terça-feira, 26 de dezembro de 2023
O homem desconhecido
"L'homme inconnu", de Anthony Schatteman (2021)
Ao som da canção romântica francesa "Ce grand amour", de Claude Barzotti, o drama Lgbtqiap+ francês "O homem desconhecido" traz um tema que já inspirou muitos cineastas: a paixão por um muso mais jovem no verão. Visconti já realizou sua obra-prima "Morte em Veneza", ou ALmodovar, com "A lei do desejo". Aqui, o roteirista e cineasta Anthony Schatteman traz seu protagonista, Louis, um escritor em crise criativa, para a Cote D ázur, para buscar inspiração para seu novo livro. Ao se hospedar em uma pousada à beira da praia, ele observa um jovem casal fazendo sexo na beira da praia, Tommy e Melanie. A presença de Tommy, em sua sunga amarela, desnorteia Louis, que passa a ecsrever um romance sobre uma paixão avassaladora. Mas a realidade e a ficção logo tendem a se misturar.
Com ótimas performances de Geert Van Rampelberg, como Louis, e a presença magnética e sedutora de Samuel Suchod, como o objeto de desejo Tommy, o filme explora o voyeurismo e o tesão pela juventude, pelo corpo imberbe. Uma ode à juventude e ao homoerotismo, é um filme que certamente irá atição desejos.
Brother
"Brother", de Aleksei Borovikov (2023)
Um honesto drama LGBTQIAP+ sobre homofobia em família, "Brother" poderia facilmente se transformar em uma peça de teatro com 4 personagens: 2 homens na faixa dos 30 anos, 1 mulher de 35 e uma de 55 anos: um casal gay, a irmã de um deles e a mãe do outro.
Carlos, descendente de mexicano, e Tony, russo migrante nos Estados Unidos, moram juntos há 3 anos e decidiram se casar. A mãe de Carlos, dona de restaurante, vai promover uma festa. Tony decide convidar a sua irmã conservadora que mora na Rússia. Mas ao chegar, Tony fica nervoso e decide mentir sobre o seu casamento e a sua união com Carlos. Carlos o chama de covarde e sai de casa.
Com boas performances, o filme carrega nas tintas novelescas, prinicipalmente na trilha sonora, mas é um retrato sincero sobre saída do armário dentro de sua própria família, uma decisão bastante difícil para pessoas de gerações pré anos 2000 e que tiveram uma educação machista.
After party
"After party", de Viktor Zahtila (2017)
Premiado documentário LGBTQIAP+ dirigido e desenvolvido pelo cineasta croata Viktor Zahtila. O filme apresenta os últimos dias de seu relacionamento com o seu namorado de anos Goran Koletic. Sentindo que a história entre os 2 já não estava seguindo um caminho saudável, Viktor propõs a Goran que filmasse a etapa final da convivência entre ambos. Tem o último sexo, tem depoimentos reveladores que nunca puderam ser ditos. As impressões sobre quando se conheceram. Os silêncios, e finalmente, o rompimento e a vida pós separação.
Viktor Zahtila é ativista LGBT e jornalista de um semanário político, além de trabalhar para portais independentes de notícias e cultura. Ele traz um olhar bastante sincero sobre a sua própria história, eu fico na dúvida do que é real e do que foi montado aryificialmente para o filme. Mas a coragem de se expôr, de se mostrar fazendo sexo e de revelar que já fez sexo com mais de 50 homens enquanto namorava Goran, em um relacionamento em aberto, mostram o quão "liberal" um relacionamento pode ser para uma das partes, mas talvez a outra parte não entenda isso direito.
Runaways
"Weglopers", de Brandon Oelofse (2023)
Drama LGBTQIAP+ holandês, que retrata o relacionamento sexual toxico e dependente entre dois homens: um que tem um namorado, e outro solteiro. Robert (Lev Kitilzep) conhece Frank (Thomas Puvill) ma academia e se sentem atraídos sexualmente. APós um flerte no chuveiro, Frank decide convidar Robert para ir até seu apartamento, alegando que seu namorado Daan (Olchert Molendijk) não está. Durante meses, Robert e Frank se encontram sexualmente, e Robert fica apaixonado e pede para que Frank o trate como se fosse seu namorado. Mas Frank entende que Ribert não é seu namorado, e sim, um amante. Quando uma noite Daan chega de surpresa, um clima acontece entre os 3, e Robert entende que ele é a parte mais fraca do relacionamento.
Um filme repleto de cenas explícitas, com bela fotografia e muito tesão entre os atores que interpretam Frank e Robert. O filme é sobre esse frisson sexual, sobre tesão. E quando Daan entra em cena, entende-se que não é apenas de sexo que uma relação sobrevive. O filme poderia render uma boa peça teatral com 3 atores na faixa dos 30 anos.
Peixe idiota
"Idiot fish", de Hakim Mao (2022)
Com um roteiro criativo escrito por Julie Debiton, "Peixe idiota" é um drama romântico francês, que parte da brincadeira de um casal de namorados. A caminho das férias de verão, Jimmy (Domhnall Herdman) e Guillaume (Arturo Giusi) testam seu relacionamento. Jimmy se torna um carona perdido e Guillaume um motorista solitário. Eles vão fingir que não se conhecem e brincar de se encontrar e seduzir novamente. Tudo vai bem até que um jovem e sedutor rapaz, Dylan (Sayyid El Alami) surge na estrada pedindo carona. A sua presença irá desestabilizar o relacionamento de Jimmy e Guillaume.
Com ótimas performances dos 3 atores principais, o filme exale sensualidade e principalmente, a oportunidade de se discutir o relacionamento, indo à verdades que raramente os parceiros se permitem invadir. Belas locações e linda fotografia, com um desfecho em aberto.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
Puan
"Puan", de María Alché e Benjamín Naishtat (2023)
Vencedor dos prêmios de melhor ator para Marcelo Subiotto e melhor roteiro em San Sebastian 2023, "Puan" é um drama com toques de tragicomédia que retrata o rumo que a educação argentina está tomando no governo atual (nada muito diferente do Brasil). As universiaddes públicas e o ensino em geral está totalmente sucateado pelo governo: professores com salários atrasados, instalações precárias e desinterese dos alunos. Através da comédia satirica, os diretores e roteiristas María Alché e Benjamín Naishtat mostram uma história de rivalidade entre 2 professores de pensamentos e vidas distintas, mas descobrem que o inimigo maior está bem acima deles. Puan é o nome da rua da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. É ali que Marcelo (Marcelo Subiotto) dá aula como professor de filosofia. Ele viveu toda sua carreira acadêmica acompanhando seu mentor, Eduardo, que é professor titular na cátedra da instituição. Eduardo morre subitamente do coração. O seu cargo fica em aberto. Eduardo acredita que naturalmente a vaga será dele. Ma qual a sua surpresa ao decsobrir que Rafael (Leonardo Sbaraglia), um ex-aluno de Eduardo e colega de classe de Marcelo que fez sua carreira na Europa e nos Estados Unidos, também deseja a vaga. Com salários em dia pela universidade que leciona na Alemanha, namorando uma celebridade, Rafael é talvez a solução para a modernização da faculdade e para atrair novos alunos.
Quando li a sinopse, imaginei um filme no etsilo 'RElatos selvagens", com muitas brigas e disputa entre os dois rivais. Mas essa sensação logo se dissipa. Sbaraglia aparece pouco, e o pouco se preocupa mais em entender como um professor de filosofia sobrevive, dando aulas extras para idosas e lidando com a esposa líder feminista e um filho contestador. É bom, mas esperava mais comédia ácida. Vale pelos atores, excelentes, e pela provocação que o filme propõe, sobre o pouco caso que o governo dá para a educação.
Inquietações de uma mulher casada
"Inquietações de uma mulher casada", de Alberto Salvá (1979)
Cronista de relacionamentos amorosos de personagens da classe média, Alberto Salvá faleceu em 2011. Deixou obras que provocaram polêmica na época do seu lançamento, como "A menina do lado", um filme que hoje certamente seria cancelado pelo relacionamento pedófilo entre um homem quarentão, interpretado por Raginaldo Farias, e Flavia Monteiro, na época com 14 anos. "Inquietações de uma mulher casada" também causou furor, com os protagonistas vivenciando o amor livre, swing e traições extra relacionamento.
O filme, escrito por Salvá e lançado em 1980, certamnete foi influenciado pelos furacões "Uma mulher descasada", com Jill Clayburgh intrepretando uma mulher que decide tomar rédea de sua vida, na obra de Paul Mazursky, e "Kramer vs Kramer", com Meryl Streep abandonando marido e filho pela sua insatisfação com a sua vida de casada e mãe.
Luiza (Denise Bandeira) é casada há 8 anos com Luis Antônio (Otavio Augusto), e mãe de Sandrinha, 8 anos. Luiza é dona de casa e Luís é adgovado de uma construtora. Luiza cuida do lar, da filha e orienta a empregada nos afazeres. Um dia, Luíza confidencia para Luís que deseja viajar para salvar o casamento. Sua relação com seus pais e seus sogros é péssima, e a crise no casamento é evidente. Ao irem na casa de um casal de amigos (Jonas Bloch), eles cabam participando de um swing. Visitando um amigo, local onde está rolando uma filmagem, Luisa revê Marcos (Nuno Leal Maia) e tem um caso extra-conjugal com ele.
Com atuações brilhantes de Denise Bandeira e de Otavio Augusto, esse filme merecia ser refilmado ou transformado em peça de teatro. Claro, ambientado no início dos anos 80, uma época onde mesmo com um forte movimento feminista no mundo, ainda repercutia pouco no Brasil, e o início da liberação e independência feminina.
Norma
"Norma", de Santiago Giralt (2023)
Co-produção Argentina e Uruguai, "Norma" é um drama com tintas de comédia protagonizado pela estrela argetina Mercedes Morán. ela é Norma. Assim como "Shirley Valentine", "Gloria" e outros filmes que retratam a frustração da vida aos 50 anos, Norma é casada e tem uma filha médica. Mas ao apontar a câmera para si mesma, ela percebe que seu casamento é fracassado e que sua relação com sua filha, sua irmã e sua mãe está em frangalhos. Para piorar, a sua empregada que trabalha com ela há anos, Rosita, decide abandoná-la por um trabalho que paga mais. Ao decidir ela mesma cuidar da casa, Norma só tem a atenção para Roberto, seu jardineiro sexy. Um dia, ao lavar as roupas de sua filha, ela encontra uma latinha contendo maconha. Noprma decide experimentar, e a partir desse momento, sua vida dá uma reviravolta que até então, ela não tinha coragem de enfrentar.
"Norma" tem um começo bastante promissor, fazendo uma crítica ao conservadorismo e a hipocrisia da classe média argentina e suas donas de casa fúteis. Mas ao inserir na trama o "Poder" do uso da maconha como um elemento libertador e revolucionário, o filme ignora os caminhos da mulher que busca a independência e que é antenada com os movimentos feministas e de empoderamento que rondam o mundo. Se fosse ambientado entre os anos 70 ou mesmo 90, antes da internet e ainda sobre o signo do movimento hippie e da liberação das drogas, o filme teria mais efeito. Mas o mais crítico para mim, foi, já em seu terceiro ato, penalizar uma personagem que até então, o espectador acreditava ser consicnte e digna de sua busca por melhores condições sa;ariais e de humanização de trabalho. Encaixar essa personagem como a amante é um enorme retrocesso. Vale pelo lindo trabalho de MArcedes Morán, ótima, mas que mereceria uma personagem mais condizente com a contemporaneidade.
domingo, 24 de dezembro de 2023
Dias perfeitos
"Perfect days", de Wim Wenders (2023)
Vencedor no Festival de Cannes 2023 dos prêmios de melhor ator para Kôji Yakusho e de melhor filme do juri ecumênico, 'Dias perfeitos" está na short list dos 15 filmes pré-selecionados pro Oscar internacional 2024. 40 anos depois de rodar o seu belo documentário "Tokyo Ga", uma homenagem ao cinema de Yazujiro Ozu, de quem é grande fã, Wenders pega emprestado o nome do protagonista do último filme de Ozu, "A rotina tem seu encanto", para o protagonista de 'Dias perfeitos", Hirayama (o super astro Kôji Yakusho, de "A enguia", "Memórias de uma gueixa", "Shall we dance", "Babel"). O filme poderia perfeitamente ter sido chamado de "A rotina tem seu encanto parte 2": é justamente sobre a delicadeza da rotina, o encantamento da vida simples que Wenders apresenta. Com uma trilha sonora que vai de Lou Reed, The animals, Nina SImone, entre outros, o filme apresenta, com um olhar documental, o dia a dia de Hirayama: limpador de banheiros públicos localizados em parques na cidade de Shibuya, Hirayama alterna o seu dia entre trabalho meticuloso, leitura de livros ao dormir, escutar fitas K-7 com clássicos dos anos 70 e jantar no restaurante de Mamma, uma dona de restairante de meia idade, que poderia desenvolver um romance com Hirayama, mas o filme não é sobre isso. Com ritmo contemplativo, pouca coisa acontece no filme, e ao longo de 2 horas de filme, alguns personagens surgem para alterar a rotina de Hirayama, mas sme causar grandes reviravoltas. Mas é a cena final que certamente deve ter arrebatado o juri de CAnnes: por longos minutos, em plano-sequência, um close de Hirayama, em performance formidável de Koji Yakusho, ao som de "feeling godd", de Nina Simone, expõe de forma minimalista seus sentimentos no olhar.
Sleep
"Jam", de Jason Yu (2023)
Concorrendo ao Camera D'or em Cannes, 'Sleep" é um drama de terror psicológico que remete à clássicos como "O bebê de Rosemary", "O inquilino" e 'A repulsa ao sexo". O que os une? Um terror clasutrofóbico, que acontece quase que inteiramente dentro de um apartamento, onde a protagonista começa a enfrentar um distúrbio paranóico, a ponto das pessoas a considerarem louca. Alucinação? possessão? Uma alegoria sobre a pressão da conviv6encia conjugal, ou do matrimônio?
Soo-jin (Jung Yu-mi) é uma mulher grávida que começa a se preocupar com os hábitos de seu marido, Hyun-su (Lee Sun-kyun), enquanto ele dorme. Ela trabalha em uma empresa de design. Ele é ator, mas se sente frustrado pela pouca oportunidade que lhe oferecem. Uma noite, Kyun-su sofre de sonambulismo, e passa a agir estranhamente. Com o tempo, ele vai se tornando violento e quando o bebê nasce, Soo-Jin teme que omarido maltrate a criança.
No início, eu comecei a gostar do filme justamente pela imprevisibilidade e pela curiosidade ems aber o que estaria acontecendo com o personagem do marido. Mas ao longo da trajetória, já tava claro para mim que o filme é uma parábola sobre o matrimônio. Eu me irirtei muito com a protagonista: se ela se sente ameaçada e teme pela filha, porquê ela não se muda pra casa da mãe? Ou para um outro local? Porquê ainda mora com seu marido, e passando horas sem dormir, temendo que ele a ataque, como em "A hora do pesadelo"?. Com boas performances, o filme poderia ter rendido mais, investido mais no terror.
A versão persa
"The persian version", de Maryam Keshavarz (2023)
Vencedor do prêmio do público para melhor drama em Sundance 2023, "A versão persa" é um drama autobiográfico escrito e dirigido pela cineaspa de iraniana/americana Maryam Keshavarz, radicada nos Estados Unidos. Em seu longa de estréia, ela fala sobre a história das mulheres de sua família, uma história de luta, silêncios e de empoderamento tardio. Leila (Layla Mohammadi) é uma aspirante a cineasta criada em NY e que deseja se tornar uma versão iraniana de Martin Scorsese. Ela mora com seus 8 irmãos, todos homens, e seus pais, Shireen (Nousha Noor) e seu pai, o médico Ali Reza. Quando Leila anuncia para seus pais que namora uma mulher, sua mãe a expulsa de casa. Quando o pai, um dia, passa mal e precisa de um transplante de coração, todos se reencontram no hospital. Para piorar a situação, Leila engravida de um ator que se traveste de Hedwig, durante uma one night stand em uma festa. Ao passar um tempo com sua avó, Leila passa a entender melhor a história trágica de sua mãe no Irã e o motivo de sua partida para os Eua.
Para quem ama melodrama, o filme é um prato cheio. Entre momentos de humor envolvendo família e muito drama emotivo, com traições, fugas e perdões, o filme traz um excelente elenco e uma edição às vezes confusa, envolvendo 3 épocas distintas: anos 60, 80 e 2000. Alguns momentos poéticos e divertidos, como as mulheres no Irã dançando ao som de "Girls just wanna have fun", de Cindy Lauper, garante alguns sorrisos da platéia.
Leo
"Leo", de Lokesh Kanagaraj (2023)
Remake de "Marcas da violência", de David Cronemberg e por sua vez adaptado da graphic novel " A history of violence", de John Wagner e ilustrada por Vince Locke, publicada em 1997. "Leo" é um filme de ação indiano, dirigido por Lokesh Kanagaraj e protagonizado pelo mega astro Joseph Vijay. O filme foi um enorme sucesso comercial na Índia e considerado um dos melhores filmes do ano pelos críticos do país. É impressionante como os filmes de ação indianos e sul coreanos dominaram o mundo, superando as produções hollywoodianas, com coreografias de ação surpreendentes.
Joseph Vijay é Parthiban, que vive com sua amada família em uma cidade pequena, onde administram um café. Sua esposa Satya e seus filhos, o adolescente Siddhu e a pequena Chintu. Um dia, criminosos invadem o café e ao ameaçarem uma funcionária e sua filha Chintu, Parthiban surta e mata todos os criminosos. Ele vai preso, mas a opinião pública o considera um herói e ele é solto. Harold Das, um gangsters, se depara com sua foto no jornal e o identifica como Leo Das, que foi considerado morto há muitos anos. Ele segue com sua quadrilha para matar Parthiban.
Repleto de extravagâncias, (basta lembrar de "RRR"), com muitos exageros, performances caricatas e claro, os deliciosos números musicais. O filme é super divertido, com muita porradaria e um humor que só os indianos e sul coreanos trazem aos filmes.
sábado, 23 de dezembro de 2023
E o Rei disse, que máquina fantástica
"And the King Said, What a Fantastic Machine", de Axel Danielson e Maximilien Van Aertryck (2023)
Premiado documentário co-produzido pela Dinamarca e Suécia, ganhou prêmio em Sundnace e em Berlim. O cineasta sueco Ruben Ostlund, de "Triângulo das tristezas" e "The square" é um dos produtores. O filme traz as sguintes cartelas finais, todas assustadores sobre a nossa realidade: são 45 bilhões de câmeras no mundo, produzindo 500 horas de filmagem por hora e a produção de 1 bilhão de horasa de conteúdo por dia. Com esse relato catastrófico, o filme traça um panorama sobre a relação do homem com a câmera,d esde o século XIX, até a criação de Melies e Lumiere, passando pelas câmeras fotográficas pessoais. Uma das teses do filme é mostrar o quanto que as imagens que vemos são manipuladas por quem a tira. Através de uma imagem de uma jovem morta no terremoto do Haiti em 2010, vemos um outro ângulo da mesma foto: uma fila de fotógrafos desesperados em tirar o melhor 6angulo da morta. O filme é uma colcha de retalhos de tudo o que se possa imaginar, editado aleatoriamente: a criação de canais de Youtube e a aproximação de pessoas anônimas com segudores; canal do Onlyfans; Instagram; selfies onde pessoas arriscam suas vidas para tirarem o melhor ângulo; câmeras registrando online 24 hrs na vida de pessoas; até mesmo depoimento com a cineasta alemã Leni Riefhenstal mostrando imagens de seu clássico "O triunfo da vontade", onde manifestações nazistas são filmadas de forma criativa e únicas, enaltecendo o poder das imagens. Tem de tudo no filme, e talvez a sua falta de foco seja o seu maior problema. Como ponto positivo e o principal fator de se assistir ao filme, é um apanhado incrível de vídeos, como a d eum homem que foi para um canal de tv para ser entrevistado para uma vaga de emprego, foi confundido com o entrevistado do canal e foi ao ar responder perguntas da apresentadora, e ele acreditou que aquilo fizesse parte da entrevista e respondeu tudo com muita segurança. Primoroso.
Priscilla
"Priscilla", de Sofia Coppola (2023)
"Priscilla" é baseado no livro de memórias de 1985, "Elvis and Me", escrito por Priscilla Presley e Sandra Harmon. Abrangendo o período de 1959, quando aos 14 anos, conheceu Elvis Presley e dois anos depois, foi morar com ele, até o seu divórcio, em 1972, quando decidiu se separar do astro e tomar rédea de sua vida, até então, um bibelô nas maos de um Elvis mostrado no filme como tóxico, traidor, e que oferece pouco à vida em conjunto, dando preferência à carreira artística do que à esposa e à filha Lisa Marie.
Cailee Spaeny, como Priscilla, venceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza 2023, com uma performance de uma mulher incocente e ingênua e que vai se transformando ao longo do filme. JAcob Elordi empresta beleza a Elvis, mas lhe faltou imprimir uma marca, o personagem é opaco e apagado. Sofia Coppola sabe narrar uma história à sua maneira, com planos bem compostos, excelente fotografia, tudo sofisticado mas com ritmo lento. Porém, o que faltou ao filme, e é seu maior pecado, são a smúsica de Elvis na trilha. A produção não obteve autorização da Elvis Presley enterprise para inserir a smúsicas na trilha, o que fez bastante falta. Ver um filme sem suas músicas faz parecer que estamos vendo um drama sobre emancipação feminina de uma personagem americana, mas não a de Priscilla muito menos de Elvis.
Garra de ferro
"The iron claw", de Sean Durkin (2023)
Drama baseado em incrível e trágica história real, "Garra de ferro" conta a história da família Von Erich. Dos anos 70 aos 90, os 4 filhos de Jack (Holt McCallany), um lutador frustrado, se tornaram lutadores de luta livre profissional, o popular wrestling, que fazia enorme sucesso com o público americano, sendo televiosando com enorme audiência. A pressão familiar e profissional, aliado à frustração foi tamanha, que 3 dos filhos se suicidaram, além do 1o ter morrido aos 8 anos de idade. Kavin (Zac Efron), David (Harris Dickinson), Kerry (Jeremy Allen White) e Mike (Stanley Simon). Kevin se suicidou após se separar de sua esposa; em 1984, David foi encontrado morto em seu quarto de hotel aos 25 anos. Ele sofria de enterite aguda no intestino, o que causou um ataque cardíaco. Três anos depois, Mike teve uma overdose de tranquilizantes após descobrir que sua carreira como lutador teria que ser interrompida devido a uma lesão no ombro. Kerry se suicidou em 1991.
O filme apresenta a família desde a infÂncia até a fase adulta, com excelente caracterização. ( o corte de cabelo de Zac Efron chegou a virar meme, em estilo "He man"). Maura Tierney está formidável como a mãe Doris, uma mulher religiosa que impõe uma educação rigida aos filhos. O pai, também bem defendido por Holt McCallany), traz o clichê do pai treinador e empresárioque regra seus ilhos à ferro e fogo. Mas todo o marketing do filme é em cima de Zac Efron, que prova mais uma vez, depois de diversos filmes fora do mainstream, que é mais do que um rostinho bonito, e que quer ser visto em trabalhos viscerais.
O bêbado
"O bêbado", de André Marques (2023)
Longa de estréia do roteirista e cineasta português André Marques, o drama venceu o prêmio Fipresci no Festival Caminhos do cinema português 2023. André é bastante conhecido pelos seus premiados curtas-metragens por apresentar um cinema humanista, que traz os conflitos de uma Europa fragmentada pelas migrações conturbadas de povos distintos, tentando sobreviver diante da brutalidade da sociedade dita primeiro mundo. Um fato inconteste nos filmes de André, é a sua excelência como diretor de atores. Em "O bêbado", os personagens interpretados pelos atores Vitor Roriz, como o protagonista Rogério, Ina Esanu, como a refugiada do leste europeu Oksana e especialmente Teresa Madruga, como a mãe de Rogério, conferem lindas camadas de emoção em construções compleas e minimalistas, escondendo uma dôr interna expressas pelo olhar.
Rodado em Setúbal, o filme apresenta Rogério, um homem na faixa dos 35 anos, vivendo de seguro desemprego. Alcóolatra, Rogério vive na casa da família: sua mãe mora na porta da frente, para onde Rogério constantemente pede ajuda financeira. Sem perspectiva de um futuro que o abrace, Rogério esbarra com Oksana, uma refugiada que lhe pede ajuda. Ele a leva até sua casa, mas não esperava que mafiosos russos e portugueses o seguisem e espancassem ele e à moça. eles pedem que ele a leve até um ponto marcado no dia seguinte, com a promessa de se vingarem de sua família. Durante esse tempo, Rogério v6e a sua vida transformada pela inesperada ajuda humanitária que ele é obrigado a enfrentar.
A cena inicial me remeteu à "Apocalipse now": o protagonista, fora de si, dança freneticamente, aqui, ao som de "Quero é viver", de Antônio Variações, na versão da banda "Humanos". Em determinados momentos lembrando o cinema dos irmãos Dardenne e até mesmo de Cronemberg, o filme abraça o altruísmo, um sentimento necessário para que o caos social instaurado no planeta consiga encontrar um equilíbrio. A direção de André é pontual, delicada, sutil, e ainda assim, trazendo uma forte cena de violência.
Vampiro humanista procura suicida voluntário
"Vampire humaniste cherche suicidaire consentant", de Ariane Louis-Seize (2023)
Vencedor de 14 prêmios internacionais, entre eles, em Sitges e Veneza, "Vampiro humanista procura suicida voluntário" é o longa de estréia da cineasta canadense Ariane Louis-Seize, que também es creveu o roteiro. O filme é uma comédia adolescente de terror, que traz ainda drama e romance. Poderia descerev6e-lo como uma versão pop teen de "Fome de viver" híbrido com "Lost boys". A protagonista é Sasha, uma jovem vampira com um sério problema: ela é humanista e sempre preza pela vida das pessoas. Desde criança, seus pais fazem de tudo para que ela mate alguém e beba o sangue, mas ela nunca conseguiu. Já adolescente, seus pais tomam um ultimato: cortam a sua alimentação e querem que ela entre em um processo de fome gerada por desejo de sangue humano. Até que ela conhece o jovem Paul, um estudante que sofre bullying na escola e que deseja se suicidar. Juntos, passam uma noite onde Paul se deixaria matar por Sasha, e assim, finalmente, ela ter o seu batismo de vampira.
O filme é muito criativo, com um look totalmente anos 90, quase que um filme de Tim Burton, se investisse mais na direção de arte e na bizarrice. Tem um tom de debioche e ironia de "O que fazemos na ssombras", de Taika Waikiti, mas investe menos na comédia, relegada ao n;ucleo de seus pais.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2023
Nunca fomos modernos
"Usvit", de Matej Chlupacek (2023)
Ótimo drama LHBTQIAP+ tcheco, "Nunca fomos modernos" traz a urgentíssima pauta sobre gêneros para o ano de 1937, pré 2a guerra mundial, em uma trama ousada e bastante controversa para um filme de época. Com a aparente aura de drama clássico, "Nunca fomos modernos" apresenta um tema que remete à intersexualidade, outrora chamada de hermafroditismo. Prêmio de melhor ator para o ator Richard Longton, para o complexo papel do personagem intersxual Sasa, premiado em Thelassonik.
Ambientado em 1937, na antiga Tchecoslovakia, uma metrópole que deseja crescer e se tornar moderna, o filme apresenta Helena (Eliska Krenková), a esposa dedicada do diretor de uma fábrica de tecidos sintéticos e que está com forte crescimento em demanda de produção. Helena trabalha como enfermeira na fábrica e está grávida. Helena e seu marido Alois estão em uma fase de extrema felicidade. Um dia, no entanto, funcionários da empresa encontram enterrado um corpo de um bebê, que apresenta os 2 sexos. Alarmados, os funcionários e Alois escondem o fato de todos, temendo que a repercussão atrapalhe a imagem da empresa. Ao cuidar d eum dios funcionários na enfermaria, Sasa, Helena percebe que ele é intersexual e que foi quem gerou o feto enterrado. Alois proíbe que Helena se envolva na história, e logo ela percebe que vive em uma bolha, cercada por homens poderosos, conservadores, homofóbicos e machistas.
O filme vale muito ser visto, tanto pelo ótimo roteiro, quanto pela produção, com requintada fotografia e ficha técnica. O elenco, principalmente Eliska Krenková no papel de Helena e Richard Langton, como Sasa, estão comoventes em seus complexos personagens.
Saltburn
"Saltburn", de Emerald Fennell (2023)
A cena final de 'Saltburn" já faz valer o filme inteiro: em plano-sequência, o ator Barry Keoghan, totalmente nú, dança em plano-sequência a música "Murder on the Dancefloor" de Sophie Ellis- Bextor. É uma cena ousada, e Keoghan mostra total disponibilidade, uma cena que pouquíssimos atores certamente teriam coragem de fazer. É sexy, um presente para qualquer espectador voyeur e amante de cenas homoeróticas.
O filme já havia criado um burburinho na internet por conta da divulgação de uma cena onde o personagem de KEoghan engolia o sêmen do personagem de Jacob elordi em uma banheira. Mas além dessa cena, o filme reserva mais outras 3 cenas igualmente polêmicas e fetichistas. Mas "Saltburn" vai além do seu forte erotimo: ele tem uma trama que remete aos clássicos "Teorema", de Pasolini, e "O talentoso Mr Ripley". Com uma performance excelente, Keoghan, que foi indicado ao Oscar de coadjuvante em 2022 por "Os Banshees de Ineshirin" mostra ser dos atores mais versáteis e talentosos da nova safra. A diretora de "Bela vingança" e 'Killing eve", a cineasta e roteirista Emerald Fennell novamente volta com uma trama de humor ácido, assassinatos, obesessão e vingança. Produzido por Margot Robbie, o filme traz keoghan no papel de Oliver, estudante bolsista de Oxford. Obcecado pela beleza de um dos alunos, o milionário feliox (Jacob Elordi), Oliver acaba ajudando Felix e ambos se tornanm amigos. Ao narrar que é órfão de pai, Oliver ganha a simpatia de Felix, que o convida para passar um tempo em sua mansão, Saltburn, junto de sua família: a mãe de Felix, Elspeth (Rosamund Pike), sua irmã Venetia (Alison Oliver), o primo Farleigh (Archie Madekwe. Oliver acaba seduzindo a todos na mansão e adquire uma outra personalidade.
eu tava achando o fiulme bastante chato, mas a cena final de fato me conquistou e fiquei repensando o filme todo. Bom, mas promete mais do que realmente é.
O meu corpo
"Il mio corpo", de Michele Penetta (2022)
Documentário italiano escrito e dirigido por Michele Penneta e que participou de importantes festivais. O filme foi elogiado por críticos pela sua narrativa que mescla com a narrativa neo realista, acompanhando a rotina de dois adolescentes desfavorecidos da Sicília.
Oscar e Stanley não se conhecem, e cada um está em um lado de Socília. Oscar, branco, trabalha com seu pai, catando sucatas no lixão. Ele tem um relacionamento abusivo com o pai, que tem uma nova namorada. Oscar alterna momentos de trabalho, pedaladas de bicicleta pelas paisagens áridas e conviv6encia com seu irmão mais velho. Stanley é um imigrante nogeriano que aguarda uma decisão oficial sobre um visto que lhe permitiria permanecer no país. O padre local encontrou para ele algum trabalho temporário, incluindo pastorear ovelhas. Ele divide o quarto do alojamento com o amigo Blessed. Eles vão para festas, dançam ritmo africano. O filme faz um paralelo sobre uma geração sem perspectivas de futuro, desalentadas, e suas reflexões sobre a vida atual. Emoldurada pela bela footgrafia e paisagens d aregião, mostrando tanto o sol escaldante, onde trabalham, e um paralelo religioso: Stanley na igreja, Oscar encontrando uma estátua da Virgem Maria entre os escombros, com uma bela homenagem ao prólogo de "La dolce vita", de Fellini, com a estátua sobrevoando o céu.
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