sábado, 30 de junho de 2018

Calibre

"Calibre", de Matt Palmer (2018) Longa de estréia do Cineasta inglês Matt Palmer, é uma produção independente de suspense. O espectador sabe que, quando um filme apresenta personagens que saem para caçar em alguma região inóspita, alguma merda vai acontecer. E em "Calibre" não é diferente. Os amigos Vaughn e Marcus não se vêem há muito tempo e resolvem passar um final de semana nas montanhas caçando animais selvagens. A esposa de Vaughn está grávida. Marcus tem um temperamento esquentado. Quando chegam na cidade, eles são recebidos com certa frieza pelos moradores locais. Até que uma tragédia, que acontece durante a caça, irá selar o destino dos amigos. Filmes de caça existem aos montes. Aqui, diferente de boa parte dos filmes, a gente definitivamente não torce pelos mocinhos. Eu pelo menos, tanto faz quanto tanto fez eles morrerem. Talvez esse seja um problema do roteiro,a falta de simpatia e carisma dos protagonistas. Não nos preocupamos com eles. Fora isso, o filme é muito bem dirigido para quem estréia na direção, e os atores estão ótimos. Bom clima de suspense e tensão.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Acrimônia

"Acrimony", de Tyler Perry (2018) No Wikipedia, o significado de "Acrimônia" é "Modo de agir de quem é indelicado, áspero, mal-humorado; aspereza.". "Acrimônia" também é um dos filmes mais ridículos e toscos que assisti recentemente, com os 15 minutos finais mais irrisórios de tão trash, motivos de altas gargalhadas. E olha que o filme é um drama!!! A Atriz Taraji P. Henson, depois do sucesso de "Estrelas além do tempo", filme pelo qual foi indicada ao Oscar, tem direcionado a sua carreira para filmes voltados para o mercado que homenageia o filão do "Blackexploitation"; Foi assim com o policial "Proud Mary", e agora, com esse drama de vingança "Acrimônia", um pastiche nível hard de "Atração fatal", com Glenn Close. A diferença, é que aqui, a protagonista, Melinda ( Taraji P. Henson na fase adulta), é uma mulher enganada, humilhada, roubada, traída pelo seu marido. Convém que o espectador torça por ela, afinal, ela é uma mulher de bom coração que teve o azar de se apaixonar por um pilantra. Só que do meio pro final, a situação fica fora de controle: ela se divorcia dele, ele fica milionário, se casa com uma mulher e ela então, resolve se vingar dele e quer matar a mulher dele. Ou seja, do nada, Melinda se torna uma mulher vingativa, louca, bipolar, diagnosticada com "Síndrome de desordem Borderline". Mas gente, ela nao era a vítima e o cara filho da puta? Como que do nada. o filme quer que a gente torça por ela e desejara morte dela? Essa é uma das grandes loucuras desse filme, que desperdiça o talento de Taraji P. Henson, relegada a interpretar uma psicopata com direito a machado na mão no final!!!!! Longo, entediante, irritante! Se quiser assistir assim mesmo, sugiro ver os 15 minutos finais para, pelo menos, se divertir. Ah, e algo que não dá para entender: porque filmaram os atores com croma em várias cenas externas? Ficou parecendo "O Artista do desastre", com aquele croma mal feito e mal aplicado.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Baseado em fatos reais

"D'après une histoire vraie", de Roman Polanski (2017) Escrito por Polanski e por Olivier Assayas, "Baseado em fatos reais" tem uma narrativa que busca pregar uma peça no espectador no desfecho, mas para quem está acostumado com tramas sobre crises de identidade e estresse criativo, rapidinho vai sacar o que está se passando na vida da escritora Delphine Dayrieux, interpretada por Emmanuelle Seigner, esposa de Polanski. Delphine é uma escritora de sucesso, que acabou de lançar um livro e na noite de autógrafos, conhece Elle ( Eva Green), uma fã confessa. Elle passa cada vez mais a invadir a vida pessoal de Delphine, e a amizade se torna uma obsessão. Muita gente comparou o filme a "Louca obsessão" ou mesmo a "A malvada". Faz sentido, porque estamos falando de pessoas que se apropriam da fragilidade psicológica de outra pessoa para passar a dominá-la. No entanto, o filme não oferece o suspense que se espera dele, e é tudo um pouco enfadonho. O que segura um pouco a atenção do espectador é a performance das duas atrizes, e mesmo assim, nada que seja antológico. É um filme mediano de Polanski, que já nos apresentou filmes muito mais impactantes sobre doenças mentais, como "O inquilino"e "Repulsa ao sexo".

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Peleja no sertão

"Peleja no sertão", de Fabio Miranda (2016) O curta de animação "Peleja no sertão" levou 13 anos para ser concluído, e é um excelente filme de terror que mistura o Lobisomem ao sertão brasileiro. Fabio Miranda, co-escritor e realizador do filme, ganhou o Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo de 2003, mas que bancou apenas parte do projeto. Muito do orçamento foi com investimento próprio e com a ajuda de amigos. O filme narra a história de um grupo de retirantes nordestinos que sofre um acidente de caminhão na estrada, em noite e lua cheia. Inesperadamente, surge um lobisomem, que ataca o grupo, que luta para sobreviver. Repleto de clichês, o Fabio Miranda confessa que se inspirou em clássicos como "Um lobisomem americano em Londres". O divertido é ver todo esse universo dentro do sertão nordestino, com os personagens falando com gírias e sotaque da região. Eu me diverti bastante com o filme, que tecnicamente, é bastante simples.

Pele suja minha carne

"Pele suja minha carne", de Bruno Ribeiro (2016) Escrito e dirigido por Bruno Ribeiro, um jovem estudante de cinema do Rio de Janeiro que conseguiu o grande feito de realizar um filme que falasse de 2 temas bastante polêmicos: a aceitação da negritude e a descoberta da homossexualidade. João é um adolescente negro de classe média. Ele estuda em um colégio particular, e é o único negro de sua turma. De tarde, ele joga pelada com seus amigos, todos brancos. Cauã é seu melhor amigo, e por quem João nutre uma paixão platônica. O filme tem uma bela cena, forte, de João tomando banho com uma bucha e esfregando com força, como se quisesse que sua cor saísse com o banho. E várias vezes ele se olha no espelho, como se dissesse: "Sou negro, sou gay". Com ótima atuação de Diego Francisco, e com domínio de cena do cineasta Bruno Ribeiro, é um curta que merece ser visto e debatido, até por um outro olhar, bastante discutido nos dias de hoje: o assédio sexual, que acredito, o Diretor nem havia pensado na época da realização do filme, 2016. Filem barato, simples, minimalista, mas com belo roteiro.

A História de um Jovem Homem Pobre

"Romanzo di un giovane povero", de Ettore Scola (1995) Sou um grande apaixonado pelo cinema de Ettore Scola, e esse filme era um dos que eu ainda não havia assistido. Mesmo sendo um filme menor em sua filmografia, apresenta muito do cinema social e humanista que fizeram a fama de um dos maiores cineastas italianos. Persico é um jovem professor de filosofia desempregado, que mora com sua mãe. Ambos vivem da aposentadoria do pai de Persico, já falecido. Sem qualquer esperança de conseguir um novo emprego, Persico vai se desiludindo cada vez mais da vida, ao mesmo tempo que se irrita com a sua mãe, que vive lhe cobrando que consiga um emprego. Um dia, o vizinho do andar de cima, Sr Bartolini (Alberto Sordi), sabendo do desespero de Persico, lhe propõe um pacto: que ele mate sua esposa. Claramente inspirado no cinema de Hitchcock ( a referencia mais direta é "Pacto sinistro"), e de quem Scola pega emprestado os acordes de "Psicose"para a trilha sonora. O filme é dividido em 2 atos: no primeiro, acompanhamos a rotina de desemprego de Persico, e o convite de Bartolini. No 2o ato, Persico vai preso, mas não quer sair da priisão, ele se sente melhor lá dentro do que fora. Scola como sempre é um excelente diretor de atores, e conduz tudo com muita maestria. O filme é longo, tem umas sub-tramas que achei que estavam sobrando ( como a da amante), mas vale ser visto pelo trabalho do elenco e pela cutucada na questão do desemprego na Europa, relevante nos anos 90, época em que se passa o filme.

A passagem do cometa

"A passagem do cometa", de Juliana Rojas (2017) Curta que competiu no Festival de Brasília, "A passagem do cometa" é um filme essencialmente feminino, tanto dentro quanto fora das telas. Juliana Rojas, que co-dirigiu "Trabalhar cansa"e "As boas maneiras", e realizou "A sinfonia da Necrópole", escreveu e dirigiu um drama intenso sobre personagens femininas que transitam em uma Clínica de aborto clandestino em São Paulo no ano de 1986, exatamente na noite da passagem do Cometa Halley, que atravessa o Universo a cada 75 anos. Todas as personagens são femininas: a atendente, a médica (Gilda Nomacce, brilhante), a paciente a a acompanhante. O filme é dirigido com muita delicadeza, sutileza, e Juliana Rojas procura mostrar essa relação de mulheres de uma forma muito amorosa e amigável. a clínica não se parece em nada com o que estamos habituados a ver nos filmes. Aqui, ela é limpa, bem arrumada, os profissionais são educados e extremamente carinhosos com os terapeutas. Parece que Juliana quiz falar sobre o aborto de hoje em dia, um sonho possível dentro de uma sociedade repressora. Para isso, ela se faz valer de um momento lúdico, de animação e musical, remetendo ao seu filme "A sinfonia da necrópole". As atrizes estão todas muito bem no filme. Em "A passagem do cometa", tudo é apresentado de forma naturalista, sem grandes acontecimentos. Um fragmento de vidas entre quatro paredes, que assim como o Halley, esperam uma oportunidade para metaforicamente ganhar mundo e os céus.

As melhores noites de Veroni

"As melhores noites de Veroni", de Ulisses Arthur (2017) Premiado curta alagoano, "As melhores noites de Veroni"é um filme bastante simples na história e na narrativa em si. Durante 15 minutos, acompanhamos a rotina de Veroni, casada com um caminhoneiro, com uma filha pequena e que tem um sonho de construir algo melhor para a vida da família. Com a ausência do marido, que vive na estrada, Veroni faz aulas de canto, para cantar as dores de uma vida sem tesão através das músicas. Um filme correto em todos os níveis, simples e sem ambição. O roteiro tem um fiapo de história, e parece que o cineasta quiz apenas apresentar uma personagem em um fragmento de sua vida desoladora. Poderia ter rendido um filme bem mais interessante se tivesse se aprofundado mais na psicologia de Veroni.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Gordinho engraçado

"Chubby funny", de Harry Michell (2016) Comédia dramática independente inglesa, foi escrita, dirigida e protagonizada por Harry Michell, Assistindo ao filme, pode-se pensar que muito do material, deve ser autobiográfico de Michell. O filme narra a história de 2 grandes amigos: Oscar (Michell) e Charlie (Augustus Prew). Os dois se mudam para Londres e dividem um pequeno flat. Recém formados como atores, eles planejam que, em um ano, suas vidas profissionais se tornem estáveis. Eles são agenciados por uma manager, que de cara, rotula os dois atores: Charlie tem p perfil de protagonista romântico, e Oscar, tem o perfil do "Gordinho engraçado". Com essa sentença, parece que a vida de Oscar se torna um espiral sem fim: nada dá certo, nem profissionalmente, nem na vida pessoal. O filme ainda tem outro sub-plot, que é descobrir se Charlie é gay ou não, e se deve sair do armário. Simpático, o filme não tem nada de inovador, mas tem um humor ácido e tem um olhar cruel sobre o meio artístico. Fora isso, mostra um lado totalmente desolador sobre Londres: cinzenta, sem grandes perspectivas. Direção correta para um filme de estréia, mas podia ser mais carismático e rebelde.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Cuba e o Cameraman

"Cuba and the Cameraman", de Jon Alpert (2017) Excelente e fundamental documentário exibido no Festival de Veneza, acompanha 45 anos da Revolução Cubana, desde o início dos anos 70, pelos olhos do jornalista e Cineasta Jon Alpert. Jon Alpert viajou para Cuba para uma matéria jornalística, no início dos anos 70, numa tentativa de entrevistar Fidel Castro. Absolutamente fascinado com o Regime, que provia saúde e educação para toda a população, Jon Alpert compara com sua Nova York, e mostra imagens da cidade, com sem tetos e pessoas passado fome, e dizendo que em Cuba, o Governo atende o povo das suas necessidades básicas. A partir dessa viagem, e completamente fascinado, Alpert resolvei voltar ao País de 6 em 6 anos, até o ano de 2016, ano da morte de Fidel. O filme apresenta, através das câmeras de Alpert, uma evolução tecnológica das câmeras de vídeo, e contrastando com Cuba, que por décadas, continua exatamente igual. Dos primeiros anos da Revolução, onde todos estavam felizes ( o filme mostra imagens de pessoas tentando entrar no Consulado americano para fugir pros Estados Unidos e sendo xingados pelos revolucionários) , caminhando pelas décadas seguintes, com a falta de comida, energia elétrica, remédios, desespero total da população e o aumento da criminalidade. O Governo resolveu então, abrir as portas do Turismo, que é o que sustenta o País até hoje, desde o fim da ajuda soviética dos anos 90. Com imagens comoventes, Alpert narra a sua história através de 3 famílias. Ver os integrantes dessas famílias durante décadas, envelhecendo, ficando doentes, morrendo, outros fugindo, é uma experiência impressionante, pungente. A história dos irmãos fazendeiros é a mais avassaladora. Merecia um filme por si só. Jon Alpert é nitidamente pró-revolução cubana, e por isso mesmo, esse é um filme polêmico. Muita gente disse que ele escondeu as atrocidades de Fidel. Vale ver o filme e discutir os prós e contras do Filme, como documentário, e do socialismo, como regime.

Tailor

"Tailor", de Calí dos Anjos (2017) Premiado curta dirigido pelo primeiro cineasta Trans a ganhar um edital público para o audiovisual, o filme é uma adaptação em animação e em formato documentário, dos cartuns do artista Trans Orlando Tailor. Em seus cartuns, Orlando entrevista várias Trans que narram a dificuldade de enfrentar o preconceito da sociedade regida por um conceito de Cisgênero. No elenco e na equipe técnica, Calí dos Anjos procurou atender ao máximo a necessidade de empregar Trans. Só na equipe técnica foram 9 representantes. É um filme delicado, cm um tema muito tabu, mas dirigido de forma respeitosa e esclarecedora.

domingo, 24 de junho de 2018

Capitão Brasil

"Capitão Brasil", de Felipe Poroger (2017) Dirigido e escrito por Felipe Poroger, esse curta paulista é uma mistura de ficção e documentário. Apresentando imagens das manifestações de São Paulo e Rio de Janeiro acontecidos em 2013, o filme conta a história de um menino, visto de forma alegórica como um adulto por todos. Ele é demitido da empresa, seus pais o expulsam de casa, ele é expulso por uma sem teto quando tenta se alojar debaixo da ponte e perde todos os seus amigos. Seu único companheiro é o Capitão Brasil, uma representação debochada do Capitão Nascimento. Apresentando uma metáfora óbvia sobre o fim da infância e da inocência, o filme mescla realidade e fantasia de forma satisfatória e comovente, trazendo um olhar muito melancólico e desesperançoso do Brasil. Com um ótimo elenco fazendo pontas ( Camila Mardila, Marat Descartes, Vinicius de Oliveira) "Capitão Brasil" expõe as feridas de um País sem rumo.

Verdade ou desafio

"Thruth or dare", de Jeff Wadlow (2018) Produzido pela mesma produtora que nos trouxe alguns ótimos filmes de terror, como "Corra", a Blumhouse pictures, "Verdade ou desafio" já perde no seu título a sua originalidade, pois existe quase uma dezena de filmes com esse nome. O filme rouba o mote do excelente "A corrente do mal". No filme de David Robert Mitchell, uma entidade demoníaca possui os jovens que transam inadvertidamente, e para não morrer, a pessoa precisa transar com outra e passar o espírito. Em "Verdade ou desafio", um grupo de amigos viaja para o México nas férias, e acabam indo até uma mansão em ruínas, onde participam de um jogo de Verdade ou desafio. Cada um dos participantes é desafiado pelo espírito com verdade ou desafio, e aqueles que mentem, morrem. O filme é ruim, os atores são ruins, roteiro ruim, e além de tudo, é longo, 100 minutos. O que faz valer assistir o filme, são os efeitos toscos, e o pior dos piores, a cara de Coringa que os possuídos fazem. é das piores coisas que vi na vida, esse recurso do sorriso Coringa, e por isso mesmo, motivo para assistir. Risadas garantidas. O cineasta Jeff Wadlow dirigiu "Kick ass 2", um ótimo filme de ação, e aqui, enfiou os pés pelas mãos.

Tungstênio

"Tungstênio", de Heitor Dhalia (2018) Adaptação cinematográfica da premiada Graphic novel de Marcello Quintanlha, e dirigida pelo mesmo cineasta de "O cheio do ralo", "À deriva" e "Serra pelada". Tungstênio é um dos metais que compõe material para o explosivo, e o filme começa exatamente com a imagem de dois pescadores jogando explosivo no mar, matando peixes clandestinamente. Esse incidente é o início para o encontro inesperado e visceral entre personagens que habitam Salvador: O ex-militar conservador Ney ( Zé Dumont), o jovem traficante Caju ( Wesley Guimarães), o policial corrupto Richard ( Fabricio Boliveira) e sua esposa Keira ( Samira Carvalho Bento). Um dia de calor, com todos os personagens à flor da pele, a um ponto da explosão, entre violência, traições e ódio. Dito assim, parece sinopse de 2 filmes clássicos: "Faça a coisa certa", de Spike Lee, e "Pulp fiction", de Tarantino. e muito dos elementos desses filmes estão presentes na narrativa: a montagem que vai e volta no tempo, entrecruzando as histórias; a câmera angulada e inquieta, nervosa. A violência prestes a explodir a qualquer momento. O elenco é a grande força e ponto de interesse do filme: todos, sem exceção, estão excelente. Por eles, vale ir correndo assistir ao filme e se deleitar com performances arrebatadoras. Duas coisas me incomodaram: a narração em off de Millen Cortaz, redundante, e a câmera contra-plongé excessiva.

sábado, 23 de junho de 2018

Vaca Profana

"Vaca Profana", de René Guerra (2017) O Cineasta René Guerra é alagoano mas mora em são Paulo. Diretor de curtas premiados, em "Vaca Profana", ele se apropria da música de Caetano Veloso para falar de desejos. Desejo de ser Mulher, desejo de ser Mãe. Nadia ( a performática e atriz Roberta Gretchen Coppola, travesti assumida) mora na periferia de São Paulo, em uma ocupação dominada por mulheres. Ali, ela tem uma pequena lanchonete e vende coxinhas. Sua vizinha, Ana Maria ( Maeve Jinkings), mãe solteira, está de viagem para a Itália, e vai deixar sua filha sob a guarda de Nadia, para que ela a crie. Tudo que Nadia mais deseja é ser mãe. No entanto, esse sonho é interrompido, quando Ana Maria avisa que desistiu de viajar. Com performance arrebatadora das duas atrizes, "Vaca profana" tem um lindo e comovente roteiro, escrito por Gabriela Amaral, que culmina com uma cena visceral que acontece em um tribunal, quando Nadia se expõe dentro de uma farsa. Um curta imperdível e de alto nível, humanista, com um olhar carinhoso para essa personagem maravilhosa que é Nadia.

O culto

"The endless", de Justin Benson e Aaron Moorhead (2017) Curiosa ficção científica, essa produção independente ganhou vários prêmios internacionais em Festivais de filmes de gênero, além de ter concorrido no Festival de Tribeca em 2017. Os diretores Justin Benson e Aaron Moorhead escreveram o roteiro e também protagonizam essa trama que parece uma versão estendida de algum episódio do seriado "Além da imaginação". É uma trama complexa e às vezes confusa, mas sem muito spoiler, algo próximo de "Feitiço do tempo". Justin e Aaron são irmãos e trabalham como faxineiros. Há 10 anos, eles fugiram de uma seita que existia dentro do deserto da Califórnia, pois Justin, o irmão mais velho, acreditava que os membros cometeriam suicídio. Um dia, Aaron recebe pelo correio uma caixa misteriosa, contendo uma fita onde um dos membros da seita os convida para retornar. Pressionado por Aaron, Justin cede e acabam retornando ao local. Mas o que eles descobrem, envolve algo muito sinistro. Um roteiro obviamente inspirado em filmes e seriados que lidam com o tema da viagem do tempo, tem bons atores que dão credibilidade à história, mas por ser uma produção baixo orçamento, os efeitos especiais são muito fracos. Mas vale ser visto, e para fãs de filmes de ficção científica, é um belo achado.

Vênus- Filó, a Fadinha lésbica

"Vênus- Filó, a Fadinha lésbica", de Sávio Leite (2017) Baseado em conto erótico de Hilda Hilst, a animação pornográfica "Vênus, Filó, a Fadinha lésbica" tem cenas de sexo explícito, filmadas com atores e depois rodoscopiada para um processo de animação, mesma técnica do longa de Richard Linklater, "Darkly scanner". A história apresenta Filó, moradora da Vila do troço. De dia, ela é uma linda fada que seduz mulheres, transando com todas elas. De noite, um penis surge e ela se transforma numa travesti, sendo desejada por homens e mulheres. Narrada com sabor de malícia e sagacidade por Helena Ignez, o filme é divertido, e muito criativo. Com apenas 6 minutos, o diretor Sávio Leite fala de putaria sem censura, em uma bela homenagem à Hilda Hilst. O filme foi selecionado para a Mostra Panorama do festival de Berlin 217, e concorreu para o Premio Teddy, dedicado a filmes Lgbts.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O Conto dos garotos perdidos

"The tale of the lost boys", de Joselito Altarejos (2017) Co-produção Taiwan/Filipinas, "O conto dos garotos perdidos" foi escrito e dirigido pelo Cineasta filipino Joselito Altarejos. Filmado em Taiwan, o drama acompanha 2 histórias de filhos abandonados pelos pais. Alex viaja de Manilla até Taiwan para arranjar trabalho, deixando para trás sua namorada grávida. Jerry é descendente de uma tribo aborígene de Taiwan, e desde cedo fugir para a cidade para arranjar trabalho. Na verdade, ele fugiu porque por ser gay, e temendo que sua família o banisse, resolveu fugir. Alex e Jerry se conhecem e se tornam amigos, unindo as melancolias de suas vidas. Tecnicamente pobre, o filme parece ter sido feito com muito pouco dinheiro. A atuação dos dois atores tende ao exagero, por conta da carga melodramática da história. O filme tem uma cena de sexo ousada entre Jerry e seu namorado, mas é uma sub-trama mal aproveitada, pois a questão da homofobia é bastante forte na sociedade, mas ficou limitada à família de Jerry. Vale para conhecer locações belas de Taiwan.

Safari

"Safari", de Ulrch Seild (2018) Eu sou um grande fà dos Filmes do austríaco Ulrich Seild, dono de uma linguagem absolutamente cruel, mostrando o ser humano em situações patéticas e degradantes, algo como o cinema de Michael Haneke ou do mexicano Michel Franco, de "Depois de Lucia". Seidl dirigiu a excelente trilogia "Paraíso"e também o documentário fetiche "No porão". Agora em "Safari", ele parte de um tema muito óbvio: quem são as verdadeiras bestas? O Homem ou o animal? Milionários austríacos viajem para a Africa a fim de fazerem parte de um Safari onde a diversão é matar animais. Cada um tem o seu preço. Uma vez pagando, é só matar. Nas entrevistas homens e mulheres justificam seus atos. Entre uma e outra morte, vemos animais sendo desmembrados, em cenas bem cruéis. Outro ponto interessante do filme é observar o contraste entre os brancos "civilizados" e os negros africanos mostrados de forma servil e aborígene, como se fossem de uma civilização atrasada. A colonização pelo visto, se mantém na Africa. Não é o melhor filme de Ulrich Seidl, mas para quem não conhece sua obra, é uma boa forma de passar a descobrir a sua linguagem.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Hereditário

"Hereditary", de Ari Aster (2018) Escrito e dirigido por Ari Aster, foi um enorme sucesso no Festival de Sundance 2018. A melhor experiência para o espectador que vai ver o filme, é assistir sem saber de absolutamente nada. Porque essa é a sensação que a gente tem enquanto assiste ao filme: Para onde essa históra vai caminhar? Annie (Toni Colette) é uma artista plástica que trabalha com miniaturas. Ela mora com seus 2 filhos, Peter ( Alex Wolff) e Charlie ( Milly Shapiro) e o marido, Steve (Gabriel Byrne). O filme começa com Annie se preparando para o velório de sua mãe, de quem ela se distanciou bastante. A partir daí, fatos estranhos passam a ocorrer na casa onde mora a família. Com 126 minutos de duração, o filme tem a primeira hora mais próxima ao drama, apresentando o luto de Annie perante a morte de pessoas próximas. Na 2a parte, a história vai se desenvolvendo para um desfecho apoteótico e desesperador. Para espetadores sensíveis, recomendo não assistir ao filme em casa sozinho, pois com certeza, focará dias sem dormir. A direção de Ari Aster compõe com bastante economia na quantidade de planos, e assim como Stanley Kubrick em "O iluminado", ele elabora planos longos que percorrem os corredores da casa. Estão divulgando o filme como o novo "Exorcista", mas ele está muito mais próximo de "O bebe de Rosemary" e de "A bruxa". As cenas de violência são poucas, mas intensas, e os silencios do filme são assustadores. Assim como o barulho da colherzinha na xícara em "Corra", aqui temos o estalido da menina Charlie, que assusta toda vez que surge em cena. O elenco está absolutamente formidável: Toni Colette surpreende nesse universo de filmes de terror, com cenas antológicas, como a do jantar e a da sessão mediúnica. Alex Wolffe também tem momentos brilhantes, com expressões de desespero muito críveis. A menina Milly Shapiro consegue expressar sensações até nos silêncios, que menina incrível. Gabriel Byrne conduz com elegancia seu personagem trágico, e para fechar, Anna Dowd, como Joan, remetendo ao personagem de Ruth Gordon no filme de Polansky. Quem for em busca de um Filme de terror tradicional, com sustos fáceis, vai ficar bastante frustrado. O filme é construído com um ritmo bem lento, pendendo ao dramático, e aí sim, na parte final, acelera o passo e caminha para uma montanha russa de emoções,