domingo, 6 de março de 2011

As amizades particulares



" Les amitiés particuliéres/This special friendship", de Jean Dellanoy (1964)

Adaptação cinematográfica da obra homônima, escrita por Roger Peyrefitte. A obra é descrita como autobiográfica, narrando o período que Roger ficou como interno de um colégio de padres católicos.
O filme narra a história de Georges de Sarre, um adolescente de 16 anos, de família aristocrática. Ele é transferido até um rígido colégio de formação religiosa, na França dos anos 20. Lá, ele conhece Lucien, por quem ele se sente atraído. Porém, Lucien já tem um namorado secreto, André Ferron. Georges arma contra André, o que provoca sua expulsão. Abalado, Lucien se deprime. Georges o conforta, mas Lucien não estreita a sua amizade com Georges, que esperava uma entrega por parte dele. No entanto, Georges vem a se apaixonar por Alexander, um garoto de 12 anos. A paixão é mútua. Ambos trocam cartas de amor, sempre mantendo a relação em segredo. Os dois se encontram em um pequeno celeiro abandonado próximo ao colégio. O tempo passa, e os padres do local se revelam pedófilos, desejando ardentemente os meninos. Um deles, enciumado da relação de Georges e Alexander, exige o término da amizade, o que culminará em tragédia.
Um filme ousado para a época, e que lida com muita coragem com temas como homossexualismo e pedofilia. Fosse feito hoje em dia, o filme seria atacado por toda a mídia e causaria muito tumulto. Na época em que foi realizado, a questão da pedofilia não era tão acirrada como hoje, e tudo era visto como uma forma de amor entre pessoas de idade distintas.
A força do filme advém da coragem dos atores em interpretar papéis tão complexos, sem expressar qualquer tipo de falso moralismo. Existe uma entrega formidável, principalmente da dupla Georges ( Francis Lacombrade) e de Alexandre (Didier Haudepin). Vai um destaque absoluto para o trabalho de Didier, incrivelmente talentoso e astuto para a sua idade, conferindo profissionalismo e humanidade ao papel.
A fotografia em preto e branco reforça o clima melancólico do filme, e a locação ambientada em um colégio religioso do início do século XX é perfeita.
A inteligência da direção do filme omite passagens mais objetivas, deixando em aberto ao espectador se a relação dos dois garotos era simplesmente amizade ou se chegou as vias de fato.
Após ver o filme, ficou claro para a mim uma forte referência de Almodovar para o seu filme " Má educação", em muito semelhante a essa história.

Nota: 8

Viver a vida


" Vivre sa vie" de Jean Luc Godard (1962)

Drama dividido em 12 cenas, narra a história de Nana, uma aspirante a atriz, que abandona marido e filho pequeno em prol de seu trabalho. Pobre, ela trabalha em uma loja de discos como vendedora. Endividada ao extremo, ela acaba se prostituindo. Conhece um cafetão, Raoul, que a levará a desgraça.
Incrível como eu até hoje não havia visto essa obra-prima de Godard. Sou fã de seus filmes nessa fase dos anos 60 e 70. Dos anos 80 para cá, poucas são as obras que me interessam. A fase áurea de Godard é justamente a que traz inovação na linguagem, a ruptura com a dinâmica do cinema tradicional.
Aqui em " Viver a vida", Godard flerta com o melodrama. Nana é uma anti-heroína, daquelas que lutam por um ideal, mas a vida acaba se tornando um fardo para a sua existência. Assim como nas protagonistas dos filmes de Lars Von Triers, Godard não se permite que a personagem seja feliz. Talvez em um único instante, na cena da dança na sinuca, ela se permite entregar ao prazer: a dança lhe traz leveza, paz, felicidade. de resto, ela procura se manter da melhor forma possível. Quando ela descobre o amor, já é tarde demais.
Interessante a divisão dos capítulos, todos nomeados , uma espécie de resumo do que iremos ver. O trabalho de câmera é excepcional: alguns capítulos são em plano-sequência, como a da loja de discos. O uso do travelling é fantástico. parece que estamos presenciando um ballet. A cena do bar, quando rola o tiroteio, tambèm é incrível: na hora dos tiros, a câmera vai se acordo com o ritmo dos tiros. Foda!
Godard é tão ousado, que na cena inicial, que dura quase 10 minutos, os personagens contracenam praticamente de costas. Quase não vemos seus rostos, apenas refletidos ao longe no espelho, ou vistos de perfil.
A fotografia em preto e branco carrega em si a tristeza do filme, e a trilha sonora de Michel Legrand pontua o sofrimento da personagem. Interssante a cena do cinema, quando Nana está assistindo a " O martírio de Joana D´arc", de Dryer. Os closes de atriz do filme (Falconetti) se confundem com o de Ana Karina. Um prenúncio do que irá acontecer com a personagem. A morte como libertação de espírito.
Mas o filme não seria nada se não fosse a presença enigmática de Ana Karina. Linda, ela capta o espectador em todas as suas emoções. A tristeza eminente de sua personagem ganha forças com o seu olhar , com a sua postura. Adoro a cena que ela mede o seu corpo. É de uma graciosidade incrível.
A cena final é de uma brutalidade poucas vezes vista. O filme simplesmente acaba com o desfecho da personagem. assim mesmo, narrada secamente. Godard mostra aqui a excelência de seu trabalho como diretor e narrador de histórias, como poucos.

Nota: 10


sábado, 5 de março de 2011

Morrer como um Homem


" To die like a man/ Morrer como um homem", de João Pedro Rodrigues (2009)

Drama musical, do mesmo cineasta dos polêmicos " O fantasma" e " Odete". Mais uma vez, João Pedro Rodrigues trabalha com a temática do homossexualismo. Dessa vez, ele narra a história de Tonia, um travesti que sobrevive fazendo shows em uma boite gay em Lisboa. Após mais de 20 anos fazendo shows, Tonia vai perdendo espaço para os novos talentos. Ao mesmo tempo, ela sofre com a vida marginal de Rosario, seu jovem namorado, que vive com biscates e pequenos roubos. Para piorar a situação, Zé Maria, seu filho que Tonia abandonou quando era criança, retorna para casa, após desertar doi exército, por ter matado um soldado, em acesso de fúria por conta de seu pai ser um travesti. Tonia descobre também que está doente: o silicone implantado em seus seios causaram inflamação irreversível em seu corpo.
O filme é um melodrama musicado, mas bem diferente do estilo colorido e bem humorado de Almodovar. O filme é melancólico, bruto, cru. As cenas de nudez masculina abundam na tela, a fragilidade dos personagens tornam tudo muito realista. O cineasta abusa de filtros nos números musicais, tornando tudo vermelho ou azul.
Fernando Santos, no papel da protagonista Tonia, defende com garra o difícil personagem. O elenco de apoio também é interessante, com destaque para Alexander David, no papel de Rosario. A fotografia é escura em vários momentos, mas de uma forma geral é interessante. As músicas fogem do estereótipo de shows de drag queens, com exceção de um número de dublagem onde a atriz dubla " Total eclipse of the heart", um ícone gay. No mais, são fados tradicionais.
O filme é longo, quase 130 minutos. Tivesse pelo menos 30 minutos a menos, seria muuto mais interessante. O roteiro é curioso, mas lá pela meio, perde seu rumo, numa viagem que Rosario e Tonia fazem até a casa do irmão de Rosário. os dois se perdem e vão parar na casa de uma travesti. As cenas que se seguem tentam dar um clima mágico de fábula, mas me pareceu uma tentativa frustrada. Não combinou com o restante do filme.

Nota: 7


Presos no gelo 3


" Cold prey 3/Frit Vilt 3", de Mikkel Braene Sandemose (2010)

Suspense norueguês, realizado pelos mesmos produtores dos filmes anteriores, que fizeram muito sucesso em circuito mundial.
Essa terceira parte é na verdade um " prequel", um prólogo do que teria acontecido com o garoto de 12 anos que sumiu do hotel comandado por seus pais, em uma região gélida nas montanhas. Para quem assistiu os filmes anteriores, sabemos que o garoto se transformou, 30 anos depois, no assassino do gelo. Um serial killer que sai matando quem invade as dependências do hotel hoje abandonado.
Aqui, um grupo de jovens, no ano de 88, resolve fazer uma viagem até o hotel abandonado. Chegando lá, eles desistem de ficar nas dependências do hotel, e resolvem acampar na floresta próxima. O que eles não esperavam é que o assassino ronda o local, e resolve matar um por um dos 6 amigos.
O filme tem um bom clima de suspense, a ambientação é bem aterrorizante. Mas o acúmulo de clichês tira a novidade da história. Um arremedo de " sexta-feira 13" com outros filmes do gênero. Sim, a indefectível camera do ponto de vista do assassino, os sustos fáceis, o carro que não pega, as pessoas que tropeçam ao correr, tudo está lá.
O problema de se fazer um prólogo de um filme que já virou um franchising, é que sabemos de antemão que ninguém irá sobreviver.
O roteiro irrita pelas implausibilidades. E a medida que o filme avança, irrita ainda mais. Uma pena, pois o filme até cria um suspense digno.
Vale como curiosidade de se ver um filme do Leste europeu, que copia o jeito americano de se fazer filmes de terror.

Nota: 6

Restrepo


" Restrepo", de Tim Hetherington e Sebastian Junger (2010)

Filme vencedor do prêmio de melhor documentário em Sundance 2010, e indicado ao Oscar da Categoria em 2011.
Tim Hetherington é fotógrafo, e venceu um prêmio da World press com a foto de um soldado americano em Restrepo, no Vale do Korangal, Afeganistão. Sebastian é roteirista, e escreveu o roteiro do filme " Mar em fúria". Juntos, acompanharam 15 meses na vida de um pelotão americano (segundo pelotão) na base de Korangal , um vale situado naquela que é considerada a região mais perigosa do Afeganistão, por ser uma área estretégica para os Talibãs.
O slogan do filme é " Um pelotão, um Vale, um ano". O filme registra desde o momento de chegada dos soldados na região, o primeiro encontro com esse local inóspito, os ataques, as mortes dos companheiros, as frustrações, os sonhos e desejos.
O que mais impressiona no filme são as imagens, corajosas por registrarem tudo tão próximo, inclusive com risco de vida para os cinegrafistas. Ter essas imagens realistas causam um impacto profundo, e é fácil entender que esses soldados jamais voltarão a ser o que eram antes de ir para a guerra.
Os diretores não fazem aqui nenhum tratado sobre o tema, nem buscam culpados ou vítimas. Apenas acompanham, com um olhar distanciado, o drama de jovens soldados, muitos sem saber o que de fato foram fazer lá, e qual lugar iriam. Mostra também a arrogância de militares americanos na região, ao impor a construção de uma estrada na região, nem que para isso, eles tenham que negociar com moradores do local, muitos feridos pela guerra. Em uma cena, anciãos querem indenização pela morte de uma vaca, causada pelos soldados. Os militares dizem não ser possível restituir o prejuízo com dinheiro,e sim, com bens. Pegar ou largar.
Um filme que não acrescenta muito ao tema, visto que ultimamente tivemos muitos exemplos de documentários que tratam do mesmo assunto: soldados ingenuamente seguem para uma guerra que eles mesmos não sabem o porquê estão lá, e a descoberta tardia que fizeram uma escolha errada em suas vidas. Vide o recente " Armadillo", filme dinamarquês que também documenta o dia a dia de soldados na região.
De qualquer forma, o filme exala tensão, e é sempre comovente acompanhar o trauma de soldados, que precisam lidar com a constante presença da morte em suas vidas.
O filme foi co-produzido pela CNN e pela National Geographic Channel. O nome " Restrepo" é uma homenagem que os soldados fizeram, a um dos colegas, mortos na primeira investida na região. Eles batizaram o posto americano no Vale com o seu nome, e ficou ativo de 2007 a 2009.

Nota: 7



sexta-feira, 4 de março de 2011

I´m still here : O ano perdido de Joaquin Phoenix


" I´m still here" , de Casey Aflleck (2010)

Documentário que faz o registro de quase 1 ano na vida do ator Joaquin Phoenix, desde o anúncio que ele fez em um evento de caridade, revelando que jamais trabalharia como ator outra vez. Seu último filme até então foi " Amantes", com Gwyneth Paltrow. Seu cunhado, o ator Casey Affleck, faz então um portrait de Phoenix, e seu caminho para se tornar um cantor de rap, que é o seu desejo.
O filme começa com imagens de Phoenix no Panamá, cidade onde seus pais missionários moram. Ao todo, o casal possui 5 filhos, entre eles, o também ator River Phoenix, falecido por motivos de overdose. Joaquin começa a adquirir uma imagem desleixada, descuidando de seu corpo e higiene pessoal. Fica barbudo, cabeludo e uma aparência auto-destrutiva. Acompanhamos as constantes brigas com os seus 2 assistentes pessoais, as bebedeiras, uso de drogas (cocaína) e orgias com prostitutas. Tudo registrado sem pudor. Mostra também a sua relação com o rapper Puff Daddy, e outros do Gênero. O filme também mostra na íntegra a famosa entrevista que ele deu para o apresentador David Letterman. Na entrevista, Phoenix se mostrava apático, chapado e grudou chiclete na mesa. Após esse evento, no qual ele declarou publicamente não querer mais trabalhar como ator, Phoenix virou motivo de chacotas.
O documentário é interessante, apesar de longo. Phoenix se expõe na íntegra, sem censura. Porém, o que se diz por aí é que esse é na verdade um " mockmentary" (falso documentário), tendo tudo devidamente planejado. Seria na verdade uma brincadeira de ego, mais um personagem na vida do ator. Vendo o filme, podemos perceber claramente muitas armações, principalmente no que diz respeito a um de seus assistentes. Phoenix parece brincar o tempo todo diante das câmeras, que não cansam de registrar momentos escatológicos.
Uma curiosidade para quem curte acompanhar o dia a dia de celebridades excêntricas. Exibido no Festival de Veneza de 2010, o filme gerou controvérsias e expeculações sobre sua autenticidade.

Nota: 7

Desconhecido


" Unknown", de Jaume Collet-Serra (2011)

Thriller de ação, estrelado pelo ator irlandês Lian Neeson, que se revelou herói dos filmes de aventura após suas investidas bem sucedidas em " Busca implacável" e " Esquadrão Classe A".
Aqui, Lian interpreta Dr Martin Harris, renomado biólogo que vai até Berlin com sua esposa para uma conferência de bio-tecnologia, patrocinado por um príncipe árabe. No caminho até o hotel, Martin sofre um acidente de táxi e perde parcialmente a memória. Ao reencontrar sua esposa, descobre que ela não se lembra dele, e que ele tem outro em seu lugar. Sem entender o que está acontecendo, Martin é ajudado pela taxista que estava dirigindo na hora de seu acidente. Porém, assassinos profissionais estão em seu encalço, sem que ele saiba o porquê.
Movimentado suspense, com um bom roteiro, porém cheio de furos. Muitas facilidades no desenrolar da trama para ajudar o desmemoriado. Sabe aquela situação que acontece do nada, somente para que a história ande? Por ex, a enfermeira que o ajuda do nada. A personagem de Diana Krueger também é incoerente:como uma imigrante ilegal vai ajudar um cara que ela nunca viu na vida, correndo o risco de ser presa pela polícia? De qualquer forma, o seu personagem é ótimo, a típica parceira que surge do nada para ajudar o herói, e que se revela boa na briga.
Lian Nesson está ótimo, e curioso como sua carreira mudou de tom. Agora ele é astro de filmes de ação, contrariando o seu tipo mais sério que fazia desde os anos 80.
Bruno Ganz e Frank Langela fazem participações de luxo, dando charme a produção.
Sim, o filme remete a muitos outros filmes: " Identidade Bourne", " O Vingador do futuro", " Busca frenética".... O Cineasta Jaume Collet-Serra ( que dirigiu " A Órfã" e " A casa de cera") acerta no tom escapista da trama, com muitas cenas de ação , apesar de sua trama ser rocambolesca demais.
Um filme passatempo, que agradará se for assistida sem compromissos.

Nota: 8


Shocking Blue


" Shocking Blue", de Mark de Cloe (2010)

Drama holandês, centrado na vida de 3 amigos adolescentes inseparáveis: Willian, Cris e Jack. Os três passam o dia fazendo brincadeiras, se divertindo da melhor forma possível, e fortalecendo cada vez mais a união que existe entre eles. Um dia, Jack conhece uma jovem, Manou, por quem se apaixona. Numa festa, eles transam. Willian presencia a transa, e desenvolve em si um sentimento que até então desconhecia. No dia seguinte, numa brincadeira entre os 3 amigos, que estão em um trator, Jack se desequilibra e é esmagado pela roda. A partir desse momento, Willian se rompe para o mundo: acaba sua amizade com Chris, e passa seus dias enjaulado em sua estufa, aonde ele cria tulipas azuis. Até que um dia, reencontra Manou, e ambos se descobrem apaixonados. Manou está grávida de Jack, e Willian resolve assumir a paternidade da criança.
Belíssimo filme, que narra as crises da adolescência de forma poética e romantizada. Os jovens atores são excelentes, atuando de forma naturalista, sem forçar em expressões. O filme transpira jovialidade e beleza. As locações, centradas em uma cidade de plantações de flores, são estonteantes. As tomadas dos campos floridos, tomados por tulipas de todas as cores, são mágicas. A fotografia do filme é estupidamente bela. A trilha sonora, a cargo de canções de Lawrence Horne, são melancólicas, e casam perfeitamente com as imagens.
O roteiro tem falhas na narrativa, e alguns personagens são pouco delineados. Os clichês familiares estão presentes ( a mãe de William saiu de casa, em busca de sexo fácil, e sua irmã namora seu melhor amigo). A personagem de Manou também é pouco explorado,e é estranho que ela não tenha muitos laços familiares, estando livre e desimpedida para qualquer circunstância da vida. Mas de uma forma geral, a ambientação do filme é tão nostálgica e contagiante, que nos deixamos levar pela narrativa lenta, e de imagens hipnotizantes.

Nota: 8


domingo, 27 de fevereiro de 2011

Bruna Surfistinha


de Marcus Baldini (2011)

Drama baseado no livro " Doce veneno do escorpião", escrito por Raquel Pacheco, mais conhecida pela alcunha de Bruna Surfistinha.
O livro vendeu mais de 250 mil exemplares, e foi traduzido para mais de 15 países.
O filme acompanha a trajetória de Raquel, jovem adotada por uma família classe média, mas que se cansa de sua vida sem objetividades, e acaba fugindo de casa, indo trabalhar num puteiro administrado por uma cafetina (Drica Moraes). Lá, ela conhece outras putas ( Fabiula Nascimento, Cristina Lago...), com quem ela travará amizades e inimizades. Disputando a clientela da casa, ela logo é mal vista pelas outras meninas, que não gostam nada do sucesso dela. Raquel muda seu nome para Bruna. Ela no início não leva muito jeito, mas logo vai se soltando e agradando uma enorme clientela, com destaque para Huldson (Cassio Gabus Mendes), que encontra em Bruna um amor que ela evita.
Bruna acaba sendo expulsa da casa, acusada de consumir cocaína, e monta o seu próprio negócio, se anunciando em um blog chamado " Bruna Surfistinha", de enorme sucesso. Mas logo ela se deixa envolver com drogas e falsas amizades, e vai da glória ao inferno.
A grande força desse filme reside na interpretação dos atores. Debora Secco defende com garra o difícil papel de Bruna, alternando momentos de inocência, ingenuidade e permissividade. Difícil encontrar uma atriz com a projeção que ela tem na mídia, se expôr de forma tão radical como o que ela faz no filme, mesmo que nenhuma cena seja explícita. O porém é que acho que ela já esteja velha para o personagem. Faltou frescor. Na primeira parte do filme, quando a personagem está na fase adolescente, Debora aparenta mais idade. Ela destôa dos outros jovens na escola. Drica Moraes e Fabiula Nascimento estão ótimas, fazendo parte da porção cômica da história. Destaques também paa Cassio Gabus Mendes e Juliano Cazarré. Aliás, o roteiro administra bem os gêneros drama e comédia. Algumas beiram até mesmo o pastelão (vide a cena do salão de beleza).
A fotografia de Marcelo Corpanni é bonita, e a trilha sonora contém pérolas pops nacionais e internacionais.
O que acho que faltou ao filme foi mais ousadia, em se tratando da personagem que é. Ficou um filme correto, porém sem a deliciosa malícia . Ficou uma narrativa fria. Li críticas o comparando a " Cristiane F" , mas ele não chega tão próximo a decadência física e moral da protagonista alemã.
Mas é um filme que vale a pena ser visto.

Nota: 7

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Incêndios


" Incendies", de Denis Villeneuve (2010)

Drama canadense, indicado ao Oscar de Filme estrangeiro em 2011.
O filme começa com um casal de irmãos gêmeos, que vai até o escritório de um advogado, responsável pelo testamento da falecida mãe deles. No testamento, eles recebem duas cartas, endereçadas ao pai e ao irmão. Para surpresa de ambos, que até então achavam que tanto o pai e o irmão estavam mortos. Somente a entrega dessas cartas, os irmãos poderão ler uma última carta, endereçada a ambos.
Assim começa a saga de Jeanne e Simon. Simon se revolta com a atitude da mãe, por ela esconder a existência do pai e do irmão. Jeanne entende melhor as razões de sua mãe, e parte até o Oriente médio, para descobrir as origens de sua mãe e o paradeiro de seus parentes.
O filme passa a ser narrado em duas épocas distintas: Acompanha a trajetória de Nawal, a mãe deles, durante conflitos que assolam a região que ela mora, e a viagem de descoberta de Jeanne. A verdadeira faceta de Nawal vai sendo revelada aos poucos, e os filhos descobrem que ela foi uma batalhadora, que se envolveu com ataques terroristas. e que ela guarda um terrível segredo.
O roteiro do filme é extraordinário: com uma trama mirabolante, beirando o folhetim, o filme surpreeende com as inúmeras reviravoltas. Tudo é muito bem amarrado, apesar de um tanto forçado. Mas nada que me incomodasse. É uma produção corajosa, forte, de cenas de grande impacto. A ambientação do filme é espetacular, tudo é muito realista. A interpretação dos atores é tocante, com destaque para o trabalho da atriz Lubna Azabal, no papel de Nawal.
A trilha sonora é perfeita, interagindo sons locais com música ocidental. Fotografia, edição, tudo está a serviço da narrativa.
Uma cena que particularmente me deixou arrebatado é a do ataque do ônibus. É de fazer estremecer qualquer coração mais resistente.
Um filme altamente recomendável, que me deixou muito envolvido.

OBS: COPIO ABAIXO, UM EMAI DO MEU AMIGO TIDE. É UMA RESPOSTA A COMENTÁRIOS DE AMIGOS NOSSOS EM COMUM, QUE DISSERAM ACHAR QUE O ROTEIRO ERA MUITO NOVELESCO E AS INTERAÇÕES ENTRE OS PERSONAGENS, MUITO FORÇADAS.

Pra mim, o que diferencia a tragédia grega da novela das seis e das manchetes do jornal Meia Hora não é a história em si, mas exatamente a abordagem.

No filme Incêndios, a mãe enfrenta estoicamente sua sina (e sua maldição) diante da desolação das paisagens a das almas. Segundo Aristóteles, é da natureza da tragédia mostrar os homens maiores do que são, isto é, suportando um destino cruel e maior que eles. E ninguém foge a seu destino em uma tragédia grega, pois as Erínias irão atrás de você e te encontrarão em qualquer Canadá em que você se esconda.

As tragédias gregas costumam ser mesmo cheias de coincidências inverossímeis. Tudo o que vocês falaram do filme se parecer com trama de novela das seis também se aplica, sem tirar nem pôr, a Edipo, Antígona, Electra e outros infelizes helênicos. As mesmíssimas tramas podem ser tratadas como tragédia, melodrama ou notícia sensacionalista, conforme o gosto do freguês. Eu fiquei imaginando como seriam as manchetes de um jornal sensacionalista se as tragédias gregas acontecessem (e elas se repetem a todo momento) em nosso cotidiano violento:

Medéia: Mãe mata os próprios filhos pra se vingar de ex-marido que ia casar com outra. Incêndio misterioso mata noiva e futuro sogro. Fotos na página 15


Édipo Rei: Magnata fura os próprios olhos após descobrir que casou com a mãe. Vídeo com filhos[irmãos] desconsolados ao encontrar corpo enforcado da mãe[avó] vaza na internet. Veja na página 25 infográfico com graus de parentesco projetados até a quinta geração.


Prometeu acorrentado: Falso profeta sobrevive após ter fígado parcialmente devorado por urubus. Polícia fala em possível vingança de chefão do tráfico. “Ele vê o futuro”, dizem membros da comunidade. Prefeito (candidato a reeleição) visita vítima no hospital.


Tide


Nota: 9


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dentes Caninos


" Kynodontas/Dogtooth" , de Giorgos Lantimos (2009)

Filme grego, ganhador do Prêmio em Cannes 2010 da mostra " Un certain regard", cedido a novos cineastas.
Perturbador, ousado, bizarro, polêmico. Adjetivos são o que não faltam para descrever esse drama familiar.
Um casal de alta classe mora em uma mansão, com os seus 3 filhos adultos ( duas moças e um rapaz). Os pais isolam os seus filhos do mundo externo. Eles não podem ver tv, não existe computador, internet, livros, nada. Tudo o que eles sabem, é através do que os seus pais contam. Todos os dias, eles escutam um gravador com vocabulários novos, gravados por seus pais, dando novos significados a palavras (por ex, Zumbi significa pequena flor amarela). O único que sai é o pai, que trabalha em uma fábrica ali perto. Ele costuma trazer Cristina, a segurança da empresa, para a casa para poder satisfazer os impulsos sexuais do filho. Ela é a única estranha que invade a casa. Os filhos agem como retardados, como crianças, e vivem fazendo brincadeiras violentas que envolvem sexo agressões verbais e físicas.
O filme me remeteu a vários outros: " Os idiotas", de Lars Von Triers, " A Vila", de Shayamalan, " O Pãntano", de Lucrecia Martel, " Funny Games", de Michael Haneke. Frio, sêco, pungente e cruel. O filme reserva cenas muito fortes, e a entrega dos atores as propostas feitas pelo diretor é impressionante.
O filme é lento, porém, sempre interessante. A fotografia e o trabalho de câmera são ótimos.
Confesso que gostei bastante do filme, ousado para os padrões americanos. Por isso me espanta a indicação feita pela Academia em indicá-lo como um dos 5 concorrentes ao prêmio de filme estrangeiro, uma vez que o filme possue cenas de sexo explícito, incesto, violência.

Nota: 8

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Trabalho Interno


" Inside Job", de Charles Ferguson (2010)

Documentário indicado ao Oscar 2011, é uma análise profunda sobre a crise econômica de 2008, que assolou o mundo e causou prejuízo financeiro da ordem de mais de 20 trilhões de dólares, além de milhões de novos desempregados. Essa crise é a mais devastadora desde o crack da bolsa de 29.
O autor, Charles Ferguson, procura tecer a sua teoria sobre o porquê da origem d acrise. Para isso, ele remete a situação econômica dos EUA desde os anos 8o, ainda no Governo Reagan. Traça todo um paralelo entre política e finanças, segundo o autor, caminhando lado a lado. Corrupção, ambição, tudo caminha a passos largos. O filme exibe dezenas de entrevistas com economistas, políticos, professores de economia, presidentes de corporações, etc, que dão depoimentos as vezes constrangedores, as vezes elucidativos. De uma forma geral, o filme é muito complexo para o espectador leigo. Todos os depoimentos são muito técnicos, e a linguagem é economês, Fiquei completamente perdido o filme todo, porquê ele não dá respiro: é um bombardeio de informações, que não dá trégua. E logo eu, que não entendo nada de economia. Saudades dos filmes de Michael Moore, esses sim Cinema, feitos para um público amplo, didáticos e divertidos. Aqui, parece que estamos assistindo a uma tese de algum aluno de economia. Chato, muito chato. O filme é longo, repetitivo, e totalmente desprovido de cinema.

Nota: 4

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

20 Cigarros


" 20 Sigarettes", de Aureliano Amadei (2010)

Drama italiano, autobiográfico, sobre as experiência do cineasta Aureliano Amadei durante a Guerra do Iraque em 2003.
Amadei é contratado para ser assistente de direção em um filme a ser rodado no Iraque. Ele larga a sua vida em Roma
(namorada, pais) , o conforto e alegria dos amigos, em uma empreitada que ele entende como pacífica. As informações que ele recebeu antes de viajar é que a Guerra estava sobre controle, daí a pouca preocupação dele em fazer tal arriscada viagem. Ao chegar lá, de imediato Amadei percebe que o que contaram a ele não procede. Eles são recebidos a balas antes de chegar ao acampamento italiano. Amadei passa a noite no acampamento. De espírito alegre e livre, Amadei é a alegria de todos. No dia seguinte, ele sai com Rolla, o cineasta, até uma região militar, acompanhado de escolta. Ao chegar lá, eles sofrem um atentado de um carro-bomba. Amadei é o único sobrevivente. A partir daí, o filme mostra o seu suplício na base militar. Seu caso é grave, podendo perder o pé. Finalmente, Amadei é transferido para Roma, sendo recebido com honras, por políticos e por jornalistas. Porém, a alegria de Amadei se foi, e ele se torna uma pessoa traumatizada e frustrada pelos horrores da guerra.
O filme recebeu um prêmio especial no Festival de Veneza 2010, o Contracampo italiano. por seus méritos humanitários.
Tecnicamente bom ( fotografia, edição), o filme peca ao misturar gêneros: comédia, drama de guerra, melodrama piegas. Nenhum desses itens funciona a contento. Como temática, é válido, apesar do tema já ser batido: a guerra trazendo o fantasma na mente de quem esteve lá. Inclusive, na cena do atentado, fiquei muito incomodado: a cena inteira é vista pelo ponto de vista da câmera de Amadei. Mas como assim, quase morto, ferido, Amadei ainda consegue enquadrar tudo o que está vendo? Achei muita forçação de barra. Algumas outras cenas beiram a pieguice, como a do menino iraquiano morto sendo jogada junto ao seu corpo, na carroceria do caminhão.
Mas o que mais me incomodou foi o longo processo de recuperação hospitalar de Amadei, que dura toda a terça parte final. É muito sadismo do cineasta focar em close o tempo todo as feridas no corpo de Amadei, desnecessariamente. Me pareceu que o cineasta quiz que o espectador testemunhasse todos os horrores que ele sofreu na pele, ao estar lá, em loco.
Um ponto positivo é a interpretação de Vinicio Marchioni, dando vida ao alter ego do cineasta.

Nota: 6

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Grey Gardens


" Grey Gardens", de Michael Sucsy (2009)

Filme produzido pela HBO, baseado no documentário " Grey Gardens", de 1975, dirigido por Albert e David Maiysles.
O filme narra a história real de Big Edie (Jessica Lange) e Little Edie ( Drew Barrymore), mãe e filha. Socialites, faziam parte da high society de Nova Yorque dos anos 30. A família acabou se mudando para a casa de campo de Long Island, apelidada de Grey Gardens. Edith (Big Edie) é tia de Jackeline Kennedy.
Edith, antes de se casar, tinha o sonho de se tornar cantora, mas teve o seu sonho enterrado após se casar, tendo que se dedicar ao papel de mãe de 3 filhos. A filha, Edie, temendo ter o mesmo destino de sua mãe, evita namoros e casamentos, pois seu sonho é se tornar atriz e dançarina. Ela se muda com seu pai e irmãos até Nova Yorque, após o pai pedir a separação de Edith. Apesar da distância, a mãe controla a vida de Edie, alertando-a contra falsos pretendentes e aproveitadores. Após uma experiência frustrada com um político casado, Edie resolve voltar a morar com sua mãe. A partir daí, o filme mostra a decadência física e moral de mãe e filha, até a extrema pobreza, morando na mansão abandonada e cheia de animais e fezes. Alertados pelos vizinhos, a inspeção sanitária vai bater na casa. Elas acabam saindo nos noticiários como as parentes de Jaqueline Kennedy esquecidas pela parente famosa. Acabam recebendo o convite de 2 irmãos documentaristas, que querem fazer um filme sobre a vida das duas.
Emocionante e belo filme, com uma história incrível. O roteiro é excelente, detalhando a vida excêntrica e melancólica de duas mulheres que tiveram as vidas destruídas por um ideal de vida que não se concretizou. A produção, direção de arte e figurino são requintados. A trilha sonora de Rachel Portman é maravilhosa. Mas o mais impactante nesse filme é a atuação de Jessica Lange e Drew Barrymore. Caraca, fiquei pasmo com a qualidade, e entrega que as duas atrizes fizeram aos seus personagens tão complexos, e sem cair na caricatura. Muito foda mesmo! Me emocionei demais! A maquiagem delas já idosas deixa eu pouco a desejar, mas nada que estrague o brilho dessas duas grandes atrizes. Não a toa, o filme levou quase todos os prêmios de interpretação em 2009: Globo de Ouro, Emmy, etc. Merecidíssimos.
Imperdível para quem ama um bom filme, com ótimas performances e roteiro primoroso.

Nota: 9


Doce Vingança


" I spit on your grave", de Steven Monroe (2010)

Refilmagem de um filme homônimo de 1978, originalmente chamado no Brasil de " A vingança de Jennifer", foi banido em vários países.
A história, breve, narra o drama de Jennifer Hills. Escritora, ela aluga uma cabana isolada numa cidadezinha, afastada da cidade. Sua intenção é escrever um roteiro com tranquilidade, Porém, ela logo é atacada por um bando de 4 homens. O Xerife local se une no estupro coletivo. Largada praticamente à morte, ela consegue fugir de seus algozes. Os homens resolvem apagar qualquer evidência da presença dela na região. Porém, o tempo passa, e logo Jennifer reaparece, dessa vez, sedenta de vingança.
Provavelmente, essa refilmagem foi inspirada nos gores de " Jogos mortais" e " O albergue". As cenas de morte são sádicas e brutais. Alguns chegam a ser hilários, tal a perversidade da ação.
O filme é polêmico, porque faz com que o espectador torça para que todos os homens morram, e da pior forma possível. E isso não é difícil, uma vez que os personagens são desenhados de forma caricata: são todos maus, muito maus. A exceção é a de um rapaz doente mental, que acaba cedendo aos encantos do estupro, aliciado pelos outros amigos. Esse fica traumatizado pelos seus atos. Mas Jennifer não quer nem saber de crises existenciais.
O filme todo se desenvolve nesse fiapo de história: uma história de vingança. Nada mais do que isso. O curioso é o título alternativo do original de 1978 : " Day of the woman" , como se fosse uma comemoração pelos direitos da mulher. Ficou bizarro.
O filme tem um ritmo lento na primeira parte, e só ganha força a partir do estupro, quando ganha mais dinâmica. Porém, faltou mais clima de suspense, e tudo fica extremamente previsível. O elenco se esforça como pode, mas o desenho dos personagens é unilateral. Os maus, e a mocinha. Sarah Butler, no papel de Jennifer, não decepciona. É um papel difícil, e incômodo. Ela lembra fisicamente a atriz Kistern Stewart.

Nota: 6

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Ritual


"The rite", de Mikael Hafstrom (2011)

Suspense baseado em história real.
Um padre americano (Colin O´donoghue) novato, descrente de Deus, resolve ir até Roma para estudar exorcismo. Chegando lá, ele encontra duas pessoas que mudarão sua forma de enxergar a religião e os casos de exorcismo: Uma jornalista italiana, Angeline Vargas ( Alice Braga) e o Padre jesuíta Lucas ( Anthony Hopkins).
A direção de Mikael é extremamente burocrática. O filme é chato em toda a sua primeira parte, chegando a aborrecer pela total ausência de ritmo. Depois, quando entra em cena o caso de exorcismo de uma grávida, o filme começa a pregar sustos fáceis na platéia, dos mais banais possíveis: uma pessoa aproxima o rosto de uma janela, daí pula um gato e lhe prega um susto; sons estridentes a todo o momento dando acordes altos; e por aí vai.
A trilha sonora é a mais óbvia possível, e a interpretação dos atores está toda no automático: Anthony Hopkins incorpora Hannibal Lecter em alguns momentos, em outros sôa patético. Alice Braga sempre com aquela cara emburrada. O estreante Colin O´Donoghe tenta dar credibilidade ao personagem do Padre Michael, mas o roteiro não ajuda nem um pouco. Tudo é previsível, apesar do crédito inicial dizer que se baseia em fatos reais. Para mim tudo pareceu muito familiar, porquê o filme lembra o tempo todo " O exorcista". O dilema entre o padre descrente e o padre fervoroso, a ação do demônio sobre as pessoas, as situações. Até mesmo os sons guturais e insinuações de sexo que o demônio invoca. Rutger Hauer, totalmente irreconhecível, faz uma ponta interpretando o pai de Michael, um médico legista.
Uma pura perda de tempo. Melhor ficar com o original, ou com " O último exorcismo", um filme que brinca com os documentários fakes e que se sai muito melhor, e mais assustador.

Nota: 2

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

E então veio Lola


" And then came Lola" , de Ellen Sedler e Megan Siler (2009)

Comédia romântica, inspirado no filme alemão " Corra Loa Corra", de Tom Twyker.
Lola é uma fotógrafa talentosa, porém desorganizada e vive atrasada. Numa tarde, sua namorada liga para ela, pedindo que ela lhe faça um favor: buscar as fotos em uma loja de impressões e trazer para a reunião urgente que ela tem com uma empresária. Lola se apressa, mas vários acontecimentos de percurso a fazem se atrazar, e correr contra o tempo, antes que sua namorada perca o negócio.
A grande diferença entre essa refilmagem e o original alemão é que no filme de Tom Twyker, o espectador sentia a urgencia através da montagem, da trilha sonora e do plot: uma vida que poderia ser salva caso Lola chegue a tempo. Aqui em " Então chega Lola", o fato da namorada perder um negócio não é nada que justifique uma tensão.
As diretoras mostram um universo homossexual nesse filme ambientado em São Francisco. Todos os que andam na rua, frequentam os ambientes, são gays. Não se vê um único ser hetero na história, nem mesmo na figuração. Esse mundo cor de rosa é desenvolvido com uma fotografia colorida, figurino hype e trilha sonora pop rock.
Assim como em " Corra Lola corra", aqui se misturam as linguagens de animação e fotografia. Aliás, copia descaradamente a cena da escadaria do prédio de Lola. E para ilustrar as situações, dando um caráter mais dinâmico e moderno, fotos dão explicações e cenas, sempre com duplos sentidos.
O filme é amador, assim como as interpretações, todas muito posadas e fakes. O mundo lésbico parece ser tão poderoso, que todas se mostram impostadas e altivas.

Um passatempo apenas para quem tem curiosidade de ver uma versão gay e pop do filme de Twyker. A vantagem é que o filme é curto, 73 minutos.

Nota: 5

O Solteirão


" Greenberg", de Noah Baumbach (2010)

"Greenberg", de Noah Baumbach (2010) Comédia dramática do mesmo cineasta de " A lula e a baleia" ( filme que eu adoro). Noah é um cineasta independente americano, que tem como mote principal as relações amorosas, quase sempre frustantes e mal resolvidas.
O filme narra a história de Roger Greenberg. Ele mora em Nova Yorque, mas vai passar umas semanas na casa de seu irmão bem-sucedido, que mora em Los Angeles. Seu irmão vai com a família para o Vietnã, e deixa sua enorme casa e cachorro aos cuidados de Roger (Ben Stiller). Ben acabou de sair de uma clínica psiquiátrica. Ele tem problemas de bipolaridade, e é maníaco depressivo, afastando todas as amizades e relacionamentos. Ele se reencontra com sua ex (Jennifer Jason Leigh) e com um amigo de longa data, o músico Ivan (Rhys Ifans). Descobre porém, que seu irmão tem uma assistente pessoal, Florence ( Greta Gerwig), que cuida da casa e do cachorro. Ele fica encantado com a moça, mas ela também tem problemas de relacionamentos. Frustada após o término de um affair de longa data, Florence busca sexo casual, temendo se envolver com alguém. Juntos, os dois mantém uma relação baseada em angústia e tensão. De um lado, Roger, que não consegue se envolver com ninguém sem pelo menos machucar moralmente a pessoa. Do outro, Florence, que se bloqueou para qualquer possibilidade de namoro.
Após assistir ao filme, fiquei na dúvida se gostei ou não. Arrastado, tedioso, assim como os seus personagens. O roteiro lembra muito os filmes de Woody Allen, porém os diálogos são menos inspirados. A diferença do personagem de Ben Stiller com qualquer personagem de Woody Allen, é que aqui, você não consegue sentir nenhuma simpatia por ele. Ele é chato, maçante, irritante. Não existe um mínimo de simpatia, e é o tipo do cara que você quer longe de sua vida. Ben Stiller conseguiu dar vida a um tipo muito complexo e difícil.
Mas a grande revelação para mim, é a atriz Greta Gerwig. Eu não conhecia o seu trabalho, e fiquei encantado com sua beleza e talento. Ela é um misto de Chloe Sevigny e Kate Winslet. Seu personagem é de difícil composição também: a jovem workaholick, dedicada ao trabalho, mas um desastre nas relações amorosas. Chega a dar pena. É um trunfo de melancolia ambulante.
A trilha sonora é ótima, dando o clima necessário para as tintas depressivas da história.
Tarantino indicou esse filme como um dos 10 melhores de 2010. Acho que não merecia constar nem entre os 50. Não é um filme memorável, apenas um veículo para o talento de Stiller, que aqui demonstra ser bom também em tipos mais sérios.
Curiosidade: a atriz Jennifer Jason Leigh produziu, atuou e é uma das co-autoras do roteiro.

Nota: 6


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O gerente


de Paulo Cesar Saraceni (2011)

Drama dirigido por um dos maiores cineastas brasileiros , autor de " A casa assassinada", " O desafio", " Porto das caixas" e outros. Saraceni é um enfant terriblé do cinema novo, e teve sua fase mais produtiva nos anos 70 e 80.
Em " O gerente", adaptação livre de um conto de Carlos Drummond de Andrade, Saraceni faz talvez o seu filme mais ousado em termos estilísticos e de linguagem. Aliando falta de orçamento com uso da criatividade, Saraceni faz um filme de época ambientado nos dias de hoje. Em meio a personagens vestidos como nos anos 50, misturam-se prédios modernos, automóveis último tipo, figuração espôntanea vestida de qualquer jeito, pessoas olhando para a câmera. O que parece desleixo ( e em alguns momentos realmente parece ) acaba se tornando um conceito que se justifica dentro dessa sua proposta de ensaio poético. Não interessa a coerência de época. E o espectador acaba se acostumando.
O filme narra a história de Samuel, um gerente de uma confeitaria, obcecado por mulheres. Sedutor e galanteador, Samuel tem um hábito muito estranho e bizarro: ao beijar as mãos das mulheres, acaba devorando um pedaço do dedo. Um ato inconsciente de canibalismo.
Essa estrutura louca do filme tem seus bons e maus momentos. Entre os maus, uma cena constrangedora de merchandising escancarado da Petrobrás. 3 Personagens discutem os benefícios da extração do petróleo no País, e concluem que um dia, a empresa irá investir no cinema nacional. Ficou divertido. Outra cena muito louca é a de Ana Maria Nascimento e Silva encarnando uma pomba-gira. Ficou gratuito, porquê isso não se encaixa no filme.
O filme junta pontas e pedaços de filmes, e cenas musicais. Lá pro final, surge do nada um clip de João Gilberto. Em outro momento, cenas de um filme mudo que a gente nem sabe o que significa dentro do contexto.
Resolvi aceitar o filme como uma proposta livre de reflexão e arte, e dessa forma, consegui enxergar um filme curioso e ousado, livre, solto de amarras e do que chamamos de lingaugem cinematográfica.
Não farei avaliação de notas ao filme, porque ele não foi feito para ser criticado. Amem ou odeiem, esse é o filme do Saraceni. Um artista apaixonado pelo cinema nacional.
O elenco é um comentário a parte: Todas as interpretações tem um quê de bufão, de histrionismo. Aliando drama e comédia, o eclético elenco vai de Ney Latorraca a Adriana Bombom, e toda uma galera típica dos anos 70: Roberto Bomfim, Maria Pompeu, Priscila Camargo, Paulo Cesar Pereio. Aliás, a cena com Pereio é antológica, como só Pereio sabe fazer.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Santuário 3D


"Sanctum", de Alister Grierson (2011)

Filme de ação baseado em fatos reais, produzido por James Cameron.
James Cameron fez desse filme uma espécie de laboratório, para testar a tecnologia de câmeras de filmagem 3d, que ele pretende usar na continuação de "Avatar".
O filme narra a história de um grupo de exploradores de cavernas, que fazem uma expedição na maior caverna acessível que existe, localizada no Pacífico Sul. A exploração é chefiada por Frank, sujeito arrogante, que não tem a simpatia de boa parte da equipe, principalmente de seu filho, Josh, de 17 anos. Uma tempestade tropical surge de repente, e o grupo fica preso na caverna, correndo o risco de morrerem afogados. O grupo resolve então percorrer a caverna, cheia de túneis e rios, com pouco oxigênio e suprimentos a disposição. A questão é sair da caverna, mas a medida que o grupo avança, parece ser uma tarefa impossível, e sobreviver é questão de tempo.
O filme alega ser baseado em fatos reais, mas pelo que vemos, parece pouco plausível a veracidade dos personagens. São tipos muito estereotipados. A verdade é que se baseia na história real de Andrew Wight, que chefiou uma expedição que também foi pega de surpresa numa caverna.
O roteiro pouco explora a dimensão dos personagens, dando lugar a tipos rasos, e a diálogos pouco inspirados.
Parece que a intenção do filme é apenas de criar um espetáculo para experimentar novas tecnologias. Dessa forma, fica mais clara a opção de trabalhar com atores pouco conhecidos, e também, com pouca experiência. A tensão do grupo exigiria atores mais bem preparados, que soubessem demonstrar o pânico e desespero de quem está prestes a morrer a qualquer momento. Não convencem.
A fotografia do filme é escura, afinal se passa quase todo nos subterrâneo e dentro da água. Mas usar os óculos 3D acabou prejudicando a visualização. Tiveram várias cenas que eu não consegui identificar o que estava ocorrendo.
Interessante como recentemente tivemos filmes que exploravam o tema do confinamento e da claustofobia: " Enterrado vivo", " 127 horas". Filmes que querem provar que a vontade de sobreviver suplanta qualquer dificuldade.
Essencialmente, " Santuário" é um filme de aventura e ação. Mas a trama da descoberta de pai e filho, que outrora se odiavam, e com as dificuldades, vão se descobrindo, já é bem batida. Até mesmo o recente " Tron, o legado", usou desse clichê, porém com resultados melhores.
Se valeu a pena assistir ao filme? Como passatempo, sim. Mas aviso que o 3D não me pareceu nada espetacular. Aliás, quase nem vi 3 D no filme.

Nota: 6



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Curling


" Curling", de Denis Coté (2010)

Drama Canadense, vencedor do prêmio de melhor Direção (Denis Coté) e ator (Emmanuel Bilodeau) no Festival de Locarno 2010.
" Curling" narra a história de Jean François, pai solteiro que mora com sua filha de 12 anos numa região rural de Quebec. Jean trabalha em uma loja de Boliches, como zelador. O dono do lugar é um cinquentão que namora uma jovem exótica, e ele a coloca para trabalhar ali também. A filha de Jean, Julyvonne ( Philomene Bilodeau, filha de Emmanuel) não estuda nem tem amigos. O pai a protege da civilização,e a impede de fazer qualquer coisa sem a sua autorização. Ela vive trancada em casa, e por não ter convívio social, não sabe se proteger. Paralelo, tem a história de um garoto que desapareceu num lugar próximo.
O filme tem na fotografia o seu ponto forte. Com belíssimas imagens da região gélida ( o prólogo é de uma beleza inquestionável: pai e filha caminhando por uma estrada branca, em meio a uma tempestade de neve), a fotografia reforça o clima de melancolia e depressão que o filme sugere.
O ritmo é extremamente lento, chegando a cansar o espectador. A narrativa não segue bem uma lógica: algumas cenas soltas sem explicação alguma, ocorrem ao longo do filme. Por ex, a cena onde Julyvonne encontra vários corpos em meio a um barranco, não leva a nada. Ao final, surge um tigre, assim do nada. A relação de Jean com seu patrão e namorada é pouco explorada, e por fim, não sabemos o motivo do aprisionamento da filha.
Um filme curioso, mas sem nenhum atrativo que o torne memorável. O diretor Denis Coté poderia ter explorado mais o lado do realismo fantástico, já que ele sugere um " quê" de fantasia ao filme, mas não o desenvolve.

Nota: 6




I Saw The Devil


Akmareul Boatda (2010)

Policial de suspense sul coreano, dirigido por Ji-Woon Kim.
O filme narra a história de Kim, um agente de polícia que tem a esposa assassinada por um serial killer. Ele jura vingança, e que fará o assassino sofrer muito mais do que sofreu sua esposa. Ele conta com a ajuda de seu sogro, um detetive aposentado. O assassino (Min Sik Choi, protagonista de "Oldboy") tem como alvo mulheres jovens. Kim consegue descobrir o paradeiro do assassino, mas ao invés de matá-lo, injeta em seu corpo um gps. Dessa forma, ele consegue ir atrás do assassino, lhe dar várias surras, e soltá-lo de novo. Até que o assassino consegue retirar o gpss, e a caçada recomeça.
Ótimo thriller, com roteiro que remete a vários filmes de serial killer, entre eles, " Silêncio dos Inocentes", " Seven" e o recente e excelente sul coreano " O caçador".
A interpretação dos atores é magistral, com destaque para Min Sik Choi, no papel do assassino. Curioso que ele foi o anti-herói em " Oldboy", e aqui, ele faz uma inversão de personalidade, mostrando saber interpretar várias facetas distintas. Impossível não sentir ódio pelo seu personagem: frio, calculista, arrogante, obsceno.
O roteiro faz um paralelo entre a vingança de Kim e sua obsessão em caçar o assassino, e com o próprio assassino, obcecado em novas vítimas. Matar para ele é algo impulsivo, e incontrolável. A violência é de ambas as partes. O filme dosa altas cenas de tensão, com ação e drama. A violência , como não poderia deixar de ser nas produções sul-coreanas, é gráfica e abusa do gore. Existe um certo sadismo nos filmes orientais em querer mostrar doses cavalares de violência, e principalmente contra a mulher. Incomoda esse misoginismo, a forma como a mulher é retratada no filme. Sempre submissa, sem voz. É um filme essencialmente masculino.
Muitas passagens do filme me deixaram profundamente irritado, justamente por esse pouco valor ao ser humano. Mas a história é essa, e é muito bem contada, apesar de alguns momentos de inverossimilhança, apenas para deixar a história fluir ( por ex, as cenas quando o assassino invade uma clinica e uma farmácia). A direção é ótima, criando altos climas de suspense. O filme é longo, tem 141 minutos, e poderia perfeitamente ter uns 20 minutos a menos.
A produção concorreu no festival de Sundance em 2011.

Nota: 7

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Namorados para sempre


" Blue Valentine", de Derek Cianfrance (2010)

Drama independente dirigido e escrito por Derek Cianfrance, narra a relação de um casal, Dean (Ryan Gosling) e Cindy ( Michelle Willians), por um período de 5 anos.
Ryan é um jovem humilde, que trabalha como funcionário de uma transportadora de mudanças. Em dos seus trabalhos, conhece Walter, um velhinho que se muda para um asilo. Um dia, ao visitá-lo, Dean conhece por um acaso Cindy. Fica de cara apaixonado por ela, mas ela não corresponde. Dean então tenta de todas as formas conquistar a atenção dela. Após muita resistçencia, Cindy cede aos apelos do rapaz. Até que um dia ela engravida, e ele não aceita. Cindy resolve abortar, mas na hora H desiste. Os dois reatam a relação, e ficam mais apaixonados. 5 depois, os dois estão casados, e a filha deles, Frankie, tem 5 anos. Ela trabalha como enfermeira, e seu patrão se sente atraído por ela. Mas a relação do casal está desgastada, e Dean tenta uma derradeira forma de reacender a paixão.
Profundo e doloroso retrato sobre o amor em processo de destruição, com interpretação magistral de Ryan Gosling e Michelle Willians. A forma de filmar me lembrou bastante os filmes de John Cassavettes, e o trabalho do elenco reforça essa impressão. Eu ficava enxergando Gena Rowlands no personagem de Michelle Willians. Econômica na atuação, mesmo nos momentos mas dramáticos e perturbadores, Willians demonstra ser uma das melhores atrizes americanas da atualidade. A câmera em registro quase documental e a atuação naturalista só aumentam a força desse filme.
O roteiro e a edição brincam com o tempo. O filme vai e volta 5 anos e depois, reforçando os momentos felizes e de derrocadas do casal.
O ritmo do filme é lento, contemplativo. A trilha sonora corresponde a melancolia do filme, e ao final, fica-se a sensação de que a vida é triste, e que devemos aproveitar os momentos felizes que ela nos proporciona.

Nota: 9

domingo, 30 de janeiro de 2011

A Ovelha negra


" La pecora nera", de Ascanio Celestini (2010)

Drama italiano exibido no Festival de Veneza em 2010.
O filme narra a história de ascanio, menino que nasceu nos " loucos anos 60", segundo os personagens dizem várias vezes ao longo da história. Ele é criado pela avó no manicômio. Seu pai e seus 2 irmãos o consideram um louco esquizofrênico, e o abandonam a própria sorte com a avó. Antes de abandoná-lo, Ascanio vive um tempo com eles, mas a convivência é impossível. Ascanio passa toda sua infância e adolescência na convivência com loucos, e tem 2 amigos com quem convive maior parte do tempo. Em uma brincadeira com os amigos, um deles acaba morrendo. Ascanio é acusado da morte do rapaz, e se isola das pessoas. Se torna uma pessoa retraída e não sai dos domínios do hospício. Ele é rejeitado por colegas da escola.
Ascanio cresce, e agora trabalha no mesmo manicômio. Uma de suas funções é acompanhar os internos nas compras de supermercado. Numa dessas idas, ele reeecontra a sua paixão de adolescência, que trabalha como promotora de vendas de uma marca de café. Ele tenta se reaproximar dela, mas a sua obsessão por ela a deixa assustada.
O filme tem um clima sombrio, com toques de melodrama, e um bom elenco. O que é interessante é a narração em off do protagonista. Todo o filme é narrado em 1a pessoa, como se fosse um livro de memórias. Mas o filme se perde lá pela metade, e o desfecho fica insatisfatório. Lembra um pouco " O clube da luta" pela sua reviravolta na trama.
O diretor Ascanio Celestini fez de tudo um pouco nesse filme: dirigiu, escreveu, produziu e atuou. Levou 3 anos elaborando o roteiro, visitando manicômios e fazendo laboratórios com os internos.

Nota: 6

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Besouro verde


" The Green hornet", de Michel Gondry (2011)

Comédia de ação dirigida pelo cineasta e artista multi-mídia Michel Gondry, famoso por dirigir clips de Bjork, The White Stripes, Daft Punk, Kylie Minogue e músicos, e os filmes " Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e " Rebobine, por favor".
Baseada em quadrinhos da DC Comics, e tendo como base a série de tv dos anos 60 ( co-protagonizada por Bruce Lee), o filme narra a história de Britt Reid, um playboy bon vivant, interpretado pelo comediante Seth Rogen. Seu pai é dono do Jornal Sentinel Daily, o maior de circulação do País. Britt vive sendo repreendido por seu pai, por passar a vida em função de festas e irresponsabilidades. Até que seu pai morre " acidentalmente" e Britt é obrigado a assumir a presidência da empresa. Ele conhece o motorista chinês de seu falecido pai, e descobre que ele é um inventor de gadgets formidáveis, além de exímio lutador de Kung Fu. A cidade está dominada por bandidos, e os dois resolvem criar uma dupla que luta contra o crime, chamada de Besouro Verde.
Dito assim, o filme parece que será ótimo, após os mega-sucessos de " Homem de ferro" e " Batman". Ainda mais que o diretor é Michel Gondry, um artista respeitado que poderia trazer algo inovador para o gênero. O que ninguém jamais poderia esperar, era que o filme se transformasse em algo absolutamente pavoroso.
A começar , o completo erro de escalação do comediante Seth Rogen para protagonizar esse filme. Além de atuar, Rogen co-escreve o roteiro e produz. Em nenhum momento, o personagem confere credibilidade, graças a atuação desastrada de Rogen. Ele bota o personagem a perder. O roteiro só prejudica, pois dá aos personagens uma dimensão estereotipada, misturando errôneamente comédia e ação. Simplesmente não funciona. O espectador não se simpatiza com ninguém, muito menos torce. O Vilão de Cristopher Waltz não mete medo em ninguém, e a brincadeira em cima do nome de seu personagem é constrangedor. Incrível que Waltz, soberbo em " Bastador inglórios", esteja tão caricato e no piloto automático.
Jay Chou, como o motorista, é o melhor em cena. Seu personagem pelo menos tem uma curva dramática, apesar de também parecer muito gratuita essa sua habilidade com engenhocas e afins.
Cameron Diaz não diz ao que veio, e sua personagem é completamente dispensável.
Em nenhum momento a gente acredita no personagem de Besouro verde. Ele é antipático, e pior, como de uma hora para outra ele ganha poderes, ganha habilidades com luta? Muito falso. A trilha sonora também é errônea, muitas músicas brigam com as imagens não conferindo adrenalina.
A cena da briga de Besouro verde e seu motorista pela casa e piscina é péssima. Outra cena pavorosa é a de abertura, com participação especial de James Franco.
Um erro total!

Nota: 2

O Discurso do Rei


" The King`s speech", de Tom Hooper (2010)

Drama baseado em fatos reais, narra a história do Duque de York Berty (Colin Firth) , casado com Liz (Helena Bonhan Carter), uma mulher dedicada ao marido e às filhas. Pai zeloso, Berty tem problemas de nervosismo e gagueira, o que o deixa com baixa auto-estima.
Seu Pai, o rei George V (Derek Jacobi), está doente, e precisa nomear o seu sucessor. O irmão mais velho de Berty, Edward (Guy Pearce) é nomeado o sucessor. Porém, Edward é aventureiro e possui uma vida mundana e dedicada a festas e vôos. Ao seu lado, a amante americana por quem ele é apaixonado. Ela é divorciada 2 vezes, o que seria um escândalo, uma vez que o rei da Inglattera é quem comanda a Igreja no País. Dessa forma, Edward, que não larga mão de seu amor, renuncia ao cargo, e passa a bola para Berty. Às vésperas da 2a Guerra Mundial, e com a crescente ascenção de Hitler, Berty sente a necessidade de ser a voz do comando de sua nação. Sua esposa contrata os serviços de Lionel Logue (Geofrey Rush), homem honesto e humilde que vive com sua mulher e filhos. Lionel é especialista em discursos, cargo que exerceu após a 1a guerra mundial, quando era contratado para fazer os soldados psicologicamente abalados voltarem a conversar. Ator frustrado, Lionel vive fazendo audições, sem sucesso.
Essa relação entre Berty e Lionel é no início tumultuada e tensa, mas após anos e com muita resistência de Berty, Lionel o faz acreditar que ele é a pessoa que mudará o País. Berty ganha confiança e acaba fazendo o seu 1o discurso para a Nação.
O filme, mais do que fazer um registro sobre esse período da década de 30 que antecede a 2a Guerra Mundial, é uma fábula maravilhosa sobre o poder de superação, de acreditar em si próprio, destruindo obstáculos. Fala sobre a amizade que começou tensa, mas que durou toda a vida, entre o Rei George VI " Berty" e Lionel.
A direção do filme é segura, com ótimo trabalho de atuação do trio principal: Colin Firth, Geofrey Rush e Helena Bonhan Carter estão excepcionais. Tecnicamente, o filme é todo impecável: fotografia, trilha sonora, direção de arte, figurinos. Como não poderia deixar de ser, esse filme histórico tem uma narrativa burocrática, lenta. Favorecido por um roteiro magnífico, os personagens demonstram simpatia imediata com o público. A Cena final do discurso é emocionante.
O filme acerta ao conferir doses de humor inglês ao drama. Torna a produção mais cativante e leve. Muitas cenas são antológicas: além do desfecho, temos a cena do primeiro treinamento, a cena que Berty faz oratória toda baseada em " fuck "...
Um filme memorável pela atuação brilhante do elenco.

Nota: 8

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Drama


" Drama", de Matias Lira (2010)

Drama espanhol, que narra a história de 3 estudantes de teatro, que se deixam influenciar pelo método intenso de interpretação que o Professor prega, baseado na escola do dramaturgo Antonin Artaud.
O processo de busca do personagem exige que os alunos busquem a verdade de seus personagens, e para que isso aconteça, eles devem vivenciar as experiências deles.
Assim, cada um dos três vai atrás do lado escuro da vida, se envolvendo com prostituição, michetagem, night clubs de strippers, traficantes e orgias regadas a sexo e drogas.
O grupo ( 2 rapazes e uma jovem) não medem esforços na busca do verdadeiro " eu" que devem interpretar, e acabam misturando o real do fictício, enquanto o professor cada vez exige mais deles.
Filme curioso, mas que no desenrolar da narrativa, me incomodou bastante pela inverossimilhança da trama. Como assim, os 3 amigos caem de cara no que existe de mais sórdido da vida mundana, apenas para agradar ao professor? Os personagens deveriam era ser internados em algums clínica psiquiátrica. O filme é uma irresponsabilidade, ao mostrar os atores como inconsequentes e desmedidos, e o professor como um ser desumano e cruel, que observa o que acontece com os seus alunos e nada faz para impedir, inclusive se envolvendo sexualmente com um deles.
Logo no início, tem uma cena ridícula, com os três amigos no banheiro, todos mijando. como se fosse a coisa mais natural do mundo fazer isso na frente dos outros. E para piorar a trama, ainda existe um trauma do passado em um dos personagens: a mãe dele era atriz, se envolveu com o colega da peça e acabou fugindo com ele, abandonando filho e marido. Heim, quer dizer que os atores também são promíscuos? HUAHUAHUA A classe artística está mais sem moral do que qualquer outra coisa.
De positivo, a interpretação dos atores, que se entregaram aos personagens sem pé nem cabeça, e a fotografia, bela, registrando a vida noturna de forma soturna.

Nota: 5

Lixo Extraordinário


" Waste land" de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley (2010)

Vik Muniz é um artista plástico brasileiro reconhecido mundialmente. De origem humilde, vivendo na periferia de São Paulo, Vik Muniz teve sua vida transformada por um golpe do destino ( em um acidente de trânsito, ele levou um tiro na perna. Com o dinheiro da indenização, ele viajou aos Estados Unidos em busca de um futuro melhor). Lá, ele construiu sua fama, apesar de um começo difícil trabalhando em todo tipo de serviço subalterno.
O documentário " Lixo extraordinário" fala sobre isso: superação. Esse é o mote do projeto. Em 2007, em seu ateliê em Nova York, Vik propõe junto com seu amigo Fabio, do Rio de Janeiro, montar um projeto que consistia em fazer um trabalho social no Lixão de Gramacho. A idéia era pegar um grupo de catadores de lixo e junto com eles, transformar o lixo encontrado em arte.
Vik se preocupa com a saúde dos integrantes da equipe. Chegando no Lixão ( o maior do mundo em extensão), Vik se aproxima de vários catadores de lixo, e forma um grupo com quem ele irá trabalhar por um período de 2 anos. Juntos, catam material reciclável. Vik tira fotos baseadas em quadros famosos e os reproduz, usando os catadores como modelos. Num grande galpão alugado, Vik e Fabio ampliam essas fotos, e junto com os catadores, começam a trabalhar com o material recolhido no lixão e fazer arte com essas fotos. Esses quadros, posteriormente, serão leiloados em Londres e a renda arrecadada reverterá ao grupo de catadores e para a Associaçao dos Catadores.
O que mais impressiona nesse documentário é a qualidade dos entrevistados. O grupo de catadores selecionados por Vik e Fabio são de uma humanidade comovente. Os depoimentos são profundos, apesar da pouca instrução das pessoas ( com exceção de Tião, jovem Presidente da Associação de Catadores, e de Zumbi, que recolhem livros no lixo e os leem.).
De uma forma geral, a maioria vê o trabalho de catador como um trabalho digno: melhor do que matar, roubar, se prostituir. Vik visita as casas extremamente pobres dessas pessoas, conhecemos os familiares. Mais pra frente, a equipe se preocupa com o futuro dessas pessoas, que já estão tão envolvidas com o projeto, que temem que quando termine, suas vidas não sejam as mesmas. No desfecho, nos emocionamos com o desenrolar de cada um dos integrantes. A maioria deseja mudar de vida, descobrem o valor de seus trabalhos e que eles podem mais. Apenas uma senhora, uma cozinheira que serve comida no lixão, resolve voltar para lá, com saudades dos amigos.
Eu fui assistir ao documentário com alguns amigos,e tdos foram unãnimes em gostar do filme, mas com o porém de terem odiado a figura de Muniz. Explico: o argumento é de que Muniz se super-expôs, dá declarações de mega-estrela, tipo: " Porquê Eu Vik Muniz sou o maior artista brasileiro", ou quando ele dá um show de pretensa humildade, " eu não preciso de nada na vida, já tenho de tudo". Sinceramente não vi o filme por esse ângulo, e me orgulha muito esse projeto engajado , que mudou a vida dessas pessoas para melhor, fizeram com que todos melhorassem suas auto-estima. Vik Muniz pode ser arrogante, falso, mas isso não importa. O filme não é sobre isso, não é uma auto-promoção do seu trabalho. Como falei, é um filme que fala sobre superação, e Munir usa sua história pessoal para fazer analogia com outras histórias de vida.
A cena final, com Tião dando depoimento no programa do JÕ, é antológica,
Não é só o lixo de Gramacho que é transformado em algo diferente, as pessoas também passam por um processo de mutação. A fotografia, de Dudu Miranda, é eficiente e bela. O trabalho de câmera também é incrível, revelando ângulos do lixão e do galpão impressionantes em sua dimensão imagética.
A trilha sonora de Moby contribui positivamente para a emoção do filme, sem ser evidente.
O único porém que faço é o fato de Munir e equipe de brasileiros falarem em inglês, me soou pretencioso.
O filme foi indicado para o Oscar de melhor documentário 2011.

Nota: 9

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Enrolados 3D


" Tangled", de Bathan Greno e Byron Howard (2010)

50o desenho produzido pelos Estúdios Disney, " Tangled" é baseado no conto de " Rapunzel".
Como eu não conhecia direito a história dessa princesa, não sei se o desenho é fiel a obra original.
" Enrolados" narra a história de Rapunzel, princesa sequestrada quando bebê por uma bruxa velha, por possuir cabelos com poderes mágicos de rejuvenescimento. Rapunzel é feita prisioneira em cima de uma enorme torre sem escadas, e a bruxa a faz acreditar que ela é a sua mãe. Adverte a menina de que o mundo exterior é perigoso, e que não se pode confiar em ninguém, por isso a mantém presa. Todo ano, no dia de seu aniversário, Rapunzel observa da janela da torre lanternas que sobrevoam os céus, sem saber que na verdade é um ritual que seus pais verdadeiros fazem em homenagem a princesa desaparecida. Flynn Rider, um ladrão que trabalha junto com outra dupla de bandidos, rouba a tiara da princesa. Ao fugir, ele se separa de seus comparsas, e resolve se esconder no alto da torre. Chegando lá, ele é descoberto por Rapunzel, que o nocateia. Ela tenta advertir sua " mãe" sobre o invasor, mas antes que ela o faça, é repreendida por ela de que jamais ela sairá da torre. Rapunzel resolve fazer então um pacto com Flynn: Ela o soltará, em troca dele levá-la para ver o ritual das lanternas no céu, que acontecerá no dia. Pacto cumprido, eles vão parar na cidade. Porém tanto a bruxa quanto os antigos compras de Flynn estão em seu encalço.
" Enrolados" é uma deliciosa comédia romântica, de personagens carismáticos e muita graciosidade. As músicas de Alan Menken, parceiro habitual da Disney, dão um colorido a trama.
O filme tem ótimo ritmo, boas gags e diálogos inteligentes. A técnica do 3d aqui é discreta, se limitando a poucos efeitos. Os animais que acompanham os personagens humanos não poderiam faltar, dando lugar a um camaleão (pascal) e um cavalo ( Maximus), este dono de boa parte das piadas do filme.
O fiilme reserva uma cena de violência no final, algo raro nos desenhos, inclusive mostrando sangue. É pouco, mas um grande passo, em se tratando de desenhos da Disney.
Assisti infelizmente na versão dublada, e me incomodei com a voz de Luciano Hulk.

Nota: 8


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Filho terno: Projeto Frankestein


" Szelíd teremtés - A Frankestein-terv/ Tender Son: Frankestein Project", de Kornél Mundruczó (2010)

Co-produção Hungria/Alemanha e Austria , " Fiho terno.." é um drama que concorreu no Festival de Cannes 2010.
O filme narra a história de Rudi, um adolescente de 17 anos que sai de um reformatório, após anos de prisão. Ele resolve ir até sua casa, em busca do conforto de sua mãe. Mas ela o rejeita. Acidentalmente, Rudi vai parar em um teste de elenco para um filme, que acontece no mesmo prédio aonde sua mãe mora. O diretor solicita apenas amadores para o teste de elenco, em busca de realismo e naturalismo nas interpretações. O teste é sobre a violência psicológica, e o Diretor exige o máximo de veracidade. Rudi resolve fazer o teste, e de personalidade violenta, acaba matando por acidente a sua parceira do teste.
Ele foge, e vai parar no apartamento de uma jovem, que tenta escondê-lo da polícia. Ao mesmo tempo, o diretor descobre a identidade do jovem assassino: é seu filho, que ele teve quando adolescente e perdeu contato após a separação.
" Filho terno.." é um filme de ritmo extremamente lento, e exige muita paciência do espectador que se aventurar nesse drama livremente inspirado no livro de Mary Shelley, " Frankestein".
O elenco é excelente, e o diretor interpreta ele mesmo o personagem do cineasta. Mas a narrativa lenta, os longos planos, o roteiro sem grandes surpresas e a longa duração do filme o tornam extremamente asséptico, sem emoção, frio. A fotografia é um desbunde, retratando o inverno gélido e branco. O filme me cansou, apesar de umas poucas cenas impactantes ( como o acidente de carro no terceiro ato) e de imagens poéticas.

Nota: 6

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Morte e Vida de Charlie


" Charlie St Cloud" , de Buur Steers (2010)

Drama baseado na obra " Death and life of Charlie St Cloud", de Ben Sherwood, é a segunda parceria do Diretor Buur Steers com o astro Zac Afron, ( fizeram juntos a comédia " 17 outra vez").
" A morte e vida de Charlie" é mais um filme que se junta à onda espírita que assolou o ano de 2010, após " Além da vida", " A árvore", " Você vai conhecer o homem de seus sonhos", " Tio Bonnmee" , " Chico Xavier" e " Nosso lar".
A história gira em torno de Charlie, que mora em uma cidade litorânea com seu irmão pequeno Sam e sua mãe ( Kim Basinger, em breve aparição). Charlie tem uma relação quase paterna com Sam. Juntos, ambos vencem uma competição de velejamento. Charlie ensina também o menino a jogar beisebol, e faz uma promessa ao irmão de que todos os dias, no entardecer, deverá dar uma aula para ele, e jamais o abandonar. Sam sente que irá perder seu irmão, pois ele acaba de se formar e vai entrar em uma faculdade longe dali. Charlie resolve levar o seu irmão para uma festa, mas um acidente de carro tira a vida de Sam. Charlie é trazido de volta a vida por um paramédico (Ray Liotta), que diz que Charlie tem uma missão na terra, pois Deus lhe cedeu uma segunda chance. Charlie se sente culpado pela morte do irmão, e abandona todos os seus sonhos, indo trabalhar no cemitério local como zelador, cuidando das lápides dos mortos, inclusive de seu irmão. Porém, Charlie descobre que a sua quase morte lhe deu um dom de falar com os mortos, e todos os dias, ele se encontra com Sam. Na cidade, Charlie é considerado desequilibrado mental, após o acidente. Um dia, Charlie conhece Tess, uma jovem que vai visitar o túmulo do pai. Os dois se tornam próximos, mas Tess precisa velejar e passar 6 meses fora, por isso, ela evita maiores contatos com Charlie. Ao mesmo tempo, Sam sente ciúmes de Tess, e Charlie entra em conflito.
Filme morno com direção burocrática e atuação no piloto automático de todo o elenco, " A morte e vida de Charlie" tem um roteiro tão simplório e previsível, que parece uma Produção da Disney. Tudo é muito casto, leve, e o filme, com um tema tão profundo, se ressente de maior aprofundamento na dimensão psicológica de seus personagens. A história de amor entre Charlie e Tess é muito forçada, e a cena do primeiro encontro deles, no cemitério, é triste. Aliás, a cena de amor entre os dois , que passam a noite brincando de pega-pega no cemitério é muito louca. Fica risivel: quem teria sua primeira noite de amor entre túmulos, na escuridão?
As situações que envolvem a conversa de Charlie com os mortos são muito frágeis, dramaticamente falando: a cena dele com o amigo morto no combate é muito ruim. E Zac Afron é o caso de ator que precisa de uma boa direção para poder dizer ao que veio. Não é porquê ele solta lágrimas em cena que deve ser ovacionado. Falta a verdade do personagem. Mesma coisa deve ser dita sobre Amanda Crew, também muito crua. O menino Charlie Tahan, que interpreta Sam, é quem melhor se sai em cena, mostrando dimensão humana de seu personagem.
A produção almeja atingir um público pós-adolescente, que busca um melodrama com tintas fantasiosas. Mas a dose de realismo fantástico não funciona, faltou encantamento. A trilha sonora, composta de músicas pop românticas, é previsível.
O roteiro lembra muito " O sexto sentido", principalmente no terceiro ato. Aliás, uma cena é quase que referçencia explícita ( quando a personagem Tess caminha com seu cachorro na rua).
O filme não é uma perda de tempo completa, mas apenas o assista se você não tiver nada melhor para fazer numa tarde quente de verão. eu, no caso, fui em busca de ar-condicionado, e passei o filme todo assistindo aborrecidamente.


Nota: 6

domingo, 23 de janeiro de 2011

Ela, a Chinesa


" She, a chinese", de Guo Xiaolu (2009)

Filme vencedor do Festival de Locarno em 2009, " Ela a chinesa" é uma co-produção globalizada da China, França, Alemanha e Inglaterra.
O filme narra a história de Mei, uma jovem que mora em uma região pobre de um vilarejo chinês. Mei mora com sua mãe, e arruma trabalho em uma sinuca de beira de estrada. De espírito livre, Mei vive causando revoltas em sua mãe, que a chama de preguiçosa e vagabunda. Odiando sua vida, Mei se envolve com um jovem malandro, mas ela não cede aos prazeres do sexo. Até que é estuprada por um caminhoneiro que a convidou a ir ao cinema. Mei resolve se mudar para a cidade grande, e vai trabalhar em um salão de beleza, na verdade, fachada de jovens prostitutas. Mei acaba conhecendo Spikey, um bandido por quem ela se apaixona e engravida. Ele acaba sendo morto em uma transação mal resolvida, e Mei pega o dinheiro guardado por ele, resultado de trabalhos excusos. Foge para Londres, e lá, ela vive como clandestina. Acaba se casando com um velho viúvo, apenas com a finalidade de fixar residência. Mei se cansa dessa relação sem amor, e acaba se relacionando com um indiano, dono de um pequeno restaurante de comida típica. O que Mei não espera, é que novamente, ela se envolverá em uma relação turbulenta.
O filme é um drama intenso, com forte influência dos cinemas de Godard e Lars Von Triers, com referências explícitas. De Godard, o filme rouba os personagens protagonizados por Ana Karina, atriz-fetiche do cineasta francês, através da liberdade e falta de perspectiva de vida. De Lars Von Triers, as cartelas usadas para comentar as cenas intercaladas por fusões narrativas. Um recurso aliás muito interessante, pois os textos são divertidos e sui-generis. Ah, lembremos que Von Triers também ama as personagens sofredoras, o que é o caso de " Ela, a chinesa".
A atuação de Huang Lu é digno de nota, em um papel difícil , que provoca pouca simpatia do espectador. Afinal, devemos aceitar ou recriminar as decisões da jovem?
A fotografia é hiper colorida, com uso forte de neons, linguagem típica dos anos 80.
O filme tem 103 minutos de duração, mas a sua narrativa lenta e contemplativa faz parecer que o filme tenha muito mais tempo. Acaba cansando o espectador. Dá a sensação de estarmos assistindo a 2 filmes distintos, pois a quebra no roteiro é muito brusca: a vida de Mei na China ( a melhor parte), e a vida dela em Inglaterra, mais melodramática.
Confesso que tive uma expectativa maior em relação ao filme, e saí um pouco frustrado.

Nota: 7