sábado, 23 de janeiro de 2016

Os deuses devem estar loucos

"The gods must be crazy", de Jamie Uys (1980) Clássica comédia Sul africana de 1980, o maior sucesso comercial do País até o momento. Seguindo a linha das comédias malucas americanas dos anos 60, como "It's a mad mad world", "Os deuses devem estar loucos" é um verdadeiro vale tudo. O filme conta a singela história de uma tribo africana que mora no deserto do Kalahari, em Botswana. A tribo, que jamais viu a civilização, vive feliz com o pouco que possuem. São sempre sorridentes, porquê todos se amam e eles desconhecem sentimentos relacionados à raiva, inveja, ciúmes. Todos são felizes com muito pouco. Um dia, um avião passa e o piloto joga pela janela uma garrafa vazia de Coca Cola. A garrafa cai na aldeia. Logo, todos começam a disputar a posse da garrafa julgando que ela tenha sido um presente dos Deuses. Entre eles começa a rolar a discórdia, até que o chefe decide que a garrafa deve ser devolvida para os Deuses. Xi, um dos integrantes da tribo, recebe a missão de seguir pelo deserto afora para devolver a garrafa. Paralelo, temos 3 outras histórias: a de uma jornalista sul africana que, cansada da vida moderna, aceita o trabalho de professora em uma aldeia do Botswana. Temos também um biólogo trapalhão que faz estudo sobre a vida animal e por último, um grupo guerriheiro que tenta tomar o poder, e fracassando, se escondem próximo à aldeia. Todas essas histórias e cruzam e são responsáveis pelo quiprocó que vai se sucedendo. Jamie Yus escreveu, produziu e dirigiu essa comédia. Por trás do humor, existe um discurso sobre a dicotomia homem selvagem X homem civilizado, e claro, quem é o mais civilizado: quem mora na aldeia ou quem vem da cidade grande? O filme também discute o governo na África, onde vários países são subjulgados por ditadores violentos, e a mensagem mais óbvia, a forma como a globalização e o merchandising avança sobre a vida de todo mundo. O filme ficou datado e envelheceu bastante, mas mesmo assim, confere muitos momentos hilários, mais por conta do bizarro das situações. O elenco é bastante amador, a dublagem é uma piada à parte e a tosquice de várias cenas conferem u charme extra ao filme. Sendo condescendente e entendendo que é um filme limitado em termos de produção e aparato de produção, dá para se divertir bastante. Quem estiver em busca de algo mais elaborado, irá se decepcionar. As paisagens são belíssimas, principalmente na cena final. A narração do filme também é um grande achado e uma grande diversão. Nota: 7

The program

"The program", de Stephen Frears (2015) Cinebiografia do ciclista americano Lance Armstrong, famoso pelo caso comprovado de doping que rendeu a devolução dos 7 prêmios que ele havia ganho de 99 a 2005 no Tour de France. O filme acompanha a trajetória de Armstrong desde 93, quando ele descobre ser portador de um câncer nos testículos e no cérebro que quase lhe custaram a vida. Por conta disso, ele se dedicou a lutar contra a doença e a criar uma Fundação que cuidasse de crianças portadoras da doença. A luta pela doença provocou em Lamce uma vontade de viver, e por conta disso, ele se dedicou ainda mais ao esporte. O filme apresenta a versão de que o médico Ferrari foi quem introduziu o Epo ( substância ilícita) para Lamce, e que a partir daí ele tomou em todas as competições. É um filme que trata sobre um personagem polêmico e ao mesmo tempo apaixonante. Lamce foi amado por milhões de fãs, e após a descoberta do doping, foi execrado pela mídia e por todos. Paralela à sua história, o filme apresenta a luta do jornalista David Walsh para provar o doping em Lamce. Stephen Frears é um dos cineastas mais famosos e premiados na Inglaterra, tendo dirigido clássicos como "Os imorais", "Ligações perigosas", "Minha adorável lavanderia" entre outros. Aqui, no entanto, Frears faz um filme apenas correto. Com um personagem tão rico, é incrível que o filme não seja emocionante nem suscite paixão. O ponto alto acaba sendo o excelente trabalho de Ben Foster no papel principal. Li em uma matéria que para dar mais veracidade à interpretação, Foster fez o programa de doping de Lamce. Guilhaume Canet, no papel de Ferrari, tem uma performance caricata, por conta de seu sotaque. O filme tem boas cenas de competição.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Experimentos

Experimenter", de Michael Almereyda (2015) Cinebiografia do psicólogo Stanley Milgram, famoso pelas experiências que ele praticava com voluntários nos anos 60 para provar que indivíduos coagidos para provocar atos de maldade acabavam cumprindo as obrigações que lhes eram demandadas. O experimento era uma forma de Milgram tentar explicar porque pessoas comuns praticavam atrocidades durante o regime nazista. Os voluntários ficavam em uma cabine e uma outra pessoa (na verdade um ator em comum num acordo com o pesquisador Milgram) era obrigado a responder perguntas. A cada resposta errada, o entrevistador voluntário dava descargas elétricas na outra pessoa. Essa pesquisa deu origem ao livro "Obediência à autoridade", que provoca até hoje polêmica E controvérsia entre psicólogos e pesquisadores. O filme fala também sobre outros experimentos ( inclusive o " Seis graus de separação" , que diz que seis pessoas conectadas são capazes de conhecerem milhões de pessoas ao redor do mundo) e a relação de Milgram com sua esposa Sasha. Peter Sasgaard e Winona Ryder interpretam Milgram e Sacha de forma correta. Winona já está uma mulher madura e Saasgard em determinado momento é prejudicado por uma barba pavorosa. A direção de Almereyda é ousada pois investe em cenários falsos, aplicados atrás dos atores ( não sei se foi um recurso meramente estilístico ou usado para baratear os custos). Ficou estranho é antiquado. Milgram fala para a câmera, em papo direto com o espectador. É um filme complexo, não é um passatempo. Para os que curtem filmes adultos. Nota: 7

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Amor por direito

"Freeheld", Peter Solett (2015) Adaptação do curta documentário vencedor do Oscar 2007 " Freeheld", de Cynthia Wade. O documentário narra a história real de Laurel Hester, policial que trabalhou exemplarmente por 23 anos para a Polícia de New Jersey. Laurel se casou com Stacey, uma moça mais jovem do que ela. Ambas compraram uma casa financiada e moraram juntas. Viveram assim felizes até o dia que Laurel descobriu que possuía um câncer no pulmão já em estágio terminal. Temendo a situação financeira da parceira, Laurel pede para que seja criada uma pensão em nome de Stacey, mas os Conselheiros do estado negaram, alegando de que a relação não é de um casal marido e mulher. Laurel começa então a sua luta pelos seus direitos civis, ao mesmo tempo que luta contra a doença. Juliane Moore interpreta Laurel, e Ellen Page, Stacey. Ambas estão excelente, e Juliane ao longo do filme vai definhando. Belíssimo trabalho de composição, semelhante ao de " Para sempre Alice", porém aqui fisicamente mais intenso. Michael Shannon interpreta seu parceiro na polícia e Steve Carrel, um Ativista gay que ajuda Laurel. É um filme correto, sem grandes sobressaltos, que vale obviamente pelo trabalho esforçado do elenco e pelo tema da igualdade civil. No mais, ele é um tanto burocrático e de ritmo lento. Para quem curte filme de tribunal, vai se esbaldar. Venceu o prêmio de melhor longa no Festival San Sebastian 2015. Nota: 7

Guerra

"Krigen", de Tobias Lindholm (2015) O cineasta e roteirista dinamarquês Tobias Lindholm tem um excelente currículo. Escreveu o roteiro do primoroso " A caça" e dirigiu o ótimo " Sequestro", que teve uma versão americana com Tom Hanks chamada " Capitão Philips". Em " Guerra", acompanhamos os dois lados de uma guerra: os soldados que lutam, e o soldado que em terra firme sofre um Bombardeiro de acusações de uma advogada de acusação. O filme parte da ótima premissa: como julgar um Comandante que durante um combate ordenou uma ação que tesourou na morte de 11 civis afegãos, com a finalidade de salvar um soldado dinamarquês? Quem tem a razão? Como julgar se a advogada não estava em loco e não sabe o que a mente de uma pessoa em situação de desespero age? Um pelotao dinamarquês se encontra em missão do Afeganistão contra os talibãs. Quando se encontram encurralados, o Comandante determina que se faça uma ação para salvar um soldado, mas não mede as consequências. Ele é obrigado a voltar para a Dinamarca e enfrentar um processo de guerra contra civis morros. Ao mesmo tempo, ele enfrenta uma crise familiar: sua esposa e três filhos sentem falta de sua presença, é uma possível prisão irá botar toda a relação água abaixo. O filme foi indicado para o Oscar de filme estrangeiro 2016. Particularmente, preferia que essa vaga fosse para o belga " O novíssimo testamento", um Filme brilhante com roteiro inteligente. " Guerra" tem boas cenas de ação, ótimos atores e bom roteiro. Mas a sub-trama me incomodou, levou o filme a um melodrama que deveria ter sido evitado e concentrar os esforços apenas no conflito moral da guerra e dos soldados envolvidos. A personagem da esposa é uma chata, e insensível. Nota: 7

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O bom dinossauro

"The good dinosaur", de Peter Sohn (2015) A Pixar e a Disney são quase sempre garantia de filmes que fazem a alegria de adultos e crianças. Porém, "O bom dinossauro", pelas várias matérias que li, parece ser o maior desastre de todas as produções já produzidas pela parceria. As críticas foram massacrantes, e a bilheteria foi aquém do esperado. Talvez a resposta para tamanho fracasso seja que o desenho é muito violento e zero humor para as crianças. Não existe os costumeiros personagens engraçados. Toda a trajetória do dinossauro Arlo é extremamente dramática. Ele perde seu pai em uma tragédia, e presencia dinossauros cruéis devorando outros bichos. Aliás, essa cena de um pterodáctilo devorando um bichinho é realmente inesperado e assustador. Fico imaginando as crianças pequenas e seus pais desesperados com tamanha crueldade. Eu nunca vi cena parecida em desenho infantil. Sinal dos novos tempos? A história é singela: um casal de dinossauros dá a luz 3 filhos.O terceiro a nascer é Arlo: tímido, amedrontado. O pai quer descobrir o paradeiro do animal que anda comendo a reserva da plantação da família. Arlo, secretamente, descobre que é uma criança humana quem está comendo. Arlo protege o menino, mas o pai dele pede para que ele vá atrás do menino para capturá-lo. No caminho, ensinando Arlo a não ter medo de nada, o pai acaba morrendo em uma enchente. O tempo passa. Arlo revê o menino e resolve matá-lo, culpando-o pela morte do pai. Porém, Arlo cai no rio e acaba se perdendo de casa. O menino ajuda Arlo nessa sua peregrinação e ambos acabam ficando amigos, enfrentando os perigos da floresta. Na verdade, a história parte da premissa de que o mundo pré-histórico não acabou e que os dinossauros dominaram o mundo, e os humanos, tornaram-se animais. Não achei o filme ruim. Mas não é o desenho que estamos acostumados a ver. É dramático, cruel, frio, e a emoção vem do amadurecimento de Arlo, que precisa enfrentar o seu medo da pior forma possível. A técnica da animação é incrível, e a ambientação parece ser real. Ponto pra técnica , e quanto ao filme em si, é uma pena que não tenha feito sucesso. Nota: 7

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Ouro, suor e lágrimas

"Ouro, suor e lágrimas", de Helena Sroulevich (2015) Documentário que faz um registro da chamada década de ouro da seleção de volei brasileiro, tanto masculina e feminina. Essa década vai de 2001 a 2012. Pegando imagens de arquivo e gravando depoimentos e imagens de treinamento das 2 seleções durante a estada deles no Centro de treinamento em Saquarema, meses antes das Olimpíadas de Londres em 2012, o filme mostra a garra e a determinação dos jogadores e dos treinadores de ambos os times. O filme começa mostrando imagens de arquivo de jogadores ainda nos anos 90, e a formação do time de ouro dos anos 2000, que une calouros e veteranos. Durante essa década, o Brasil venceu várias competições, sob o comando de Bernardinho no masculino, e Zé Roberto Guimarães, no feminino. Em relação ao time feminino, existia um estigma, propagado pela mídia, de que as jogadoras sempre amarelavam quando chegavam em uma final. Segundo as jogadoras, o Brasil não aceita ganhar um segundo nem terceiro lugar. Só o que vale é o Ouro. Esse mesmo sentimento é formalizado por Bernardinho quando o time masculino tira o segundo lugar em Londres. É quase que como uma derrota. Mas o que interessa mesmo no filme e que me motivou a divulgá-lo para as pessoas, mesmo para quem não curte esporte, é a mensagem que parece óbvia, mas que muita gente insiste em não levar a sério. Não existe vitória sem sacrifícios. Não existe o pódio sem luta, sem choro, sem dôr, sem grito. Tudo precisa ser batalhado, levado ao seu extremo. Ver a determinação dos esportistas, a rotina de exercícios cansativos, de machucados, de lesões, e mesmo assim, seguindo adiante, é muito comovente. Relatos de jogadores que sentem saudades da família, dos amigos, e mesmo assim, passam quase que o ano todo fora de casa, viajando. O técnico Bernardinho diz que esse é o preço pago para quem é muito bom, ara quem está num nível top de qualificação. Ou seja, difícil chegar lá, mais difícil ainda se manter lá. Vale assistir ao filme e refletir sobre o que queremos para a nossa vida profissional, e o que precisamos fazer para almejar nossos objetivos. Motivação é sempre necessário.

Almas gêmeas

"Heavenly creatures", de Peter Jackson (1994) Baseado na história real do crime cometido por Juliet Hulme e Pauline Parker em 1954 na cidade de ChristChurch, Nova Zelândia. O filme ganhou vários prêmios na época, incluindo Melhor direção no Festival de Veneza. Tamanho sucesso ajudou a lançar internacionalmente o nome do diretor Peter Jackson, e da jovem atriz Kate Winslet, aqui em seu primeiro papel, aos 16 anos de idade. Kate interpreta Juliet. Melanie Lynskey, também estreando, é Pauline. Pauline vive uma vida entediante. Seus pais administram uma pensão, onde alugam os quartos. Pauline estuda em um colégio católico e não tem amigas. Um dia, Justine é apresentada como a nova aluna da turma. Pauline de imediato se identifica com Justine, por conta de sua garra e determinação e por não se deixar subjulgar por outras pessoas. As duas se tornam grandes amigas. A relação se torna íntima, e os pais de ambas resolvem separá-las. Pauline arquiteta então um plano de assassinar a sua mãe, a quem ela considera como responsável por tudo de ruim que acontece em sua vida. Ótima direção de Jackson, que trabalha com o realismo e com o fantástico. Quando as duas amigas querem abstrair-se do mundo chato e moralista, elas se "Transportam" para o que elas chamam de 4o mundo, um lugar aonde elas realizam suas fantasias. Além do excelente trabalho das duas atrizes, o elenco como um todo também chama atenção pelo cuidado com que dão vida a seus personagens complexos. Sarah Peirse no papel da mãe de Pauline, está comovente. A cen final, brilhantemente executada, cria uma tensão insuportável, culminando em uma das cenas mais cruéis do cinema. Os efeitos especiais é que envelheceram com o tempo, mas a história é tão boa, que o espectador mais condescendente irá ignorar esse fato. Nota: 8

domingo, 17 de janeiro de 2016

Steve Jobs

"Steve Jobs", de Danny Boyle (2015) Escrito pelo roteirista Aaron Sorkin, de "A rede social", cinebiografia de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, "Steve Jobs" impressiona por tantos talentos que fazem do filme um grande acontecimento. A excelência da Direção de Danny Boyle, que consegue a proeza de trazer dinamismo a um roteiro onde tudo acontece nos palcos e nos camarins de um salão de eventos. O filme acontece em 3 tempos, antecedendo 1 hora a cada uma de suas apresentações de um novo produto: em 1984, lançando o Macintosh, em 1988, lançando o Next e em 98 lançando o Imac. Em todas essas apresentações, ele esbarra com as mesmas pessoas: o co-fundador da Apple, Steve (Seth Rogen), seu braço Direito e marketeira Joanna (Kate Winslet), o Ceo da Aple John ( Jeff Daniels), Andy (Michael Stuhlbarg), um dos técnicos mais fodas da Apple, a mãe de sua filha, Crisaan, e sua filha Lisa. O filme se asbtém de mostrar o G6enio Steve Jobs criador de vários produtos que venderam milhões e se atém ao seu íntimo: um péssimo pai, um Chefe que bullimiza seus funcionários, um ser humano odioso que maltrata a todos. O filme parece fazer entender que o fato de Jobs ter sido adotado, devolvido, e adotado de novo, provocou essa carcaça fria sem sentimentos nele. Tecnicamente o filme é perfeito em tudo: a maquiagem impressiona, de verdade. A trilha sonora vai se adaptando com o passar do tempo, incluindo elementos tecnológicos ao som. A fotografia valoriza o tipo de cores dos designs dos produtos da Apple, e principalmente nos closes de Jobs, estoura mais no branco. E e o elenco fenomenal que dá uma dimensão poderosa aos personagens. Michael Fassbender é um monstro em cena, criando um personagem rancoroso e frio mas trazendo sutilezas para as emoções mais quentes. Kate Winslet faz uma workhaholick inclusive no seu discurso. ela fal;a tudo praticamente sem pausas. Seu tempo, seu trabalho de composição física, magistral. Jeff Daniels tem uma cena maravilhosa de embate com Michael Fassbender no corredor do salão, uma cena forte e memorável, inclusive um show de edição. É um filme inteligente, adulto, bem orquestrado. Uma aula de Cinema. Nota: 10

Stromboli

"Stromboli", de Roberto Rosselini (1949) Após assistir ao excelente documentário "Eu sou Ingrid Bergman", me dei conta de que assisti poucos filmes da fase européia de Ingrid Bergman, principalmente os filmes que ela fez com Rosselini. Em 1948, Ingrid Bergman estava com sua carreira no auge em Hollywood. Porém, ela se sentia incomodada com a indústria de cinema americano e a forma como os atores se relacionavam ao projeto. Após assistir a 2 filmes de Rosselini, "Roma cidade aberta"e "Paisá", Ingrid escreveu uma carta para ele pedindo para trabalhar com ele, pois ela buscava o cinema realista que ele realizava Assim, começou uma parceria entre os 2. Dessa união, surgiram 6 filmes. Mas o que realmente provocou escândalo e fofoca no mundo do show business foi o fato de Ingrid ter abandonado marido e filha nos Eatados Unidos , ter engravidado de Rosselini e se casar com ele. Os americanos jamais a perdoaram. "Stromboli" foi boicotado e poucas pessoas o viram. O que foi uma grande injustiça. É curioso assistir Ingrid Bergman em cena num filme neo-realista italiano: em locações, com não atores. Seria, para mim, o mesmo que escalar Grace Kelly para filmar no sertão da Paraíba nos anos 40 em preto e branco. É uma ruptura muito forte para uma estrela de Hollywood de primeiro quilate. Ingrid interpreta Karen, uma Lituana que se encontra prisioneira em um campo de refugiados. É o fim da 2a Guerra, e Karen quer pedir asilo na Argentina. Porém, o pedido é negado, e para sair do campo, ela aceita se casar com outro prisioneiro, Antonio, um pescador italiano. Antonio a leva para morar em sua casa, na Ilha vulcânica de Stromboli, no Mar Tirreno. Karen se assusta: ela não imaginava tamanha pobreza. Além de tudo, ela é cortejada pelos homens e desprezada pelas mulheres. Karen quer fugir de lá, mas não tem como. Até que conhece um rapaz que cuida do farol e que pretende ajudá-la. O personagem de Ingrid e a sua vida pessoal se misturam de forma muito clara. Exposta a uma nova realidade e sofrendo o desprezo dos americanos, ela é obrigada a criar forças e lutar contra os que a abominam. Rosselini escala poucos atores, e em sua maioria, os moradores de Stromboli é quem interpretam os personagens. O rendimento da atuação é irregular. Mas Ingrid é a atriz perfeita para o personagem. Exótica, bela, assustada. A locação de Stromboli me fez lembrar de "A aventura", de Antonioni. A ilha onde ele filmou é próxima ao de Rosselini, acredito até que Antonioni deva ter usado esse filme como referência. É um filme triste, de desfecho desolador. Algumas cenas são filmadas como se fossem um documentário, principalmente a pesca de peixes, assustadoramente cruel. Outro momento tenso é quando mostra um furão atacado um coelho. É Rosselini mostrando que o Cinema italiano é real. Nota: 7

sábado, 16 de janeiro de 2016

O novíssimo testamento

"Le tout nouveau testment", de Jaco Van Dormael (2015) Quem conhece a filmografia do cineasta belga sabe que tipo de filme vai encontrar. Antes mesmo de "Amelie Poulain", Jaco Van Dormael já fazia uma mistura deliciosa de poesia, lirismo, fantasia, musical e sátira. Em 1991, ele realizou o clássico "O homem de duas faces", que brincava com o cinema de gênero noir, mesclado a romance e musical. Em 2009, ele lançou o excelente "Sr Ninguém", que infelizmente foi pouquísismo visto e é uma fantasia sensacional, protagonizado por Jared Leto, sobre um homem ancião que relembra do seu amor do passado, em uma estrutura de viagem no tempo futurista. Agora ele lança "O novíssimo testamento", que tem uma premissa inteligente: Deus existe, mora em Bruxelas, casado e pai de uma filha. Sua esposa é passiva, nem abre a boca para nada. A filha nunca saiu de casa e o filho Jesus Cristo virou uma entidade. Deus é mau humorado e passa o dia inventando maldades para o ser humano. Um dia,a filha sacaneia o pai e manda para as pessoas o dia que todos morrerão. Isso provoca um sentimento de comoção e alegria entre as pessoas, de acordo com a distância da data da morte de cada um. A filha resolve fugir de casa e ir em busca de 6 novos apóstolos para criar o "Novíssimo testamento". Seu pai, Deus, no entanto, vai em seu encalço. O roteiro, co-escrito por Jaco Van Dormael, diverte, provoca gargalhadas e ao mesmo tempo, emociona com a sua mensagem romântica e otimista sobre o destino do ser humano, que em princípio, está fadado ao pessimismo e ao egocentrismo. O elenco é formidável, composto da nata do que há de melhor no elenco francês: atores que dosam humor e dramaticidade. A pequena Pili Groyne é um grande achado, uma menina muito sagaz e carismática. Ela carrega o filme quase todo nas costas e ainda o narra quase que por completo. Benoît Poelvoorde ( de "Românticos anônimos") faz Deus de forma brilhante. François Damiens ( de "A familia Bellier") faz o assassino, um dos apóstolos. Outros atores geniais também estão no elenco compondo personagens mágicos, e entre eles está Catherine Deneuve, que se diverte no papel de uma Mulher rica que mantém um caso com..um gorila! O filme é assim o tempo todo: brinca com linguagem, com cores, com o surrealismo, com o imaginário. é lindo demais e muito inventivo. Tinha horas que eu remetia a "O pequeno príncipe", por conta do tema da criança que dá lugar a um adulto sem vida e sem esperança. No final, um toque de feminismo para coroar a história. O filme não é recomendado para religiosos que se ofendem com sátira ao catolicismo. O filme foi indicado para Melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro 2016. Nota: 10

E a vida continua

"Zendegi va digar hich" , de Abbas Kiaristami (1992) Segundo filme da trilogia de Koker, realizado pelo cineasta iraniano Abbas Kiarostami. Aqui, ele mais uma vez cria um falso documentário, se utilizando de atores e não atores. Em 1990, na região de Gullan, um terremoto matou milhares de pessoas. O próprio Kiarostami voltou para a região de Koker e Pushter, onde ele filmou em 87 "Onde fica a casa de meu amigo?", para saber se os atores de seu filme estavam bem (Kiarostami escalou não atores que moravam nessa região para o sue filme). 2 anos depois, Kiarostami recria essa sua jornada, filmando esse falso documentário sobre essa busca pelos atores do filme. Um cineasta e seu filho pequeno ( o ator Farhad Kheradmand faz o alter ego de Kiarostami) seguem de carro para a região de Koker para tentar localizar atores do filme que rodou em 87. Vemos então a consequência do terremoto: casas totalmente destruídas, e depoimentos de moradores sobre a perda de parentes e amigos. O cineasta tenta chegar em Koker, mas a estrada de acesso está bloqueada. Ele tenta outro caminho e assim, vamos acompanhando a triste realidade de quem mora na região devastada. Todos falam sobre a fatalidade e sobre o destino, dizendo que foi Deus quem assim quiz. Além da religiã, o filme também fala sobre o amor dos iranianos pelo futebol. Na noite do terremoto, muita gente estava assistindo ao jogo Brasil X Escócia na Copa do mundo, e por isso, muitos foram salvos por não estarem em casa. Vários depoimentos são muito comoventes e mostram como a morte é encarada como algo corriqueiro: um casal diz terem se casado 1 dia após o terremoto, mesmo tendo perdido 65 parentes. O noivo alega que se não se casassem, pela tradição, isso só poderia acontecer mais de 1 ano depois. Um outro menino diz que ele foi salvo porquê os mosquitos lhe picavam e ele não conseguia dormir, daí for pra rua. Sua mãe ficou zangada, pois seu irmão morreu soterrado, dormindo, e pelo fato dos mosquitos não terem mordido ele, ele acabou morrendo. Como todo filme iraniano, as imagens são carregadas de poesia e de simbolismos. Acho curioso também a obsessão por filmes onde muita da ação acontece dentro do carro, como se o veículo fosse o centro do universo, o observatório do mundo. Nota: 8

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O menino e o mundo

"O menino e o mundo", de Alê Abreu(2014) Perdi esse desenho nacional quando esteve no circuito ( pouquíssima gente o viu), mas agora com a indicação ao Oscar de animação de longa-metragem 2016 com certeza muita gente o verá. Corri para ver. E fiquei encantado com a beleza e a sonoridade do filme. Alê Abreu já dirigiu vários curtas de animação e trabalha como artista plástico e publicitário. Tendo trabalhado para Cinema, Tevê e revistas, ele é um artista completo. Aqui, através da história de um menino pequeno, Cuca, Alê faz a sua visão crítica sobre a modernidade e de como ela destrói a individualidade e os sonhos. Desemprego, mídia massiva, máquinas substituindo o trabalho humano, desmatamento. São muitos os alertas descritos no filme. Talvez esse excesso torne o filme com um discurso panfletário demais, mas a trilha sonora nos preenche com tanto lirismo que nos deixamos levar pela narrativa. Cuca mora no campo com seus pais. Um dia, seu pai se despede para ir trabalhar na cidade grande. Cuca passa seus dias triste com saudades do pai, até que um dia, magicamente , ele é levado pelo vento e vai seguindo o caminho do campo até a cidade grande, tendo assim, a oportunidade de encontrar o seu pai. Mas no caminho ele encontra vários percalços que futuramente irão refletir em sua vida adulta. Curioso como na essência o filme tem algo semelhante a "Shaun, o carneiro", que também está na disputa do Oscar. Campo X Cidade grande, a ausência de fala nos personagens ( nos 2 filmes os adultos falam uma língua própria), o uso da trilha sonora como forma de encantamento e a crítica ao homem da cidade grande e ao mundo dos adultos. São filmes que enaltecem o lirismo e a inocência ( criança X carneiros). Visualmente o filme é sensacional, recheado de cores e de magia através de amostragem de grupos folclóricos que surgem no filme. No final, senti até uma breve homenagem a "Noites de Cabíria", de Fellini, com um grupo meio cigano entoando flautas e seguindo a estrada, felizes. Fico na dúvida se esse filme atinge o público infantil. Ele tem um ritmo bem lento e a mensagem um pouco complexa para os pequeninos. Vale assistir pela beleza e pela magia.

Lendas do crime

"Legends", de Brian Helgeland (2015) Cinebiografia dos irmãos Gêmeos Kray, que nos anos 60 comandaram metade de Londres como gangsters violentos. Reggie e Ronnie Kray ( interpretados por Tom Hardy) tinham como ponto em comum, além da igualdade física, o fato de serem mentalmente perturbados. Ronnie chegou a ficar internado em uma clínica psiquiátrica, mas foi liberado por Reggie e assim, poderem comandaram casas noturnas e disputaram espaço com outras gangues. O filme é narrado por Frances (Emily Browning), uma jovem que se apaixonou pela veia marginal de Reggie, mesmo contra a vontade da mãe dela. Frances se encanta pelo mundo de excessos e de glamour que rodeiam o luxo de Reggie, mas ela não poderia esperar que o pior inimigo de seu marido fosse o próprio irmão gêmero Ronnie, totalmente desequilibrado. O filme tecnicamente é impecável: fotografia, direção de arte, maquiagem, figurino e uma trilha sensacional com clássicos doa aos 60. Mas é longo, mais de 2 horas, e se torna monótono. O que é uma pena, considerando o bom trabalho de todo o elenco, principalmente Tom Hardy, que constrói 2 tipos totalmente diferentes, apesar de unidos pelo desequilíbrio emocional. A direção é correta, e o efeito que une os 2 atores como se estivessem na mesma cena idem ( eu já havia ficado surpreso quando assisti a "A rede social" e descobri que os gêmeos também eram interpretados por um único ator.) Filmes de gansters, talvez pelo excesso deles, tendem a ficar repetitivos na sua trama. Aqui, infelizmente, não foi exceção ( vide os recentes e também burocráticos "O ano mais violento", com Oscar Issac, e "Aliança do crime", com Johhny Depp. Nota: 7

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Marca da vingança

"Heartless", de Philip Ridley (2009) Nos anos 90, o cineasta inglês Philip Ridley realizou duas pequenas jóias de suspense psicológico: "O reflexo do mal"e "Paixões na floresta". Ridley tem um estilo muito próprio: ele combina a tensão psicológica com o surrealismo e fantasia. Muitos elementos da narrativa não têm explicação, simplesmente acontecem. É preciso que o espectador abra sua percepção e faça a sua própria interpretação dos fatos. Em "Marca da vingança", acontece a mesma coisa. Ridley usa e abusa de elementos fantasiosos para contar uma história sobre violência e bulliyng. Jamie (Jim Sturgess, de "Across the universe"), é um jovem que nasceu com uma enorme mancha de nascença que cobre parte de seu rosto e vai até o ombro. Desde criança ele sofre bullying e por conta disso, ele se isola. Já adulto, ele trabalha com seu irmão e seu sobrinho em um estúdio fotográfico. Seu pai (Timothy Spall, de "Mr Turner") faleceu e vem em seus pensamentos. Jamie mora com sua mãe ( a excelente Ruth Sheen, de "Mais um ano"). Amorosa, Marion tenta de tudo para elevar a auto estima de Jamie. Um dia, ao visitarem o túmulo do pai de Jamie, eles são atacados por uma gangue a mãe dele acaba morrendo incendiada. Jamie passa a acreditar que uma gangue de demônios é a responsável pelos ataques que vem assustando a redondeza. O melhor do filme são os excelentes atores ingleses. Além dos já citados, temos também Eddie Marsan, de "Tiranossauro". O elenco de apoio tamém é excelente. A fotografia e a direção de arte criam um clima e atmosfera soturno e dark para o filme,bem apropriados para a história que vai cada vez mais ficando mais bizarra. Os efeitos são bons, com exceção de uma cena que envolve um demônio e uma cabeça falante decapitada. Ali ficou trash. O roteiro na parte final fica confuso e aberto a várias interpretações. O ritmo é lento, mas algumas cenas são bem instigantes e fazem o filme valer a pena. Nota: 7

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Eu sou Ingrid Bergman

"Jag är Ingrid, de Stig Bjorkman (2015) Documentário obrigatório para Atores, Cineastas, Cinéfilos e fãs de Ingrid Bergman. O Documentarista Stig Bjorkman baseia o seu documentário em cima das cartas escritas por Ingrid Bergman para amigas com quem ela confidenciou suas intimidades. No final do filme, é muito lindo ouvir de Isabella Rosselini que, ao ler as cartas, imaginando só encontrar textos referentes a Hollywood, filmagem, atores, etc, Ingrid, pelo contrário, só falou de seu amor pelos 4 filhos. O amor é o que costura as 2 horas do filme. Amor à vida, ao ofício de ser Atriz, à sua liberdade. O filme é farto em material de arquivo. Aprendemos que Ingrid sempre gostou de tirar fotos, de filmar usando seu super 8, sua 16 mm. Ela herdou essa paixão do seu pai, e através das lentes dele, e;a desde criança a[rendeu a amar as lentes de uma câmera e saber como posar. Ingrid relata que na sua infância muito triste ( sua mãe faleceu após seu nascimento, e seus irmãos faleceram em acidente) , ela aprendeu a criar amigos imaginários, e através deles, ela aprendeu a amar a arte da atuação. Já com vários filme sno currículo, ainda na Suécia, ela recebeu um convite de David Selznick, o maior produtor de Hollywood, para fazer uma nova versão de "Intermezzo" nos Estados Unidos. Ela deixou seu marido neurocirurgião e sua filha pequena na Suécia e rumou para Los Angeles, e ali permaneceu por 10 anos. Sentindo-se prisioneira de uma vids familiar e de um esquema de atuação aonde ela não se via mais encaixada, Ingrid escreveu para Roberto Rosselini ( ela havia visto "Roma, cidade aberta"e "Paisá" e ficou apaixonada pelo realismo dos filmes) e disse que queria trabalhar com ele. Pedido feito e aceito, ela filmou 'Stromboli", em um esquema totalmente improvisado. Os dois acabaram se apaixonando e Ingrid abandonou marido e filha nos Estados Unidos, o que foi um verdadeiro escândalo. Hollywood não a perdoou por isso. Curioso ouvir Ingrid dizer que em 'Europa 51", o segundo filme dela com Rosselini, ela dizia ficar apavorada com o improviso, e que não sabia atuar dessa forma. A partir daí, o filme nos convida a ouvir os outros 3 filhos que ambos tiveram na Itália (entre eles, Isabella Rosselini), os ciúmes de Roberto em relação a Ingrid e o divórcio deles. Ingrid veio a se casar de novo com um produtor teatral sueco em Londres. ela passou a vid apulando de galho em galho, de País em País, deixando os filhos sem vê-las por meses. Um dos melhores momentos é o relato de Liv Ullman a respeito da relação tempestuosa entre Ingrid Bergman e Ingmar Bergan no set de "Sonata de outuno". Ao longo do filme lemos e ouvimos Ingrid dar conselhos formidáveis sobre o trabalho do Ator e o seu pensamento sobre a Arte de Atuar. A rilha do compositor Michael Nyman é sublime, e desenha o filme de forma melancólica. Eu realmente saí muito triste do filme, pensando na questão da memória: qual o limite entre a mortalidade e a imortalidade de uma pessoa? Nota: 10

Presságios de um crime

"Solace", de Afonso Poyart. Depois do sucesso com o filme "Dois coelhos", o cineasta Afonso Poyart foi convidado a dirigir um longa americano. Ele teve em suas mãos 70 roteiros disponíveis para escolher um. E é curioso que tenha escolhido um trhiller psicológico ( depois dessa informação sobre a quantidade de roteiros propostos para um Diretor, fico imaginando a qualidade dos mesmos). "Solace", no original, foi concebido para ser uma sequência de "Seven", de David Fincher. Porém Fincher não autorizou e o roteiro seguiu outro caminho. Anthony Hopkins assumiu além do protagonista, o papel de produtor executivo. O mais bizarro é que ele agora faz um personagem que é o oposto de Hannibal Lecter, seu vilão mais famoso de "O silêncio dos inocentes". Agora, o personagem dele, John, é um médico que possui o dom de ler pensamentos e prever futuro e até mesmo, ao encontrar em alguém vivo ou morto, saber o que se passou com ela. John por um bom tempo trabalhou para o Fbi, ajudando seu colega Joe (Jeffrey Dean Morgan). Após o falecimento de sua filha por conta de leucemia, John resolve abandonar tudo. Porém, por conta de recentes assassinatos creditados a um serial Killer ( Colin Farrel), Joe vai atrás de John para que ele o ajude a descobrir o paradeiro do assassino. A agente Katherine ( Abbie Cornish), é descrente dos poderes de John, e acha que o Agente Joe deveria seguir o procedimento normal de investigação. Porém, para a surpresa do próprio John, ele descobre que o assassino também tem o dom de ler mentes e prever o futuro e sabe da existência um do outro. O gênero suspense parece atrair cineastas brasileiros para o mercado americano: vide Walter Salles com "Água negra" e Heitor Dhalia com "12 horas". Se ambas as produções não tiveram sucesso, a produção de Afonso Poyart ainda é uma incógnita: segue inédito no mercado de vários países, mesmo tendo sido filmado em 2013. O roteiro me soou muito deja vu, ainda mais que eu assisti ao seriado "Hannibal" e a premissa é a mesma: Will Graham é um agente do Fbi que ajuda o Agente Jack através de seus poderes psiquicos. Ele vai ao local do crime e ao encostar na vítima, ele descobre como a pessoa foi assassinada, fazendo um flashback do ocorrido antes do crime. Em "Presságios de um crime" acontece igual: vemos muitas cenas de flashbacks, estilizados, e claro, em câmera lenta. Poyart realiza aqui um filme com a mesma cartilha de "Dois coelhos"; muita estilização e estética publicitária. Como parceiro, ele convocou o fotógrafo Brendan Galvin, que trabalhou em quase todos s filmes do Cineasta indiano Tarsem Singh , famoso pelo visual dos seus filmes, que aliás, se aproxima bastante do cinema de Poyart. A linguagem do flashback em jump cuts me remeteu também ao filme dos anos 80 de Ken Russel, "Viagens alucinantes". Agora, o que realmente me intriga, é que o filme se passa em Atlanta e não sei porquê, houve uma Segunda unidade filmando em São Paulo e na edição enxertaram stock shots da capital paulista como se fizesse parte de Atlanta.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Bone Tomahawk

"Bone Tomahawk", de S. Craig Zahler (2015) A mistura de gêneros pode transformar um filme em um cult ou em um grande fracasso. Em "Cowboys e Aliens", a fusão de Faroeste e ficção científica foi um verdadeiro desastre. Agora, em "Bone Tomahawk", a mistura é mais inusitada ainda: Faroeste com filme de terror. Ou mais precisamente: "Rastros de ódio" X "Canibal Holocausto X Predador. Só isso já dá um aval mais do que suficiente pra se assistir ao filme. Mas acrescente um elenco encabeçado por Kurt Russel, Robert Jenkins, PAtrick Wilson e Mathhew Fox ( de "Lost") e você terá um filme delicioso para se assistir no final de semana.mas atenção: só assista se você for afeito a filmes gore. caso contrário, fique bem longe: o terço final do filme é dedicado exclusivamente a cenas de violência extrema. Para se ter uma idéia, os canibais possuem como arma um osso afiado que só de encostar na pele humana, já faz um enorme estrago. As cenas realmente são de fechar os olhos. Durante a Guerra da Secessão, em uma cidade pequena, um xerife (Russel) precisa resgatar 3 pessoas sequestradas por uma tribo de índios canibais que se escondem em um vale a 5 dias de distância do local. Além do xerife, vão seu assistente, Chicory ( Jenkins), o marido da enfermeira sequestrada, Arthur ) Wilson) e um falastrão bom de arma, Brooder (Fox). Os 4 irão enfrentar a fúria dos índios, que armam uma cilada para recepcioná-los. "Bone Tomahawk" é o filme de estréia do Cineasta S. Craig Zahler, que também escreveu o roteiro. Uma pena que ele nã tenha enxugado o filme na edição, pois ele ficou bastante longo ( 132 minutos) para um filme com uma história tão bizarra. Meia hora a menos faria melhor ao filme. O elenco citado está ótimo, e é incrível como Kurt Russel sempre teve um grande carisma, nem entendo porquê ele ficou meio sumido e esquecido para o cinema mainstream. Li que o filme foi rodado em 21 dias, um grande feito para uma produção complexa, ainda mais para um diretor estreante. Nota: 7

A vida de Brian

"Life of Brian", de Terry Jones (1979) Lançado em 1979, esse 2o longa do grupo inglês Monty Phyton provocou ira da Igreja católica que o considerou blasfemo. O filme foi proibido em vários países e ainda no papel, o produtor caiu fora antes de rodar. O ex-Beatle George Harrison resolveu bancar o filme, cedendo 4 milhães de dólares. Rodado na Tunísia, "A vida de Brian" é uma comédia devastadora que atira para todos os lados: hoje em dia, o diretor Terry Jones, um dos integrantes do grupo, entende que seria impossível filmar o longa, por conta do avanço da intolerância religiosa. O filme se passa na época de Jesus Cristo, e traça uma história paralela. Brian nasceu no mesmo dia que Jesus e por pouco não foi agraciado pela visita dos 3 Reis magos. Já adulto, Brian trabalha como vendedor de iguarias no estádio de gladiadores. Ele conhece um grupo revolucionário que quer lutar contra a opressão do domínio romano na Judéia. Brian no entanto é confundido como um Messias pela população, e mesmo que ele negue, o povo continua o adorando. Só pelo fato de igualar a história de Brian com a de Cristo o filme já foi banido em vários países, incluindo a Noruega e vários lugares do Reino Unido. O filme pega carona no sucesso de "Star Wars" e sacaneia o filme, incluindo uma cena onde Brian é salvo por uma nave espacial. O filme causa espanto também por mostrar nu frontal de Graham Chapman, que interpreta Brian. Para a época, foi super ousado. O filme também ataca o movimento feminista e a sua luta pela igualdade com os homens. A cena final, o musical na crucificação intitulado "Always look on the bright side of life" é um dos grandes momentos antológicos da história do cinema. Para rever sempre, um verdadeiro clássico da comédia. Nota: 9

domingo, 10 de janeiro de 2016

Wasp

"Wasp", de Philippe Audi Dor (2015) Filme de estréia do cineasta suiço radicado na Inglaterra Philippe Audi Dor, foi todo rodado em Provence, na França. Também roteirista, Philippe constrói um drama baseado na questão da tensão sexual. Olivier e James formam um casal gay. Ricos e jovens, eles passam o feriado na casa do pai de Olivier. Caroline, amiga de James, discute com o namorado e pede para passar os dias com o casal. Juntos, os três se divertem. Ma so tempo passa, e Olivier começa a sentir uma atração por Caroline, que retribui. James passa a desconfiar da traição de Olivier e vai se tornando cada vez mais sórdido. Interessante como esse texto me lembrou bastante a peça teatral 'Cock- briga de galo", de Mike Bartlett. Os personagens agem por arrogância. São fúteis. Os três atores estão corretos, e a belíssima locação seduz o espectador. A trilha sonora traz o clássico de Françoise Hardy, "Tous les garcons et les filles", o que dá um ar vintage que Xavier Dolan adora. Acredito até que "Amores imaginários" tenha sido uma referência. De baixo orçamento, o filme consiste em 3 atores e uma locação. O diretor tinha 26 anos na época do longa, que recebeu vários prêmios em Festivais, incluindo melhor atriz e filme no Out Festival 2015. O filme é bastante verborrágico, mais apropriado para uma peça de teatro. O melhor é a sua duração, 73 minutos, evitando de encher o saco do espectador. Nota: 6

Onde fica a casa de meu amigo

"Khane-ye doust kodjast?", de Abbas Kiarostami (1987) Dirigido e escrito por Abbas Kiarostami, um dos maiores cineastas iranianos em atividade, "Onde fica a casa de meu amigo"é de 1987 e faz parte da trilogia Koker, iniciada por esse filme. Koker é uma região do interior do Irã, aonde acontece a história do pequeno Ahmed, um menino de 8 anos, estudioso e dedicado à sua família. Um dia , na escola, ele testemunha o professor ameaçando um aluno, Nematzadeh, que mora em um vilarejo distante, que se ele esquecer o caderno da próxima vez será expulso. Chegando em sua casa, Ahmed vê que trouxe o caderno do amigo por engano, e com medo das ameaças do professor, resolve ir procurar o amigo no outro vilarejo, mesmo contra a vontade de sua mãe. O filme é uma bela parábola sobre a inocência das crianças versus a intransigência dos adultos, desprovidos de amor e vivendo de amargura e falta de amor ao próximo. O pequeno Ahmed simboliza a compreensão, algo que os adultos que passam pelo caminho de Ahmed ignoram, dificultando sempre que podem a busca pelo amigo. Kiarostami exercita na narrativa um olhar documental. Trabalha com não atores e seus planos, longos, dão a impressão às vezes de deixar a câmera ligada e ver o que acontece. Os personagens são curiosos, a locação, extremamente pobre, imprime um olhar lúdico. Kiarostami extrai poesia através desse olha da criança sobre tudo o que está ao seu redor. As crianças do filme são ótimas, espontâneas, e o grande carisma de Babek Ahmed Poor, no papel de Ahmed, é um grande presente para o espectador. O seu olhar sempre assustado é uma grande arma para seduzir e encantar a qualquer um. Várias cenas antológicas, entre elas, a de Ahmed estudando e vendo sua mãe recolhendo as roupas do varal no meio de uma ventania. Nota: 8

sábado, 9 de janeiro de 2016

Trumbo- Lista negra

"Trumbo", de Jay Roach (2015) Cinebiografia do roteirista americabo Dalton Trumbo, que dos anos 40 a 70 entrou para a lista negra do Governo por se afiliar ao movimento comunista vigente em grupos intelectuais desde a 2 guerra mundial. Cineastas, roteiristas, atores e artistas de outras mídias foram perseguidos e tivera as suas carreiras destruídas. Pelo filme, a Motion Pictures, presidida por John Wayne, foi a responsável pela Caça às bruxas dentro da Indústria cinematográfica. Outra grande agitadora contra os vermelhos era a colunista social Hedda Hopper, interpretada no filme por Helen Mirren. Me incomodou o fato do filme, com 2 horas de duração, não ter sequer mencionado o único filme dirigido por Trumbo, a obra-prima "Jonhy vai à guerra", de 1971, um dos maiores libelos anti-belicistas já realizados para o Cinema. O filme se atém na porção roteirista e a sua relação com amigos, familiares e colegas de industria durante o momento anti-comunista. Trumbo foi preso e após a prisão, continuou a escrever secretamente usando pseudônimos. Ganhou 2 Oscars por "A princesa e o pebeu" e "Arenas sangrentas", e ninguém sabia quem eram os roteiristas dos dois filmes. Entre os filmes famosos que escreveu, também constam "Spartacus", de Stanley Kubrick, e "Exodus', de Otto Preminger. O grande trunfo do filme é a atuação de Bryan Cranston, o Walter White de "Breaking bad". Ele está perfeito no papel de Trumbo: arrogante, cínico, apaixonado pelo trabalho. O trabalho de maquiagem do filme é muito bom. Diane Lane, no papel de sua esposa, e Elle Fanning, no de sua filha, também estão bem. Helen Mirren tem um personagem ingrato, construído em cima de uma caricatura de uma mulher perversa. John Gooddman, em uma pequena participação como um produtor de cinema, está excelente, como sempre. Boa reconstituição de época, em um filme correto. Por se tratar de Cinema, o filme fica delicioso quando mostra cenas de filmes famosos. Ah, e o Ator que interpreta Kirk Douglas também manda bem, é um sósia perfeito. A curiosidade fica por conta do Cineasta: Jay Roach é mais conhecido por dirigir comédias, entre elas, "Austin Powers" e "Entrando numa fria". Nota: 7

Pegando fogo

"Burnt", de John Wells (2015) Vendido como comédia, "Pegando fogo" na verdade é um drama que de humor não tem absolutamente nada. Talvez a maior curiosidade do seja que o fotógrafo brasileiro Adriano Goldman foi quem iluminou o filme. O filme narra a história de Adam ( Bradley Cooper), um Chfe de cozinha que quando comandou um restaurante em Paris recebeu 2 estrelas do Michelin. Mas o seu envolvimento com drogas e o temepramento explosivo botaram tudo a perder. Anos depois, ele vai para Londres tentando se reabilitar. Adam, sem grana, convoca vários ex-chefes de cozinha e assistentes para juntos, comandarem a cozinha de Tony ( Daniel Bruhl), ex chef e agora dono de um Hotel que possui um restaurante refinado. Uma das cabeças do time de Adam é Helena ( Sienna Miller), mãe solteira. Tem também Michel (Omar Sy) e Max ( o italiano Riccardo Scamarcio), além de outros menos conhecidos. Emma Thompson interpreta uma terapeuta que auxilia Adam no tratamento com as drogas e Alicia Vikander é Anne, uma ex-namorada também viciada em drogas de Adam. A luta de Adam, além de lidar com seu temperamento, é conseguir as 3 estrelas do Michelin. O filme tinha tudo para repetir o sucesso do simpático "Chef", de John Favreau. Tem boa direção, belas cenas de preparação de comida. Mas o que o derruba é a total antipatia do personagem de Adam. Nossa chega um momento do filme que você fica muito irritado com ele, por conta do bullying que ele pratica com seus colegas e a sua falta de carisma. Ele grita, dá ataque. Difícil simpatizar com um personagem assim, mesmo que Bradley Cooper se esforce ao máximo. Fora isso, boa parte do elenco está muito mal aproveitado. Fora Sienna Miller e Daniel Bruhl que estão presentes em boa parte do filme, os outros citados praticamente fazem participações de luxo, que somados, não dariam 10 minutos de filme. Interessante que um merchandising escancarado do Burguer King é incorporado à história e não fica gritante como nos filmes nacionais, onde quase todo product placement sôa forçado. Um fato curioso também é que Bradley Cooper e Sienna Miller haviam acabado de trabalhar juntos num set em 'Sniper americano", de Clint Eastwood, antes de filmarem esse "Pegando fogo". Nota: 6

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Rastros de ódio

"The searchers", de John Ford (1957) Definitivamente, esse é um dos mais belos filmes da história do cinema. Chamá-lo de Faroeste é querer reduzir a dimensão da grandeza desse filme, que é um drama, uma comédia e um filme de açao. Os temas? A aceitação, a redenção e o perdão. Somente o plano de abertura e o de encerramento do filme já seriam suficientes para colocar o filme no pedestal das grandes obras-primas do cinema: como um narrador, John Ford abre e fecha a porta, saindo e entrando no escuro, como se dissesse ao espectador: vou contar uma história a vocês. Ethan ( John Wayne) é um oficial que volta da Guerra da Secessão e retorna ao seu lar que na verdade é a casa do seu irmão, casado com Martha e pais de 3 filhos. Quando Ethan sai para verificar um roubo de gado, uma trino de índios comanches aproveitam para dizimar a família, sequestrando as 2 sonrinhas. A parti dái, Ethan deseja vingança e também, resgatar as 2 sobrinhas, temendo que elas fiquem aculturadas pela tribo indígena. A fotografia exuberante de Winton C. Hoch transformam as locações montanhosas e desertas do Arizona e de Utah em paisagens lúdicas, um lugar aonde a natureza supera a dimensão do ser humano, que foca pequeno mediante a grandeza do lugar. Todos os personagens são trabalhados de forma sensacional, e o roteiro busca a individualidade de cada um, além de conflitos: as histórias paralelas, principalmente do sobrinho mestiço Martin (Jeffrey Hunter) com a jovem Laurie ( Vera Miles), confere um lado cômico que ajuda a segurar a barra do forte teor dramático da história do personagem de John Wayne. A trilha sonora de Max Steiner também coopera na grandiosidade do filme: era uma época aonde a trilha sonora tinha que ter uma característica épica para ficar coerente com os enormes planos gerais do filme. Nota: 9

99 homes

99 homes", de Rami Bahrani (2014) Escrito e dirigido por Rami Bahrani, e' um drama intenso ambientado no auge da crise econômica americana, no ano de 2010. Em Orlando, Florida, Dennis ( Andrew Garfield) mora em uma casa financiado com seu filho e sua mãe ( Laura Dern). Quando Dennis perde seu emprego de construtor,ele se desespera porque não tem como pagar as prestações da casa. O governo lhe dá 30 dias para pagar o que deve senão ele será despejado. Rick ( Michael Shanon) é o corretor imobiliário responsável em despejar famílias de suas casas, acompanhado de policiais para convencer as pessoas a saírem de casa. Dennis e família acabam indo morar em um motel junto de outras famílias despejadas. Após uma discussão com empregados de Rick, a quem Dennis acusa de roubar suas ferramentas, Dennis é convidado a trabalhar na equipe de Rick. Percebendo a ganância e ambição de Dennis, Rick o convida para ser um assistente seu responsável por despejar outras famílias, com a promessa de devolver a sua casa. Um filme triste por mostrar o lado humano porém ambicioso de pessoas comuns que temem perder tudo o que construíram em suas vidas, pode ser visto como uma parábola sobre a ganância. Bem dirigido, e bem interpretado pelo trio Garfield, Shanon e Laura Dern, o filme poderia ter uns 20 minutos a menos. Lá pelo meio ele fica repetitivo, e o caráter moralista do filme incomoda um pouco. Por isso, o que realmente interesse no filme é a performance do elenco. Muito bem ver Andrew Garfield em um Ótimo papel dramático, longe do papel de homem aranha que o consagrou. Nota: 7

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A aventura

"L'a avventura", de Michelangelo Antonioni (1960) Ao som hipnotizante de Giovanni Fusco, os créditos iniciais de "A aventura" darão o tom do filme que vamos ver. Primeiro filme de uma trilogia sobre o vazio existencial e a incomunicabilidade, que logo depois seria copiado por cineastas do mundo inteiro ( no Brasil, por Walter Hugo Khouri, e até no Japão, com a nova onda do Cinema japonês), 'A aventura" foi sucedido por "A noite" e "O eclipse", todos protagonizados pela esposa de Antonioni na época, Monica Vitti. Fotografado em um exuberante preto e branco de Aldo Scavarda, pode-se dizer que 90% da força do filme se resume a suas imagens extremamente cinematográficas e acachapantes. Impossível não ficar deslumbrado com os enquadramentos ( boa parte em planos gerais), as locações, a luz e a marcação dos atores em cena. A chave do sucesso é o trabalho com profundidade: quase sempre alguém em 1o plano, e uma outra ação ao fundo. é um deslumbre. Monica Vitti e Lea Massari, cada uma com a sua beleza exótica, contribuem também para o hipnotismo que mantém nossos olhos vidrados na tela. E vale dizer que Monica Vitti tem uma fotogenia incrível, é uma grande Diva por quem a câmera fica completamente apaixonada. A história é curiosa: Anna, uma jovem rica, namorada de Sandro (Gabriele Ferzetti), se junta a um grupo de amigos para passarem os últimos dias de verão juntos. eles viajam de iate até as ilhas vulcânicas sitiadas no Mar Tirreno, no Norte da Sicília. entre os amigos, está Claudia ( Monica Vitti). Anna cobra uma posição mais séria do relacionamento com Sandro, que sempre se esquiva. Quando resolvem retornar, Claudia dá por falta de Anna. Todos ficam procurando por ela, mas ela desapareceu. Um pescador local diz que é comum turistas caírem do penhasco e morrererm. Pode ser que ela tenha se suicidado. Após intensa busca, todos retornam. Sandro , estranhamente, começa a seduzir Claudia, que evita o assédio. Os dias passam, o assédio continua, e Claudia acaba cedendo. Começa então a grande aventura existencial de Sandro e Claudia. O filme venceu inúmeros prêmios, incluindo o Grande prêmio do Juri em Cannes. Para a época do filme, 19760, foi uma verdadeira revolução essa nova linguagem narrativa, onde o tempo assume uma realidade em panos longos e contemplativos, além de reflexivos. É uma investigaçao da alma e do pensamento dos personagens. Scorsese ficou tão impressionado que diz que o filme libertou o Cinema. É curioso comparar esse filme com "La dolce vita", de Fellini. ambos trabalham com o mesmo universo: os ricos, as celebridades, as grandes festas, a luxúria. Mas o vazio , o tédio, esse pertence a Antonioni. Fellini vai pelo caminho do deboche, da farsa. 'A aventura "é repleto de cenas antológicas, e uma forte, que traduz a tensão sexual que perpassa o filme todo, é quando Claudia está sozinha do lado de fora da Delegacia e é quase devorada pelos olhos dos homens. Outra cena semelhante é a de uma prostituta de luxo sendo tratada como verdadeira celebridade pelos homens da cidade. É um filme longo, 143 minutos, e pode ser um tédio mortal para um espectador comum. É um grande desafio sem dúvida, mas recompensador para quem busca Cinema com C maiúsculo. Nota: 8

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O mundo do amanhã

"World of tomorrow', de Don Hertzfeldt (2015) Premiadíssimo curta de animação, Vencendo inclusive o Grande prêmio do Juri de Sundance 2015. "O mundo do amanhã" é uma complexa fábula existencial, que fala sobre memória, vida e morte. Emily, uma menina de 3 anos, recebe a visita de sua clone de 3 gerações depois, ou seja, de quase 300 anos após o seu tempo. A clone explica para Emily como será o futuro: os ricos poderão fazer clones de si mesmo, bastando dar um upload de suas memórias pro clone seguinte. Os que não podem pagar, guardarão suas memórias em uma caixa. A clone explica como será a vida no futuro, uma vida solitária onde as pessoas não compartilham experiências. Ela se apaixonará por uma pedra, um galão de combustível, etc, até que a humanidade descobrirá que um meteoro acabará com a vida na Terra. Um roteiro surreal, bizarro, mas igualmente filosofico, que dentro de sua mensagem futurista, embute um libelo sobre aproveitar a vida da melhor forma possível, sem futilidades. Os traços da animação são muito simples, porém o colorido e as vozes de Emily e da clone apaixonam qualquer espectador. É um filme genial, inteligente, que deixará voc6e pensativo por um bom tempo depois de ver o filme. Nota: 9

Que Viva Eisenstein! - 10 Dias que Abalaram o México

"Eisenstein in Guanajuato", de Peter Greenaway (2015) Ousada cinebiografia do cineasta russo Sergei Eisenstein durante a sua estada em Guanajuato, México, para filmar o seu longa "Que viva Mexico!", em 1931. O sempre polêmico cineasta inglês, que tanto fez a minha cabeça cinéfila com clássicos como "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante", "Zoo", Afogando em números" e "O bebê santo de Macon", parece que continua filmando como se ainda estivesse nos anos 90. Nada nele se renovou. Greenaway está ali, com toda a sua linguagem usada ad nauseum em todos os seus filmes: longos travellings laterais, planos simétricos, nudez masculina, obsessão por enumeração, e claro, temas como sexo e morte emoldurando cada fotograma. Com tudo isso, fiquei com uma sensação de deja vu gigantesca. Era como se eu imaginasse cada passo que viria a seguir. Pior do que isso: a visão chanchadesca que Greenaway dá a esse episódio na vida de Eisenstein. Pelo ponto de vista do filme, me parece muito difícil que essa figura louca, sem limites, extravagante, bizarro e clownesca seja o autor de obras primas do cinema como "O encouraçado Potenkin". O cineasta foi convidado por um grupo de intelectuais americanos favoráveis aos ideais comunistas para filmar no México, uma vez que ele foi banido de Hollywood. Chegando lá, Eisenstein descobre a sua porção homossexual, mantendo relações sexuais com o seu guia mexicano, Palomino. Pelos dados do filme, ele filmou 402 kilometros de negativo, estourando orçamento, até ser praticamente expulso do México, por falta de investimentos. Greenaway usa uma linguagem visual cansativa e muito fora de moda, como dividir a tela em 3, colocar fotos das personalidades a medida que elas vão sendo citadas, etc. Fora isso, ele abusa de travellings circulares extremamente enjoativos. Infelizmente, tenho que dizer que fiquei no meio do caminho desse filme. Saí frustrado. esperava uma grande homenagem ao cineasta e mais, que Greenaway aproveitasse e apontasse a sua câmera para as filmagens do longa que ele fez no Mexico. Mas não, 80% do filme é sobre a relação entre Eisenstein e Palomino. Uma obsessão totalmente filmada sem tesão. A fotografia também não me agradou, parece que usaram uma câmera não profissional, tem momentos, que parece vídeo. Nota: 5

À espera de turistas

"Am Ende kommen Touristen", de Robert Thalheim (2007) Bom drama alemão que procura exorcizar o fantasma da culpa do povo alemão sobre o genocídio em Auschwitz, através do olhar da nova geração de alemães. Nos dias atuais, Sven, um jovem alemão de 19 anos, precisa decidir se vai se alistar no exército ou se faz trabalho voluntário. Optando pela segunda opção, ele é enviado como assistente social para o Museu de Auschwitz. Entre várias missões, a principal de Sven é tomar conta do sobrevivente polonês Krzeminski, um idoso mau humorado que restaura malas dos mortos no Holocausto e faz palestras para jovens alemães que visitam o Museu. No entanto, Sven é maltratado pelos poloneses, e ao mesmo tempo, vai descobrindo mais sobre a culpa dos alemães em relação aos campos de concentração. O roteiro complexo é tratado com dignidade, e evita a todo o custo caminhar para o melodrama. A relação entre Sven e Krzeminski é conduzida de forma fria, sem estereótipos, o que promove ao filme um tom mais cruel das relações entre 2 povos ond euma hora um foi prisioneiro ( Krzeminski quando encarcerado em Auschwitz) e Sven, agora "prisioneiro" dos caprichos do Sr Krzeminski. Ótimos atores, boa direção e melhor, a gente conhece os ambientes do Museu de Auschwtiz e arredores. A imagem das malas dos judeus mortos no campo, alojados atrás de uma vitrine como se fossem expostos para venda, é muito forte. O filme foi exibido em Cannes dentro da Mostra "Un certain regard". Nota: 7

domingo, 3 de janeiro de 2016

Ensina-me a viver

"Harold and Maude", de Hal Ashby (1971) Lançado em 1971, o filme escrito por Colin Higgins foi destruído pela crítica e esnobado pelo público. Somente mais d euma década depois ele foi redescoberto e alçado à categoria de filme cult, inclusive em 1997 foi escolhido para preservação no National Film Registry por ter sido considerado um filme culturalmente relevante. Exibido no auge da Guerra do Vietnã, "Harold and Maude" é um libelo contra todas as guerras, sejam elas domésticas, familiares ou sociais. Harold, um jovem de 18 anos, é órfão de pai. A sua mãe tenta a todo custo arranjar uma namorada para ele, mas ele rejeita todas. Harold consulta terapeuta, padre, seu tio militar, mas ninguém consegue lhe dar um rumo, ou melhor, ninguém consegue lhe oferecer o que ele mais deseja: amor. Por conta disso, e para chamar atenção, ele simula vários suicídios. Harold também é fascinado por frequentar funerais. Em uma de suas visitas, ele conhece Maude, uma senhora espevitada e divertida que está para completar 80 anos. Eles se tornam amigos e Maude consegue lhe trazer tudo o que ele queria: atenção, amor e mais do que tudo, alguém por quem ele se preocupe de verdade. Os diálogos são primorosos e espirituosos. Ruth Gordon, que havia recebido um Oscar de coadjuvante por "O bebê de Rosemary", está brilhante. Bud Cort, ator de vários filmes de Robert Altman, entre eles, "Voar é com os pássaros", nasceu para o papel. Impressionante a atuação dos 2, que comovem o espectador alternando momentos de melancolia, alegria e drama. O filme critica a Guerra ( tem um plano sensacional que faz referência a "E o vento levou", faz alusão ao movimento Hippie e ainda critica o papel do negro na sociedade, ao relegá-lo ao único papel de um motorista de um militar. O filme atira para todos os lados, e reserva alguns dos momentos mais brilhantes e sensíveis do cinema. Trilha sonora de Cat Stevens, é um programa obrigatório para todos que acham que a vida não vale a pena, e claro, que querem ver atuações estupendas de um elenco em estado de graça. A peça teatral baseada no filme até hoje faz sucesso no mundo inteiro. Nota: 10

Relacionamento à francesa

"Papa ou maman", de Martin Bourboulon (2015) Estreando na direção de longa, o Cineasta Martin Bourboulon demonstra muito mais inteligência e criatividade que muito cineasta veterano. Essa comédia levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas franceses , e merecidamente. É divertida justamente porque o roteiro aposta no politicamente incorreto. Os filmes de hoje em dia ficaram caretas por conta da pressão de boa parte da sociedade que critica qualquer elemento fora do tom: racismo, feminismo, etc. "Relacionamento à francesa" não tem medo de chocar pelo bizarro. Ele investe naquele tipo de humor cáustico das grandes comédias americanas dos anos 80, onde as Gags e as situações insanas levavam o espectador a loucura. Florence e Vincent são um casal que se apaixonou ainda estudantes no ano 2000 ( um plano sequência maravilhoso ao som de " Modern love", de David Bowie). Passam- se 15 anos e eles estão casados e com 3 filhos. No entanto, o tempo não fez bem para os dois: eles anunciam a um casal de amigos que irão se divorciar. Tanto o marido e a esposa querem colocar a profissão em primeiro lugar, daí que nenhum deles quer a guarda dos filhos. E a partir daí rolam momentos de puro nonsense dos dois tentando se livrar dos filhos de qualquer jeito. Excelente atuação dos atores protagonistas e muito boa edição e edição de som. Os atores aliás são o principal trunfo do filme. Eles levam a sério toda a loucura dos seus personagens. O diretor realiza um filme comercial de grande competência, um sessão da tarde de qualidade porém que deixarão os filhos com um pé atrás. Nota:8

Queda livre

"Szabadesés", de György Pálfi (2014) O cineasta húngaro György Pálfi é um grande apreciador do cinema bizarro e fantástico. Em 2006 ele realizou "Taxidermia", um dos filmes mais loucos que já assisti. Agora com "Queda livre", ele faz o filme que está na cabeça doentia dele. O filme é uma antologia de 7 histórias, todos interligados pela história de uma idosa desgostosa com a vida que resolve se jogar do alto de um prédio de 7 andares. Na queda, ela não morre, e resolve se jogar de novo. Porém, o elevador está quebrado, e aí ela precisa subir os 7 andares a pé. A cada andar que ela sobe, somos apresentados a uma história do morador daquele andar. Não existe uma unidade estiilística. Cada episódio tem a sua cor, o seu nível de bizarrice. Uns mais realistas, outros mais lúdicos, mas todos muito insanos. Humor negro pra dar e vender. 1o andar) Um guru de meditação faz o seu grupo de alunos acreditar que com a força da mente é possível atravessar uma parede 2o andar) Em uma festa de cantores líricos, a anfitriã recebe os convidados totalmente nua, porém os convidados não se incomodam com esse fato 3o andar) Um casal com fobia de germes faz sexo envoltos em papel filme 4o andar) em formato sitcom com direito a claque de risos, uma mulher divide o seu amor cm 2 homens, que tentam se matar de todas as formas 5o andar) Uma mulher faz um procedimento cirúrgico inusitado: ela insere o seu bebê de volta para o seu útero 6o andar) Uma criança que sofre bullying de seus pais fantasia um boi assustador que é alimentado pelo seu medo 7o andar) é o suicídio da idosa Lendo essas pequenas sinopses, o espectador fica imaginando que tipo de mente doentia seria capaz de elaborar tais situações. Pois é, essa pessoa é esse cineasta interessantísimo, mas igualmente irregular na realização. As idéias podem ser bem criativas, mas uma pena que nem todos os episódios tenham a excelência do 3o andar, que é a do casal safe sex. Esse é uma pequena obra-prima, que merecia um curta à parte. Ponto para o elenco como um todo, por se comprometerem a participar de um filme que coloca o talento deles à toda prova: é tudo, ou nada, e o que vale, é o risco. Nota: 6

Gueros

"Gueros", de Alonso Ruizpalacios (2014) Dirigido e escrito pelo mexicano Alonso Ruizpalacios, "Gueros" é um filme independente que venceu vários prêmios internacionais, entre eles no Festival de Berlin 2014, de onde saiu com o prêmio de melhor filme de cineasta estreante. Rodado em preto e branco, é um drama sobre a juventude, totalmente rodado em preto e branco. é um filme de Cineasta cinéfilo, que busca referência no cinema existencialista e estilizado de Jim Jarmusch e no trabalho sonoro de Lucrecia Martel para fazer a sua leitura sobre os conflitos da juventude que quer crescer mas não encontra respaldo na sociedade. O mundo proposto pelo cineasta Alonso Ruizpalacios é cinza, sem futuro, sem amor, e o que resta de esperança e paixão precisa ser revirado da tumba para poder florescer de novo. Desencantado, triste, esse mundo onde até os sonhos não se realizam, vivem os irmãos Tomas e Fede. Tomaz , pela sua rebeldia, é enviado por sua mãe para ir morar com o irmão mais velho, Fede, estudante universitário. Fede divide o apartamento com um amigo, Santos. A faculdade está em greve, e os amigos resolvem fazer a greve da greve: simplesmente não saem de casa. Cabe a Tomaz estimular os 2 a sairem de casa, mas com um pretexto lúdico: pegarem o carro e irem atrás de Epigmenio Cruz, um cantor da velha guarda do rock que encantou o pai falecido dos irmãos, e que descobrem, está a beira da morte. A esse grupo se unta Ana, uma estudante revolucionária que luta por um mundo mais justo. Nesse road movie, os jovens vão em busca de um ideal e mais do que isso, um motivo para a sua existência. Gueros é um termo mexicano que quer dizer "Loiro". Como os personagens do filme são todos morenos, podemos entender que são os excluídos. O filme trabalha com o elemento lúdico em vários momentos, trazendo referências também ao cinema de Bunuel. Isso porquê o cineasta Ruizpalacios quer que o espectador tenha as mesmas impressões sensoriais dos personagens: muitas vezes o som emudece, a câmera fica lenta. e elementos estranhos surgem, como penas que voam no ar, do nada. é um filme estranho, às vezes primoroso, às vezes entediante, às vezes juvenil demais. E no final é isso mesmo. Um primeiro filme cheio de atitude, cheio de vontade de querer falar muita coisa. Tem material para mais de um filme. É um digno representante do gênero "Filme de Festival". Nota: 7

sábado, 2 de janeiro de 2016

Spotlight- Segredos revelados

"Spotlight", de Tom McCarthy (2015) Baseado em fatos reais, "Spotlight" é ambientado no ano de 2001, uma época onde o jornal impresso ainda tinha muita relevância. Uma divisão de jornalistas de elite do jornal "The Boston Globe" sao chamados "Spotlight". O grupo é formado por 4 jornalistas que investigam e publicam conteúdo explosivo, podendo levar anos fazendo uma mate'ria. Durante a troca de editor chefe, o novo empossado, o judeu Marty Baron (Liev Schreiber), sugere que o grupo faça uma matéria investigando o abuso sexual de padres contra menores em Boston. O grupo Spotlight de início fica arredio, pois sabem que irão mexer com os valores da Igreja católica e que o Cardeal está encobrindo os padres e mandando eles para outras igrejas. Mas a ética jornalística os fazem agarrar o tema com unhas e dentes, lutando contra a Igreja e o sistema judiciário, que atrapalham as investigações. Em 2003, o jornal recebeu o Prêmio Pullitzer de melhor matéria jornalística. O que dizer de um filme com um tema tão forte como a pedofilia dentro da Igreja católica, protagonizada por um verdadeiro time de feras? Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci e principalmente Mark Ruffalo, comovente como o jornalista Mike Resendes? É um show de interpretaçao. O roteiro é bem didático, traçando item pot item sobre os caminhos da investigação. O que me incomodou de certa forma foi como com tantos elementos de sucesso, o filme ficou tão burocrático. Do início ao fim, faltou aquele frisson, aquela torcida, aquele suspense que faz com que o espectador pense: "caramba, não vai dar certo". Talvez a opção do cineasta Tom McCarthy tenha sido essa mesma, mostrar a frieza da corporação jornalística. Afinal, "Spotlight" ganhou vários prêmios de Melhor filme dado pelos críticos. Provavelmente eu estava esperando um outro tipo de filme. de qualquer forma, fiquei satisfeito só de er visto tantas boas atuações, incluindo do elenco de apoio. Nota: 7

Sasha

"Sasha", de Dennis Todorovic (2010) Drama co-produzido pela Amanha e Yuguslávia sobre a saída do armário de um jovem adolescente. Sasha é filho de um casal Yuguslavo que mora em Colônia, na Alemanha. Ele tem um irmão mais velho e um tio e todos moram juntos em uma casa que também funciona como pub. Sasha estuda piano imposto pela sua mãe, que deseja que o filho se torne algo que ela mesmo não conseguiu. Seu pai é bronco e homofóbico. A chinesa Jiao, estudante de violino, é apaixonada por Sasha. Mas ele tem um segredo: é apaixonado pelo seu professor de piano. Essa sinopse é comum a quase todos os dramas sobre adolescentes gays que resolvem sair do armário. A melhor amiga apaixonada, pai homofóbico, conflitos da adolescência. O que difere essa produção é que ela tem um segundo tema: o filme quer falar também sobre o problema da imigração na Europa. Famílias Yuguslavas que moram na Alemanha e precisam se habituar aos costumes liberais da cultura alemã. e tudo isso embalado por uma boa direção, que aposta em enquadramentos criativos e uma fotografia artística que trabalha bastante com focos em primeiro e segundo plano. Para um filme sem grandes ambições, esse componente visual é até arrojado. Outra boa conquista do filme é o bom trabalho de todo o elenco, em especial os atores que interpretam os pais de Sasha, excelentes. O jovem ator Sasa Kekez tem carisma o suficiente para fazer o espectador assistir ao filme, mesmo que no final ele desande por um molodrama forçado. A entrada do elemento do humor também não é orgânico, distoando do tom do filme, principalmente o personagem do tio. A família Yuguslava tem aquele olhar bufônico típico dos filmes de Kusturika, inclusive a trilha sonora colabora para dar esse clima. Nota: 7

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Os oito odiados

"The hateful eight", de Quentin Tarantino (2015) A escritora inglesa Agatha Christie encontrou o cineasta que melhor conseguiu transpôr uma obra sua para o Cinema. Esse alardeado e excepcional 8o filme de Tarantino é isso: um Hercule Poirot ambientado na época dos Estados Unidos da Secessão americana, da divisão Sul e Norte, brancos e negros. Uma época onde negros e mulheres não tinham voz, e mexicanos eram apenas os bandidos. As 3 horas de duração desse grande Teatro em 2 atos ( dentro da cocheira e dentro da estalagem) afirmam o que todo cinéfilo já sabia: Que Tarantino é um excelente diretor de atores e de construção de personagens. E que diálogos primorosos: A gente fica entre altas gargalhadas nervosas a momentos verdadeiramente tensos. E isso tudo confinado a lugares fechados. Quem manda no filme são os personagens, e por sua, vez, os atores sensacionais que Tarantino escalou : Samuel L Jackson, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Bruce Dern, Michael Madsen, Walton Goggins, Demián Bichir, Kurt Russel e James Parks brincam de mocinho e bandido numa trama onde ninguém é o que aparenta ser. A história gira em torno de Daisy Domergue (Leigh). Ela é uma bandida levada para ser enforcada por um caçador de recompensas, Joe ( Russel). No caminho, ele dá carina para 2 estranhos: Major Warren (Samuel L. Jackson) e O Sherife Chris (Walton Goggins). Pegos por uma nevasca, eles são obrigados a ficar em uma estalagem, onde outros homens se encontram presentes. Começa uma brincadeira de gato e rato para descobrir a verdadeira identidade de cada uma das pessoas ali presentes. Não dá para contar muita coisa pois corre-se o risco de contar spoilers. O que posso dizer é que a fotografia e a tela panorâmica do filme são fodas, a trilha de Morricone é bacana e que a edição do filme é muito genial. Mas atenção: é um filme extremamente verborrágico, porém diálogos inteligentes e ácidos, uma metralhadora giratória que atira para os negros, as mulheres e os hispânicos. O roteiro bem construído, vai trazendo novas informações a cenas que foram exibidas anteriormente. Vai ter muita gente odiando a construção teatral do filme. ë como se fosse uma peça de teatro de Agatha Christie encenada num palco de cinema. Tem que se prestar atenção a todos, mas todos os detalhes. Tarantino brinca com ícones pop do cinema, entre eles, Doris Day no filme "Ardida como pimenta", através de uma das personagens. Um grande filme em todos os aspectos, e torço para que as pessoas curtam o filme pela sua sagacidade e inteligência, e não o esnobem pela sua teatralidade. Pelo menos sangue e gosmas, o filme vai ter de montão, para quem espera por isso. Para detratores que queiram encontrar misoginia e racismo no filme, vão ter o que discutir nos bares. Nota: 10

Cavaleiro de copas

"Knight of cups", de Terrence Malick (2015) Exibido em Berlin, "Cavaleiro de copas" parece fazer parte de uma trilogia composta por " A árvore da vida" e " Amor pleno". Digo isso porque desde sua Palma de Ouro em Cannes, ele vem se repetindo na forma e conteúdo. Lentes grandes angulares, câmera na mão, conteúdo existencialista e metafísico, espiritualismo, belíssimas locações registradas no quadro mais aberto que puder, música clássica, personagens em constante movimento e sem rumo, quase inexistência de diálogos, a busca pelo sentido da vida, narração em off do protagonista masculino. Aqui existe um dado a mais: o vazio do Universo cinematográfico, os excessos e as festas intermináveis com gente bonita e muito glamour e luxúria. Malick faz a sua homenagem a " A grande beleza", de Sorrentino, que por sua vez ja homenageava Fellini de " La dolce Vita". Troquemos Roma por Los Angeles e Marcello Mastroiani por Christian Bale no papel de um roteirista rico e famoso, mas em crise existencial. Assim como " 8 1/2" também de Fellini, o personagem de Bale desfila por mulheres que passaram pela sua vida: Natalie Portman, Cate Blanchett, Teresa Wright, Imoge Poots e Freida Pinto. O filme é um desfilar de imagens belíssimas registradas pelo Mago Emmanuel Lubezki, que fotografa paisagens como ninguém. Los Angeles e Las Vegas pelas suas lentes parecem um sonho. Mas é um filme vazio, muito vazio. O que ficou no final das contas? Uma vontade terrivel de conhecer Los Angeles e ter dinheiro para frequentar tantos lugares sensacionais. Claro, acompanhado por Christian Bale para bater altos papos, porque aqui ele só filosofou. Malick , curiosamente, tomou gosto para filmar pois até a pouco tempo ele levava anos para fazer um filme e agora quase todo ano ele tá filmando um. O título se refere a uma das cartas do fator: valete de copas é o apaixonado, romântico. O filme é dividido por títulos dos arcanos do Tarot como Morte, Lua, enforcado, etc. Nota: 6