sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Bata antes de entrar

"Knock knock", de Eli Roth (2015) Esse é sem dúvida o filme mais comportado do cineasta e ator Eli Roth. Depois da franquia de violência explicita O Albergue", Eli Roth nos apresenta um filme sádico....comedido. Talvez por isso, a participação de Keanu Reeves na produção e no elenco tenha sio fundamental para segurar a onda do gore de Roth. Impossível assistir ao filme e não se lembrar de "Funny games", de Michael Haneke. Claro, em outras proporções, mas a idéia é muito semelhante. Recentemente, Keanu Reeves fez um filme chamado "John Wick", também de premissa semelhante: no filme, ele era um assassino de aluguel que tinha sua casa invadida. Aqui, a energia é outra: apaixonado pela esposa e filhos, Evan ( Reeves) resolve passar o fim de semana em casa trabalhando, enquanto a família vai para a praia passear. Na noite chuvosa, duas garotas surgem e pedem ajuda a ele. Logo ele descobre que as duas são psicopatas e prestes a destruir sua vida. Como roteiro, é bem simples. Um fiapo de história dessas merece um ótimo tratamento de direção, montagem, fotografia e trilha sonora que mantenham tensão e clima o tempo todo. Infelizmente, o filme não tem essa tensão. As duas atrizes até que são ótimas. Mas faltou ao roteiro um toque de cinismo e sadismo presnetes no filme de Haneke, que aqui ficou óbvio. Keanu Reeves com certeza vai ser indicado ao Framboesa, pois sua atuação está por assim dizer, risível. Ele não consegue passar o terror de um homem à mercê de duas malucas, prestes a morrer. O final, parece um discurso moralista sobre o uso de redes sociais, e pode ser que o filme seja somente para passar essa mensagem. O filme vai ficar conhecido como , até onde eu saiba, o primeiro a fazer uso de merchandising do UBER em um filme. Com direito a detalhe de tela de celular e tudo. E o carro chega na hora estabelecida! Para uma boa diversão, tá valendo. Nota: 6

As horas vulgares

"As horas vulgares", de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize (2011) Primeiro filme a ser realizado pelo Fundo de cultura do Espírito Santo em sua primeira edição, em 2011, com o orçamento de 750 mil. Os realizadores fizeram uma livre adaptação do livro "Reino dos Medas", de Reinaldo Santos Neves e à essa literatura, se inspiraram de referência cinematográfica no Cinema de Philipe Garrel, mais especificamente , em "Amantes constantes". O filme narra o drama de Lauro ( João Gabriel), um pintor casado, carioca, morando em Vitória Casado com Erika, ele está em crise existencial. Um dia, ele reencontra um grande amigo, Theo, e com ele segue para uma festa onde conhece uma galera. Juntos, essas almas representantes de uma geração perdida, divagarão sobre Amor, Arte e futuro. Lauro e Theo relembram de Clara, mulher que amavam e que foi embora de Vitória. Lauro conclui ao fim dessa noite que somente com a sua morte ele terá paz. "Amantes constantes" certamente é uma inspiração estética para o filme: rdado em 16 mm, preto e branco e com interpretações encenadas que para mim mais parecem teatro. A cultura européia não se adapta ao universo do Sudeste brasileiro, e esse exercício hiper existencialista sôa artificial. Tematicamente, vejo mais o clássico de Louis Malle, "30 anos essa noite", quando um homem decide acabar com a sua vida. Sou do partido de que todos os filmes são válidos, e aqui, o exercício dos cineastas/cinéfilos surge como uma brincadeira de experimentação. O que é de fato, imperdoável, é que um filme que se propõe a um hermetismo, tenha exatos 2:03 horas de duração. Impossivel não ficar entediado. Tivesse meia hora a menos teríamos muito mais afalar desse bom drama, mas exaustivo para qualquer espectador.

A assassina

"Nie yin niang / The assassin", de Hou Hsiao Hsien (2015) Vencedor do Prêmio de Melhor Diretor em Cannes 2015, "A assassina"gerou grande curiosidade entre os cinéfilos quando foi anunciada a sua produção. Isso porquê o Diretor Hou Hsiao Hsien é mais conhecido pelos seus filmes introspectivos, muito em função da reverência que ele faz ao cinema de Ozu. "Café Lumiere", "O balão vermelho" são exemplos desse cinema lúdico e extremamente minimalista. Em "A assassina", pela primeira vez Hsien trabalha com o gênero das artes marciais. Mas engana-se que ele tenha feito um "Tigre e o dragão", ou "O clã das adagas assassinas". O seu foco não é a ação, apesar de er umas belas cenas de combate. O que interessa é o drama, o conflito interno da personagem de Yinniang ( Qi Shu, que já trabalhou com Hsien em "Tr6es tempos" e com Jackie Chan e na franquia "Carga explosiva). No Séc 9, durante a Dinastia Tan, Yinniang é enviada, aos 10 anos de idade, para as mãos da freira Jiaxin, que a treina para ser uma assassina. Durante uma missão, Yonniang falha: vendo a sua vitima abraçada ao filho pequeno, ela desiste de matá-lo. {Por conta dessa fraqueza humana, Jiaxin a envia até Weibo, cidade onde Yinniang nasceu, com a incumbência de matar o seu primo, que outrora haviam se apaixonados e impedidos de se amar pelos pais de Yinniang. Agora, ela precisa decidir se cumpre a sua missão, ou se deixa mais uma vez o seu coração comandar as suas ações. Hou Hsiao Hsien realiza aqui um filme belíssimo, com fotografia exuberante de Pin Bing Lee (um dos fotógrafos de "Amor à for da pele", de Wong Kar Wai), Direção de arte, figurino e trilha sonora exuberantes. O seu filme tem um ritmo extremamente lento, e recomenda-se que quem for assistir ao filme, lembre-se que é o mesmo Cineasta de "Café Lumiere". No entanto, as suas cenas de ação são dinâmicas, mas nem dá para comparar com as coreografias malabarísticas dos filmes de Zhang Yimou. Muitos planos longos, fixos e com panorâmicas, uma marca até do cinema de Mizogushi em "O intendente Sancho" e "Ohayo". Planos gerais e muito raramente, fecha-se em closes. É um cinema de observação, que obriga o espectador a olhar para tudo o que está no quadro. Em Cannes o filme foi ovacionado e considerado por muitos críticos, o melhor do Festival. Eu adoraria ter gostado mais do filme, mas o ritmo e a quantidade de personagens e sub-plots me cansaram um pouco. Mas vale ser visto pela sua imponente imagem cinematográfica. Nota: 7

Operação Big Hero

"Big Hero 6", de Chris Willians e Don Hall (2014) Levei tempo para assistir a esse " Big Hero 6", talvez por preguiça mesmo. O tema e os sub-plots me lembravam demais " Como treinar o seu dragão". Mas com o Oscar de animação vencido em 2015, resolvi arriscar. Junção das forças da Disney com a Marvel, e' um início de uma franquia sobre super heróis para a garotada. Na cidade de Sanfrokyo ( junção de São Francisco e Tokyo, as culturas e etnias se misturam pacificamente. O menino Hiro é um criador de robôs para lutas. Ele e seu irmão Tadashi são órfaos e moram com a tia. Um dia, após um acidente, Hiro herda um robô de bom coração (Baymax) . Junto de seus amigos, Hiro junta forças e dá um upgrade em Baymax para que, todos juntos, acabem com um violão responsável pela travessia que destruiu a vida de Hiro. Curioso que o nome Hiro seja semelhante ao inglês Heroe, e é isso o que o menino deseja ser. Boa direção, apesar da primeira parte do filme demorar muito para acontecer e quase me afugentar da história. Mas lá pelo meio ele cresce e vira o típico filme Disney sobre redenção e transformação. Tecnicamente perfeito, e o desfecho é emocionante. Não é original, mas garante uma boa sessão da tarde. Nota: 7

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O final da turnê

"The end of the tour", de James Pondsolt (2015) O cineasta James Pondsolt ficou famoso ao vencer o Grande prêmio do júri em Sundance 2013 com o drama independente "O maravilhoso agora", que lançou os jovens talentos Milles Teller e Sharlene Woodley. Agora com " O final da turnê", ele retrata os cinco dias de entrevista entre o repórter David Lipsky (Jesse Eisemberg" e o escritor do fenômeno literario "Graca infinita", David Foster Wallace ( Jason Segel). O filme começa em 1996 quando David Lipsky recebe a notícia do suicídio do escritor. Voltamos então 12 anos antes, data da entrevista. Através de uma personalidade excêntrica, Foster esconde uma figura depressiva. Bela direção, excelente performance da dupla que ainda inclui coadjuvantes de luxo como Joan Cusack em divertido papel. Trilha sonora excelente do mago Danny Elfmann. O filme é bastante verborrágico e cansa um pouco, e nem possui reviravoltas de narrativa. E' um filme de atores, e nisso o filme está muito bem servido. Nota: 7

Anomalisa

"Anomalisa", de Charlie Kauffman e Duke Johnson (2015) Primeira animação do roteirista e cineasta Charlie Kauffman, famoso pelos roteiros de "Quero ser John Malkovich", "Adaptação", "Brilho eterno de uma mente sem lembrança"e "Sinedoque Nova York", esse último também assinando a direção. Em comum em todos os seus filmes, a epopéia psicológica e bizarra do seu protagonista, sempre no limiar entre a razão e da loucura. O mais incrível para mim é que, a medida que o tempo vai passando, mais elementos eu vou descobrindo sobre esse filme, riquissimo em detalhes e alegorias. Michael (a voz de David Thewlis) é um escritor de livros best seller de motivação pessoal e profissional. Casado e com filho pequeno, ele é um homem infeliz, apesar de escrever sobre auto-ajuda. Durante uma de suas viagens dando palestra, ele vai parar em CIncinatti. Chegando lá, ele liga de imediato para uma ex-namorada, abandonada por Michael no ápice da relação. Durante o encontro, sabendo de suas reais intenções, ela o abandona. No hotel, Michael conhece Lisa ( voz de Jennifer Jason Leigh), uma fã que veio para sua palestra. Os dois se conhecem e Michael enxerga ali a possibilidade de mudança radical em sua vida. Brilhante exercício de roteiro, onde por vários momentos enxerguei a relação realista entre os personagens de "Amor", de Michael Haneke. O filme impressiona justamente pela seu naturalismo espontâneo, é incrível como Kauffman consegue criar diálogos tão triviais sobre um casal que acaba de se conhecer. Diálogos que passeiam entre o lírico e o patético, na antológica cena de Lisa cantando "Girls just wanna have fun", de Cindy Lauper. É clichê a gente falar que Kauffman é criativo, mas caramba, de onde ele tira tantas idéias geniais é foda! Um gênio! O filme, restrito para adultos, inclui até mesmo uma linda cena de sexo. A animação, do outro Diretor Duke Johnson, lembra um pouco os bonequinhos do Thunderbirds, porém mais bem manipulados. O filme ganhou no Festival de Veneza 2015 o Grande prêmio do Juri, com louvor. Nota: 8

A colina escarlate

"Crimson Peak", de Guillermo del Toro (2015) "Rebecca", de Hitchcock encontra " Vestida para matar", de Brian de Palma e culmina com " Kill Billi" de Tarantino. Nessa mistura pop ainda cabe todo o estilo elegante e violento de Del Toro, Diretor da obra prima " O labirinto do fauno". No sec 19, Edith Cushing( Mia Warsikowska) , filha de um milionário e órfã de mãe, se apaixona por um empreendedor inglês misterioso, Thomas ( Tom Hiddleton). Com a morte suspeita do pai, ela decide se casar com Thomas e se muda para sua mansao na Inglaterra. Chegando lá ela conhece a irmã de Thomas, Lucille ( Jessica Chainstain). O que ela vai conhecer aos poucos, e' que na mansão vivem fantasmas do passado que surgem para se vingar. Exercício de melodrama clássico mesclado do suspense que del Toro faz muito bem. Excelente fotografia, direção de arte, figurino e trilha sonora, bem Hollywood anos 40. O clima e atmosfera compõem com perfeição o que o roteiro pede. Ótimos efeitos, mesmo que usando alguns recursos clássicos de cinema mudo. O elenco está brilhante, fazendo valer aquela interpretacao bem melodramática dos anos 30 e 40. Uma diversão para os mais velhos, pois a garotada irá reclamar do ritmo lento do filme. O desfecho é antológico e o filme reserva alguns gritos para os espectadores. Nota: 8

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O clã

"El clan", de Pablo Trapero (2015) Vencedor do Prêmio de Direção em Veneza 2015, o argentino Pablo Trapero, realizador dos excelentes "Carancho", "Elefante branco"e "Leonera", se apropria da história real da família de Arquímedes Puccio para narrar um drama tenso sobre lealdade e possessividade. Arquímedes Puccio era um Agente de informação da época da ditadura, habilitado em sequestrar pessoas consideradas nocivas à sociedade. Com o fim do regime ditatorial, Arquimedes resolveu continuar a ação dos sequestros, sendo que dessa vez, pedindo resgate e ao final do pagamento, matar suas vítimas. Para isso, ele tem como cúmplices os seus filhos, entre eles, Alejandro, um jogador de futebol promissor. Como sempre, Trapero é muito habilidoso com o uso da câmera, em cenas de tirar o fôlego, principalmente a magistral cena final. O elenco, formidável, está excelente, com destaque para Guillermo Francella, no papel de Arquimedes ( a caracterização dele está incrível) e Peter Lanzani, no papel do conflituoso filho Alejandro. Toda a reconstituição de época, a trilha sonora, figurinos, evocam com precisão os anos 80, se assemelhando ao requinte visual e à narrativa de "Zodíaco", de David Fincher. Nota: 8

domingo, 11 de outubro de 2015

A travessia

"The walk", de Robert Zemeckis (2015) Biografia do equilibrista francês Philippe Petit, que no dia 7 de agosto de 1974, atravessou ilegamente através de um cabo pendurado por ele e amigos, o vão entre as duas Torres gêmeas do World Trade Center. O filme narra a trajetória de Philipe em Paris, anos antes, a sua luta pela sobrevivência como artista de rua, a descoberta do malabarismo, relação com família, um treinador e a namorada, até a sua obsessão em atravessar as torres gêmeas, formando um grupo de amigos que o ajudam nessa empreitada. O 3D do filme ( recomendo muito assistir nesse formato ) é algo absurdo, é o tipo de 3D que eu adoro: quando os elementos "saem" da tela. Várias vezes o público saltava na cadeira. Principalmente na parte final, na travessia, o impacto do formidável efeito especial e pós produção dá uma sensação muito real de que estamos lá em cima com Philippe. O tour de force de Joseph Gordon-Levitt, que aprendeu a falar francês e a andar em cabo, sendo treinado pelo próprio Petit, me emocionou. Ele está muito emocionado e isso é visível em sua performance. Um assombro. O restante do elenco, com exceção de Ben Kingsley, é formado por jovens atores franceses, desconhecidos do grande público. O roteiro foca mais no drama interno e pessoal de Philippe, por isso o filme vai em ritmo lento. Para quem espera um filme de ação, irá se decepcionar. O filme é uma metáfora sobre lutarmos pelos nosso ideais e jamais desistirmos. Excelente direção do mago Robert Zemeckis, um verdadeiro ás dos efeitos especiais e da manipulação da emoção do espectador, assim como Steven Spielberg. A parte técnica do filme : direção de arte, figurino, maquiagem e fotografia são excelente, incluindo a ótima trilha sonora de Allan Silvestri, evocando elementos dos anos 70 na melodia. Nota: 7

sábado, 10 de outubro de 2015

Beijei uma garota

"Tout premiere fois", de Maxime Govare e Noémie Saglio (2015) Escrito e dirigido pela dupla de realizadores franceses, "Beijei uma garota" é uma comédia romântica polêmica: o tema que ele propõe é uma volta ao armário, ou seja, o gay que assume que é hetero. Jeremie e Antoine são namorados e decidem anunciar que irão se casar. A família e amigos de ambos exultam a união. Mas uma noite, Jeremie acorda e descobre que fez sexo com uma linda sueca. A partir desse momento, sua vida se transforma: ele percebe que ele adora mulheres e é apaixonado por ela. Como anunciar esse fato para seu namorado? Com essa premissa que com certeza provocará a ira de gays politizados, quem conseguir abstrair o politicamente "correto"irá se divertir com um filme simpático, bobinho mas com pitadas safadas de erotismo, incluindo nudez frontal masculina e muita sacanagem. A trilha sonora é uma delícia, contando com uma abertura antológica ao som de "Last train to London", do Electric light orquestra. O elenco é divertido e bonito, e as piadas giram quase todas em torno dos clichês gays e do machão. É para assistir e esquecer assim que acabar o filme, mas tá val;endo o passatempo. Ainda mais sendo um filme francês, com lindas locações, incluindo um desfecho em Estocolmo. Nota: 7

The lobster

"The lobster", de Yorgos Lanthimus (2015) Grande vencedor do Prêmio do juri em Cannes 2015, o filme do cineasta grego Yargos Lanthimus, mesmo realizador de "Alpes" e "Dentes caninos", é uma fábula triste sobre relacionamentos. Assim como em "Os cinco sentidos" e "Nunca me deixe", mostra um futuro distópico onde Amar alguém pode ser tão perigoso quanto odiar. Em uma sociedade que não sabemos o nome, as pessoas solteiras são enviadas para um hotel e lá, elas tem 45 dia para se apaixonarem por alguém que tenha as mesmas características de personalidade. Se nesse prazo não se formar um casal, a pessoa é transformada em um animal de sua preferência e nunca mais voltará para forma humana. Colin Ferrel interpreta David, que se tornou viúvo a pouco tempo e é encaminhado até o hotel. No seu caminho, ele irá se deparar com as pessoas mais bizarras que ele já viu em sua vida. Uma direção extremamente criativa, com um roteiro formidável e ensandecido escrito pelo próprio Lanthimus. Um pouco de Terry Gillian, Lars Von Triers e Bunuel fazem desse filme rodado na Irlanda uma experiência inesquecível. Todo o elenco está incrível na composição de personagens dificílimos: Além de Farrel, temos Lea Sedoux, Rachel Weiz, John C Reilly e Ben Wishaw em tipos estranhissims. O grande barato dessa história surreal é que a gente não faz a mínima idéia de como vai acabar. Imperdível. Nota: 9

Campo Grande

"Campo Grande, de Sandra Kogut (2015) Após o seu premiado "Mutum", que ganhou Melhor filme no Festival do Rio de 2007, a cineasta e roteirista Sandra Kogut volta novamente ao tema da relação conturbada entre pais e filhos. Em "Campo grande", uma mulher abandona os 2 filhos pequenos no prédio da ex-patroa em Ipanema. Sem saber o que fazer com elas, Regina ( Carla Ribas), que já tem uma relação conflituosa com sua filha adolescente ( Julia Bernat) se desespera, pois ela já não tem afeição por ninguém mais em sua vida, muito menos 2 crianças. Entre tentativas de localizar a mãe e deixá-las em um orfanato popular, Regina vai se transformando. Rodado na cidade do rio de Janeiro tomado 100 por cento por obras, Sandra Kogut aproveitou esse cenário caótico para falar sobre mudanças. Regina, destemida e insegura, é uma mistura de Gloria, a personagem épica de Gena Rowlands em "Gloria", de John Cassavettes, e Isadora ( Fernanda Montenegro), em "Central do Brasil". Todas duronas, insensíveis e no final, sucumbem ao humanismo das crianças. De ritmo lento, e olhar documental que Sandra kogut trabalha, o filme vai na linha do naturalismo. Carla Ribas e todo o elenco foram preparados por Fatima Toledo e é visível a construção de personagens ali. Um bom drama, que caminha lentamente, sem pressa, trazendo uma mensagem de libertação, mesmo que em momentos de caos e crise.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Aspirantes

"Aspirantes", de Ives Rosenfeld (2015) De imediato essa produção independente me remeteu aos filmes dos cineastas belgas Dardenne, de quem sou enorme fã. Trabalhando com o naturalismo típico dos filmes deles, Rosenfeld apenas se diferencia deles pela formalidade de sua câmera, na maioria das cenas fixa, em planos gerais e sem corte. Estilizado, o filme brinca com o foco e em várias cenas os atores ficam desfocados. A história me lembrou bastante o sub Pot do personagem de Vinicius de Oliveira em "Linha de passe", de Walter Salles. Aspirantes a jogadores de futebol profissional treinam sem receber nada. Junior (Ariclenes Barroso) inveja Bento( Sergio Malheiros), que é focado no treinamento. Quando Junior recebe a notícia de que sua namorada (Julia Bernat) está grávida, seu mundo se dissolve. Ó elenco do filme é cult voltado para atores de teatro. Além dos já citados, temos Guti Fraga, Julio Adrião e Karine Telles, a nova Darling do cinema de autor. O filme provoca um distanciamento enorme do espectador para com a narrativa do filme, o que me afastou da história em vários momentos. Adoraria estar angustiado com o drama de Junior, assim como estável com o de Marion Cottilard em " 2 dias e 1 noite", dos irmãos Dardenne. Ponto para a trilha sonora e para a fotografia, muito interessantes.

Através da sombra

"Através da sombra", de Walter Lima Jr (2015) Em 1961, Jack Clayton adaptou o livro de Henry James, " A volta do parafuso" e a transformou em obra prima do cinema, sendo considerado por Scorsese um dos 10 melhores filmes de terror de todos os tempos. O filme se chamou "Os inocentes" e teve Déborah Kaar como protagonista. Walter Lima Jr se apropria do livro e faz a sua versão, acrescentando novos fatos, mudando situações e tornando explícito tudo o que era sutil no filme de Clayton. Com Virginia Cavendish no papel principal, o filme deixa claro que as obsessões dos personagens giram em torno de sua sexualidade reprimida. Particularmente não gosto das alterações feitas em relação ao filme original, mas não deixa de ser curiosa a história se passar em uma fazenda de café decadente. Tecnicamente o filme é primoroso: fotografia de Pedro Farkas e direção de arte de Clovis Bueno. Muito bem vinda também a decisão de Lima Jr partir para um Cinema de gênero, no caso o suspense psicológico, raro na filmografia brasileira. Destaque para a performance de Ana Lúcia Torres no papel da empregada da mandão.

Eu, você e a garota que vai morrer

"Me and Earl and the dying girl", de Alfonso Gomez-Rejon (2015) Misture no mesmo bolo "As vantagens de ser invisível", "A culpa é das estrelas" e "Rebobine por favor", Acrescente a essa receita um Cineasta cinéfilo, amante de filmes estrangeiros e que trabalhou como Assistente pessoal de Mestres como Inarritu, Scorsese e Robert de Niro. "Eu, você e a garota que vai morrer"foi o grande Vencedor em Sundance 2015, de onde saiu com os prêmios do Júri e do Público. Adaptado do livro de Jesse Andrews, o filme narra a história de Greg, um jovem estudante do ensino secundário, prestes a prestar exames para a Faculdade. Greg é o tipico nerd de poucos amigos. Graças a seus pais, ele tomou gosto por filmes estrangeiros e junto do seu melhor amigo Earl, eles filmam versões em curta de clássicos do Cinema europeu e americano. Um dia, sua mãe lhe diz que uma aluna da escola, Rachel, foi diagnosticada com leucemia. Ela pede para que ele se aproxime dela por piedade. De início recluso, Greg e Rachel logo se afeiçoam e se tornam amigos. Earl apresenta a ela os filmes que eles fizeram e ela se diverte. No entanto, o tratamento com quimioterapia não está mais funcionando. Essa comédia dramática é um grane achado, o famoso gênero "feel good movies", daqueles que a gente sai do cinema com a alma elevada. A direção é muito criativa, fazendo valer de recursos de fantasia para dar asas à imaginação dos amigos. As cenas com as paródias dos filmes são imapagáveis. O trio de atores é sensacional, e o filme dosa muito bem a mistura de gêneros. O desfecho é avassalador. Um filme delicioso e sensível que com certeza fará o coração de todo mundo falar bem alto. Nota: 8

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Nise- O coração da loucura

"Nise, o coração da loucura", de Roberto Berliner (2015) Raras vezes o Cinema Nacional realizou um filme que unisse com tanto primor o entretenimento e a Arte . Baseado na história da Psiquiatra Nise da Silveira, que nos anos 40, em um Centro psiquiátrico do Rio de Janeiro, se revoltou contra os métodos usados para " curar" os pacientes considerados como doentes crônicos e incuráveis. Os tratamentos eram a lobotomia e choque elétrico. Contra o uso da violência, Nise passou a trabalhar com os pacientes fazendo uso da terapia ocupacional, como pintura, música, relacionamento com animais, sempre considerando-os como pessoas, chamando-os de clientes, e não de pacientes. Fotografia belissima de André Horta e uma direção de arte e figurino discretos que não querem brigar com o drama narrado. Ó elenco inteiro é excepcional. Falar do trabalho de Glória Pires é redundante. Todos muito verossímeis nos seus papéis de esquizofrênicos, que cheguei a pensar que eram internos de verdade. Parabéns ao cineasta que soube trabalhar extraordinariamente com os seus atores. Obrigatório e necessário.

Órfãos do Eldorado

"Órfãos do Eldorado", de Guilherme Coelho (2015) Adaptação da obra literária de Milton Hatoum, considerado o maior romancista Amazonense e também autor de " Dois irmãos", minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho. Em 2003, o cineasta americano independente Vincent Gallo dirigiu o polêmico " Brown Bunny". No filme, um homem vaga no mais profundo existencialismo depressivo em busca de uma mulher, e ao encontrá-la, se demonstra incapaz de mostrar afeto. Em " Órfãos do Eldorado", acompanhamos a história de Arminto ( Daniel de Oliveira), um jovem que volta para o Para para tentar reatar laços com seu pai, Empresario outrora rico e hoje falido. Na casa também mora Florita (Dira Paes), mescla de amante e empregada que iniciou Arminto no sexo. No entanto ele não consegue se afeiçoar ao pai e acaba saindo em busca de uma jovem cantora de brega que ele vou em uma casa noturna (Mariana Rios). Arminto tem certeza de que ela será a resposta de muitos de seus questionamentos que tem atormentado a sua vida. O filme tem brilhante fotografia de Adrian Teijido, que valoriza as belas locações. Mas o roteiro peca ao não envolver o espectador. De narrativa fria, confusa, e com personagens sem carisma, o filme se limita a mostrar imagens chavão do Norte do País, já vistos em inúmeros filmes.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Dope

"Dope", de Rick Famuyiwa (2015) O cineasta Rick Famuyiwa, filho de imigrantes nigerianos, tem um currículo de longas independentes com protagonistas negros. Agora, com "Dope", vem a consagração em vários Festivais, entre eles o de Sundance, de onde saiu com um prêmio técnico de edição. Impossível não ver o filme e não associa'-alo o tempo todo ao Cinema de Spike Lee, principalmente os seus filmes dos anos 80 e 90, como "Faça a coisa certa" e " She's gotta have it". Em uma mistura de drama social, comédia e até policial, Rick Famuyiwa cria um delicioso painel pop da cultura rapper dos anos 90 até os dias de hoje, muito bem fotografado e com ótimos atores. Os seus 3 protagonistas, os amigos Malcom, Jib e Diggy estudam em uma escola secundária e são apaixonados pela cultura rapper dos anos 90, se vestindo como tal. O sonho de Malcom é entrar em Harvard, mas é desaconselhado pelo seu conselheiro. Um dia, Malcom conhece um traficante que pede para que Malcom convide uma jovem para uma festa. Ela aceita o convite, contanto que Malcom também vá. Assim , os 3 amigos frequentam a festa, porém na alta madrugada, traficantes rivais a invadem e provocam corre corre. O traficante, Dom, na correria, coloca drogas e uma arma na mochila de Malcom, que depois fica sem saber o que fazer. Muito bem dirigido, super pop e moderno na concepção técnica e artística, o filme ainda tem uma trilha sonora espertíssima. Talvez a duração tenha uns 20 minutos a mais, dando a impressão do filme não acabar nunca. Mas no final, fica um gosto de ter visto algo divertido, mesmo que sem originalidade. Nota: 6

Califórnia

"California", de Marina Person (2015) Nos anos 80, o cineasta e produtor americano John Hughes se popularizou ao fazer um retrato realista dos adolescentes americanos, principalmente em relação à perda da virgindade, conflitos amorosos e familiares, ao som de hits da época. Em 2011, a cineasta Rosane Svartman realizou "Desenrola", o seu filme sobre o olhar adolescente dentro dos mesmos temas. A ex vj da Mtv e filha do cineasta Luís Sergio Person, Marina Person, estreia no longa de ficção fazendo um retrato semi autobiográfico da sua adolescência, ao lado de amigas inseparáveis, discussões familiares e amores conflitantes. Ao som de The cure, Echo And The bunnymen e os nacionais Metro e Blitz, a personagem Estela (Clara Gallo) expõe seu desejo de visitar seu tio ( Caio Blat) na California. Mas os sonhos vem por água abaixo quando o tio do nada, resolve voltar ao Brasil. Logo ela descobre qie ele é portador do HIV, e essa informação muda o seu ponto de vista perante o mundo. Com um ótimo elenco cult representado pela excelente Gilda Nomacce, Virginia Cavendish e Paulo Miklos, mesclado a jovens atores o filme é uma simpática porém irregular homenagem a uma geração que, antes da Internet, olhava nos olhos e dizia a o que queria, Para os nostálgicos, será uma festa reviver tanta música boa na trilha sonora. A fotografia suja de Flora Dias ajuda a compôr a atmosfera da época. Quanto ao roteiro, lamento que a Cineasta não tenha aproveitado mais do personagem de Caio Blat, que poderia render muito, muito mais. A participação dele é tão pequena, que fica difícil entender de onde vem tanta paixão da menina por ele.

domingo, 4 de outubro de 2015

O clube

"El club", de Pablo Larrain (2015) Pasmo, atônito. Assim fiquei ao sair da exibição desse filme chileno que me provocou indignação e que venceu em Berlin o Grande prêmio do Júri. O talento extraordinário de todo o elenco, impecável, e a direção precisa e minimalista de Pablo Larrain, conferem a esse filme um status de obra prima. O roteiro co escrito por Larrain incomoda, e flerta com o perigo, o desejo e o proibido dentro dos âmbitos da religião católica. 4 padres encontram-se confinados em uma casa afastada do centro. Junto deles, mora uma irmã, que cuida de todos eles. O crime dos padres: sao pedófilos e, condenados pela igreja, obrigados a passar o resto da vida escondidos. Um dia porém chega um jovem que acusa um padre de te-lo seduzido quando criança, e instaura-seu entre eles um clima de insegurança e medo. Um filme obrigatório para Cinefilos e para atores e diretores, para aprender com quem sabe como conduzir uma trama de forma elegante e sem excessos, usando como narrativa um tema polêmico. Nota: 10