segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O cidadão do ano

"Kraftidioten", de Hans Petter Moland (2014) Tarantino e os Irmãos Coen fazem escola na Noruega. Assim é "O cidadão do ano", um drama de ação sensacional, dirigido por Hans Petter Moland. O filme concorreu em Berlin 2014, e tem uma atuação arrazadora de Stellan Skarsgård, no papel do limpador de neve Nils Dickman. Ele vive uma vida pacata com sua esposa e filho, que trabalha no aeroporto. Um dia, uma gangue de traficantes mata seu filho acusando-o de ter roubado drogas. A polícia encontra o corpo e diz que ele morreu de overdose. Nils não acredita na possibilidade de seu filho ser um viciado e resolve ir atrás dos assassinos, e acaba se envolvendo não só com uma gangue, mas com duas: a gangue da Noruega e uma gangue de sérvios, que disputam o mercado. Divertido, repleto de humor negro, mas ao mesmo tempo investindo no drama familiar, "O cidadão do ano" encontra na narrativa do faroeste a essência para contar a sua história. Uma trilha sonora à la Ennio Morricone, muitos tiros, mortes ( as lápide svirtuais é um grande achado do filme. Cada pessoa que morre, surge uma lapide como crédito). As cenas de ação são ótimas, a fotografia enaltecendo o branco da neve é belíssimo e os atores, todos tirados de algum quadrinho cult, merecem destaque pela bizarrice. Tem até um casal gay enrustido de gangsters, e um dos chefões vive discutindo a relação com a ex. Quem achava que os europeus da escandinávia não tinham senso de humor, se enganaram. Claro, à moda deles. Um belo filme, protagonizado por um excelente ator e que ri da cara de filmes de ação americanos, por ser mais consistente e mais artístico. Nota: 8

domingo, 30 de agosto de 2015

Terra estrangeira

"Terra estrangeira", de Walter Salles e Daniela Thomas (1995) 20 anos depois de sua realização ( o filme é de 1995), "Terra estrangeira'está mais atual e oportuno do que nunca. Os 20 anos se passaram, mas o sentimento de abandono continua o mesmo. Economicamente em recessão, desemprego em alta e condições desfavoráveis para qualquer tipo de investimento, o Brasil de 2015 está o mesmo de 1995. Ou até pior. A solução para muita gente? O aeroporto. Assim, Alex ( Fernanda Torres), Paco ( Fernando Alves Pinto) e Miguel ( Alexandre Borges) encontram uma possível saída para um futuro sem esperança aqui na Pátria amada. Destino? Europa. Mais precisamente, Portugal, Lisboa. Mas o que parecia ser uma possibilidade, acaba se reve;ando uma grande furada: contrabando, drogas, imigração a todo vapor, desemprego..ou seja, aqui como lá, a desgraça é a mesma. E nesse mundo sem esperança, Walter Salles e Daniela Thomas imprimem essa jornada da alma, esse road movie que fala sobre uma geração, no caso a do pós plano Collor, que não achou uma possibilidade de redenção. Amarga o fracasso, a desilusão. É um filme pessimista, sem dúvida alguma. Belo, lírico, com uma fotografia extraordinária em preto e branco de Walter Carvalho, uma trilha acachapante de José Miguel Wisnik e locações deslumbrantes em Portugal. Mesmo aqui na cidade de São Paulo, Walter Carvalho tira beleza da decadência do centro, do minhocão. Walter já ensaia portraits de populares, como depois faria em "Diário da motocicleta". E algumas referência a Kubrick, principalmente no final, a "O iluminado"e "O grande golpe". Um clássico do cinema nacional, obrigatório e que representa uma tentativa de dar voz à uma geração que quiz gritar e dizer ao mundo que existe. A cena final é uma obra-prima, Fernanda Torres cantando "Vapor barato" de Gal Costa. Fernando Alves Pinto, iniciando a sua vida profissional, exalando frescor e talento em um papel dificílimo, rodeado por um elenco de mega bambas, como Laura Cardoso, Luís Mello e Tchecky Karyo.

Descompensada

"Trainwreck", de Judd Apatow (2015) Judd Apatow foi uma espécie de John Hughes ( O papa do Cinema adolescente dos anos 80, que dirigiu "O clube dos cinco", Curtindo a vida adoidado" e " Gatinhas e gatões", entre outros) dos anos 2000. Ele dirigiu algumas das comédias mais divertidas da época, protagonizadas por loosers, como "Virgem aos 40", "Ligeiramente grávidos" e outros, ajudando a construir a carreira de atores como Seth Rogen e Steve Carrel. Porém de uns anos para cá parece que ele perdeu o trilho do trem, e em seu novo filme, ele dá o título em inglês de "Trainwreck", ou trem desgovernado, ou na gíria, alguém que saiu do controle. Seria incauto eu comparar o filme ao título, mesmo porquê é um filme no mínimo curioso. Escrito e protagonizado por Amy Schumer, uma nova estrela do humor americano, estrela de um seriado que tem o seu nome, aqui no Brasil talvez pudesse ser comparada a Tatá Werneck. Um tipo de humor mais sério, baseado em expressões faciais e menos pastelão. Amy não é uma atriz bonita, mas tem charme o suficiente para segurar a protagonista. Ela interpreta Amy ( que criativo), uma redatora de uma revista estilo Vanity Fair. A editora é uma megera, Dianna (Tilda Swinton, no melhor estilo Miranda de Meryl Streep em 'O diabo veste Prada"). Dianna pede para Amy fazer uma matéria com um médico ortopedista de atletas famosos, Aaron ( Bill Hader, ótimo). Ambos logo sentem um clima, mas tem um porém: Amy não acredita em amor, e sim, na poligamia. Ela odeia romantismo e desce criança seu pai colocou esse pensamento na mente dela e de sua irmã. Amy precisa lutar contra o seu pensamento sobre a vida e relacionamentos. O filme tinha tudo para ser pelo menos um bom passatempo. Mas quais são os seus problemas? 1) A sua duração. Impensável uma comédia ter mais de 2 horas de duração. Não tem história para isso. Apesar de ter muitos personagens, metade deles poderiam ter sido dispensados. São histórias paralelas demais. O filme acaba se sacrificando em ritmo e narrativa. Ficou chato. 2) O filme tem uma crise de identidade: não sabe se quer ser engraçado, romântico ou dramático. Aposta em todas as direções. e assim, os personagens ficam sem identidade. A personagem de Amy parece ter transtorno de personalidade, porquê tem horas que ela parece ser outra pessoa. O que é uma pena. O filme tem bons atores, e fora isso, várias participações especiais: Matthew Broderick ( pasmo como ele envelheceu), Daniel Redcliff e Marisa Tomei. O Ator Bill Hader é um ótimo comediante, e está muito bem no filme. Ay ainda pode vir a ser uma grande estrela, mas aqui no filme ela está meio sem sal, sem brilho. Faltou um personagem mais humano e menos espalhafatoso. O desfecho da história acaba se rendendo aos clichês de um bom romance. Condizente com a trajetória da personagem? Bom, a roteirista Amy teve que provocar uma tragédia pessoal para que isso acontecesse. De engraçado mesmo, acho que apenas 2 personagens, aliás mal aproveitados: um amante bombado de Amy, que tem diálogos hilários, e a amiga dela de trabalho, meio maluquete. Apatow e Amy ainda reservam espaço para homenagear clássicos da música pop dos anos 80, como "Uptown girl", de Billy Joel, e reproduzir uma cena de "Manhattan", de Woody Allen. Nota: 6

sábado, 29 de agosto de 2015

Nocaute

"Southpaw", de Antoine Fucqua (2015) Esse drama sobre a glória e decadência de um astro do boxe, protagonizado com garra e muito método por Jake Gyllenhaal, provavelmente será lembrado no futuro como sendo o último trabalho do compositor James Horner, falecido em acidente de avião em 2015. Não que o filme não tenha méritos. Mas sinceramente, qualquer filme que fale sobre o universo do boxe, já nasce devendo a clássicos imbatíveis no gênero, "O touro indomável" e " Rocky, um lutador". "Menina de ouro", de Clint Eastwood, talvez seja uma exceção, mais porquê Eastwood espertamente trabalha com o material humano, muito mais do que ter necessidade de mostrar cenas de luta. Jake Gyllenhaal interpreta Billy Hope, um lutador que tem como braço direito e motivadora a esposa Maureen ( Rachel MacAdams. O casal tem uma filha pequena, Leslie. Uma tragédia acontece na vida de Hope e ele precisa lutar contra a depressão e o desejo de vingança. Seu mundo cai, e para tentar se levantar de novo, ele tentará contar com a ajuda do treinador Tick Wills (Forest Whitaker). Essa história já foi contada mil vezes. GlóriaX Decadência X Redenção. Aqui, de verdade, não existe nada de novo no front. As cenas de luta não são extraordinárias, tecnicamente falando, e Anoine Fucqua obviamente abusa dos super closes e câmeras lentas. O que de fato leva o respeito do espectador, é o trabalho dos atores. Gyllenhaal a muito tempo já provou que se aprofunda nos seus personagens. Assim como em "O abutre" ele emagreceu trinta quilos, aqui ele ganhou massa muscular e está com o corpo de touro. Rachel MacAdams também faz um diferente papel, a perua mas sensata Maureen. Whitaker já sabemos o grande ator que ele é. A curiosidade da produção era que o filme foi escrito para ser protagonizado pelo rapper Eminem, em cima da história dele. Diz o roteirista que a idéia era ser uma continuação do filme " Rua das ilusões/8 miles", protagonizado por ele. Mas em cima do lance ele desistiu em prol da carreira musical e os produtores convidaram então Jake. É um filme óbvio e todo mundo sabe como vai acabar. Faltou a gente torcer de verdade e entrar com o coração no filme. Outro ponto fraco é a longa duração: 2:04 para contar essa história é muita coisa. A barriga do Jake tá seca no filme, mas a do filme tá bem gordurosa. Nota: 6

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Hardcore- No submundo do sexo

"Hardcore", de Paul Schrader (1979) Realizado em 1979, "Hardcore" faz parte de algumas poucas produções maisntream de Hollywood que flertou com o Universo Underground da pornografia e do Mercado de sexo americano. Junto de "Parceiros da noite", de Willian Friedkin, os 2 filmes chocaram na época. ( e ainda hoje, os filmes são bem fortes. A Hollywood de hoje não ousa nem a metade dessas produções, recheadas de nudez e sexo). Hollywood e o Cinema de ponta americanos e no Mundo inteiro ficaram caretas, salvo as produções independentes. Paul Schrader, que havia escrito o roteiro de "Taxi Driver", repete muito do tema e da decadência da grande cidade e das relações humanas aqui em "Hardcore". É quase possível dizer que o personagem de George C. Scott é uma continuação de Travis Bickle de Robert de Niro. Ambos os personagem vêem podridão e sujeira nas pessoas, e por eles, eles limpariam as ruas nem que tivessem que matar essas pessoas: prostitutas, cafetões, marginais. George C Scott interpreta Jake, um católico fervoroso que cria sua filha dentro dos preceitos ortodoxos da religião calvinista. Um dia, sua filha segue para uma excursão até Califórnia, mas acaba desaparecendo. Jake descobre, após contratar um detetive, Andy (Peter Boyle), que sua filha entrou para o ramo dos filmes pornôs. Crente de que ela foi obrigada a fazer parte dos filmes, Jake segue até a cidade grande, e para ajudá-lo na empreitada, ele pede ajuda para uma prostituta, Niki (Season Hubley). Em 99, John Schesinger realizou um filme com Nicholas Cage e Joaquim Phoenix muito semelhante a esse, chamado "8 mm", que também fala da pornografia e dos snuff movies (filmes rodados em 8 mm onde os participantes eram mortos de verdade). Corajoso e sem medo de expôr as feridas, Paul Schrader faz um filme forte, repleto de nudez e da podridão do submundo do sexo, casas de prostituição, cinemas pornôs, cabines de peep show, boites eróticas e tudo o mais que se possa imaginar. O filme merece ser revisitado, uma vez que hoje em dia pouca gente sabe de sua existência. Historicamente, é um filme importantíssimo, que comprova que um dia Hollywood ousou ser adulta. Ótimo trabalho dos atores, além da novata Season Hubley, uma tentativa de repetir o sucesso da personagem de Jodie Foster. Nota: 8

O completo estranho

"O completo estranho", de Leonardo Mouramateus (2014) Premiado curta brasileiro, dirigido e escrito pelo cearense Leonardo Mouramateus. Sexo, loucuras e música eletrônica compõem o quadro desse filme que se passa em uma noite em Fortaleza. Um casal de namorados trepa alucinadamente ao som de música dançante, através de cores berrantes. Nessa alegoria neon anos 80, a jovem recebe um telefonema de uma amiga pedindo para ir fazer companhia a ela em uma festa, pois ela se sente solitária. O casal segue. Lá, são recebidos por um travesti. A loucura rola solto na festa, que parece saído de um filme de Xavier Dolan. De repente, a luz se apaga, black out. A jovem conversa com o dono da festa, que está indo embora da cidade daqui a 3 dias. Entre os dois, sem conseguirem ver seus rostos, rola um clima. Ótima direção, belíssimos planos, atores cearenses muito bons e um clima de filme europeu em Fortaleza. Antenado, moderno, e mais do que tudo, ousado ( metade do filme se passa no escuro), é um filme que mereceu ganhar todos os prêmios em Festivais pelos quais foi exibido. A cena da dança das duas amigas e da travesti é antológica. A fotografia, um primor. Nota: 8

O conto da princesa Kaguya

"Kaguyahime no Monogatari", de Isao Takahata (2013) O cineasta Isao Takahata é um dos fundadores do famoso Estúdio Ghibli, que tem Hayao Miyazaki como o Cineasta mais famoso, autor de "Meu amigo totoro" e "A viagem de Chihiro", entre outros. Isao Takahata, no entanto, é o autor de uma das animações mais aclamadas da história do Cinema: "O túmulo dos vagalumes", a grande obra-prima que botou os espectadores para chorarem litros de lágrimas diante da história aterrorizante de 2 irmãos que tentam sobreviver na 2a guerra. Em "O conto da Princesa Kaguya", que foi indicado ao Oscar de Animação em 2015, Takahata se apropria da lenda da jovem Princesa Kaguya para falar sobre tradição e novos tempos, vida selvagem e vida burguesa. O amor puro X amor por interesse. Se utilizando da fábula e do lúdico, Takahata levou 8 anos desenhando à mão cada frame. O resultado é um filme diferente: você nunca terá visto algo semelhante, ainda mais em se tratando de animações computadorizadas da Pixar e outras produtoras. Todo mundo certamente estranhará as imagens tão artesanais e "ingênuas", mas igualmente poderosas de Takahata. Num região das montanhas, um camponês vive de cortar bambus para sobreviver. Um dia, ele avista um broto de bambu diferente. Ao se aproximar , o broto cresce e dentro dele surge uma menina pequenina. A menina se transforma em uma bebê, mas cresce rápido. Ele e sua esposa resolvem criar a menina. O camponês logo encontra outro bambu de onde de dentro sai ouro, e de outro, tecidos caríssimos. Ele entende então que é um desejo dos Deuses para que a Menina seca criada como uma nobre e deva viver como uma burguesa. Eles acabam abandonando o campo, e Kaguya se entristece por abandonar seus amigos. O filme é bem longo, 137 minutos, e o ritmo pode assustar alguns, pois vai em uma narrativa lenta. Mas para quem se deixar encantar pelo filme e pela bela história mágica, vai se deliciar com cenas antológicas de pura magia e encantamento. A cena final, da Comitiva lunar, é das coisas mais lindas que já vi no Cinema. Nota: 8

Entrando numa roubada

"Entrando numa roubada", de André Moraes. Diretor de curtas, clips e publicidade, o longa de estréia do cineasta e músico André Moraes é uma grande salada pop que reverencia filmes autorais de Cineastas "nervosos" e cults como Guy Ritchie, Robert Rodriguez e Tarantino. Em relação a filmes nacionais, fãs de "Dois coelhos", de Afonso Poyart, também irão curtir o filme, pois a estética e a narrativa quase quadrinhos mesclada à animação farão a festa da geração Geek e cinéfilos. Cult do primeiro ao último fotograma, o filme exige do espectador que ele entenda que tudo é uma grande brincadeira com o Universo do Cinema. Nessa metáfora do mundo cruel e injusto dos artistas, técnicos e celebridades do Cinema, vale tudo. Até mesmo roubar e quem sabe, matar. Afinal, como dizem muitos produtores, "Cinema é uma grande jogatina. Para entrar no jogo, tem que saber jogar." A história é bizarra por si só: Um grupo de amigos fazem um filme chamado "Missão explosiva" e aguardam o grande sucesso do blockbuster nacional: Os atores Vitor (Bruno Torres​), Laura (Deborah Secco) e Eric (Julio Andrade), se juntam ao Diretor Walter ( Lucio Mauro Filho) e o produtor Alex ( Marcus Veras). O que era para ser um grande sucesso, acaba se tornando um grande fracasso, e todos literalmente se dão mal. Dez anos se passam, e aí começa nossa história. Decadentes e fracassados, a vida de todos mudou: Vitor virou borracheiro, Laura e Walter animam festa infantil e Eric, virou um mumabeiro sedento de vingança. O Alvo? Alex, que se tornou um Pastor/celebridade e ganha milhões. Eric junta o grupo e resolve armar uma trama para se vingar de Alex. Somente Walter sabe de seu golpe: juntara turma, inventar que irão filmar um longa independente onde eles irão assaltar postos de gasolina ( Walter inventa um método de interpretação, e os atores acreditam que os assaltos são ficctícios). A grana a ser investida vem de um prêmio de roteiro de cem mil reais que Vitor ganhou, junto de 15 mil reais que o patrão de Vitor (Tonico Pereira) doa, com a condição de botar sua filha Leticia ( Ana Carolina Machado) como estagiária. O filme se utiliza de edição dinâmica, animação, efeitos especiais, voz off e todo tipo de recurso técnico e de narrativa para deixar o espectador ligado na tela como se estivesse assistindo a um grande game que tem como tema o Universo do Cinema. A direção de André Moraes é constantemente agregada a recursos estilísticos que trazem um olhar de publicidade ao filme. O roteiro brinca com um clássico do cinema independente que também fala da paixão por produzir filmes, 'Vivendo no abandono", só que aqui, a trama vem embalada no gênero humor negro, ganhando contornos de filme NOIR. Os atores divergem em estilos: alguns apostam em interpretação naturalista, outros vão para o caminho da caricatura ( principalmente o de Marcus Veras). Com personagens tão interessantes, é uma pena que o desfecho os abandone em nome de um final abrupto, como se um fã de video-game simplesmente apertasse a tecla OFF. De qualquer forma, um filme cheio de boas e melhores intenções, que deve ser visto, de novo, como uma grande brincadeira metafórica do Mundo do Cinema e quem entender desse Universo vai provavelmente se divertir mais do quem não entende patavinas do sistema. Editais, métodos de interpretação, câmera go-pro, cross mídia, enfim, todo tipo de jargão profissional está ali presente. Um título mais pertinente ao filme talvez fosse "Vale tudo". Pois aí mora a sacação do projeto: discutir vários temas ( morte do cinema, ascenção da igreja evangélica, desemprego, aumento da violência) , tudo apresentado em formato de apresentação cult. A prova do Amor ao Cinema se encontra na figura de André Moraes: na ficha técnica, ele está como Diretor, Roteirista, Produtor e autor da trilha sonora. Mais Amor, impossível.

Homem irracional

"Irrational man", de Woody Allen (2015) Em seu 45o filme, Woody Allen repete várias de suas táticas dramatúrgicas para criar essa história de crime e castigo, já vista em filmes como "Crimes e pecados", "Match Point" e "O sonho de Cassandra". Para Allen, o óbvio nunca é o óbvio, e cabe ao espectador acompanhar o filme imaginando o que vai acontecer, mas o roteiro, sempre traiçoeiro, prega peças e nos surpreende com o acaso, tema muito presente em seus filmes. E através do acaso da vida e os seus desdobramentos que vamos acompanhando a história de Abe ( Joaquim Phoenix), um professor de filosofia, autor de vários livros, que se muda para uma cidade no interior, próximo a Rhode Island. De temperamento depressivo, fã do existencialismo, e de tendências suicidas, Abe dá aula para uma turma que constantemente discute tais temas com o professor polêmico. Uma de suas alunas, Jill ( Emma Stone), namorada de Roy, de cara se apaixona por essa personalidade melancólica do mestre e faz de tudo para seduzi-lo. Alcóolatra e arredio, ele acaba se envolvendo com a professora casada Rita ( Parker Posey). Um dia, durante um café, Abe e Jill testemunham uma discussão de uma família na mesa do lado que lamenta a possibilidade da perda da guarda dos filhos da jovem, mediante o mandato de um juiz corrupto. Abe vê ali uma chance de dar sentido à sua vida: matar o juiz e mudar a vida dessa mulher que ele nem conhece. Muitas das situações corriqueiras de Woody Allen são vistas aqui, recauchutadas: a paixão por uma mulher mais jovem; a tentativa de descobrir as possibilidades de um crime; a traição; a melancolia e desprezo pela vida. Woody Allen, quase 80 anos, mostra muito vigor na condução de sua trama. Em um elenco onde se destacam 3 atores famosos ( Joaquim Phoenix, Emma Stone, Parkey Posey), ele mescla com atores totalmente desconhecidos, provando que ele é um Diretor que não tem medo de apostar em caras novas. O roteiro, surpreendendo no final, caminha por caminhos conhecidos ao longo de sua narrativa. Os diálogos, claro, continuam ácidos. Dessa vez, sua trilha sonora dá um tempo da música clássica e, além de Bach, ele conduz quase que a narrativa inteira ao sim dançante de Ramsey Lewis Trio "The 'In' Crowd". É um swing gostoso que provoca dinâmica e um estranho suspense noir. Para fãs incondicionais do Mestre, impossível não gostar do filme. Sim, não está entre seus melhores, mas mesmo assim vale muito a pena assistir. Sinais de vida inteligente em filme americano merece muito ser apreciado por cinéfilos famintos por boas produções. Nota: 8

Que horas ela volta?

"Que horas ela volta?", de Anna Muylaert (2015) Em 2009, o filme chileno " A criada" de Sebastian Silva ganhou vários prêmios internacionais. Através do drama da empregada doméstica interpretada excepcionalmente pela atriz Catarina Saavedra, passiva, muda e atenciosa, o filme trazia um relato cruel da relação patrão e empregado. Os filhos interagiam mais com a Empregada do que com os pais que, friamente, apenas viviam uma vida burguesa vazia e de aparências. Em 2015, o cineasta Felipe Barbosa nos trouxe "Casa grande", também Premiadíssimo filme que igualmente narra a relação hierárquica entre patrões e empregados, a contradição entre a moradia na mansão e a moradia na favela. Agora, com " Que horas ela volta?", a roteirista e cineasta Anna Muylaerte volta ao mesmo tema, com um diferencial: um olhar apaixonado e humano pela empregada vivida espetacularmente por Regina Case'. O filme, premiado em Sundance e Berlin, tem como ponto de vista o olhar dessa empregada que trabalha a mais de uma década na casa de um família rica, Bárbara (Karine Teles) e Carlos ( Lourenço Mutarelli). Nesse elenco cult, cabe espaço para estreantes explosivos: Camila Mardila, como Jessica, a filha de Val (Case') e Fabinho (Michel Joelsas). Curioso que, assim como em " Casa grande", o filho do casal também se refugia no quarto da empregada quando não consegue dormir. No caso de Fabinho, com outro propósito: Val, como diz o título em inglês do filme, é a segunda mãe da história. A chegada de Jessica, que vem de Recife para poder prestar vestibular, e acaba indo morar com Val na casa dos patrões, acaba trazendo consequencias para a casa: a patroa odeia sua presença, o marido fica apaixonado, o filho fica curioso e Val fica assustada com o atrevimento da filha que resolve discutir hierarquia e valores burgueses. Belamente dirigido, com fotografia discreta e bonita de Bárbara Alvarez é uma trilha sonora que não briga com as imagens, é um filme que merece ser visto por suas qualidades artísticas e técnicos. Regina Case mostra que ela faz falta em bons personagens nas telas do Cinema.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Boulevard

"Boulevard", de Dito Montiel (2015) Drama melancólico que será eternamente lembrado como o último filme de Robin Williams, antes dele se suicidar em agosto de 2014. O mais contundente é, após assistir ao filme, perceber a extrema semelhança entre o estado depressivo de seu personagem, Nolan, e o de Robin Williams da vida real, cujo diagnóstico de depressão só ficou notório após a sua morte. E mais incrível ainda: Williams faz aqui uma de suas mais poderosas performances, longe de qualquer vestígio de veia comica ou mesmo de drama que ele tenha interpretado. Ambientado em Nashville, Nolan é um homem que trabalha a mais de 25 anos em um Banco de esmpréstimos. é um homem educado, amado por todos, certinho, sem nunca ter falhado em nada. Casado com Joy ( Kathy Baker), formam um casal feliz, mesmo dormindo em quartos separados. Mas como diz o ditado, quem vê cara não vê coração. Nolan e Joy são duas pessoas melancólicas. O casamento foi inteiro de facada. Joy ama Nolan, mas o amor dele por ela vem do carinho, não de convivio sexual. Razão: Nolan é um homossexual enrustido. Até que uma noite, voltando do hospital onde ele fora visitar seu pai enfemo, ele quase atropela um garoto, que ele descobre ser um michê. A partir daí, a vida de Nolan vira de cabeça pra baixo: apaixonado platônicamente pelo garoto, ele cede a todos os caprichos dele. E isso definitivamente, atrapalha sua vida conjugal e profissional. Um drama independente, de ritmo lento, mas de performances memoráveis. Williams e Baker conferem momentos sublimes de interação em cena, muitas das cenas silenciosas. O embate final é bem doloroso. Para quem foi fã de Williams assistindo aos seus filmes de aventura ou comédia, aconselho a não assistir a esse filme, pois provavelmente ficarão bastante decepcionados com o personagem que ele interpreta aqui. É um ato corajoso de Williams, talvez já visando o seu destino trágico, e por isso mesmo, se entregando literalmente de corpo e alma para um personagem triste e desmotivado. Bela fotografia e trilha sonora, evocando ainda mais o tom de melancolia que paria sobre o filme inteiro. Nota: 7

Longe desse insensato mundo

"Far from the madding crow", de Thomas Vintenberg. Refilmagem de um filme de 1967, dirigido por John Schlesinger com Julie Cristie e Terence Stamp, e baseado no livro clássico de Thomas Hardy. O filme se passa em Dorset, interior da Inglaterra de 1870, na Época Vitoriana. Nesse período, as mulheres não tinham voz na sociedade. Todas, menos Bathsheba Everdene (Carey Mulligan). Órfã, desde cedo ela aprendeu a lutar sozinha e ser independente. Crescida, ela herda uma fazenda decadente de seu tio, e deseja fazer de tudo para que ela se torne próspera. Para isso, conta com a ajuda de um home, Gabriel Oak (Matthias Schoenaerts), pastor de ovelhas que perdeu toda a sua criação e que agora trabalha para Bathsheba para poder sobreviver. Gabriel no entanto nutre uma paixão platônica pela patroa. Outros 2 homens surgem no caminho de Bathsheba: Sargento Francis (Tom Sturridge) e William Boldwood (Michael Sheen). O primeiro é um sargento cuja namorada não surgiu no dia do casamento na Igreja e ele acaba galanteando Batsheba. O outro é um rico fazendeiro de meia idade que quer se casar com ela mas se frustra diante de sua recusa. Batsheba fica indecisa entre 3 amores pelos quais ela não sabe como administrar, até que aceita se casar com o Sargento Francis. Estranho são os caminhos do Cineasta dinamarquês Thomas Vinternberg, Em seu primeiro longa, ele realizou um filme dentro dos padrões do dogma dinamarquês, criando um conceito de filme independente que na época foi um verdadeiro escândalo dentro dos padrões do cinema clássico vigente ( sem maquiagem, locações reais, sem trilha sonora câmera sempre na mão, orçamento minimo, etc). Na outra ponta, ele realiza o seu filme mais dentro dos padrões de Hollywood possível? história de amor clássica, recheada de trilha sonora envolvente. muitos efeitos de câmera, filtros, e ares de super-produção com estrelas do Cinema. Traição à sua origem, ou apenas se acomodando dentro de um perfil de indústria de cinema, onde todo mundo deve fazer de tudo um pouco? O seu filme está mais próximo de uma produção do inglês James Ivory, ou algum episódio de "Dawton Abbey". A história, é a mais tradicional possível em relação a amores proibidos, incertezas, glória e fracasso. Nada aqui é ousado, tudo está dentro do convencional. Não que isso seja ruim, pelo contrário, tudo está de altíssimo nível, desde a fotografia, trilha, edição, e claro, trabalho dos atores. O que acontece é que esse é um tipo de filme que conquista o espectador mais certa, a fim de algo tradicional, uma história de amor para se sofrer. Novela? Pode ser. Porquê fazer uma novela em pleno ano de 2015? Bom, Jane Austen continua sendo adaptada até hoje. O público parece que às vezes se cansa de tantos efeitos especiais e recorrem a algo mais nostálgico e clássico. Se o filme é bom? Sim. Mas não emociona, não envolve, Apenas assistimos. Nota: 7

domingo, 23 de agosto de 2015

Orfeu negro

"Black Orpheus", de Marcel Camus (1959) Um dos poucos filmes no mundo que ganhou o Prêmio de Melhor filme de Festivais de Cinema consagrados ( Oscar, Cannes e Globo de Ouro), "Orfeu negro" foi ovacionado e amado mundo afora, porém aqui no Brasil sempre sofreu duras críticas. O motivo? A alegação do olhar estrangeiro ( no caso de um Cineasta francês) sobre a cidade do Rio de Janeiro. Um olhar alegórico, fantasioso, o País do Carnaval e do samba, onde a pobreza é anestesiada pelo som dos batuques e de uma falsa felicidade que elimina vestígios de fome e analfabetismo. Adaptada da obra de Vinícius de Moraes, "Orfeu da Conceição", narra a história de Eurídice ( A inglesa Marpessa Dawn), uma jovem que foge de um homem misterioso, que ela tem certeza de que quer matá-la. Ela vem de Niterói e ai até o Morro da Babilônia morar com sua Tia, Serafina ( Lea Garcia). No seu caminho, ela esbarra com o galante manobrista de bonde, Orfeu ( Breno Mello), noivo de Mira ( Lourdes de Oliveira). Essa história acontece durante os 3 dias de Carnaval, e termina de forma trágica. Emoldurada por canções de Tom Jobim e Vinícius, o filme foi um dos responsáveis pela divulgação da Bossa Nova mundo afora. O cineasta francês Marcel Camus já havia vindo para o rio de Janeiro antes e se apaixonou pela cidade. Esse amor é visível em cada fotograma do filme. Belissimamente fotografado, com locações estonteantes que mostram um Rio de Janeiro lúdico do final dos anos 50, ainda embalado por um Carnaval ingênuo e romântico. Como imagens, é um documentário importantíssimo. O elenco é formado por atores profissionais e não atores, o que corrobora a intenção do Diretor de fazer um filme dentro da narrativa do neo-realismo italiano: Locações reais, personagens marginalizados e mistura de atores profissionais e amadores. Breno Mello era um ex-jogador de futebol, Marpessa era uma bailarina de Corpo de baile inglês e Loudres foi encontrada em um supermercado. Vendo o filme, a gente se impressiona com o naturalismo de todos. As crianças também são um grande destaque, sensacionais. Fiquei ainda mais encantado revendo esse filme ( havia visto a uns 15 anos atrás). Continua muito charmoso, lírico, surpreendente. Um retrato nostálgico de uma cidade e sua cultura que infelizmente, não voltam mais. Mesclando comédia, drama e musical, o filme acerta em cheio como filme de entretenimento,e ao gosto dos estrangeiros, exótico. Nota: 9

sábado, 22 de agosto de 2015

Numa escola de Havana

"Conducta", de Ernesto Daranas (2014) Há duas maneiras de se assistir a "Numa escola de Havana": A primeira, uma "versão" cubana da novela mexicana de grande sucesso, "Carrossel", acrescido, além dos pequenos dramas de cada aluno, de uma temática que fala sobre o antigo e o novo, do antes e durante a Revolução. Troquemos a professora Helena pela Professora Carmela: humanista, compreensiva, sempre vendo os fatos pelo ponto de vista dos alunos, e não dos adultos. A outra forma de se assistir é pensando que o filme, no final das contas, faz um grande tratado sobre o amor. Mas o que é o Amor? O amor da professora pelos alunos e vice-versa. O amor do menino pela colega da turma. O Amor do menino pelo seu cão que participa de rinhas. O Amor da menina pelo seu pai, e vice-versa. O amor do pai biológico pelas rinhas de cachorros. O amor da mãe pelas drogas e álcool. E resumindo tudo, a tentativa de um povo sofrido de continuar amando a sua Pátria. Apesar de todas as dificuldades bucocráticas, regras draconianas datadas dirante a Revolução e nunca revistas. Carmela ( Alina Rodriguez, a cara da Laura Cardoso mais jovem) é uma professora que leciona a mais de 50 anos na escola, ou seja, ela veio de um período pré-revolução. Entre os seus alunos, destacamos duas histórias: Chala (Armando Valdes Freire), um menino de 11 anos, de mãe solteira, viciada em drogas e álcool. Para sustentar a casa, ele vende pombos e cuida de cães que lutam em rinhas. Chala é apaixonado por Yeni (Amaly Junco), uma menina cujo pai é foragido de uma província e que veio morar nacidade para ter melhores condições de vida. Porém, essa migração só é permitida quando o Governo autoriza. Os atores do filme são todos estupendos, obviamente destacando Alina, como a dura e sensível Carmela, e o ótimo casal de crianças. Como é bom assistir a um filme onde as crianças agem como tal, sem overacting ou tentativa de querer ser adultos! O que pesou contra para mim é a duração do filme, 108 minutos, mas que me pareceu bem mais longo, e o excesso de pequenas tragédias que vão se sucedendo, tornando tudo meio forçado lá pelo desfecho. Mas é um filme que merece total atenção, seja pela difivuldade de chegar um filme cubano no circuito, seja pela curiosidade de ver como a cidade sobrevive a duras penas, nesse retrato totalmente desolador da Ilha de Fidel. Nota: 7

Before we go

"Before we go", de Chris Evans (2015) Um drama romântico com apenas 2 atores, e escrito por 6 roteiristas? Parece que algo vai dar muito errado, não? E se o filme se passa durante uma noite? E se o filme te lembrar 100% do tempo de "Antes do amanhecer", de Richard Linklater? Aí, fica mais estranho ainda essa batelada de roteiristas fazer sentido. "Before we go" é a estréia do ator Chris Evans na direção. O filme teve estréia no prestigiado Festival de Toronto, e de lá saiu com críticas bem desanimadoras. Nick ( Chris Evans) é um músico que toca na estação de trem em Nova York para faturar algum trocado. Ele tem um sonho: fazer um teste para uma famosa Escola de música. Mas ele está frustrado por conta de uma desilusão amorosa. Seu caminho se cruza com o de Brooke ( Alice Eve), uma negociante de arte que perde o último trem para Boston e tem sua bolsa roubada. Nick a ajuda, e ambos passam a madrugada toda discutindo vida, amor, futuro, relações. Até se descobrirem apaixonados um pelo outro. A premissa também lembra bastante o drama chileno "Na cama", que também fala sobre frustrações amorosas e escolhas erradas. O filme é correto, bela fotografia e boa trilha sonora, como manda a cartilha de uma produção independente. As locações são todas reais em uma Nova York de cartão postal, que faz inclusive uma referência à clássica cena de "Manhattan", de Woody Allen, com a Ponte do Brooklyn ao fundo. Chris Evans, famoso pelo seu "Capitão América", preferiu começar na direção em uma produção modesta, simples, porem feita com carinho. O que o diferencia do filme de Linklater? Os diálogos. Aqui tudo sôa meio forçado, as situações implausíveis. como assim na madrugada eles encontram um vidente que l6e a sorte deles e ainda por cim,a sem cobrar nada? O que vale ver: a beleza dos 2 atores, que pelo menos faz a gente acreditar que nesse Séc XXI, é possível encontrar dando mole na madrugada de uma grande cidade um príncipe ou uma princesa dano mole e mais, com o coração mais puro do mundo. Nota: 6

O último cine Drive In

O último cine drive In", de Ibere Carvalho (2014) Premiado no Festival do Rio (Atriz coadjuvante Fernanda Rocha)e em Gramado ( Ator para Breno Nina, Atriz coadjuvante para Fernanda Rocha e Direcao de arte), "O último cine drive In" começa como uma homenagem ao faroeste e ao mito do homem solitário e sem nome que chega a uma cidade para "salvar" alguém. No caso, Marlon Brando (Breno Nina) quer salvar a sua mãe, Fatima (Rita Assemany), divorciada do pai, Almeida (Othon Bastos), que por sua vez, e' dono de um drive In decadente; o último do País. Marlon Quer que Almeida o ajude a realizar um desejo da mãe, que está hospitalizada e com dois meses de vida: que ela assista a uma última sessão de filme no drive In, relembrando dos tempos áureos do cinema. Para isso, além de ter que convencer seu pai turrao, contará com a ajuda dos dois únicos funcionários do lugar: Zé ( Chico Santanna) e Paula ( Fernanda Rocha). Ele, o bilheteiro e porteiro. Ela, projecionista e cozinheira. Obviamente tendo como referencia o clássico "Cinema paradiso", que ele bota até como poster na sala de Almeida, o cineasta Ibere Carvalho trabalha com muita delicadeza, humor e simplicidade esse lindo drama familiar, que ao mesmo tempo quer falar sobre a situação das salas de cinema no País. A kombi detonada de Almeida faz alusão à " A pequena Miss Sunshine", que como aqui, fala sobre uma família de loosers que jamais perde a esperança. Os atores principais estão todos extraordinários, destacando os novos rostos de Breno Nina e Fernanda Rocha ( esposa do diretor), e do veterano Chico Santanna, sublime. A trilha sonora evoca elementos de faroeste de Ennio Morricone. Othon Bastos confere dignidade e paixão ao seu personagem que remete ao de Philipe Noiret em " Cinema Paradiso". O filme começa com um ritmo lento, contemplativo, e vai ganhando ares de drama cômico. Belo exemplar da boa safra do Cinema Brasileiro que quer se aproximar do grande público sem abrir concessões artísticas. Nota: 8

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O desejo da minha alma

"Hitono nozomino yorokobiyo", de Masakazu Sugita (2014) Potente drama sobre dois irmãos pequenos que sobrevivem a um terremoto, mas que ficam órfãos. Esse filme japonês me remeteu imediatamente a 3 obras primas do Cinema que tem como tema a Perda e o Abandono: " Tumulo dos vagalumes", de Isao Takahata, "Ninguém pode saber" de Hirozaku Koreeda e " Paisagem na neblina", de Theo Angelopoulos. Em comum também o fato de todos esses filmes terem crianças como protagonistas que precisam reaprender a sobreviver diante da ausência dos adultos. A estrutura de roteiro do filme de início lembra muito a de "Tumulo dos vagalumes". Uma menina de 12 anos e seu irmão de 5 vão morar com a tia, casada e com um filho de 12 anos. A presença dos irmãos trará discórdia dentro de casa: o filho sente-se despreterido e o marido avisa que eles estão sem condições financeiras para sustentar as duas crianças. Paralelo, a menina evita dizer ao irmão menor que os pais morreram e por isso, ela precisa fingir uma falsa felicidade e a todo momento diz ao irmao que os pais chegarão em breve. É um filme de visual belíssimo: as locações, a fotografia, a trilha sonora minimalista pontuada por um piano. No entanto, é o talento extraordinário da menina Ayane Ohmori que carrega o filme totalmente nas costas. Linda, expressiva e carregando nos olhares a extrema infelicidade, uma performance digna de grandes atores. O menino encanta pela doçura da criança esperta e também é muito expressivos. Eu fiquei imaginando que iria chorar baldes nesse filme tão triste, mas isso não aconteceu. Ó diretor previlegiou um olhar mais frio, distanciado dos acontecimentos e evitou o melodrama. Os planos são longos, sem pressa. Personagens percorrem grandes distância e a câmera continua lá, intacta. Um grande filme de estréia. Nota: 8

O pequeno principe

"The littlle prince", de Mark Osborne (2015) Para quem não sabe, a história do filme não é 100% baseada no livro clássico de Antoine de Saint-Exupéry, datado de 1943, ícone de todas as candidatas a Miss Universo. O filme teve o sue lançamento oficial no prestigiado Festival de Cannes de 2015. O Cineasta Mark Osborne, co-diretor de "Kung fu Panda", foi escolhido pelos produtores franceses para dirigir essa história que tem elementos muito semelhantes aos clássicos "Up, altas aventuras"e "Divertida mente", ambas da Pixar. "O pequeno príncipe" é na verdade a história de uma menina da cidade grande que mora com a sua mãe. A Mãe, ambiciosa e workhaholick, foca toda a sua energia para que a filha estude e ocupe cada segundo do seu dia com tarefas, para que assim ela passe na prestigiada Academia escolar da cidade. A mãe não percebe que a infância de sua filha está sendo desperdiçada em um planejamento de vida que não permite que ela se divirta e tenha amigos. Ao se mudarem para uma casa, descobrem que na estranha casa vizinha mora um idoso que sempre sonhou em ser aviador. A menina, contra a vontade da mão, faz amizade com o idoso que vai, aos poucos, narrando para ela a história do Pequeno príncipe ( como é no livro). Lúdico, poético, essa extraordinária animação surpreende por ser um filme francês com traços de filme americano. Mas isso não é um desmerecimento, e sim, o deslumbramento pela qualidade técnica que os franceses alcançaram. O tema do idoso que faz com que uma criança jamais perca a sua memória da infância é vista em "Up"e de certa forma, em 'Divertida mente". São filme que carregam forte carga dramática e sentimental. É impossível não se emocionar em diversas cenas, como o clip da amizade da menina com o idoso ao som da bela música de Camille " Suis-moi"e uma excelente trilha sonora a cargo do mago Hans Zimmer. Outra cena antológica é a da menina seguindo a ambulância de bicicleta, que maravilha, um primor! Obrigatório para qualquer idade!!!! E assistam original e francês, com as vozes de Marion Cotillard, Guillaume Canet, Vincente] Lindon e outros feras. Nota: 10

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Pequenos acidentes

"Little accidents", de Sara Colangelo (2014) Em 2010, a Cineasta sara Colangelo dirigiu um curta chamado "Pequenos acidentes" e ganhou vários prêmios em Festivais. 4 anos depois, ela retoma o curta e o transforma em uma produção independente, a sua estréia em longas. Composta de 3 histórias que se entrecruzam, ambientada em uma cidade que vive da mineração do carvão na West Virginia, o filme remete bastante ao longa de Atom Egoyam, "Um doce amanhã". Ambos os filmes falam sobre perdas humanas. Em "Um doce amanhã', um ônibus escolar sofre um acidente e todas as crianças morrem, provocando dor profunda nos familiares que tentam seguir a vida. Em "Pequenos acidentes", 10 mineradores morrem dentro da mina de carvão. Tempos depois, o único sobrevivente, Amos ( Boyd Holbrook, a cara de Ryan Gosling) sai do hospital e seus colegas de trabalho esperam que ele delate os patrões e assim, ganharem indenização. Outra parcela dos empregados, que não tiveram perdas humanas, pede para que Amos não deponha contra, com medo que a empresa feche e todos percam o emprego. Paralelo temos a história de Diane (Elizabeth Banks), esposa de Bill ( Josh Lucas), o gerente da mineradora. A população acrdeita que ele seja o responsável pelo acidente. O casal tem um filho adolescente., JT. JT acaba se envolvendo em um acidente provocado pro Owen (Jacob Lofland, o menino de "Amor bandido", com Mathew MAccoughney) ), filho da viúva de um dos mineradores, Kendra ( Chole Sevigny) e que espera ganhar indenização. Todas essas historias vão se cruzando, em uma estrutura narrativa igual ao de "Crash", de Paul Haggis. A direção de atores de Sara é muito boa, todos os atores estão ótimos. O problema é o ritmo do filme, extremamente lento, e os acontecimentos que se desenvolvem muito placidamente. Em quase duas horas de duração o espectador vai se cansando de acompanhar tantas histórias e tantos personagens, ainda mais que o filme vai ficando cada vez mais depressivo e os personagens, mais letárgicos. Bela fotografia de Rachel Morrison, de "Fruitvalley station", realçando o tom melancólico do filme. Tivesse uns 20 minutos a menos, o filme teria sido mais interessante. Mesmo assim, foi exibido em Sundance e em muitos outros Festivais de Cinema. Nota: 6

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Pequeno garoto

"Little boy", de Alejandro Monteverde (2015) Dirigido e escrito pelo jovem cineasta mexicano Alejandro Monteverde, essa produção americana evoca em todos os sentidos um desejo de ser "Amelie Poulain". Tanto no uso da fábula como recurso narrativo, quanto nas cores hiperrealistas de Andrew Cadelago, animador da Pixar ( responsável por "Wall.e", "Up". "Toy Story 3"entre outros) , que evoca o francês Bruno Debonnel. Mas o que mais remete ao personagem de Amelie Poulain é a extrema alegria e encantamento sobre tudo o que acontece em seu redor representado pelo menino Peper ( o ótimo Jakob Salvati), uma criança de 8 anos que sofre bylling dos garotos da cidadezinha pelo fato dele não crescer. Daí o título do filme "Little boy", também apelido dado à bomba atômica que explodiu em Hiroshima. O filme se passa na 2a Guerra Mundial na pequena cidade de Ohaire. Pepper mora com seu pai, seu único amigo James (Michael Rapaport), casado com Emma ( Emily Watson) e pai do também adolescente David. David é recusado pelas forças armadas por causa de seus pés chatos e o pai é obrigado a ir como representante da familia. Pepper sente-se deprimido pela ausência do pai, e acaba sendo coagido pelo irmão a odiar um japonês que mora na região, Hashimoto. O padre local, Oliver ( Tom Wilkinson)tenta fazer Pepper entender que somente com a fé conseguiremos algo na vida, a mesma mensagem que o pai de Pepper lhe deu. O menino passa então a fantasiar situações, desejando assim que o seu pai esteja bem e retorne logo ao lar. Como se vê, um filme enorme com muitos personagens. Mas graças aos efeitos e ao tom lúdico do filme, ele consegue conquistar o espectador. Assim como em "Labirinto do fauno", o menino fantasia situações que podem interferir na sua vida e de sua família. Além da parte técnica do filme, que é excelente ( efeitos, direção de arte,fotografia, figurino e maquiagem), o filme se prevalece de um excelente elenco, composto por uma turma da pesada. Mas o filme é do pequeno Jacob Salvati. O personagem pode ser enjoativo de tão fofo que é, mas o menino dá conta do recado. Ele é muito simpático, mas pode ser que espectadores que tenham pavor de crianças talentosas tenham verdadeiro asco dele. Acho curioso que um cineasta mexicano tenha se atido a narrar uma história essencialmente de patriotismo americano. O excesso de melodrama e novelão do filme muitas vezes leva o filme para um caminho perigoso, mas para quem curte um drama de tintas carregadas e de belo visual pode se deixar levar pelo clima nostálgico da produção. Nota: 7