sábado, 10 de novembro de 2018
A culpa
"Den skyldige", de Gustav Möller (2018)
Suspense dinamarquês, vencedor de mais de 14 prêmios Internacionais, incluindo o Prêmio do público em Sundance 2018.
Ambientado em apenas uma locação, no caso, a sala da polícia que faz atendimento de chamadas de emergência, o filme é um espetáculo de edição e construção de tensão, muito construído com bastante competência pelo Diretor e roteirista Gustav Möller.
Asger é um policial que trabalha na ronda noturna de uma delegacia de atendimento de emergência. Entre um e outro pedido de ajuda, ele acaba recebendo uma chamada desesperada de uma mulher, Iben. Ela diz estar sendo sequestrada pelo marido. A ligação cai. Asger tenta desesperadamente localizar o paradeiro da mulher, antes que alguma tragédia aconteça com ela. Aos poucos, Asger vai descobrindo elementos que o farão se desesperar cada vez mais.
Era de esperar que o filme tivesse um Plot twist, e ele vem já quase no final, provocando uma grande surpresa no espectador. O filme é uma aula de direção, de economia de orçamento e de roteiro, provando que um filme pode ser muito bom e prender a atenção do espectador com apenas uma locação.
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Simonal
"Simonal", de Leonardo Domingues (2018)
Cinebiografia de Wilson Simonal, cantor popular que faleceu no ano 2000, o filme aposta em pirotecnias de câmera, claramente inspiradas em "Boogie nights" e "Birdman" e seus famosos planos-sequências. Passados esses momentos de exibicionismo técnico, o que o espectador encontra é um drama musical que aposta as suas fichas no romance conturbado de Simonal (Fabricio Boliveira) com Teresa (Isis Valverde) - SImonal , segundo o filme, era famoso por conquistar loiras. O filme vai dos anos 60 até 1975, ano em que SImonal fez um Show para tentar recuperar a sua carreira artística, abalada por um crime: SImonal descobriu que o seu contador (Bruce Gonlewsky) estava roubado dinheiro, e por isso, pediu para que um conhecido seu, um agente do Dops (Caco Ciocler) desse um susto no contador. O contador levou uma surra e acabou publicando na mídia que SImonal teria usado agentes do Dops para sequestrá-lo e dado porrada. Essa história destruiu a carreira de SImonal, que até então, era o artista negro mais bem sucedido do Brasil.
O filme, que tem na produção os filhos do cantor, Max de Castro e SImoninha, toma partido de que SImonal foi vítima de notícias caluniosas e por ser negro, não teve chance de se recuperar. Em um momento emblemático, Simonal conversa com Elis Regina e pergunta a ela como que ela, passando pela mesma situação que a sua, foi perdoada, e ele não.
O filme tem um elenco que defende com garra os seus personagens ( Fabricio Boliveira está bem, uma pena ter sido dublado, e Isis Valverde tem carisma, mas fiquei atordoado com a peruca que ela usava).
"SImonal" faz parte de uma linhagem de filmes caros, com excelente qualidade técnica , muita figuração, figurinos, etc ( vide "Chacrinha", "Pixinguinha", "Chatô"). Para quem é fã do cantor, o filme apresenta um arsenal de canções clássicas. Em Gramado, onde concorreu em 2018, o filme ganhou 3 prêmios técnicos: Fotografia, direção de arte e som.
Vox Lux
"Vox Lux", de Brady Corbet (2018)
Concorrendo no Festival de Veneza em 2018, "Vox Lux" é uma espécie de "Nasce uma estrela" em versão pesadelo: violento, sombrio, gótico. Um filme que tem como tema o Mal existente no ser humano, por mais que ele não transpareça, em algum momento, vem à tona. Afinal, qual o preço pago pela Fama?
Brady Corbet é Ator, e talvez seu papel mais famoso tenha sido na refilmagem de "Funny games", cult de Michael Haneke. Sua estréia no Cinema se deu com o inquietante filme "A infância de um líder", ousada fantasia que faz uma analogia da origem do mal, através de uma criança que poderia ser uma versão mirim de Hitler. Para quem assistiu a esse filme, irá encontrar muita semelhança com "Vox Luz", tanto no cuidado com o visual, quanto na fotografia, enquadramentos e uma narrativa autoral.
O filme começa em 1999, na virada do milênio. Em uma sala de aula, acontece uma grande tragédia. Celeste (Raffey Cassidy), aos 14 anos, sobrevivente, compõe uma música junto de sua irmã, Ellie, para as vítimas e logo ela se torna uma grande Estrela, quando canta ao vivo para a imprensa. Os anos se passam, e aos 31 anos, já na pele de Nathalie Portman, Celeste se tornou uma grande Diva Pop, e como tal, cheia de estrelismos e ataques ao seu staff. O filme acompanha a sua rotina com fãs, seu agente (Jude Law), sua filha e sua irmã, às vésperas de um grande show.
Nathalie Portman está exuberante e impressiona com a sua performance matadora. Toda a sequência final, no show, é de cair o queixo. A direção de Brady Corbet é bastante criativa, começando pelos créditos iniciais. Abusando de uma linguagem bastante estilizada, Corbet mescla drama, thrilller, musical e grandes performances de um elenco intenso. As músicas foram compostas pela cantora Sia, e a coreografia, pelo marido de Nathalie Portman.
Assunto de família
"Manbiki kazoku", de Hirokazu Koreeda (2018)
"Era uma vez, uma família muito feliz...". "Assunto de família" poderia ter começado com essa cartela anunciando os personagens dessa carismática família que vive da prática de roubos. Ou também, poderia ter sido anunciada como a continuação da obra-prima de Koreeda, "Ninguém pode saber", que rendeu ao ator mirim Yûya Yagira a Palma de Ouro de Melhor Ator em 2004. O seu personagem Akira, poderia perfeitamente dar continuidade ao personagem Shota, que protagoniza "Assunto de família". É através do olhar do menino, que acompanhamos cada um dos integrantes da inusitada família: Seu pai trabalha em uma construção civil, sua mãe em uma lavanderia, sua irmã mais velha é uma escort girl que se apresenta em webcams, a avó vive em casa reclamando de tudo e de repente, seu pai traz para casa uma nova integrante: uma menina pequena de 5 anos de idade, maltratada pelos pais. Aos poucos, o pai vai ensinando à pequena a prática do roubo. o que vai provocando ciúmes de Shota.
Koreeda é um grande Mestra que tem em sua filmografia, grandes filmes retratando a rotina de famílias desestruturadas. "Assunto de família" tem momentos que lembram Truffaut, Ettore Scola, pelo carinho com que trata as figuras marginalizadas. É muito complexo, para o espectador, tomar qualquer juízo de valor sobre a história e atos desses personagens. Contar algo aqui configuraria spoiler, uma vez que no ato final, todas as máscaras vão sendo derrubadas e esclarecidas.
O filme é repleto de cenas comoventes e antológicas: a sequência da praia, culminando com um momento belíssimo da avó; a cena da fuga do supermercado; a cena do menino no ônibus, no final; a trepada do casal dentro de casa. Koreeda é um excelente Diretor de atores, e contrói suas cenas em planos longos e sem muita cobertura.
O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes de Melhor filme, em 2018, merecidamente. Que atores extraordinários!
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
O mau exemplo de Cameron Post
"The miseducation of Cameron Post", de Desiree Akhavan (2018)
Adaptado do livro autobiográfico de Emily M. Danforth pela própria cineasta, o filme narra a história de Cameron Post, ocorrida em 1993. Cameron ( a ótima Chloë Grace Moretz) é órfã de pais, e mora com sua tia cristã. Cameron frequenta as atividades religiosas que sua tia lhe impõe. Na noite de formatura, Cameron vai com sua amiga Coley no banco de trás de um carro elas acabam se beijando, Ao serem flagradas pelo namorado de Cameron, elas se desconcertam e entram em crise. A Tia de Cameron a interna à força em um Retiro de conversão homossexual, lugar aonde os adolescentes cristão homossexuais permanecem em esquema de internato sob forte regime dos irmãos Lydia e o reverendo Rick, "convertido" do homossexualismo pela sua irmã.
Vencedor de vários prêmios, incluindo Grande prêmio do Juri no Festival de Sundance 2018, "O mau exemplo de Cameron Post" tem uma narrativa bem lenta e arrastada. Mas o que segura a atenção no filme é o excelente trabalho dos jovens atores. O filme lembra bastante a estrutura de "Um estranho no ninho": somos apresentados a internos carismáticos, culminando em tragédia, e também a vilões, como Lydia.
Boa direção, bela trilha sonora e fotografia.
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
Tecido, sigilo
Tecido, sigilo
"Tecido sigilo", de Lucilio Jota (2018)
Produção do Curso de Cinema da Puc Rio, e realizado pelos estudantes, "Tecido sigilo" é um Curta totalmente engajado com o tema da descoberta da identidade racial, mais especificamente, do negro. O filme é dividido em capítulos, mesclando documentário, ficção e musical, todos idealizados por Lucílio Jota. Na equipe técnica, os alunos se revezaram nas funções, e confesso, fiquei bastante admirado com a qualidade técnica do projeto.
2 Filmes que estão no Circuito me vieram à mente enquanto assistia ao curta: "A última abolição", de Alice Gomes, e "Infiltrados no Klan", de Spike Lee. Do documentário da Alice, a aproximação veio pela polêmica da "farsa da Abolição da escravatura": o racismo e a "escravidão" permanecem nos dias atuais, através de preconceito, do bullying, da segregação social e econômica. Do Filme de Spike Lee, vem a questão da aceitação da raça, da pele negra, da descoberta da cultura.
Todos esses tópicos são amplamente discutidos no curta, através de depoimentos intensos com estilistas, historiadores, atores (Lazaro Ramos, Helio de La Penã), onde todos abrem seus corações e relatam casos de preconceito. O prólogo, chamado de "A mala", é um clip musical onde é apresentado um homem negro que vai de casa até o trabalho com uma mala e antes de entrar no prédio, troca a sua roupa e veste uma roupa social, perdendo a sua identidade e se tornando mais uma pessoa no prédio comercial. O conceito do "Match cut", utilizado no filme, se encaixa muito bem na dinâmica da história.
O título do curta vem da idéia de que homens brancos e negros são aceitos socialmente em função das roupas que vestem. O branco pode tudo e é aceito em todos os ambientes. Já o negro, se por exemplo estiver usando chinelas havaianas e algumas roupa rasgada, mesmo que seja customizada, é visto com um olhar preconceituoso, associado a marginais. Nesse clip "A mala", a mala literalmente é utilizada pelo homem negro para ele poder ser aceito socialmente nas ruas, transporte urbano, como se fosse um carimbo que dissesse "Pessoal, sou trabalhador".
"Tecido, sigilo" é um trabalho importante que deve ser exibido nas Escolas e promover debates entre alunos e professores.
Faca no coração
"Un couteau dans le coeur", de Yann Gonzalez (2018)
Uma homenagem às filmografias de François Ozon, Dario Argento e Pedro Almodovar, "Faca no coração" é uma ousada fantasia LGBTQ+
de serial killer que concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2018. O início do filme é uma referência explícita ao prólogo de "Parceiros da noite": um rapaz se deixa seduzir pelo flerte de um estranho de máscara de couro. Os 2 vão até o quarto de um motel. Na hora da transa, o estranho retira um vibrador, que na verdade, esconde um punhal em seu interior e mata o rapaz. Descobrimos depois que a vítima é um ator pornô da produtora de filme eróticos gays de Anne (Vanessa Paradis). O ano é 1979, quando os filmes pornôs ainda eram filmados em película e exibidos em salas de cinema, um pouco antes do advento do VHS que acabou com esse tipo de exibição.
Anne está em crise pessoal por conta de sua relação com sua montadora, Lois, de quem se separou há pouco tempo mas não consegue esconder a sua tristeza. Paralelo, outros atores pornôs vão sendo assassinados, e Anne precisa tentar descobrir o paradeiro do assassino.
O Cineasta e roteirista Yann Gonzalez realizou em 2013 o cult erótico "Os encontros à meia noite". Já nesse filme, a linguagem de Yann Gonzalez já era bastante presente: uma referência visual aos anos 80, com cores fortes, neons, trilha sonora de sintetizadores do ótimo grupo M83, fotografia estilizada e muita afetação. Em "Faca no coração", tudo é bastante exagerado: as interpretações, o visual, conferindo um charme Kampf ao filme. Não é um filme perfeito, mas vale ser visto pelo sua ousadia e pela homenagem ao mundo basfond gay da época.
Vanessa Paradis, que nos anos 80 explodiu como cantora com a música regravada por Angelica "Vou de táxi", tem uma aura de Diva de Filmes B, e está excelente no papel.
Operação Overlord
"Overlord", de Julius Avery (2018)
O cineasta Julius Avery tem uma filmografia ainda pequena, mas em seu currículo já consta a nova adaptação do futurista "Flash Gordon".
Em 2009, o Cinema de terror norueguês lançou o cult "Zumbis na neve", que apresentava um argumento muito curioso: estudantes noruegueses de férias nas montanhas geladas, encontram soldados nazistas enterrados e que ressuscitam como zumbis. O sucesso foi tão grande, que anos depois, lançaram uma continuação. Depois desse filme, surgiram vários outros que traziam a comunhão de Segunda guerra mundial e zumbis.
"Operação Overlord" pode não ser nada original, mas diverte bastante para quem busca um passatempo com suspense, humor negro, violência gore e personagens carismáticos, envolvidos em uma heróica tentativa de desmantelas o exército nazista.
O filme começa mostrando um pelotão de soldados americanos dentro de um avião de Guerra, seguindo para uma missão praticamente suicida: destruir uma torre nazista para que os aliados possam invadir a Normandia na véspera do ataque do Dia D. O avião no entanto, sofre um ataque dos alemães e é destruído. Os sobreviventes precisam seguir a pé até a torre. No caminho, Boyce e Ford, uns dos 5 sobreviventes, encontram uma jovem francesa na floresta, que estava catando comida para seu irmão pequeno. Ela os leva até seu vilarejo. Em breve, os soldados vão descobrir que os alemães sequestram os moradores para fazer experimentos científicos.
A primeira parte do filme segue em to realista , como se fosse um filme de guerra tradicional. Mas a partir da 2a parte, o filme segue o caminho da fantasia, trazendo zumbis que são treinados pelos nazistas para serem soldados do Terceiro Reich,
O filme vai agradar aos fãs do cinema de gênero, e possui um elenco de rostos desconhecidos do grande público. Na verdade, o filme, em sua gênese, foi confundido como se fosse um novo filme da franquia "Cloverfield", por conta de seu produtor, J J Abrams. A atriz francesa Mathilde Ollivier, no papel de Chole, é um grande achado: ela me lembrou Sigourney Weaver em "Aliens, o resgate", defendendo a sua cria.
Não me toque
"Touch Me No", de Adina Pintilie (2018)
Escrito e dirigido pela Cineasta romena Adina Pintilie, "Não me toque" foi o grande Vencedor do Festival de Berlin 2018, ganhando o Urso de ouro de melhor filme. A premiação foi coberta de polêmicas, por conta das muitas vaias e críticas negativas que o filme recebeu,
Adina Pintilie praticamente desenvolveu um Filme terapêutico, uma sessão de terapia cinematográfica, exposta para toda uma platéia. Através de 3 personagens, o espectador presencia a intimidade exposta em toda usas suas nuance,s nua a crua. O filme lembra bastante o cinema austríaco de Ulrich Seidl, que chocou meio mundo com a sua trilogia do amor, e tantos outros filmes onde expõe o ser humano na pior de suas facetas: sordidez, fetiches, sexo doentio, relações apáticas e muito sofrimento movido à violência e desespero.
Logo de início, acompanhamos Laura, uma das analisandas, recebendo um garoto de programa. Laura tem um sério problema: ela não consegue ser tocada. O rapaz toma banho, se masturba, tudo sob o olhar curioso de Laura, que também recebe um transexual, frequenta sessões de sadomasoquismo e tenta de alguma forma encontrar uma saída para a sua questão anti-social.
Tomas tem uma doença que fez com que seu corpo não tenha nenhum pelo. Ele faz sessão de terapia com Cristian, um homem que possui uma distrofia muscular na espinha e por isso, tem o corpo totalmente deformado. Tomas faz exercícios de em dupla com Cristian, mas não consegue esconder a sua aversão ao corpo do colega. Po sua vez, Cristian frequenta uma orgia, e faz sexo com sua namorada em frente das câmera.s
Durante mais de 2 horas, a câmera de Adina faz o papel do terapeuta: é um filme frio, com um enorme distanciamento emotivo. A própria cineasta Adina participa, conversando com Laura e dando uma de analista.
Difícil rotular o filme: é um documentário? é uma ficção? Achei o filme curioso, mas talvez o prêmio de melhor filme em Berlin tenha sido dado mais pela sua ousadia e vontade de chocar, do que pelas suas qualidades em si. Após uma hora de projeção, tudo sôa repetitivo. Como sessão de terapia, é um saco. Talvez melhor seja assistir a um filme de Bergman.
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
Amor até as cinzas
"Jiang hu er nv/Ash is purest white", de Jia Zhang-Ke (2018)
O Cineasta chinês mais premiado da atualidade, Jia Zheng-Ke, autor das obras-primas "Em busca da vida", "Um toque de pecado", "As montanhas se separam", e tema do documentário de Walter Salles, fã confesso. concorreu em Cannes 2018. Como sempre, Zheng-Ke trabalha com sua atriz fetiche e esposa, Zhao Tao, e escalou também o excelente ator Fan Liao, premiado em Berlin Melhor ator pelo policial "Carvão negro, gelo fino". O filme fala sobre temas comuns à filmografia de Zheng-Ke: a transformação da China contemporânea, tanto geograficamente, quanto culturalmente. Solidão, amores trágicos, a contradição de valores e costumes milenares com contemporâneos. A China é grande, e Zheng-Ke sempre mostra isso em seus filmes, seja nas paisagens grandiosas, quanto na sensação que o personagem está solitário, mesmo que caminhando ao lado de centenas de pessoas.
Qiao namora o mafioso Bin. Em determinada noite, ela o defende de ser morto por gangue rival, e acaba sendo presa por porte de arma. Interrogada de quem é a arma ( que pertence a Bin), ela mente e diz que é dela, para poder defender o amado. Cinco anos presa Quiao é solta e quer ir em busca de Bin, que sumiu e que não foi visitá-la na prisão.
Com a fotografia do francês Eric Gautier, de "Na natureza selvagem" e "Diários da motocicleta", o filme emociona, e tem uma cena de luta fantástica. A história de amor e lealdade de Quiao a Bin ganha contornos trágicos, e a parte final, mesmo inferior ao início do filme, é belamente triste.
Um dos elementos que mais amo no cinema de Zheng-Ke é o uso da trilha sonora, repleta de clássicos dos anos 70 e 80. Em "As montanhas se separam", "Go west", do Pet Shop Boys toca várias vezes. Aqui, "Ymca", do Village People", traz uma cena maravilhosa que acontece na boite.
Vida selvagem
"Wildlife", de Paul Dano (2018)
Adaptação do livro escrito por Richard Ford, "Vida selvagem" foi co-escrito e dirigido por Paul Dano, que aqui estréia na direção de longa. Paul Dano é um dos atores mais interessantes e talentosos a surgir no cinema independente americano, em filmes como "Sangue negro" e "A pequena Miss Sunshine". A sua direção é absurdamente competente e inteligente, favorecendo planos estáticos para narrar a triste história de uma família em vias de rompimento na América de 1960.
O filme é todo pelo ponto de vista de Joe (Ed Oxenbould, magnético), um rapaz de 14 anos, filho de Jerry (Jake Gyllenhaal) e Jeanette (Carey Mullighan). Joe é um bom rapaz: ele é honesto, não mente, e tem seu pai como um herói. Mas Jake perde o emprego, e desestrutura o orçamento da casa. Sua esposa Jeanette decide procurar trabalho, uma vez que Jake ganhou uma postura apática e não procura trabalho. Jake tem sue orgulho ferido quando Jeanette arruma um trabalho como treinadora em uma piscina. Jake decide se alistar para combater incêndio na floresta, e sai de casa, deixando esposa e filho à própria sorte.
Com um trabalho fenomenal de performance do trio principal, o filme também tem uma fotografia extraordinária, de Diego Garcia, que fotografou "Boi neon" e "Cemitério do esplendor".
Paul Dano tem total domínio sobre sua história e seus atores. É um filme magistral, doloroso, inquietante, e que me remeteu ao clássico de Ang Lee, "Tempestade de gelo". A cena final, da foto, é algo avassaladoramente bela.
O filme concorreu em Cannes 2018, na Mostra Camera de Ouro, e participou de vários Festivais.
A professora do jardim de infância
“The kindengarten teacher”, de Sara Colangelo (2018)
Refilmagem de um drama homônimo israelense, essa produção independente americana foi exibida em Toronto 2018 e traz uma performance arrebatadora de Maggie Gyllenhaal, no papel da professora do jardim de infância Lisa. De vida apática, com um casamento sem sal e com dois filhos adolescentes que não lhe dão a mínima, Lisa frequenta um curso de poesia, administrado por Simon (Gael Garcia Bernal). As suas poesias sofrem críticas do professor. Um dia, ela percebe que seu aluno de 5 anos, Jimmy, está declamando uma poesia escrita por ele. Lisa anota e na sua sala de aula, ela diz que a poesia é sua. Tanto Simon quanto os outros alunos se impressionam com a qualidade do poema. Lisa começa então a estimular Jimmy a escrever poesias e as assume como suas, tornando a relação doentia e obsessiva.
Com excelente atuação de Maggie e o pequeno ator que interpreta Jimmy, é um drama lento, mas que possui um roteiro aflitivo, aonde o espectador fica aguardando alguma tragédia iminente. Bela reflexão sobre relação professores e alunos, adultos e crianças.
Bohemian Rapshody- A história de Freddie Mercury
"Bohemian Rapshody", de Bryan Singer (2018)
Os bastidores de "Bohemian Rapsodhy" ganharam a mídia antes mesmo do filme ficar pronto. O Ator Sacha Baron foi substituído por Rami Malek; rumores de desavenças entre o Cineasta Bryan SInger e o ator Rami Malek culminou na demissão de Singer; e quando o trailer oficial saiu, muita gente reclamou que o filme e a homossexualidade de Freddie.
Agora, com o filme finalmente lançado, dá para afirmar: que filmaço! Emocionante, e responsável por lágrimas e aplausos da platéia no final.
O filme segue a trajetória de Freddy Mercury desde o ano de 1970, quando ele trabalhava no aeroporto despachando malas do avião, até seu encontro com a banda com quem formaria o Queen, sua relação com sua família paquistanesa, a descoberta da homossexualidade, a difícil relação com Big Bosses do show business; as crises com o seu grupo, a carreira solo e finalmente, em 1985, no famoso concerto que reuniu o grupo no Live Aid.
A produção e a parte técnica é toda impecável. Não dá para saber exatamente o que Bryan Singer dirigiu, e o que sue fotógrafo deu continuidade. Mas o filme está todo coeso, com bela direção e caracterização do elenco, e Rami Malek dando um show. Impossível não bater os pés durante o filme todo, cantarolando as músicas chaves do grupo, e culminando com "we are the Champions".
A música título é usada como metáfora da luta e da perseverança de Freddie e de seu grupo para vencer na vida através de batalhas árduas e a certeza de estarem dando o melhor de si.
domingo, 4 de novembro de 2018
A casa que Jack construiu
"The house that Jack built", de Lars Von Trier (2018)
Uma cena de "A casa que Jack construiu" define a diferença cultural entre a França e o Brasil: Jack (Matt Dillon, arrebatador) empunha um rifle e mata duas crianças, acertando tiros em suas cabeças estourando seus miolos. Em Cannes onde o filme estreou em primeira mão, a platéia praticamente abandonou a sala do cinema nesse momento, em protesto contra a violência gratuita. Na sessão do cinema Odeon, abarrotado de espectadores, absolutamente nenhuma pessoa abandonou a sala. Não sei se a violência no País anestesiou as pessoas em relação à violência, mas todos assistiram ao filme do início ao fim, em atordoantes e angustiantes 155 minutos de cenas de torturas, facadas, espancamento, mutilação de seios, etc. Trier, que sempre foi acusado de misoginia em suas obra, aqui não é diferente: suas vítimas são em quase toda a totalidade, mulheres. O curioso é que na platéia, metade do público eram mulheres, e muitas amaram o filme.
Definitivamente, Trier não tem a mínima preocupação em querer agradar seu público, que se mantém fiel, mesmo não gostando de muitos de seus filmes. E porquê as pessoas querem ver seus filmes: para presenciar cenas de sexo explícito e violência extrema? Quem é mais aterrorizante? Jack ou o público, que ri dos assassinatos?
A estrutura narrativa é a mesma de "Ninfomaníaca": o protagonista relata para um ouvinte ( O poeta Eneida (Bruno Ganz), os seus assassinatos, divididos em 5 incidentes e um epílogo metafórico, A platéía presencia pelo menos 10 assassinatos bárbaros, elevados a um nivel de tortura psicológica insana. Mas metade do filme, são pensamentos filosóficos e intelectuais acerca das obras de arte. São cenas longas, até mesmo monótonas. Lembra muito o Cinema do inglês Peter Greenaway. Jack busca a sua grande Arte perfeita, ao mesmo tempo, que tenta construir sua casa, sem sucesso. A cena final, com a resolução da casa construída, é assustadora e Dantesca.
Muita gente odiou o filme, outros o alçaram à condição de obra-prima. Espécie de pout pourri de sua filmografia ( inclusive , o filme tem um clip exibindo cenas de seus outros filmes), "A casa que Jack construiu" pode ser absurdamente longo, monótono, sádico, mas algo é inegável: Trier sabe como poucos, o Poder que tem em suas mãos, de manipular seu público e manter constantemente interesse em sua obra.
O elenco, eclético, se entrega aos personagens polêmicos do filme, dando destaque a Uma Thurman, irreconhecível no papel da primeira vítima de Jack.
O sexo não compra o amor
"Boy culture", de Q. Allan Brocka (2006)
Adaptação do livro de Matthew Rettenmund , "Boy culture', e que poderia perfeitamente ser montada como peça de teatro de temática LGBTQ+.
Ambientado em Washington, o filme fala sobre gays em busca de amor. X (Derek Magyar) é um garoto de programa de alto n;ivel, e que possui uma cartela pequena de clientes exigentes e que pagam caro pelos seus serviços. Um desses clientes é Gregory, um idoso que contrata X não para fazer sexo, mas que ele lhe conte as aventuras sexuais de X . X divide seu apartamento com 2 roommates: Andrew, um jovem negro hetero, por quem X é apaixonado, e Joey, um gay afeminado que acabou de completar 18 anos e viciado em sexo.
Apostando no aspecto romântico e melancólico da juventude sem perspectiva amorosa e profissional, o filme apresenta a cidade grande como um lugar que torna as pessoas solitárias e carentes. Mesmo tendo a sexualidade como tema, o Diretor Q. Alln Brocka não aposta em cenas de sexo, que são poucos e totalmente inofensivas. O roteiro poderia tornar os personagens mais carismáticos. O protagonista, apesar de bonito, não tem alma, e é um pé no saco.
Cine Hollyudi 2 - A chibata sideral
“Cine Hollyudi 2”, de Halder Gomes (2018)
Continuação do sucesso "Cine Hollyudi", de 2012, e que explodiu na bilheteria do Ceará, justamente por ser um filme que fala a língua local. Com expressões divertidíssimas, Halder resgatou as comédias populares com um sabor bem regional, se utilizando de atores e comediantes que se identificaram com o tipo de humor caricato ( o padre, a mocinha, o vilão, o prefeito, o herói, o gay, etc) porém, com carisma e paixão que acabou passando por cima da questão do preconceito.
Agora, em 2018, chega a continuação, começando pelo fechamento do cinema que a família de Francisgleydisson (Edmilson Filho) tanto lutou para inaugurar no filme original. A história se passa em 1980, 2 anos antes do lançamento de "Et", de Steven Spielberg. O roteiro sugere que a idéia do roteiro de "Et" veio por conta do que aconteceu na cidade onde moram Francisgleydisson, sua esposa Maria das Graças (Miriam Freeland) e seu filho, Francis (Ariclenes Barroso). Francisgleydissin não quer tentar vida nova na cidade grande, e portanto, decide escrever um roteiro e produzir um filme que mistura alienígenas e cangaceiros. O povo da cidade contribui com dinheiro, inclusive a amante do prefeito, Justina (Samantha Schmütz), que quer que seu sobrinho protagonize a história.
Novamente apostando no dialeto local, o filme diverte e aposta na mesma fonte do filme anterior: a paixão pelo cinema, fazendo com que seus protagonistas se sacrifiquem para que a sétima arte não morra.
O filme ainda cutuca os detratores da Cultura e da ARte, através da personagem de Samantha.
Os efeitos, toscos e totalmente B, são um prato cheio para os espectadores nerds que bebem na fonte do "quanto pior melhor". O elenco, gigante e talentoso, é o ponto alto da produção, tendo espaço também para Gorete Milagres, Chico Diaz, Milhem Cortaz e muitos outros.
sábado, 3 de novembro de 2018
Caos
"Capernaum", de Nadine Labaki (2018)
O título original, "Capernaum", tem um sentido bíblico: situado no norte do Mar da Galiléia, foi uma das residências de Jesus Cristo. Em português, "Cafarnaum", tem o significado de lugar de desordem e do caos.
No filme da premiada Cineasta libanesa Nadine Labaki, vencedor do Grande prêmio do Juri e do Prêmio ecumênico no Festival de Cannes 2018, Cafarnaum estaria localizado como Beirute, a capital do Líbano. Ali, mora Zain ( um ator mirim extraordinário, lembrando Jean Pierre Leaud em "Os incompreendidos", de Truffaut, por conta de seu grande carisma e espontaneidade.). Logo na primeira cena, somos apresentados a esse menino de 12 anos. que está preso e algemado. Descobrimos que ele apunhalou um homem e que abriu um processo contra os seus pais, por terem dado vida à ele.
O filme volta ao tempo, e acompanhamos o dia a dia de Zain: sua relação com seus pais tiranos, que exploram o trabalho infantil dele e de seus irmãos; a sua grande paixão por sua irmã, que acaba sendo vendida a um comerciante e o faz fugir de casa; e a amizade com a refugiada síria Rahil e seu bebê Yonas.
Impossível não se lembrar de "Pixote" ao longo do filme. O mundo cão ao qual somos apresentados, cenas muito cruas, violentas, dramáticas e aterrorizantes. Não existe sopro de esperança ao longo da projeção. Nadine dirige tudo com muita firmeza, sensibilidade e claro, fazendo uma forte denúncia social de seu País.
O elenco infantil, todo de não atores, é algo de impressionante. A cena final, de cortar o coração. Preparem-se para chorar.
O peso de um passado
"Destroyer", de Karin Kusama (2018)
Americana de origem asiática, a Cineasta Karin Kusama é uma adepta do cinema de gênero. Ela dirigiu o filme de ação futurista com Charlize Theron "Æon Flux", depois o terror "O convite" e agora, o thriller "O peso de um passado", que concorreu no Festival de Londres e em Toronto. Para a platéia, o filme será lembrado como o filme que desconstruiu a atriz Nicole Kidman: aqui, ela está com a pele seca, olhos fundos e com olheiras, aparência literalmente destruída, como o título sugere. Por conta de uma ação policial que não saiu como deveria, a detetive Erin Bell se torna uma mulher depressiva, se afastando da família e de amigos. Apenas a rotina na polícia se mantém, mas de forma apática. Um dia, Erin é chamada para um registro policial, onde um morto aparece. A partir daí, o filme se desconstrói, e mais não dá para falar, para não estragar o desfecho arrebatador e o plot twist de fazer gritar no cinema.
Muita gente reclamou da maquiagem de Nicole: falaram da maquiagem mal feita, da peruca fake. Mas é inegável a entrega da atriz para o personagem. Nicole, curiosamente, protagoniza a segunda cena de masturbação em um filme: em "O Segredo do cervo sagrado", ela também masturba um homem em troca de informações.
Trilha sonora angustiante e algumas cenas antológicas, como a do assalto ao banco.
sexta-feira, 2 de novembro de 2018
As viúvas
"Widows", de Steve McQueen (2018)
Co-escrito pelo cineasta inglês Steve McQueen, adaptado do livro de Lynda La Plante, "As viúvas" é um explosivo drama de ação, repleto de reviravoltas de fazer gritar na sala do cinema. Em determinado momento do filme, é praticamente impossível não haver um comentário geral dos espectadores, ainda com o filme em projeção. Aquele plot twist de fazer Shayamalan bater palmas!
Drama que apresenta personagens que precisam se vender à corrupção e ao crime para poder sobreviver na sociedade atual, seja branco, negro, latino, todos querem seu lugar no mundo com um mínimo de dignidade para criar seus filhos.
No prólogo, o filme apresenta uma quadrilha que pratica um assalto: Liam Neeson, personagem casado com a professora Veronica (Viola Davis), é o chefe do bando. O assalto dá errado e todos morrem. Um político corrupto procura Veronica e cobra dela os 2 milhões do assalto que queimaram no fogo do acidente de carro. Veronica tem pouco tempo para tentar arrumar essa grana, e conta com a ajuda das outras 3 viúvas para ajudarem ela a praticar um rime e assim, pagar as dívidas de seus maridos.
Tenso, muito bem dirigido, com ótimas cenas de ação, diálogos ferinos e com a ficha técnica de alto nível: fotografia, edição, edição de som, tudo foda. Mas é o elenco, em seu esplendor, que arrebata. É um cast triunfal para qualquer Cineasta: além de Villa Davis e Liam Neeson, tem participações de Jackie Weaver, Colin Farrel, Robert Duvall e Daniel Kaluuya, o protagonista de "Corra!". Claro, as outras atrizes também arrebentam, sem exceção.
Para quem curte filme com protagonistas que botam pra quebrar e são duras na queda, "As viúvas" é um filme mega imperdivel.
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