão difícil de lidar na Russia como esse.
Atômica
"Atomic blonde", de David Leitch (2017)
O que mais me chamou a atenção nesse filme de ação e aventura protagonizado por Charlize Theron, foi a participação de Barbara Sukowa no filme. Pouca gente deve lembrar, e ela aqui ainda faz uma pequena participação, muito aquém de seu gigantesco potencial. Mas como o dinheiro é quem manda, ela interpreta uma médica da perícia em Berlim. Para quem não sabe, Barbara Sukowa foi uma das grandes musas de Fassbinder, estrela de "Lola" e "Berlin Alexanderplatz", alem de ter trabalhado com Lars Von Triers em "Europa", depois fez também o premiado "Hannah Arendt".
"Atômica" se passa logo antes da derrubada do muro de Berlim, novembro de 1989. Charlize interpreta Lorraine, uma agente do MI6 inglês, que vai até Berlim descobrir quem matou um agente do grupo, e aonde está uma poderia lista com nomes de espiões. O mundo estava sob o efeito da Guerra fria, e não se pode confiar em ninguém. Para ajuda-la, estão os agentes David Percival (James McAvoy) e a francesa Delphine (Sophia Boutella), de "KIngsman").
Com um super elenco, que inclui ainda John Goodman, Eddie Marsan e Toby Jones, "Atômica" é um filme totalmente estilizado, bem ao gosto de Nicholas Windfren Refn, de "Drive", repleto de cores fortes e acidas e com uma maravilhosa trilha sonora repleto de hits dos anos 80.
Não tem também como não mencionar o brilhante plano-sequencia de mais de 10 minutos, com Charlize distribuindo porrada para tudo quanto é lado.
"Atômica" ´´a resposta para os filmes de brucutus doa anos 80 e 90, e depois de "Mulher Maravilha" e as princesas modernas da Disney, parece que elas vieram pro ataque mesmo.
O Cineasta David Leitch foi stunt por quase toda a sua carreira, e seu próximo projeto será a Direção de "Deadpool 2".
Dupla explosiva
"Hiyman's bodyguard", de Patrick Hugues (2017)
O filme resgata o mote da franquia " Máquina mortífera" com Mel Gibson e Danny Glover às turras o tempo todo. A diferença aqui é o perfil profissional dos personagens: Michael (Ryan Reynolds, sensacional no melhor estilo "Deadpool") é um agente de segurança de alto nível. Kinkaid ( Samuel L Jackson" é um assassino profissional com uma questão: ele não mata inocentes. Kinkaid precisa aparecer no tribunal para o julgamento do político Vladislav (Gary Oldman) e provar que ele dizimou um vilarejo inteiro na Bielorussia. Perseguido por assassinos, só resta a ele confiar a sua segurança nas mãos de Michael, um antigo desafeto.
O filme tem metade localizado em Armsterda, que sai totalmente destruída. Repleto de humor e de muita ação, é um filme vigoroso, divertido e cheio de personagens carismáticos em suas loucuras. Além dessa dupla, Salma Haeyk brilha como a namorada de Kinkaid, presa em uma cela. As tiradas Dela são de rolar de rir. O flashback que mostra como Kinkaid e Salma se conheceram em um bar pé sujo lembra " Catadores da arca perdida", quando Harrison Ford conhece Karen Allen em um bar super violento.
Samuel L Jackson repete aquele tipo de sempre que o eternizou e seu famoso bordão " Mother Fucker!". Já tá meio gasto, mas tudo bem, ele já virou lenda.
A trilha sonora é toda de hits dos anos 70 e 80, só lamento não ter tocado " O Will always love You", da Whitney Houston, que é executado no trailer do filme.
Passatempo da melhor qualidade.
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Memórias de ontem
"Omohide poro poro", de Isao Takahata (1991)
Que obra-prima produzido pelos Studios Ghibli! Isao Takahata é o mesmo diretor de outras obras-primas, "O túmulo dos vagalumes" e " O conto da Princesa Kaguya", mas aqui ele pega emprestado o mote de "Morangos silvestres", de Bergman, e traça o relato de uma mulher adulta que se vê `as voltas com memórias e reminiscências de sua infância, quando tinha 10 anos de idade.
O filme se passa em 2 épocas: Taeko aos 10 anos na década de 60, e no final dos anos 80, já com 27 anos de idade.
Taeko trabalha em uma grande empresa no Centro de Tokyo, mas desde criança ela era apaixonada pelo campo. Enquanto se prepara para viajar de trem e passar suas ferias como voluntária de uma fazenda que pertence a uma família humilde, Taeko se lembra de sua infância: sua relação com o seu pai rígido, a sua mãe carinhosa e suas irmãs ciumentas Tem também sua avó, sempre repleta de sabedoria. Na escola, Taeko se lembra de sua primeira menstruação!!!!!, e de seus primeiros amores.
O filme, longo, tem 2 horas, mas tem aquela narrativa lenta e suave que nos conduz a um mundo tão romântico e ingênuo, que fica impossível não ficar seduzido pela protagonista. A trilha sonora ( que inclui uma versão japonesa de "The Rose", cantada por Bette Midler no filme homônimo) emoldura esse filme com bastante poesia e melancolia. Fico imaginando uma versão desse filme com atores, que maravilha que não deve ser.
Isao Takahata realizou um filme com extrema delicadeza, com um olhar feminino tão poderoso, fazendo com que o espectador sinta as angústias da personagem que vive desde criança em um a sociedade patriarcal e regida pelos homens.
Os créditos finais são dos mais emocionantes que ja vi no cinema, a gente fica torcendo enquanto os créditos sobem! Idéia genial! Chorei!
Você não está sozinho
"Du er ikke alene", de Ernst Johansen e Lasse Nielsen (1978)
Drama obscuro realizado na Dinamarca em 1978, é considerado um cult por retratar de forma ousada o tema do amor entre 2 meninos pré-adolescentes. Bo, de 14 anos, e Kim, de 11 anos, estudam em um colégio interno para meninos, e aos poucos vão descobrindo que entre eles, surge uma atração que nem eles conseguem explicar o que é. Guiados pelos mais puros e ingénuo sentimento, eles se deixam flertar, tocar e se amar.
Mas essa é uma das histórias apresentadas em "Você não esta sozinho". Assim como em "If..", obra-prima de Lindsay Anderson que discute a tirania das escolas, o filme apresenta professores polarizados entre liberais e os que são carrascos. Da mesma forma, entre os alunos, existem os que lutam por um ideal de um mundo melhor e mais cooperativo, e os que são individualistas. Em uma das cenas, um grupo de rapazes maltrata Bo, por considerá-lo um comunista.
A ousadia maior do filme, além de colocar crianças discutindo política, é mostrar os meninos nus tomando banho e em cenas de insinuação sexual, como masturbaçao. Fosse lançado hoje em dia, certamente esse filme teria sido taxado de incitar a pedofilia. Mas naqueles "inocentes" anos 70, essa discussão nem era questionada.
O filme é comparado a alguns críticos ao cinema de Truffaut, que era um Mestre reconhecido pelo seu trabalho com crianças não -atores. De fato, todas as crianças aqui no filme esbanjam espontaneidade, como se não soubesse que estavam sendo filmadas.
Um filme curioso, que vale ser assistido por Cinéfilos de mente aberta.
Como nossos pais
"Como nossos pais", de Laís Bodanzky (2017)
Durante boa parte do filme, me veio em mente um clássico drama familiar americano de 1983: "Laços de ternura", com Shirley Maclaine, Debra Winger, Jack Nicholson e Jeff Daniels. "Como nossos pais" tem uma paralelo bem próximo: relações familiares que vão de Esposa X Marido e Mãe X Filha, até uma reviravolta surpreendente na historia. O filme venceu 5 Oscar. "Como nossos pais" ganhou 6 Kikitos em Gramado 2017 e pode vir a ser um dos selecionados pela Comissão Brasileira para competir a uma vaga no Oscar.
Tudo isso indica a alta qualidade do filme, principalmente no quesito Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena e Jorge Mautner estão fabulosos em seus personagens cheios de erros e poucos acertos. As participações especiais também colaboram bastante, como os excelentes atores Gilda Nomacce e Felipe Rocha. A fotografia do espanhol Pedro J. Márquez traz lindas tintas melancólicas, e especialmente na cena da praia no anoitecer é muito poética.
O roteiro, de Lais e de Luis Bolognese, é o retrato de todas as famílias do mundo inteiro: traições, rusgas mal resolvidas, conflitos pais e filhos, amantes e como não poderia deixar de existir, o terapeuta que discute a relação de casal.
O vigor e disponibilidade do elenco, principalmente Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra conferem ao filme várias cenas antológicas: mas a que mais me marcou, foi o passeio da mãe e filha comprando sapatos pra mãe. A mãe chega e pede a opinião da filha sobre qual sapato comprar: vermelho ou marrom. A filha escolhe um, a mãe outro, e ai começam uma discussão interminável. Essa cena para mim resume o filme: cada um é e deve ser dono de si e de suas opiniões. Sejam elas acertadas ou não.
Um belo filme que merece ser visto.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
Tokyo Godfathers
"Tokyo Goddofazazu", de Satoshi Kon (2003)
Para quem conhece os clássicos do animador Satoshi Kon, "Perfect blue" e "Paprika", vai estranhar bastante esse "Tokyo Godfathers". Diferente do tom sombrio e assustador dos outros filmes, "Tokyo Godfathers" é uma fábula de Natal, que tem como temas o humanismo e a redenção.
Três sem teto de Tokyo encontram na noite de Natal, um bebe jogado no lixo. Eles decidem ir atrás dos pais da criança e nessa cruzada eles repensam as suas vidas e o porque de estarem naquela condição de mendigos. Gin se tornou bêbado por conta de uma tragédia familiar. Myiuki abandonou sua casa, depois de ter esfaqueado sue pai, um policial. E Hana é uma drag queen, que ficou deprimida após seu marido ter morrido em um acidente.
As histórias de todos os protagonistas e os coadjuvantes que surgem no filme giram em torno do conflito familiar, e como a presença do bebe e do espirito de Natal irá alterar o rumo de tudo e da vida de todos.
Com uma bela reconstituição de Tokyo, o filme seduz pelo carisma dos 3 personagens principais. A bebe irrita um pouco pelo excesso de choro, e curiosamente, o filme faz lembrar bastante do primeiro filme de "A era do gelo", que tem a mesma trajetória dos heróis.
Vale assistir≤ além de ser uma bela história ( prejudicada um pouco pelo excesso de coincidências na trama) , faz um retrato cruel a condição dos sem tem teto no Japão.
Um contratempo
"Contratiempoo", de Oriol Paulo (2016)
Excelente suspense escrito e dirigido pelo espanhol Oriol Paulo. Uma trama diabólica, uma mistura de Hitchcock e Brian de Palma, com aquele maravilhoso desfecho em flashback onde tudo se revela. O brilhantismo do roteiro de Oriol Paulo impressiona, com requintes em mínimos detalhes, e com constantes reviravoltas na trama.
Adrián Doria (Mario Casas) ´´um jovem e talentoso empresário. Casado e pai de uma filha, ele tem uma amante, Laura (Bárbara Lennie), fotografa. Em um encontro em um hotel, ela é assassinada e a culpa recai sobre Arrian. A promotora Virginia ( Ana Wagener) é contrata pelo advogado de Adrian para tentar resolver o seu caso. Para isso, ele precisa contar toda a historia por trás da relação de infidelidade do casal.
Produção espanhola exibida pela Netflix, é um filme repleto de qualidades: no elenco, ótimo, na fotografia, na trilha sonora, e principalmente, no roteiro e na edição, que ajuda a construir uma trama repleta de quebra cabeça e que faz total sentido no final.
A direção de Oriol Paulo brinca com o espectador. Vale assistir e se divertir por 2 horas, e com certeza, no final, você vai ficar com uma cara de idiota e pensar: "Caramba, estava bem diante de meus olhos"! E estava mesmo! Preste atenção em todos os detalhes. E sinceramente, vale rever o filme pela 2a vez, e observar como tudo foi pensado e estudado.
David Lynch- A vida de um artista
"David Lynch- The Art life", Jon Nguyen, Rick Barnes,Olivia Neergaard-Holm (2016)
Documentário experimental focando o artista plástico David Lynch, que narra o filme com memórias e reminiscências de sua infância, adolescência e inicio da fase adulta. Passando pela rebeldia em tempos de colégio, até se encontrar na pintura e posteriormente, no Cinema, o filme termina quando ele inicia o seu processo em "Eraserhead", seu primeiro longa, de 1977.
Para quem for assistir ao filme, tenha em mente que o documentário não fala sobre o processo de David Lynch Cineasta, passa muito longe disso e nem conta qualquer tipo de informação a respeito de seus filmes. O que o documentário propõe, é apresentar ao espectador quem é esse artista e essa pessoa, que guarda em suas lembranças momentos marcantes como quando criança, avistou uma mulher nua com a boca ensanguentada, ou quando se mudou para Filadelfia e ficou em contato com moradores racistas e loucos.
A curiosidade em relação ao filme é que seus diretores trouxeram ao documentário,a atmosfera de seus filmes, com trilha sonora, fotografia e edição de som fantasmagóricas.
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
Harmonium
"Fuchi ni tatsu”,de Kôji Fukada (2016)
Que filme porrada! Caminhando em uma lenta mas progressiva tensão, esse drama sufocante e angustiante lembra muito o universo de Michael Haneke e Takeshi Kitano. O filme venceu vários prêmios internacionais, entre eles o Grande Premio do Júri na Mostra “Um certain regard” em Cannes 2016 e melhor Filme em Miami.
O drama, de 120 minutos, é divido em 2 atos, separados por um hiato de 8 anos. Uma família mora feliz em sua casa. O marido, Toshio, tem uma pequena metalúrgica na garagem de sua casa. A esposa, Akie (Mariko Tsutsui, extraordinária) dedicada `a sua filha de 10 anos, Hotaru, é protestante e muito devota `a religião e aos estudos de piano da filha. Um dia, um homem estranho, Yasaka (Tadanobu Asano, assustador) surge na casa pedindo emprego e moradia `a Toshio, que sem protestar, aceita. A esposa estranha, mas aos poucos vai cedendo aos encantos do estranho, que ensina piano para Hotaru. No entanto, segredos aterrorizantes do passado de Toshio e Yasaka virão `a tona, mostrando quem eles realmente são.
De ritmo lento, mas com um andamento que vai deixando o espectador atônito, o filme tem um roteiro minimalista, mas genial, que tem a vingança como tema principal. Mas não uma vingança como os filmes de Tarantino ou Park Chow Woo. A violência aqui é naquilo que a gente não vê, ou o que acha que irá acontecer. O elenco do filme é incrível, alternando momentos de alegria com tensão. O 1o ato começa com planos fixos, bem ao estilo de Michael Haneke, para depois ir incorporando câmera na mão e steadicam. Um filme para quem gosta de historias fortes mas que não se deixa abater pela crueldade das situações impostas aos seus personagens. Quem não curtir um filme com soco no estomago, fique bem distante. A cena que antecede o 2o ato é brutal.
Um dado fantástico é o fato do personagem de Yasaka apenas usar camisas sociais brancas bem alvejadas e passadas. A fotografia de Ken'ichi Negishi ajuda a dar essa atmosfera de filme de terror.
domingo, 27 de agosto de 2017
Death note
“Death Note”, de Adam Wingard (2017)
Adaptação americana de famoso mangá que rendeu uma franquia com 3 filmes e uma serie de animação no Japão, “Death note” ganha refilmagem do Netflix pelas mãos do Diretor Adam Wingard, do excelente filme de terror “A visita”.
O filme foi destruído pela critica e pelo publico, mas como eu não assisti aos originais japoneses, até que me diverti. Corrigindo: o filme de fato não é bom, é repleto de problemas ( roteiro, efeitos toscos, atuação) , mas como ele tem um charme de Filme B ( o que inclui trilha com sintetizadores), achei digno. E mais: um diretor que inclui 2 músicas para lá de bregas e que não tem nada a ver com as cenas em dois momentos chaves, merece meu respeito. E’ como se ele dissesse: “Foda-se o público, faço o que eu quero!”. Ou alguém com mente sã poderia imaginar que em uma cena do desfecho, poderia tocar impunemente “Como uma deusa”, da Rosana, em versão americana?
O filme me lembrou bastante a premissa de “7 desejos” com “Premonição”: um jovem nerd, que sofre bullying na escola, Light Turner (Nat Wolff, de “Cidade de papel” e “ A culpa é das estrelas”) encontra misteriosamente um caderno com a capa escrito “Death note”. Ele descobre que o caderno é administrado por um entidade chamada Ryuk ( voz de Willen Dafoe) e que permite que o dono do caderno mate quem ele quiser. Basta que escreva o nome da pessoa e pense em seu rosto.
Eu adorei as cenas toscas das mortes, bem ao estilo “Premonição’: decapitação, etc, tudo com bastante sangue. Chegam a ser bizarras algumas mortes. As performances prejudicam também o filme: Nat Wolff, bom ator, inexplicavelmente fica com cara de tábua em muitas cenas. Mas os piores são os atores que interpretam o pai de Light, o policial James, e o Detetive “L”, interpretado por Lakeith Stanfield, de “Corra!”. Esse último compõe um tipo esquisito, que combina mais com um filme e a cultura japonesa, mas não em um filme americano: ou alguém acha normal uma pessoa sentar de cócoras ( típico da sociedade japonesa, mas não da ocidental).
Se não tiver nada para assistir, “Death note” pode ser um passatempo. Se vai irritar ou não, vai depender do seu astral do dia. Pelo menos dá para se divertir com a voz de Willen Dafoe, maravilhosa e sarcástica.
Tom of Finland
"Tom of Finland", de Dome Karukoski (2017)
Cinebiografia do polemico e controverso ilustrador finlandês Touko Laaksonen, conhecido mundialmente como Tom of Finland. Suas ilustrações são talvez os maiores ícones da Arte gay existente no mundo. Nos anos 40, Touko serviu `a 2a Guerra, e durante as batalhas, observava os soldados usando botas e uniformes. Depois, de volta `a Finlandia, continuou com o seu fetiche pelo universo Gay e pelo couro e uniforme. Sua irmã o indicou para trabalhar em uma agencia de publicidade, mas foi com a ilustração de Homens musculosos em uniformes e praticando sexo explicito que Tom ganhou notoriedade nos Estados Unidos e depois, no mundo todo. Durante o advento da Aids nos anos 80, suas gravuras foram acusadas de ajudar a disseminar o vírus por conta do que chamavam de propaganda favorável ao sexo livre.
Provavelmente, não existe uma pessoa que não tenha visto uma ilustração sua, goste-se ou não, sabendo de seu nome ou não.
O filme, infelizmente, não faz jus `a ousadia que tom teve em vida ( ele faleceu em 1991 de enfisema). De certa forma, o filme é cáretissímo, tanto na forma, quanto no conteúdo. Parece que fizeram o filme para o grande público. Esse foi o mesmo problema de outro filme sobre o universo da pornografia, "Linda Lovelace", que narrava a vida da maior estrela porno americana. Amanda Seyfreed interpretou a personagem, e o filme parecia que tinha sido produzido para passar em horário nobre da tv, aberta, sem qualquer erotismo ou transgressão.
E é exatamente isso, transgressão, o que faltou ao filme. Uma pena. Talvez um documentário sobre a sua vida e obra seja mais ousado.
sábado, 26 de agosto de 2017
A torre negra
"The dark tower", de Nikolaj Arcel (2017)
O cineasta e roteirista dinamarquês Nikolaj Arcel tem uma filmografia bem eclética. Além de ter adaptado para o cinema o livro best seller "Millenium- O homem que não amava as mulheres", ele dirigiu Dramas ("O amante da Rainha", Fantasia " A ilha das almas perdidas" e a comédia dramática "A verdade sobre os homens". Eu não pesquisei para saber de que forma ele foi convidado para dirigir esse Blockbuster Filme B, adaptado de uma obra de Stephen King. Como são raros os bons filmes adaptados da literatura de King, infelizmente esse aqui também ficou no meio do caminho.
O filme prometia bastante: Um elenco com 2 giga stars (Idris Elba, como o mocinho Pistoleiro Roland, e Matthew McConaughey, como o vilão Walter. O universo está unido pela Torre negra, que mantém a harmonia entre os planetas habitados. Walter, no entanto, quer dominar o Universo, e para isso, precisa destruir essa Torre. Acontece que a Torre somente poderá ser destruída com a energia emanada de uma criança especial. Walter sequestra várias crianças na terra, até que descobre a existência de Jake (Tom Taylor, ótimo e das melhores coisas do filme). Roland ajuda então Jake a desafiarem o poder de Walter.
O filme termina com mostrando um letreiro de Cinema aonde está passando um Filme de western spaghetii. E' aí que o Diretor Nikolaj Arcel. mostra a sua verdadeira referencia para esse filme de ação , aventura e fantasia: os filmes de Sergio Leone. Ele faz de Roland a figura mítica do cavaleiro solitário, que chega para trazer a paz e a justiça.
Matthew McConaughey faz um vilão mau, mas muito mau mesmo! Chega a ser curioso ver o ganhador do Oscar fazer uma caricatura de malvadão, com um figurino `a La Matrix. E mais: ele é chamado de "O homem de preto", isso mesmo, Man in Black. Homenagem, será?
Idris Elba faz o tipo caladão, que em priscas eras, teria sido interpretado por Clint Eastwood. E como o filme está conectado com os tempos de politicamente correto, o vilarejo onde se encontram pessoas do bem que ajudam Jake e Roland é formado por idosos, mulheres, negros, latinos, orientais, índios.
Mas o que mais me incomodou mesmo foi a falta de ritmo do filme, principalmente na primeira parte. Na segunda parte, quando fica concentrada a pancadaria e tiros, até tem mais dinâmica.
Adoraria ter gostado mais do filme. Dá para assistir como passatempo. Mas a promessa de uma continuação, infelizmente, vai depender muito se o roteiro for bem melhor.
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