segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Dead pigs


"Dead pigs", de Cathy Yan (2018)
Longa de estréia da cineasta chinesa Cathy Yan, ganhou o Prêmio do juri em Sundance e foi responsável por Cathy Yan ser convidada a dirigir o filme da Dc 'Aves de rapina", com a Harley Quinn de Margot Robbie.
Baseado em fatos reais, quando em 2015 misteriosamente milhares de porcos surgiram mortos boiando no rio de Shanghai. Cathy, que veio dos Estados Unidos ainda como jornalista como correspondente, cobriu o incidente e resolveu escrever um drama familiar onde o pano de fundo fosse a ambição imobiliária e a divergência entre tradição X modernidade na China.
Candy (Vivian Wu) é dona de um salão de beleza. Ela mora em uma casa que pertenceu aos seus parentes, e é das poucas em um terreno que será demolido para a construção de um grande empreendimento imobiliário. O seu irmão, endividado, insiste para que ela venda a casa e lhe empreste dinheiro, mas ela se recusa. Os porcos que ele cria aparecem mortos, e para evitar despesas com cremação, resolve jogar os animais no rio.
O fllme envolve 5 histórias entrelaçadas pelos dois irmãos. Misturando vários gêneros: drama, comédia e até mesmo musical, o filme traz um mosaico de tipos excêntricos em Shanghai, e também, a forte influência americana na economia e na modernização da cidade. Bem dirigido e com
ótimas performances, o filme ainda traz como produtor executivo Jia Zhengkhe, que lida com os mesmos temas em seus filmes.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Madman


"Madman", de Joe Giannone (1981)
Obscuro slasher de 1981, que veio na esteira do grande sucesso da franquia 'Sexta feira 13". Mas apesar da cópia, "Madman" é um slasher decente, com uma história batida, mas boas cenas de morte, e a saudade daquela trilha de sintetizadores. Os efeitos são toscos pro padrão de hoje em dia, mas na época certamente foi responsável por tirar sono de muita gente.
Em um acampamento, um grupo de jovens escuta um homem contar a história de Madman Marz, um homem que matou sua família, foi enforcado pela população mas o corpo desapareceu. Segundo a lenda, se o nome dele for anunciado na floresta em noite de lua cheia, ele retorna para matar.
Com referências a clássicos do slasher, como "Massacre da serra elétrica" e "Chamas da vingança", o filme diverte e dá uns bons sustos. Mas a cena de uma jovem se escondendo entro de uma geladeira é imbatível. Essa cena vai para os anais da história dos filmes de terror.

Berlin Alexanderplatz


"Berlin Alexanderplatz", de Burhan Qurbani (2020)
Épico drama adaptado da obra colossal do alemão Alfred Döblin escrito em 1929. A versão mais famosa é a de Fassbinder, com 15 horas e meia de duração, dividido em 14 capítulos e ambientado na República de Weimar. O cineasta alemão Burhan Qurbani ousa trazer a história para os dias de hoje, na Berlin cosmopolita de traficantes de drogas, assaltantes, prostitutas, transgêneros e refugiados africanos. O filme, com 183 minutos de duração, concorreu em Berlin, Rotterdan e outros importantes Festivais.
Welket Bungué é um ator nascido em Guiné Bissau e filmou dois longas brasileiros, 'Corpo elétrico" e "Joaquim". Ele interpreta o protagonista Francis, refugiado africano sobrevivente de uma tragédia na sua embarcação, onde morre sua esposa. Francis mora em um alojamento para refugiados e trabalha em uma indústria. Um dia, ele conhece Reinhold (Albrecht Schuch), que resolve lhe dar casa, comida e trabalho. Francis agora se chama Franz, e conhece a prostituta Mieze (Jella Haase), por quem se apaixona. Franz quer ser um homem bom, mas Reinhold o introduz ao mundo do crime. Mieze alerta Franz das maldades de Reinhold, mas Franz não lhe dá ouvidos.
O filme tem uma fotografia e câmera extraordinárias de Yoshi Heimrath, que abusa de cores fortes para retratar uma Berlin que mais parece ter saído daqueles filmes neon-realistas dos anos 80 de Jean Jacques Beinex. O desfecho da história me deixou muito revoltado. O filme tem uma forte carga homoerótica em vários personagens, mas a misoginia em Reinhold irrita bastante. Para compensar , as performances do elenco principal são de aplaudir em pé, principalmente Albrecht Schuch, que faz de seu Reinhold uma figura repulsiva e desprezível mas muito bem trabalhada fisicamente em sua vilania carismática e sedutora.

As 12 horas de turno


"12 hours shift", de Brea Grant (2020)
Deliciosa comédia de humor negro, na melhor tradição de Guy Ritchie e um pouco dos irmãos Coen, "As 12 horas de turno" concorreu em prestigiados Festivais, como Tribeca e Fantasia. Escrito e dirigido pela cineasta Brea Grant, o filme acompanha a enfermeira Mandy (Angela Bettis), que faz a ronda noturna. Mandy é envolvida com tráfico de órgãos, e nessa noite ela repassa um fígado para sua prima Cathy (Julianne Dowler), uma porra louca que ao entregar o fígado pro traficante, percebe que o esqueceu no hospital. Ameaçada de pegar o fígado ou ter o seu próprio arrancado, Cathy retorna ao hospital e implora para Mandy arrumar um outro fígado. Diante da negativa de Mandy, Cathy resolve ela mesma ir atrás de outro figado. Enquanto isso, o traficante vai atrás dela; um dos pacientes que é um assaltante se liberta, a enfermeira chefe, uma mulher arrogante ameaça a todos; a polícia é acionada para ir ao hospital; e Mandy precisa lidar com todas essas loucuras.
O filme lembra aquela atmosfera de sandices de "After hours", de Scorsese, onde a cada momento as coisas só tendem a piorar. É divertido, politicamente incorreto e violento. As duas atrizes principais são excelente, mesclando uma certa vilania de suas personagens com o carisma de mulheres que só querem encontrar o seu espaço.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Extra innings


"Extra innings", de Albert Dabah (2019)
Premiado em diversos Festivais de cinema judaico, "Extra innings" é um drama autobiográfico do roteirista e diretor Albert Dabah. O filme é ambientado nos anos 60 no Brooklyn. David é um menino apaixonado por beisebol, mas seus pais, Esther e Eli (Albert Dabah, o próprio diretor) o proibem e querem que ele estude e se forme em uma profissão. A família, de sírios judaicos, seguem rigidamente todos os preceitos da cultura judaica. O casal tem outro 3 filhos: Morris, um jovem esquizofrênico, Vivian, uma aspirante à atriz que vai morar na Califórnia, e Rita. David é a esperança dos pais de seguir a tradição. Mas quando Morris se suicida, tudo muda de rumo.
Um filme que fala sobre tradição, bloqueio de sonhos, suicídio, família e religião judaica. Para quem gosta de temas sobre a religião judaica, é um prato cheio, tem tudo aqui. Nada de novo, os temas de sempre, mas pelo menos, um filme decente, bem interpretado e com gostinho de melodrama. O Cineasta Albert Dabah conseguiu exorcizar com dignidade a história de sua família.

Exílio


"Exíl", de Visar Morina (2020)
Filme indicado pelo Kosovo à uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2021, 'Exílio" é um drama rodado na Alemanha, e tem como tema a xenofobia.
Xhafer (Misel Maticevic) é um homem de meia idade que trabalha em uma empresa na Alemanha. Nascido em Kosovo, Albânia, ele acredita sofrer de xenofobia no trabalho e com as pessoas da cidade. Casado com a alemã Nora (Sandra Hüller, de "Toni Edermann"), e pai de três filhos, Xhafer tenta fazer sua esposa acreditar no bullying, mas ela não lhe dá muito crédito.
Premiado em diversos Festivais importantes, "Exílio" competiu em Sundance. O filme tem ótimas atuações do elenco, principalmente de Misel Maticevic, que dá vida a um personagem complexo, repleto de paranóias e pesadelos que as pessoas acreditam ser de uma pessoa surtada.O filme é longo e cansa lá pelo início do terceiro ato, mas lá pro final cresce um clima de tensão, onde o espectador acredita que o protagonista irá explodir, assim como Travis em "Taxi driver".

Vil, Má


"Vil, Má", de Gustavo Vinagre (2020)
Concorrendo no Festival de Berlin pela 2a vez, o cineasta Gustavo Vinagre, que já nos trouxe vários filmes no formato de depoimentos de figuras interessantes, excêntricas e importantes no contexto de gêneros para a sua câmera, "Lembro mais dos corvos", "A rosa azul de Novalis"), nos traz agora Edivina Ribeiro: mãe de 3 filhos, religiosa, jornalista. Por erro do cartório ( seus pais, religiosos, queriam que ela se chamasse Divina), Edivina ficou famosa por escrever durante as décadas de 70 a 90 , literatura sadomasoquista, sob o pseudônimo de Wilma Azevedo. Segundo Edivina, "Vil e Má", todos irão respeitar e obdecer.
Hoje uma mulher de 74 anos, Edivina relata casos ocorridos durante esses anos, onde ela presenciou sessões de sadomasoquismo, abuso sexual, fetiches de leitores de revistas masculinas e o melhor depoimento, quando ela separa o tpo de tortura que ocorria nos porões da ditadura com a tortura do sadomasoquismo.
O filme é entrecortado com fotos explícitas de torturas, sempre com o pênis ereto, simbolizando o prazer sexual pela dor.
Um filme curioso, que me fez relembrar do texto de João Ubaldo ribeiro e interpretada por Fernanda Torres no Teatro, "A casa dos budas ditosos". Desejando assistir uma versão ficção do filme.

Carta para a minha mãe


"Letter to my mother", de Amin Maher (2019)

Premiado curta alemão, é uma narrativa em formato documental e experimental sobre um caso de abuso sexual sofrido por um ator mirim iraniano, Amin Maher, que trabalhou no filme "Dez", de Abbas Kiarostami em 2002. Durante 4 anos, da idade dos 10 aos 14 anos, o jovem Amin Maher foi estuprado pelo cunhado de sua mãe, que o obrigava a usar calcinhas durante o ato sexual. O curioso é que no filme, onde Amin Maher contracena com sua mãe real, ele tenta falar coisas para ela mas se segura. Hoje em dia, Amin Maher é uma artista transgênero. No filme, ela se depila totalmente, e no final, se veste de mulher. O filme é narrado em off, como um relato pessoal e doloroso de um filho para sua mãe, e também contém depoimento de um psicólogo iraniano sobre o que se passa na mente de uma criança após o estupro. Um filme intenso e muito visceral, a cena da depilação dá uma enorme agonia.


Conversas de bar


"Don's plum", de R. D. Robb (2001)
Drama juvenil que concorreu no Festival de Berlin, mas cuja distribuição nos Estados Unidos foi proibida pelos atores Leonardo di Caprio e Tobey Maguire.
O filme em si é bem chato, mas os bastidores da produção são muito mais interessantes. Os produtores, roteiristas e o diretor do filme convidaram Leo di Caprio e Tobey Maguire a participarem de um curta metragem com dois dias de filmagem. Na época, 1995, os dois jovens atores ainda estavam despontando: di Caprio ainda não tinha feito "Titanic", e Maguire ainda não tinha feito "O homem aranha", filmes que os catapultaram à estrelas de Hollywood. Quando ambos descobriram depois que os produtores resolveram lançar o filme não como curta, e sim, como longa, se sentiram traídos e decidiram proibir a veiculação nos Estados Unidos e no Canadá. Até hoje, 2021, o filme não foi lançado comercialmente. Ambos ganharam o piso do sindicato.
O filme se passa nu único dia e após vários encontros e desencontros dos personagens com seus pares ou familiares, eles resolvem se encontrar num restaurante chamado 'Don's Plumb", e passam a noite toda falando bobagens, flertando, cuspindo palavras homofóbicas, pejorativas, gordofóbicas e machistas. Quase todas proferidas pelo personagem de di Caprio, que hoje em dia deve rezar para as cópias do filme serem queimadas. Na época, esses termos não eram problemáticos, mas por exemplo, em uma cena, uma mulher obesa passa por di Caprio e ele diz: "Deveriam jogar essa mulher no mar, ela é uma baleia.".
De qualquer forma, o que se pode elogiar no filme, é a liberdade de criação do diretor, que não se preocupa em agradar os espectadores. Tem se a impressão que muitas cenas e falas do filme foram improvisadas pelo elenco. O filme foi todo rodado em preto e branco.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Judas e o Messias negro


"Judas and the black Messiah", de Shaka King (2020)
Ótimo drama baseado em fatos reais, ocorrido em Chicago em 4 de dezembro de 1969. William O'Neal (Lakeith Stanfield) se filiou ao movimento Black Panther, mas na verdade ele era um infiltrado do FBI, com a missão de entregar o líder dos Black Panther Fred Hampton (Daniel Kaluuya) para a polícia poder matá-lo. Em 1990, Willian se suicidou, um dia depois de dar uma entrevista para um canal de tv, falando sobre o seu ato de traição. Após o assassinato de Frank, Willian continuou como infiltrado nos Black Panther e trabalhando pro FBI, herdando inclusive um posto de gasolina. Willian, aos 19 anos, foi preso como assaltante de carros. O agente Roy (Jesse Plemons) faz um acordo: caso Willian trabalhe como infiltrado, sua pena será diminuída e ele, recompensado.
Com uma ótima direção de Shaka King, que extrai o melhor de seus atores, "Judas e o Messias negro" possui um roteiro impressionante, e o mais curioso, o título fazer um correlato religioso em relação à traição de Judas com Cristo. Um filme instigante, necessário e que retrata, com uma história de época, a triste realidade dos dias atuais e perceber que pouca coisa mudou.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Atos aleatórios de violência


"Random acts of violence, de Jay Baruchel (2019)
Um retorno aos slashers movies dos anos 90, "Atos aleatórios de violência" é adaptação da violenta graphic novel de 2010 desenvolvida pela dupla Jimmy Palmiotti e Justin Gray.
O Cineasta, diretor e ator do filme Jay Baruchel adapta a graphic novel e narra a história de Todd, um homem atormentado por um passado. Ele é um desenhista de uma graphic novel de sucesso cujo protagonista é um serial killer chamado de "Slasherman". Todd decide dar um fim à saga do assassino, mas está sem criatividade para finalizar a história. Convencido pela namorada, Kathy, e pelo amigo Ezra, eles partem em uma road movie, incluindo a assistente de Todd, Aurora, para a cidade onde aconteceram assassinatos de um serial killer nos anos 90 e que serviram de inspiração para Todd. O que eles não imaginam é que o assassino volta a matar assim que eles chegam à cidade.
O filme é bem interessante, com visual bem de filmes dos anos 90, como "Eu sei o que vocês fizeram no ano passado". Não há nada de novo no filme, apenas a curiosidade de ver um ator comediante comandando um filme slasher. O desfecho é confuso, e sem graça. Os atores são ok, mas não dá para entender porque Todd no flashback é interpretado por um menino negro e nos dias de hoje, é branco e olhos claros. Bizarro.

Histórias extraordinárias


"Histories extraordinaires", de Federico Fellini, Louis Malle e Roger Vadin (1968)
Imagine só um filme com 3 grandes cineastas do cinema mundial, estrelado por grandes astros do cinema dos anos 60 e baseado em contos de Edgar Allan Poe? Assim é "Histórias extraordinárias", dirigido por Federico Fellini, Roger Vadin e Louis Malle, e protagonizado por Jane Fonda, Alain Delon, Brigitte Bardot, Terence Stamp e Peter Fonda. Todas as 3 histórias têm como tema um anjo vingador, em tom gótico bem apropriado aos contos de Poe.
O 1o episódio, dirigido por Vadin, é "Metzengerstein": No século 19, a condessa Federica herda uma cidade e promove orgias e festas nababescas. Um dia, ao cavalgar pela floresta, ela fica presa em uma armadilha e é salva pelo Barão Berlifitzing (Peter Fonda), por quem se enamora. O Baraão a dispensa e a Condessa se revolta, mandando queimar o castelo dele e matando os cavalos.
No 2o episódio, "Willian Wilson), ambientado no século 19 no Norte da Itália ocupada pela Áustria, se encontra o soldado Wilian (Alain Delon). Ele confessa a um padre um assassinato, e em seguida, ele vê seu duplo se jogando do alto de uma igreja, e para seu espanto, ele está apunhalo pela própria espada.
No 3o episódio, "Toby Damnit", Fellini traz a narrativa de Poe para os insanos dias da década de 60. Toby (Stamp) é um ator alcóolatra, que coloca sua carreira em risco. Ele é convencido a participar de um flme e como prêmio, ganha uma Ferrari. Toby tem a visão de uma menina com uma bola, e essa visão o atormentará.
O filme, apesar de toda sua ria ficha técnica, ficou bastante datado e é muito chato. Narrativa lenta, roteiros confusos, e performances bem caricatas de todo o elenco. Vale pela curiosidade cinéfila.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Maçãs


"Mila", de Christos Nikou (2019)
Drama de realismo fantástico indicado pela Grécia a uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro 2021, "Maçãs"é o longa de estréia do cineasta grego Christos Nikou, que por um bom tempo foi assistente de direção de Yorgos Lanthimos, o mais celebrado cineasta do país no mundo.
Assim como nos filmes de Lanthimos, a premissa de "maçãs"parte de uma id;eia absurda e fantástica: uma pandemia mundial faz com que as pessoas esqueçam sua memória de uma hora para outra. Uma ambulância é acionada e na sequência, os parentes e amigos são chamados para fazerem a pessoa recuperar a memória aos poucos. Aris (Aris Servetalis) perde sua memória dentro do ônibus. A ambulância vem, mas não aparece nenhum parente, nenhum amigo. Em casos assim, o governo oferece ao desmemoriado uma nova identidade, uma chance de recomeço. Aris é apresentado à novas pessoas, uma nova amante. Mas as coisas não acontecem como esperado.
No mínimo curioso, o argumento do filme parte de uma idéia muito criativa e original. No entanto, lá pela metade do filme, o ritmo se torna arrastado, as situações se tornam repetitivas e o filme cansa. O final é desolador e melancólico, como quase todos os filmes gregos da nova onda, que falam da crise social e econômica do país sempre de forma metafórica.

Tapete vermelho


"Red carpet", de Scott Altman (2021)
Drama independente americano, no estilo "Mumblecore"(filmes realizados com pouquíssimo orçamento", "Tapete vermelho" fala sobre a triste sina de atores e atrizes que tentam a sorte em los Angeles, meca da indústria do cinema. MAndy (Wittie Hughes) é uma jovem atriz negra, que tenta se relacionar com as pessoas certas para conseguir uma chance em um teste de elenco. Ela conhece um produtor que a apresenta a pessoas influentes, mas logo ela descobre que tudo é fachada para tráfico de drogas e de escravas sexuais. Mandy é mantida encarcerada e obrigada a se prostituir. Fugir é impossível, ela encontra ajuda em Lola, uma outra jovem que já se acostumou com a rotina do bordel.
Realizado com pouco dinheiro, o filme não esconde as suas deficiências técnicas e o amadorismo de parte do elenco. Mas é realizado com tamanho naturalismo , quase em olhar documental, que se torna uma experiência muito interessante, como se estivesse vendo os primeiros trabalhos de diretores famosos como Scorsese, Brian de Palma. Sei que é exagerada a comparação, e o filme nem é memorável, mas a estética pobre e suja do filme é algo muito interessante. Um filme cru, violento, sem pudores, remete à produções independentes do início dos anos 70. Wittie Hughes faz um trabalho visceral e corajoso.

Pari


"Pari", de Siamak Etemadi. Longa de estréia do cineasta iraniano Siamak Etemadi, que também escreveu o roteiro, "Pari" concorreu em Berlin e outros importantes Festivais de cinema.
Metáfora sobre a sociedade patriarcal iraniana e sobre a repressão feminina, "Pari" apresenta o casal Farrouk e Pari, que vão para Atenas, a primeira viagem que fazem para o exterior, para visitar o filho que está estudando há um ano ali. Para surpresa de ambos, o filho não vai recebê-los no exterior, e nem está no apartamento. Pari insiste em procurar o filho Babouk, mas o marido diz ser impossível, após todas as tentativas.
Pari representa a mulher oprimida pelo homem: ela nunca abre a boca para nada, mas aos poucos, passa a ganhar protagonismo e isso irrita o seu marido. Ao olhar do casal, eles se chocam com a cultura européia e também com a crise na Grécia: estudantes em manifestação, policiais nas ruas, desemprego, estupradores, prostitutas, casais de gays, jovens fazendo sexo na faculdade. Diante desse mundo "Dantesco", Pari precisa ganhar forças para procurar seu filho, sem jamais desistir, como uma mãe leoa. A cena de seu manto persa queimando pelo fogo da manifestação é belíssima. É um lindo filme, importante, mas confesso que não gostei do desfecho. Entendo que é a representa
cão da mãe coragem que faz de tudo para defender sua prole, mas ficou num lugar muito cruel demais, A atriz Melika Foroutan, no papel principal, está fantástica, revelando todas as nuances e facetas emocionais .

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Goodbye seventies


"Goodbye seventies", de Todd Verow (2020)
A ascenção e declínio do pornô gay dos anos 70 é o tema de "Goodbye seventies", uma espécie de "Boogie nights" dirigido por um dos papas do Cinema queer underground de Nova Yorl, Todd Verow.
Todd Verow homenageia os artistas e o cinema pornô gay realizado nos anos 70, filmando em 16mm com imagem granulada e uma fotografia lavada que dá o tom da época. Bradford é um bailarino que sonha em ser um astro da Broadway Ele se torna amigo e amante de Vinny. Quando Bradford se acidenta ao sair de uma boite gay, ele torce o pé e recebe o diagnóstico de que não poderá mais dançar, Frustrado, Bradford tenta buscar uma outra ocupação. Quando ele vai até um cinema de arte na Times Square, ele descobre que o filme apresenta cenas de sexo e por isso, se torna um point de pegação gay. Bradford decide produzir filmes pornôs gays com seus amigos e assim vai fazendo sucesso. Mas com a chegada dos anos 80, as drogas pesadas, a Aids e a pornografia produzida em VHS, todo o sonho se desmancha.
Com cenas de sexo explícito , o filme é quase que um documentário da cena gay dos anos 70: boites gays, saunas, orgias, cinemas de pegação. Um universo muito particular, mostrado com muita decadência e zero glamour.

Rendez vous


"Rendez vous", de Pablo Olmos Arrayales (2019)
Rodado em um único plano sequência durante 100 minutos, sem corte, "Rendez vous" é um drama que vai se tornando em um suspense psicológico com apenas 2 atores em cena. Filmado em preto e branco, essa produção mexicana ganhou diversos prêmios internacionais, merecidamente. O filme é um tour de force de câmera, tendo a sua primeira parte rodada em externas, planos gerais, em ruas movimentadas, e o restante do filme no apartamento, claustrofóbico.
Eduardo (Antonio Alcantara) e Lili (Helena Puig) se conhecem em um encontro por aplicativo e marcam um encontro. Eduardo chega atrasado e alega que foi assaltado e levaram seu celular. Lili fica encantada por Eduardo, e conversam pelas ruas, assim como em "Antes do entardecer", de Richard Linklater, papo genérico. Lili aceita o convite para ir ao apartamento de Eduardo.
Não dá para falar sobre o filme, pois vai configurar spoiler. Quero elogiar o extenso e complexo trabalho da câmera e da fotografia, magistrais. A direção é firme e os atores estão excelente. O filme acaba tendo uns 15 minutos a mais do que deveria ter sido. Vale como exercício de narrativa e de filme de baixo orçamento.

Fale com as abelhas


"Tell it to the bees", de Annabel Jankel (2018)
Adaptação do livro de Fiona Shaw, "Fale com as abelhas" foi destruído pela crítica, que o chama de "filme ultrapaaaado" e outros adjetivos. Eu, como adoro dramalhões, amei o filme, uma novela com tema LGBTQIA+ sobre aceitação, homofobia, violência doméstica, machismo e uma sociedade ultra conservadora, tudo sob o olhar de um menino de 10 anos de idade.
Na Escócia de 1952, moram Lydia (Holliday Grainger) e seu filho Charlie (Gregor Selkirk). Lydia foi abandonada pelo marido, que para piorar, deixa de pagar o aluguel. Trabalhando em uma fábrica têxtil, Lydia mal consegue pagar o aluguel. Quando Charlie apanha na escola, ele vai até a médica Jean (Anna Paquim), recém chegada na cidade. Eles se tornam amigos, e ela o leva até sua casa, onde ele se encanta com a criação de abelhas da médica. Quando a mãe de Charlie conhece Jean, a atração mútua é inevitável. Ambas as mulheres se apaixonam, mas precisam esconder esse "amor proibido" do olhar da sociedade, e do próprio Charlie.
O filme tem vilões, tem sofrimento, tem tragédia, tudo para poder comover o espectador. É muito golpe baixo, mas de novo, quem ama drama;hão, vai adorar o filme. Como filme não traz nenhuma novidade, até porquê essa história já foi contada várias vezes. Mas a linda fotografia, direção de arte e trabalho das duas atrizes valem a sessão.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Sole mio


"Sole mio", de Maxime Roy (2019)
Drama LGBTQIA+ francês, lida com um tema complexo mas realizado com muita delicadeza e elegância pelo cineasta.
Daniel (Gall Gaspard, também co-roteirista) é um jovem cujo pai desapareceu há 4 anos sem deixar pistas, abandonando sua mãe, que não entende o porquê do sumiço. Na verdade, Daniel tem se encontrado com o pai às escondidas: seu pai agora é uma mulher trans, Lisa (Jackie Ewing). Prestes a fazer uma cirurgia de mudança de sexo, Lisa conta com o apoio do filho para lhe dar forças nessa nova rota de sua vida. No entanto, Daniel, que é encanador, dá uma bronca no pai pelo fato dele não dar a mínima satisfação para sua mãe. Daniel cobra que o pai vá procurá-la.
Com um excelente elenco, 'Sole mio" é um lindo filme que fala de valores como aceitação e inclusão em um mundo onde nem tudo é fácil de ser aceito ou explicado.

Perfil de uma mulher


"Yokogao", de Kôji Fukada (2019)
Drama japonês que concorreu em Locarno, "Perfil de uma mulher"é dirigido e co-escrito por Kôji Fukada, que em 2016 venceu o prêmio do juri na Mostra Um certo olhar no Festival de Cannes por "Harmonium".
Assim como "Harmonium", "Perfil de uma mulher"apresenta uma sub-trama onde uma filha desaparece. Ichiko é uma enfermeira que trabalha há anos para uma idosa. A família idosa tem uma filha mais jovem que é sequestrada. A polícia e os jornalistas descobrem que quem sequestrou foi Tatsuo, sobrinho de Ichiko. Logo, a vida da enfermeira é totalmente destruída: ela perde o emprego, perde família, perde a dignidade, a mídia toda em cima dela, acusando-a de estar conivente com o sequestro.
Um filme cruel que apresenta uma sociedade paternalista e machista japonesa, onde a protagonista não encontra possibilidade de defesa. Com grande atuação de Mariko Tsutsui no papel principal, o filme peca em ter uma narrativa extremamente lenta, muitas vezes confusa e longa.