sexta-feira, 24 de julho de 2026
Alice
"Neco z Alenky", de Jan Švankmajer (1988)
Vencedor do prêmio do juri no Festival de Annecy 1989, 'Alice" é uma versão surrealista da obra de Lewis Carrol realizada pelo cineasta tcheco Jan Švankmajer. Segundo o próprio cineasta, ele sempre foi fã da obra, mas estava insatisfeito com as versões feitas até então ( o filme é de 1988), que seguieam um tom mais infantil e de conto de fadas, de acordo com Jan.
O filme mistura atores com bonecos em stop motion. A pequena Kristýna Kohoutová interpreta Alice, a única atriz do filme. Todo o restante é composto por animação em stop motion. Jan adapta a história com algumas liberdades criativas, como por exemplo, Alice segue o coelho branco e emabos entram em uma gaveta de uma estante, transportando-os para o mundo das maravilhas. O tom é sombrio, quase de pesadelo, com uma fotografia mais assustadora e uma trilha que dá a atmosfera lúgubre.
Zona zero
"Gunche", de Yeon Sang-ho (2026)
Exibido no Festival de Cannes 2026 na Mostra midnight screening, "Zona zero" é co-escrito e dirigido por Yeon Sang-ho, mesmo cineasta do clássico doz zumbis sul coreano "Invasão zumbi", que trouxe um novo olhar sobre a forma em que os zumbis são apresentados. Com "Zona zero", eon me fez lembrar de um filme esquecido do mestre dos zumbis George Romero: em 2005, ele lançou "Terra dos mortos", com John Leguizamo, Dennos Hopper e Asia ARgento lutando contra zumbis evoluídos intelectualmente, seres que agora raciocinam e trabalham em grupo, sob o comando de um líder. Pois essa é a mesma premissa de "Zona zero". Ambientado quase todo em um shopping center ( e de novo, trazendo outra referência de George Romero, "Madrugada dos mortos", que também acontece todo em um shopping), "Zona zero" começa com uma conferência biotecnolígica que ocorre no prédio. Suh Young-chul, um cientista desprezado pela comunidade científica, quer se vingar e para isso, injeta nele próprio um vírus que ele criou. Esse virus possibilita que ele, como hospedeiro 1, fique imune a se tornar um zumbi. Ao injetar o vírus em um cientista concorrente e que roubou a sua pesquisa, o caos se instala no shopping, com todos os infectados se transformando em zumbis. Só que como uma colônia de formigas, Suh consegue se comunicar mentalmente com todos e ordenar o que eles devem fazer.Os sobreviventes precisam lutar pela vida e tentar prender Suh, para extrair dele a vacina que cure a todos.
O filme, assim como "Invasão zumbi", é concentrado em um espaço, o que torna o suspense e a ação mais claustrofóbicos. No resultado final, achei menos divertido e criativo que o filme anterior. Os personagens não são tão carismáticos quando em "Invasão zumbi". Aguns personagens são irritantes na sua decisão. MAs vale pelos efeitos e pelo otimo trabalho dos zumbis interpretados pelo elenco.
Hot line
"Hot line", de Lucas Nicotti (2025)
Melhor atriz no Festival de Stockolm 2025 para Magui Bravi, também produtora, "Hot line" é um terror slasher argentino dirigido por Lucas Nicotti e escrito por Nicanor Loreti e Paula Manzone. O fime traz referências ao cinema giallio italiano, com direito ao serial killer de luvas pretas. A fotografia traz as cores fortes comuns ao gênero, e a final girl interpretada por Magui.
Ambientado no final dos anos 80, Malena (Magui Bravi)foi uma celebridade da televisão por um bom tempo, mas como se opôs aos assédios de um produtor, foi banida do mercado. Para sobreviver, Malena trabalha em uma balada como stripper e também trabalha em casa como atendente de hot line, uma linha telefônica para conversas sexuais e fantasias eróticas com o cliente. Malena deseja se tornar escritora, e se baseia nos relatos dos clientes para escrever a obra. Um serial killer, que anda matando mulheres, se torna o seu cliente e passa a assediá-la.
O filme funciona para um publico que não for exigente com performances e com roteiro consistente. A história é confusa, com muitos sub-plots que mais atrapalham do que ajudam. As falsas pistas para descobrir quem é o assassino e as cenas de morte são boas. A melhor parte é o ato final, concentrando a parte mais explícita de violÊncia, com direito a uma cena de morte que me chocou pela forma como é apresentada, me lembrando de "Irreversível", de Gaspar Noé, na cena inicial.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
O suflê
"The Souffleur", de Gastón Solnicki (2025)
Concorrendo no Festival de Veneza 2025, "the souffler" é um filme escrito e dirigido pelo argentino Gastón Solnicki e protagonizado pelo astro Willen Dafoe. Co-produzido pela Argentina e Áustria, o filme foi todo rodado no Hotel Intercontinetal Vienna. O filme ficionaliza um ato real: O Hotel InterContinental Vienna, construído em 1960 e localizado perto do Stadtpark, foi vendido para a empresa WertInvest e faz parte do polêmico projeto de reurbanização "Heumarkt Neu". O cineasta se baseou na premissa e conta a história do gerente do Hotel, Lucius (Dafoe), que trabalha há muitos anos no hotel. Agora decadente, ele coordena o quadro de funcionários, que inclui a sua assistente e filha, Lilly (Lilly Lindner) . Lucius, com seu perfeccionismo e precisão, supervisiona todas asáreas: arrumação dos quartos, quadra de tênis, cozinha, recepção Recebe os turistas e checa o bem estar, além de oferecer bônus e brindes em caso de reclamações. Mas quando um empresário argentino, interpretado pelo próprio cineasta, pretende comprar o hotel e demoli-lo para dar lugar a um novo empreendimento arquitetônico, Lucius entra em crise existencial.
O filme trata de diversos temas. A gentrificação, a falta de resgate da memória arquitetônica (o filme apresenta imagens de arquivo da construção do hotel nos anos 60), e a fidelidade à profissão, através do personagem de Dafoe, que me fez lembrar do mordomo de Anthony Hopkins em "Vestígios do dia". Visualmente, o filme tem uma rigidez dos planos fixos, que em algum momento me fez lembrar de "O grande hotel Budapeste", de Wes Anderson. Mas não tem nada a ver. Está mais para um filme de Yorgos Lanthimos, com cenas e personagens excêntricos e muita estranheza.
Pequenas criaturas
"Pequenas criaturas", de Ana Pinheiro Guimarães (2025)
Melhor filme e direção de arte no Festival do Rio 2025, "Pequenas criaturas" é escrito e dirigido pela cineasta brasiliense Anne Pinheiro Guimarães. Esse é seu segundo longa ( o 1o, "Transe", mostra um triângulo amoroso no meio de um turbilhão político e social no Brasil). O filme fala sobre ausências e possibilidades que pairam no ar, e ficam em aberto, assim como os seus personagens. Em determinado momento, o personagem de André, o filho mais velho de Helena (Carolina Dieckmann), diz que se pudesse ter um poder que fosse o de adivinhar o futuro. Será que a mãe se abrirá à uma possibilidade de amor lésbico? Será que o personagem do morador do apartamento do 304, é um p3d0f1l0, ou um adulto que age como uma criança? Será que um dos personagens se tornará um adolescente rebelde e marginal em Brasília? Será que o marido de Helena, e pai de Dudu (lorenzo Mello) e André, Luís (Michel Melamed), voltará um dia?
O filme se passa em Brasíla, 1986. Sarney é o presidente empossado, sunstituindo Tancredo Neves. O país volta a se democratizar. Helena se despede de Luís no aeroporto, que viaja a trabalho. Ela e seus filhos estão sozinhos na capital, um lugar inóspito, monumental e solitário. Nesse deserto de concreto e cerrado seco, cada um deles viverá a sua história.
A fotografia de Pablo Baião acentua a melancolia da capital. Brasília geralmente é vista no cinema como um lugar de encontros e desencontros de almas solitárias. O filme traz referências cinéfilias: "Bang bang", clássico de Andrea Tonacci, com um dos personagens usando a máscara de um macaco de "O planeta dos macacos"; "Pecados íntimos", na posisbilidade de um ataque p3d0f1l0; e "Contatos imediaos do 3o grau", no desfecho lúdico e fantástico. O elenco principal, formado pelo núcleo familiar, está excelente. Participações de Caco Ciocler, Leticia Sabatella e Fernando Eiras.
Sexo fácil, películas tristes
"Sexo fácil, películas tristes", de Alejo Flah (2014)
Escrito e dirigido por Alejo Flah, "Sexo fácil, películas tristes" é uma comédia romântica co-produzida por Argentina e Espanha. Rodado em Madri, o filme ganhou o prêmio de melhor ator para Ernesto Alterio no papel do protagonista Pablo. Professor de letras, Pablo trabalha também como roteirista para cinema. Pablo é casado com Valeria (Julieta Cardinali), mas o relcionamento entrou na rotina e vai mal. Andrés Luis Luque), seu amigo produtor de cinema argentino, encomenda um roteiro de comédia romântica para Pablo. ele começa a escrever o romance açucarado e apaixonante entre Victor (Quim Gutiérrez), um designe, que conhece Marina (Marta Etura) em uma livraria e se apaixonam. Mas a história de amor desencantada de Pablo acaba interferindo também na ficção, e Victor e Marina também se desentendem.
Um filme delicioso, com excelentes atores e lindas locações em Madri. Os personagens são carismáticos, e a história, mesmo que previsivel, traz um tom melancólico, filmado com elegância.
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Grigris
"Grigris", de Mahamat-Saleh Haroun (2013)
Concorrendo à Palma de ouro no Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio Vulcan prix technical arts, "Grigris" é uma co-produção do país africano Chade, França e Bélgica. Filmado em Chade, o filme é a estréia como ator do protagonista Souleymane Démé, um homem que nasceu com deformidade nas pernas e ganha a vida dançando música eletrônica em vilarejos, com o público dando contribuições em dinheiro pela apresentação.
Levemente inspirado em sua vida como dançarino Grigris mora com sua mãe e seu padrasto, que possui uma pequena loja faz tudo. Mimi (Anaïs Monory, também estreante) é uma prostituta e se encanta com Grigris e a sua dança. Os dois se apaixonam. Quando o padrasto de Grigris fica doente e precisa se internar em um hospital, Grigris precisa arrumar dinheiro para o alto custo. Ele se oferece para trabalhar para o mafioso Moussa, que possuiu um esquema de contrabando de gasolina. Quando Grigris decide dar a volta em Moussa e usar o dinheiro para pagar o hospital, ele e Mimi são ameaçados de morte.
O filme tem uma narrativa que conversa com o documental, com imagens e registros do cotidiano com um olhar antropológico. Algumas cenas são muito bem conduzidas, como as do salão de dança ou a insuitada cena final, envolvendo as mulheres de um vilarejo. O filme vai em um crescendo de suspense e o espectador simpatiza com o casal, interpretados com naturalismo pelos atores.
Back to the Wharf
"Feng ping lang jing", de Xiaofeng Li (2020)
Premiado em diversos festivais de cinema, "Back to the wharf" também concorreu no Shanghai film festival em 2020. O filme é um thriller noir chinês, filmado com bela fotografia, acentuando tom melancólico do filme. A água é uma constante, seja no mar, da cidade litorânea, ou nas ruas molhadas, ou na chuva constante. O filme ecomeça em 1997. O adolescente Song Hao (Yu Zhang, quando adulto) mora com seus pais. Ele é estudioso e está prestes a ganhar uma admissão para a Universidade. Li Tang ((Hong-chi Lee), quando adulto) é seu melhor amigo, e filho do prefeito local. Quando o diretor da escola diz que Song perdeu a sua bola em prol de Li Tang, o jovem fica desconcertado. Seu pai, Song Jianfei (Wang Yanhui ),decide se vingar de Li Tang e segue até sua casa. Song , temendo que o pai faça alguma tragédia, pega a bicicleta e vai avisar Li. Mas Song entra na casa errada. O dono acha se tratar de um assalto. Para se defender, Song o esfaqueia e sai correndo. O pai de SOng entra em seguida e ao ver que o homem diz que irá entregar Song para a polícia, decide matá-lo. Toda essa ação é testemunhada por Li Tang, à distÂncia. Songa decide fugir para Ghanzou. 15 anos depois, Song trabalha em uma fábrica de alvenaria. Ao saber da morte de sua mãe, ele retorna para a cidade, e agora precisa enfrentar o trauma do passado.
O filme tem uma trama confusa, se desdobrando em diversos sub-plots e personagens paralelos, como a ex-colega de Song da escola, com quem se casa, ou a filha adolescente do homem morto. A trama dos mafiosos me fez lembrar a changatem de "Chinatown". Vale pela atmosfera e pela fotografia.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Um jovem poeta
"Un jeune poet", de Damien Manivel (2014)
Co-escrito e dirigido por Damien Manivel, "Um jovem poeta" recebeu menção honrosa no Festival de Locarno. Críticos compararam o filme do cineasta francês ao cinema do sul coreano Hong Sang-soo, tanto em termos narrativos, quanto estilístico. Composto de planos fixos e longos, como sketches, em tempos reais e sem cortes, em registros de cotidiano, seja bebendo, caminhando e encontrando pessoas aleatórias no caminho. Assim é o jovem Rémi (Rémi Taffanel): recém completada a maioridade, com 18 anos, ele já deseja se tornar um poeta. PAra isso, ele precisa entender o que inspira m poeta? Em crise criativa e sem saber por onde começar, ele vai para a cidade litorânea de Séte, tranquila e deserta Ali, entre caminhadas, idas para a praia, cemitério e bares, ele encontra pessoas aleatórias, buscando sempre uma inspiração.
O filme traz um fino humor de situação. Rémi, mesmo passando os dias, usa sempre o mesmo figurino de adolescente: chinelos, bermuda e camiseta azul. O filme é dividido em capítulos, e no final, uma situação inusitada: Rémi quebra a quarta parade e desabafa com o autor do filme, sem encontrar respostas.
Hen
"Kota", de György Pálfi (2025)
Um trunfo de direção, "Hen" é um filme que apresenta o ponto de vista de uma galinha sobre o trágico e cruel mundo que a rodeia. O espectador acompanha diversos infortúnios da ave, desde fugir de ser morta pelo fazendeiro, depois sendo persgeuida por uma raposa, um cachorro de caça, umm gavião e outros perigos. Me lembrei d eimediato da obra-prima de Robert Bresson, "Baltazar", e de "Eo", de Jerry Skolimowski, que mostram a perspectiva de um pobre jumento, e também de "Cow", de Andrea Arnold. Todos esses filmes que deixaram arrasado no final. Tem crítico que o comparou à premiada animação "Flow", e faz total sentido, obviamente sme a parte fantasiosa. É a epopéia de uma galinha lutando pela sua vida, e no caminho, cruzando com manifestantes que protestam contra o governo, mafiosos e fazendeiros.
Co-esrito e dirigido por György Pálfi, "Hen" é uma co-producao da Alemanha, Grécia e Hungria. Para o filme, foram utilizadas 8 galinhas, cada uma para uma especialidade de ação. O diretor jura que nãofoi usado nenhum CGI. Existe uma cena em particular, onde. agalinha precisa atravessar uma auto-estrada para fugir da raposa, que tenho minhas dúvidas sobre não ter sido usado CGI. É uma cena priorosa. ALiás, tecnicamente, todo o filme é um primor. Não bastasse, a fotografia exuberante de Giorgos Karvelas dá um tom poético à essa fábula.
Merecidamente, o filme levou menção honrosa em Toronto e concorreu em San Sebastian.
Labour of love
"Asha Jaoar Majhe", de Aditya Vikram Sengupta (2014)
Comparado por muitos críticos à obra-prima "Amor à flor da pele", de Wong Kar Wai, o filme indiano "Labour of love" é escrito e dirigido pelo cineasta Aditya Vikram Sengupta. O filme concorreu em importantes Festivais, como Shangai e BFI London. O filme é totalmente sem diálogos e fotografia estilizada foi captada pelo próprio diretor, junto de Manoj Karmakar.
Ambientado nos arredores decadentes da periferia de Calcutá, "Labour of love" apresenta um jovem casal, sem nome. A mulher (Basabdutta Chatterjee) trabalha de dia em uma fábrica de bolsas. O homem (Ritwick Chakraborty) trabalha de noite em uma gráfica. Como pano de fundo, um narrador de rádio expõe a recessão econômica e o alto desemprego na Índia. O casal, por conta do trabalho árduo, quase nunca se vê, pela diferença de turno. Existe um parco momento do dia em que eles conseguem se ver.
O filme mostra a rotina do casal, em registro documental, mas com movimentos de câmera muitas vezes em velocidade lenta e com uma fotografia acentuada em constrastes, trazendo lindas imagens sobre um conteúdo de extrema pobreza. Uma crítica ao sistema de emprego que torna a todos automatizados e sem alma, não podendo aproveitar momentos de lazer ou desfrutando do carinho de parceiros.
Sessão espírita
"Korei", de Kiyoshi Kurosawa (2020)
Prêmio da crítica no Festival Fantasia, "Sessão espírita" é um filme de terror sobrenatural de Kyoshi Kurosawa, o mestre do gênero no Japão. "Sessão espírita" foi lançado entre dois dos mais famosos filmes do cineasta, 'A cura" e "Pulso". Co-escrito e dirigido por Kyoshi Kurosawa, a excelente trama é adaptada do livro "Séance on a Wet Afternoon", de Mark McShane, publicado em 1961. e que já havia sido adaptado em 1964 por Bryan Forbes no filme "Farsa diabólica". Existem elementos na trama que me fizeram lembrar do cinema de Hitchcock, muito bem engendrado e com um desfecho que celebra culpa e castigo.
Junko (Jun Fubuki) é casada com Sato (Kôji Yakusho). Eles moram em uma casa isolada na periferia. Ela é dona de casa e tem dons de mediunidade. Sato é técnico de som e trabalha para uma produtora de documenários. Junko quer provar que é medium e assim, ganhar fama e poder ter clentela. Mas o professor universitário, especializado em confirmar mediunidade, não acredita nela. Uma menininha é sequestrada e ao fugir do algoz, se esconde na case de som de Sato, que estava gravando um áudio na floresta. Ao chegar em casa, Junco tem uma premonição e descobre que a menina desmaiada. Ao invés de ligarem para a polícia, Junco tem a idéia de se aproveitar da situação e assim, poder ganhar fama como medium, alertando a polícia que descobriu os rastros da menina. Por um descuido de Sato, a menina acaba morrendo. O casal, desesperado, enterra a garota, mas passam a ser assombrados pelo espírito dela.
O filme tem um ritmo lento, mas tem uma trama tão bem amarrada que me deixou atento o tempo inteiro. Os atores são ótimos, e as cenas envolvendo a menina antes de sua morte são bem angustiantes.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Los ultimos heroes de la península
"Los ultimos heroes de la península", de José Manuel Cravioto (2008)
Iucatan é um estado mexicano, conhecido pelas praias do Golfo do México e pelas ruínas maias. A sua distância para a capital Cidade do México é de cerca de 20 horas de carro. O documentarisa José Manuel Cravioto seguiu para Yucatan para contar a história de cinco boxeadores mexicanos, todos campeões mundiais, que encontraram seu momento de glória entre os anos 70 a 90. José MAnuel leu o artigo "Casta de campeones", escrito por Beatriz Pereyra e entendeu que Yucatan, além de ser a terra do bolero e dos grandes compositores, também era berço de campeões do boxe.
Viajando para a capital de Yucatan, Mérida, José Manuel saiu em busca de Miguel Canto, Guty Espadas, Fredy Castillo, Lupe Madera e Juan Heleno. Logo no início do filme, José aparece perguntando ara as pessoas na rua o paradeiro de Miguel Canto. E assim, foi em busca do paradeiro de cada um deles, que acabaram no ostracismo. O filme, através das entrevistas, imagens de arquivo, fotos e vídeos, apresenta a inevitável combinação de ascenção, glória e declínio. É um filme melancólico, assim como boa parte dos filmes que retratam "heróis" de outrora, e que nos dias d ehoje, guardam as lembranças em seus quartos repletos de troféus e de lembranças.
Labirinto dos garotos perdidos
"Labirinto dos garotos perdidos", de Matheus Marchetti (2025)
Em 2022, o roteirista e cineasta Matheus Marchetti lançou "Verão fantasma", um cult queer com elementos narrativos muito próximos ao seu novo filme, "Labiritnto dos garotos perdidos". A influência do cinema giallio, principalmente dos cineastas Dario Argento e Mario Bava, e a constante atmosfera de sonho, com fotografia onírica retratada em cores vibrantes. Aqui, as influências do giallio vão desde o poster do filme, uma referência a ""A Breve Noite das Bonecas de Vidro", de Aldo Lado, de 1971, às cores e direção de arte de "Suspíria"( a porta de entrada da festa tem as cores da porta da mansão do ballet). E a trama traz elementos de "Phenomena", na revelação do assassino.
O filme mescla elementos de suspense, thriller, terror, mas traz a brasilidade envolvendo humor, romance e muita sensualidade, na exposição de corpos masculinos nús. A atriz Tuna Duek narra o filme em tom de "Era uma vez", com uma voz suave e acolhedora.
Miguel (Giuliano Garutti) é um jovem que vem para a cidade grande para se encontrar com a pessoa com quem ele tem se conectado em um app, com a intenção de perder a sua virgindade. Durante uma noite, ele perambula pelas ruas, becos e parques de São Paulo, se encontrando com estranhos, alheio aos assassinatos cometidos por um serial killer.
O filme traz personagens masculinos em busca de tesão e desejo. São tipos divertidos, repletos de fetiches que faz o público rir bastante ( a cena do chuveiro do golden shower é um bom exemplo). Um outro personagem, a do su1c1d4, revela a solidão da grande metrópole.
Fireflies at El Mozote
"Luciérnagas en El Mozote", de Ernesto Melara (2026)
Co-produzido por El Savdaor e Estados Unidos, "Fireflies at El Mozote" é uma reconstituição dramática do massacre ocorrido em El Mozote, em Sal Salvador, entre os dias 10 e 13 de dezembro de 1981. Um segmento de elite exercito do governo, conhecido como Batalhão Atlacatl, foi treinado pelos americanos e invadiu a região de El Monzote e arredores. Entrevistaram moradores, depois os assassinaram. Foram mais de mil mortosmetade crianças. O filme ficcionaliza um sobrevivente: José (Mateo Honles) tem 10 anos e tem a sua mãe e irmã pequena assassinadas. Ele tinha que cuidar da irmã e se sente cupado pela morte dela. Ao encontrar revolucionários, deixa clao o seu desejo de vingança.
Apesar dos cuidados com a direção de arte e figurinos, é uma pena que a direçao não tenha dado mais ritmo e dinâmico ao filme. O elenco também é outro ponto conflituoso: mesmo com participação de bons atores, como a espanhola Paz Vega ( de "Lucia e o sexo", como uma guerrilheira), o filme tem atores fracos em papéis importantes. Mas foi válido por pelo menos trazer aos dias d ehoje, uma história considerada o massacre mais bárbaro da América latina nos tempos recentes, que só teve a sua história narrada e não abafada ( os mortos foram enterrados pels soldados) pelo testemunho de uma sobrevivente e relatos de um jornalista do New York times. A cena final é bem bonita, trazendo elementos fantásticos, com vagalume siluminando o local onde os mortos estão enterrados.
A una isla de ti
"A una isla de ti", de Alexis Morante (2026)
Comédia romântica lgbt espanhola, "A una lista de ti" é dirigida por Alexis Morante e escrita por Paula López Cuervo e Fernando Pérez. A história é simpática e previsível, com atores carismáticos intercalando momentos de humor, drama e romance, com pitadas de nudez que irá atiçar o público. O filme foi rodado na paradisíaca Ilhas Canárias, região que dá apoio logístico para o audiovisual e justifica ter imagens que vendam o local como se fsse um institucional.
Harry (Freddie Dennis). é um jovem Chef prestes a se casar com seu noivo. Mas o noivo desiste do casamento, deixando Harry bastante frustrado. Yaiza (Julia Martínez), a su chef e melhor amiga de Harry, o convence a passar um tempo nas Ilhas Canárias, na casa de sua família, para tirar férias e desestressar. Após quase se afogar na praia depois de uma noite de bebedeira na balada, Harry é salvo por um surfista cinquentão, Ivan (Jaime Zatarain). Ambos se sentem atraídos e se tornam amantes. Mas Harry vem a decsobrir que Ivan é pai de Yalza, e precisam esconder esse fato dela.
A parte do humor está mais focado no amigo gay pintosa de Yalza, que se apresenta na noite como Drag, e na mãe de Yalza, uma terapeuta s3xu4l. Faltou dar mais ritmo e mais humor ao filme, mas funciona como passatempo ligeiro.
domingo, 19 de julho de 2026
Gloria
"Gloria", de Christian Keller (2014)
Prêmios de melhor atriz e ator no Festiva Ariel do México, "Gloria" é uma cinebiografia da cantora mexicana Gloria Trevi, considerada nos anos 90 como a "Madonna mexicana", pelas rouas e apresentações provocativas. Glória (Sofia Espinosa) vendeu mais de 20 milhões de cópias de discos. O filme apresenta o início de sua carreira, quando, em 1985, ao conhecer o empresário musical Sergio Andrade (Marco Perez), o impressiona com sua vocação musical e a coloca como integrante do grupo pop "Boquitas pintadas". Com o fracasso do grupo, Sergio decide lançar Gloria Trevi em carreira solo, e ela imediatamente se torna um grande sucesso. Mas a derrocada veio em 2000. De visita ao Brasil, Gloria, Sergio foram presos no Rio de Janeiro. Ambos foram acusados de aliciamento de menores: Sergio as seduzia com promessa de carreira artística, em troca de favores s3xu41s. Gloria ficou presa por quase 5 anos, entre 2000 a 2004, no Brasil e no méxico. A justiça não conseguiu provas contra Gloria, que dediciu começar vida nova no Texas, se casando e reiniciando a sua carreira, se tornando novamente uma das grandes estrelas latinas.
O filme traz uma edição que vai e volta no tempo, se tornando confuso às vezes. O trabalho da atriz Sofia Espinosa é marcante, trazendo todas as nuances de Gloria na vida pessoal e nos palcos, e as cenas da prisão são bem conduzidas cm a ajuda da direção de arte e da fotografia. É uma cinebiografia convencional, mas eficiente para os fãs da cantora.
A tocha de zen
"Xia nü", de King Hu (1971)
Com 200 minutos de duração, "A tocha de zen" é considerado o melhor filme de wuxia da história. O filme faz parte da lista dos "1001 Filmes Que Você Deve Ver Antes de Morrer". Vencedor no Festival de Cannes 1975 do prêmio técnico de contribuição artística, foi fundamental para que a partir daí, os filmes chineses tivessem maior abetura em festivais de cinema. O filme também foi responsável por fornecer rspeito artístico e consagração entre a crítica mais exigente para um gênero tão popular. "A tocha de zen" foi a inspiração para os filmes premiados de Ang Lee, "O tigre e o dragao", e "O clã das adagas assassinas", de Zhang Yimou, esse último, homenageando a famosa sequência da luta na floresta de bambus, existente nesse filme de 1971.
Co-produzido por Taiwan e Hong Kong, o filme foi escrito e dirigido pelo cineasta King Hu, que se mudou para Taiwan e ali se instalou. "A tocha de zen" levou 3 anos para ser filmado, e foi filmado em Taiwan e Hong Kong. No lançamento, o filme foi divido em 2 partes pela sua longa duração, e ambas fora fracasso de público. Mas com o passar dos anos, o filme foi redescoberto e alçado à condição de obra prima.
Com forte influência dos faroestes de Sergio Leone, o filme é baseado no conto "A garota magnânima", uma antologia de Pu Songling, intitulada "Strange Stories from a Chinese Studio".
A história é dividida em 3 atos dramaturgicamente distintos: Ambientado na época da Dinastia Ming, o 1a ato apresenta Gu (Zhang Bing-yu)), um jovem pintor e retratista que mora com sua mãe viúva. Pobres, a mãe de Gu lamenta ele não ter se tornado um oficial e também de não ter se casado ainda e lhe dar netos. Um dia, um homem misterioso, Ouyang Nian (Tien Peng) surge e lhe pede um retrato. Na verdade, ele está à procura de 3 fugitivos procurados pelo governo, entre eles, a jovem Yang (Feng Hsu). O pai dele foi morto pelo General por descordr dele, e sua família foi ameaçada. Yang se esconde em uma casa abandonada e que os amoradores acreditam estar amaldiçoada. No 2o ato, Gu, agora ajudando Yang, luta contra os oficiais do governo. No 3o ato, Yang decide abandonar tudo e morar em um mosteiro budista. Mas Gu descobre que ela teve um filho dele, e que os oficiais estão indo atrás deles. Esse último ato tem um tom diferenciado, buscando elementos fantasiosos, com um desfecho brilhante e abraçando o zen budismo. A sequência dos bambus é espetacular em todos os sentidos, e surpreendente por ter ido filmado no final dos anos 60, com efeitos praticos, incluindo trampolins.
Chuva
"Lluvia", de Rodrigo García Sáiz (2023)
Longa de estréia do cineasta mexicano Rodrigo García Sáiz, a partir de roteiro escrito pela dupla Claudia Garibaldi e Paula Markovitch, "Chuva" concorreu nos festivais de Málaga e Miami em 2023. O filme lembra a narrativa de filmes painéis de outro mexicano, Alejandro Inarritu, como "Amores perros" e "Babel"; diversas histórias paralelas que em algum momento se entrecruzam. Diversos elementos lingam as histórias: todas acontecem na cidade do México; todas na mesma noite de chuva; e todas sobre personagens anônimos, desemparados e desiludidos. A grande metrópole é vista como um espaço de solidão, isolamento e frustração, seja amorosa, pessoal ou profissional.
1) Um taxista pega um passageiro e descobre que ele é amante de sua esposa e quer ir para o seu endereço
2) Uma professora é assaltada pelo seu ex-aluno
3) Em um metrô, um passageiro desmaia. Um casal o socorre e o leva até o hospital. Eles decidem visitar a casa do homem
4) O gerente de um cassino se sente atraído por uma turista japonesa
5) Uma enfermeira cuida de um pacinte ferido no hospital, que lhe pede para realizar uma tarefa em seu lugar
6) Uma prostituta se relaciona com um cliente e decsobrem que são da mesma cidade
O filme tem seus altos e baixos, e nem todas as históris funcionam bem, como é comum em filme de episódios. Os atores de uma forma geral são bns, com destaque para a enfermeira e a professora com o ex-aluno (que aliás, esse episódio me lembrou do filme de Reinchembach, "Os anjos do arrabalde"). A fotografia merece destaque, iluminando noturnas com chuva e mantendo uma atmosfera melancólica.
sábado, 18 de julho de 2026
Somos Mari Pepa
"Somos Mari Pepa", de Samuel Kishi (2013)
Dedicado aos pais e avós, o cineasta e roteirista mexicano Samuel Kishi se inspira na sua adolescência e na sua avó para criar um coming of age malncólico. Concorrendo no Festival de Berlim na mostra Generation, dedicado a filmes com temáticas juvenis, 'Somos Mari Pepa" é filmado na cidade do México. Segundo o próprio cineasta diz, : "o filme nasceu da necessidade de homenagear minha avó, o bairro onde cresci, meus amigos e minhas várias bandas de rock fracassadas. É uma carta à minha adolescência, àquela idade difícil e estranha, cheia de dúvidas e desolação.""
Alex, alter ego do diretor, tem 16 anos. Ele é integrante de uma banda de punk rock junto de 4 amigos: Alex, Moy, Bolter e Rafa, mais conhecidos como "Maripepa". Eles querem compor uma nova música. Alex mora com seus pais e sua avó. Quando os pais viajam, Alex precisa cuidar dela. Ao mesmo tempo, quer arranjar um emprego, perder a virgindade e compor uma música nova.
O filme, curiosamente, traz pouco humor, e mostra, com um olhar quase documental, a rotina dos amigos e proncipalmente, a dependência da avó para com Alex. Um olhar afetuoso sobre uma nostalgia, a periferia da cidade, a amizade e sobbre relacionamentos familiares.
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