terça-feira, 5 de janeiro de 2016
A aventura
"L'a avventura", de Michelangelo Antonioni (1960)
Ao som hipnotizante de Giovanni Fusco, os créditos iniciais de "A aventura" darão o tom do filme que vamos ver. Primeiro filme de uma trilogia sobre o vazio existencial e a incomunicabilidade, que logo depois seria copiado por cineastas do mundo inteiro ( no Brasil, por Walter Hugo Khouri, e até no Japão, com a nova onda do Cinema japonês), 'A aventura" foi sucedido por "A noite" e "O eclipse", todos protagonizados pela esposa de Antonioni na época, Monica Vitti. Fotografado em um exuberante preto e branco de Aldo Scavarda, pode-se dizer que 90% da força do filme se resume a suas imagens extremamente cinematográficas e acachapantes. Impossível não ficar deslumbrado com os enquadramentos ( boa parte em planos gerais), as locações, a luz e a marcação dos atores em cena. A chave do sucesso é o trabalho com profundidade: quase sempre alguém em 1o plano, e uma outra ação ao fundo. é um deslumbre.
Monica Vitti e Lea Massari, cada uma com a sua beleza exótica, contribuem também para o hipnotismo que mantém nossos olhos vidrados na tela. E vale dizer que Monica Vitti tem uma fotogenia incrível, é uma grande Diva por quem a câmera fica completamente apaixonada.
A história é curiosa: Anna, uma jovem rica, namorada de Sandro (Gabriele Ferzetti), se junta a um grupo de amigos para passarem os últimos dias de verão juntos. eles viajam de iate até as ilhas vulcânicas sitiadas no Mar Tirreno, no Norte da Sicília. entre os amigos, está Claudia ( Monica Vitti). Anna cobra uma posição mais séria do relacionamento com Sandro, que sempre se esquiva. Quando resolvem retornar, Claudia dá por falta de Anna. Todos ficam procurando por ela, mas ela desapareceu. Um pescador local diz que é comum turistas caírem do penhasco e morrererm. Pode ser que ela tenha se suicidado. Após intensa busca, todos retornam. Sandro , estranhamente, começa a seduzir Claudia, que evita o assédio. Os dias passam, o assédio continua, e Claudia acaba cedendo. Começa então a grande aventura existencial de Sandro e Claudia.
O filme venceu inúmeros prêmios, incluindo o Grande prêmio do Juri em Cannes. Para a época do filme, 19760, foi uma verdadeira revolução essa nova linguagem narrativa, onde o tempo assume uma realidade em panos longos e contemplativos, além de reflexivos. É uma investigaçao da alma e do pensamento dos personagens. Scorsese ficou tão impressionado que diz que o filme libertou o Cinema.
É curioso comparar esse filme com "La dolce vita", de Fellini. ambos trabalham com o mesmo universo: os ricos, as celebridades, as grandes festas, a luxúria. Mas o vazio , o tédio, esse pertence a Antonioni. Fellini vai pelo caminho do deboche, da farsa. 'A aventura "é repleto de cenas antológicas, e uma forte, que traduz a tensão sexual que perpassa o filme todo, é quando Claudia está sozinha do lado de fora da Delegacia e é quase devorada pelos olhos dos homens. Outra cena semelhante é a de uma prostituta de luxo sendo tratada como verdadeira celebridade pelos homens da cidade.
É um filme longo, 143 minutos, e pode ser um tédio mortal para um espectador comum. É um grande desafio sem dúvida, mas recompensador para quem busca Cinema com C maiúsculo.
Nota: 8
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
O mundo do amanhã
"World of tomorrow', de Don Hertzfeldt (2015)
Premiadíssimo curta de animação, Vencendo inclusive o Grande prêmio do Juri de Sundance 2015. "O mundo do amanhã" é uma complexa fábula existencial, que fala sobre memória, vida e morte. Emily, uma menina de 3 anos, recebe a visita de sua clone de 3 gerações depois, ou seja, de quase 300 anos após o seu tempo. A clone explica para Emily como será o futuro: os ricos poderão fazer clones de si mesmo, bastando dar um upload de suas memórias pro clone seguinte. Os que não podem pagar, guardarão suas memórias em uma caixa. A clone explica como será a vida no futuro, uma vida solitária onde as pessoas não compartilham experiências. Ela se apaixonará por uma pedra, um galão de combustível, etc, até que a humanidade descobrirá que um meteoro acabará com a vida na Terra.
Um roteiro surreal, bizarro, mas igualmente filosofico, que dentro de sua mensagem futurista, embute um libelo sobre aproveitar a vida da melhor forma possível, sem futilidades. Os traços da animação são muito simples, porém o colorido e as vozes de Emily e da clone apaixonam qualquer espectador. É um filme genial, inteligente, que deixará voc6e pensativo por um bom tempo depois de ver o filme.
Nota: 9
Que Viva Eisenstein! - 10 Dias que Abalaram o México
"Eisenstein in Guanajuato", de Peter Greenaway (2015)
Ousada cinebiografia do cineasta russo Sergei Eisenstein durante a sua estada em Guanajuato, México, para filmar o seu longa "Que viva Mexico!", em 1931. O sempre polêmico cineasta inglês, que tanto fez a minha cabeça cinéfila com clássicos como "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante", "Zoo", Afogando em números" e "O bebê santo de Macon", parece que continua filmando como se ainda estivesse nos anos 90. Nada nele se renovou. Greenaway está ali, com toda a sua linguagem usada ad nauseum em todos os seus filmes: longos travellings laterais, planos simétricos, nudez masculina, obsessão por enumeração, e claro, temas como sexo e morte emoldurando cada fotograma. Com tudo isso, fiquei com uma sensação de deja vu gigantesca. Era como se eu imaginasse cada passo que viria a seguir. Pior do que isso: a visão chanchadesca que Greenaway dá a esse episódio na vida de Eisenstein. Pelo ponto de vista do filme, me parece muito difícil que essa figura louca, sem limites, extravagante, bizarro e clownesca seja o autor de obras primas do cinema como "O encouraçado Potenkin".
O cineasta foi convidado por um grupo de intelectuais americanos favoráveis aos ideais comunistas para filmar no México, uma vez que ele foi banido de Hollywood. Chegando lá, Eisenstein descobre a sua porção homossexual, mantendo relações sexuais com o seu guia mexicano, Palomino. Pelos dados do filme, ele filmou 402 kilometros de negativo, estourando orçamento, até ser praticamente expulso do México, por falta de investimentos.
Greenaway usa uma linguagem visual cansativa e muito fora de moda, como dividir a tela em 3, colocar fotos das personalidades a medida que elas vão sendo citadas, etc. Fora isso, ele abusa de travellings circulares extremamente enjoativos. Infelizmente, tenho que dizer que fiquei no meio do caminho desse filme. Saí frustrado. esperava uma grande homenagem ao cineasta e mais, que Greenaway aproveitasse e apontasse a sua câmera para as filmagens do longa que ele fez no Mexico. Mas não, 80% do filme é sobre a relação entre Eisenstein e Palomino. Uma obsessão totalmente filmada sem tesão.
A fotografia também não me agradou, parece que usaram uma câmera não profissional, tem momentos, que parece vídeo.
Nota: 5
À espera de turistas
"Am Ende kommen Touristen", de Robert Thalheim (2007)
Bom drama alemão que procura exorcizar o fantasma da culpa do povo alemão sobre o genocídio em Auschwitz, através do olhar da nova geração de alemães. Nos dias atuais, Sven, um jovem alemão de 19 anos, precisa decidir se vai se alistar no exército ou se faz trabalho voluntário. Optando pela segunda opção, ele é enviado como assistente social para o Museu de Auschwitz. Entre várias missões, a principal de Sven é tomar conta do sobrevivente polonês Krzeminski, um idoso mau humorado que restaura malas dos mortos no Holocausto e faz palestras para jovens alemães que visitam o Museu. No entanto, Sven é maltratado pelos poloneses, e ao mesmo tempo, vai descobrindo mais sobre a culpa dos alemães em relação aos campos de concentração.
O roteiro complexo é tratado com dignidade, e evita a todo o custo caminhar para o melodrama. A relação entre Sven e Krzeminski é conduzida de forma fria, sem estereótipos, o que promove ao filme um tom mais cruel das relações entre 2 povos ond euma hora um foi prisioneiro ( Krzeminski quando encarcerado em Auschwitz) e Sven, agora "prisioneiro" dos caprichos do Sr Krzeminski.
Ótimos atores, boa direção e melhor, a gente conhece os ambientes do Museu de Auschwtiz e arredores. A imagem das malas dos judeus mortos no campo, alojados atrás de uma vitrine como se fossem expostos para venda, é muito forte.
O filme foi exibido em Cannes dentro da Mostra "Un certain regard".
Nota: 7
domingo, 3 de janeiro de 2016
Ensina-me a viver
"Harold and Maude", de Hal Ashby (1971)
Lançado em 1971, o filme escrito por Colin Higgins foi destruído pela crítica e esnobado pelo público. Somente mais d euma década depois ele foi redescoberto e alçado à categoria de filme cult, inclusive em 1997 foi escolhido para preservação no National Film Registry por ter sido considerado um filme culturalmente relevante.
Exibido no auge da Guerra do Vietnã, "Harold and Maude" é um libelo contra todas as guerras, sejam elas domésticas, familiares ou sociais. Harold, um jovem de 18 anos, é órfão de pai. A sua mãe tenta a todo custo arranjar uma namorada para ele, mas ele rejeita todas. Harold consulta terapeuta, padre, seu tio militar, mas ninguém consegue lhe dar um rumo, ou melhor, ninguém consegue lhe oferecer o que ele mais deseja: amor. Por conta disso, e para chamar atenção, ele simula vários suicídios. Harold também é fascinado por frequentar funerais. Em uma de suas visitas, ele conhece Maude, uma senhora espevitada e divertida que está para completar 80 anos. Eles se tornam amigos e Maude consegue lhe trazer tudo o que ele queria: atenção, amor e mais do que tudo, alguém por quem ele se preocupe de verdade.
Os diálogos são primorosos e espirituosos. Ruth Gordon, que havia recebido um Oscar de coadjuvante por "O bebê de Rosemary", está brilhante. Bud Cort, ator de vários filmes de Robert Altman, entre eles, "Voar é com os pássaros", nasceu para o papel. Impressionante a atuação dos 2, que comovem o espectador alternando momentos de melancolia, alegria e drama. O filme critica a Guerra ( tem um plano sensacional que faz referência a "E o vento levou", faz alusão ao movimento Hippie e ainda critica o papel do negro na sociedade, ao relegá-lo ao único papel de um motorista de um militar. O filme atira para todos os lados, e reserva alguns dos momentos mais brilhantes e sensíveis do cinema.
Trilha sonora de Cat Stevens, é um programa obrigatório para todos que acham que a vida não vale a pena, e claro, que querem ver atuações estupendas de um elenco em estado de graça.
A peça teatral baseada no filme até hoje faz sucesso no mundo inteiro.
Nota: 10
Relacionamento à francesa
"Papa ou maman", de Martin Bourboulon (2015)
Estreando na direção de longa, o Cineasta Martin Bourboulon demonstra muito mais inteligência e criatividade que muito cineasta veterano. Essa comédia levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas franceses , e merecidamente. É divertida justamente porque o roteiro aposta no politicamente incorreto. Os filmes de hoje em dia ficaram caretas por conta da pressão de boa parte da sociedade que critica qualquer elemento fora do tom: racismo, feminismo, etc. "Relacionamento à francesa" não tem medo de chocar pelo bizarro. Ele investe naquele tipo de humor cáustico das grandes comédias americanas dos anos 80, onde as Gags e as situações insanas levavam o espectador a loucura. Florence e Vincent são um casal que se apaixonou ainda estudantes no ano 2000 ( um plano sequência maravilhoso ao som de " Modern love", de David Bowie). Passam- se 15 anos e eles estão casados e com 3 filhos. No entanto, o tempo não fez bem para os dois: eles anunciam a um casal de amigos que irão se divorciar. Tanto o marido e a esposa querem colocar a profissão em primeiro lugar, daí que nenhum deles quer a guarda dos filhos. E a partir daí rolam momentos de puro nonsense dos dois tentando se livrar dos filhos de qualquer jeito.
Excelente atuação dos atores protagonistas e muito boa edição e edição de som. Os atores aliás são o principal trunfo do filme. Eles levam a sério toda a loucura dos seus personagens. O diretor realiza um filme comercial de grande competência, um sessão da tarde de qualidade porém que deixarão os filhos com um pé atrás.
Nota:8
Queda livre
"Szabadesés", de György Pálfi (2014)
O cineasta húngaro György Pálfi é um grande apreciador do cinema bizarro e fantástico. Em 2006 ele realizou "Taxidermia", um dos filmes mais loucos que já assisti. Agora com "Queda livre", ele faz o filme que está na cabeça doentia dele. O filme é uma antologia de 7 histórias, todos interligados pela história de uma idosa desgostosa com a vida que resolve se jogar do alto de um prédio de 7 andares. Na queda, ela não morre, e resolve se jogar de novo. Porém, o elevador está quebrado, e aí ela precisa subir os 7 andares a pé. A cada andar que ela sobe, somos apresentados a uma história do morador daquele andar. Não existe uma unidade estiilística. Cada episódio tem a sua cor, o seu nível de bizarrice. Uns mais realistas, outros mais lúdicos, mas todos muito insanos. Humor negro pra dar e vender.
1o andar) Um guru de meditação faz o seu grupo de alunos acreditar que com a força da mente é possível atravessar uma parede
2o andar) Em uma festa de cantores líricos, a anfitriã recebe os convidados totalmente nua, porém os convidados não se incomodam com esse fato
3o andar) Um casal com fobia de germes faz sexo envoltos em papel filme
4o andar) em formato sitcom com direito a claque de risos, uma mulher divide o seu amor cm 2 homens, que tentam se matar de todas as formas
5o andar) Uma mulher faz um procedimento cirúrgico inusitado: ela insere o seu bebê de volta para o seu útero
6o andar) Uma criança que sofre bullying de seus pais fantasia um boi assustador que é alimentado pelo seu medo
7o andar) é o suicídio da idosa
Lendo essas pequenas sinopses, o espectador fica imaginando que tipo de mente doentia seria capaz de elaborar tais situações. Pois é, essa pessoa é esse cineasta interessantísimo, mas igualmente irregular na realização. As idéias podem ser bem criativas, mas uma pena que nem todos os episódios tenham a excelência do 3o andar, que é a do casal safe sex. Esse é uma pequena obra-prima, que merecia um curta à parte.
Ponto para o elenco como um todo, por se comprometerem a participar de um filme que coloca o talento deles à toda prova: é tudo, ou nada, e o que vale, é o risco.
Nota: 6
Gueros
"Gueros", de Alonso Ruizpalacios (2014)
Dirigido e escrito pelo mexicano Alonso Ruizpalacios, "Gueros" é um filme independente que venceu vários prêmios internacionais, entre eles no Festival de Berlin 2014, de onde saiu com o prêmio de melhor filme de cineasta estreante. Rodado em preto e branco, é um drama sobre a juventude, totalmente rodado em preto e branco. é um filme de Cineasta cinéfilo, que busca referência no cinema existencialista e estilizado de Jim Jarmusch e no trabalho sonoro de Lucrecia Martel para fazer a sua leitura sobre os conflitos da juventude que quer crescer mas não encontra respaldo na sociedade. O mundo proposto pelo cineasta Alonso Ruizpalacios é cinza, sem futuro, sem amor, e o que resta de esperança e paixão precisa ser revirado da tumba para poder florescer de novo.
Desencantado, triste, esse mundo onde até os sonhos não se realizam, vivem os irmãos Tomas e Fede. Tomaz , pela sua rebeldia, é enviado por sua mãe para ir morar com o irmão mais velho, Fede, estudante universitário. Fede divide o apartamento com um amigo, Santos. A faculdade está em greve, e os amigos resolvem fazer a greve da greve: simplesmente não saem de casa. Cabe a Tomaz estimular os 2 a sairem de casa, mas com um pretexto lúdico: pegarem o carro e irem atrás de Epigmenio Cruz, um cantor da velha guarda do rock que encantou o pai falecido dos irmãos, e que descobrem, está a beira da morte. A esse grupo se unta Ana, uma estudante revolucionária que luta por um mundo mais justo. Nesse road movie, os jovens vão em busca de um ideal e mais do que isso, um motivo para a sua existência.
Gueros é um termo mexicano que quer dizer "Loiro". Como os personagens do filme são todos morenos, podemos entender que são os excluídos.
O filme trabalha com o elemento lúdico em vários momentos, trazendo referências também ao cinema de Bunuel. Isso porquê o cineasta Ruizpalacios quer que o espectador tenha as mesmas impressões sensoriais dos personagens: muitas vezes o som emudece, a câmera fica lenta. e elementos estranhos surgem, como penas que voam no ar, do nada. é um filme estranho, às vezes primoroso, às vezes entediante, às vezes juvenil demais. E no final é isso mesmo. Um primeiro filme cheio de atitude, cheio de vontade de querer falar muita coisa. Tem material para mais de um filme.
É um digno representante do gênero "Filme de Festival".
Nota: 7
sábado, 2 de janeiro de 2016
Spotlight- Segredos revelados
"Spotlight", de Tom McCarthy (2015)
Baseado em fatos reais, "Spotlight" é ambientado no ano de 2001, uma época onde o jornal impresso ainda tinha muita relevância. Uma divisão de jornalistas de elite do jornal "The Boston Globe" sao chamados "Spotlight". O grupo é formado por 4 jornalistas que investigam e publicam conteúdo explosivo, podendo levar anos fazendo uma mate'ria. Durante a troca de editor chefe, o novo empossado, o judeu Marty Baron (Liev Schreiber), sugere que o grupo faça uma matéria investigando o abuso sexual de padres contra menores em Boston. O grupo Spotlight de início fica arredio, pois sabem que irão mexer com os valores da Igreja católica e que o Cardeal está encobrindo os padres e mandando eles para outras igrejas. Mas a ética jornalística os fazem agarrar o tema com unhas e dentes, lutando contra a Igreja e o sistema judiciário, que atrapalham as investigações. Em 2003, o jornal recebeu o Prêmio Pullitzer de melhor matéria jornalística.
O que dizer de um filme com um tema tão forte como a pedofilia dentro da Igreja católica, protagonizada por um verdadeiro time de feras? Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci e principalmente Mark Ruffalo, comovente como o jornalista Mike Resendes? É um show de interpretaçao. O roteiro é bem didático, traçando item pot item sobre os caminhos da investigação. O que me incomodou de certa forma foi como com tantos elementos de sucesso, o filme ficou tão burocrático. Do início ao fim, faltou aquele frisson, aquela torcida, aquele suspense que faz com que o espectador pense: "caramba, não vai dar certo". Talvez a opção do cineasta Tom McCarthy tenha sido essa mesma, mostrar a frieza da corporação jornalística. Afinal, "Spotlight" ganhou vários prêmios de Melhor filme dado pelos críticos. Provavelmente eu estava esperando um outro tipo de filme. de qualquer forma, fiquei satisfeito só de er visto tantas boas atuações, incluindo do elenco de apoio.
Nota: 7
Sasha
"Sasha", de Dennis Todorovic (2010)
Drama co-produzido pela Amanha e Yuguslávia sobre a saída do armário de um jovem adolescente. Sasha é filho de um casal Yuguslavo que mora em Colônia, na Alemanha. Ele tem um irmão mais velho e um tio e todos moram juntos em uma casa que também funciona como pub. Sasha estuda piano imposto pela sua mãe, que deseja que o filho se torne algo que ela mesmo não conseguiu. Seu pai é bronco e homofóbico. A chinesa Jiao, estudante de violino, é apaixonada por Sasha. Mas ele tem um segredo: é apaixonado pelo seu professor de piano.
Essa sinopse é comum a quase todos os dramas sobre adolescentes gays que resolvem sair do armário. A melhor amiga apaixonada, pai homofóbico, conflitos da adolescência. O que difere essa produção é que ela tem um segundo tema: o filme quer falar também sobre o problema da imigração na Europa. Famílias Yuguslavas que moram na Alemanha e precisam se habituar aos costumes liberais da cultura alemã. e tudo isso embalado por uma boa direção, que aposta em enquadramentos criativos e uma fotografia artística que trabalha bastante com focos em primeiro e segundo plano. Para um filme sem grandes ambições, esse componente visual é até arrojado.
Outra boa conquista do filme é o bom trabalho de todo o elenco, em especial os atores que interpretam os pais de Sasha, excelentes. O jovem ator Sasa Kekez tem carisma o suficiente para fazer o espectador assistir ao filme, mesmo que no final ele desande por um molodrama forçado. A entrada do elemento do humor também não é orgânico, distoando do tom do filme, principalmente o personagem do tio. A família Yuguslava tem aquele olhar bufônico típico dos filmes de Kusturika, inclusive a trilha sonora colabora para dar esse clima.
Nota: 7
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Os oito odiados
"The hateful eight", de Quentin Tarantino (2015)
A escritora inglesa Agatha Christie encontrou o cineasta que melhor conseguiu transpôr uma obra sua para o Cinema. Esse alardeado e excepcional 8o filme de Tarantino é isso: um Hercule Poirot ambientado na época dos Estados Unidos da Secessão americana, da divisão Sul e Norte, brancos e negros. Uma época onde negros e mulheres não tinham voz, e mexicanos eram apenas os bandidos. As 3 horas de duração desse grande Teatro em 2 atos ( dentro da cocheira e dentro da estalagem) afirmam o que todo cinéfilo já sabia: Que Tarantino é um excelente diretor de atores e de construção de personagens. E que diálogos primorosos: A gente fica entre altas gargalhadas nervosas a momentos verdadeiramente tensos. E isso tudo confinado a lugares fechados. Quem manda no filme são os personagens, e por sua, vez, os atores sensacionais que Tarantino escalou : Samuel L Jackson, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Bruce Dern, Michael Madsen, Walton Goggins, Demián Bichir, Kurt Russel e James Parks brincam de mocinho e bandido numa trama onde ninguém é o que aparenta ser. A história gira em torno de
Daisy Domergue (Leigh). Ela é uma bandida levada para ser enforcada por um caçador de recompensas, Joe ( Russel). No caminho, ele dá carina para 2 estranhos: Major Warren (Samuel L. Jackson) e O Sherife Chris (Walton Goggins). Pegos por uma nevasca, eles são obrigados a ficar em uma estalagem, onde outros homens se encontram presentes. Começa uma brincadeira de gato e rato para descobrir a verdadeira identidade de cada uma das pessoas ali presentes.
Não dá para contar muita coisa pois corre-se o risco de contar spoilers. O que posso dizer é que a fotografia e a tela panorâmica do filme são fodas, a trilha de Morricone é bacana e que a edição do filme é muito genial. Mas atenção: é um filme extremamente verborrágico, porém diálogos inteligentes e ácidos, uma metralhadora giratória que atira para os negros, as mulheres e os hispânicos. O roteiro bem construído, vai trazendo novas informações a cenas que foram exibidas anteriormente. Vai ter muita gente odiando a construção teatral do filme. ë como se fosse uma peça de teatro de Agatha Christie encenada num palco de cinema. Tem que se prestar atenção a todos, mas todos os detalhes. Tarantino brinca com ícones pop do cinema, entre eles, Doris Day no filme "Ardida como pimenta", através de uma das personagens. Um grande filme em todos os aspectos, e torço para que as pessoas curtam o filme pela sua sagacidade e inteligência, e não o esnobem pela sua teatralidade. Pelo menos sangue e gosmas, o filme vai ter de montão, para quem espera por isso. Para detratores que queiram encontrar misoginia e racismo no filme, vão ter o que discutir nos bares.
Nota: 10
Cavaleiro de copas
"Knight of cups", de Terrence Malick (2015)
Exibido em Berlin, "Cavaleiro de copas" parece fazer parte de uma trilogia composta por " A árvore da vida" e " Amor pleno". Digo isso porque desde sua Palma de Ouro em Cannes, ele vem se repetindo na forma e conteúdo. Lentes grandes angulares, câmera na mão, conteúdo existencialista e metafísico, espiritualismo, belíssimas locações registradas no quadro mais aberto que puder, música clássica, personagens em constante movimento e sem rumo, quase inexistência de diálogos, a busca pelo sentido da vida, narração em off do protagonista masculino. Aqui existe um dado a mais: o vazio do Universo cinematográfico, os excessos e as festas intermináveis com gente bonita e muito glamour e luxúria. Malick faz a sua homenagem a " A grande beleza", de Sorrentino, que por sua vez ja homenageava Fellini de " La dolce Vita". Troquemos Roma por Los Angeles e Marcello Mastroiani por Christian Bale no papel de um roteirista rico e famoso, mas em crise existencial. Assim como " 8 1/2" também de Fellini, o personagem de Bale desfila por mulheres que passaram pela sua vida: Natalie Portman, Cate Blanchett, Teresa Wright, Imoge Poots e Freida Pinto. O filme é um desfilar de imagens belíssimas registradas pelo Mago Emmanuel Lubezki, que fotografa paisagens como ninguém. Los Angeles e Las Vegas pelas suas lentes parecem um sonho. Mas é um filme vazio, muito vazio. O que ficou no final das contas? Uma vontade terrivel de conhecer Los Angeles e ter dinheiro para frequentar tantos lugares sensacionais. Claro, acompanhado por Christian Bale para bater altos papos, porque aqui ele só filosofou.
Malick , curiosamente, tomou gosto para filmar pois até a pouco tempo ele levava anos para fazer um filme e agora quase todo ano ele tá filmando um.
O título se refere a uma das cartas do fator: valete de copas é o apaixonado, romântico. O filme é dividido por títulos dos arcanos do Tarot como Morte, Lua, enforcado, etc.
Nota: 6
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
O diário de uma garota normal
"The diary of a teenage girl", de Marielle Heller (2015)
Produção independente, exibida em Sundance 2015, e baseada na Graphic Novel de Phoebe Gloeckner. A atriz e cineasta Marielle Heller comprou os direitos da obra e atuou como atriz no teatro, mas não ficou satisfeita enquanto não filmasse a obra. O filme narrar em tom de humor e drama a história de Minnie ( a atriz inglesa Bel Powley, na época com 23 anos), uma adolescente de 15 anos que um belo dia, descobre que está sexualmente pronta para fazer sexo. O seu alvo é o namorado de sua mãe Charlotte ( Kristen Wiig). O namorado, Monroe ( Alexander Skarsgård, de "True Blood) também está a fim de transar com a menina. Além dessa relação, Minnie experimenta drogas, sexo com os colegas da escola e todos os tipos de loucura que São Francisco dos anos 70 permitir.
Eu amo filmes independentes americanos quando têm aquele look cinematográfico que usa e abusa dos "flares" na fotografia. Além disso, a trilha sonora é super cool. Nao conheço a graphic novel, mas não fiquei tão empolgado assim com a história, achei lugar comum. Mas o que me incomodou mesmo foi a atriz Bel Powley. Ela é ótima, mas como personagem, ela me parece muito mais velha do que Minnie necessitaria aparentar. Me lembrei de imediato aquele filme de suspense, "A Órfã", quando uma adulta precisa aparentar bem menos idade do que ela tem. E a franjinha não ajudou em nada.
De qualquer forma, é um filme gostoso de ver, mas que perde força lá pelo terço final, quando um tom mais moralista permeia o filme. As animações são bacanas e contribuem para tornar o filme mais charmoso.
Nota: 7
Joy: o Nome do Sucesso
"Joy", de David O. Russell (2015)
Diretor de "Trapaça" e "O lado bom da vida", há quem veja em David O. Russell um Cineasta superestimado. Boa parte de seus filmes concorrem aos prêmios principais do Oscar, e com "Joy" não deverá ser diferente. Goste-se ou não do seu estilo narrativo, 2 coisas não podem falar mal dele: a sua Direção de Atores, e a qualidade técnica dos filmes. É incrível a sua capacidade de trazer um equilíbrio com os atores de seus filmes. Ele somente trabalha com estrelas. Aqui em "Joy", temos Jennifer Lawrence, sua musa, Bradley Cooper, o seu muso, Robert de Niro, Diane Ladd, Isabella Rosselini e Virginia Madsen, irreconhecível para quem a assistiu no terror dos anos 90 "The candyman".
"Joy"faz parte daquele tipo de filme que americano adora: são os filmes do "faça sucesso por sua própria conta e nos conte a sua história", que já rendeu os ótimos "À procura da felicidade" e "Na roda da fortuna", dos irmãos Coen, sobre o inventor do bambolê.
"Joy", ambientado nos anos 90, conta a história de Joy, uma mulher de família desestruturada, que luta para sobreviver. Um dia, ela desenha o que viria a ser o famoso esfregão que vendeu milhares de peças nos Estados Unidos e a fez ficar milionária. Mas até que isso acontecesse, ela teve que lutar contra a sua própria família que cobrava dívidas por empréstimo, direitos de patente e a falta de visibilidade.
Em alguns momentos, o filme até parece aqueles filmes italianos dos anos 70, ao mostrar uma família totalmente bizarra. Existem até mesmo cenas oniricas que podiam remeter a um sonho Felliniano. Jennifer Lawrence parece ser jovem no papel de Joy, mas como é a maior estrela de Hollywood hoje em dia, as pessoas ignoram o fato. De Niro brinca com o seu personagem, Isabella Rosselini se diverte e Bradley Cooper cumpre o seu papel em uma participação especial. Mas quem rouba o filme são duas atrizes fantásticas: Virginia Madsen e Diane Ladd, que conferem humor e dramaticidade aos seus papéis. O roteiro em si é previsível, mas um filme baseado em uma história real de alguém de muito sucesso não poderia ser diferente.
Ótima trilha sonora e fotografia.
Nota: 7
Amigas para sempre
"Beaches", de Garry Marshal (1988)
Essa comédia dramática é um clássico absoluto da sessão da tarde e filme preferido de 9 entre 10 quarentões que curtem chorar no cinema. Dirigido pelo mesmo Cineasta de "Uma linda mulher", "Amigas para sempre'é um veículo perfeito para o talento de Bette Midler: excelente cantora, comediante e atriz dramática, ela tem a grande chance de mostrar toda a sua verve nesse emocionante filme que não tem o mínimo pudor e vergonha de arrancar la grimas do espectador e provocar vários golpes baixos. A história é simples: 2 meninas se conhecem numa praia em Atlantic City: a maluquete CeCe ( que vem a se tornar Bette Midler), uma menina que sonha em ser estrela da Broadway, e Hillary ( futuramente Barbara Hershey), uma menina rica porém de pais ausentes. As duas mantém amizade através de cartas, até qe, crescidas, Hillary vem morar com Cece, cansada da vida entediante que leva. Juntas, elas dividem amor, ódio e intriga entre elas, mas sempre amparadas pela amizade que uma nutre pela outra.
O filme é previsível, mas os diálogos e o talento das duas atrizes, em especial Bette Midler, e idem as meninas que as interpretam, fazem o espectador grudar os olhos na tela. O filme é cheio de momentos divertidíssimos, todos protagonizados por Midler, uma primorosa comediante que tem um timing perfeito. Para os atores qe buscam referência de comédia, assistir a performance de Midler é uma Master Class.
A música tema, "Wing beneath my wings" se tornou clássica.
Nota: 9
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
A terra e a sombra
"La tierra y la sombra", de César Augusto Acevedo (2015)
Premiado com a "Camera D'or" no Festival de Cannes 2015, concedido a diretores de filmes estreantes, o colombiano me lembrou bastante o filme bósnio "Um episódio na vida de um catador de lixo", que venceu em Berlin o Prêmio do Juri e de melhor ator. Ambos os filmes buscam o olhar documental sobe a vida real de personagens vividos por pessoas comuns e não atores. No caso de "A terra e a sombra", acompanhamos o drama de uma família de cortadores de cena que precisa lidar com a eminente morte do filho, doente por conta das constantes queimadas da plantação da cana e que prejudicaram os seus pulmões. O patriarca volta ao local 12 anos depois de ter abandonado tudo. Descobrimos depois que a sua fuga foi porquê ele não suportava ver a região, que outrora era de laranjais, ser transformada em plantação de cana. O filme discute a questão da memória e o que vai sendo apagado. Além disso, o filme reserva um espaço para discussão social, através da história dos cortadores de cana que estão sem receber pagamento e resolvem fazer greve.
Tendo em sua boa parte não atores, o cineasta convocou a preparadora brasileira Fatima Toledo, que é especialista em não-atores, para trabalhar o emocional deles. É um filme bonito, rigorosamente formal em termos de enquadramento. A narrativa é lenta, fria, e para os não cinéfilos é uma experiência cansativa.
Para quem busca um filme que reserva espaço para um olhar documental para o terceiro mundo, desprovido de conforto, é uma boa pedida. Um filme triste e de perspectiva cruel.
Nota: 7
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Para o outro lado
"Kishibe no tabi", de Kiyoshi Kurosawa (2015)
Vencedor do Prêmio de Melhor Direção na Mostra "Um certo olhar" do Festival de Cannes 2015, "Para o outro lado" é um drama que pode ser visto pelo olhar do espiritualismo. Uma mulher, Mizuki, porfessora de piano, passa seus dias infeliz e sem gosto para a vida. Seu marido, Yusuke, desapareceu a 3 anos, dado como morto ao sumir no mar. Um dia, ao preparar uma comida, seu marido surge do nada. Ele age como se nada tivesse acontecido, e passa a querer conviver normalmente com Mizuki. Ela entende que ele está morto e que está convivendo com o espírito do marido, mas ela toma proveito da situação para poder colocar em dia as questões que ficaram conflitadas em sua vida. Yusuke leva Mizuki para conhecer outras pessoas que estão na mesma situação que a dele, e que tenham a chance de reconstruir as suas vidas desoladas após a perda do ente querido.
Drama intimista, longo ( 127 minutos) e com ritmo extremamente lento. o filme de Kiyoshi Kurosawa se baseia numa boa premissa de que podemos repensar as nossas vidas e dar chance para que ela tome um rumo novo e se coloque no eixo. Através da metáfora dos mortos que voltam à vida para ajudar os que amam, o filme emociona sem sentimentalismo, se uilizando de bela fotografia e efeitos bem discretos. É um filme difícil de acompanhar pela sua frieza e monotonia. Mas os atores são ótimos e pela beleza plástica vale acompanhar.
Curioso que o cineasta Kiyoshi Kurosawa tenha começado a sua carreira fazendo filmes de terror e agora resolveu investir em dramas com contexto sobrenatural, e somente aí ele passou a ser reconhecido pela crítica.
Nota: 7
domingo, 27 de dezembro de 2015
Umberto D
"Umberto D", de Vittorio de Sica (1952)
Um dos grandes clássicos do Cinema neo-realista italiano, "Umberto D", de 1952, concorreu ao Oscar de melhor roteiro. O filme narra a história de Umberto Domenico (Carlo Battisti), funcionário público aposentado que está com dívidas porquê sua aposentadoria não consegue saldar as suas contas. Ameaçado de despejo, Umberto tem como único alento o seu cachorro inseparável, Flicke, e a empregada da pensão aonde mora, Maria, que está grávida e com medo que sua patroa a mande embora.
O filme trabalha os temas da figura do homem comum marginalizado pela sociedade. Umberto é um homem muito orgulhoso, e por conta disso, não consegue se fazer ouvir perante a sua tragédia. é um lindo filme que trabalha com metáforas sobre um mundo em constante desagravo, conduzido por um individualismo que apaga o humanismo que ainda resta no coração de algumas pessoas boas, que sucumbem perante a necessidade de sobreviver.
Cenas antológicas e comoventes, que fazem o espectador apertar o coração.
No filme, de Sica trabalha com vários não-atores, entre eles o protagonista Carlo Battisti, que é um funcionário público de verdade,.
Nota: 9
Creed- Nascido para lutar
"Creed", de Ryan Coogler (2015)
Quem iria imaginar que um filme da saga "Rocky" iria fazer os marmanjos todos chorarem? E não somente uma vez, mas várias vezes ao longo do filme a narrativa provoca aquela sensação de dor no coração. Muito desse sentimentalismo está mesclado à sensação de nostalgia e da inevitável realidade de que o tempo avança para todos, até mesmo para Stallone. Rocky envelheceu, e junto dele, o seu público. Por isso é impossível não se emocionar. Nesse mesmo ano, na saga de "O exterminador de futuro", o roteiro também trabalhava com a questão do envelhecimento do personagem de Schwarzenegger, e consequentemente, do seu ator.
Um dos grandes acertos da produção de "Creed"foi ter convocado a dupla do excelente drama independente "Fruitvalley Station": O cineasta Ryan Coogler e o ator Michael B Jordan. Jordan tem aquela vitalidade e o frescor do outrora jovem Denzel Washington quando estava começando a carreira. Muito talentoso, não tenho dúvidas da grandiosidade que será sua carreira. O Cineasta Ryan Coogler também imprime a um roteiro, que ele mesmo escreveu, com muita garra e destreza. O filme possui adrenalina e sentimentalismo dosados para todos os públicos. Não esperem nenhuma ousadia na história: a gente sabe tudo, tudinho o que vai acontecer, do inicio ao fim. Talvez, a exceção seja o personagem de Rocky Balboa e o seu destino. Mas quanto ao tema da redenção, está lá intacto: esse foi o grande fator do sucesso de toda a saga de Rocky: transmitir ao espectador o lema da motivação, e que somente com muita garra e sacrifício, alguém poderá alcançar o seu objetivo. Não há espectador que não se identifique com essa mensagem.
O elenco todo está excelente, e Stallone prova que a idade só lhe faz bem: os seus olhares, o tempo de cena, é tudo muito bonito de se ver. Seu personagem é carisma puto.
O que me incomodou foi a longa duração do filme, 131 minutos.
Levem seus lenços e assistam com o coração na mão.
Nota: 8
Quatro luas
"Cuatro lunas", de Sergio Tovar Velarde (2014)
Dirigido e escrito pelo cineasta mexicano Sergio Tovar Velarde, esse drama premiado é composto de 4 histórias, cada uma representando uma fase da lua. Cada fase é protagonizada por um personagem gay de determinada idade, e todas as histórias giram em torno da aceitação sexual.
Na 1a história, um menino de 11 anos enrustido sente atração pelo seu primo, mas descobre que ele é homofóbico e acaba sofrendo bullying.
Na 2a história, 2 amigos heteros na faixa dos 20 anos se reencontram e se descobrem apaixonados em um momento de fraqueza emocional.
Na 3a história, um casal gay na faixa dos 35 anos tem uma crise conjugal quando uma das partes acusa o outro de ser afeminado e acaba se afastando dele.
Na 4a e última história, um professor enrustido de 60 anos se aposenta. Ele pega o dinheiro que iria dar para o presente de natal de seus netos e resolve pagar um garoto de programa na sauna gay que ele frequenta.
Como todo filme mexicano, aqui o melodrama dá as caras. Se não fosse o bom trabalho de todos os atores, o filme não teria metade da sua qualidade artística. eles conferem dignidade a personagens sofredores, que vez ou outra se pegam chorando.
Alternando momentos de drama com algum toque de humor, o filme emociona em várias cenas. Cada episódio reserva um momento clímax emotivo. Vez ou outra a narrativa dá uma resvalada para o puro novelão mexicano, mas esse tom "over" até diverte. Por contar tantas histórias, o filme acaba ficando longo. Poderia ter dado uma enxugada em cada episódio, mesmo porquê não são histórias tão extraordinárias assim e falam sobre momentos de crise dos personagens. No geral, é um filme que merece ser conferido, tanto pelo esmero da produção, quanto pela ousadia da direção, que não economizou em cenas de nudez frontal e de cenas de sexo.
Nota: 7
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