quinta-feira, 7 de junho de 2018

Tarântula

"Tarântula", de Aly Muritiba e Marja Calafange (2015) Escrito pelos dois realizadores, o curta "Tarântula" foi premiado em diversos Festivais, tendo sido inclusive selecionado para o Festival de Veneza em 2015. O filme é um belo exercício de terror psicológico, na linha de "Os inocentes", de Jack Clayton. Ambientado em uma casa decadente, distante de tudo e de todos, mora uma mulher com suas duas filhas, uma menor de idade, sem uma perna, e a adolescente. Elas são bastante religiosas. Um dia, surge o amante da mãe, que vem trazer uma perna mecânica para a filha. A adolescente presencia a mãe fazendo sexo com o homem. revoltada, ela conta para sua irm!a pequena que o homem é o Curupira e que foi ele quem comeu a outra perna dela. Mais do que o roteiro, o que chama a atenção no filme é a excelente fotografa, em tons escuros, de Mauricio Baggio. A luz que ele projeta na mansão decadente é assustadora. A mansão em si é um grande personagem. Enorme, ela ameaça a todos com a sua estrutura lúgubre. Um excelente horror que merecia ser visto pelo público de filmes do genero. Direção segura e inteligente, que evita os eventuais sustos bobos e cliches de quase todo filme de terror.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Comboio de sal e açúcar

"Comboio de Sal e Açucar", de Licinio Azevedo (2016) Adaptação do romance escrito pelo próprio Diretor e roteirista, "Comboio de sal e açúcar" foi o primeiro filme do País a ser indicado a uma vaga para o Oscar de filme estrangeiro. O Cineasta Licinio Azevedo é brasileiro, mas vive em Moçambique há mais de 30 anos, realizando documentários e ficção. ele resolveu filmar a história de um povo em guerra civil: após a independência do País com Portugal, Moçambique rachou em 2 facções revolucionárias, conflito este que matou mais de um milhão de pessoas. O filme acompanha a viagem de um trem, que leva carregamentos de açúcar e pessoas, em busca de um sonho em Malawi. Todos , militares e civis, estão cientes de que podem morrer no caminho: revolucionários os aguardam para saquear o carregamento, já que o açúcar virou moeda cara no País. Misturando uma linguagem documental ao cinema clássico ( enxerguei referencia distante dos planos épicos de Sergio Leone e até mesmo, no tema, ao clássico de John Ford, "No tempo das diligencias", que fala sobre uma diligencia que precisa atravessar uma região repleta de índios), o filme tem sue ponto forte no excelente trabalho dos atores. Um deles, o brasileiro Thiago Justino, foi inclusive preparador de elenco. Fotografia que valoriza o visual decadente de um País que se viu sucumbindo à sua desgraça social e económica, com cores fortes. A cena do parto durante um intenso tiroteio é antológica. O filme fala da guerra física e da guerra interna: uma sociedade machista, que destrata a Mulher e os idosos. Curiosidade para quem for assistir: no plano de abertura, o tema musical me lembrou bastante a trilha de "Psicose", de Hitchcock. O Filme ganhou vários prêmios Internacionais, entre eles, o da Crítica, no prestigiado Festival de Locarno.

Rec

"Al-i-ssi", de So Joon-Moon (2011) Em 2005, o Cineasta chileno Matías Bize fez muito sucesso em Festivais internacionais com o drama "Na cama", uma produção de baixíssimo orçamento, com apenas 2 atores e filmado todo dentro de um quarto de Motel. O filme rendeu refilmagens em outros países, como Brasil e Itália. O Cineasta sul coreano So Joon-Moon estréia em longa realizando uma variação dessa estrutura. Em "Rec", acompanhamos uma noite na vida do casal gay Young Joon e Joon Sook. Young tem 30 anos, Joon tem 26. Eles namoram há 5 anos, e resolvem comemorar no quarto do hotel. Entre muitas revelações, sexo e diversão, Young resolve trazer uma filmadora e captar momento especiais dessa noite. Mas uma virada narrativa irá subverter toda essa história. Com belas atuações dos 2 jovens atores, totalmente entregues aos personagens ( os atores passam boa parte do filme totalmente nus) , "Rec" brinca com a linguagem da câmera "Found footage", mas usando a favor da história. E' um filme divertido, sexy, mas também, bastante melancólico. O cineasta quiz com esse filme, apresentar a sociedade conservadora na Coréia do Sul, que ainda enfrente grande aceitação de um relacionamento homossexual, fazendo com que muitos vivam sobre fachadas. "Rec" é um filme sincero, realizado com delicadeza. Por ser bastante verborrágico, pode ser que encha o saco de quem não curte um filme com estrutura mais teatral. Mas vale assistir, até para confirmar que para se fazer um filme bom e barato, basta ter um roteiro decente e atores talentosos.

terça-feira, 5 de junho de 2018

A música do silencio

"La musica del silenzio", de Michael Radford (2017) Adaptação da biografia do Tenor e compositor italiano Andrea Bocelli, mostrando desde a sua infância até os dias de hoje. Bocelli nasceu em 1958, em uma família pobre na cidade de Lajatico, Itália. Ele nasceu com glaucoma congénito, enxergando muito pouco. Ao se matricular em uma escola para cegos, durante uma partida de futebol, ele leva uma bolada na cara e fica cego de vez. Graças a influencia de seu tio, ele estuda música e canto. Porém, quando se torna adolescente, sua voa muda e ele desiste de cantar, indo estudar direito. Mas logo a paixão pela música retorna, mas sem sucesso, indo cantar em um bar. Somente quando ele estuda com o Maestro Luciano Bettarini ( Antonio Banderas), é que ele se dedica integral à música e ao canto. Posteriormente, ele foi convidado a fazer um dueto com o astro de rock italiano Zucchero. Bocelli venceu a edição do Festival de San remo em 1994, e a partir daí, sua vida mudou completamente, se tornando em um dos maiores astros da música mundial. O filme dedica muito de seu tempo aos pais e tio de Bocelli, que se dedicaram ao tempo todo pela sua educação e deram perseverança para jamais desistir de seus sonhos. O filme, infelizmente, não está aos pés do talento de Bocelli. Os fãs provavelmente irão gostar, mas é um filme totalmente chapa branca, episódico, um erro comum aos cinebiografados. Querem contar a vida toda de uma pessoa em menos de 2 horas e aí fica tudo corrido e sem emoção. Mas o pior mesmo, ficou pela infeliz decisão de botar os atores italianos falando em inglês. Ficou ruim, falso, sem verdade. As dublagens dos atores cantando também está péssima, apesar dos atores estarem bem em seus papéis: Toby Sebastian (Toberyn Martell de "Game of throne) fazendo Bocelli adolescente e adulto. Michael Radford é um cineasta inglês, famosos por ter dirigido "1983" e "O carteiro e o poeta". ligou o automático aqui e fez o filme mais convencional possível.

Domingo de manhã

"Sunday morning", de Matthew Allen (2017) Escrito e dirigido por Matthew Allen, "Domingo de manhã" é um projeto independente todo financiado via Crowndfunding. O Diretor escreveu o projeto a partir de dados estarrecedores: o número de estupros ocorridos nos Estados Unidos aumentou consideravelmente, e 8 entre 10 casos, acontece entre pessoas conhecidas da vítima. Sean é um adolescente que esconde a sua homossexualidade. Ele tem como amigos um grupo de garotos homofóbicos, e sofre com a sua identidade velada. Uma noite, ele volta para casa acompanhado de um dos amigos, James, cujos pais estão se separando. James pede para que Sean passe a noite com ele em sua casa, alegando estar emocionalmente abalado por causa dos seus pais. Sean percebe aí uma oportunidade de experimentar sua primeira relação homossexual, pois percebe que James sente um carinho especial por ele. Para sua surpresa, James o estupra. Sean fica abalado. No dia seguinte, ele esconde o fato de todo mundo, pois James o ameaça. E pior: a partir de agora, James quer que Sean seja seu "brinquedinho" sexual. Logo no início do filme, os produtores alertam ao espectador acerca de cenas consideradas fortes demais e impróprias. Recado dado, o espectador provavelmente ficará esperto assim que tais cenas acontecerem. e aí o filme acaba, e o máximo que você viu, foi uma branda simulação de sexo. Não sei que tipo de espectador os produtores esperavam. O filme em si vale pela mensagem, mas como entretenimento, é bastante fraco, com diálogos ruins e performances constrangedoras. O Diretor provavelmente escalou amigos para os papéis, pois são todos bastante amadores. E mais: em algumas cenas, o personagem de Sean tem pesadelos: gente, que coisa ruim, parece filme trash B.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

The tale

The tale", de Jennifer Fox (2018) Relato autobiográfico da Documentarista Jennifer Fox, dirigido pela própria. Jennifer, aos 13 anos, foi abusada sexualmente pelo seu treinador de cavalos Bill, de 40 anos. Só que na época, ela acreditava que se tratava de uma relação amorosa. Jennifer resolve escrever um conto, relatando essa história de forma romanceada. Passam-se os anos, e agora aos 48 anos, Jennifer (Laura Dern) é uma documentarista e dá aulas em uma Faculdade. Um dia, sua mãe (Ellen Burtsyn) diz que encontrou o conto e ficou chocada ao ler o conteúdo. Jennifer, que apagou sias memórias da adolescência, se recusa a acreditar que havia sido abusada sexualmente, mas as evidencias cada vez mais levam a crer de que ela foi estuprada. exibido com enorme sucesso em Sundance 2018, no auge do movimento #MeToo, o filme chegou a ser chamado de #MeToo, o Filme. de fato, é impossível não se lembrar de Harvey Westein, ou mesmo aqui no Brasil, do caso do Treinador de ginástica olímpica acusado de abusar de seus alunos menores de idade. É um filme forte, com cenas contundentes, e é bastante corajoso da roteirista e diretora Jennifer Fox se abrir de forma tão verdadeira e honesta para o espectador. Deve ter sido um verdadeiro exercício de exorcismo, poder deixar sair de dentro de si toda essa história oculta e violenta que ela carregou durante décadas. O elenco está brilhante: Laura Dern, Ellen Burstyn e a pequena Isabelle Nélisse no difícil papel de Jennifer aos 13 anos.

O último trem

"The midgnight meat train", de Ryûhei Kitamura (2008) O Diretor japonês Ryûhei Kitamura é especialista em filme de terror. Além de filmar no Japão, ele vez ou outra também filma nos Estados Unidos. "O último trem" foi lançado em 2008, e passou em brancas nuvens. Se tivesse lançado 1 ano depois, talvez a carreira do filme fosse outra. Isso porque seu protagonista, Bradley Cooper, ainda era um mero desconhecido, apesar de já estar há anos trabalhando em Tv e Cinema. Mas foi somente em 2009, com o mega sucesso de "Se beber não case", que ele se tornou uma grande estrela. "O último trem"é uma adaptação de um conto do mestre de terror Clive Barker, o mesmo que criou "Hellraiser". O conto era uma alegoria sobre um trem que representava um matadouro, e ali, seres humanos eram abatidos como gado por um serial killer, com um desfecho surpreendente. Barker queria fazer essa analogia sobre a chacina de animais ( Barker é vegano). Bradley Cooper interpreta Leon, um fotógrafo que é obrigado pela sua editora a produzir fotos mais violentas e sádicas. Uma noite, ao embarcar em uma estação de trem, ele salva uma modelo de ser estuprada por uma gangue. Ela agradece e embarca no último vagão. No dia seguinte, ela desaparece. Leon fica intrigado, e resolve embarcar nesse último trem, no ultimo horário, e testemunha um assassino matando pessoas. Leon, seduzido pelas fotos que poderá tirar, acaba não entregando o homem e resolve continuar a fazer as fotos. Com muito gore, típico dos filmes japoneses, com muito sangue falso, olhos que saltam das órbitas e cabeças degoladas, o filme diverte mas também assusta. Não queiram tentar entender o filme. ele é bizarro, a história é doida mesmo, e o desfecho, samba do crioulo doido. Mas dá para passar um bom tempo e se divertir com as mortes bem toscas.

domingo, 3 de junho de 2018

Ethel & Ernest

"Ethel & Ernest ", de Roger Mainwood (2016)( Raymond Briggs é um famoso desenhista inglês, autor de "The snowman" e outros desenhos da literatura juvenil. Raymond desenhou a graphic novel "Ethel & Ernest", onde ele resolveu homenagear os seus pais. Logo no prólogo, Raymond Briggs avisa que não há nada de extraordinário na vida de seus pais. Com essa informação, passamos a conhecer Ernest e Ethel. No ano de 1928, em Londres, Ernest, um entregador de leite da classe operária, cumprimenta Ethel, uma empregada doméstica que trabalha em uma casa de classe média alta. Um dia, ele resolve abordá-la e declarar seu amor. Ethel pede demissão e vai morar com ernest, passando a viver como dona de casa. Eles tem gostos distintos: ela é conservadora, ele é mais liberal e do partido dos trabalhadores. Aos 38 anos, dá à luz Raymond, mas é proibida pelo médico de voltar a engravidar. Os anos se passam, a 2a guerra muda a rotina da família. Finda a Guerra, Raymond deseja estudar Arte, apesar dos protestos do pai. Lindamente ilustrado, de ritmo lento mas contemplativo e bastante comovente, o filme, mesmo não tendo conflitos e reviravoltas, apresenta com muita delicadeza o dia a dia de pessoas comuns. Conhecer a rabugice da mãe que entrega um pente toda vez que o filho j[a crescido vem visitá-la, os ver os pais tomando conhecimento da união dos homossexuais e não tendo idéia do que isso queira dizer, nos fazem ficar apaixonados pelos personagens. Uma linda declaração de amor aos pais. Desfecho emocionante com as fotos reais de Ethel e Ernest.

sábado, 2 de junho de 2018

Mary Shelley

"Mary Shelley", de Haifaa Al-Mansour (2017) Cinebiografia da escritora Mary Shelley, dirigido pela Cineasta Haifaa Al-Mansour, nascida na Arábia Saudita mas residente na Inglaterra. Nascida Mary Wollstonecraft Godwin em Londres, 1797, Mary Shelley ( nome de casada depois da união com o poeta Percy Shelley) foi criada por seu pai, o filósofo William Godwin, e por sua madrasta. Sua mãe faleceu 10 dias depois que ela nasceu. Mary lia livros de terror, apesar dos protestos de seu pai. Ela acabou se casando com um dos alunos de Wiliam, o poeta Percy Shelley, que tinha um temperamento conturbado e já era casado e com filha. Mary e Percy tiveram filhos, passaram por dificuldades financeiras. Com a morte do filho, e o afastamento de Percy, Mary se isola. Encorajada pelo Lord Byron, ela escreve o livro "Frankestein". Mas por conta da sociedade machista da época, o livro foi publicado anonimamente, e muitos acreditaram que Percy foi quem escreveu. Interpretado por uma excelente Ellen Fanning, repleta de nuances, o filme ainda tem uma breve participação de Maisie Willians ( Arya Stark de "Game of thrones). O filme tem boa técnica, mas o seu ritmo é pesado, e fica com uma cara de produção de tv da BBc. Para quem quer conhecer melhor a história da autora de "Frankestein", é uma boa pedida, apesar do filme não se aprofundar na obra.

Ibiza

"Ibiza", de Alex Richanbach (2018) As mulheres só querem sexo. As mulheres viajam para fazer turismo sexual. As mulheres só querem beber. Só querem saber de baladas. Elas só querem se drogar. Elas são irresponsáveis. Elas são histéricas. Antes que alguém pense que quem escreveu esse roteiro é um homem sem noção..se enganou. A Roteirista se chama Lauryn Kahn, e ela praticamente repete todos os cliches de filmes escritos por homens onde as mulheres somente querem sexo, drogas e rock'n roll, aqui no caso, trocado por música eletrônica. O Diretor Alex Richanbach, que já produziu dezenas de filmes em Hollywood, entre eles, "O curioso caso de Benjamn Button", conseguiu vender esse projeto para a Netflix.O filme não é bom, nem ruim. Tecnicamente ele tem bela fotografia, trilha sonora bacana, locações incríveis em Barcelona, Ibiza e Nova York (Claro, NY é mostrada meio melancólica, a Espanha é sol o tempo todo e corpos desnudos). Ah sim, os espanhóis são apresentados ao público como trambiqueiros, baladeiros, as mulheres exalando sexo, e os homens todos no cio. Não sei se em tempos de "me too" e outros movimentos à favor do feminismo, se um filme onde um grupo de 3 mulheres resolvem ir para a Espanha para se divertir e não conseguem passar 1 minuto sem homens, vai ser bem aceito pelo público. Talvez a irreverência e o desejo de curtir a vida porque ela é curta demais sejam boas desculpas para abrir uma brecha. Mas o que torna tudo muito incoerente, é no último minuto do filme, a protagonista, absolutamente do nada, ter a consciência de que ela é mulher e não quer ir atrás do objeto de seu desejo, o romântico Dj interpretado por Rchard Madden ( Robb Stark de "Game of Trones"). A personagem Harper ( Gillian Jacobs), passa 99% do filme atrás do Dj, que aliás, sempre a tratou bem como uma lady. não engoli essa virada da personagem, totalmente abrupta e incoerente. No mais, algumas piadas chulas, muito sexo à la "American pie" e enfim, quem estiver a fim de assistir totalmente sem compromisso, pode ser que curta. Só digo uma coisa: que desperdício de Richard Madden no papel. Torcer para que ele vingue em um papel digno no Cinema.

Lua de Júpiter

“Jupiter holdja ”, de Kornel Mundruczó (2017) Curiosamente, assisti aos filmes anteriores do Cineasta húngaro Kornel Mundruczo em edições anteriores do Festival do Rio. Sei disso, porque os seus filmes são sempre estranhos, com elementos de alucinação, metáforas, investindo em gêneros para poder contas as suas histórias bizarras, quase sempre falando da falta de comunicação entre as pessoas. Foi assim com o Musical “Joanna”, com o drama “Projeto Frankestein” e em “Cão Branco”, esse último, uma alegoria de terror sobre os cachorros que resolvem eliminar seus donos. Kornel gosta de desafios, seus filmes são tecnicamente muito complexos. Em “Lua de Júpiter”, Kornel se apropria dos filmes de ação e aventura, quase um “X men”, para falar da questão dos refugiadas e também para criticar a cultura das redes sociais: as pessoas somente olham para baixo, para seus celulares, é praticamente ninguém enxerga um rapaz flutuando no ar, como um anjo redentor. Esse anjo atende pelo nome de Aryan, um jovem refugiado sírio que ao chegar na Hungria, se perde de seu pai e leva tiros de um policial. Estranhamente, Aryan ressuscita, como se fosse um Cristo que veio ditar a ordem contra a corrupção que se instalou na sociedade. Em seu caminho, surge o médico Goebel, que no passado teve um caso de erro médico que destruiu sua carreira. Juntos, eles tentam fugir da polícia e tentar encontrar o pai de Aryan. O filme tem uma câmera claustrofóbica, colada nos personagens, lembrando a angústia de “O filho de Saul”. Mas mas incríveis cenas de voo, a câmera se liberta e atinge níveis técnicos impressionantes. Efeitos especiais foda, e direção fabulosa, gerando planos sequências de cair o queixo. Um filme original, estranho, corajoso.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Nápoles velada

"Napoli velata ", de Ferzan Ozpetek (2017) Com a comédia "O primeiro que disse", o cineasta turco e residente na Itália Ferzan Ozpetek fez um grande sucesso comercial e de crítica. Agora, com "Nápoles velada", Ferzan Ozpetek muda de tom e investe em um trhiller erótico, com tintas de Hitchcock e de Brian de Palma, e o eterno tema do duplo, já visto em "Um corpo que cai" e "Irmãs gêmeas". A diva italiana Giovanna Mezzogiorno interpreta Adriana, uma médica legista residente em Nápoles. Durante um evento de Arte pronivido por um grupo de mulheres, Adriana conhece o jovem Andrea ( Alessandro Borghi, da série "Suburra"). Os dois passam uma tórrida noite juntos. No dia seguinte, Andrea marca um encontro com Adriana em um Museu, mas na hora marcada, ele não aparece. Adriana fica frustrada. No trabalho, ao faezr a autópsia de um corpo, ela percebe que é de Andrea. Brutalmente assassinado, ela procura entender o que aconteceu com ele. Lindamente fotografado e com locações estonteantes em Nápoles, o filme tem uma interessante narrativa de suspense, que chega em um desfecho confuso, aberto à interpretações. No entanto, vale assistir ao filme por conta das cenas de sexo, bem filmadas e bem sexies, com direito a muitas cenas de nudez frontal de Alessandro Borghi. Cine prive da Band agradece.

Insana

"Unsane", de Steven Soderbergh (2018) Inteiramente rodado com um Iphone 7, "Insana"foi sensação no Festival de Berlin 2018. Soderbergh investiu em uma trana de terror psicológico, que homenageia clássicos Filmes B dos anos 70, principalmente os filmes de David Cronemberg, Brian de Palma e John Carpenter. Com uma fotografia granulada, uso de lentes grandes angulares, que intensificam a sensação de loucura e claustrofobia, "Insana" conta a história de Sawyer Valentini ( a inglesa Claire Fox, protagonista do seriado "The crow"), que vai procurar uma ajuda psiquiátrica em uma clínica e acaba sendo forçada a se internar, contra a sua vontade. Lá, ela descobre que David, um stalker de quem ela anda fugindo há tempos, se disfarçou d enfermeiro justamente para continuar a assediá-la. A trilha sonora remete ao tema de "Haloween", e intensifica a loucura de Sawyer. Até determinando momento, o espectador fica na dúvida se ela está sofrendo de paranóias ou se é tudo real. Impossível não se lembrar de "Um estranho no ninho" e "O desespero de Veronika Voss", prováveis influencias para o filme. Claire está ótima no papel, evitando fazer o papel da maluca de forma óbvia. Joshua Leonard, que lembra um jovem John Goodman, assusta no seu psicopata. "Insana" parece até continuação de "Efeito colateral", filme onde Soderbergh critica a indústria farmacêutica. Aqui, a detonação va contra a máfia das empresas de seguro saúde. Matt Damon faz uma ponta não creditada como um advogado de Sawyer, e Amy Irving aparece como a mãe dela.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Noite silenciosa

"Cicha noc", de Piotr Domalewski (2017) Co-escrito e dirigido por Piotr Domalewski, "Noite silenciosa" é um drama que venceu quase todos os Prêmios no Festival Polones de 2018. O filme lembra em conteúdo, o clássico de Thomas Vintenberg, "Festa em família". Um jovem, Adam ( Dawid Ogrodnik, de "Ida"), retorna para a casa da família na Noite de Natal. ele vem da Holanda, País onde ele se manteve por anos trabalhando e mandando dinheiro para casa. Ao chegar lá, ele reecontra seu pai, que está desempregado e bêbado, além de todos os familiares, de certa forma, angustiados ou frustrados pela vida que não lhes proporcionou nada de bom. O filme traça, por quase 2 horas, um bom punhado de lavação de roupa suja. Achei o filme bem entediante, por ser longo, e porque é uma eternidade de discussão sem fim. O filme parece que não acaba nunca. Afora as performances, de uma forma geral satisfatórias, não consegui me simpatizar por nenhum personagem aqui. Somente a cena inicial, dentro do ônibus, com um passageiro confrontando o outro, achei interessante.

A natureza do tempo

“En attendant les hirondelles”, de Karim Moussaoui (2017) Me impressionou que esse seja o filme de estreia do argelino Karim Moussaoui, que também co- escreveu o roteiro. O filme concorreu em Cannes 2017 na Mostra Um certo Olhar, e ganhou vários prêmios internacionais. A segurança e estilo com que Moussaoui conduz seu filme é primoroso, trabalhando com os gêneros drama, suspense e até musical! Em determinado momento, o filme vira quase um Número de Bollywood! E a tensão vai até o desfecho, o espectador fica sempre achando que vai terminar em tragédia. O filme acompanha 3 histórias distintas, intercalaras pelas coincidências da vida, mas que não interferem na vida do outro. Um homem testemunha um crime mas não ajuda a vítima. Um motorista conduz a ex namorada para o casamento dela com o futuro marido. Um médico é acusado de ter participado de um estupro coletivo promovido por terroristas. São histórias tensas, tristes, que mostra a passividade dos personagens diante da vida cinza na Argélia, destruída por décadas de ocupação estrangeira. Um filme formidável, com ótimos atores e lindas cenas. A dança do casal na pista de dança é bela e poética.

Anon

"Anon", de Andrew Niccol (2018) O Cineasta e roteirista neo-zelandes Andrew Niccol é responsável por 2 grandes clássicos cults dos anos 90: Ele dirigiu "Gattaca", uma ficção cientifica noir que lançou Jude Law para o mundo, e escreveu a obra=prima "o Show de Truman", com Jim Carrey reinventando sua carreira. Depois de alguns filmes mal sucedidos, como "A hospedeira", Niccol volta ao que mais gosta; O noir no gênero ficção cientifica. Para isso, ele se apropria de um mote que infelizmente, já foi realizado pelo seriado "Black mirror" com melhor resultado. A idéia de que, numa sociedade futura, todo mundo tem acesso à memória dos outros através de arquivos, já está batida. Mas esse é o tema de "Anon": todos tem acesso à memória dos outros, principalmente a polícia, que com isso, zerou a taxa de criminalidade. Mas um hacker anónimo conseguiu invadir a mente das pessoas e apagar as memórias, o que desafia o detetive Sal (Clive Owen, naquele seu estilo cool de sempre) tenta resolver os assassinatos que tem ocorrido na cidade, e seu caminho cruza com o de Amanda Seyfried, que interpreta uma personagem sem nome. O filme tem bons efeitos, mas o elenco de apoio, principalmente os assassinados, são maus atores, não sei o porque. Isso prejudica bastante o rendimento do filme, que também tem um ritmo bem lento, e um desfecho meia boca. Vale como curiosidade para fãs de "Black mirror". Se o filme tivesse a duração de um episódio da série, seria bem melhor.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Requiem para a Sra J

"Rekvijem za gospodju J", de Bojan Vuletic (2015) Premiado filme Sérvio, indicado pelo País a uma vaga para o Oscar de filme estrangeiro. O drama tem um trabalho estupendo de 3 atrizes de gerações diferentes: uma mulher na faixa dos 50, uma adolescente na faixa dos 20 e uma menina por volta de 10 anos. Performances comoventes. O tema do filme lembra "30 anos essa noite", obra-prima de Louis Malle. A Sra J. perdeu seu marido há quase um anos; perdeu o emprego; suas filhas e sua mãe que moram com ela, não tem qualquer tipo de comunicação. J. resolve se matar daqui há 4 dias, na comemoração de 1 ano da morte do marido. A Direção de Bojan Vuletic é bem rigorosa na forma: planos fixos, longos, com atores be marcados em cena. O mais incrível é quem mesmo com um tema tão pesado, e momentos de verdadeira tensão e agonia, o filme se permite acrescentar doses de humor. Um feito incrível, que me faz lembrar a frase de Chico Anysio: A comédia advém da tragédia humana. E que tragédias! A protagonista tenta se matar, mas a burocracia do Estado a impede toda vez que ela tenta dar um passo. O personagem do homem que esculpe inscrição na lápide é impagável. Filme memorável.

O Rio nos pertence

"O Rio nos pertence", de Ricardo Pretti (2013) Escrito e dirigido por Ricardo Pretti, "O Rio nos pertence" é o 2o projeto oriundo da "Operação Sonia SIlk", uma cooperativa formada por Leandra Leal, Mariana Ximenes e Técnicos de cinema engajados na realização de filmes autorais de baixíssimo orçamento, inspirado na Produtora Belair de Julio Bressane. O filme é uma experimentação que une drama e suspense psicológico, provavelmente inspirado no clássico "Repulsa ao sexo", de Polanski. Marina (Leandra Leal) mora nos Estados Unidos com um namorado americano. Ela está em um momento feliz de sua vida. No entanto, ao receber um misterioso postal onde está escrito O Rio nos pertence, ela surta e decide largar tudo e voltar para o Rio de Janeiro. Ao chegar no apartamento aonde morou com a sua irmã ( vivida por Mariana Ximenes), Marina revive fantasmas do passado, e precisa exorcizar, caso contrário, passará a vivenciar sintomas psicológicos que a atormentarão. O que seria do Cinema sem as protagonistas bipolares e psicóticas, repletas de traumas? Aqui, o filme procura trabalhar a sua estilização através da edição de som, da fotografia e da atmosfera onírica. Leandra Leal remete bastante ao seu personagem claustrofóbico de "Nome próprio", de Murilo Salles. No entanto, a narrativa não me pegou. Muitas pontas soltas, um filme extremamente pessoal, provavelmente um filme feito para ser sentido, mais do que entendido.

domingo, 27 de maio de 2018

Os estranhos- Caçada noturna

"The strangers- Prey at night", de Johannes Roberts (2018) O cineasta ingles Johannes Roberts é especialista em filmes de terror e suspense. Nos estados Unidos, ele realizou alguns filmes, sendo o mais memorável; "Medo profundo", sobre 2 irmãs que precisam enfrentar um tubarão gigante. O seu melhor filme, para mim, é o inglês 'Adolescentes em fúria", sobre professores que precisam se proteger de estudantes vingativos. Com "Os estranhos- caçada noturna", retomamos 10 anos depois, os assassinos de "Os estranhos", cult de terror de 2008 com Liv Tyler. O letreiro diz que o filme é baseado em fatos reais. Uma família ( pais e casal de adolescentes) leva o filho até a faculdade. No caminho, resolvem parar em um acampamento para trailers, gerenciado pelos tios da esposa, Cindy ( Christina Hendricks). Logo, a família descobre que os tios foram mortos pelo trio de assassinos: Pin up girl, Dollface e Man with the mask. Homenageando os slashers dos anos 70 e 80 ( inclusive usando clássicos pop dos anos 80 na trilha), o filme tem bons atores, mas o roteiro, é daqueles que você se irrita logo de cara. Personagens idiotas, tomando decisões burras. Por ex: o casal de adolescentes acaba de testemunhar o casal de tios assassinados. Eles correm para avisar aos pais o que viram. Voce acha que os pais: 1) enfiam todos no carro e vão embora correndo OU 2) As mulheres se escondem na casa, e os homens seguem até a casa onde viram os tios mortos, somente pro pai acreditar no que o filho falou. Todo mundo sabe qual será a opção certa. Pois então, o filme é assim, só irritação o tempo todo, você fica até torcendo pelos assassinos. Pelo menos, uma cena antológica, que vale o filme: um crime que acontece na piscina, ao som de "Total eclipse of the heart". Uma cena que merece um prêmio de direção. Por ela, vale assistir ao filme e se torturar com a história. Ah, esqueci: o final também é podre de ruim!

Os fuzis

"Os fuzis", de Ruy Guerra (1964) Após o grande sucesso de crítica e público de "Os cafajestes", de 1962, Ruy Guerra viria a lançar em 1964 um filme radicalmente diferente. Inspirado em uma história fabulesca que Ruy queria filmar na Grécia, ele acabou adaptando para o Nordeste da miséria brasileira, da opressão das armas e da religião que anestesia a população carente. Ambientado em Milagres, Bahia, região seca e paupérrima, onde a seca devastou qualquer possibilidade de alimento, um grupamento de soldados é enviado para proteger o depósito de alimentos da cidade, cujo dono é um poderoso local. Gaúcho, ex-soldado e agora motorista do caminhão, se revolta contra a violência de seus amigos soldados, e para piorar, contesta um pai que aceita a morta de sua filha de fome e nada faz para lutar. Gaúcho resolve pegar nas armas e lutar a favor dos pobres. Como quase todo filme do Cinema Novo, o filme une Religião/Ditadura e misticismo para falar, metaforicamente, da situação socio-economica do Brasil vigente, do milagre económico que nunca existiu. Com uma fotografia e câmera na mão extraordinária de Ricardo Aronovich, repleto de planos-sequencias de cair o queixo, "Os fuzis" é um filme para ser visto e debatido. Incrível que, quase 60 anos depois, tudo continua completamente igual. Elenco primoroso, capitaneado por Paulo Cesar Pereio, Maria Gladys Mello, Hugo Carvana, Atila Iorio, Nelson XAvier, Ivan Candido, Joel Barcellos e um elenco de atores locais absolutamente imagéticos, na linguagem documental muito bem registrada pelas lentes de Aronovich.