domingo, 12 de abril de 2020

Song Lang

"Song Lang", de Leon Le (2018) Raro drama LGBTQI+ vietnamita, vencedor de diversos prêmios internacionais. Um pout pouri maravilhoso de "Felizes juntos", de Wong Kar Wai, com 'Adeus, minha concumbina", de Chen Kaige e filmes de jung fu. Drama, romance e ação ambientados na capital do Vietnã, Ho Chi Mihn no início dos anos 80. Dung (o cantor pop Lien Binh Phat) trabalha como coletor de dívidas para uma agiota. De métodos violentos, Dung cobra dos devedores friamente. Quando ele vai cobrar a dívida de um Teatro de ópera, ele acaba conhecendo um dos atores, Linh Phung ( o super astro pop Isaac), que defende a companhia, dizendo que estão sem dinheiro, mas que no dia seguinte ele salvará a dívida. Mais tarde, em um restaurante, Dong salva Linh de uma briga. Machucado, Dong leva Linh para sua casa para cuidar dele. Linh descobre que Dong, quando criança , também queria trabalhar em uma ópera vietanamita ( chamada de Cai Luong, muito popular no país)), tocando um instrumento típico, chamado Song Lang. Aos poucos, Dong vai se deixando afetar pela paz e paixão de Linh pela ARte, sem se dar conta que entre os dois, nasce uma paixão. Com um visual arrebatador, que lembra a fotografia de Chritopher Doyle nos filmes de Wong Kar Wai, com direito à uma atmosfera vintage, o filme tem uma direção delicada e repleta de lirismo por parte do diretor Leon Le, que conduz essa história de amor inusitada entre pessoas tão diferentes de forma carinhosa e apaixonada. As cenas da ópera são deslumbrantes, e é impossível não se lembrar de "Adeus, minha concumbina". O filme foi um grande sucesso no Vietnã, graças à escalação de 2 dos maiores astros pops do País, perfeitos e muito fotogênicos nos personagens, emprestando talento e beleza aos trágicos personagens.

Família do bagulho

"We are the Millers", de Rawson Marshall Thurber (2013) Essa é uma comédia para gargalhar do início ao fim, graças ao roteiro dinâmico e politicamente incorreto escrito por Bob e Steven Fisher, e pelo trabalho de todo o elenco, que está hilário: Jennifer Aniston, Jason Sudeikis, Emma Roberts, Will Poulter (não tem outro ator para o personagem dele, ele é único no papel do nerd), além de Nick Offerman e Kathryn Hahn, como o casal do trailer ajuda a família Miller. Jason Suidekis é David, um solteirão que vende maconha em quantidades pequenas para poder se manter. David é um típico loser e quando ele vai salvar o vizinho dele, o nerd Jason (Will Poulter) de um assalto, acaba ele mesmo sendo assaltado, tendo sua maconha e dinheiro roubados. O chefão do tráfico só perdoará David se ele fôr até o México em busca de um carregamento de maconha e trazer para ele. David resolve montar uma família fake, achando que dessa forma, ele entrará e sairá do País sem chamar atenção. Ele convoca então Jason e Rose (Roberts), uma sem teto, para serem seus filhos. Rose (Aniston), uma vizinha stripper que perdeu o emprego e não tem mais aonde morar, aceita fazer o papel de esposa, em troca de dinheiro. O filme tem muita piada, diálogo e situação esdrúxula, mas são muito engraçadas, e é impossível não gargalhar. Hoje em dia, esse tipo de comédia j;a não seria mais produzida, pois envolve muita gag referente a órgãos genitais , fetiches, orgias, vibradores, incesto e uso de drogas. Com um ritmo frenético, além de divertido, o filme tem aquela famosa virada emotiva dos personagens, que envolve aquele clichê da música que une a todos, no caso, "Waterfall". Jennifer Aniston é uma excelente comediante, e faz uma ótima química com Jason Suidekis. A cena do beijo coletivo debaixo dos fogos de artifício, ou a mordida da aranha são antológicas.

Boy George e Culture Club: Karma para a calamidade

"Boy George and Culture Club: Karma to calamity", de Mike Nicholls (2014) Documentário que explora o estrelismo e arrogância de Boy George, famoso vocalista da banda pop inglesa dos anos 80, "Culture club". Autores de dezenas de sucesso, como "Karma chameleon", 'War", Love is love", o Culture Club vendeu milhões de discos e fizeram shows no mundo inteiro, mas por problemas de ego e de vício em heroína de Boy George, o grupo acabou. Mais de 30 anos depois, eles se reencontram, no ano de 2014, para lançar um novo disco e uma turnê. Tanto disco quanto turnê são ansiosamente aguardados por fãs da Inglaterra e Estados Unidos. O filme registra as semanas de gravação do disco na Espanha, o reencontro do grupo, os ataques de estrelismo de Boy George, s depoimentos dos outros integrantes: John , Roy e Mikey. Os três falam sobre o sucesso da época, como tiveram que se virar na vida, a possibilidade de um retorno. John avalia o seu envolvimento desastroso com Boy George na época do sucesso, destruindo a energia do grupo. Há dias de estrear o show, Boy George anuncia que n!ao fará mais a turnê. O disco nunca foi lançado. O grupo não se fala mais. Com imagens dos anos 80, com milhares de fãs histéricos, e esses mesmos fãs de hoje em dia, já todos envelhecidos como os integrantes do grupo, é uma cena bastante melancólica. Boy George não tem mais a voz que lhe deu fama, e tem feito carreira como Dj internacional. Um documentário interessante que explora fama, sucesso, decadência e atritos profissionais que destróem uma amizade profissional.

Maré negra

"Fleuve noir", de Erick Zonca (2018) Adaptação de um livro de Dror Mishani, "Maré negra" é um suspense repleto de temas tabus: pedofilia, incesto, homofobia, racismo, em uma trama repleta da plot twists, defendida com garra por 3 dos maiores astros franceses: Vincent Cassel, Romain Duris e Sandrine Kiberlain. Sandrine interpreta Solange, uma mãe desesperada com o sumiço de seu filho adolescente. Ela é mãe de uma filha com síndrome de down. O policial François (Cassel) é encarregado de investigar o caso. François no entanto tem problemas pessoais que o tornaram depressivo e alcóolatra: seu filho adolescente se tornou traficante, e está separado da esposa. Durante a investigação, François passa a suspeitar do vizinho de Solange: o professor de literatura Tann (Romain Duris). François descobre também que do lado do condomínio onde moram Solange e Yann existe uma floresta onde acontecem encontros sexuais entre gays, e que provavelmente existe alguma relação com o sumiço do rapaz. A trama do filme é muito bem desenvolvida e com um mistério crescente. A sub-trama do filho traficante de Fraçois é que parece estar sobrando, só existe para justificar a barra pesada e o paralelo com o filho de Solange. O desfecho é surpreendente na revelação, com um show de interpretação do elenco. Vincent e Romain são dois excelentes atores, mas tem momentos em que eles carregam demais na caricatura de seus personagens. Mas no geral estão bem, graças a um roteiro surpreendente que promove dualidades nas personalidades. Ótima fotografia que ajuda a dar um clima de filme noir.

Des.encontro perfeito

“Man up”, de Ben Palmer (2015) Escrito pela roteirista Tess Morris, “Des.encontro perfeito” é uma divertida e emocionante comédia romântica que vai te fazer dar altas gargalhadas. Simon Pegg, como Jack, e Lake Bell, como Nancy estão impagáveis, assim como Rory Kinnear, como Sean, o ex-namorado de Nancy, que rouba todas as cenas em que aparece. Nancy tem 34 anos e trabalha com jornalista. A sua vida amorosa é um desastre, e para deixa-la mais frustrada, ela viaja até Londres para os 40 anos de casamento de seus pais. Sua irmã, a casada Elaine, a incentiva a procurar relacionamentos em aplicativos de pegação, mas Nancy desiste. Quando Nancy pega o trem para ir na casa dos pais, ela conhece uma jovem, Jessica, que recomenda que ela leia um livro chamado “6 bilhões e você”, para que a motive a dar uma guinada na vida dela. Jessica diz à Nancy que está indo encontrar uma pessoa que ela conheceu por um aplicativo, e que irão se reconhecer através do livro. Quando chegam na estação, Jessica esquece o livro. Nancy tenta devolver, mas é abordada por Jack, o homem que iria encontrar com Jessica. Nancy acaba não desfazendo o mal entendido e se faz passar pela outra, promovendo muitas confusões e esquecendo que tem que ir na festa de seus pais. O filme alterna de forma orgânica os momentos divertidos , os dramáticos e os românticos, fazendo o espectador torcer pelo casal por conta das variações emocionais. Entre erros e acertos da dupla, é impossível não se apaixonar por eles. A comédia é repleta de cenas antológicas, como a do ex-namorado tentando seduzir Nancy no banheiro, ou a da dança do casal no pub. Mas nada supera a catarse final, com Jack sendo ajudado por um grupo de estudantes bêbados, naquele clichê maravilhoso de final de comédia romântica, semelhante a “Um lugar chamado Nothing Hill”. Simon Pegg é um ator britânico que eu tenho grande admiração, ele tem um humor que vai do pastelão ao sutil, mas sempre mantendo uma dignidade incrível.

sábado, 11 de abril de 2020

São Bernardo

"São Bernardo", de Leon Hirszman (1972) Clássico adaptado da obra literária de Graciliano Ramos, publicada em 1934. O filme concorreu no Festival de Cannes na Mostra Quinzena dos Realizadores e venceu um prêmio especial no Festival de Berlin em 1972. Protagonizado por Othon Bastos e Isabel Ribeiro, o filme se passa no Município de Viçosa, no Alagoas, nos anos 30 ( Graciliano Ramos nasceu em Alagoas e passou boa parte de sua vida em Viçosa, escrevendo algumas de suas obras). Narrado em off por Paulo Honório, personagem de Othon Bastos, um rico fazendeiro, dono da fazenda são Bernardo. Paulo narra a sua trajetória desde que era um pobre e esforçado caixeiro viajante, e através de sua cobiça e ambição, comprou a decadente fazenda são Bernardo e a revitalizou. À medida que vai enriquecendo, Paulo vai se tornando um homem cada vez mais solitário e frio, desconfiando de todos, maltratando os amigos e empregados. Sentindo que está na hora de ter filhos para herdarem sua fazenda, Paulo conhece a professora Madalena (Isabel Ribeiro) e propõe casamento. Em princípio Madalena recusa o casamento, pois gosta de dar aula e tem outras prioridades na vida, como cuidar dos pobres e desassistidos. Acaba se casando, e aí começa um périplo existencial e emocional que destrói a relação: Madalena visita os vizinhos pobres e protege os empregados da fazenda, fazendo com que Paulo a considere uma comunista e acredita que ela o está traindo. Othon Bastos está poderoso no papel de Paulo Honório, se transformando em um homem amargurado e violento. Othon ganhou o Kikito em Gramado em 1974. Isabel Ribeiro empresta o seu grande talento para a humanista personagem de Madalena. Mas a grande estrela do filme é a fotografia de Lauro Escorel: o filme, com raras exceções, é composto por rígidos enquadramentos fixos, com longa duração, sem coberturas. Reza a lenda que o filme tinha um orçamento apertado e foi recomendado filmar tudo em planos masters e não cobrir para economizar negativo. Se isso é verdade ou não, o fato é que transformou o filme em uma obra-prima de composição visual, complementada por músicas de Caetano Veloso.

Queen & Slim

"Queen & Slim", de Melina Matsoukas (2019) Estréia na direção de longas da Cineasta afro-americana Melina Matsoukas, diretora de séries de tv e de clips da Beyoncé. O filme é aclamado mundialmente como uma versão black de "Bonnye e Clyde" e "de "Thelma e Louise". A dupla de protagonistas, Daniel Kaluuya ( de "Corra!") e Jodie Turner-Smith estão fantásticos e merecem todos os prêmios que ganharam. Slim (Kaluuya) e Quenn ( Jodie) marcam um encontro após se conhecerem no Tinder. Ambos moram em Ohio. Usando os nicks do Tinder, Queen se apresenta como uma advogada. AO final do jantar, Slim se oferece para levar Queen para casa, no seu carro. No caminho, eles são parados por um policial , e após um ataque de brutalidade do oficial, Slim acaba atirando nele, em auto-defesa, após o policial atirar em Queen. Sabendo que podem ser presos, e desesperados, os dois resolvem fugir para Nova Orleans, para a casa do tio de Queen. No dia seguinte, toda a mídia anuncia o casal de negros que assassinou um policial branco. Slim e Queen pensam em fugir para Cuba, mas até chegarem an Flórida, precisam contar com a sorte. A cineasta Melina Matsoukas dirige o filme com bastante estilo e planos belos e bem marcados, coma ajuda da fotografia de Tat Radcliffe, A trilha sonora é super groovie e cool, com músicas hip hop, jazz e blues. O filme foi um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, para uma produção indie. No entanto, recebeu muitas críticas de parte dos crítico que disseram que o filme reforça o racismo contra os brancos: todos os personagens brancos são canalhas e violentos. Mas isso é uma inverdade, pois o filme aponta para os dois lados da mesma moeda: existem negros que também são escroques, assim como um casal de brancos, interpretados por Flea, baterista do Red hot chilly peppers, e Chlie Sevigny, que ajudam o casal. Aliás, o elenco é super cult, repleto de participações especiais, como Indya Moore, a Angel de "Pose". O que de fato prejudica o filme, é a sua excessiva duração: 131 minutos!!!!

I'm a Pornstar

"I'm a Pornstar", de Charlie David (2013) Documentário que explora a pornografia gay, desde os primórdios do advento do cinema, ainda no cinema mudo e em fotografias stills que eram vendidas para colecionadores até a era da internet e as celebridades pornôs. O filme é divido em 2 partes: a primeira mostra cenas e fotos da pornografia gay no início do século XX, passando pelos anos 20, 30 e já nos anos 40, mostra o surgimento de revistas com modelos esportistas, posando de sunga, mas que na verdade eram uma fachada de revistas para um público gay. Nos anos 50 surgiram as Beef cakes magazines, e a mais famosa foi a Physique Pictorial , que apresentava nús frontais masculinos. No final dos anos 60, com a aparição das câmeras 16mm, começaram a ser filmados os primeiros filmes pornográficos. "Boys in the sand" foi um grande sucesso de bilheteria, seguido por outros filmes que ao longo dos anos 70, eram exibidos em salas especiais para veiculação de conteúdo pornô. Com as filmadoras VHS, popularizou-se a produção de filmes, que explodiram com os video cassetes domésticos. Com o advento da AIDS, muitos gays ficaram com medo e evitaram fazer sexo, e a partir daí, a produção de filmes VHS teve o seu ápice. Com a internet que começou a surgir nos anos 90, houve uma produção maciça para esse conteúdo. Hoje, o mercado pornô movimenta bilhões de dólares, e o filme estima que existam no mundo, 370 milhões de websites pornôs. A 2a parte do filme expõe a vida e vida pessoal de 4 celebridades pornôs gays da internet: Colby Jansen, Johnny Rappid, Rocco Reed e Breet Everett. Colby casou-se com uma atriz trans, Brett se casou com seu agente, Rocco era um ex-ator pornô hetero que descobriu que no pornô gay ele ganharia 3 vezes mais e Johnny Rapid narra o depoimento mais divertido e bizarro do filme: que ele tem facilidade de ficar ereto, até mesmo se mostrarem fotos de carros importados. E isso acontece!. Fama, vaidade, fortuna, prêmios, assédio: esses são os argumentos dos astros pornôs estarem na indústria. Tem o depoimento de uma advogada dublê de Dj que diz que se ela tivesse filhos, diria para eles não entrarem nessa indústria porquê o preço a ser pago mais tarde é muito alto. Tem entrevista com um diretor de filmes gays, que é hetero, narrando fatos curiosos sobre as filmagens. A parte mais triste é quando citam os astros pornôs dos anos 80 e 90, que não souberam guiar suas carreiras, muitos ficaram pobres e outros morreram de HIV.

O lago dos cisnes selvagens

"Nan Fang Che Zhan De Ju Hui", de Diao Yinan (2019) Imaginem o clássico "Blade Runner" ambientado nos dias de hoje, realista. Sabe quando você fica de queixo caído e pensando: "Caralho, de onde o Diretor e o fotógrafo tiveram tamanha criatividade para conceber tal plano?" Pois eu fiquei o filme inteiro assim. Ambos, o cineasta chinês Diao Yinan e o fotógrafo Dong JingSong já haviam dado as cartas em 2014, com o extraordinário "Carvão negro, gelo fino", vencedor do Urso de Ouro em Berlin de melhor filme. Fica claro, comparando os 2 filmes, as referências desses dois estetas: representantes do chamado Cinema neo noir", com direito a muita chuva, mulheres fatais, interpretações empostadas, violência e muito suspense. "O lago dos cisnes selvagens" concorreu em Cannes em 2019, e recebeu diversos prêmios em Festivais internacionais. Muitos críticos elogiaram a estilização do filme, mas criticaram o que chamaram de dramaturgia rasa. Eu, como amo cinema noir, fotografia hiperrealista e aquele toque de Wong Kar Wai, amei o filme. O filme, curiosamente após o coronavírus, é todo rodado em Wuhan, epicentro da pandemia. Uma cidade decadente, fria, repleta de neons e muita violência: duas gangues de ladrões de motocicletas disputam as melhores regiões para roubo, até que Zhou Zenong ( Ge Hu, o ator perfeito para substituir Tony Leung do posto de galãs chineses) , ao defender um comparsa seu que iniciou uma briga, tem sua cabeça colocada á prêmio não s;o pela gangue rival, quanto pela polícia, ao matar acidentalmente um policial. Zhou é auxiliado pela prostituta Liu, a pedido da esposa de Zhou. O filme tem cenas coreografadas de forma absolutamente geniais: a sequência de tiroteio em uma quermesse, a fuga de motocicleta, ou uma cena de luta que envolve um guarda-chuva e tripas, é inacreditável. Mas a grande estrela mesmo é a fotografia, e o filme é todo pensado para compôr os melhores enquadramentos, movimentos de câmera, marcação de atores em cena. Uma obra-prima da moderna cinematografia.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Tigerland

"Tigerland", de Alan Young (2020) Diretor de séries de tv famosas como “Parks and recreations” e ‘A good place”, o cineasta americano de família taiwanesa Alan Young escreve e dirige esse melodrama que fala sobre identidade cultural. Assim como o grande sucesso “A despedida”, o filme fala sobre reconexão entre pais e filhos através da perda da identidade: o pai é nascido em Taiwan, e a filha, americana. O filme acompanha 3 épocas distintas na vida de Grover: sua infância pobre, criado por seus avós e depois, por sua mãe. Depois, já adulto, Gover trabalha com sua mãe em uma fábrica. Ele é apaixonado por uma amiga de infância e agora crescidos, pensam em se casar. Mas a necessidade financeira faz com que Grover se case com a filha do patrão para poder migrar para os Estados Unidos. Longe de seu País, de sua mãe e da mulher amada, Grover, nos Estados Unidos, se torna um homem amargo. Nos dias de hoje, morando em Nova York, ele tem uma péssima relação com sua filha Angela. É através da história de Angela que Grover revê a sua trajetória e repensa a sua vida. Com um ótimo time de atores asiáticos, “Tigerland” vai fazer a alegria de quem gosta de um melodrama que fala de amores impossíveis e sonhos desfeitos. O clichê do sonho americano que não existe é trabalhado com delicadeza pelo Cineasta Alan Young. A fotografia e enquadramentos muitas vezes lembram o cinema de Won Kar Wai, principalmente quando foca na história do jovem Grover: ambientes coloridos, claustrofóbicos e aquele ar de vintage moderno.

The Gays

"the Gays", de T.S. Slaughter (2014) Um dos filmes mais trash que já assisti, mais bizarro que todos os filmes de John Waters reunidos. The Gays é uma comédia satírica que quer ser também utilidade pública para os gays, uma espécie de beabá de como exercer atividades sexuais. A família Gay ( sim, é o sobrenome deles) é composto pelo Pai, a mãe transsexual e os dois filhos. Os pais ensinam os filhos a como pagarem boquete em banheiro público, a como fazerem sexo bondage com o namorado, a como estuprar o namorado, e outros fetiches eróticos. O filho que não cumprir direito sua missão, vai ser estuprado pelo outro irmão como castigo. E tudo isso é devidamente ilustrado com cenas de sexo explícito. Mas a cena mais tras da história acontece quando a mamãe relata como foi o nascimento dos filhos: eles nasceram de ass-born, ou seja, parto pelo ânus: em uma paródia ao filme "O Exorcista", com direito a exorcista, vômito verde e tudo o mais, a mãe dá à luz a um bebê pelo ânus, repleto de fezes e brinquedos eróticos. É uma cena inacreditável. Claro, é uma produção de super baixo orçamento, mas bastante difícil de indicar para qualquer um que seja. Filme para cinéfilos loucos como eu, apenas.

Os estragos de sábado à noite

"A night at Roxbury", de John Fortenberry (1998) Essa comédia com a dupla impagável de comediantes, Will Farrell e Chris Kattan é um verdadeiro clássico dos anos 90. Confesso que acho uma das comédias mais engraçadas que já assisti, ao contrário da crítica, que detona o filme pelo seu humor besteirol, típico da década. O filme tem muito daquele humor idiota de "Debi e Lóide", um filme que certamente é referência para o "amor Bromance" dos dois protagonistas. Paródia à "Os embalos de sábado `a noite", o filme é repleto de clássicos da dance music dos anos 90, com todas aquelas músicas que a galera dançou na época, incluindo a música chiclete do filme, 'What is love", do Haddaway, que é a música tema dos irmãos Butabi. Will Ferrell e Chris Kattan são os irmãos Butabi, filhos de um casal milionário, donos de uma grande loja Kitsch que vende flores de plástico em Los Angeles. Steve (Ferrell) e Doug (Kattan) são personagens que vieram do programa de humor 'Saturday night live". Eles costumam "bater cabeça" quando ouvem a música 'What is love" e são apaixonados pela noite. Proibidos de entrar na badalada Boite Roxbury pela curtir e paquerar, os irmãos provocam um acidente de trânsito e batem no carro do Ator Richard Griecco, que para evitar escândalo com seu nome, os colocam para dentro da Roxbury. Lá, os irmãos conhecem duas prostitutas que estão doidas para tirar dinheiro deles. O filme é totalmente politicamente incorreto, mas o curioso aqui é que, mesmo com as indefectíveis piadas machistas da época ( mulheres gostosas, piadas com peitos grandes, etc), as mulheres se defendem e enchem os homens de porrada. Com um verdadeiro arsenal de gags físicas e diálogos constrangedoramente divertidas, o filme, que eu já assisti várias vezes, me faz gargalhar do início ao fim. O visual cafona da direção de arte, figurino e maquiagem são um espetáculo à parte. E Will Ferrell, que é um comediante que eu amo, está fenomenal.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Madame Rosa

"La vie devant soi", de Moshé Mizrahi (1977) Vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1978, "Madame Rosa" foi dirigido pelo cineasta egípcio Moshé Mizrahi e adaptado da obra do escritor Romain Gary. Esse excelente drama francês é uma crônica social sobre prostitutas que moram no bairro de Pigalle, dividindo espaço com imigrantes africanos, argelinos, judeus, árabes. Madame Rosa (Simone SIgnoret, extraordinária e vendedora de vários prêmios internacionais, entre eles César e David se Donatello) é uma ex-prostituta que mora em um cortiço. Ela ganha dinheiro de prostitutas para criar seus filhos em sue minúsculo apartamento. Momo (Samy Ben-Youb, excelente) é um menino de 11 anos, filho de árabes e o mais velho das crianças. Quando Madame Rosa adoece, Momo se sente na obrigação de cuidar de sua "mãe adotiva", que teme que ele se prostitua ou vire um gigolô. O filme é um drama realista que retrata a marginalidade da periferia de Paris, um olhar carinhosos sobre personagens sem futuro e sem dignidade. O roteiro evita embarcar em um carrossel de tragédias e mescla delicadeza com poesia. O cineasta Moshé Mizrahi. observa esse universo com um olhar documental, evitando exacerbar no seu conteúdo melodramático. Com um roteiro potente e um elenco que mistura atores profissionais com amadores, o filme é uma denúncia grave aos desassistidos pelo Governo francês, e aproveita e cutuca a rivalidade entre as culturas árabes e judaicas e ensina que somente com harmonia e convivência pacífica as comunidades encontrarão paz.

A verdade

"LA verité, de Hirokazu Koreeda (2019) Primeiro filme dirigido pelo Cineasta japonês Hirokazu Koreeda fora de seu País, “A verdade” concorreu no Festival de Veneza 2019. Assim como boa parte dos dramas de Korreeda, o filme explora as relações familiares e seus segredos mais íntimos. Hirokazu Koreeda não brincou em serviço: em seu filme francês, convidou duas grandes estrelas; Catherine Deneuve e Juliette Binoche. Assim como em ‘Sonata de Outuno”, de Ingmar Bergman, com Ingrid Bergman interpretando uma pianista famosa e a filha interpretada por Liv Ulmann ficando na sua sombra, o filme apresenta uma relação tempestuosa entre mãe e filha. Deneuve é Fabianne, uma atriz veterana que está lançando sua biografia. Lumir (Binoche) vem de Nova York com seu marido, o ator Hank (Ethan Hawke) e a filha pequena, Charlotte. Lumir, ex-atriz, ganha a vida escrevendo roteiros. Ela veio para o lançamento do livro. Fabianne está em um papel secundário em um filme de ficção científica, interpretando a filha de uma mulher que não envelhece. Nesse filme sobre o filme, a personagem de Deneuve revê o seu relacionamento com Lumir, e entram em crise. O roteiro, baseado em um curta metragem, foi adaptado pelo próprio Hirokazu Koreeda , que discute , além da relação familiar, as relações entre os técnicos e atores de cinema durante uma filmagem e o papel do ator dentro da sociedade. Tem um afala de Fabienne que é bastante cruel: ’Entre ser uma boa atriz e uma mãe ruim, prefiro ser a boa atriz.” Koreeda traz um sabor oriental para o filme, com planos mais longos, trilha sonora onipresente, encantamento. Mas mesmo com o talento do elenco e a direção delicada, o filme não parece um filme de Koreeda. A performance e os hábitos orientais são tão distintos, que parecia que eu estava vendo um filme francês dirigido por outra pessoa. Isso não é ruim, só uma visão de distanciamento.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Visões da Luz: A Arte da fotografia do cinema

“Visions of light: The art of cinematography”, de Arnold Glassman, Todd McCarthy and Stuart Samuel (1992) Extraordinário e obrigatório documentário que conta a história do cinema desde o cinema mudo até os dias de hoje através da fotografia. Através de depoimentos dos maiores fotógrafos do cinema, Sven Nykvist, Vittorio Storaro, Nestor Almendros, Michael Ballhaus, Conrad Hall, Gordon Wills, Vilmos Zsigmond, Haskell Wexler e Laszlo Kovacs, que explicam seus trabalhos e citam suas influências através da fotografia de fotógrafos dos anos de ouro de Hollywood, como  Gregg Toland, Billy Bitzer, James Wong Howe and John Alton.. O filme foi lançado em 1992, antes do advento do cinema digital, e foi financiado pelo The American Film Institute e Nhk Japan Broadcast.Todos os estudantes de cinema, Cinéfilos, Fotógrafos e diretores deveriam assistir ao filme. Ouvir os fotógrafos falando de suas relações com os diretores, seus métodos de iluminação, como resolver problemas, sua relação com as Estrelas de cinema e os produtores com baixo orçamento. No cinema mudo, as câmeras eram mais leves e permitiam movimentos de câmeras que se tornaram impossíveis de serem realizadas com a chegada do cinema sonoro e as câmeras extremamente pesadas. Demorou anos para que a câmera volta-se a se movimentar novamente. Começou a Era dos astros e estrelas. Os produtores exigiam aos cinematógrafos: “Não importa se estiver chuvendo na cena, pegando fogo, ventando: quero meu Ator sempre bonito”. Muitos astros traziam o seu fotógrafo preferido no contrato. Quando Greta Garbo faleceu, muitos fotógrafos reclamaram que não houve nenhuma menção ao fotografo que sempre a iluminou e que ajudou a criar a persona de Garbo. Marlene Dietrich exigia mais luz em seu rosto, destoando do restante do elenco que ficava menos iluminado. O filme paga um enorme tributo ao fotógrafo Gregg Tolland, que fotografou clássicos como “Como era verde o meu vale”, de John Ford, com uma ambientação documental e naturalista, e “Cidadão Kane”, onde ele e Orson Welles quebravam todas as regras cinematográficas em busca de nova linguagem. O filme e a fotografia por muito tempo virou a cartilha dos novos fotógrafos. John Alton fotografou vários filmes Noir e sempre dizia aos produtores, que temiam a escuridão de seus filmes; ‘Eu não tenho medo do escuro. Pelo contrário, faço a escuridão trazer informações para a cena”. O filme fala dos movimentos cinematográficos: Expressionismo alemão, a nouvelle vague e a liberdade da narrativa, o novo cinema americano dos anos 60, impulsionado por novos diretores que queriam filmar em externas, livres dos grandes estúdios. O filme contém depoimentos fenomenais, com fofocas de bastidores, resolução de problemas, e como os grandes fotógrafos usarem as suas técnicas. Gordon Willis relata um arrependimento que teve em “O poderoso chefão 2”: ele cita uma cena que ficou escura demais. O melhor depoimento ficou pro final e resume bem a importância do fotógrafo e o seu olhar sobre o roteiro e o projeto: “Fico muito constrangida quando os Diretores me pedem para imitar a fotografia dos outros filmes.

Spree

"Spree", de Henry Chastain (2015) Um filme inteiramente realizado por estudantes de cinema, ao custo de US$ 1.500,00, "Spree" é um filme sobre um jovem serial killer que resolve sair de seu isolamento na floresta, onde mora em uma cabana e vivendo de caçar animais, e decide ir até a cidade e sair matando geral, sem qualquer ressentimento ou ligação com as vítimas. Os estudantes filmaram o longa durante 1 ano, nos finais de semana, pois estavam estudando durante a semana. O filme é uma espécie de "Henry, retrato de um serial killer", cult dos anos 80, filmado em formato experimental. Rodado em preto e branco, com uma edição não linear e uma narrativa confusa. É uma experiência interessante, porém o que mais me chamou a atenção foi a trilha sonora de Ted Regklis, assustadora e bastante tensa. Henry Chastain além de dirigir, escreveu, fotografou e editou o filme. Link para assistir ao filme: https://vimeo.com/237681659?fbclid=IwAR0FmulSiK7F5exNCK5QZaOdt2ZQu6nZfCYgb2TtFeTX4T2n1Mv6HfFhqHE

terça-feira, 7 de abril de 2020

Aprendiz de espiã

"My spy", de Peter Segal (2019) Primeiro longa protagonizado por Dave Bautista, o Drax de "Guardiões das Galáxias", é um previsível, mas divertido filme de ação para toda a família. Dave interpreta JJ, um ex-soldado que agora trabalha para a CIA. JJ tem um método pouco ortodoxo e bronco de resolver as coisas, o que provoca uma ação desastrada na Rússia. Como castigo, seu chefe, David (Ken Jeong, de "Se beber não case") lhe dá uma missão ingrata: vigiar a viúva de um traficante russo,, Kate e a filha dela , Sophie, de 9 anos (Chloe Coleman, carismática e espertíssima). JJ se muda para o mesmo prédio de ate e SOphie, junto de sua parceira de ação, Bobbi (Kristen Schaal, sensacional, hilária). Sophie acaba descobrindo que está sendo vigiada por JJ e o chantageia: ela quer que ele a ensine a ser uma espiã, que se passe por um amigo próximo para acompanhá-la na escola. e afastar a garotada que pratica bullying contra ela. Mas paralelo, os traficantes russos decidem pegar um arquivo secreto que está com Sophie. O filme é aquela pancadaria, tiros e explosões de sempre, mas com o cuidado de ser um filme para toda a família, ou seja, sem violência e sangue. O filme tem cenas bem divertidas, a maioria envolvendo um casal gay vizinho, e a agente Bobbi. Dave Bautista tem carisma justamente pelo seu tipo brucutu e canastrão, e faz ótimo par com a menina Chloe Coleman. O diretor Peter Segal já é habitué de filmes passatempo: já dirigiu 'Agente 86". e "Uma nova chance", com Jennifer Lopez.

Capsized- Sangue no mar

"Capsized- blood in the water", de Roel Reiné (2019) Dirigido pelo neo-zelandês Roel Reiné, “Capsized” é mais um filme de ataque de tubarões, só que dessa vez baseada em história real, acontecido em Maryland no ano de 1982. O filme provoca aquela mesma sensação de tensão e angústia de ”Mar aberto”, o drama australiano também baseado em fatos reais sobre um casal de turistas abandonado em pleno mar infestado de tubarões. Aqui a produção é bem modestas e investe mais no drama humano, pois os ataques de tubarão são bem discretos. Dá para perceber quando na edição foram inseridas imagens de arquivo de tubarões e de resto, aparece aquela barbatana que ficou famosa no filme do Spielberg, só que o filme tem mais de 40 anos e aqui eles continuam com a mesma barbatana safada e fake. Com exceção do ator Josh Duhamell, que trabalhou na franquia “Transformers”, os outros atores são rostos menos conhecidos. O filme conta a história trágica de 5 tripulantes que embarcam em uma viagem pelo mar de Maryland e acabam sendo pegos desprevenidos por um temporal, que vira o iate. Os 5 passam dias em mar aberto, somente com um pequeno bote como auxílio. Sem comida, nem água, um por um vai enlouquecendo. Os créditos finais são emocionantes, com as fotos reais de quem sobreviveu a essa tragédia. O filme é correto, para quem quer ver os tubarões devorando a galera vale como passatempo. Para quem não aguenta mais, passa adiante que aqui não vai acrescentar em nada.

Testa de ferro por acaso

"The front", de Martin Ritt (1976) Um dos grandes clássicos do cinema Americano dos anos 70, protagonizado por Woody Allen e dirigido por Martin Ritt em 1976, “Teste de ferro por acaso” precedeu as maiores obra-primas desses dois artistas: Woody Allen viria a lançar no ano seguinte “Noivo neurótico, noiva nervosa”, e 3 anos depois, Martin Ritt lançaria “Norma Rae”. Engana-se quem for assistir ao filme pensando em encontrar uma de suas comédias ácidas: o filme até tem um delicioso humor no 1o ato, mas ao longo de sua narrativa vai se tornando cada vez mais denso. É a primeira performance de Allen no drama, que está fantástico. Woody Allen sempre foi um Cineasta e artista bastante prolífico, e estrelou esse filme enquanto dirigia , escrevia e produzia “A última noite de Boris Grushenko” e logo depois, “Noivo neurótico, noiva nervosa”. O roteiro poderoso de Walter Bernstein, que foi indicado ao Oscar, retrata os tensos anos do Macarthismo nos Estados Unidos; uma caça às bruxas aos artistas considerados “vermelhos”, simpatizantes do comunismo, que durou de 1950 a 1957. Muitos técnicos e atores foram delatados por seus colegas para evitarem de ser presos. O próprio roteirista Walter Bernstein, o diretor Martin Ritt, Zero Mostel, que co-estrela o filme e veio a falecer 2 anos depois, e mais 3 atores do elenco foram presos no período. O filme se passa em 1953 em Nova York. Woody Allen é Howard Prince. Um caixa de restaurante viciado em jogos e cheio de dívidas. Alfred, um amigo roteirista, lhe procura e lhe propõe um esquema: por estar na lista negra de Hollywood, Alfred não pode vender seus roteiros, mas propõe que Howard seja um testa de ferro e venda dizendo que os roteiros sãos seus. O roteiro faz muito sucesso e logo o produtor de tv encomenda outros roteiros. Howard pega roteiros de outros roteiristas da lista negra. Mas quando se envolve com o ator Hecky Borwn (Zero Mostel) e a produtora Floence (Andrea Marcovicci), Howard se dá conta do período de terror que está vivenciando. A sequência final no tribunal é uma das grandes cenas do filme. Um show de interpretação e obviamente roteiro e direção, o filme é obrigatório para quem quiser estudar o período do Macarthismo. Um hino de Amor contra a censura e a favor da liberdade do artista.

The other lamb

\\ "The other lamb", de Malgorzata Szumowska (2019) A diretora polonesa Malgorzata Szumowska definitivamente é uma cineasta que merece a sua atenção. Depois dos excelentes, premiados e polêmicos dramas "Em nome de"( sobre um Padre que se apaixona por um rapaz), 'Body"( sobre uma jovem anoréxica) , Malgorzata Szumowska vem com uma parábola de prisma de terror sobre uma seita que remete imediatamente à "The handmaid's tale", "Midsommar" e "A bruxa". A temática do patriarcado e do mundo governado por homens tiranos e déspotas ganha um contorno religioso, com um Pastor em forma de Jesus Cristo pop e galã ( Michiel Huisman, de "AGme of thrones'). O PAtor, que não tem nome, comanda uma seita onde somente mulheres são permitidas, divididas em duas catas hierárquicas: as "mães" e as "filhas". Quando as filhas atingem a puberdade, constatado pela menstruação, elas passam a ser as novas mães. Quando na gravidez uma das mães dá à luz um menino, o bebê é morto e a mãe rebaixada na hierarquia das esposas. Quando uma das filhas , Selah (Raffey Cassidy) começa a menstruar, ela passa a ter visões que a fazem questionar tudo o que está a ser redor. Raffey Cassidy interpretou a filha de Collin Farrell em 'A morte do cervo sagrado" e está excelente no filme. A fotografia é das mais lindas que vi nos últimos tempos, de Michal Englert, fotógrafo habitual da diretora. As composições ea luz remete imediatamente ao metafísico e aura de sonho dos filmes de Terrence Malick. Michiel Huisman é perfeito para o papel: bonito. sedutor, e tão tirano que no desfecho a gente até aplaude. Escrito pela roteirista australiana C.S. McMullen, "The other lamb" é um libelo feminista, um alerta e um pedido de socorro de sociedades que impõem com mão de ferro a tirania cunhada pelo padrão machista e patriarcal. Obs: Amei o Black Philip branco do filme ( uma alusão ao Black Philip negro de "A bruxa".

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Sapo branco

"Sapo branco", de Quentin Lee (2012) Drama LGBTQI+, que também traz o tema da síndrome de asperger e homofobia. Todos esses temas atormentam a mente de Nick, um adolescente diagnosticado com autismo e que tem como ídolo o seu irmão mais velho, Chaz (Harry Chum Jr, de "Glee'). Quando Chaz morre em um acidente de trânsito, Nick se vê sem rumo. SEus pais, Irene (Joan Chen, de "O último imperador") e Oliver lamentam que Chaz tenha morrido no lugar de Nick, que tem um temperamento muito difícil. Chaz sempre foi visto por todos como o filho perfeito, o aluno ideal, sem defeitos, e toda essa cobrança sempre deixou Nick se sentindo um jovem frustrado, tornando-o agressivo e arredio. Quando Nixk descobre através do melhor amigo de seu irmão que ele era gay e que ambos eram namorados, Nick surta, pois sempre aprendeu que ser gay era algo errado. Oa psi de Chaz também não aceitam ouvir a versão de que o filho era gay. Um grande conflito se instala na família. O grande lance do filme é o diretor asiático Quentin Lee ter escalado atores igualmente asiáticos nos Estados Unidos. Isso deu ao filme um tempero especial, valorizando o lado cultural do projeto e mostrando que a questão racial não é um problema, e sim, a homofobia e o preconceito contra portadores de autismo. Um filme decente, correto, que apela para um melodrama, mas nada que estrague o prazer de se assistir ao filme que possui belas mensagens de aceitação e superação. O termo "Sapo branco" significa que, se você teve um sonho com um sapo branco, esse sonho indica que você será surpreendido por mudanças positivas em sua vida.

Amor ordinário

"Ordinary love", de Lisa Barros D'Sa e Glenn Leyburn (2019) Poderoso e comovente drama inglês, escrito pelo roteirista Owen McCafferty que se baseou em experiência própria com a descoberta do câncer de mama de sua esposa. O filme retrata de forma documental e dolorosamente intimista, o dia a dia do casal Tom (Lian Neeson) e Joanne (Lesley Manville, de "A trama fantasma", de Paul Thomas Anderson"). O casal mora sozinho e perderam uma filha ainda criança. Quando Joanne percebe um cisto e após os exames descobre ter câncer, ela precisa lidar com as consequências emocionais e físicas que o tratamento fará com ela. Tom, por outro lado, não sabe como lidar com a possibilidade de perder Joanne e se bloqueia. Apesar de todos os ingredientes para um super dramalhão, "Amor ordinário"é filmado de forma a evitar as lágrimas e o melodrama barato. Muito por conta do trabalho extraordinário dos atores: Lian Neeson e Lesley Manville estão soberbos, exalando naturalismo e em momento algum tendo momentos explosivos. Tudo é bastante comedido e intimista. A direção do casal Lisa Barros D'Sa e Glenn Leyburn também é fundamental para essa narrativa funcionar; muitas vezes, nos momentos mais densos, a câmera fica distante, em plano geral, como se fosse o olhar de alguém de fora. Um filme que poderia perfeitamente ter dado prêmios aos atores.

Guilherme no telhado

"Guillermo en el tejado', de Miguel Lafuente (2018) Bom curta LGBTQI+ espanhol, é um drama que fala sobre homofobia e imigração de refugiados Sírios em Madri. Guillermo é um curta-metragista que está desenvolvendo um projeto de curta onde ele narra a sua história de amor com Hugo. Seus produtores alegam que a história é banal e que não interessa a ninguém, pois é repleto de clichês. Mas Hugo insiste e mais, quer interpretar a si mesmo. Os produtores pedem para que Guillermo dirija uns refugiados sírios para um documentário, pois ele fala inglês. O primeiro a dar depoimento é Samir, um jovem duplamente refugado: ao fugir da Síria com sua familia, e abandonado por eles ao decsobrirem que ele é gay. Guillermo se deixa emocionar pelo depoimento e percebe que o relacionamento que ele tem com Hugo é baseado em likes de Instagram e pegações que Hugo insiste em manter pelo Grindr. Com uma delicada direção de Miguel Lafuente, o filme também tem uma linda fotografia de Madri e uma história comovente sobre abandono e homofobia.

domingo, 5 de abril de 2020

Fotografando a Máfia

'Shooting the Mafia", de Kim Longinotto (2019) Exibido em importantes Festivais como Berlin e Sundance, "Fotografando a Máfia" é dirigido pela cineasta irlandesa Kim Longinotto e expõe sem censura a vida e obra da famosa fotógrafa italiana Letizia Battaglia, nascida em Palermo, Sicíli em 1935. O filme é dividido em 4 segmentos distintos: as famosas fotos de Letizia registrando as ações da Cosa Nostra, a Máfia italiana na Sicília, desde que ela começou a fotografar de 1970 aos dias de hoje; imagens de arquivo da vida social e cultural da Italia; cenas de famosos filmes neo-realistas; e a própria Letizia, dando depoimento aos 85 anos de idade, fumando um cigarro atrás do outro e explorando o seu trabalho como fotógrafa, sua vida pessoal e amorosa. Quando Letizia tinha 12 anos, ela viu um homem se exibindo e se masturbando para ela. Letizia correu para casa e contou para seus pais, que desde então, a proibiu de sair de casa, Letizia sentiu-se presa e passou a sua infância reclusa. Aos 16 anos, ela se casou forçada. Teve dois filhos e aos 40 anos de idade, resolveu se libertar de sua vida de dona de casa ( seu marido a proibia de trabalhar fora). Ela se tornou fotógrafa de jornalismo, mas ao registrar as mortes de pessoas assassinadas pela Máfia, ela resolveu apostar nesse filão. Suas fotos exploram a crueldade do ser humano em fotos preto e branco. Ela dá um depoimento dizendo que a filha de uma mulher assassinada em uma foto pediu para que a foto fosse retirada de uma galeria que fazia exposição de fotos de Letizia: a mãe era prostituta e na foto, ela tinha sido assassinada junto de 2 rapazes gays. Ela queria dar um golpe na vende de drogas e acabou sendo morta. Letizia expõe sua vida amorosa sem rodeios e sem tabus: quando se divorciou, resolveu ter inúmeros amantes, todos mais jovens do que ela, para aproveitar seu tempo perdido. Hoje em dia ela é casada com um fotógrafo 45 anos mais novo do que ela, e não tem problemas com isso, mesmo quando percebe que as pessoas viram os olhos para ela. Letiza e a diretora Kim fazem do filme um libelo de empoderamento feminino, sobre a luta de mulheres pelo seu trabalho, que enfrentam preconceitos profissionais, o medo e a violência no seu dia a dia em prol da arte que tanto amam.

Risco dobrado

"Olivia", de Uli Lommel (1983) Slasher cult de 1983, co-produzido pelos Estados Unidos e Alemanha ocidental, a história do seu diretor e roteirista Uli Lommel e de sua protagonista Suzanne Love já daria um filme fantástico. Uli Lommel começou sua carreira como Ator, e protagonizou uma dezena e filmes de Fassbinder, como "O amor é mais frio que a morte"e "precaução ante uma prostituta. Ainda na Alemanha, Uli começou dirigindo uns filmes B. Conheceu a atriz americana Suzanne Love e se casaram. Herdeira da multimilionária Dupont, Suzanna bancou diversos filmes do marido, só para poder protagonizar os filmes, a maioria, filmes B de terror slashers, como "The Boogie man". "Risco dobrado", também conhecido como "Olivia", é um slasher filmado em Londres e no Arizona.Motivo: Suzanne e Uli descobriram, durante um passeio, que a Ponte de Londres foi reproduzida no Arizona. O filme surgiu dessa premissa: Olivia, no passado, aos 5 anos de idade, é filha de uma prostituta que faz michê debaixo da ponte de Londres. Olivia acaba testemunhando o assassinato de sua mãe por um dos clientes. 15 anos depois, Olivia está casada com um operário machista, que a obriga a ficar em casa fazendo comida e para fazer sexo com ele. Olivia passa a ter alucinações com sua mãe, e resolve, escondida do marido, se vestir de prostituta e ir fazer michê d enoite na Ponte de Londres. Um dia, ela conhece o engenheiro americano Michel, e ambos se apaixonam. Após um trágico acidente, Olivia desaparece. 5 anos depois, trabalhando na construção d aponte de Arizona, Michael vê uma mulher e cisma que ela 'Olivia, mas ela nega. O filme é uma mistura muito bizarra de "A bela da tarde"com "Um corpo que cai". Uli descaradamente rouba elementos de ambos os filmes, acrescentando a sub-trama slasher. É um típico filme B trash, mas acaba sendo divertido pela loucura da trama e pela presença magnética de Suzanna Love.

Don't let go

"Don't let go", de Jacob Estes (2019) Caralho, que filme foda! Que roteiro repleto de twists fodas! Dos mesmos produtores do mega sucesso 'Corra!', de Jordan Peele, 'Don't let go" possui um elenco totalmente composto por atores afro-americanos, com exceção de Alfred Molina. O filme foi um enorme sucesso no Festival de Sundance 2019, e mistura os gêneros drama, policial, suspense e ficção científica de forma extremamente eficiente. O terço final eu fiquei tão tenso que nem me mexia da cadeira, desesperado pelo destino dos personagens. Imagine uma mistura insana de "Efeito borboleta" com 'Feitiço do tempo"? , com elementos de tensão e paranóia que existem em 'Corra!"? Em Los Angeles, o policial Jack ( de "Selma") tem uma relação carinhosa com sua sobrinha Ashley (Storm Reid, de "A dobra do tempo", fantástica). Eles se comunicam direto por celular, devido ao excesso de trabalho do Jack ele mal consegue ver a sobrinha nem seu irmão. Uma tragédia enfim acontece: Ashley, seu irmão e sua cunhada são assassinados. A polícia diz que o irmão de Jack era depressivo , matou a família e se suicidou. Logo após o funeral, Jack, destruído, recebe um telefonema: é Ashley. Jack estranha, acha que está estressado. Mas Ashley liga de novo, e pior: ela conversa normalmente com o tio, como se nada estivesse acontecendo. Jack percebe então que entrou em alguma fenda do tempo e que Ashley está há dois dias atrás dele. Ele fará de tudo para poder reverter a situação e salvara vida de Ashley e da família. O filme poderia ser perfeitamente um episódio alongado extraído de "Black mirror"ou "Twilight zone". Ele tem essa narrativa fantástica, e o espectador procura não fazer conexões sobre o porquê essa fenda temporal se abriu, e sim, passa a querer que Jack salve a vida da sobrinha. A direção e principalmente a edição do filme deixam o público desnorteado, misturando os 2 tempos e chega uma hora que faz pegadinhas com o espectador. É sublime, um filme inteligente e que, assim como eu, vai te deixar tenso. A parte final é arrebatadora.

sábado, 4 de abril de 2020

A árvore dos frutos selvagens

"Ahlat Agaci ", de Nuri Bilge Ceylan (2018) Nuri Bilge Ceylan é o cineaste turco mais celebrado da atualidade, tendo ganho vários prêmios em importantes Festivais. O filme concorreu no Festival de Cannes 2018, de onde Ceylan já saiu com diversas Palmas de ouro: melhor filme por “O sono do inverno”, melhor direção por “Os três macacos” e 2 vezes Prêmio do júri, por “Climas” e “Era uma vez em Anatólia”. “A árvore dos frutos selvagens” não recebeu nenhum prêmio em Cannes, e dividiu a crítica no mundo inteiro. Muitos criticarem o excesso de duração, e de fato, é o que mais pesa no filme. Boa parte dos seus filmes são longos, mas aqui é um excesso que não acrescenta em nada na dramaturgia, tornando tudo repetitivo e sem foco. Sinan (Dogu Demirkol) acaba de se formar como professor primário na Universidade da cidade grande. Conforme prometido para seu pai, ele retorna à cidade natal, que foca na zona rural da Turquia, uma cidade pequena. Chegando na cidade, ele já é confrontado com amigos de seu pai, que lhe cobram empréstimos em apostas de cavalos. Sinan descobre que o pai, o professor primário Idris (Murat Cemcir) entregou a casa onde mora com a esposa e filha para pagar as apostas. Sinan fica inconformado com o destino de sua família. Ele escreveu um manuscrito e precisa de dinheiro para mandar publicar. Sem chances de arranjar dinheiro com seu pai, ele procura outra forma de empréstimo. Ao longo de sua trajetória na cidade, ele revê antigos amores, antigos amores, o Ímã e um escritor famoso. Apesar do excesso de duração (190 minutos), é inegável a beleza das imagens, captada pelas lentes de Gökhan Tiryaki, fiel fotógrafo de Ceylan de todos os seus filmes. Ceylan reitera na sua filmografia a imponência da natureza diante da pequenez humana. São imagens grandiloquentes contrastando com a claustrofobia dos ambientes fechados da casa do protagonista. A cena final é de uma força estonteante: Sinan cavando um poço em busca de água, uma metáfora triste sobre a persistência diante do improvável. O filme expõe a dura realidade d avida de pessoas sem perspectiva de futuro, onde a rotina e a pobreza já parecem conformadas em suas vidas.

Nunca raramente algumas vezes sempre

"Never rarelly sometimes always", de Eliza Hittman (2020) Depois de fazer grande sucesso no circuito indie americano com seu filme "Ratos de praia", filmado em Nova York e Conney Island e tendo como tema a juventude desesperançada, a roteirista e cineasta Eliza Hittman retorna aos mesmos temas mas de forma ainda mais contundente. Vencedor de prêmio no Festival de Sundance e Grande prêmio do juri no Festival de Berlin 2020, o filme retrata o drama de Autumm (Sidney Flanigan, espetacular) uma jovem de 17 anos que descobre estar grávida. O problema é que aonde ela mora, Pensilvânia, não é permitido aborto para menores de 18 anos. Auttum trabalha de caixa em um supermercado junto de sua prima Skylar (Talia Ryder) e ambas decidem ir até Nova York para fazer o aborto lá, onde é permitido. Chegando em Nova York, ambas passam por périplos de quem nuca esteve antes numa cidade grande: pegar metrô, andar pelas ruas, conhecer estranhos, se sentir solitários na grande metrópole. Com uma impressionante direção que resulta em lindos enquadramentos , um tom documental auxiliado por uma fotografia contundente da fotógrafa Hélène Louvart, "Nunca raramente algumas vezes sempre'é um olhar feminino dentro de um universo cruel e frio que não valoriza a humanidade e sim o egoísmo e individualismo. Um filme melancólico e poderoso. Curiosidade: o título se refere às respostas que Autumm dá para a recepcionista da clínica de aborto.

Lazy Susan

"Lazy Susan", de Nick Peet (2020) Projeto pessoal do ator Sean Hayes, da série "Will and Grace", que aqui co-escreveu e produziu essa comédia dramática sobre Susan (Hayes), uma mulher trans na faixa dos 40 anos, moradora de Wisconsin, uma cidade conservadora e provinciana. Susan está desempregada, solitária e não se dá com sua família. Ela acorda tarde todo dia, recorta revistas roubadas dos vizinhos as fotos de produtos de consumo que ela ama mas não pode pagar. Sem dinheiro, Susan às vezes recorre à sua mãe, que vive lhe cobrando um emprego. O irmão de Susan, um médico, também lhe faz cobranças. Mas SuSan não está feliz; ela está deprimida, e isso lhe rouba as energias. Parece loucura em pleno ano de 2020, do politicamente correto e do lugar da fala, um Ator cis interpretar uma mulher trans. Essa é a eterna discussão sobre o papel do ator nos dias de hoje. Sean é gay assumido, casado com um homem, mas segundo várias críticas, não poderia interpretar a trans. Só para registo, Sean está excelente como Susan: ela definitivamente não é uma personagem por quem nos apaixonemos, e isso é o barato do filme. Como sintor carisma por uma personagem tão agressiva e mal humorada? Sean tem a sutileza de interpretar pequenos momentos de vivacidade de Susan, seja ela cantando, ou sentindo desprezo por alguém, que a torna tão real, tão próxima de nós. O filme balanceia pro humor inteligente e pro drama, sem concessões para agradar uma plateía. É um filme com visual meio John Waters, com figurinos e maquiagem de filmes trash, mas bem divertidos. Esse olhar debochado, e as performances de todo o elenco ( participações especiais de Allison Janney , como a gerente do Kmart, e Matthew Broderick, como o senhorio do aluguel) fazem valer assistir a essa delícia independente.

Uma vida em segredo

"Uma vida em segredo", de Suzana Amaral (2001) Em 1985, a cineasta Suzana Amaral se projetou para o mundo com o grande sucesso de "A hora da Estrela", adaptação de Clarice Lispector e que lançou a carreira da atriz Marcélia Cartaxo. A saga da menina retirante e ingênua e que encontra um fim trágico se repete, 16 anos depois, no clássico "Uma vida em segredo", adaptado da obra de Autran Dourado. Sai Macabéa, entra Biela, em performance minimalista e brilhante de Sabrina Greve, que estréia na tela grande após carreira como atriz de teatro. Biela foi criada na roça, de família rica e sempre preferiu a companhia dos criados do que de sua família e da aristocracia. Com a morte dos pais, Biela vai morar com seus primos, que ela não conhecia, na cidade grande: Constança (Eliane Giardini, primorosa) e Conrado (Cacá Amaral). Constança quer mudar o jeito brejeiro e pobre de Biela: muda seu figurino, a separa da criadagem, quer que ela se case e até arranja um noivo. Mas Biela é de poucas ambições na vida: ela quer conversar com os criados na cozinha e comer torresminho frito. Assim como em 'A hora da estrela", ela conhece um noivo, mas ele simplesmente a abandona, e nesse universo de olhar feminino, mas conservador onde moram as heroínas da literatura, n!ao lhes é permitido ser independente. O filme é lindamente dirigido por Suzana, que apostou em um cinema de delicadeza, lento como um sopro de sopro. Tudo é muito sensível: as performances, os enquadramentos, o olhar sobre a natureza, a trilha sonora. A fotografia do Mestre Lauro Escorel ajuda a dar esse componente de mundo realista e mágico ao mesmo tempo. Uma obra imperdível, vencedora de vários prêmios no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Por lugares incríveis

"All the bright places", Brett Halley (2020) Duas coisas me saltaram aos olhos enquanto assistia a essa drama adolescente baseado no best seller de Jennifer Niven e que tem como tema os transtornos mentais que levam `à depressão e ao suicídio: 1) Escalar Luke Wilson, irmão de Owen Wilson, que tentou suicídio em 2007 2) Constatar que Elle Fanning..é uma atriz muito foda! Que menina danada! Em Indiana, Violet (Elle Fanning) se encontra em estado de profunda depressão no dia em que a irmã faria 19 anos: as duas se envolveram em um acidente de carro onde a irmã de Violet morreu. Violet nunca superou esse trauma e em crise, tenta se jogar de uma ponte. Nesse momento, Finch (Justice Smith) estava fazendo cooper e salva Violet. Ambos são colegas da mesma turma na escola mas não se falavam. Finch também possui um trauma de sua infância que o fez se bloquear socialmente. Os dois se tornam amigos, e Finch propõe ajudar Violet a sair de sua depressão, levando-a a lugares que Finch considera como imperdíveis em indiana. O filme tem uma bela mensagem que diz que mesmo que você esteja em um lugar feio e sme graça, a forma como você o enxerga pode fazer o lugar se tornar bonito. Nessa metáfora emotiva e sentimental, Finch vai transformando Violet através da percepção de que estamos cercados por coisas belas que merecem ser valorizadas. O filme, apesar de detonado por parte da crítica, merece ser visto pelos temas propostos, sem concessões ou final feliz, e que faz refletir sobre os transtornos mentais. Não é um romance teen nem comédia, é um drama com adolescentes como protagonistas. Ótimas performances de Elle Fanning e de Justice Smith, que trabalhou em 'Cidades de papel", que também fala sobre traumas na adolescência).

Teu mundo não ca nos meus olhos

"Teu mundo não ca nos meus olhos", de Paulo Nascimento (2019) Escrito e dirigido pelo Cineasta gaúcho Paulo Nascimento, que começou sua carreira como documentarista e curta-metragista e estreou na direção de longa ficção em 2005, com “Diario de um novo mundo”. Os 2 longas contam com o protagonismo de Edson Celulari, que também produz o filme. Além de Celulari, o filme, que é uma co-produção com Argentina e Uruguai, conta com a atriz argentina Soledad Villamil, de “O Segredo de seus olhos”, e o uruguaio Roberto Birindelli. Mas quem rouba as atenções no filme é o ator gaúcho Leonardo Machado, falecido precocemente em 2018. Ele interpreta Cleomar, garçon que trabalha na pizzaria de Vittorio (Celulari). São deles as tiradas mais divertidas do filme, cobertas de humanidade e carinho. Vittorio é descendente de italianos e é dono de uma pizzaria no Bexiga, bairro tradicional de descendentes italianos em São Paulo. Vittorio é cego, mas essa característica é que faz com que suas pizzas fiquem deliciosas e o grande motivo da casa ficar sempre cheia. Sua esposa, a professora Clarice (Villamil) descobre por um médico (Birindelli) que é possível reverter a cegueira de Vittorio e ele voltar a enxergar. Mas Vittorio resiste à idéia: se acostumou a enxergar dentro do seu mundo. A partir daí, ele entra em conflitos com Clarice e Alicia, sua filha adolescente. Com boa direção de Nascimento, o filme narra em tom de melodrama a trajetória complexa de Vittorio. É difícil questionar a sua dúvida em querer voltar a enxergar. Parece algo óbvio ele querer ver o mundo ao seu redor, mas o roteirista Paulo Nascimento fez ampla pesquisa com deficientes visuais e se baseou nas entrevistas para compor o dilema do personagem. O filme tem ótima qualidade técnica, tanto na fotografia, trilha sonora e direção de arte.

Flor do desejo

"Flor do desejo", de Guilherme de Almeida Prado (1983) Segundo longa metragem dirigido por Guilherme de Almeida Prado, no ano de 1983, rendeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Brasília para Cida Moreira. Guilherme estreou na direção com a pornochanchada "As taras de todos nós". O filme foi um grande sucesso comercial e possibilitou que Guilherme pudesse investir em um projeto mais pessoal. Ele adaptou o conto "Sabrina de trotoar e de tacape", de Roberto Gomes e reuniu um elenco de atores e atrizes renomados: Caique Ferreira, Imara Reis, Cida Moreira, Tamara Taxman, Luis Carlos Arutim. Caique Ferreira, um ator bastante promissor na época, interpreta o marinheiro Gato. Ele trabalha no cais do porto e procura sobreviver com o pouco dinheiro que ganha. Na cidade, a boite Flor do Desejo é a grande sensação, comandada pela cafetina Lady (Tamara Taxman). Imara Reis é Sabrina, uma prostituta que trabalhava para lady mas resolveu trabalhar por conta própria. Quando Sabrins sai com um cliente que a espanca, Gato surge e a salva. Gato e Sabrina resolvem fazer uma sociedade; ela atende os clientes, e Gato os assalta. Guilherme de Almeida experimentou o seu olhar de cinéfilo, trazendo referências da decadência da Boca do Lixo ao glamour dos Filmes B de Hollywood. Seus personagens frequentam ambientes mundanos e a fotografia costuma trabalhar elementos do cinema noir, com muita sombra. Hoje em dia, esses elementos experimentados por Guilherme ficaram bastante datados , mas continuam sendo ótimos filmes para se estudar a filmografia brasileira dos anos 80, e de que forma essas referências cinematográficas foram importantes para desenvolver esse cinema tão peculiar da época, chamado por alguns críticos de “Neo noir pós moderno paulista”.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

O primeiro

"The first", de James Sweeney (2011) Premiado curta LGBTQI+, foi realizado pelo estudante James Sweeney enquanto estudava na Chapman University, na Califórnia. Sweeney escreveu e dirigiu uma história sobre um rapaz, Drew, que namora uma menina, Annie, e estão programando a primeira vez. Só que, para surpresa do espectador, a primeira vez de Drew acaba sendo com um rapaz, Nathan. E logo depois com Annie. Drew descobriu a delícia de ser bissexual, e agora quer ter relacionamentos em aberto com todo mundo. James Sweeney brinca com a estrutura clichê das comédias românticas americanas: logo no prólogo, parece que você está vendo algum filme com Noah Centineo, com direito a flaires de luz estourando, paisagem idílica trilha sonora pop, cores..e de repente, corta para uma cena de sexo entre dois garotos. Para um filme de estudante, Sweeney faz um trabalho de gente grande: é um filme correto, tecnicamente bom, com o tempo certo para contar a sua história e nada de rodeios. Os atores estão ok para a proposta do filme, que é justamente brincar com os estereótipos de gene bonita e sem muita coisa para falar. Link para assistir ao filme: https://www.youtube.com/watch?v=60c8kXJP7jg

Climas

"Iklimler", de Nuri Bilge Ceylan (2006) Nuri Bilge Ceylan é atualmente, o cineasta turco mais premiado do mundo. 4 anos depois de seu filme "Distante" vencer Palma de Ouro de melhor ator e o grande prêmio do juri, ele ganha em 2006 o Prêmio Fipresci em Cannes. Futuramente, ele ganharia a Palma de Ouro de melhor filme por "Sono de inverno", Grande prêmio do juri por "Era uma vez em Anatólia e Palma de Ouro de melhor diretor por "Três macacos". Tanto reconhecimento é fruto de seu talento como um realizador que se inspirou na filmografia de grandes cineastas, como Tarkovsky e Bergman, principalmente. O estudo da alma humana em planos longos é como ele desenvolve suas histórias. "Climas" é seu primeiro filme rodado cm câmera HD, e foi filmado durante as 4 estações do ano, que interferem nos sentimentos e nas emoções de um casal em crise, fotografado com brilhantismo por Gökhan Tiryaki, o fotógrafo de todos os filmes de Nuri. O próprio Nuri e sua esposa Ebru Ceylan se desnudam para a câmera, interpretando o casal Isa e Bahar: ele professor universitário, ela produtora de arte de uma série de tv. Durante todo o filme, acompanhamos os pontos de vista da relação desgastada, em cenas mudas, quase sem diálogos. É impressionante como Nuri e Ebry se tornam tão fragilizados em cena, sem vaidade. A cena de Nuri fazendo um sexo selvagem e doloroso com a sua amante é uma porrada, quase um estupro, mas consentido. É a dor da separação, da perda se transformando em sexo animalesco.Outra cena brilhante é a da moto, com Isa e Bahar em silêncio: só os olhares já falam por eles. Aula de cinema.

Não aceite sonhos de estranhos

"Non accettare i sogni dagli sconosciuti", de Roberto Cuzzillo (2015) Escrito e dirigido pelo cineasta italiano Roberto Cuzzillo, "Não aceite sonhos de estranhos" é um drama LGBTQI+ que fala sobre a homofobia nos esportes e na Rússia, País que desde a entrada do Presidente Putin, tem sofrido casos severos de espancamento e assassinatos de homossexuais ( o filme inclusive mostra cenas reais de violência contra gays). Massimo é um jovem nadador italiano que viaja para a Rússia para uma competição. Vladimir é o tradutor russo que será intérprete de Massimo. Com o tempo, rola uma afinidade entre ambos e se tornam amantes. Massimo pede para Vlaidmr sair do armário, mas esse diz que é impossível na Russia. BA véspera do campeonato, ambos sofrem ataque homofóbico nas ruas. O filme é interessante como denúncia, mas como narrativa, ficou a desejar: não sei por qual motivo, o diretor Roberto Cuzzillo misturou à história , cenas de um filme mudo, incluindo cartelas com legendas. Essa mistura não fez bem ao filme, não combinou. O filem tinha potencial para ser um projeto mais abrangente para uma platéia mais ampla, mas essa visão mais experimental do autor segurou o freio do filme. Uma pena.

Fireworls- Luzes no céu

"Uchiage hanabi, shita kara miru ka? Yoko kara miru ka? ", de Akiyuki Shinbo (2017) Da mesma produtora que realizou a excelente animação "Your name", SHAFT, "Luzes no céu'é uma fantasia romântica sobre o primeiro amor, um tema muito semelhante com "Your name', de onde ele empresta também o conceito de mundos paralelos e viagens ao tempo. Em uma cidade do litoral, moram os adolescentes Norimichi e Azumi, melhores amigos. Ambos são apaixonados pela misteriosa Nazuna. Um dia, Nazuna encontra na praia uma pequena bola de cristal. A mãe de Nazuna se casou de novo e vai se mudar da cidade, e quer que Nazuna vá junto. Triste, Nazuna quer fugir, mas ela quer que ou Norimichi ou Azumi fujam com ela. Quem ganhar uma competição de natação, fugirá cpm ela no dia da celebração religiosa da cidade, onde d enoite haverá explosão de fogos de artifício. Norimichi logo descobrirá os poderes d abola de cristal, capaz de fazer as pessoas voltarem no tempo em um mundo paralelo, para alterar o futuro. O filme recebeu uma saraivada de críticas negativas mundo afora. Muita gente criticando o roteiro, achando confuso, personagens mal desenvolvidos. Criticaram também o visual flat e pouca movimentação. Não acho o filme extraordinário, mas gostei de ter visto. É bonita, tem uma bela trilha sonora, a história sim, é complexa, mas tem uma pegada de "Efeito borboleta" que eu curti. Super valeu assistir. E filmes sobre primeiro amor, amor de verão, costumam ser bem bacanas e repletos de romantismo.

Quando estou com você

“When I'm with you”, de Daniel Armando (2015) Delicado e emocionante drama LGBTQI+ escrito, produzido, protagonizado, editado na imagem e som por Adrienne Lovette. Porto Riquenha, ela escreveu o roteiro e batalhou financiamento, pois entendeu que era a forma que ela tinha de poder protagonizar um projeto e mostrar o seu talento de atriz. Resultado: o filme ganhou prêmios em Festivais de cinema independente, justificando o sonho de Adrienne. Ela convidou o Diretor, com quem ela já tinha trabalhado antes, e boa parte do elenco são amigos pessoais dela, pois ela tinha um desejo de se cercar de pessoas próximas à ela e lhe dar segurança e confiança no seu primeiro projeto pessoal. O filme se passa em uma Nova York da periferia. Uma metrópole triste, sem turistas, uma sociedade marginalizada e estigmatizada. Adrienne é Lea, uma galerista de arte. Ela é uma mulher solitária, que convive com o seu irmão mais jovem, Evan. Ambos são órfãos. Evan se tornou um jovem rebelde e faz parte de uma gangue de homofóbicos que agride os gays nas ruas. Logan é o melhor amigo de Lea, por quem ela sente uma paixão platônica. Logan vive de pegação nas baladas. Quando Logan conhece Karl, sua vida se transforma: Karl quer um relacionamento sério, o que desestrutura Logan emocionalmente. O filme lembra a estrutura do filme ‘Crash”, com as histórias e personagens se entrecruzando, caminhando para uma inevitável tragédia. Além do formidável trabalho dos atores, a fotografia é um destaque que precisa ser citada: Ryan Balas filma Nova York e Conney Island com um olhar bastante dramático, com estilização que eu amo nos filmes independentes, que é a câmera na mão e uso do foco e desfoco. Parabéns à atriz Adrienne Lovette pela iniciativa de trazer ao espectador e para si própria, um trabalho digno e contundente, com uma linda mensagem de superação e aceitação.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Ekaj

"Ekaj", de Cati Gonzalez (2015) Escrito, dirigido e produzido pela Cineasta independente Cati Gonzalez, ex-fotógrafa de moda de rua nos Estados Unidos, e que resolveu apontar a sua câmera para a sociedade marginalizada. O material de markeitng do filme diz que "Ekaj"é uma mistura de "Kids"e "Perdidos na noite", e não estão enganados: é um filme virulento, cruel, decadente, sórdido, que abrange a vida de garotos de programa viciados em drogas nas ruas de Nova York, misturados ao drama do HIV, falta de moradia e muita violência. Cati Gonzalez escalou não atores para o seu filme, para dar uma realidade documental, nua e crua. A fotografia lembra os filmes dos anos 60 de Andy Warhol e Paul Morrisey: sujos, sem iluminação, granulados. "Ekaj"foi exibido em uma centena de Festivais de cinema independente, e é um olhar extremamente trágico e melancólico sobre uma geração de jovens LGBTQI+ expulsos de casa e sem ter aonde ficar. Ekaj é filho de um pai latino e conservador. Ekaj tem 16 anos, e quando seu pai descobre que ele é gay, o expulsa de casa. Ekaj pega um ônibus e vai tentar a sorte em NY. Sem ter aonde morar, ele dorme nas ruas, até conhecer Mecca, um jovem soropositivo e todo tatuado. Mecca é ladrão e se apaixona por Ekaj, a quem resolve adotar e cuidar dele. Mecca arruma clientes para Ekaj, e lembra bastante o personagem de Dustin Hoffman em "Perdidos na noite", uma referência explícita para a diretora Cati Gonzalez. Ter filmado com não atores e rodado de uma forma que pareça documentário, Cati expõe uma América fora do cartão postal: decadente e desesperadora. Ela conseguiu extrair performances convincentes de seus "atores", um naturalismo brutal e que traz um incômodo arrebatador.

Miles Davis- o inventor do Cool

"Miles Davis- the birth of Cool", de Stanley Nelson (2019) Para quem é fã do músico de jazz Miles Davis, morto em 1991, esse documentário é imperdível. Lançado no Festival de Sundance 2019, o filme é repleto de fotos e imagens raras de Miles Davis desde a sua infância até o ano de sua morte, com narração em off do ator Carl Lumbly, que copia o estilo de Miles Davis no timbre. O filme é convencional, alternando imagens e cabeças com depoimentos, entrevistando a ex-esposa Frances Taylor Davis, músicos, jornalistas, produtores de música famosos como Quincy Jones, familiares, amigos. Miles sempre sofreu muito com o racismo e isso lhe trouxe uma raiva interna que ele jogava para a música. Nascido em Illinois, na cidade de Alton, Miles teve o privilégio de ser criado em uma família de ricos: seu pai era dentista e sua família considerada a 2a mais rica da cidade. Incentivado por sua mãe, Miles foi estudar em Nova York em uma escola de música. Começou a tocar em uma banda com Charlie Parker e Dizzie Gillespie. O filme fala sobre a famosa Rua 52 em NY, repleta de casas de show que tocavam Jazz. Nos anos 50, Miles viajou para Paris, e lá, conheceu a cantora Juliette Grecco, com quem começou a namorar. Ela o apresentou para a nata da intelectualidade em Paris: Picasso, Dali, etc. Em 1955, de volta à NY, ele forma o Miles Davis Quintet. O cineasta Louis Malle o convidou para fazer a trilha sonora de seu filem noir "Ascensor para o Cadafalso", em 1957. O filme ficou muito famoso por conta de sua trilha sonora, e muitas pessoas ouviam a trilha e somente depois iam assistir ao filme. Um dos momentos mais extraordinários do filme, é o processo de criação de Miles Davis ao compôr a trilha do filme: em um estúdio, ele assistia ao filme e compunha na hora, influenciado pelo ritmo do filme, pelas emoções dos personagens. Miles não sabia escrever composições, e a experiência no filme foi uma reviravolta em sua vida: foi al que ele desenvolveu o improviso, marca registrada de sua música a partir daí. Logo depois, Miles, ao retornar para NY, conhece Frances Taylor, atriz e dançarina, e se casam. O filme apresenta depoimento de Francesm que diz que no iníio era tudo maravilhoso, mas Miles era muito ciumento e machista e a obrigou a sair do espetáculo "West side atory", além de ter batido nela por ciúmes dela com Quincy Jones. O filme apresenta os 2 lados de Miles: o gênio criador, romântico, ídolo de muitos cantores, como Carlos Santana, Prince, e o Miles viciado em heroína e cocaína, que batia em mulheres, que desrespeitava as pessoas com quem trabalhava. Na dúvida entre qual Miles você vai acompanhar, coloque o som bem alto e escute a trilha do filme.

Conte comigo

“Deok-Gu”, de Bang Soo In (2018) Comovente drama sul coreano sobre um avô que cuida sozinho de seus dois netos pequenos e descobre que está com câncer terminal. O avô é aposentado e não tem dinheiro suficiente para sustentar a casa. Ele trabalha em restaurantes lavando louças e não consegue comprar sequer um presente que seu neto tanto quer. O neto, Deok-gu , tem 7 anos de idade, e por sua vez, sofre bullying na escola por ser o único que não tem pais ( o pai faleceu dois anos atrás de acidente de trânsito, e a mãe, que é da Indonésia, foi expulsa pelo avô de casa, acusada de roubar o dinheiro do seguro de vida). O neto sofre pressão do avô para ensinar a irmã mais nova, que ainda não frequenta a escola. Resta ao avô ir atrás do paradeiro da nora, e tentar descobrir o porquê ela roubou o dinheiro e se reconectarem novamente. Com atuações espetaculares, principalmente do menino Jung Ji-Hoon no papel de Deok-Gu, o filme emocionam, e mesmo apelando para todos os artifícios de um melodrama, vale assistir pelo forte teor social sobre famílias pobres sem assistência do governo.

#Nudes

"#Nudes", de Guily Machovec (2019) Produzido 100% de forma independente, "#Nudes" é uma comédia dramática que fala sobre dois casais de jovens que moram em são Paulo, e de que forma as redes sociais, o celular e falta de comunicação entre eles provoca um desmoronamento em suas relações, partindo para outras opções para poder sair da rotina, como troca de casais e relacionamento aberto. Guily Machovec escreveu o roteiro, dirigiu, protagonizou e produziu o filme. Ele já tem uma carreira como roteirista e diretor de teatro em São Paulo, formando a Cia Olimpo em 2002 e desde então, montando mais de 30 espetáculos. OS personagens do filme são cinéfilos, literatos: falam de Woody Allen, de Dostoyevsky. São personagens muito recorrentes a quem assiste filmes de Woody Allen: são neuróticos, traem seus relacionamentos, compulsivos, misantropos e tipicamente urbanos. Maísa (Yolanda de Paulo) e Leonardo (Guily Machovec) foram um casal cuja relação está desgastada. Maisa compartilha sua vida íntima com sua melhor amiga, Adelia (Gabriela Pimenta), que por sua vez, passa o dia em aplicativos de relacionamento, até que conhece Heitor (Vini Hideki). A entrada de Heitor no gripo dá uma mexida na atitude de todos: centrado, intelectualizado e menos afoito às redes sociais. O filme passeia bem pelo humor e pelo drama, defendido com garra por um elenco de jovens atores que provavelmente, estão estreando em longa-metragens. É muito gostoso assistir a um filme brasileiro com rostos desconhecidos, e com talento de sobra para saborearem um texto escrito para provocar discussões acerca de machismo, misoginia, incomunicabilidade, solidão, fragilidades humanas. Tem momentos no filme que fiquei irritado com os personagens, com aqueles clichês tipo: ao invés de conversar com a esposa, o marido joga video game; a namorada está no chuveiro, o namorado atende o celular dela e descobre a traição. Mas pela proposta totalmente despojada do projeto, qualquer falha técnica, seja de diálogo, fotografia ou edição acaba passando batido. Realizar esse filme já foi um grande feito, ele tem muito boas qualidades, como filmar planos longos sem cortes, inserir muitos planos de São Paulo estilizada ( referências de "Manhattan", de Woody Allen"). e uma trilha sonora que ao invés de jazz, que seria óbvio, é recheada de brasilidades, como samba e chorinho, contrastando com a selva de pedra urbana.