terça-feira, 9 de junho de 2026
Una jauría llamada Ernesto
"Una jauría llamada Ernesto", de Everardo González (2023)
Premiado documentário mexicano, co-produzido pelo México, Suíça e França, "Una jauría llamada Ernesto" apresenta jovens e crianças aliciadas pelo tráfico e pelo crime organizado. Obrigadas a trabalhar para os criminosos, crianças de até 8 anos de idade são obrigadas a portar uma arma e matar. Desde jovens, os asassinos de aluguel têm as suas vidas transformadas: alguns se encantam com o poder do tráfico, do uso da arma, do dinheiro e poder. Outros acabam morrendo. É notório que a maioria morre jovem, e por isso, vivem o presente. No filme, todos os entrevistados, sejam vítimas ou asassinos, são apresentados de costas, jamais tendo seus rostos revelados, que nem um videogame. É um filme angustiante e claustrofóbico, que traz temas infelizmente comuns à maioria dos países do mundo: a perda da inocência, o aliciamento do crime e gerações perdidas.
Mestres do Universo
"Masters of the universe", de Travis Knight (2026)
Diretor da premiada animação "Kubo e as Cordas Mágicas" e do rebbot da franquia "Transformers", "Bumblebee", Travis Knight recebeu a missão de criar uma franquia em cima do clássico personagem da animação dos anos 80 "He-man", que no Brasil fez enorme sucesso, gerando inclusive uma música tema de Sandy e Junior. A 1a adaptação foi em 1987, um cult com Dolph Lundgren e Frank Langella, nos papéis de He-man e Eskeletor. Na nova versão, os papéis ficaram com Nicholas Galitzine e Jared Leto. A Mattel, fabricante da boneca Barbie, mega sucesso de 2023, apostou suas fichas em He-man, mas o filme foi um enorme fracasso na sua semaa de estréia: dos 200 milhões de orçamento, rendeu por volta de 50 milhões.
O elenco traz também Camila Mendes como Teela, idris Elba como Duncan, Morena Baccarin como Feiticeira e Kristen Wiig colocando voz em Roboto. Jared Leto prova novamente, sua fama de pé frio: "Tron-Ares", "Moebius", "Esquedrão suicida" e "Casa Gucci"são alguns filmes que contaram com Leto no elenco e ruíram nas bilheterias. A longa duração do filme, com 140 minutos, e a ausência de Gorpo, que só aparece nos pós créditos, são fatores que podem ter afastado o público infantil. No planeta Eternia, o pequeno Adam precisa fugir para o planeta Terra, após as forças de Esqueleto atacarem o planeta. 15 anos depois, Adam é procurado por Teela e retornam a Eternia, para salvar seus pais, o planeta e a população das garras de Esqueleto e sua tropa de bandidos.
O filme aposta bastante no humor e em um visual absolutamente extravagante, com muito colorido e efeitos de CGI duvidosos, mas que de certa forma, dão um charme kitsch e fantasioso à narrativa. Me lembrei muito do cult "Flash Gordon", que também era muito over e de gosto duvidoso.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
O banquete dos amantes
"Les amants criminels", de François Ozon (1999)
Eu desconhecia totalmente esse filme de François Ozon, um cineasta que eu admiro e que possui uma filmografia bastnate eclética de títulos e gêneros. Ainda em início de carreira, antes de seus grandes sucessos "Swimming pool", "8 mulheres", "Sob a areia", ozon apostou em filmes mais estranhos, como 'Sitcom", Regard la mer" e esse "O banquete dos amantes", seu 3o longa, de 1999, ainda com um jovem Jérémie Renier, três anos depois de sua estr;eia em 1996 com o melancólico "A promessa", dos irmãos Dardenne. O filme é, segundo Ozon, uma livre adaptação do conto dos irmãos Grimm, "João e Maria", repleto de fetiches e temas tabus, como extupr0, canibalismo.
Alice (Natacha Régnier) é uma estudante de uma escola high school que namora Luc (Jérémie Renier). Quando Said (Salim Kechiouche), um colega da turma tenta seduzir Alice, ela convence Luc a matar o rapaz. eles levam o corpo até uma floresta isolada, mas no retorno para o carro, se perdem. Eles encontram uma cabana, onde mora um eremita (Predrag 'Miki' Manojlovic). Ele os prende e diz que irá devorá-los. Mas aos poucos, o homem seduz Luc e o extupra. Luc se torna amante do homem, e passa a conflitar sobre a sua verdadeira orientação s3xu4l.
Certamentem um filme obscuro, ousado e polêmico de Ozon. Jeremie Renier participa de cenas viscerais, em nudez total, junto do homem, em cenas repletas de homoerotismo. é difícil até dizer a que gênero pertence o filme, que é anunciado como terror psicológico, e tem litas que o incluem entre os filmes "extreme franceses", o que é um erro, pois ele não é gore nem violento.
Katlaa curry
"Katlaa curry", de Prajapati Rohit (2024)
Premiado drama romântico queer indiano, "Katlaa cury" é co-escrito e dirigido pelo cineasta Prajapati Rohit. Às margens do rio Narmada, mora o jovem pescador Raymal (Priyaank Gangwani). Ele é uma pessoa que todos na região adoram pela sua gentileza e carisma. Um dia, ao sair para pescar, ele resgata Ratan (Ranganath Gopalarathnam), um homem que estava se afogando. Como agradecimento, Ratan prepara um prato de Katlaa curry, que vem a ser peixe com curry. Os dois acabam se apaixonando. Eles contróem uma casa juntos. Mas quando a mãe de Raymal o pressiona para se casar com a jovem Kamala, Raymal, temendo o que o vilarejo possa falar sobre ele e Ratan, decide se casar com a jovem. O tempo passa, e a distância entre Raymal e Ratan se intensifica.
Um belo filme indiano que retrata um casa queer, um tema ainda bastante tabo na Índia. Filmado com simplicidade e com um roteiro que embala uma história de melodrama, "Katlaa curry" me fez lembrar de Brokeback mountain", mas sem o contexto trágico do final.
domingo, 7 de junho de 2026
Skiff
"Skiff", de Cecilia Verheyden (2025)
'Skiff" é um premiado drama coming of age queer, co-produzido por Bélgica, Holanda e Suécia. Co-escrito e dirigido pela cineasta belga Cecilia Verheyden, o filme foi rodado em Bruxelas. A protagonista é Malou (Femke Vanhove), 15 anos. Estudante e esportista, Malou treina remo. Seu melhor amigo é sue irmão mais velho Max (Wout Vleugels). Quando ele apresenta para a irmã sua namorada, Nouria ( Natali Broods), o mundo de Malou se transforma: ela se vê apaixonada por Nouria. Isso a deixa em dois conflitos; trair seu irmão, a pessoa que ela ama, e entender a sua orientação e identidade.
Um dos temas mais comuns em dramas coming of age queer, é a do jovem esportista feliz e bem relacionado, que se decsobre ser gay. "Skiff" não foge à regra ao trazer temas comuns a esse tipo de história. O drama não traz surpresas, e para atingir o interesse do espectador, precisa se apoiar em bons atores, o que é o caso. A jovem Femke Vanhove é boa o suficiente para transformar a sua personagem em um poço de conflitos e asim, trabalhar as nuances da atriz.
Southerly
"Soiutherly", de Gregory McCann (2025)
Drama asutraliano escrito e dirigido por Gregory McCann, "Southerly" é um filme de baixísismo orçamento. A trama acompanha Ada (Corin Corcoran), uma jovem ex-viciada que foge do lockdown de Melbourne em 2020 para uma propriedade no interior de Nova Gales do Sul. Solitária, ela se refugia em sua melancolia e solidão. Seu vizinho de casa é o jovem músico Josh (James Willians), igualmente recluso. Ada convence o relutante Josh a ajudá-la a gravar músicas compostas por ela. Afogados na depressão, ambos procuram dar uma nova chance à vida.
O filme tem um bom trabalho dos atores. O diretor e roteirista Gregory McCann é corajoso ao não dar soluções fáceis aos seus protagonistas. Ambos vivem a tristeza, a sensação de fracasso, de fim de vida, intensificada pelo lockdown. Um filme sincero e honesto, que poderia facilmente se transformar em uma peça de teatro com 4 atores.
Todo mundo em pânico 6
"Scary movie", de Michael Tiddes (2026)
A franquia "Todo mundo em pânico" se iniciou em 2000, e terminou em 2013, com a parte 5, já em baixa com o público. A ideía original é dos irmãos Marlon Wayans, Shawn Wayans e Keenen Ivory Wayans, que chegaram a dirigir e escrever os roteiros. O filme é uma paródia aos filmes de terror famosos, cade um em sua época, puxados pelo Ghostface de "Pânico". 13 anos depois do último filme, os irmãos decidiram ressucitar a franquia, com a parte 6, em 2026. Como o gap ficou longo, a parte 6 traz paródias de filme sjá com mais de 10 anos, como "Corra!", perdendo o hype. Outros filmes, como "Ma", com Octavia Spencer, nem chegaram a ficar conhecidos pelo público brasileiro. Dos filmes parodiados, tem "A hora do mal", "A substância", "Sorria", "Terrifier", "Wandinha", "Pecadores", "M3gan".
O filme tem como trama central a aparição de Ghostface, fazendo novas vítimas. Um grupo de amigos procura deccobrir a identidade do serial killer que se faz passar por ele. O filme, como já era nos anteriores, é um amontoado de sketches, alguns engraçados, outros nem tanto. Como o gênero da comédia sofreu muito nos últimos anos por conta de cancelamentos e politicamente correto, aliado a pautas a favor das minorias, nem faz muito mais sentido relançar a franquia, que era toda baseada em humilhações e constrangimentos. Para quem era fã, vai encontrar motivos para achar engraçado. Mesmo com poucs atrativos, o filme se tornou a maior bilheteria da franquia.
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Aaahh Belinda
"Aaahh Belinda", de Atıf Yılmaz (1986)
Clássica comédia dramática turca de 1986, 'Ahh Belinda" teve um remake realizado pela Netflix em 2023. O filme tem uma narrativa em relaismo fantástico com temas que foram considerados bastante ousados na época: luta feminista, violência doméstica e assédio moral e s3xu4l, lembrando que a Turquia é um país bastante conservador.
Serap (Müjde Ar) é uma jovem atriz que lida muito bem com a sua independência artística e pessoal: ela vive sozinha e tem como amante um dos integrantes da equipe técnica onde está filmando um comercial. Serap sempre foi avessa à publicidade, preferindo projetos artísticos. Ela participa de um comercial de TV para um shampoo recém-lançado, "Belinda". Ela interpreta o papel de uma típica dona de casa submissa chamada Naciye. Durante um dos ensaios, ela descobre repentinamente que o palco desapareceu, a equipe sumiu e todos os elementos do roteiro se tornaram reais. Agora ela é Naciye. A sua família do "comercial" acredita que Naciye está tendo problemas, enquanto a própria Serap procura encontrar uma forma de sair daquele lugar.
Mesmo pensando para padrões brasileiros, o tema do filme é bastante vanguarda: uma mulher independente e que é dona de suas decisoes, tendo que assumir um papel de uma mulher recatada. O roteiro é excelente, e o trabalho da atriz Müjde Ar é muito bom, lidando com momentos de drama e humor. O filme carece de um ritmo mais dinâmico e sua narrativa ficou bastante datada. Vale assistir pelo seu forte valor histórico.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Os cinco
"Deo pa i beu", de Yeon-Sik Jung (2013)
Excelente thriller de suspense sul coreano, "Os cinco" apresenta uma trama envolvente e tensa do início ao fim, tendo um embate entre um serial killer e uma de suas vítimas que busca vingança, na melhor tradição de "O silêncio dos inocentes". Eun-a é uma atriz, casada com seu marido e pais de uma jovem de 14 anos. A família é feliz e vivem seu melhor momento. Em um mercado, a filha observa a sua colega de sala vestida como garota de programa e acompanhada de um homem estranho. A amiga desaparece. Ao encontrar o homem, a menina pergunta de sua amiga. O homem decide invador a casa onde Go Eun-a mora e mata o marido e a menina, acreditando ter matado também Eun-a, que sobrevive. Dois anos se passam. Euan-a agora está paraplégica e decide se vingar. Ela pede a ajuda de quatro pessoas, todas precisando desesperadamente de transplantes de órgãos para seus entes queridos. Eun-a decide que irá doar os seus orgãos se a ajudarem a caçar o serial killer. Mas ele toma conhecimento do plano e decide ele mesmo caçar um por um.
O filme é repleto de cenas bem tensas. O roteiro facilita diversas ações para fazer a história andar. Mesmo com alguns Deus ex-machina, vale muito assistir ao filme, que traz personagens fortes e carismáticos, e um vilão na melhor tradição dos assassinos de filmes sul coreanos. O desfecho é avassalador e deixará muita gente arrasada.
Strange Abandoned Deranged
"Hiçbir Sey Normal Degil", de Ceylan Özgün Özçelik (2024)
Escrito e dirigido por Ceylan Özgün Özçelik, "Strange Abandoned Deranged" é um documentário experimental que me fez lembrar dos filmes da dupla Cavi Borges e Patricia Niedermeier: totalmente filmado no abandonado e decadente Naturland, um antigo resort ecológico em Antalya, Turquia, o filme traz duplas de dançarinos fazendo performances enquanto a câmera faz acrobacias, mostrando ambientes retratados com efeits e uma fotografia densa, ampliando o caráter crítico e poético do projeto. O Naturland Eco Park and Resort, foi inaugurado em 1991 e funcionou até 2014.ALi, circularam muitos turistas, artistas, políticos. O cineasta utiliza narração dos artistas e funcionários do resort, na época em que funcionava em pleno vapor, e insere sobre as imagens decadentes e opulentas da região. São estátuas de animais, prédios enormes a abandonados, deixando clara a dimensão babilônico do empreendimento, mesclado à natureza, uma clara invasão do ecossistema. Vozes de funcionários que não receberam salários, o local foi acusado de ser uma fachada para lavagem de dinheiro e de encontro de políticos corruptos. O filme traz impressionantes imagens estilizadas, um monumento à ganância e à falta de bom senso de empreendedores.
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Mother Mary
"Mother Mary', de David Lowery (2026)
A produtora americana de filmes independentes e autorais A24 encontrou grandes sucessos de crítica e bilheteria nos filmes "Backrooms- um não lugar", "Guerra civil", "Marty Supreme", "O drama", "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo", "Moonlight", os 2 últimos, vencedores do Oscar de melhor filme. Mas também tem em seu catálogo inúmeros fracassos: os recentes e pouco vistos "A morte de um unicórnio" e "A lenda de Oshi". É inegável o risco que a A24 enfrenta ao acreditar em projetos ousados e difíceis para o público. "Mother Mary" é um exemplo. É um drama ambientado no universo do show bizz, e como boa parte dos filmes de terror recentes, se apropria do gênero para tecer metáforas e simbologias sobre temas profundos. Aqui, se fala sobre fama, sucesso e o que tudo isso traz como consequência: ciúmes, rompimento profissional e de amizade. É um filme sobre recomeços, unidos por 2 mulheres machucadas por um afastamento profissional e que decidem que precisam curar as suas feridas. O diretor e roteirista David Lowery é adepto do cinema de realismo fantástico, com grande visual estético: é dele os excelentes "A ghost story" e "The green knight". "Mother Mary" fala sobre exorcismo e possessão, traz uma atmosfera de terror e pesadelo, mas não é sobre isso. Anne HAthaway é Mother Mary (segundo Hattaway, muuto de sua inspiração veio de sua ídola Madonna). Michaela Coel, show runner e estrela da premiada série "I may destroy you", é Sam, que por anos, trabalhou como figurinista de Mother Mary e a ajudou a moldar a figura pop idolatrada pelo seu conteúdo e visual. As duas acabaram rompendo relações no auge do sucesso. Passado anos, Mother Mary planeja um show de retorno,e. procura Sam para que ela faça um vestido para ela. O reencontro, que tece boa parte da narrativa, costurada por cenas de show que lembra a performance de Madonna em "Nothing really matters" no figurino, traz boa parte da narrativa somente as 2 personagens em um ateliê, uma construçao quase teatral.
Alguns críticos compararam ao clima tenso de "Cisne negro". Mesmo com as boas performances de Hattahway e Miccaela, o filme é indefinido em gênero e se torna cansativo de acompanhar.
terça-feira, 2 de junho de 2026
Forgiveness girl
"Forgiveness girl", de Rob Diamond (2025)
Drama cristão indie americano, "Forgiveness girl" é escrito e dirigido por Rob Diamond. O filme apresenta uma história sobre perdão e compaixão em 2 épocas: Annie, 8 anos, e depois, com 18 anos. Nascida com paralisisia cerebral, Annie anda de muletas e sofre bullying de toda a escola, liderada pela malvada Claire, a patricinha mais popular do local. Jordan é a melhor amiga de Annie, e a defende, e por isso, ela também sofre bullying dos colegas. 10 anos depois, Annie, não suportando mais as humilhações, tenta o su1c1d1o0. Jordan vai visitá-la no hospital, sentindo-se culpada. É quando Jordan passa mal e ao faezr exames, decsobre estar com câncer.
Existe um personagem central na história, que é o pastor da Igreja onde os pais de Annie e a própria frequentan, Pastor Newsome. É ele quem traz as mensagens edificantes propostas pelo roteiro, e claro, a grande motivação do filme existir. É um roteiro simples, bastante óbvio, com personagens maniqueístas e um desenvolvimento que qualquer um poderá antecipar o passo seguinte. O filme não é recomendado para espectadores que possam ter histórico de bullying, pois pode trazer gatilhos, principalmente na parte do suic1d10.
Kika
"Kika", de Alexe Poukine (2025)
Concorrendo na Semana da crítica no Festival de Cannes 2025, "Kika" é escrito e dirigido pela cineasta francesa Alexe Poukine. O filme me fez lembrar uma mistura de 'Eu, Daniel Blake", de Ken Loach, com o próprio "Kika", do ALmodovar. Do 1o, vem a solução da protagonista em se tornar prostitura, como unica opção para pagar as suas dívidas e manter a sua filha com ela. Do filme do Almodovar, surgem cenas de fetic3s s3xu41s bizarros, alguns divertidos, outros chocantes e violentos, como o final, onde ela é espancada barbaramente por uma masoquista dominatrix.
Kika (Manon Clavel) é uma assistente social, casada com Paul (Thomas Coumans) há anos e pais da filha pequena, Louison (Suzanne Elbaz). Kika tem um relacionamento com seus pais. Um dia, ao levar a sua bicicleta até uma loja de consertos, ela fica trancada no local junto do funcionário, o simpático imigrante africano David (Makita Samba). A convivência é o suficiente para abalar Kika, que se apaixona imediatamente pelo rapaz, se separa do marido e vai morar com David. Tudo parece bem, até que David morre inesperadamente de derrame. O mundo de Kika vem abaixo: ela absorve as dívidas de David, e ela pede ajuda aos pais para ficarem com a filha, enquanto ela pensa em uma opção para se manter. E a solução vem na prostituição.
O filme é anunciado também como comédia, mas é difícil encontrar motivos para sorrir nessa história densa, que retrata o dia a dia de pessoas desempregadas e assalariadas desassistidas pelo governo. Kika se vê nos dois lugares de sua posição: como assistente social, e também, como alguém que precisa de ajuda. O elenco é bom, sendo que Manon Clavel carrega o filme todo nas costas. E novamente, a cena de espancamento é chocante.
Free at heart
"Free at heart", de Max Hegewald (2025)
Drama coming of age alemão, "Free at heart" toca em um tema bastante tabu, ja retratado no brasileiro "Do começo ao fim": o relacionamento entre meio irmãos. Ambos os filmes não pisaram o pé no acelerador e decidiram não assumir um 1nc3st0 100 por cento, e por isso, o tabu não é algo assim tão chocante. O roteirista e diretor Max Hegewald apresenta Sebastian (Linus Moog), 16 anos. Ele é um típico jovem de uma cidade do interior: convive com seus pais e sua irmã pequena, uma família de classe média alta. Ele tem uma namorada e os colegas na escola o idolatram. Um dia, porém, seu pai lhe traz uma notícia que irá mudar a vida de todos: uma amiga pessoal do pai morreu e o filho dela, Kolja (Aurel Klug), 15 anos, virá morar com eles, pois não tem família. De início arredio e incomodado com a presença de Kolja, logo Sebastian entende os motivos de seu estranhamento.
O filme funciona por conta do ótimo trabalho dos dois atores protagonistas, uma atuação honesta e sincera, trabalhada com sensibilidade e respeito pelo diretor. O que atrapalha a história são sub-plots óbvios para desviar o amor do jovem casal: a namorada desconfiada; a irmã que é sonambula e se torna um perigo para todos; o melhor amigo ciumento; os amigos homofobicos. Ainda assim, vale assistir pela honestidade em seu desfecho.
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