domingo, 4 de outubro de 2015

Perdido em Marte

"The martian", de Ridley Scott (2015) Devo ser o Cinefilo mais chorão do mundo, pois me debulhei em lágrimas nesse filme baseado no livro de Andy Weir. Um primor de roteiro, fotografia, edição, trilha sonora, atuação e de direção, provando que Ridley Scott ainda tem muito para surpreender o seu público. Essa obra prima é muito envolvente e comove de tal forma que deixa o espectador refletindo sobre a sua existência e sobre decisões feitas na vida. O mais importante: mesmo que a decisão tenha sido errada ou precipitada, sempre há chance de remediar. Um mega elenco de bambas, capitaneado por um Matt Damon na interpretação de sua vida, curiosamente com um personagem que se assemelha demais com o de Sandra Bullock em "Gravidade". Jessica Chainstain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Sean Bean, Chiwetel Ejiofor e outros menos conhecidos mas tão bons quanto, criam um arsenal de personagens memoráveis e apaixonantes. Durante uma missão em Marte, uma tripulação precisa sair às pressas por conta de uma tempestade. Mark (Damon) se acidente e dado como morto, e' deixado para trás. No entanto ele está vivo, e precisa descobrir uma forma de sobreviver ali no planeta. Muitas cenas antológicas e humanas que ficam divertidas ao som de uma trilha sonora disco recheado de Donna Summer, Abba e Glória Gaynor. Absolutamente imperdível! Nota: 10

Os irmãos Lobo

"The wolfpack", de Crystal Moselle. Quando digo que a vida profissional é composta de 3 elementos: Talento, Sorte e oportunidade, muita gente discorda de mim. Mas esse filme é justamente isso. A documentarista Crystal Moselle, no ano de 2010, havia acabado de se graduar na New York Film Academy of Visual Arts. Andando pela First Avenue, ela observou 6 jovens caminhando, todos vestidos de terno preto e óculos escuros, como se fosse uma reeencenação de "Cães de aluguel", de Tarantino. Curiosa, ela se aproximou dos jovens e descobriu algo que nem o melhor roteirista do mundo ousaria escrever: Os 6 eram irmãos, e durante 14 anos, foram confinados no apartamento onde moravam em um conjunto habitacional de NY, obrigados a permanecerem lá, junto da mãe deles e da outra irmã. O pai, um peruano que tem ideiais contra o Governo e a sociedade, se recusava a trabalhar e impedia os filhos de irem para as ruas para que eles não se envolvessem com drogas e pessoas corruptas. Desde crianças, eram foram educados pela mãe e qualquer contato com o mundo exterior foi feito através de filmes que eles assistiam na Tevê. Assim, podemos dizer que o Cinema salvou a vida de todos eles, caso contrário teriam todos enlouquecidos ( a irmã tem sinais de demência). Os irmãos improvisaram objetos de cena, cenários e figurino e assim passaram anos se divertindo representando cenas de filmes famosos. Um dia, em 2010, por um descuido do pai que deixou a porta aberta, um dos irmãos foi para a rua vestido do serial killer Michael Meyers e foi imediatamente preso e levado a um hospital psiquiátrico. A partir daí, o mundo se abriu para os irmãos. Impossivel não se comover com a história dessa familia, e a paixão que a arte do Cinema trouxe para a vida deles ( inclusive o mais velho atualmente trabalha com cinema). As imagens são fortes, e é difícil acreditar que tudo aquilo foi real. Em pleno século 21!!! E no Centro de NY! O filme me lembrou bastante 2 produções: "O enigma de Kaspar Hauser", de Herzog, e "Colegas", de Marcelo Galvão". Do primeiro, vem a visão antropológica do selvagem aprisionado que, ao encontrar a civilização, se torna objeto de estudo. Do filme de Galvão, acompanhamos a historia de internos com síndrome de down que amam assistir filmes e quando fogem da instituição, reproduzem as cenas dos filmes na vida real. Um filme obrigatório para cinéfilos e para quem se comove com histórias tão incríveis de fazer cair o queixo. O que me fez falta, foi apresentar melhor a figura do Pai, evitando assim que a imagem dele fosse satanizada pelos filhos, esposa e pela platéia. Eticamente teria sido mais interessante. O Filme ganhou o grande prêmio do Juri em Sundance. Nota: 8

Streetkids united II- As meninas do Rio

"Streetkids United II- girls from Rio", de Maria Clara (2015) Poderoso e obrigatório documentário sobre um time feminino juvenil de futebol que é composto de meninas moradoras de comunidades da cidade do Rio de Janeiro. O filme foi gravado no ano de 2014 e mostra a luta e a garra dessas meninas, moradoras em áreas de risco, e que em momento algum baixaram a guarda para os problemas sociais que as sufocavam. Pelo contrário: lhes dava mais motivos para quererem vencer a Copa mundial de meninos de rua que aconteceu no Rio de Janeiro, meses antes da Copa oficial da Fifa. O lema da Ong Que suporta essa campanha da Copa de meninos de rua é: " Eu sou alguém". E essa frase ecoa na mente de todo mundo que assiste ao filme. Treinadas por um esportista estrangeiro, Philip, que abdicou de sua vida abastada para se dedicar a treinar crianças no mundo inteiro que vivem nas ruas ou em periferias, o filme mostra esse lado humano de pessoas que entendem que elas são peças chaves fundamentais para mudar o mundo. Muito bem editado, com deliciosa trilha sonora, o filme comove e faz pensar: o que falta para o governo prover as crianças do Brasil com educação, esporte e cultura, armas fundamentais para tirar as armas e drogas de suas mãos e substituir por livros e material esportivo? A cineasta tem esse olhar astuto e sensível, jamais piedoso e nem passando a mão na cabeça das meninas e na causa delas. Filme obrigatório para ser exibido em escolas e eventos educativos e sociais.

MIcróbio e gasolina

"Microbe et Gasoil", de Michel Gondry (2015) Deliciosa comédia sentimental, que fará a delícia de apreciadores de filmes com adolescentes que passam pela transformação da idade, como "Conta comigo"ou "As vantagens de ser invisível". Mas quando o gênio sonhador Gondry está no comando, tudo fica mais onírico. O filme narra a amizade entre duas crianças, Daniel (Ange Dargent), que dizem ser um retrato autobiográfico de Gondry, e Theo (Théophile Baquet). Daniel é o típico estudante que sofre bullying, sem amigos, e com família problemática. A mãe, Marie ( Audrey Tautou, discreta), vive deprimida, e seu irmão é integrante de uma banda punk. Nesse cenário desolador, resta a Daniel revelar seu talento desenhando. Um dia, um novo estudante surge na escola: Theo. Com o sue jeitão de bad boy cool, ele conquista Daniel. Mas dentro de casa, Theo também tem problemas: seus pais o desprezam. Ambos resolvem construir um carro/casa, e com ele, same andando pela França. O titulo do filme se refere aos apelidos dos personagens: micróbio porquê Daniel é praticamente invisivel e insignificante, e gasolina porquê Theo vive sujo de graxa e fedendo a combustível. O filme lembra um pouco o mood do recente filme de Jean Pierre Jeunet, "Uma viagem extraordinária", sobre um menino inventor que vai até uma feira de ciências sozinho pelas estradas americanas. Gondry dessa vez dirige de forma econômica e minimalista, sem os seus famosos exageros estilísticos e visuais. Tudo aqui é comedido, como um pequeno drama cômico. Nessa história que no fundo evoca uma imensa melancolia, pela tristeza interna de todos os personagens infelizes, Gondry remete a uma nostalgia meio anos 80. Várias cenas antológicas, entre elas a dos policiais que tiram self e a da feira popular. Gondry comprova ser um excelente diretor de atores jovens, já visto anteriormente no ótimo e pouco conhecido "Thw we and the I", todo ambientado dentro de um ônibus escolar americano. Os seus jovens são espontâneos, simples , sem aquele desejo de querer mostrar talentos excessivos. Os dois jovens atores são excelentes e muito carismáticos. Um filme que vale muito ser visto. Nota: 8

sábado, 3 de outubro de 2015

Green room

"Green room", de Jeremy Sauln (2015) Em 2013, o cineasta independente americano Jeremy Saulnier lançou na "Quinzena dos realizadores" em Cannes o filme "Blue ruin". Um drama de suspense, focado na vingança de um homem comum, o filme surpreeendeu à crítica, de onde sau com o Prêmio FIpresci. Em 2015, na mesma "Quinzena dos realizadores", Jeremy Saulnier lança "Green room". O filme fez barulho, mas mesmo tendo os seus méritos, não chega ao nível do seu filme anterior. Talvez porquê aqui, o filme não se leve tão a sério. Uma espécie de homenagem aos filmes B, aos filmes de gangues de sádicos, e porquê não, uma homenagem juvenil aos filmes dos irmaos Coen. Mescla de suspense e humor negro o filme narra a tragédia de uma banda punk de adolescentes, que vai parar em uma região inóspita para fazer uma apresentação para uma gangue de neo-nazistas ao custo de 350 dólares de cachê. Ao final do show, quando decidem ir embora, um dos integrantes testemunha um assassinato. A partir daí, a banda é obrigada a ficar no local, e descobrem que, além disso, precisam lutar pelas suas vidas. O elenco é mega cult: Temos 2 integrantes do filme da nova geração de Star Trek: Patrick Stewart, no papel do líder dos neo-nazistas, e Anton Yelchin, que interpretava Chekov. O filme é prato cheio para fãs de violência e matança, bem ao gosto de Tarantino. O sangue jorra aos borbotões. Porém, a primeira parte do filme avança lenta, sem grandes surpresas. E infelizmente, o roteirista trabalha com estereótipos: os jovens são burros e vivem agindo de forma estúpida. E os maus..ah, esses são muito maus. Melhor rir do que fiar tenso. Nota: 6

Beatriz

"Beatriz", de Alberto Graça (2015) Terceiro longa do Cineasta Alberto Graça e escrito por roteiristas consagrados como José Carvalho, Marcos Bernstein, José Pedro dos Santos e Ricardo Bravo, além do próprio Graça, é um filme que se apropria da linguagem do Cinema, do Teatro e da literatura para narrar uma história de amor. Não propriamente uma história de amor convencional, mas um amor doloroso que literalmente machuca os envolvidos, no caso, Beatriz ( Marjorie Estiano) e Marcelo ( Sergio Guizé). Ele, escritor. Ela, advogada. Assim como os personagens do clássico de Walter Salles, "Terra estrangeira", o casal abandona o Brasil e segue até Lisboa para ali, construir vida nova. A sensação de "estar" estrangeiro provoca um sentimento de solidão avassalador, e somente com o amor que os une eles conseguem sobreviver. Mas o filme começa justamente aí: na ruptura da relação dos dois, provocada pela crise criativa de Marcelo. Ele precisa escrever um novo livro, que vai sendo adaptado para uma peça de teatro. O problema é que ele não consegue trabalhar na obra e Beatriz, sentindo que pode perder o amado, se sacrifica e entra na personagem ficticia da história, para servir de inspiração para Marcelo. Tecnicamente o filme é primoroso: fotografia de Rodrigo Monte, locações estonteantes em Lisboa. É um filme muito elegante. Alberto Graça traz de volta para a filmografia brasileira um tema que há muito não se via no cinema nacional: o existencialismo. Através do Off de Beatriz, que costura o filme, acompanhamos o desmoronamento psicológico e moral das personagens. Um filme adulto e provocador, repleto de erotismo, que ao invés de provocar tesão, nos faz refletir sobre a nossa condição na sociedade. Remover

Zoom

"Zoom", de Pedro Morelli (2015) Dirigido pelo filho do Cineasta Paulo Morelli, ambos integrantes da Produtora O2 de Fernando Meirelles, que também produziu o filme. O filme é uma co-produção Brasil/Canadá e é um projeto ousado ao misturar gêneros: comédia, romance, ação, animação e erotismo. Ninguém poderá reclamar que falta culhão para Pedro Morelli: ele fez um filme totalmente subversivo, sem se prender a qualquer tipo de fórmulas. Pelo contrário, ele brinca com os clichês de todos esses gêneros e se diverte. A história é uma loucura só: Emma, uma jovem de baixa auto-estima que transa com um brucutu colega de trabalho, sonha em fazer implante de seios. Ela trabalha em uma pequena indústria que produz bonecas de tamanho natural para satisfazer desejos eróticos de clientes. Paralelo, ela desenha uma revista em quadrinhos, onde conta a história do cineasta Edward ( Gael Garcia Bernal), um realizador autoral que luta contra o sistema e a indústria Hollywoodiana e quer fazer o seu filme, contra a vontade da produtora. Temos também a história de Michelle ( Mariana Ximenes), modeloe atriz, protagonista do filme de Edward. Todas essas histórias se entrelaçam de forma metalinguistica, criando um grande caos criativo para todos os envolvidos. Filmado No Canadá e Brasil, conta com uma fotografia deslumbrante de Adrian Teijido, vencedor recentemente em Gramado com o filme "Um Homem só".

Betinho- A esperança equilibrista

"Betinho- A esperança equilibrista", de Victor Lopes (2015) Documentário produzido pela Documenta Filmes, faz um retrato comovente e revelador sobre Herbert de Sousa, o Betinho, figura chave na luta pela Cidadania no Brasil dos anos 60 até sua morte, em 1997. O filme traça um painel político, social e humano do irmão do cartunista Henfil e do músico Chico Mauro. A tragédia familiar que se abateu advém do fato dos 3 serem hemofílicos e terem sido contaminados pelo virus do HIV em uma transfusão de sangue. Mas o filme procura levantar a bola do Brasil e dos brasileiros e faz com que a luta de Betinho seja a luta do povo brasileiro por um País melhor. Riquíssimo em imagens, depoimentos de artistas e políticos ( Chico Buarque, Caetano Veloso, José Serra etc), o filme possui registro raro de Betinho falando sobre muitas coisas, mas o que realmente me fez cair em lágrimas foi quando ele, em exílio, declarou saudades do País e a falta que o quiabo, a farinha, o feijão faziam para ele. Amor e memória e isso. Ao final da projeção, focamos com a sensação que devemos muita coisa a ele, e a falta que uma pessoa como ele faz para o momento atual na política brasileira. Imperdível.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Gêmeos

"Geminis", de Albertina Carri (2005) Exibido na "Quinzena de realizadores" no Festival de Cannes, esse filme argentino provocou enorme escândalo por conta do tema tabu: a relação sexual entre irmãos gêmeos. Jeremiaz e Madalena são gêmeos e fazem parte de uma família burguesa argentina. A mãe é dominadora e rege a família com mãos de ferro. O filme narra o momento que o irmão mais velho vem celebrar o sue noivado junto de sua noiva espanhola. Dentro desse rouniverso aristrocrático e de ricos, a cineasta e roteirista Albertina Carri faz a sua crítica ao moralismo e hipocrisia vigentes na sociedade, assim como Pasolini fez em "Teorema", Bertolucci em "La luna" e Lucrecia Martel com "O pântano". O filme é chocante ao mostrar relações sexuais entre os irmãos, uma relação mais de desespero do que meramente por desejo. Uma união que procura juntar forças contra uma vida de marionetes, de mentiras. Um filme doloroso, de ótimas interpretações. A direção de Albertina é elegante, e o sexo é mostrado de forma fria, sem tesão. O ponto fraco é o roteiro que várias vezes, vai para o inverossímel apenas para poder contar uma história. Ou alguém acha normal deixar a porta do quarto aberta enquanto está transando com a irmã? Outro elemento ingênuo é ficar pontuando a trama com intervenções que façam os irmõas se sentirem culpados, como numa cena de telenovela óbvia, mostrando um personagem que descobre que a sua amada é sua irmã de sangue. Nota: 7

Chico-Artista brasileiro

"Chico- Artista brasileiro", de Miguel Faria Jr (2015) O cineasta Miguel Faria Jr tem uma trajetória curiosa: ele começou fazendo longas de ficção, de onde saiu a obra-prima "República dos assassinos", até o melancólico "Estelinha". É dele também a versão para cinema de "O xangô de Baker Street". Porém, foi no documentário que ele se reinventou. Após o sucesso de "Vinícius", ele traz outro mito da MPB, Chico Buarque. O próprio costura o filme dando um depoimento sobre a sua vida pessoal e artística, sua relação com os pais, a ex esposa Marieta Severo, com quem ficou casado 30 anos, os anos de exílio, os festivais de canção, a relação com grandes intérpretes e o mais curioso: ele vai atrás da história do meio irmão alemão em Berlin, fruto de uma relação de seu pai com uma alemã quando por lá esteve nos anos 30. Dessa história, saiu a matriz de seu último livro, "O irmão alemão". Entre um e outro depoimento, vemos cantores famosos dando as suas versões de clássicos de Chico. O filme é farto de imagens de arquivo, e no final, fica-se um retrato absolutamente comovente e histórico desse que é sem dúvida um dos maiores artistas completos do Brasil. As suas divagações sobre idade, tempo, morte, solidão, criação, memória, batem fundo na alma do espectador.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Cowboys da cocaína

"Cocaine cowboys", de Billy Corben (2014) Documentário ambicioso de 152 minutos, faz um retrato detalhado sobre a ascenção e queda dis traficantes latinos em Miami durante os anos 70 e 80, quando Miami foi considerado a cidade mais perigosa do mundo. Nos anos 70, Miami era um lugar para idosos e sem muita valorização. Mas a chegada de traficantes colombianos mudou o aspecto do lugar. Com o dinheiro do pó, a cidade se reergueu, se modernizou. Policiais, traficantes, pilotos de avião que carergavam drogas, amantes, assassinos de aluguel: todo tipo de gente dá depoimento aterrador e contundente sobre os anos mais violentos dessa região considerada a Casablanca americana: linda, mas perigosa. No inicio dos anos 80, uma embarcação enviada por Fidel Castro chega em Miami com os bandidos mais perigosos que existiam em Cuba. Sem ter como prendê-los, eles foram soltos e assim, a cidade multiplicou os crimes de estupro, assassinatos e assaltos. O Filme "Scarface" de Brian de Palma mostra historicamente essa chegada da embarcação, um "presente de grego" de Fidel. O filme relata a história de vários traficantes, e entre eles, a mais temida de todas, a colombiana Griselda Blanco, responsável pelo assassinato de mais de 200 pessoas em Miami e Nova York. Repleto de relatos, imagens de arquivo ( muitas imagens fortes inclusive, de gente com tiros e decapitadas) , é um documentário muito bem explicativo, porém repetitivo em determinado ponto. Vale como curiosidade, algo como uma versão remix de "O globo repórter". Nota: 6

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Everest

"Everest", de Baltasar Kormákur (2015) O cineasta islandês Baltasar Kormákur adora filmes baseados em histórias reais sobre personagens que viveram situações limite. Em "O Sobrevivente", de 2012, ele cria um tenso drama sobre um pescador islandês que sobrevive a um naufrágio e consegue sobreviver nas águas congeladas da Islândia. Em 'Everest", ele vai mais além: recria com detalhes o acidente que aconteceu no Everest, a montanha mais alta do mundo, em 1998, quando 4 pessoas morreram ao descer o pico. O filme faz uma crítica a grupos de expedição de esportes radicais que cobram uma fortuna de milionários para realizarem seus sonhos de atingir um risco máximo para as suas vidas. Em determinado momento do filme, um dos organizadores do evento da escalada pergunta aos participantes: "Porquê você quer escalar o Everest?"( considerando que entre 4 alpinistas, 1 morre). As respostas são as mais variadas possíveis, e nenhuma delas de fato consegue responder com um argumento mais contundente. Rob ( Jason Clarke) é o chefe do Grupo de uma das expedições. Ele é casado com Jan (Keira Knightley), que está grávida. Entre os milionários, está Beck ( Josh Brolin), americano casado com Peach ( Robin Wright) e em crise na relação, Doug ( John Hawkes), que precisa provar aos filhos de que é capaz de fazer algo na vida que o faça superar as expectativas, Guy ( Sam Worthington). Scott ( Jake Gyllenhaal) é líder de um grupo rival, e Helen ( Emily Watson) é a contato de base de Rob. O filme traz de volta um gênero de filme comum nos anos 70: os filmes catástrofe, onde se escalava pencas de atores famosos para fazerem pequenas cenas ao longo de um filme que dura quase 3 horas, e pior: o que todo mundo quer ver, a adrenalina, so acontece no terço final. E esse é o principal problema do filme: ele nunca engata, Para quem quer ver drama, vai se lambuzar de tanta chorumela melodramática envolvendo relações familiares. Para quem quer ação, vai faltar motivo: as cenas de efeitos não empolgam. O ritmo não é dinâmino e tudo é muito chato. Uma pena, contando o elenco mega star, com vários deles muito mal aproveitados. Em 2012, foi lançado um documentário chamado "O cume", onde através de histórias reais e imagens de arquivo, acompanhamos a tragédia de 11 alpinistas de várias nacionalidades que morreram ao escalar a 2a maior montanha do mundo. Esse dá de dez no filme de Baltasar Kormákur , que abriu o Festival de Veneza 2015 e foi recebido friamente por todos. Nota: 5

Now: in the wings on a world stage

"Now: in the wings on a world stage", de Jeremy Whelehan (2014) Documentário obrigatório para Atores e Diretores curiosos em investigar processos criativos, faz um registro do espetáculo teatral "Ricardo III", dirigido pelo cineasta Sam Mendes , de "Beleza americana", e protagonizada por Kevin Spacey, em 2012. O espetáculo foi conduzido pelo 'The bridge project": junção de produtoras americanas e inglesa, capitaneadas por Mendes e Spacey, com a finalidade de produzir peças clássicas unindo atores americanos e ingleses. "Ricardo III" foi ensaiado em Londres, e mostra, além dos primeiros ensaios, as apresentações da Companhia ao redor do mundo, durante 198 espetáculos que começou na Grécia e terminou em Nova York, passando por Beijing, Napoles, Sidney, Istambul, Doha e muitos outros lugares. O filme fala sobre um interesse conceito proposto por Mendes: Juntar atores que não se conheciam, de companhias teatrais variadas, e de métodos de interpretação distintos. Através de ensaios, ele cria uma união entre os atores, que de início sofreram a barreira cultural, e logo em seguida, formaram uma família que se envolveu por quase 1 ano juntos, diariamente. O filme entrevista elenco e equipe, que falam sobre o cansaço físico, o prazer de interpretar Shakespeare ( para muitos, pela 1a vez na vida), as viagens, as dificuldades de encontrar o personagem dentro da rotina teatral, as diferenças, o trabalho em equipe e claro, viagens inesquecíveis, deixando claro que formamos todos uma família durante a realização de um projeto. Spacey conduz o espectador em uma viagem criativa, e dá lições de comportamento do Ator no Teatro: por exemplo, ele diz aos atores que, tudo o que acontece no palco durante uma apresentação, faz parte do espetáculo. Se alguém ri durante uma fala sem querer, etc, isso deverá ser assimilado. Em determinado momento um ator , já no processo final das apresentações e com saudades da família, diz que a risada de uma espectadora o fez lembrar de sua filha e isso o fez se emocionar em cena. Sam Mendes também dá depoimento, mostrando como conheceu Kevin Spacey e como brigou pro ele para protagonizar "Beleza americana", contra a vontade dos produtores, que queiram alguém mais maisntream. São 19 atores, convivendo harmonicamente, Uma lição de profissionalismo e a sensação de que a vida do Ator é muito dura, porém prazerosa, e o trabalho, sempre em primeiro lugar. No final das contas, um filme bem melancólico, principalmente no final, já no desfecho das apresentações, quando a inevitável separação os faz pensar em quanto foram felizes juntos. Nota: 8

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Shaun, o carneiro

"Shaun, the sheep movie", de Mark Burton e Richard Starzak (2015) O carneiro Shaun surgiu como personagem de um epsiódio da famosa animação "Willian and Grommit", dos realizadores Mark Burton e Richard Starzak. A partir daí, devido ao sucesso, o carneiro ganhou uma série só sua, e agora, surge com esse longa, vencedor do Prêmio de melhor filme do Anima Mundi 2015. Um filme totalmente para todas as idades e que agradará desde os petizes até os adultos nostálgicos e cinéfilos, que verão muitas referências de filmes, de "Silêncio dos inocentes"a "ET". Shaun e seus amigos carneiros ficam entediados com a rotina comandada pelo dono fazendeirto e resolvem se rebelar, tirando um dia de férias. No entanto, essa rebeldia provocará um caos na vida de todo mundo, incluindo o cachorro Blatzer. O filme é hilário, tem gags impagáveis, a animação de massinha é sensacional e tudo é muito bonito. A trilha sonora é um primor, e a música título, "Feels like summer", provoca a nostalgia necessária para trazer lágrimas aos espectadores ao final da sessão. Nota: 8

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A queda

"The falling", de Carol Morley (2014) Escrito e dirigido pela inglesa Carol Morley, Drama ambientado na Inglaterra de 1969, mais precisamente em uma cidade do interior. Em uma escola de moças, duas amigas inseparáveis, Abbie ( Maxine Peake) e Lydia ( Maisie Willians, a Arya Stark de "Game of thrones) passam juntas boa parte do tempo delas. A mãe de Lydia é cabeleireira e atende suas clientes, mas com uma particularidade: ela tem agorafobia e não sai de casa. O irmão de Lydia namora Abbie. Um dia, Abbie desmaia e cai no chão, e esse incidente irá mudar a vida de todos a partir daí. Onírico e misterioso, o filme tem um clima que vai de "Picnic na montanha misteriosa", "If", e "Almas gêmeas", todos filmes que se passam em escolas onde o ensinio e os professores são rigorosos. O filme tem um roteiro muito confuso, e estranhamente, trabalha com tantos temas tabus que acaba no final sem dar qualquer tipo de explicação mais lógica para tudo o que acontece. É como se uma névoa misteriosa sobrevoasse o lugar e transformasse a vida de todos, que expõe os seus fantasmas internos para as pessoas mais próximas. Incesto, lesbianismo, histeria coletiva, é um vale tudo muito doido que infelizmente, não encontrou eco em uma direção e um roteiro mais consistente. Cansativo, confuso, é um desperdício do talento de Maisie Willians, que ainda nao encontrou o projeto certo de cinema. Ponto apenas para a fotografia, e a trilha sonora, diga-se de passagem, é um equívoco. Nota: 5

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Wendy e Lucy

"Wendy and Lucy", de Kelly Reichardt (2008) Vencedor de vários prêmios em festivais, e tendo a sua estréia no Festival de Cannes 2008, de onde saiu aclamado pela crítica, "Wendy e Lucy" é um melancólico retrato de uma geração desesperançada, fruto da recessão econômica que assola os Estados Unidos desde então. Wendy ( uma atuação extraordinária de Michelle Wiliians), é uma jovem que viaja em um carro 1988 com sua cadela Lucy e 500 dólares no bolso. Destino: Alasca, para poder trabalhar. No entanto, seu carro quebra no caminho, e presa na cidade de Oregon, ela resolve roubar um supermercado para poder economizar dinheiro. Resultado: ela vai presa e seu cão desaparece. Após pagar fiança, Wendy busca desesperadamente encontrar a sua parceira e única amiga. No caminho, ela vai se deparando com personagens em igual ou pior situação que a sua. Amargo olhar sobre uma América falida, o filme, dirigido por Kelly Reichardt ( mesma realizadora do também triste "Antiga alegria") faz uma produção de baixo orçamento e retira de Michelle uma de suas atuações mais poderosas. A bela direção, minimalista, retirando poesia de muitos momentos de silêncio, e a fotografia de Sam Levy, realçando o lado sombrio da crise econômica, trazem ao espectador uma sensação de lamento. Um personagem comum, com uma existência comum, e por isso mesmo, tão contundente. Um olhar típico dos irmãos Dardenne, que buscam na figura do marginalizado a força de seus filmes. Nota: 8

Antiga alegria

"Old joy", de Kelly Reichardt (2006) Produção independente americana de baixíssimo orçamento, e de acordo com a entrevista da cineasta, a equipe era composta de 6 integrantes, incluindo os 2 atores. Se é verdade ou nã, o lance é que o filme é um legítimo representante do "Mumblecore", movimento cinematográfico americano com orçamento mínimo. A história simples mas cheia de desilusão e melancolia, retrata o reencontro de 2 amigos que não se vêem a tempos e agora estão na faixa dos quase 40 anos. Kurt, que leva uma vida meio hippie, liga para o amigo Mark, que ele não v6e a muito tempo. ele descobre que Mark está casado, tem casa e a esposa está grávida. Kurt convida Mark para um camping de final de semana, e dessa forma, reatarem a amizade e atualizarem informações sobre a vida. Mark aceota, e durante a viagem, descobre que Kurt continua sem nada na vida, sem qualquer esperança em relação ao seu futuro. Um filme curtp, com 76 minutos, e com poucos diálogos. Muito da força do filme vem decorrente do silêncio, das belas locações na estrada e floresta e da discreta trilha sonora. A direção faz um registro quase documental desse reencontro de amigos. Pouca coisa acontece, os diálogos são poucos, e tudo se concentra em olhares e silêncios. Os 2 atores, que interpretam numa vibe naturalista, estão bem. O filme tem um tom de eterna tristeza, e o desfecho corrobora para essa sensação. Uma parábola aflitiva sobre a amizade e os seus desdobramentos. O filme ganhou vários prêmios em festivais independentes. Nota: 7

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Só Deus sabe

"Heaven knows what", de Ben Safdie e Joshua Safdie (2014) Como eu sempre digo, a vida depende de 3 fatores: Talento, Sorte e oportunidade. Arielle Holmes é uma jovem de 19 anos. Sem teto, viciada em heroína. Moradora de rua. Um dia, o cineasta Joshua Safdie caminhava pelas ruas fazendo uma pesquisa para o seu novo projeto, quando se deparou com Arielle na rua. Ele ficou instigado com aquela figura e a questionou se ela não poderia fazer parte do seu projeto. Passado um tempo, eles ficaram amigos e ele a motivou a escrever as suas memórias, que ficou chamado de "Mad love in New York City". Joshua abandonou o seu projeto original e convidou Arielle a protagonizar a sua própria história. E assim saiu "Só Deus sabe", um filme hibrido de documental e ficção, no melhor estilo de John Cassavetes: totalmente naturalista. Joshua e Ben filmaram muitas cenas com câmeras escondidas, e Arielle, aqui com o nome de Harley, convive nas ruas com viciados de verdade, misturados com atores. Essa mescla incrivel de não atores e atores confere uma energia raramente vista em filmes, pois o que está se vendo ali é a não representação. Mesmo quem é ator profissional teve que se anular totalmente em termos de atuação. Essa é a contribuição documental ao filme. Harley ( Arielle) mora nas ruas com Ilya ( O ator Caleb Landry Jones). Ambos viciados em heroína, passam os dias pedindo dinheiro e se picando nas ruas de New York. Porém Ilya maltrata Harley, e a instiga para que se mate. Um filme forte, obrigatório para atores que querem interpretar drogados. Para quem busca entretenimento, evite totalmente de assistir ao filme. O que vemos durante seus 94 minutos são cenas intermináveis de consumo de drogas, tentativa desesperada de sobreviver nas ruas e zero motivação para sair desse mundo. Não existe a mitificação do drogado, muito menos um olhar piedoso por parte dos realizadores, o seu grande trunfo. Arielle, por conta do filme, se internou em uma clínica de Rehab, estudou e agora está contratada como atriz em uma agência, participando inclusive de outras produções. Destaque para a fotografia de Sean Price Williams, que filmou quase tudo com lentes teleobjetivas. Ele é o querido dos independentes americanos, um ás de filmar com pouca luz em locações e interiores. Nota: 8

domingo, 20 de setembro de 2015

A lei do desejo

"La ley del deseo", de Pedro Almodovar (1987) Lançado em 1987, "A lei do desejo" impulsionou a carreira de Pedro Almodovar, que até então tinha em sua carreira filmes de baixo orçamento tecnicamente toscos, e restritos a um publico mais cinéfilo. Com "A lei do desejo"e o posterior "Mulheres a beira de um ataque de nervos", Almodovar ganhou o status de realizador de primeiro escalão, arregimentando um público que o CInema espanhol já estava quase perdendo ( mesmo com Carlos Saura, Bigas Luna, Fernando Trueba e outros, mas nenhum deles com tanto acesso ao público mundial quanto Almodovar). O filme, estrelado por Carmen Maura e Antonio Banderas, atores fetiches de Almodovar, é uma obra quase Nelson Rodrigueana. Traiçoes, amores roibidos, incesto, mudança de sexo. Vale tudo nessa trangressão alegórica escrita pelo próprio Almodovar, que na época provocou enorme escândalo pelo seu conteúdo e fortes cenas de homoerotismo. Pablo( Eusebio Poncela) é Diretor de teatro e Cinema. Gay, ele tem um amante, Juan, mas se separam. Na sua vida surge o tresloucado e sedutor Antonio ( Antonio Banderas), apaixonado loucamente por Pablo,a ponto de mater para provar esse amor. Tina ( Carmen Maura) é irmã de Pablo e atriz, e para culminar com a loucura, transsexual. Nessa salada vale fazer críticas ao Governo, política, instituição familiar, polícia e igreja católica. Amodovar distribui tiro para tudo quanto é lado. Revisto quase 30 anos depois, o filme mantém uma força dramatúrgica, que mescla gêneros tão distintos quanto drama, melodrama, comédia, filme noir e musical. A fotografia escura e a trilha sonora repleta de músicas pop dos anos 80 ajudam a dar esse clima decadente pop que Almodovar tanto venera. O elenco está sensacional, Carmen Maura antológica. Nota: 9

O que é o Cinema

e o Cinema
"What is Cinema?", de Chuck Workman (2013) Em 1986, Chuck Workman ganhou o Oscar de melhor curta por "Precious images", uma sucessão de cenas famosas de filmes contando a história do cinema. Ele também é responsável pelas montagens que são exibidas durante o Oscar, principalmente a sessão de homenagem a falecidos. Em 2013, ele realizou esse documentário, com a pretensão de entrevistar Cineastas e definir para o espectador o sentido do Cinema. O problema do filme é que Workman atira para todos os lados, e não mantém uma unidade de pensamento. Ora entrevista Cineastas autorais, experimentais, ora Cineastas independentes mais conhecidos do público, como Robert Altman, sem se aplicar a uma tese. O que realmente mantém o interesse para o espectador cinéfilo são as imagens de filmes, aquele momento que todo apaixonado pela noite do Oscar ama: ficar tentando adivinhar qual o filme da cena apresentada. Alguns depoimentos também são muito instigantes, mas o que realmente resume toda a questão é a de Jim Jarmusch: "se alguém disser que só existe uma forma de fazer Cinema, fuja dessa pessoa". Nota: 7