quinta-feira, 20 de junho de 2019
As fábulas negras
"As fábulas negras", de Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf, Joel Caetano e José Mojica Marins (2015)
Antologia de Terror, baseada em lendas do folclore brasileiro. O Cineasta capixaba Rodrigo Aragão, realizador de "Mata negra", coordenou esse filme e convocou mais 3 diretores, entre eles, Zé do Caixão, para darem sua visão de lendas como Saci, Lobisomem e Iara.
Para costurar as 5 histórias, temos 4 meninos fantasiados de super heróís, que ficam narrando histórias de terror para um deles, que é totalmente descrente da veracidade das lendas.
Rodrigo Aragão dirige o primeiro e o último episódios:
"O monstro do esgoto"e "A lenda da Iara". No primeiro, um prefeito corrupto é morto pelo monstro do esgoto, que atava todos aqueles que são favoráveis à burocracia e a corrupção; em "A lenda da Iara", uma mulher se une ao demônio para matar o marido traidor e a amante dele.
Zé do Caixão dirige "O Saci": um casal é avisado por um Pai de Santo para não atravessar a mata e zoar o Saci. Desobedecendo a ordem do homem, o casal sofre as consequências.
"Pampa feroz", dirigido por Petter Baiestorf, conta a história de um Coronel que quer matar um lobisomem que ameaça suas terras.
"A loira do banheiro". de Joel Caetano, conta a famosa lenda urbana da loira que foi morta em um banheiro de um colégio e que agora se vinga das pessoas.
O episódio da "Loira do banheiro" é disparado o melhor de todos, não que isso seja um grande mérito. O filme como um todo só funciona para o espectador se ele souber de antemão que o filme é trash, uma homenagem ao Cinema de terror B e sem dinheiro, como Zé do Caixão fazia em seus filmes. Aqui, o que vale é o quanto pior , melhor: Atores ruins e exagerados, maquiagem tosca, efeitos de quinta, enfim, para quem estiver nessa vibe, vai se divertir bastante, assim como eu. É o famoso terror baixo orçamento tupiniquim, que visto com amigos se torna uma grande diversão.
Os episódios são irregulares, mas o mais divertido em termos de trash é "O Monstro do esgoto". Esse merece um troféu pela insanidade que ele é como uma obra de resistência, de querer fazer um cinema a qualquer custo.
O Círculo
"Der kreis", de Stefan Haupt (2014)
Comovente docudrama LGBTQ+ sueco, indicado pela Suiça uma vaga para o Oscar de filme estrangeiro em 2016.
Baseado em uma história real, o filme narra a história da Revista The Circle", voltada para o público gay masculino. Lançada em 1934 na Suíça, ela durou até dezembro de 1967. Durante a sua existência, ela publicou matérias jornalísticas , eventos e fotos com homens semi-nus e tinha milhares de assinantes pela Europa, a maioria, enrustidos. Na Suíça, o homossexualismo era permitido, mas assim que os primeiros crimes contra homossexuais surgiram, eovocados por garotos de programa que vinham de outros países para chantagear gays na Suíça, a polícia resolveu intervir e ameaças contra os gays começaram a acontecer. A derrocada da Revista aconteceu porquê Holanda e Dinamarca começaram a publicar revistas com fotos explícitas de nus masculinos e aí, as assinaturas foram desaparecendo.
O filme também conta a história de amor entre Ernst e Robi. O primeiro era um professor de literatura enrustido, que trabalhou clandestinamente para a Revista como colaborador. Lá, ele conheceu a transformista Robi. O Casal foi o primeiro a se casar na Suiça em 2003, aonde vivem até hoje.
O filme alterna cenas ficcionadas que vão dos anos 50 a 70, com entrevistas com o casal real e sobreviventes da Revista. Um filme importante historicamente, com ótima reconstituição de época e bons atores.
Barragem
"Demnig", de Paul Tunge (2015)
Segundo filme dirigido pelo Cineasta norueguês Paul Tunge, que também escreveu o roteiro, "Barragem" é um drama LGBTQ+ intimista e com forte influência do cinema documental.
Dois rapazes, j e Jo, se conhecem em um bar e passam uma noite juntos. No dia seguinte, J convida Jo para fazerem montanhismo. Jo aceita eles passam um dia inteiro solitários nas montanhas. Aos poucos, eles vão conhecendo a verdadeira faceta de cada um: J tem uma índole violenta, e Jo, é carente e desesperado em busca de um amor.
Um filme totalmente carregado nas costas pelos 2 jovens atores, "Barragem" é um titulo metafórico sobre a "muralha"que se constrói sobre os dois: no inicio se divertem, riem, brincam, lutam, mas depois, quando os segredos mais íntimos de ambos afloram, fica uma terrível sensação de isolamento.
O filme tem um ritmo muito arrastado e pode atrair cinéfilos mais afeitos a um cinema independente com olhar mais autoral e quase experimental. Bela fotografia e paisagens. O filme vale mesmo pela performance de Joachim Kvamme e Jørgen Hausberg Nilsen, nos papéís de Jo e J, respectivamente.
quarta-feira, 19 de junho de 2019
Inocência roubada
"Les chatouilles", de Andréa Bescond e Eric Métayer (2018)
Casados na vida real, Andréa Bescond e Eric Métayer se conheceram em 2012. Eric tomou conhecimento da história traumática de Andréa Bescond, e juntos, escreveram uma peça teatral, intitulada "As cócegas", e agora transformada em premiado filme. Concorrendo em Cannes 2019 na Mostra "Un certain regard", o filme ganhou diversos prêmios internacionais, entre eles, o de Melhor roteiro e de melhor atriz coadjuvante para Karin Viard, no papel da mãe de Odette, pseudônimo de André ano filme.
Odette ( Andréa Bescond) é uma dançarina contemporânea que resolve ir até uma psicóloga e contar finalmente o seu grande trauma de infância: ela foi estuprada aos 10 anos de idade pelo melhor amigo de seus pais, Gilbert (Pierre Deladonchamps, ótimo em um papel muito complexo e difícil). Odette passou a vida toda escondendo o fato dos pais, mas com a ajuda da psicóloga, ela toma a iniciativa.
O filme utiliza um recurso utilizado em filmes como 'Eu minha mãe e os meninos"e "Rocketman": fazer do filme uma sessão de terapia, falando das relações familiares e botando para fora todos os fantasmas, de forma lúdica. O filme pode ser visto como uma grande sessão de terapia, e o final é uma grande catarse. Ecos de Bergman, em um filme que mistura drama, musical e alguns poucos elementos de humor para suavizar uma história tão barra pesada.
Algumas cenas são bastante difíceis de se assistir, e a bravura de Andréa em expôr seu drama merece todos os aplausos.
Cyrille Mairesse, no papel de Odette criança, é um talento e muito expressiva, além de dar vida a uma personagem bastante polêmica.
Duas vezes
"Due volte", de Domenico Onorato (2018)
Intenso curta LGBTQ+ italiano, "Duas vezes" tem como tema a homofobia e o bullying.
Antonio e Diego são melhores amigos. De classe média alta, os dois passam os dias curtindo o que a vida tem de melhor: festa, bebidas, garotas, praias. Diego é enrustido e platonicamene, apaixonado por Antonio. Antonio percebe, e para instigar a masculinidade de Diego, o obriga a estuprar uma garota que conheceram em uma festa.
Com ótimas interpretações dos 3 atores, o filme é quase todo narrado em Off por Diego, em construção narrativa que torna o drama um grande suspense. Muito boa edição, fotografia e trilha sonoras.
terça-feira, 18 de junho de 2019
Thirsty
"Thirsty", de Margo Pelletier (2016)
Musical cinebiográfico da Drag Queen Thisrty Burlington, nascido Scott Townsend em PrinceTown, Massachussets. O filme acompanha Scott desde que ele tinha 11 anos de idade em 1970, até os dias de hoje. Nos anos 90, ele personificou a cantora Cher em quase todos os seus números musicais apresentados em cabarets e shows.
A cineasta e roteirista Marg Pelletier faleceu de câncer logo após finalizado o longa. Famosa por realizar filmes e documentários que têm em comum o tema do transgênero, Margo foi uma lésbica militante. O filme faz um apanhado musical de várias décadas, e de certa forma, lembra bastante Hedwig", de John Cameron Mitchell ( o ator Scott Towsend interpreta a si mesmo já na fase adulta). Scott sofreu durante sua infância e adolescência com o bulllying de estudantes e de vizinhos , que sempre o consideraram afeminado. Sua mãe era alcóolatra. Foi seu tio quem motivou Scott a cantar em pequenos shows. O filme em si é interessante, bem dirigido, mas longo e sem ritmo. A história de Scott é narrada em uma edição que vai e volta no tempo, tornando a narrativa confusa. Mas a mensagem que o filme passa acaba sendo o grande motivo para se assistir ao filme. Produção de médio orçamento, e com desfecho reunindo todo o elenco em um grande número musical.
O filme foi exibido em diversos Festivais e ganhou alguns prêmios.
A lenda do Golem
"The Golem", de Doron Paz e Yoav Paz (2018)
Raro filme de terror israelense, "A lenda do Golem" é um ótimo exemplo de que filmes de gênero podem ser muito bons. Com um drama bastante acentuado, o filme conta a história de Hannah
(Hani Furstenberg, sósia de Jessica Chainstain) , uma mulher que vive em uma Vila Lituana na Europa do Século XVII. O mundo está sendo devastado pela Peste Negra. Hannah vive com seu marido em uma comunidade judaica. O casal perdeu recentemente o marido. Invasores pagãos surgem na vila exigindo que salvem a filha do chefe deles, que está morrendo da peste negra. O Chefe pagão afirma que os judeus são feiticeiros, pois não contraíram a doença. A vila fica ameaçada. Hannah descobre que ela pode invocar o Golem, uma figura mítica feita de barro, para proteger a vila e também para substituir o filho morto. Mas a criança nasce com desejo de sangue, e foge do controle de Hannah.
Violento, o filme apresenta mortes brutais, principalmente cabeças explodindo. É um filme que se aproxima dos recentes "Brightburn"e "Cemitério maldito", apresentando crianças sanguinárias e assassinas. 'A lenda do Golem" além de ser filme de terror, também é um ótimo drama, apresentando a cultura machista e misógina dos judeus, que não oferecem espaço para a mulher na religião e no comando da sociedade.
O Adeus
"The gooodbye", de George Velez Junior (2018)
Um jovem descobre que tem 6 meses de vida. Ele se desespera, e evita refazer as pazes com seu ex-namorado que o traiu, e com seu pai, que abandonou a família quando o filho anunciou que era gay.
Dramas sobre pessoas comuns que descobrem ter doença terminal e pouco tempo de vida são bastante comuns. Mais comum ainda, é quando essa pessoa é jovem. Talvez o melhor filme sobre esse tema seja "O tempo que resta", de François Ozon. "O Adeus" é um drama inglês, e por conta disso, merece crédito pelo seu bom elenco, e pelo carinho com que o Diretor e roteirista George Velez Junior lida com esse tema sempre tão delicado, evitando excessos de melodramas.
segunda-feira, 17 de junho de 2019
Os Príncipes
"Os Príncipes", de Luiz Rosemberg Filho (2018)
No dia 19 de maio de 2019, faleceu o Cineasta Luiz Rosemberg Filho. Ativo na produção de filmes autorais e provocativos desde o final dos anos 60, Rosemberg nunca escondeu a sua influência ciinematográfica das filmografias de Godard e de Glauber Rocha. De Godard, ele buscou inspiração nas colagens, na montagem de imagem e som esquizofrênicas e nos protagonistas anti-heróicos. De Glauber, trouxe a narrativa teatral, épica e a câmera livre.
Em "Os Príncipes", Rosemberg volta a filmar com alguns de seus atores recorrentes: Ana Abbot e Patricia Niedemeier, que trabalharam com ele em "Dois casamentos" e Guerra do Paraguay", e Alexandre Dacosta, também de "Guerra do Paraguay". Esses 3 filmes, aliás, foram produzidos por Cavi Borges, incansável batalhador do Cinema autoral brasileiro. "Os Príncipes" também teve produção da Cafeína Filmes, de Ph Souza, Produtor de Belo Horizonte.
Competindo no Festival Cine PE 2018, "Os Príncipes" conseguiu o grande feito de ganhar 6 importantes Prêmios:
Melhor Ator para Igor Cotrim; Melhor Atriz para Patricia Niedemeier, Melhor Ator Coadjuvante para Tonico Pereira, Melhor Fotografia, Edição de Som e Trilha Sonora.
É difícil não enxergar algumas referências cinéfilas: podemos encontrar uma homenagem explícita à "A Laranja mecânica", quando os protagonistas, em busca de uma noite de sexo e violência, invadem uma casa e batem nos moradores, cantando 'Singing in the rain". Tem também ecos de "O bandido da Luz Vermelha", com o recorrente locutor de uma rádio ligada no carro narrando noticiários políticos.
O filme acompanha a trajetória de 2 "Príncipes" urbanos no Rio de Janeiro: pilotando um carro anos 70, eles vagueiam pelas ruas da cidade, acompanhados de 2 prostitutas. Os 4 seguem uma epopéia de muito sexo, drogas e destilando uma metralhadora giratória de impropérios verbais que atiram para todos os lados. é uma crítica feroz à sociedade, ao governo, à corrupção, ao Cinema comercial e, impossível de não reparar, ao machismo. Para o público feminino, o filme deve incomodar bastante: as personagens femininas são vitimas da misoginia dos personagens masculinos, que comandam a narrativa.
O filme reserva uma cena divertida, quando quer criticar o Cinema feito por Hollywood: o crítico de cinema Rodrigo Fonseca interpreta a ele mesmo, entrevistando uma Diva que representa Hollywood. É uma cena digna da melhor chanchada brasileira, ao som de samba e Nino Rota de "8 1/2"de Fellini, e muita avacalhação narrativa do cinema marginal. O elenco como um todo atua de forma visceral, sem pudores e sem amarras. Um filme brutal, sujo, violento, que choca e que faz refletir sobre o mundo que estamos vivendo.
O mais jovem
"The younger", de Etsen Chen e Yen-Hung Chen (2014)
Dirigido, escrito e protagonizado por Etsen Chen, que co-dirigiu com Yen Hung Chen, "O mais jovem" é um premiado drama LGBTQ+ de Taiwan. O filme narra a rotina barra pesada do jovem Chen Hao-Zhi: seus pais o abandonaram sozinho com sua avó, que sofre de Alzheimer. Sem ter dinheiro para pagar os medicamentos caros de tratamento da avó, Chen acaba indo trabalhar em uma casa de massagem gay. O que de início era só massagem, acaba aos poucos sendo sexo, para que possa ganhar uma diária maior e poder arcar com os custos domiciliares. Mas Chen se apaixona por um cliente casado, que lhe promete presentes e carinho.
Intenso no drama e com uma cena especialmente sensual e provocativa, quando Chen faz sexo pela primeira vez com o cliente casado, "O mais jovem" apresenta a dura realidade da juventude que teve que abdicar de seus estudos por motivos vários, e que precisa enfrentar a realidade do mercado do sexo. Comovente e com ótimas performances dos atores Etsen Chen, no papel principal, e de Chun-Mei Hou, no papel da avó.
domingo, 16 de junho de 2019
Rastros de um sequestro
"Gi-eok-ui bam", de Hang-jun Zhang (2017)
Excelente suspense sul-coreano, com uma trama absolutamente diabólica. O roteiro, do próprio Hang-jun Zhang, possui pelo menos uns 10 Plot twists, daqueles de fazer virar na cadeira. Claro, muitas dessas viradas de roteiro sôam bastante forçadas, para fazer a história avançar, fora algumas coincidências da trama. Mas nada que tire o grande prazer de acompanhar tenso do início ao fim uma história que o espectador pode até tentar adivinhar logo de cara, mas que vai ser constantemente surpreendido com o típico "Achei que seria isso."
No ano de 1997, uma família acaba de se mudar para uma casa nova: os pais e os irmãos, Jin-seok, o mais novo ( excelente trabalho de Ha-Neul Kang) e Yoo-seok (o igualmente ótimo Mu-Yeol Kim). Jin Seok venera o seu irmãos mais velho, que sempre foi bastante estudioso e dedicado. Um ano atrás, a família sofreu um acidente de carro e Yoo Seok ficou com defeito na perna. Uma noite, ao retornarem de um passeio, o irmão mais velho é sequestrado, para o desespero de Jin Seok. 19 dias depois, o irmão retorna, mas Yoo Seok estranha a postura do irmão e acredita que ele é um impostor.
Um filme obrigatório para quem curte suspense com trama rocambolesco e que propõe um monte de charada. Boas cenas de ação e trilha sonora que remete à trilha de Bernard Hermann, compositor de Hitchcock.
I Am Mother
"I Am Mother", de Grant Sputore (2019)
Exibido em Sundance 2019, "I Am Mother" é um excelente filme de ficção cientifica, um surpreendente filme de estréia do australiano Grant Sputore. Co-escrito pelo próprio, o filme é um amálgama de muitos clássicos de terror e ficção científica: 'Alien", "O iluminado", "O exterminador do futuro", "2001" , "Cloverfield 10" são alguns exemplos, com cenas muito semelhantes que claramente são uma homenagem dos criadores.
Com apenas 3 atrizes em cena, sendo que uma apenas com a voz ( Rose Byrne) , que dá vida à "Mother", uma andróide emotiva e carinhosa mas também perigosa, uma máquina assassina. As outras atrizes são Hillary Swank, no papel da "Mulher", e Clara Rugaard, no papel da "Filha".
No futuro, uma adolescente é criada pela "Mother", uma andróide, que faz o papel de sua mãe, educando-a. A Filha é a única humana existente no universo: a Mãe diz que a humanidade se extinguiu por conta de um vírus e portanto, a menina não pode sair do bunker sob o risco da também ser contaminada. Um dia, uma Mulher surge ferida no bunker, e a Filha se surpreende: a Mulher diz que existem sobreviventes no exterior e que precisam de ajuda. O que está acontecendo de verdade: Teria a mãe mentido sobre o mundo externo?
Com um roteiro inteligente e instigante, ótima Direção, atrizes excelentes e efeitos especiais de arrepiar, "I Am Mother" surpreende e cria uma grande expectativa sobre o que de fato está acontecendo. O desfecho é complexo, há que se raciocinar um pouco sobre tudo o que foi visto. É um filme melancólico, claustrofóbico, intimista. Uma grande pedida para quem busca filmes provocadores.
sábado, 15 de junho de 2019
Ray e Liz
"Ray and Liz", de Richard Billingham (2018)
Em 1997, uma exposição fotográfica chamada "Sensation" exposta na The Royal Academy of Art em Londres chamou a atenção do mundo: fotos de um casal decadente, o homem alcóolatra e desdentado e uma mulher obesa e toda tatuada, em momentos de pura degradação humana. As fotos foram tiradas em um apartamento de classe média baixa, em um prédio de periferia durante o Governo Tatcher. Descobriu-se depois que o casal eram os pais do fotógrafo, Richard Billingham. No ano anterior, ele já havia lançado um livro de fotos chamado "Ray's a laugh", onde expunha fotos do cotidiano de seus pais. Essa foi a forma que Billingham conseguiu exorcizar a sua difícil relação com seus pais, e que agora ele próprio complementa com o seu filme de estréia. Intitulado "Ray e Liz", nome de seus pais, acompanhamos 3 fases distintas na vida do casal: anos 80, anos 90 e anos 200, já no fim da vida. Richard, nos anos 80, então com 10 anos, morava com seu irmão pequeno Jason em péssimas condições de higiene. Seus pais eram negiigentes e passavam o dia todo bebendo. Quando Jason é esquecido do lado de fora de casa, quase morrendo de frio, a assistência social resolveu tirá-lo da guarda dos pais e entregá-lo a pais adotivos. Richard permaneceu morando com os pais, e sua vida foi eternamente marcada por uma vida de depressão e pobreza.
Dramaturgicamente o roteiro parece ter sido extraído de filmes de Ken Loach e Mike Leigh, mas esteticamente, se diferencia bastante. A rotina da classe desempregada da era Tatcher, às voltas com fome e alcoolismo, é apresentada com extremo rigor narrativo. Planos fixos ou com movimentos lentos de travellings, com uma estilização na fotografia que não vemos nos filmes de Ken Loach, mas afeito ao olhar documental. Os atores estão todos excelentes. É um filme barra pesada, difícil de ser visto não pelo ritmo extremamente lento da narrativa, mas pelas cenas fortes e escatológicas. Uma pedrada.
O filme ganho quase 20 prêmios internacionais em Importantes Festivais, incluindo Locarno e BFI.
sexta-feira, 14 de junho de 2019
Amarrados para o perigo
"Strapped for danger", de Richard Griffin (2017)
Comédia trash LGBTQ+, repleta de erotismo e nudez explícita. Richard Griffin, diretor, editor e produtor do filme, já ganhou dezenas de prêmios em sua filmografia, baseada em filmes B de horror e comédias Lgbtq+, tudo dentro do universo trash. Em "Amarrados para o perigo", ele conta a história de 3 amigos: o casal gay Joey e Matt e o hetero Chuck. Os 3 trabalham como Streapers de um club gay. Cansados da dura rotina, eles resolvem assaltar a clientela e roubar todo o dinheiro da casa. Durante a fuga, eles são encurralados por uma policial homofóbica. Eles sequestram o parceiro da policial, que vira refém. O grupo foge até uma fraternidade universitária masculina. Lá, eles transam com todos os alunos, ao mesmo tempo que tentam descobrir uma forma de fugir da polícia.
Impossível não rir de tantas cenas verdadeiramente toscas do filme. Abusando da caricatura gay, mas voltadas para um público Lgbtq+, o filme usa e abusa de closes de genitálias, e sacaneia o feminismo, o machismo, as drag queens, os musicais e tudo o mais que envolve o universo gay. Tecnicamente amador, e com uma deliciosa trilha sonora que evoca os sintetizadores dos anos 80, o filme tem um elenco formado por péssimos atores, mas por isso mesmo, divertidos e totalmente dentro da proposta do filme.
Matar Jesus
"Matar a Jesus", de Laura Mora Ortega (2017)
Co-escrita e dirigida pela Cineasta colombiana Laura Mora Ortega, "Matar Jesus" ganhou mais de 18 prêmios importantes em renomados Festivais.
O filme é um relato da rotina de violência em Medellin, capital da Colômbia. Uma história como outra qualquer, que acontece a cada minuto em um País da América Latina. Paula ( a ótima Natasha Jaramillo) é uma jovem estudante de Artes. Seu pai é um professor de universidade pública de ciências sociais. Ao voltar para casa com seu pai, ele é assassinado na rua com um tiro. Paula consegue enxergar o assassino na garupa de uma moto. Desconsolada pela forma como a polícia atua no caso de seu pai, Paula resolve sair em busca de vingança. Uma noite, na balada com amigos, ela reconhece o assassino. Se aproximando dele, ela descobre o nome dele, Jesus. Aos poucos, ela vai invadindo a intimidade dele, e descobre que ele também é vítima de violência. O inevitável acontece: ela se afeiçoa a ele.
Bem dirigido e com uma câmera documental que vai atrás dos personagens. "Matar Jesus" tem um título dúbio que fala sobre a perda da inocência em todos os sentidos. Sem um desfecho conclusivo, o que poderá irritar muitos espectadores, o filme procura apresentar um flash de violência em uma grande Metrópole, ciente de que não existe solução a longo prazo, diante da total apatia d Governo.
quinta-feira, 13 de junho de 2019
Fora de série
"Booksmart", de Olivia Wilde (2019)
A atriz Olivia Wilde estréia na direção com essa comédia dramática premiada em San Francisco e Palm Spings. O filme tem um roteiro já visto diversas vezes em comédias americanas inconsequentes, como na franquia 'Se beber não case", "Finalmente 18", "Projeto X", Superbad" e tantos outros similares. A diferença, é que nesse filme produzido pelo ator Will Ferrel, o foco é no ponto de vista feminino. Dirigido, escrito e protagonizado por mulheres, "Fora de série" destaca a adolescência inconsequente e mais do que isso, fala sobre o tema do desapego e o fim da inocência.
Molly e Amy ( as ótimas Beanie Feldstein e Kaitlyn Dever) são cdf e dedicam seu tempo aos estudos. Ao descobrirem que outros colegas que elas consideravam vagabundos também passaram para importantes faculdades, elas decidem ir a uma festa para, pela primeira vez, aproveitarem a vida como elas nunca fizeram antes. Amy saiu do armário há pouco tempo, e Molly morre de ciúmes da amizade de Amy. Juntas, elas tentam descobrir o endereço da festa, mas até chagarem lá, passarão por muitos percalços em uma noite muito azarada e repleta de descobertas.
O que difere esse filme de todos os outros citados, é o tratamento dado a ele, com uma narrativa mais autoral e independente. Os diálogos são espertos e o filme ainda flerta com o universo Lgbtq+ e as diferenças, representadas através da gordofobia, bullying contra latinos e a melhor de todas as piadas, o desemprego: o reitor da escola trabalha de noite como motorista de Uber para aumentar sua renda.
Bem vindo de volta
"Bem vindo de volta", de Lucas Vasconcelos (2018)
Curta de estréia do roteirista e Cineasta Lucas Vasconcelos, "Bem vindo de volta" poderia também se chamar de "Crônica de uma morte anunciada", em um País como o Brasil onde a cada duas horas, uma mulher é morta, segundo pesquisas. A maioria dessas mortes é causada por ciúmes ou suspeitas de traição. Luiza
(Giulia Buscacio) e Felipe (Victor Thiré) formam um jovem casal de classe média alta. Alegres, apaixonados. Um dia, porém, Luiza resolve terminar o relacionamento. Inconformado, Felipe vai na rede social de Luiza e encontra evidências de que ela está saindo com alguém. Felipe pega a sua arma e resolve ir tomar satisfações.
Lucas busca referências estilísticas em clássicos do cinema de suspense psicológico, protagonizados por sociopatas, como "Psicopata americano" e "Seven". Com uma fotografia hperrealista e uma montagem frenética, o filme traz elementos de horror, para intensificar o desespero emocional dos protagonistas. Bom trabalho dos atores e um desfecho curioso, que justifica o título do filme.
Fado tropical
"Fado Tropical", de Cavi Borges (2019)
O que o Cineasta independente Cavi Borges e a cantora Madonna têm em comum? Em termos cinematográficos, pouco, mas musicalmente, tudo. Ambos buscaram recentemente inspiração musical em Portugal, através das variações globalizadas e estilísticas que vão do Fado, ao rap, ao samba, ao funk, à Batukada. Produzido pela Cavideo e pela JCaetano, "Fado Tropical" é o filme mais emotivo da premiada produtora carioca, falando diretamente ao coração e aos ouvidos.
Isabel (Patrícia Niedermeier) é uma cineasta independente brasileira, que se encontra em Lisboa com o seu produtor interpretado pelo também Cineasta Felipe Bond. Apresentando seu novo filme no Festin, Festival de Cinema independente Brasil Portugal, ela reencontra o seu irmão Antonio (Jorge Caetano). Há anos, ele de mudou com o pai para Lisboa, diante do desejo do pai de morrer no País aonde nasceu. Antonio é cantor, mas atualmente trabalha como produtor musical. Isabel sofreu com a partida do irmão, e por isso, a sua relação com ele ficou estremecida. Com a morte do pai, e o desejo de ter suas cinzas jogadas por ambos os filhos em vários pontos de Lisboa. Isabel e Antonio reaprendem a se reconectar, ao mesmo tempo que fantasmas de um passado tortuoso e controverso, que fala sobre um Amor incondicional e além das convenções entre os irmãos, parece querer retornar.
Terceiro e último filme da trilogia da Viagem, elaborado pela dupla Cavi Borges e Patrícia Niedermeier, enquanto rodavam países e estados brasileiros durante temporadas de Festivais e Workshops, foi iniciada em 2017 com "Salto no vazio" e depois em 2019 com 'Reviver". Os 2 primeiros filmes possuem uma narrativa mais experimental e poética, enquanto que "Fado tropical" fala sobre memória e sobre Saudade, a tal da palavra portuguesa que não encontra tradução em outras línguas. O roteiro, escrito a 4 mãos por Patrícia Niedermeier e Jorge Caetano, recorre ao elemento mais utilizado pelo gênero Road movie: antagonistas que precisam aprender a lidar com as diferenças e aprenderem a olhar para a frente. E essa trama é realizada com muita dignidade, com sentimentos aflorados que em momento algum, apostam no melodrama barato. É possível encontrar referências cinematográficas em 2 filmes de Walter Salles, acredito que até inconscientemente: "Terra estrangeira", clássico que fala sobre a falta de identidade entre ser brasileiro ou português, e "Diários de motocicleta", com a famosa cena final, com lindos portraits de pessoas anônimas, e aqui, representada por uma família portuguesa em um restaurante.
Belamente fotografado, e com uma ficha técnica musical de primeira qualidade, com trilha composta por Rodrigo Marçal e edição de som do craque Bernardo Uzeda, "Fado Tropical" é um filme necessário, um grito de resistência Cultural, realizado com garra e incentivos próprios, que deixa claro o seu amor ao Cinema através de uma cena filmada dentro da Cinemateca portuguesa, onde os 2 irmãos conversam: ao fundo, temos um livro de capa dura intitulado "O Cinema não morreu". Depender desses realizadores, jamais.
Dor e Glória
“Dolor y Gloria”, de Pedro Almodóvar (2019)
Premiado em Cannes 2019 com a Palma de Ouro de melhor ator para Antonio Banderas, "Dor e Glória"encerra a trilogia do Desejo, iniciada com "A lei do desejo" em 1987 e em seguida, por "Má educação", em 2004. Os 3 filmes são autobiográficos, se envolvem no ambiente do cinema e trazem um realizador de cinema em crise existencial e criativa, trazendo seu passado e seus fantasmas à tona. "Dor e Glória" é o "Amarcord" e "8 1/2"de Almodovar, um retrato comovente e cativante de um Cineasta apaixonado pela sua profissão. Aqui, Almodovar exorciza a figura de sua mãe, belamente interpretadas por Penelope Cruz e depois, por Julieta Serrano; fala de sua relação conturbada com Antonio Banderas, aqui representado por Leonardo Sbaraglia; a sua infância e descoberta dos desejos homossexuais, através da performance encantadora do menino Asier Flores, responsável por uma das cenas mais lindas do filme, que é ele desmaiando vendo um pintor totalmente nu; fala de suas doenças crônicas e de como elas o impediram por um tempo de continuar filmando, e o seu envolvimento com drogas. O que é real ou fictício no filme, cabe ao espectador tentar descobrir. Almodovar joga muitas pistas, muitas bastante corajosas, abrindo seu baú emocional e seu coração para todo o mundo. Os seus eternos colaboradores continuam firmes e fortes: o fotógrafo José Luis Alcaine, o compositor Alberto Iglesias. O filme reserva pouquíssimos momentos de humor, focando na angústia e na frustração de um Artista que parou de criar. Tem uma frase que o Cineasta de Antonio Banderas, Salvador, diz a um Ator, que resume bastante o cinema de Almodovar: "Eu não quero um Ator que faça chorar. Eu quero um Ator que contenha as suas lágrimas."
Particularmente, continuo preferindo "Tudo sobre minha mãe" como meu Almodovar preferido. Mas definitivamente, 'Dor e Glória"está entre seus melhores trabalhos.
Um homem fiel
“L'homme fidèle”, de Louis Garrel (2018)
Ninguém tem dúvidas de que Louis Garrel é dos melhores atores franceses de sua geração, filho de um grande Cineasta, Philipe Garrel, de onde veio sua paixão Cinefila. Agora em seu segundo longa, depois do divertido “Dois amigos”, Garrel novamente volta ao tema do triângulo amoroso. Dessa vez, ele convidou para escrever o roteiro Jean Claude Carriere, um mito do Cinema de Bunuel a Godard, passando por todos os importantes cineastas europeus dos anos 60 aos dias de hoje. Garrel trouxe um olhar de Nouvelle Vague ao filme, com um tratamento estético e temático que muito se assemelha a vários clássicos dos anos 60. Rodado em 35 mim, Garrel também interpreta o protagonista Abel. Ele mora com Marianne ( Laetitia Costa, radiante), que mais tarde, ele descobre ter traído ele com Paul, seu melhor amigo é pior, grávida do amigo. 9 anos de passam e Paul morreu. Viúva, Marianne se reaproxima de Abel, que sempre a amou. Só que agora existem 2 obstáculos: o ciumento filho de Marianne, Joseph, que diz a Abel que seu pai foi assasinado por envenenamento pela mãe, e Eve (Lily Depp, filha de Jonnhy Depp com Vanessa Paradis”, irmã de Paul e que sempre foi apaixonada por Abel.
Nessa confusão de paixões e traições, Garrel evoca o humor sofisticado de Woody Allen, em cenas bem orquestradas com ótimas performances de todo o elenco. Enxuto, com 75 minutos, é um filme charmoso, com linda trilha sonora e fotografia.
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